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sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

Jesus é Deus? (Parte II)

     Que Deus existe, por argumentos ontológicos e silogismos metafísicos, não há como negar. No máximo, nada poderíamos falar por não ser de nosso alcance. Mas, na metafísica da cadeia das causas, claro que tudo se origina de uma causa primeira, os movimentos, de um primeiro motor imóvel. O salto da fé está em que a causa primeira também tenha se tornado homem, sendo ela e ele um só e a mesma pessoa sem desfigurar a ideia da unidade.

    Há outros desenrolamentos da fé católica que poderíamos resumir assim: 

    - Se a Verdade é criadora, é Deus. Se Ela se importa com você, é o Deus dos judeus. Se se importa com você a tal ponto de ter se tornado homem para te salvar, é Jesus, o Deus dos católicos.

    Em sendo verdade, torna-se um imperativo apascentar as pessoas para esse Jesus, com todos os sacramentos perpetuados pela igreja nos últimos dois milênios. E que se deixe de lado as noções de energia cósmica, chakras, reencarnação, diálogo com os desencarnados, astrologia, pois basta ao cristão os sacramentos de conexão com Deus. 

    Se você for católico, e não tiver o corpo de Cristo em suas veias toda semana, não lhe entendo. Isso é o máximo da comunicação com Deus: Ele se dividir ao infinito, não mais se fazendo homem, mas se fazendo hóstia, para ter com você no seu corpo.

    Todavia, não o sou. E, apesar da minha crença infantil da obviedade da negativa ser abalada com tamanha fé de tantos luminares, o máximo que consigo alcançar é isto:

  1. O Espírito ascende por vias multimilenares até um ponto que se distingue qualitativamente da humanidade como a vemos hoje, simiesca.
  2. Aos poucos, como o bebê que enxerga a mãe, divisa seus contornos, a vê de fato e por inteiro. 
  3. O momento de visão integral de Deus e de submissão absoluta à Sua vontade lhe torna um Cristo. 
  4. Houve apenas um Cristo na história da humanidade: Jesus. 
  5. Pela teoria da mediunidade, o melhor dos médiuns para a manifestação de um Espírito é aquele que tem bagagem suficiente para deixar o Espírito livre para ser através dele, permitindo uma comunicação bem fluida, em palavras e atos.
  6. Jesus foi o médium de Deus na Terra.
    Isso não desmerece ou descarta outras crenças, a não ser aquelas que são contra Deus, na Sua ação amorosa e salvífica para com as criaturas. Creio que permita todos os bons movimentos de busca da alma florescerem e frutificarem, do contorcionismo iogue, subjugando as resistências do corpo, à mendicância franciscana, subjugando as paixões da alma.
    Só que o Espiritismo tem se afastado de Jesus, por achá-lo um grande personagem histórico, mas apenas um personagem histórico, e por ter vários outros homens hoje vivos no mundo que parecem ser tão pertos de Deus quanto ele. Aí é que mora o perigo, onde estão os gurus, onde se espreitam os falsos cristos e profetas. 
    As teses espíritas que expus tiram Jesus da definição de Deus, mas coloca-o lado a lado, ou até mesmo misturado só que em dimensões diferentes. O sentimento de veneração deveria ser o mesmo, e claro que nunca será. É diferente eu venerar o Espírito comunicante e o médium, por melhor que o médium seja. É assim que entendo, sob a perspectiva do apocalipse, ser historicamente melhor deixar Jesus como Deus, e permitir a sua governança no coração dos homens, do que rebaixá-lo a um médium de Deus. 
    É só até aí onde consigo chegar hoje, ao dia 2 de fevereiro de 2024. Uma conclusão pragmática, que não me permite nem mais amor ao Cristo nem ser uma melhor pessoa. Apenas ter uma visão mais sóbria do mundo e de seus fluxos de transformações.

sexta-feira, 30 de março de 2018

Gnosticismos Vs Cristianismo: Quem tem o dom de me salvar?



Até onde pude apreender das seitas gnósticas que pululavam na Idade Média e cuja estrutura de pensamento anima muitos movimentos atuais, o que é uma constante nelas é a crença de que o ser humano pode Se salvar. O que separa a danação da salvação é um ato de compreensão da realidade cósmica, a gnose. Esta realidade é salvadora per Si, bastando ao homem (re)conhecê-La. 

O Cristianismo ensinado pela tradição católica diz-nos que a salvação não é um dom humano, apenas de Deus, que esteve presente na história através de Jesus, este sim, único capaz de nos salvar. Seu ato salvífico se deu no sacrifício último da cruz. Para que possamos nos salvar só pode ser através Dele. Não basta apenas compreendê-Lo, é preciso aceitá-Lo como a verdade salvífica encarnada, pela fé.

Veja que há uma antinomia nessas duas teses. Ou salvo a mim mesmo ou alguém me salva. 

Os grandes movimentos revolucionários dos últimos séculos estão fundamentados em gnosticismo. Do positivismo comteano, passando pelo socialismo marxista, chegando ao ecologismo radical a salvação está ao alcance do ser humano, providenciada por um ato dele, iluminado por uma consciência superior (a da positividade da história em Comte, a da necessidade revolucionária em Marx, a do reconhecimento de Gaia na filosofia verde). Dessa forma, todos eles tiveram de desmerecer a tese da salvação única e exclusivamente através de Cristo. 

Como toda boa antinomia, não acho que a segunda tese seja facilmente descartável. Primeiro porque a realidade do aqui e do agora nos mostra a precariedade da natureza humana, nossa fragilidade, nossa tendência despudorada ao pecado. Como enxergar nisso uma via de salvação?

Respondem os gnósticos, revelando um Eu superior que se agita em cada um de nós. Contudo, essa intelecção do Eu superior, embora seja uma hipótese elegante, não é fácil de materializar. Somos, quando muito, seres mais ou menos bons, algumas vezes caridosos, quase sempre cruéis. A desconfiança contra o próximo tem sua razão de ser. Estivemos há pouco sob risco de extinção pelo nosso próprio mérito. 

Falam os gnósticos, então, que há eras na humanidade, das quais a nossa é a pior, e que a partir de então tudo tende a melhorar. Vê como é fácil enxergar uma má-fé nestas explicações? Quando o argumento é contundente, eles nos devolvem a explicação para um lugar que não podemos alcançar: um Eu superior, uma outra Era. 

A tese do Cristo salvador tem o mérito de dar ao homem uma possibilidade atual de salvação. A qualquer momento, é só crer. Não há Era ou Eu, é apenas você, do jeito que é, com o Cristo. É um encontro pessoal e inalienável. Dir-se-á que esse Cristo é um transcendente ilusório. Não para aquele que crê, que o sente, que o experimenta em si às lágrimas. Também não mais, e talvez até menos, do que a comunidade politicamente correta, a comunidade  justa ou o homem enfim em paz com a natureza. 

Quem reconhece a própria falibilidade, o que é uma tremenda sensatez, e enxerga no Cristo a imagem do justo ressuscitado, Nele entregando seus podres para prosseguir redimido pertencente à uma igreja harmonizada pela presença estruturadora Dele, já experimenta uma felicidade que outros adquiririam a custa de peiote. 

Parece óbvio que sou eu que me salvo. Parece necessário que tenha de haver um Cristo para me salvar. Não sei se encontraremos um apaziguamento dessa antinomia tão cedo. 

domingo, 4 de março de 2018

Diálogo in extremis



(Um padre chega ao leito de morte de um, digamos, quase-pagão para fazer a extrema-unção)

Padre: Aceita Jesus como seu único Deus e salvador? 

Quase-pagão: Não. 

P: Por que não?

QP: Não posso. 

P: Você reconhece a grandeza de Jesus?

QP:  Demais.

P: Então?

QP: Não ao ponto de fazê-lo o próprio Deus. 

P: Você concebe Deus fora da imagem de Cristo?

QP: Não.  

P: Ficou menos compreensível ainda sua negação.

QP: Cristo é, do Deus transcendente, a Sua imanência no mundo. Todo aquele que ascende à completa consecução da Vontade do Pai passa essa intensidade da encarnação de Deus. Não conheço outro na história humana que tenha sido melhor manifestação. 

P: Você está se enrolando. 

QP: Não. Não conheço, eu disse, não posso afirmar que não há. Minha vida, nos limites que a dimensão humana me impôs, fazem-me reconhecer Jesus como Aquele que veio nos salvar. Não posso, por força do infinito que nos foi revelado nos últimos séculos, reduzir todo o cosmos ao homem que, de outro modo, foi a minha unção de Deus. 

P: Você concebe alguém maior que Cristo?

QP: Não. E isso fala menos a favor da grandeza dele do que da minha pequenez. Dediquei-me a vida para que esta pequenez não representasse um tributo à verdade, mas a Cristo. 

P: Se você não reconhecer Cristo como seu senhor e salvador é possível que o inferno te espere. 

QP: Eu entendo seu ponto, padre. Sei mesmo das passagens que podem fundamentar essa sua fala. É forte sua ameaça. Vejo o fogo eterno que pode me queimar sem nunca me consumir. Espero que este momento histórico que vivemos, imperfeito, inacabado, não tenha conseguido enxergar o sentido último da danação e da salvação. Espero que sua fala não represente a verdade um dia dita e para sempre lacrada da palavra de Deus. Acredito que esta palavra desdobra o seu sentido na história, que a história não chegou ao fim, que talvez nunca chegará, que apenas no além é que possamos findar as disputas. Aqui vivemos de carne, sangue, ossos e interpretações, logo ali viverei a verdade. 

P: É possível que sua passagem para o céu seja vedada por esse orgulho. 

QP: Que ao possível seja dada minha última devoção. A criação, desde todo o sempre inacabada, cerrará suas portas quando encerrar meu suspiro. A terra prometida, creio que não é aqui. A promessa se cumpre fora deste nosso encontro, padre. Sinto-me como a nubente na noite de núpcias. O meu amado não é você. 

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

O Incal






O Incal é uma história em quadrinhos de 1980, idealizada pelo cineasta e psicólogo chileno Alejandro Jodorowsky e ilustrada por Moebius que devorei em três dias.

Conta a história da salvação da humanidade a partir de um único ser humano tosco, menor, sensual, fraco, inquieto, impuro, porém sem maldade. Sedento de amor carnal e de sentir a realidade. Esse é Jonh Difool.


Sua profissão era detetive, porém era medíocre nela. Em nenhum momento é mostrado Jonh Difool exercendo seu ofício de investigador. Contudo, é ele, e ninguém mais, que chega ao fundo dos mistérios do universo, mesmo se esquivando o tempo todo dessa busca.

Tudo começa com uma mini-pirâmide que termina em suas mãos por caminhos misteriosos. Um monstro extra-terrestre a entrega - para Jonh Difool especificamente - antes de morrer. Esta mini-pirâmide é o Incal luminoso.

O Incal é portador de dons divinatórios e curadores. Todos o querem para domínio do universo, mas o próprio Incal vai forjando estratagemas para vencer o principal e verdadeiro inimigo que se aproxima: a Escuridão. 

A outra metade da pirâmide, o Incal negro, foi dominada pelos humanos que se devotaram à Escuridão. Mas, logo é resgatado, e não apenas a fusão da luz com a sombra, mas também a sua melhor possibilidade de expressão através do andrógino perfeito permite, em sucessivas descobertas místicas, a batalha final. 

Assim, Jonh Difool sem querer e sem saber vai conhecendo a existência da mais pura beleza e verdade semeada no íntimo da feiura, do grotesco, do asqueroso, do pútrido. Cada batalha que a história narra é a busca do equilíbrio das contradições, mas sempre, isso é imperioso explicitar, a partir da humanidade demasiadamente humana de Difool.

O andrógino perfeito, Solune, por exemplo, que em certo momento passa a ser a manifestação perfeita da consciência do Incal, é filho de Jonh Difool com uma espécie  de semi-deusa, Animah. Mas, esse amor não é sublime. Ela havia se disfarçado em uma prostituta para poder gerar Solune. O desejo por Animah, todavia, passa a animar a motivação mais forte no coração de Jonh Difool e sempre retorna como o único argumento possível para que este enfrente os desafios da jornada. 

Ao final de toda a história, quando morte e destruição já haviam se espalhado por grande parte do universo, e a Escuridão prosseguia seu domínio com fúria, o andrógino perfeito, médium do Incal unificado, é elevado ao lugar do imperador/triz do universo, profetizando o único jeito de derrotar a escuridão: que a galáxia sonhasse. Todos os habitantes do cosmos deveriam entrar em sono profundo a fim de fornecer a energia psíquica para o enfrentamento final com a escuridão. Um comandante solitário de um planeta qualquer reclama dessa loucura:

- Justo quando o inimigo está mais perto, ele vem pedindo para dormir. Está louco!

- Mas, chefe, desta vez, talvez sonhar é que seja revolucionário.

O planeta que deu o maior exemplo de que isso seria possível era aquele onde viviam crianças, há muito recebendo as lições de sábios, os Arath, que um dia tiveram a missão de guardar a entrada para os mistérios do sol interior, em meio à floresta de cristais, destruída pela encarnação maligna da tecnociência.


Aqui é preciso um aparte. Já não dá para vislumbrar a solução final? Quando todos os sóis tiverem desaparecido, que luz restará?

Jonh Difool, que irremediavelmente não se entregava para a saga da salvação da humanidade, é, de novo e mais uma vez, colocado como único possível de finalizar a missão de adormecer o universo. Faltavam 78 bilhões de seres para cair no sono, e quem eram eles? Seus filhos. Explico.

Há não muito tempo, Jonh Difool havia se entregue em uma experiência idílica com uma entidade chamada Protogenitora. A cada cinco mil anos ela acasalava com um grande guerreiro. O Incal fez com que Difool vencesse a competição e fecundasse a Protogenitora. Contudo, de fato apaixonada por Difool, ela se desfaz em ódio e rancor quando este a deixa por Animah. Todos os filhos da protogenitora, 78 bilhões!, neste planeta distante que Difool estava fadado a converter para o sono salvador, representavam o que havia de pior em Difool e numa mulher traída. O penúltimo desafio de Difool para sua autoiluminação é ter que ver os filhos do rancor e do amor traído que gerou, a imagem e semelhança de sua sombra.

Faltando pouco tempo para o ocaso, iluminada pela verdade que soprou ao seu ouvido através de um pássaro, Deepo, aquele que sempre mergulhou para salvar Difool nas horas mais drásticas, a Protogenitora entende que o que ela amou em Difool nunca foi o próprio homem, mas a luz que havia nele: o Incal. 

Quero que você perceba o quanto o Incal vai parecendo um pretexto material para ir abastando todas as arestas e dissipando todas as discórdias. Sua força inicial, gerada da união do luminoso e do sombrio, continua, ininterruptamente provocando uniões. 

A Protogenitora sai do ninho em todo seu esplendor, apazigua seus filhos, pede-lhes que escutem ao pai, e este os adormece. Até mesmo as raças que foram subjugadas como escória nesse planeta, por terem perdido a batalha do acasalamento, são reintegradas no chamado da Grande Mãe. 

Tudo está pronto para a batalha final. Os grandes sábios Arath conduzem as mentes dos setes escolhidos (Difool e seus amigos que lutaram bravamente até aqui) para o embate último com a Escuridão. Ela desperta o pior pesadelo deles. O único que não foi dominado por esse encanto foi nosso detetive medíocre. Explica o Incal que a experiência de acasalamento com a Protogenitora havia deixado o detetive Jonh imune. Mas, talvez é que o pobre já vivesse no pesadelo, no pior inferno do giro da vida, aquele que o fazia ser escravo da sensualidade perpetuamente. De todo modo, expulso o Incal do corpo de Solune, o andrógino perfeito, assume o ser místico o corpo de Difool, o homem insaciável. A partir dele as últimas rebeldias das almas da pessoas se apaziguam:

- Parem de lutar contra os monstros dos pesadelos. Aceitem-nos, eles são apenas as partes de si mesmos que vocês tem medo de enfrentar. Transformem-nos. Cada horror contém uma semente positiva. Um pesadelo não passa de um dom disfarçado.

E assim, Difool, possuído pelo Incal, faz perceber, a harmonia por trás da tecnociência, as energias criativas por trás da violência, o correto domínio da realidade por trás da morte, a interminável totalidade por trás da individualidade, o efêmero rumo ao eterno pelas vias do que parece um corpo decadente, enfim, o assassinato do amigo que entrega seu pescoço ao lobo voraz como a doação suprema em prol dos outros. 

Após estas reconciliações, o Incal luminoso é dominado pelo negro. Cada um se entrega à sombra, em chamas. Menos o ego de Difool, que se torna a eterna Testemunha do Ser supremo, da Luz Imortal, Orh, de onde tudo provinha: o Incal, a Escuridão e a aventura épica de toda a reconciliação.

- Não sabia? O núcleo da Escuridão é feito de Luz. (...) Translucidez é minha última mutação. 

O Ser supremo transfigurado na face de um velho áureo se torna infante de novo e permite Difool voltar no tempo, lembrando de tudo o que viveu.

Como viver essa nova velha vida, então? Eis algo que realmente deveríamos investigar, detetives medíocres que somos da existência.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

As razões da fala "Ele deve pagar pelo que fez"



Estamos sempre sujeitos à traição do que esperávamos acontecer. Porque a vida não segue nossa cartilha. Mas, como o nosso eu sangra, vem a revolta. Daí podem partir dois caminhos: o perdão ou a vingança. É a esse último campo que pertence a fala “ele deve pagar pelo que fez”. 

Esse pagamento que desejamos de quem acreditamos estar em dívida conosco pode seguir basicamente dois caminhos: um ativo, em que sujamos nossas próprias mãos; um passivo, em que almejamos que os outros sujem as mãos por nós. A essa última ordem pertence nossa satisfação com o castigo que cai, a distância, sobre o nosso, assim considerado, agressor.

Se elevarmos esse desejo passivo até as últimas consequências metafísicas, é o nosso mais íntimo – e vil – consolo que Deus desça Sua pesada mão esmagando nossos inimigos. No cristianismo, é esse o mesmo Deus que acreditamos ser todo bom. Então, nossa literatura religiosa se esmera em criar cenas dantescas e imaginar (revelar?) os sofrimentos mais atrozes para os que foram contrários a nossa forma de pensar a moral sã.

Não é preciso que alguém faça algo diretamente contra nós. Basta que a pessoa tome a liberdade de se desviar do caminho que consideramos justo. Como esse caminho, seguido religiosamente, é a nossa mais nobre verdade, o sustentáculo de nossa identidade, o nosso caráter, que almejamos ser rocha, também os desviados devem ser punidos pela sua má escolha. É o que nos mantém caminhando na trilha certa.

Esse comportamento que descrevi em poucas linhas é um dos mais primitivos da consciência religiosa. Tão primitivo quanto, mas menos abstrato, é o da vingança pelas próprias mãos. Alguns dizem, com razão, que é covardia o desejo de um deus exercer a vingança por nós. Projetamos a ideia de um deus que encarna a força que gostaríamos de ter para colocar em prática nosso ódio.

Existe, contudo, outro tipo de consciência religiosa infinitamente superior a essa: não se importar com o que vai acontecer com quem nos fez mal ou praticou o mal. Acreditar mesmo que eles possam se dar bem ao final. E que outro tipo de felicidade os espera. Ou, de forma ativa, desejar-lhes o bem. Como, então, sustentar nossa vontade de virtude se os que consideramos maus, devemos vê-los com olhos felizes?

Eis a virtude inquebrantável: a que não precisa se erguer sobre o sofrimento dos maus. Ela é independente. Basta por si mesma. Não precisa do contraste para existir. Repousa em olhos de criança. É a serenidade por excelência. Um universo construído sobre esse olhar não tem inferno. Nem céu. Essa é a imagem do eu em paz consigo.

domingo, 7 de janeiro de 2018

Espírito Santo segundo o Espiritismo



Papai, que foi catequisado em cidade do interior do Ceará, afilhado de Padre Cícero, médico, um dos melhores de sua turma, muito sabedor de história, leitor contumaz de livros culturais, me confessava não entender muito a tal da santíssima trindade. Tendo me iniciado no espiritismo, passou a incumbência desta compreensão para mim.

Mesmo sendo uma seita herética em relação à igreja católica, entendo que não devamos desprezar a experiência da crença de toda uma história da comunidade cristã. O Espírito Santo e a Santíssima Trindade da qual ele participa são símbolos muito significativos onde todo aquele que se quer cristão, ainda que herético, deve se situar.

Já vi no movimento espírita se dizer que o Espírito Santo seria a plêiade de Espíritos superiores comunicantes que trouxeram a revelação espírita ao mundo. Seriam, portanto, Espíritos santos. Podendo ser tido como uma pessoa apenas simbolicamente, isto é, uma comunhão de Espíritos. Dizem ainda que as três pessoas da trindade não seriam consubstanciais. Pai originou filho que originou os Espíritos santos*. 

Como a trindade é um dogma fundamental, vê-se já por aí que, ao contrário do que Kardec imaginava em 1862, não dá pra ser espírita e católico ao mesmo tempo.   

Diz, contudo, o próprio catecismo da igreja católica do ocidente que "a tradição oriental exprime o caráter de origem primeira do Pai em relação ao Espírito" (art. 248) e que Este se origina Daquele a partir do Filho. Então, já que nem as igrejas católicas se entendem, acredito não estarmos cometendo tão grande pecado em discordar também e manter a posição: Pai origina Filho que origina Espírito Santo. 

Não creio, todavia, que o Espírito Santo seja os Espíritos santos, pois a grandeza do que a tradição cristã entende por Espírito Santo está em algo difuso que antes falava pelos profetas e após a promessa de Cristo do Paráclito passaria a estar para sempre entre os discípulos os conduzindo. O poder que essa descrição tem ultrapassa e muito essa ideia de uma legião de Espíritos norteadores. É como se fosse um poder de Deus capilarizado pelos seus filhos. 

O que seria, então, o Espírito Santo?

Ouso levantar a hipótese de que seja algo em nós de divino que Jesus despertou ao deixar seu rastro histórico. Está fora de nós e em nós ao mesmo tempo. É como um cordão umbilical renovado que nos religa (religião) a Deus. Ele nos permite prodígios e é o que torna possível a caminhada para a salvação. 

Os que se denominam portadores da mensagem esotérica cristã sempre falaram da dimensão da doutrina do Cristo que não nos queria salvar de fora, mas que nos devolvia o poder de salvarmo-nos a nós mesmos. 

Encarando assim o Espírito Santo, isto é, esta força beatífica que nos envolve e nos invade, despertada por Jesus, acredito que as duas visões se reconciliam: Jesus nos salvou acordando o poder salvífico em nós. A mediunidade é apenas um átomo desse poder, outros tantos surgirão, outras tantas forças hoje tidas como parapsíquicas, o homem novo, o homem-psi, ou ainda melhor, o homem santo que vai acordando gradativamente para sua inalienável imortalidade.  

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Punho de Ferro e seus dilemas espirituais



Um super-herói que não foi treinado, nem escolhido, para salvar a humanidade, mas apenas um pequeno povoado mágico dos confins do Himalaia. Esse seria o Punho de Ferro

Anunciado por uma lenda de que cairia do céu, como que sendo o elefante branco da mensagem onírica que antecede a vinda de Buda, Daniel Rand, um garoto americano vítima de um acidente de avião, por assim dizer, rouba a vez dos meninos de K'un-Lun. 

Passando por um rigorosíssimo treinamento marcial, é coroado com o dom do Punho de Ferro, uma linhagem de guerreiros com poderes especiais destinados a impedir que a passagem da cidade sagrada fosse violada pela invasão de uma grande organização criminosa chamada Tentáculo.

O seriado veiculado pela Netflix inicia com o herói buscando o reencontro com seu passado. Ingênuo, vai tentando entrar nos lugares familiares, mas que hoje se revelam hostis. A princípio a hostilidade é porque o mundo o esqueceu. Depois descobre que o mundo não apenas o esqueceu, como forjou sua morte.  

Rand utiliza o poder do Punho de Ferro (propriedade espiritual do povoado de K'un-Lun) para, em vez de salvar aquele povo, reconstituir a paz com o que sobrou de sua família. Sua escolha é de tal modo comprometedora que, ao final descobrimos, sua ausência no povoado significou a morte deste. Imaginava estar exercendo a verdadeira função do Punho de Ferro, destruindo os planos do Tentáculo, justificando o que na verdade consistia a busca de preencher seu próprio vazio. Contudo, não esperava que o Tentáculo tivesse ubiqüidade tão grande no mundo, ao ponto de uma mão estar aqui - ele a combatê-la - e outra estar, lá distante, esmagando K'un-Lun. 

O principal conflito do herói resgata o dilema maior das mentes ocidentais: (1) esforçar-se por dar paz à família ou (2) sacrificar tudo em nome da vida de uma tradição espiritual. Mais do que isso, há o choque de duas visões de salvação aqui: uma que prega ser a família o caminho que conduz o homem a sua inteireza e ao seu exercício da vontade de Deus (o judaísmo, o cristianismo para os leigos); outra que diz ser o apego o pior dos males, e que mais válido é buscar sua luz na prática de exercícios espirituais junto ao isolamento sagrado de uma comunidade que partilha a mesma busca (o cristianismo e o budismo de monastério). 

O que deixa uma brecha para a reconciliação destas duas visões de salvação na história é que o menino branco fora profetizado. As profecias não se enganam. Quando muito, elas fazem cumprir o prometido de forma incompreensível para as mentes cotidianas. K'un-Lun foi destruída? Como se pode destruir uma cidade espiritual? Mais fácil ela ter encontrado seu verdadeiro lugar no cosmos multidimensional. Daniel Rand derrotará o Tentáculo? Estamos torcendo. Nada impede que se dedicar ao amor apego pelos seres humanos particulares possa acontecer conjuntamente à busca de concretizar nossos maiores deveres espirituais para com as tradições que nos dão nortes. Pelo contrário, a missão fica mais difícil, mais grandiosa, mais arrebatadora. É o símbolo de Cristo crucificado por muito ter amado os que o crucificaram. 

terça-feira, 11 de abril de 2017

"Você partiu meu coração": uma análise espírita



O refrão dessa música muito me chamou a atenção. O eu lírico escreve um poema para anunciar seu amor quebrado, o que deveria lhe fazer amputado, sem vida, mas induz-nos a pensar que está ainda melhor porque agora haverá amoreS. 

A primeira contradição, a mais evidente, é que ele se dedica ao anúncio de sua empreitada dom-juanica*. Essa revelação possui um destinatário bem claro: seu amor antigo, e antes único. Por que simplesmente não segue adiante? Por que tem de voltar para anunciar sua boa vida?

A segunda contradição, mais sutil, é que ele, quebrado, entrega seu coração a várias. O que significa - essa é a maior mensagem de amor que uma amante poderia ouvir - que o coração dele, o inteiro!, não será mais de ninguém. 

A particularidade do amor de Dom Juan é exatamente esta: amando a todas, ainda que intenso, ganha-se em extensão o que perde em profundidade. O ser humano, esse ser de camadas, em suas relações, permite o mergulho nelas. Eu me aprofundo em você, você, em mim. A tentativa de um Espírito mergulhar na densidade de vários tende a dois destinos possíveis: 1. raspar o amor na fugacidade do tempo; 2. dissolver-se em muitos amores antes de ultrapassar a resistência de qualquer tesouro mais íntimo. 

Talvez os dom juans vão me contra-argumentar e dizer que é só "pegação". Não há muito o que filosofar. Pode ser para você, não para o eu lírico dessa canção. O clipe deixa ainda mais explícito seus gemidos de vontade de retorno quando ela dá algum "pedacim" de possibilidade. 

Vocês vão me perdoar a insistência, mas de fato, se ascendermos do particularismo terreno dessa experiência malograda, e elevarmos a metáfora do coração partido para um nível metafísico, o amor despedaçado, multipartido, busca o retorno à sua inteireza na vivência de uma amor único que dê sentido para sua unidade de novo. Ele é um peregrino entre amores pequenos, que lhe façam sombra, que lhe dêem abrigo. Mas, é peregrino. Sua busca é pelo Amor que o acolhe, enfim, em que possa se deitar para sempre

Se o para-sempre dos amores humanos está sujeito ao tédio e, portanto, ao pêndulo dos relacionamentos que vão e voltam, nada impede de intuirmos um amor maior que é procurado como modelo que concede sentidos e desejos para nossa alma sedenta. É esse modelo de amor que vem conduzindo os amantes de todos os tempos a quererem sempre e cada vez mais amar. Ele é o motivo das nossas descrições de paraíso, ao menos no universo cristão. 

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

O paradoxo cristão da sabedoria do amor



O cristianismo é uma doutrina da imortalidade da alma. Acreditar que a vida não finda aqui é não ter tanto apego à ela. O que poderia levar a crer que não deveríamos nos apegar às pessoas também. O que seria evitar amar. E há filósofo cristão que endosse isso, entre eles, Pascal:

"É injusto que se apeguem a mim, embora o façam com prazer e voluntariamente. Eu iludiria aquele em quem eu despertasse desejo, pois não sou o fim de ninguém e não tenho com o que satisfazê-los. Não estou eu pronto a morrer? E assim, o objeto do apego dessas pessoas morrerá". (Pensamentos)

Mas, eis o que é tudo: apegar-se ao que morre. Todavia, apegar-se ao que é imortal é doutrina do Cristo em essência. Isso é o amor que ele pregou. Um ser divino que desce das suas alturas a fim de dar sua vida para a iluminação de todos e cada pessoa em particular, espalhando milagres e bênçãos  o que seria isso senão um amor apegado? 

A grande diferença é essa: apegar-se ao que não morre. Quando Jesus salvava uma pessoa, seja cobrindo-a com um milagre ou com uma palavra que abrisse o caminho dela para sempre, não estava ali por aquele corpo corruptível que vaga pela terra, por uma massa de células bestiais que em breve se humilharia de volta ao pó. Ele veio por estes Espíritos imortais, em busca de reconduzi-los ao Pai. O corpo ao pó, a alma, ao Pai. 

Acho que já disse isso outra vez, não custa repetir. A história da bíblia é uma história antropocêntrica. E isso não é um defeito. Ela é a história de Deus em busca de salvar o homem. Não gira em torno de Deus. Que espécie de relação é essa entre Deus e o homem senão a de um pai que nutre um amor apegado por essa espécie frágil da criação? Se olharmos a coisa com a visão da unicidade da existência, não parece assim como falei. Mas, se enxergarmos que todos os Espíritos personagens dessa história são almas reencarnantes, fica claro que são educandos transmigrando em infinitas oportunidades de redenção. Deus não desiste de nós. 

Por que eu digo que isso é um paradoxo? Ora, não percebe que são forças contrárias esgarçando nosso coração? O amor de Cristo que devemos ter como modelo é um que ama tanto a pessoa a ponto de a querer muito. Mas, ao mesmo tempo, é um amor que a reconhece um ser transcendente. Devemos amá-la com devoção, mas sabendo que ela nos escapa a todo instante. É para dedicar a vida à ela, mas preparar nossa alma para a morte. O que acontece ao final é a reconciliação do paradoxo. As almas se reencontram em um final feliz, mas isso se dá apenas ao seio do Pai. E daqui para lá é chão!

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Diálogo com mães que abortaram



Certa feita, há não muito tempo, uma mãe chegou para mim sabendo da minha mística espírita. Bêbada, aparentemente alegre, fumava. Decidiu puxar assunto comigo sobre sua própria história. 

Eu havia acabado de sair da piscina do sítio em que estávamos. Era noite. Com uma simples toalha cobria o tórax para diminuir o ensopado do corpo, mas o frio ainda me gelava. E a história também era fria. A lágrima dela no meio da história era gélida, e seu coração sangrava. Ao contrário do que acontecia comigo, não havia toalha para o agasalhar. Nenhuma palavra para lhe aquecer e, para falar a verdade, guardava aquilo consigo feito uma penitência, uma tatuagem de cruz no ventre. Falava não se arrepender, porque o que tinha de acontecer havia acontecido, mas paradoxalmente buscava um consolo em um qualquer, hoje, em um espírita. 

Não pude contemporizar. De fato o Espiritismo enxerga no arrependimento um primeiro passo da reconciliação com o que for: consigo, com Deus. Mas, também entendi que aquilo não era hora de catequese conceitual. Um pouco de bom-senso conseguia perceber que o sofrimento que cultivava a impedia de prosseguir mulher mais inteira. Então, me vali da verdade espírita mais robusta que conheço: 

- Veja bem, não há sofrimento perpétuo, nem história que fica sem fechamento. Tudo volta na natureza para continuar seu ciclo de construção. Cada fenda que se abre numa rocha é prenúncio de algum nascimento. A bolota que morre um dia é para dar espaço para o carvalho gigante que será depois. 

Até, então, ela sugava o cigarro com a ansiedade de quem se desnuda para um completo estranho. Nesse momento, parou. Fixou os olhos molhados em minha face e entendi que havia tocado em algum ponto essencial. 

- Não importa o mal que tenhamos feito no passado. Não há, absolutamente, aquele que não tenha conseguido se desviar do caminho certo por muito tempo. Deus criou esse universo com infinitas direções para Ele e nenhuma vereda que nos fizesse se afastar por completo. De uma forma ou de outra você é de Deus e está indo para Ele. Que caminho é esse e quais os próximos passos, só você pode dizer. 

Um dos arrepios que senti àquela noite entendi que não representava o frio, mas o Espírito protetor dela que se aproximara. Ela me chamou de iluminado. Nestes momentos importa demais saber o conceito da física para iluminado. É aquele corpo que não tem luz própria, pois seu brilho descende de outro que é, este sim, um corpo luminoso.

Iluminados nós dois estávamos sendo ali. Definitivamente por uma luz bem maior do que aquela que se atiçava na ponta do cigarro. 

terça-feira, 11 de novembro de 2014

O que é Salvação?



Jesus está bem aqui ao meu lado. Está crucificado, tanto quanto eu. Meu Deus, eu roubei, mas esse justo, o que ele fez? Roubou coração de mulheres, homens e crianças, não foi? Foi. Ainda lembro quando ele passou pelo meu povoado e cochos andaram para o seguir, cegos viram como ele flutuava, surdos ouviram os seus passos. Me crucificaram, sou ladrão. Te crucificaram, mas és rei:

- Jesus, lembra-te de mim, quando entrares no teu reino.
- Em verdade...


***

Não sei o que há comigo. Estas palavras me penetram feito encanto. A culpa se dissolve. O arrependimento de qualquer mal não mais pesa, liberta. O sangue que escorre dos buracos que pregaram em mim esfria. O corpo gela. Não o consigo mais sustentar. Não estou mais na cruz. Onde estou? Que lugar é esse? Uma longa estrada se delineia a frente. Meu Deus! Não estou morto, ando! Minhas feridas saram. Outra força move as entranhas. Nunca vi a Torá tão reluzente em meu peito. Os versos de amor me acolhem, me impulsionam. Enxergo irmãos em tudo quando antes era solidão. O que acontecerá comigo a partir de agora? Que sei eu? Me sinto bem...

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Se o espiritismo tivesse uma missa...



O ápice da missa católica é quando o padre tem a hóstia e o vinho transformados (leia-se: transubstanciados) em carne e sangue de Jesus. Conclui-se que, para o Cristianismo oficial, a atitude mais importante de Jesus foi o sacrifício de sua existência corpórea, o "dar a própria vida" em favor de muitos. Sobre isso se constrói toda a teoria do cordeiro de Deus, sacrificado para santificar o povo, ter seus pecados perdoados. 

Bem, no espiritismo, se tivesse uma missa, não teríamos vinho. Seria água. A água subiria ao altar para saciar a sede de quem trabalhou. E, no momento mais sagrado, ela seria transubstanciada em suor do Cristo. É porque, para nós, não é a singularidade da morte (e ressurreição) de Jesus que mais importa. Importa! Claro que importa! Todavia, importa muito mais todas as horas que passou aqui servindo ao próximo, suportando perseguições de governadores, intrigas de sacerdotes, incompreensões de apóstolos, traições. 

Isso demonstra bem a diferença capital entre nossos cristianismos. Define nossa heresia

A primeira concepção te oferece uma visão da salvação que passa necessariamente pela aceitação daquela morte do inocente para que, a partir dela, você renasça santificado. A nossa concepção nos oferece uma visão da salvação que percorre a luta diária para o despojo de nossas imperfeições rumo ao modelo maior de trabalhador, o suor mais puro, a imitação de Cristo. O renascimento se fará tantas vezes quantas forem necessárias para se chegar a uma perfeita imitação, contando, para isso, cada gota de suor (olhos também suam) derramada nesse caminhar.

Quando se pode colocar a hóstia na boca? Ao aceitar a divindade de Cristo e seu sacrifício. Sendo um bom cristão. Contudo, a verdadeira aceitação incita a bondade. 

Quando se poderia beber a água? Depois de muito trabalhar, dia e noite, sacrificando, por vezes, horas de lazer, a fim de construir o Reino de Deus na Terra, em nós. O esforço da bondade constrói a verdadeira aceitação. 


sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Tinha de ser assim



Conversando certa vez com um amigo sobre o quanto ele estava afastado do centro espírita, tendo ele sido um dos rapazes mais engajados que conheci, eu o cercava com argumentos que tentavam fazê-lo retornar. 

Estranhamente o via bem. Casado, com uma filha, cumprindo bem o seu dever no trabalho. Ele me dizia estar bem. Dizia sentir saudades, mas não sentir falta. Enumerava as qualidades da vida atual e sentia-se satisfeito. Médico, exercia sua profissão com misericórdia e sacrifício. Pai, deleitava-se de ver a filha crescer e elogiava cada novo passo dela.

Pouco tempo depois encontrei duas pessoas de seu antigo centro espírita que haviam igualmente se afastado. Elas eram como se fossem o núcleo familiar de lá, mas se afastaram. 

Liguei para ele, contei a má notícia. Ele não se espantou. 

- Por quê? Você acha que aquele centro não era bom, de fato? Mas, você defendeu com tanto afinco a grandeza dele? Deu tanto de si para o crescimento daquela casa? Você se arrepende de ter feito tudo aquilo?
- Não, querido. Não me arrependo. Mas, também acho que não estamos errados. O que eu acho é que as coisas mudam. 

As coisas mudam. As pessoas, também. Mudam de vida, de endereço, saem do centro. Se afastam, se aproximam. Percebi na fala dele a inocência do presente que eu insistia em culpar. Sem culpados, sem denúncias aquela fala. Uma perspectiva verdadeiramente cristã. Deveríamos dizer menos que os amigos que se afastam estão obsediados e revelar mais o quanto sentimos saudades deles. 

- Não vá! Estará desperdiçando um tempo precioso de sua vida! (fora daqui não há salvação!) - diz o puritano.
- Não queria que você fosse! Sentirei saudades! (fora daqui <3 não há salvação!) - diz o amigo. 

- Vá!  

sábado, 21 de dezembro de 2013

As suas dores, só você as pode sanar



Cada vez mais admiro menos o quanto temos facilidade em aceitar um Senhor salvador de nossa alma que, enfim, dissipa todas as nossas angústias. Somos criados assim! Ou melhor, crescemos com essa atitude ao nosso redor.

Muitas pessoas que se aproximam do filho que Deus encarnou em nosso lar desconsideram os dias inteiros e os momentos da madrugada que minha esposa tem passado com a criança e lançam propostas, enfim, salvadoras para as cólicas, para o choro, para a irritação que o pequeno deixa manifestar, ou que se lhe apoderam. “Enfim, salvadoras” porque é assim que elas se sentem quando professam a verdade de seu caminho de consolação. Desprezam, dessa forma, toda a experiência da mãe que vem sofrendo horas a fio tentando descobrir as singularidades do rebento. Portadoras de uma ciência – devem assim acreditar – que supera os achismos da ingênua mãezinha de primeira viagem.

Que deve haver alguma coisa que valha para muitas pessoas feito regra geral não anula o fato de que cada ser humano é um mundo todo por desbravar, cuja completa revelação está longe de se dar em uma simples visita. Cada mãe, por mais experiência e segurança que tenha, não deve desconsiderar que este novo filho é uma primeira viagem dela para ele. Uma primeira viagem, claro, que já pode ser a continuação de viagens sucessivas a que nos dedicamos em vidas passadas juntos.

Não quero defender que devamos nos abster de dar sugestões para os outros. Mas, exorto todos a enxergarem que os outros já vêm trilhando um caminho de gestão da própria vida. Sua "enfim verdade" não passa mais do que uma possibilidade.

No Espiritismo, temos elevada consideração pelas orientações de Jesus, a ponto de colocá-las como crivo de verdade. Mas, a grande miséria de todos os que se prendem às palavras é que Ele nada escreveu do que falou, e o que chegou aos nossos olhos não foram nada mais que interpretações dos evangelistas. O melhor método de entender Jesus – eis a essência – é colocar à prova suas prováveis ideias em nossos atos, diuturnamente, por séculos progressivos. Não há uma orientação salvadora a não ser a que se reveste de ato e prova sua majestade na luta diária da vida.

Compartilho a cena que está diante dos meus olhos, agora: Uma mãe exausta dormindo sentada em uma cadeira de balanço tendo um filhote, enfim, repousado com a cabecinha entre seus seios.


São grandes lições para ela tudo por que está passando, e, diante dos muitos insucessos a que chegamos (e chegaremos) de encontrar o meio, enfim, ideal para consolar nosso filho para sempre, para ele eu só posso dizer em um cochicho no ouvido: “No fundo, no fundo, pequeno, qualquer pessoa pode tentar ajudá-lo com suas dores, mas só cabe a você saná-las!”.

domingo, 20 de outubro de 2013

O tempo da salvação




Há espíritas amigos meus que, apaixonados pela doutrina, alegam que uma vez espírita, sempre espírita. O espírita de verdade permanecerá assim. Problematizam socraticamente o conceito de verdade. Aquele que conhece o Bem não mais se deixa levar pelo Mal. É uma questão de ignorância e conhecimento, verdadeiro conhecimento. 

Muito embora eu me sinta “para sempre espírita”, tenho de admitir que está tatuado em mim ter nascido neste berço, ter mamado nestas palavras, ter dormido ao som de nosso evangelho, ter trabalhado intensamente na adolescência para as atividades algo recreativas - muito engrandecedoras - do meio espírita que frequentei, frequento, frequentarei. As mais caras amizades, as mais doces experiências, os consolos que mais lavaram a alma estão aqui, ali, acolá, e, por todos os lados, dentro de mim, Espiritismo. 

Não posso julgar quem veio até nós e partiu para outro lugar. Foi o que um dia ouvi de um senhor, à época espírita, que teve sua mulher às portas da morte e não se agradou em nada com a visita de seus correligionários que tentaram lhe consolar falando sobre as belezas do pós-morte. Todavia, ele a queria viva. 

- Mas, tudo é vida! - respondem os espíritas alegres e inscientes das dores que amarravam o peito daquele senhor.
- Viva aqui. Não dentro de mim. Fora, mesmo. Nem lembrança nem vulto. Mas, corpo e presença, para que a possa ter comigo!


Os evangélicos foram mais felizes na abordagem. Aproximaram-se em suas visitas usuais aos pacientes graves de hospital e retomaram o que acreditam ser o exemplo de Jesus que trazia sempre uma salvação para todas as horas. Ela se curou. O senhor se tornou evangélico. 

Como competir com a ressurreição? É simplesmente tudo o que queremos: o nosso ente amado para sempre aqui, não dentro de nós, mas, fora, para que possa ser conosco. Jesus não trazia promessas. Essa função menor era missão dos profetas. O Rabi trazia certezas, portava o “enfim”. 

Mas, poucos são os escolhidos de receber a graça súbita de milagres que restabelecem por completo as forças vitais. Raros os que a alcançam sem uma via crucis. Não conheço um. A grande maioria dos sofridos são seres cronicamente doentes, acorrentados a dores, desesperados não mais por cura, mas por um alívio qualquer. 

Acredito muito no “tempo que é chegado”. Cada coisa tem sua semeadura, ruptura, exposição solar, crescimento, seu desabrochar, frutificar, envelhecer, descascar, enrugar-se, curvar-se ao chão, semear-se para, no terceiro dia, ressurgir, pairar nos ares da vida, cair dos céus no útero da terra-moça, e renascer. Creio que as curas vem em seu tempo. E se um deus decide colocar a mão sobre um doente, o tempo que leva para sua sagrada pele roçar a do moribundo é o da preparação. Nesse intervalo acontece tanta coisa: negação, revolta, barganha, angústia, tristeza, repúdio, esperança, desespero, genuflexão, exaustão, entrega, aceitação. Não vejo porque a desejada cura deva ser a do corpo perecível que hoje é e amanhã (sempre há um amanhã) não será. 

Quando um deus nos toca é feito um raio. Há quem saia vivo, e manchas lindas sinalizam sua passagem pela pele. Há quem não suporta e morre. A essa morte chamo libertação. 

Talvez a lição que os espíritas deveriam ter praticado com aquele senhor é a de não ter uma resposta pronta, mas a de captar a resposta histórica contida em cada dor. Não para que pudéssemos continuar com um adepto, mas para que não tivéssemos perdido a consolação mais certa. Graças a Deus que os evangélicos chegaram a tempo!

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Angústia cristã: entre as obras e a fé




Estou iniciando a experiência de pai. Coisa louca, sorriso grudado na boca por uma coisa pouca que, agora, vale tudo, a quem dei pra chamar de filho. E o amor entre mim e sua mãe cresceu. Estamos juntos mais que nunca para dar suporte ao pequeno. 

Eis que na noite primeira, ainda no hospital, minha esposa, que sempre teve a pressão de baixa a muito baixa, deu para elevá-la associada a visão turva. Quem é médico entende que isso não é bom sinal.

- Meu Deus, pensei, que vida sofrida! Mal tenho uma pequena alegria nas mãos, me vem uma dessas. E agora? Que medicamentos usar para tratar uma crise hipertensiva no puerpério? 

Ligamos para a obstetra e ela me deu orientações. De novo me encontrava na situação de ser responsável - mesmo de forma indireta - pela condução de uma pessoa amada. Carreguei nos braços meu pai infartando; internei, no setor de neurologia em que estagiava, minha tia mais querida com derrame; venho lutando com minha mãe parkinsoniana que responde muito mal às medicações.

Desabafei com um amigo querido a angústia que me assolava, e ele respondeu com um sorriso tranqüilo:

- Tenha fé! A Espiritualidade não nos desampara. 

Isso o que ele me falou é da ordem da fé. É o que os cristãos mais ortodoxos entendem ser o caminho da salvação. 

- Mas a profissão médica é do tipo do ofício que Deus espera que façamos alguma coisa para resolver os problemas

Isso o que falei é da ordem das obras. É o que eu, no que entendo de Espiritismo, acho mais acertado pensar. Evidente que Espíritos bons nos amparam, mas mesmo sobre eles existe uma expectativa de agir salvadoramente sobre o problema dos outros. E assim segue a cadeia de responsabilidades, tanto maiores quanto mais poderes tiver o indivíduo, até o topo dos topos, em que reside Deus, que é a Inteligência e o Amor supremo que age constantemente em prol da nossa salvação, fim de nossas angústias. 

Embora eu tenha escolhido o caminho das obras, a fé não me desgruda. Qual das duas é a mais certa? Acredito que o equilíbrio instável que pende ora para uma, ora para outra no jogo das emoções da vida. 

Depois de dado o remédio que deveria devolver a pressão aos níveis normais, fui estudar as próximas drogas que poderiam ser usadas no puerpério para combater o mal que nos afligia. Não é que a nossa obstetra tenha jogado a batata quente em minhas mãos, sou eu que, desde que meu pai desencarnou, não paro de tentar resolver os meus próprios problemas de saúde e os dos meus. Fora o estudo, esperar. Esperança é o outro nome da fé.

Foi exatamente esperar, ter esperança, ter fé a que se entregou de corpo e alma um médico que conheci há não muito tempo quando sua esposa, acometida de doença grave, se encontrava em um leito de UTI. Ele era adepto de um cristianismo que pretendia ser o mais original possível, isto é, aquele que havia se manifestado nas origens. Um dia fui conhecer seus modos de vida. São humildes, patriarcais, portadores de um sentimento de família excepcional, sequiosos pela divulgação da Boa Nova, não com o intuito de formar uma nova igreja (nem nome se davam), mas de formar uma nova humanidade, enfim obediente a Deus, enfim livre da mácula da soberba de Adão e Eva. Amavam-se muito entre si. Muito embora eu não estivesse lá para ser convertido a nada, senti-me abraçado por um sentimento de bem-aventurança há muito não vivenciado. Para tornar-me adepto desse modo de vida, estritamente guardador das Escrituras no coração, me faltava apenas a convicção em seus dogmas, que, entre outras coisas, repudiavam a reencarnação e a comunicação com os mortos. No mais, que admiração! 

A esposa desse médico era como eu, algo cética, algo admiradora, mas não convicta, pelo menos não naquela “seita”. Tudo mudou com sua doença. Seu esposo ficou zeloso ao lado dela quase que ininterruptamente. Nada podia fazer a não ser esperar, rezar, ter esperança, ter fé. Era uma certeza absoluta que Jesus promoveria a salvação dela. Sua crença era tão inabalável que a sua presença constante ao lado dela era uma forma de testemunhar o milagre que iria acontecer. Ela se recuperou e algo dentro de si cicatrizou. Fechou a ferida que o mundo pós-moderno nos provoca quando nos arranca o espírito e nos joga na correria nula dos dias, na busca frenética de derrotar o adversário e crescer na rinha dos mercados. O amor dela se agigantou quando acordou da sedação e viu aquele que esteve velando a sua cura como ninguém. Aquele que só queria que os dois, juntos, amassem a Cristo - juntos! Ela se converteu. Hoje acredita, definitivamente, no poder deste Deus que tira as pessoas das catacumbas quando o terceiro dia quer descansar. 

A pressão de minha esposa baixou, retornou ao normal, permaneceu baixa o resto da noite e no dia seguinte. O medicamento que foi dado para ela era de uma família tão fraca de anti-hipertensivos que eu acredito ter sido mais uma questão de ela ter conseguido urinar, coisa que estava faltando, pois a anestesia que havia tomado para realizar a cesárea tinha imobilizado os sentidos do umbigo para baixo por um bom tempo. Eis minha explicação racional e materialista para a sua melhora. 

Ainda que exista uma explicação material para a melhora destas esposas de que lhes falei - explicação esta a que a ciência se aferra - não posso deixar de enxergar que a própria matéria e suas mudanças são manifestações divinas em nossas vidas. Quando não temos nada o que fazer a não ser esperar, Deus permanece agindo em sua dança invisível no palco de nossos interstícios. 

O que os cristãos que guardam as Escrituras no coração falam não é que nossas obras são nulas, mas que são incomparáveis às de Deus. Nisso eu sou obrigado a concordar. O que somos, os pequenos, em comparação ao Senhor de tudo? Todos nós nos movemos e nos agitamos em um jogo de ascensão infinita rumo ao Pai. Ele trabalha diuturnamente para nos chamar e nos acolher. Deus não tem fé, não precisa ter. Sua vida é presença. Resta-nos crer em Sua existência e em Sua providência, Sua benignidade e Seu amor. É a que rendo o espírito quando me são inúteis as mãos

Durmo ninando o pequeno que preenche o berço dia desses vazio, e contemplando a mãe dele bem ali, saudável. Amém!

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Todos somos filhos e filhas de Deus, entendeu?




Aqui finalizo a crítica sobre a teoria do demônio, mostrando o posicionamento espírita. De tão simples parece ser ridículo. Mas, as melhores respostas são as que precisam de menos artifícios para explicar um fenômeno. Aliás, a melhor das respostas é a que faz mais homens de bem. 

Deus é uno, criou o universo e tudo o que o move, todos que nele habitam. Da sua perfeição infinita, nada de imperfeito pode sair. Da sua bondade, nada de mau. Não existe um ente devotado a perverter os homens. A liberdade é a única que provoca desvios do caminho. Cada Espírito, atingido o grau de poder escolher, é responsável pelo seu próprio desvio. 

Somos influenciados por tudo na vida. Mínimas coisas, não necessariamente pessoas, nos estimulam aos mais diversos atos. Então, devemos parar de culpar A ou B pelo o que acontece conosco. Estamos com as rédeas nas mãos. Quanto mais senhores de nós mesmos, mais donos da nossa condução. Quando provamos o contrário, isto é, que a nossa direção é perigosa, ora Espíritos bons nos tomam as rédeas, ora nos deixam cair. 

Essa história de seres devotados ao mal é uma ilusão... deles! Um dia acordarão das trevas em que chafurdam e seguirão o caminho de todos os sábios: o do encontro com Deus. Mas, a vida cósmica é realmente um grande ecossistema. Uns sobre os outros agem e reagem. Pronto, é isso! Ação vai, ação vem. De tal forma que esse sistema vai entrando em equilíbrios múltiplos e progressivos rumo ao Pai. Quando isso vai se dar, Jesus o sabe! Os elementos que não acompanham a carruagem, são descalonados para outros sistemas em estágios inferiores de equilíbrio. A discrepância entre o que se estava acostumado de bom e a brutalidade, haja vista, rigidez e pouca criatividade da nova condição, é uma dura prova, dói, incomoda. Mas, passa. Tudo passa e prossegue rumo ao Autor de todas as coisas. 

Há quem diga que só podemos ser considerados filhos de Deus quando aceitarmos as Suas condições de existência, o que vale dizer, curvarmo-nos diante das Suas leis, melhor dizendo, dançarmos segundo a Sua condução. Até lá somos meras criaturas. Isso é uma visão mesquinha que só tem sentido olhando do lado de quem se humilha, de quem não entende o lado do Amor. A parábola do filho pródigo é pródiga na descrição do Amor do Pai. Desde quando ele considerou aquele que pediu a própria herança e a esbanjou como filho? Desde sempre! Desde o início! Desde mesmo ele nem ter nascido! Quem já teve um filho sabe o que digo. Eu ainda nem o tenho em meus braços e sinto essa verdade.

Pois bem, preenchendo as reticências que deixei na postagem anterior temos que para os filósofos gregos, particularmente os socráticos, vencer o mal é uma questão de superar uma ilusão através do conhecimento das coisas. Para a ortodoxia cristã, é um escolher a Cristo e rejeitar o resto - essa escolha é colocada a prova a cada segundo, pelo tal Demônio, Satanás, etc. Para o espírita, não deixa de ser a busca do conhecimento, mas sempre em meio ao trabalho, nem deixa de ser a busca do Cristo, mas sem esquecer que os maiores desafios que nos afastam do Mestre não estão fora. Definitivamente, não estão.