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sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

Jesus é Deus? (Parte II)

     Que Deus existe, por argumentos ontológicos e silogismos metafísicos, não há como negar. No máximo, nada poderíamos falar por não ser de nosso alcance. Mas, na metafísica da cadeia das causas, claro que tudo se origina de uma causa primeira, os movimentos, de um primeiro motor imóvel. O salto da fé está em que a causa primeira também tenha se tornado homem, sendo ela e ele um só e a mesma pessoa sem desfigurar a ideia da unidade.

    Há outros desenrolamentos da fé católica que poderíamos resumir assim: 

    - Se a Verdade é criadora, é Deus. Se Ela se importa com você, é o Deus dos judeus. Se se importa com você a tal ponto de ter se tornado homem para te salvar, é Jesus, o Deus dos católicos.

    Em sendo verdade, torna-se um imperativo apascentar as pessoas para esse Jesus, com todos os sacramentos perpetuados pela igreja nos últimos dois milênios. E que se deixe de lado as noções de energia cósmica, chakras, reencarnação, diálogo com os desencarnados, astrologia, pois basta ao cristão os sacramentos de conexão com Deus. 

    Se você for católico, e não tiver o corpo de Cristo em suas veias toda semana, não lhe entendo. Isso é o máximo da comunicação com Deus: Ele se dividir ao infinito, não mais se fazendo homem, mas se fazendo hóstia, para ter com você no seu corpo.

    Todavia, não o sou. E, apesar da minha crença infantil da obviedade da negativa ser abalada com tamanha fé de tantos luminares, o máximo que consigo alcançar é isto:

  1. O Espírito ascende por vias multimilenares até um ponto que se distingue qualitativamente da humanidade como a vemos hoje, simiesca.
  2. Aos poucos, como o bebê que enxerga a mãe, divisa seus contornos, a vê de fato e por inteiro. 
  3. O momento de visão integral de Deus e de submissão absoluta à Sua vontade lhe torna um Cristo. 
  4. Houve apenas um Cristo na história da humanidade: Jesus. 
  5. Pela teoria da mediunidade, o melhor dos médiuns para a manifestação de um Espírito é aquele que tem bagagem suficiente para deixar o Espírito livre para ser através dele, permitindo uma comunicação bem fluida, em palavras e atos.
  6. Jesus foi o médium de Deus na Terra.
    Isso não desmerece ou descarta outras crenças, a não ser aquelas que são contra Deus, na Sua ação amorosa e salvífica para com as criaturas. Creio que permita todos os bons movimentos de busca da alma florescerem e frutificarem, do contorcionismo iogue, subjugando as resistências do corpo, à mendicância franciscana, subjugando as paixões da alma.
    Só que o Espiritismo tem se afastado de Jesus, por achá-lo um grande personagem histórico, mas apenas um personagem histórico, e por ter vários outros homens hoje vivos no mundo que parecem ser tão pertos de Deus quanto ele. Aí é que mora o perigo, onde estão os gurus, onde se espreitam os falsos cristos e profetas. 
    As teses espíritas que expus tiram Jesus da definição de Deus, mas coloca-o lado a lado, ou até mesmo misturado só que em dimensões diferentes. O sentimento de veneração deveria ser o mesmo, e claro que nunca será. É diferente eu venerar o Espírito comunicante e o médium, por melhor que o médium seja. É assim que entendo, sob a perspectiva do apocalipse, ser historicamente melhor deixar Jesus como Deus, e permitir a sua governança no coração dos homens, do que rebaixá-lo a um médium de Deus. 
    É só até aí onde consigo chegar hoje, ao dia 2 de fevereiro de 2024. Uma conclusão pragmática, que não me permite nem mais amor ao Cristo nem ser uma melhor pessoa. Apenas ter uma visão mais sóbria do mundo e de seus fluxos de transformações.

domingo, 3 de novembro de 2019

Sonho sobre a vida póstuma

Sonhei que havia morrido. Era muito estranho. Não fui para o umbral. Não vi espíritos sofredores, nem vociferadores. Também não vi ninguém que me convidasse para qualquer cidade espiritual. 

Acordei e levantei-me do corpo, andei alguns passos, olhei para trás. Era ele, o meu corpo. Aquele que tinha animado há pouco. Já havia passado os choros e as homenagens. Tive vontade de ver a esposa e os filhos. Pronto! Foi o suficiente para já estar ao lado deles. Os rapazes enxugavam o rosto da mãe. O mais velho a beijava. O mais novo não sabia o que dizer. Beijei o rosto do caçula que tomou um susto, olhou para os lados. Vi o peito do primogênito apertado. Eu podia ver a angústia. Isso não é metáfora. Eu podia ver mesmo! Cheguei para ele e pus a mão em seu coração. Seu músculo cardíaco deu um salto descompassado. A angústia diminuíra. Ele achara estranho aquele fugaz descompasso. Beijei a boca da minha esposa, que saboreia o beijo em seus lábios com leve movimento da língua.

Só, então, percebo presenças ali em casa estranhas a minha família. Mas todos eles me olhavam. Como, se eu havia morrido? Senhor! Eram outros tantos Espíritos! Saudavam a minha chegada. Papai, vovó, todos estavam ali. Papai, veterano naquele lugar apenas me fala:

- Vá conhecer o mundo, não há mais barreiras para você. 

Quis experimentar. Saí a esmo, correndo. Eu não me cansava. Aumentei o passo, ultrapassei minha velocidade comum. Voei! Que liberdade! Não havia mais dores, nem a asma me constrangia. O ar frio do alto céu me era inofensivo. Chego à Lua, onde vejo outros tantos Espíritos dialogando festivamente, outros apenas a mirar o espaço, pensativos. Lembro de meu amigo astrônomo. Subitamente estou ao seu lado. Ele toma um livro que havia dado de presente para ele há tempos. Lembra de nosso cumprimento. O pensamento dele para mim era fala! Eu o respondo. Ele acha engraçado aquele diálogo que acontece na sua mente. Continua a brincadeira e pergunta para mim como estou agora, morto. "Mais vivo que nunca!". Ele ri. Sua esposa pergunta do que ri. "Do Allan." Ela estranha ele estar rindo de um homem que acabara de morrer. Que macabro!

O sol parece querer nascer. Olho para o relógio. Não é possível. Eram apenas duas horas da manhã. Vou ao encontro desse adiantado sol. Um moço enorme me espera fora daquela casa. Dá-me a mão. Tenho a perfeita intuição quando o toco: era o meu anjo. Ele me aponta o céu para que veja o tal sol. Os raios me ofuscam. Aos poucos diviso uma forma no centro da irradiação, logo mais, um rosto. Meu Deus! Não era o sol, mas Jesus. 

quarta-feira, 20 de março de 2019

Somos totalmente diferentes!

"Somos totalmente diferentes". - Disse a colega de trabalho a respeito de uma opinião que tentei expressar a respeito do falecimento de uma paciente. 

Era acerca de uma idosa que já não tinha mais como investirmos com terapia com fins curativos. Estávamos tentando conduzir sua passagem em uma boa morte, o que na medicina se intitula ortotanásia. Eu falei de forma inocente: "Como ela resistiu!". E a colega, evangélica, replicou: "Não, ela foi na hora certa, a que Deus determinou. O senhor diz isso porque somos de posições bem diferentes. Eu sou cristã e o senhor é espírita." Nunca havia conversado com ela sobre minha crença, mas ela deve ter visto nas redes sociais. 

Como sempre, os adeptos das igrejas reformadas nos consideram não-cristãos. Pouco importa a discussão que originou aquela frase, haja vista, se uma pessoa pode resistir ao seu desenlace ou se é uma determinação absoluta de Deus. Vou desconsiderar também a disputa de conceitos e falar mais o que me vem ao peito quanto escuto essa acusação. Parece apenas uma lucidez de predicado: existem as denominações cristãs e as não-cristãs. Mas, para o espírita sincero, velador da moral fundamental da doutrina, soa como acusação. Acredito que muitos que despejam essa negativa é como se nos impedissem de entrar no templo. 

Calo-me, a discussão não me agrada, nem é frutífera. Ainda mais com pessoas de fé gritante. Gosto de discutir com amigos, mais por brincadeira do que por vontade de conversão. Contudo, sempre, no fundo, quando me impedem de entrar no templo, sinto como se eles pudessem ter razão. Quem respeita mais o Cristo, aquele que o considera o Deus encarnado, ou o que o entende apenas como um Irmão Maior (pouco importam as maiúsculas)? Sei que a resposta que sai na ponta da língua dos ecumênicos é: aquele que o segue, que o imita dia-a-dia, que se esforça para se aprimorar. Seria suficiente mesmo? Não seriam igualmente necessárias as pompas, os ritos, as prostrações? Não por ele, mas por nós mesmos. O corpo entende mais a linguagem do corpo do que das construções do intelecto. Ajoelhar-se, louvar com fervor, deixar o corpo tremer com o seu nome talvez fizesse chegar nosso coração mais forte ao seu lado, porque taquicárdico, porque suados, porque ciosos de olhar em seu rosto. 

O fato é que minha crença é esta. Jesus é o Irmão Maior, com maiúsculas, mas irmão, e não Pai. Dá vontade de chamá-lo de Deus, mas não é preciso. Seria precioso, mas não exato. Temos uma ideia de que é manso, e que teve seus momentos de fúria e de lágrima, das de sofrer por um amigo, e das de verter sangue de medo. Nossa forma de pensar Jesus o fez descer do símbolo sofrido e colocá-lo entre nós, conduzindo o destino da Terra, mas não do universo, nem mesmo do Sistema Solar. Mas, a Terra já é tanto! Falamos com ele a qualquer momento, de qualquer jeito. Falamos, nem rezamos, nem oramos. É quase conversa de pé de orelha. Profanação suprema! Tiramos quase toda a divindade dele, tornamo-lo humano, um humano divino, mas, por Deus, um humano. Daqueles que nos faz ter esperança na humanidade, porque se ele conseguiu, quem sabe, uma vida dessas, conseguiremos. 

sexta-feira, 8 de março de 2019

Amiga diz que sua filha nasceu com múltiplas deficiências



AMIGA: Allan! Como vc está? Quanto tempo! Sabe, esses dias eu me vi pensando sobre nossas conversas sobre religião e o sentido de muita coisa, sobre os problemas da minha avó que não sei se vc lembra. Allan, quanta dificuldade a vida tem, e quanta força temos que ter para continuarmos felizes! Minha filha nasceu com múltiplas deficiências. E eu tenho muita fé em Deus e penso que deve ter sentido tudo tão intenso acontecer na vida. Não sei pq estou falando isso, talvez porque sempre te vi com tanta fé. Rezo para a minha aumentar todo dia. Espero que esteja tudo bem com sua linda família! Um grande Abraço!

ALLAN: Que saudade das nossas conversas! Não sabia sobre as deficiências da sua filha. Meu núcleo familiar mais próximo (eu, Mia e as crianças) está bem, mas quando começa a se afastar desse circulozinho as coisas estão desmoronando. Não cabe eu detalhar pra você. Às vezes dá uma trégua, e eu penso, deve se estar dando um fôlego porque vem chumbo grosso pela frente. Daquela nossa conversa (2006) para cá, vi tantas dores nos seres humanos. A profissão me fez ficar próximo de tantas mazelas humanas, que a fé chegava a estremecer. Dia desses me vi sendo interpelado por um amigo que queria entender porque o ano de 2019 estava começando com tantas bombas (incêndio, morte, destruição). Ele tinha perguntado porque sabia que eu era espírita e gostaria que eu conversasse com ele como naqueles dias que conversei com você, mostrando caminhos de consolo e, apesar de tudo, grandeza na Criação. Veja só: eu titubeei em falar, minha fala falhou. 

Ainda sou espírita, e muito, mas tenho abraçado um certo espiritismo sombrio, um que entende a onipresença do sofrimento no mundo e aceita o mistério de Deus. Faz tempo que não converso com Deus, com devoção e carinho. Tenho passado a ideia de Deus para meus filhos, em pequenas preces noturnas antes de eles dormirem, em frente a uma vela que queima lentamente enquanto rezamos preces decoradas. Sempre tive críticas sobre preces decoradas. Sempre fazia questão de improvisar as palavras. Hoje não mais. É como se o espírito estivesse cansado do meu próprio verbo e cedesse às palavras sagradas da boca de santos, que puderam mais do que eu na passagem pela Terra. Quatro principais embalam o sono das minhas crianças: Pai Nosso, Avé Maria, Oração ao Anjo da Guarda e Oração ao Divino Menino Jesus. Houve uma época até que tentei rezar o terço. Não suportei a repetição. E certamente isso fala menos contra o terço do que contra minha disciplina diante de Deus. 

Vou te falar um pouco sobre duas faces da vida. Tem uma que é bem lógica e é o que aprendemos insistentemente no espiritismo mais prosaico: tudo tem um porque. Lemos os romances psicografados por Chico Xavier, e lá as revelações das conexões dos nosso sofrimentos são bem claras com ações que fizemos no passado. O mundo há muito é quebrado, e sempre esteve nas nossas mãos deixar de quebrar e passar a consertar. Sua avó, sua filha, meus parentes que sofrem são reflexos de todo esse movimento. Ajudamos se não quebramos ainda mais o que já vem trincado. Tem outra face que é a do amor de Deus, infinito porém obscuro. Se Ele tem todo o poder, como Ele deixou tudo isso acontecer? Obscuro. Parece racional aceitarmos as teses propostas pelos romances espíritas de uma lei que nos chama a responsabilidade do mundo, mas às vezes parece pouco consoladora essa visão matemática. Sabe o que me consola mais nesse amor infinito e obscuro de Deus? É que é direcionado especialmente para mim, para você, para cada pessoa em particular. A imagem mais forte desse amor é a do Jesus abandonado. Ele era Deus, ou para os espíritas, um deus, e sua dedicação era tal que deu sua própria vida para ajudar cada pessoa que nele confiou (fé=fides=confiança). A imagem de Jesus é a de um deus quebradiço, mas que foi até a última gota alguém que esteve conosco, do lado. Essa imagem ressurgiu do sepulcro como um amigo que mostra as chagas e continua dizendo: vou ao Pai, mas estamos juntos. 

A encarnação do Cristo na Terra fala mais ou menos assim: "Eu sei de todo o sofrimento pelo qual você passa! (Veja que ele não fala para uma comunidade, mas para cada pessoa em particular, direto ao coração). Eu passei por algo assim também. Decidi sair das mais altas esferas da felicidade incorruptível para ser junto de você. Ao morrer e ressuscitar, eu quis dizer, não tema. Lute, continue, persevere, e em breve, parece um infinito, mas em breve, você estará comigo, em paz, do meu lado, no meu abraço." Ele se dirige a você e a sua filha. Fala ao ouvido de cada uma de vocês. E vendo Jesus falar assim, dá um ânimo que, para além de qualquer lógica, nos faz querer ser pelo ser amado que sofre o que ele foi por cada um de nós: alguém que abdica da própria felicidade, que se quer incorruptível, para apaziguar uma dor.

sexta-feira, 30 de março de 2018

Gnosticismos Vs Cristianismo: Quem tem o dom de me salvar?



Até onde pude apreender das seitas gnósticas que pululavam na Idade Média e cuja estrutura de pensamento anima muitos movimentos atuais, o que é uma constante nelas é a crença de que o ser humano pode Se salvar. O que separa a danação da salvação é um ato de compreensão da realidade cósmica, a gnose. Esta realidade é salvadora per Si, bastando ao homem (re)conhecê-La. 

O Cristianismo ensinado pela tradição católica diz-nos que a salvação não é um dom humano, apenas de Deus, que esteve presente na história através de Jesus, este sim, único capaz de nos salvar. Seu ato salvífico se deu no sacrifício último da cruz. Para que possamos nos salvar só pode ser através Dele. Não basta apenas compreendê-Lo, é preciso aceitá-Lo como a verdade salvífica encarnada, pela fé.

Veja que há uma antinomia nessas duas teses. Ou salvo a mim mesmo ou alguém me salva. 

Os grandes movimentos revolucionários dos últimos séculos estão fundamentados em gnosticismo. Do positivismo comteano, passando pelo socialismo marxista, chegando ao ecologismo radical a salvação está ao alcance do ser humano, providenciada por um ato dele, iluminado por uma consciência superior (a da positividade da história em Comte, a da necessidade revolucionária em Marx, a do reconhecimento de Gaia na filosofia verde). Dessa forma, todos eles tiveram de desmerecer a tese da salvação única e exclusivamente através de Cristo. 

Como toda boa antinomia, não acho que a segunda tese seja facilmente descartável. Primeiro porque a realidade do aqui e do agora nos mostra a precariedade da natureza humana, nossa fragilidade, nossa tendência despudorada ao pecado. Como enxergar nisso uma via de salvação?

Respondem os gnósticos, revelando um Eu superior que se agita em cada um de nós. Contudo, essa intelecção do Eu superior, embora seja uma hipótese elegante, não é fácil de materializar. Somos, quando muito, seres mais ou menos bons, algumas vezes caridosos, quase sempre cruéis. A desconfiança contra o próximo tem sua razão de ser. Estivemos há pouco sob risco de extinção pelo nosso próprio mérito. 

Falam os gnósticos, então, que há eras na humanidade, das quais a nossa é a pior, e que a partir de então tudo tende a melhorar. Vê como é fácil enxergar uma má-fé nestas explicações? Quando o argumento é contundente, eles nos devolvem a explicação para um lugar que não podemos alcançar: um Eu superior, uma outra Era. 

A tese do Cristo salvador tem o mérito de dar ao homem uma possibilidade atual de salvação. A qualquer momento, é só crer. Não há Era ou Eu, é apenas você, do jeito que é, com o Cristo. É um encontro pessoal e inalienável. Dir-se-á que esse Cristo é um transcendente ilusório. Não para aquele que crê, que o sente, que o experimenta em si às lágrimas. Também não mais, e talvez até menos, do que a comunidade politicamente correta, a comunidade  justa ou o homem enfim em paz com a natureza. 

Quem reconhece a própria falibilidade, o que é uma tremenda sensatez, e enxerga no Cristo a imagem do justo ressuscitado, Nele entregando seus podres para prosseguir redimido pertencente à uma igreja harmonizada pela presença estruturadora Dele, já experimenta uma felicidade que outros adquiririam a custa de peiote. 

Parece óbvio que sou eu que me salvo. Parece necessário que tenha de haver um Cristo para me salvar. Não sei se encontraremos um apaziguamento dessa antinomia tão cedo. 

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

As palavras de Jesus: nosso critério de verdade


"Singulares parecem algumas palavras de Jesus, por contrastarem com a sua bondade e a sua inalterável benevolência para com todos. Os incrédulos não deixaram de tirar daí uma arma, pretendendo que Ele se contradizia. Fato, porém, irrecusável é que sua doutrina tem por base principal, por pedra angular, a lei de amor e de caridade. Ora, não é possível que Ele destruísse de um lado o que do outro estabelecia, donde esta consequência rigorosa: se certas proposições suas se acham em contradição com aquele princípio básico, é que as palavras que se lhe atribuem foram ou mal reproduzidas, ou mal compreendidas, ou não são suas." (Allan kardec: Evangelho s. Espiritismo, cap. 14, item 6)

Na postagem passada mostrei como Kardec em A Gênese reveste o Espiritismo de um caráter muito dinâmico. A princípio pensaríamos que ele, então, seria isento de âncoras, flutuando no espaço das verdades, leviano, escolhendo a que mais brilhasse. Não é bem assim. 

Mesmo a ciência moderna não pode se dizer completamente isenta de fundamentos metafísicos que possibilitem sua forma de existir. Ela tem como pano de fundo que a realidade é cognoscível e que o homem possui estruturas mentais para conhecê-la. 

O Espiritismo, além do mesmo pressuposto da ciência moderna, apresenta um fundamento que Kardec deixa claro nesse excerto: Jesus diz a verdade e não se contradiz. O Evangelho segundo o Espiritismo todo é fundado nessa premissa, e o resto do Espiritismo por consequência. 

De fato, não poderia sermos uma doutrina consoladora se tivéssemos deixado a fé das pessoas à deriva nas descobertas científicas. O tempo mostrou o quanto a ciência moderna é volúvel. Hoje anatematiza o que amanhã idolatrará. 

O método rigoroso, o crivo racional, a seleção criteriosa das comunicações mediúnicas, tudo o que Kardec usou, pretendendo-se científico, acabou não sendo o carro-chefe do Espiritismo, mas Jesus. Foi o Cristo que tornou sólida nossa perspectiva. Todo o movimento de Kardec foi para deixar, novamente, o ressurgido do Calvário palpável para os homens. 

O Espiritismo se tornou, assim, nossa eucaristia. Abriram-se as lápides não apenas do túmulo de Jesus mas de toda a humanidade, revelando nossa imortalidade, apesar das chagas. Não apenas o corpo de Jesus se mostrava redivivo, mas os de todos os entes que amamos, com quem compartilhamos o pão e o vinho diários. 

Outro aspecto importante dessa perspectiva kardeciana de considerar o verbo de Jesus uma necessária verdade não-contraditória é de esta ser a definição cartesiana, por excelência, da ação de Deus no mundo. Como nos vai revelar postumamente, Kardec entendia Jesus como o médium de Deus, cuja fala, pois, estava em sintonia perfeita com o Autor de todas as coisas. 

A ciência oficial menospreza o Espiritismo, entre outras coisas, por esse deslize, por essa adesão despudorada. Mas, como diz Kardec, a ciência espírita prossegue a partir do ponto em que a materialista estaciona. 

domingo, 7 de janeiro de 2018

Espírito Santo segundo o Espiritismo



Papai, que foi catequisado em cidade do interior do Ceará, afilhado de Padre Cícero, médico, um dos melhores de sua turma, muito sabedor de história, leitor contumaz de livros culturais, me confessava não entender muito a tal da santíssima trindade. Tendo me iniciado no espiritismo, passou a incumbência desta compreensão para mim.

Mesmo sendo uma seita herética em relação à igreja católica, entendo que não devamos desprezar a experiência da crença de toda uma história da comunidade cristã. O Espírito Santo e a Santíssima Trindade da qual ele participa são símbolos muito significativos onde todo aquele que se quer cristão, ainda que herético, deve se situar.

Já vi no movimento espírita se dizer que o Espírito Santo seria a plêiade de Espíritos superiores comunicantes que trouxeram a revelação espírita ao mundo. Seriam, portanto, Espíritos santos. Podendo ser tido como uma pessoa apenas simbolicamente, isto é, uma comunhão de Espíritos. Dizem ainda que as três pessoas da trindade não seriam consubstanciais. Pai originou filho que originou os Espíritos santos*. 

Como a trindade é um dogma fundamental, vê-se já por aí que, ao contrário do que Kardec imaginava em 1862, não dá pra ser espírita e católico ao mesmo tempo.   

Diz, contudo, o próprio catecismo da igreja católica do ocidente que "a tradição oriental exprime o caráter de origem primeira do Pai em relação ao Espírito" (art. 248) e que Este se origina Daquele a partir do Filho. Então, já que nem as igrejas católicas se entendem, acredito não estarmos cometendo tão grande pecado em discordar também e manter a posição: Pai origina Filho que origina Espírito Santo. 

Não creio, todavia, que o Espírito Santo seja os Espíritos santos, pois a grandeza do que a tradição cristã entende por Espírito Santo está em algo difuso que antes falava pelos profetas e após a promessa de Cristo do Paráclito passaria a estar para sempre entre os discípulos os conduzindo. O poder que essa descrição tem ultrapassa e muito essa ideia de uma legião de Espíritos norteadores. É como se fosse um poder de Deus capilarizado pelos seus filhos. 

O que seria, então, o Espírito Santo?

Ouso levantar a hipótese de que seja algo em nós de divino que Jesus despertou ao deixar seu rastro histórico. Está fora de nós e em nós ao mesmo tempo. É como um cordão umbilical renovado que nos religa (religião) a Deus. Ele nos permite prodígios e é o que torna possível a caminhada para a salvação. 

Os que se denominam portadores da mensagem esotérica cristã sempre falaram da dimensão da doutrina do Cristo que não nos queria salvar de fora, mas que nos devolvia o poder de salvarmo-nos a nós mesmos. 

Encarando assim o Espírito Santo, isto é, esta força beatífica que nos envolve e nos invade, despertada por Jesus, acredito que as duas visões se reconciliam: Jesus nos salvou acordando o poder salvífico em nós. A mediunidade é apenas um átomo desse poder, outros tantos surgirão, outras tantas forças hoje tidas como parapsíquicas, o homem novo, o homem-psi, ou ainda melhor, o homem santo que vai acordando gradativamente para sua inalienável imortalidade.  

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Mundo líquido segundo o Evangelho



(Reflexão engendrada por ocasião de palestra proferida ao dia 27 de setembro de 2017 acerca do tema "A coragem da fé", presente em O Evangelho Segundo o Espiritismo)

E o barco estava já no meio do mar, açoitado pelas ondas; porque o vento era contrário; Mas, à quarta vigília da noite, dirigiu-se Jesus para eles, andando por cima do mar. E os discípulos, vendo-o andando sobre o mar, assustaram-se, dizendo: É um fantasma. E gritaram com medo. Jesus, porém, lhes falou logo, dizendo: Tende bom ânimo, sou eu, não temais. E respondeu-lhe Pedro, e disse: Senhor, se és tu, manda-me ir ter contigo por cima das águas. E ele disse: Vem. E Pedro, descendo do barco, andou sobre as águas para ir ter com Jesus. Mas, sentindo o vento forte, teve medo; e, começando a ir para o fundo, clamou, dizendo: Senhor, salva-me! E logo Jesus, estendendo a mão, segurou-o, e disse-lhe: Homem de pouca fé, por que duvidaste? (Mateus 14:24-31)

 O primeiro elemento que me chama a atenção nesta passagem são as águas em meio ao vento contrário e o açoite das ondas. Andar sobre elas é ainda mais assustador do que ver um fantasma. Todavia, Pedro se atreve. 

Dizem os biólogos que o mundo nos acolhe líquido ao ventre materno e, por muito tempo, permanece líquido para nossa compreensão. 

Quando finalmente o entendemos sólido, vêm os filósofos e sociólogos, e dizem que permanece líquido. É o apeiron de Anaximandro, mas também o mundo líquido de Bauman, por motivos diferentes. O primeiro entendia que nosso gueto de existência está circundado por um sem fim de caos inapreensível, de onde tudo deve ter se originado. O segundo entende que a concepção mais ou menos rochosa da realidade que a cosmologia dos antigos e a teologia dos medievais nos davam se liquefez nestes tempos pós-modernos. As amizades e os amores não possuem mais aquela eternidade de antes, mas se desfazem com qualquer vento contrário e açoite de uma onda qualquer. 

Essa concepção é a visão da primeira metade da cena evangélica que expus. O temível mundo das águas. Mas, há algo além do vapor do mar. O que é? Jesus, seu convite e sua postura de acolhimento. 

Sabe-se que Jesus era um homem de tal encanto e magnetismo que sua presença acalmava nossos mares revoltos. De outro modo, sua mesma presença tinha o poder de provocar morte nas pessoas: do que elas vinham sendo para, então, ressuscitarem no que elas estavam destinadas a ser. Isso é o que demos para chamar, na tradição cristã, de conversão. 

De volta às águas, lembramos que na imagem veterotestamentária, tudo antes de ser criado por Deus era apenas água. E o Senhor pairava sobre elas.

A associação me parece clara. A cena em que Jesus paira sobre as águas reproduz solenemente o ato criador do mundo. Pedro teme e cai. O fundo das águas se mistura com sua morte iminente. Jesus toma-o pela mão e o salva, o que quer dizer uma nova criação para Pedro. Se antes ele ainda não existia em Cristo, desta vez pode se considerar batizado para a nova vida. 

Isso não impede que Pedro venha a experimentar a morte do cristão em outras passagens, particularmente quando nega o rabi. Mas, o cristão não é reconhecido pela sua perfeição, mas pelo jeito de sua caminhada, buscando pairar sobre as sólidas palavras de Cristo, ainda que em passos vacilantes. 

Ao mundo líquido de Bauman ou ao apeiron de Anaximandro, ou ainda, ao universo da termodinâmica que se derreterá em caos após toda a energia ter se dissipado em calor, sobreviverá o Espírito de cada pessoa que Deus criou. Tão logo qualquer corpo submergir nas águas primárias da criação, é a mão de Deus que resgatará o homem para continuar sua escalada em outros corpos, planetas, universos criados. 

O mundo vem precisando de Cristo sobre as águas. E enxergá-lo perto de nós com sua mão estendida, acredito ser a grande resposta do mal-estar do milênio. 




Figura: De Amédée Varin, Le Christ marchant sur la mer. Disponível em http://www.culture.gouv.fr/GOUPIL/IMAGES/101_Christ_sur_eau.jpg (Gravures et eaux fortes)

sábado, 3 de junho de 2017

O significado da tragédia para o Espiritismo



A maior parte da literatura erudita se curva para a tragédia. Raro é o romance ou a peça que promova um movimento tão grande de afetos na alma humana que não se valha de elementos trágicos. A comicidade, como irmã menor no mundo da estética, movimenta os humores do homem, mas não desce tão fundo (1). Como podemos conservar o estatuto da grandeza trágica, mantendo o otimismo espírita-cristão?

Alguns esclarecimentos preliminares. A tragédia não é a maldade, mas o irreconciliável. Não é a perdição ou a danação, mas a impossibilidade de salvação (2). Não porque o homem não mereça - pode até não merecer - mas antes disso, ele não foi feito para durar. Nada foi. Nada será a não ser Deus. Mesmo o Espírito, que até para mundividência da antiguidade clássica pode ser encarado como imortal, não dura, pois muda. E a mudança é a identidade do efêmero. 

Se por um lado isso pode dar uma brisa de alento, saber que qualquer sofrimento passa, em verdade aterroriza bem mais, porque junto com o que passa vai a identidade atual de tudo o que nos cerca, inclusive nós mesmos, nosso caro eu. A morte é trágica e sempre fecha o livro que vimos escrevendo (3). 

As forças que geram e movimentam as histórias trágicas se originam do sobre-humano. Quando falamos que deuses, ou Deus, está por trás dessa ou daquela ação, é apenas a uma questão que nos referimos: o homem não a controla, não a pode controlar.

Por vezes a causa da força trágica está mesmo em uma instância superior a dos deuses, o que deu motivo para falar em destino. A mitologia grega enxergava deusas, ainda mais superioras, que teciam as histórias das gentes e dos deuses menores. Elas são cegas e cheias de artrose nas mãos que tecem. Na tradição cristã, os desígnios impenetráveis ou estão na razão de Deus, que não é menos impenetrável para o homem, ou estão na própria Razão de tudo, a que Deus (blasfêmia spinozista) se submete (4). 

Jó é a tragédia judaica por excelência. Deus deixa Satanás esvaziar Jó até a última gota da humanidade deste. Aqueles que enxergam o messianismo judaico-cristão sempre como o concessor de vitórias neste mundo perdem o exemplo de todas as tragédias pelas quais passaram os heróis do antigo e do novo testamento. Jesus no topo delas (5). 

A tragédia grega não é a inimiga das histórias de redenção cristã. Pelo contrário, ela é responsável pela maior parte do enredo. Forças que se escondem na vontade de Deus, no pecado dos pais e, no caso do Espiritismo, no passado do Espírito reencarnante, vão empurrando o herói trágico para o fim. Repito, o fim. 

É no herói trágico que devemos focar a atenção. Este, movido por não sei que força moral, a que os gregos chamavam coragem, e os cristãos denominaram amor, uma chama que resiste no peito apesar de tudo desmoronando, consegue chegar ao final da história, ainda que apenas com a última parte de seu corpo exangue no derradeiro momento. É como se o universo que tende a aniquilar tudo, a humilhar qualquer vida, a aplainar todos os seres, não fosse suficiente para derrotar o herói, pelo menos não até que o fim se faça presente em toda sua imponência (3). 

Todos os elementos da tragédia grega estão presentes na cristã. Não é verdade que os heróis cristãos são menores por se pautarem em esperanças vãs. Tanto uns quanto os outros tem uma determinação que sorvem de um universo tão sobre-humano quanto as forças que os querem esmagados. Todavia, ouso dizer, essas forças rompem o círculo das Moiras (as tecelãs de destino), penetram no impenetrável do Deus cristão, fecundam o universo mortal e, apoteose!, provocam ressurreição. É essa palavra - ressurreição - que é o topo da arte cristã. As leis da implacável termodinâmica se estilhaçam, um mundo novo se ergue no horizonte. 

Se as tragédias gregas levavam a platéia até o abismo da alma humana, provocando a tal da catarse que Aristóteles reconheceu (1;2), é a ressurreição cristã que, saltando o abismo, leva a alma humana até Deus. A catarse movimenta os humores mais podres que transformam vida em doença. A ressurreição, sublimando-os, redime a doença em vida.  De forma muito incipiente algumas tragédias gregas davam essa noção, tentando finalizar as histórias com um deus que descia de uma máquina para solucionar o emaranhado trágico (Deus ex-machina). Na história do evangelho, o herói é o deus que se fez carne, viveu a tragédia humana, e salvou o homem - após o fim. 

Quando, no Espiritismo, dizemos que todos os homens ressuscitam, pois após a morte ressurgem em um corpo imortal, é uma associação fraca com o que Jesus viveu. Sim, todos os homens são capazes de ressuscitar, mas para isso, no sentido que os evangelhos narram, devemos conseguir deixar passar em nós toda doença, traição e morte que representa a condição humana em que estamos afogados. 

Ressuscitar, sim, mas a morte, antes. 


domingo, 30 de abril de 2017

Jesus é o modelo: o que isso significa para a vida do espírita?

O que isso significa para o espírita? Não é possível entrar no mundo ocidental sem saber quem foi Cristo. Estando no Ocidente, não é possível se conhecer sem entender qual o peso (ou a leveza) que a vida de Cristo imprime sobre a sua. Esse livrinho pretende, olhando para as etapas da vida de Jesus, esboçar as lições que fazem sombra sobre as nossas etapas. Convido, de forma rápida, então, para ressignificar em nossas vidas o nascimento de Jesus até sua ressurreição.



quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

O paradoxo cristão da sabedoria do amor



O cristianismo é uma doutrina da imortalidade da alma. Acreditar que a vida não finda aqui é não ter tanto apego à ela. O que poderia levar a crer que não deveríamos nos apegar às pessoas também. O que seria evitar amar. E há filósofo cristão que endosse isso, entre eles, Pascal:

"É injusto que se apeguem a mim, embora o façam com prazer e voluntariamente. Eu iludiria aquele em quem eu despertasse desejo, pois não sou o fim de ninguém e não tenho com o que satisfazê-los. Não estou eu pronto a morrer? E assim, o objeto do apego dessas pessoas morrerá". (Pensamentos)

Mas, eis o que é tudo: apegar-se ao que morre. Todavia, apegar-se ao que é imortal é doutrina do Cristo em essência. Isso é o amor que ele pregou. Um ser divino que desce das suas alturas a fim de dar sua vida para a iluminação de todos e cada pessoa em particular, espalhando milagres e bênçãos  o que seria isso senão um amor apegado? 

A grande diferença é essa: apegar-se ao que não morre. Quando Jesus salvava uma pessoa, seja cobrindo-a com um milagre ou com uma palavra que abrisse o caminho dela para sempre, não estava ali por aquele corpo corruptível que vaga pela terra, por uma massa de células bestiais que em breve se humilharia de volta ao pó. Ele veio por estes Espíritos imortais, em busca de reconduzi-los ao Pai. O corpo ao pó, a alma, ao Pai. 

Acho que já disse isso outra vez, não custa repetir. A história da bíblia é uma história antropocêntrica. E isso não é um defeito. Ela é a história de Deus em busca de salvar o homem. Não gira em torno de Deus. Que espécie de relação é essa entre Deus e o homem senão a de um pai que nutre um amor apegado por essa espécie frágil da criação? Se olharmos a coisa com a visão da unicidade da existência, não parece assim como falei. Mas, se enxergarmos que todos os Espíritos personagens dessa história são almas reencarnantes, fica claro que são educandos transmigrando em infinitas oportunidades de redenção. Deus não desiste de nós. 

Por que eu digo que isso é um paradoxo? Ora, não percebe que são forças contrárias esgarçando nosso coração? O amor de Cristo que devemos ter como modelo é um que ama tanto a pessoa a ponto de a querer muito. Mas, ao mesmo tempo, é um amor que a reconhece um ser transcendente. Devemos amá-la com devoção, mas sabendo que ela nos escapa a todo instante. É para dedicar a vida à ela, mas preparar nossa alma para a morte. O que acontece ao final é a reconciliação do paradoxo. As almas se reencontram em um final feliz, mas isso se dá apenas ao seio do Pai. E daqui para lá é chão!

domingo, 20 de novembro de 2016

Os avanços de Jesus na sociedade laica



Inspirei-me em escrever este post quando, participando de uma conversa com estudantes de medicina sobre saúde e espiritualidade, uma das participantes alegou que Deus privilegia os seus escolhidos nas vitórias da história. Algumas considerações muito importantes a respeito disso podemos fazer. 

O privilégio que Deus (o Deus judaico-cristão) concede não é tão agradável assim. Não na vida terrena. A história de boa parte dos heróis é de sofrimento, sacrifício, carregar um povo nas costas, esgotar-se, dedicar-se de corpo e alma, consumir-se por uma causa. O ápice disso é o exemplo de Jesus. 

Os hebreus viviam ansiando a vitória do próprio povo sobre os vizinhos, e, em vez de vitória perene, algumas diásporas se sucederam. Uma intervenção militar lhes devolveu algum Estado-Nação, não sem conflito. 

Mesmo com a chegada do filho de Deus, o chamado Unigênito, haja visto, o Cristo (para os cristãos), mesmo a promessa dele ficou por acontecer, caso estejamos olhando a concretização do prometido na instalação terrena de um, enfim, reino de amor. Pelo contrário, a busca da concretização do "ano aceitável do Senhor", libertando os cativos, gerou muito sangue. 

Depois de todos esses anos, ainda há quem espere, no Cristianismo, a vitória do próprio Deus em cima dos inimigos. Que Deus os esmague, os devore. E que, assim, só haja espaço para si, o escolhido, no reino terráqueo livre dos iníquos. É certa lógica desvendada pela sociologia de Max Weber, analisando a motivação dos yankees protestantes. É, de outro modo, a transposição do próprio ódio e da própria vontade de domínio para as divinas mãos. 

Acreditam que a morte foi inventada pelo pecado. Que o santo viverá rica e eternamente - na Terra. E que o juízo final acalenta um fogo eterno para onde serão lançados os reprovados. 

Bem, gostaria de dizer alguns sinais pelos quais vemos o Reino se instalando entre nós. Levo em consideração muito da sociologia contemporânea e quase nada do que essas esperanças aí de cima almejam:


  • As causas pelas quais viemos morrendo, todas em busca de um reino mundano, estão em falência: a igreja, a causa revolucionária, a pátria;
  • A família vem se tornando cada vez menor, e os pais se dedicando com mais afinco e amor aos poucos filhos. Eles passam a ser nosso motivo de sacrifício;
  • As barreiras das nações vem se pulverizando e tornando o encontro entre povos cada vez mais fácil (e difícil). O desafio, nos diz Zygmund Bauman, é construir, como nunca antes na história da humanidade, uma "comunidade da humanidade";
  • A nossa identidade de povo vem se tornando mais fluida, e cada vez mais tendo de aceitar o outro em nós, tentando entender qual o espaço que ele pode (deve?) ocupar aqui dentro;
  • A liquidez do mundo vem servindo para relativizar as crenças e destronar as castas;
  • O conhecimento vem se tornando de todos e cada vez mais sendo entregue para que todos descubramos juntos o que vale a pena;
  • A preocupação ética entrou nos imperativos da ciência e não tem mais como sair;
  • A filosofia, em toda parte, vem resgatando os sentidos das grandes espiritualidades de todos os tempos. O terceiro milênio será da espiritualidade (laica ou não) ou não será. Mesmo o materialismo, inimigo dos espiritualistas há tanto tempo, procura o espírito, a seu modo;  
  • Aumenta-se a busca das pessoas pelos valores do espírito, por isso que as reflexões morais e metafísicas (sobre o bem, sobre o mal, sobre a felicidade) voltam a chamar a atenção. No meio do século passado era a política. Já não mais;

Esse movimento não vem se instalando sob os cuidados de qualquer oligarquia. As inovações nascidas do espírito humano cavalgam sem rédeas, espaço perfeito para atuação de inteligências supremas. 

Os socialistas abominam o mercado, mas querem construir a própria ditadura, assumindo as rédeas da história (e da economia) com a própria concepção de "o que deve ser o mundo melhor", ignorando a grandeza de cada indivíduo singular. As pessoas vêem estarrecidas novos extrema-direita subir ao trono, mas tudo é fruto do medo da maioria de se deixar abrir.  E vêm a xenofobia e as leis de proteção e insulamento. Era o que Herculano Pires chamava de "os atalhos do Reino". Mas, o céu não se conquista de assalto. 

A história da humanidade pendula entre a genialidade de um povo (e o seu individualismo egoísta conseqüente) e o sentimento de pátria (e a massificação embrutecedora necessária para isso). É o desejo de liberdade de um lado e a busca de segurança de outro. Grosso modo, Atenas e Esparta. O Espiritismo aplaude o gênio e o esforço intelectual, o avanço da tecnologia, pois. Mas, espera o crescimento moral para o restabelecimento dos laços fraternos entre as pessoas. Nossa esperança e esforço, portanto, é a síntese desses dois extremos.

Não já há perfeição. Falta um tanto. Esclarecia Kardec, contudo, que "o que nos parece perturbações são os movimentos parciais e isolados que só nos parece irregulares porque nossa visão é circunscrita." Isso é um jogo de xadrez. Jesus e suas potestades contra os homens que sobem a própria ganância ao topo do mundo. Aos poucos, com tranquilidade, vai colocando os valores caducos em xeque. 

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Sobre solidão



Aqui me afasto um pouco sobre o estereótipo de crescimento espiritual relacionado a um ser ativo, prestativo, caritativo. É que o outro lado da moeda também precisa ser visitado, de tempos em tempos. 

Demos sempre para ver as grandes almas nos seus momentos áureos percorrendo as gentes e fazendo milagres. Habituamo-nos assim a pensar que o grande milagre mesmo é sair do lugar onde estamos e andar para o povo, mexer com ele, ressuscitar os aflitos e desanimados. Assim vimos Jesus fazendo. João, o evangelista, chega mesmo a dizer ao final de suas narrativas:

Há, porém, ainda muitas outras coisas que Jesus fez; e se cada uma das quais fosse escrita, cuido que nem ainda o mundo todo poderia conter os livros que se escrevessem. (João 21:25)
Fazer é o verbo que vive a castigar-nos a atenção. Mesmo aos não-crentes, o modelo que se instalou em nossa sociedade é exatamente este: produção. E talvez mesmo por isso, tendemos a ver Jesus assim: o fazedor. 

Esquecemos que antes de convocar os apóstolos houve dois desertos: o da ausência de qualquer história - oficializada - que nos diga o que estava fazendo ele pela adolescência a fora e o da viagem que ele percorreu enfrentando o seu Oposto longe de todos. Nenhum cristão, em sã consciência interpretativa, diria que esses períodos seriam menos santos do que o capítulo de "fazedor de milagres" e "pregador do povo". 

Cada um dessa forma, considerando a vida de Jesus como modelo, não deveria desperdiçar as oportunidades que temos de:

1. Ter uma história silenciosa de vida;
2. Ter uma viagem pelo próprio deserto a enfrentar o seu oposto longe de todos.

Entendendo que mais cedo ou mais tarde (meu amigo astrônomo diz que isso demora alguns milênios para ocorrer), a Terra desloca seus pólos e o deserto vira mar. É quando, então, somos incitados a nadar entre as gentes de novo e nos aquecer com o calor do povo, bem como nos queimar com as traições, arder com as paixões, amar sem medida. 

A vida é um pêndulo, a solidão um dos fatos extremos. E isso é só. E isso é belo. 



PS.: Amigo distante que vem enfrentando o deserto me diz que há um nome para solidão não-patológica: solitude. Qual não é minha surpresa quando encontro ao dicionário que o significado dela é "solidão poética". 

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

O que temos a comemorar no natal de Jesus



O que nos incita alegria no natal de Jesus?

Estamos diante de uma família pobre, de uma cidade pequena, que teve de enfrentar peregrinação em plena gravidez e que só consegue guarida para dar à luz o menino, no escuro da noite, na imundície de uma estrebaria. Após o seu nascimento, quando a carne da criança ainda se ressente do frio, enfrenta a travessia de um deserto para se esconder de quem lhe queria morto. Enquanto seus pais fogem para lhe manter vivo, um rio de sangue escorre das terras em que acabara de nascer, alimentado pelas veias abertas de mil crianças de infância precoce. As lâminas almejavam que uma delas fosse Jesus. 

Até aqui, nada a comemorar. 

O que festejamos? 

O anúncio de que um ser divino pousaria na carne já tanto sofrida desses achaques autorizados por governantes cruéis. 

A surpresa de ver a esperança de salvação nascendo de onde menos se imaginava que viesse. Uma cidade marginal, uma família desconhecida, de um carpinteiro qualquer. 

A resistência de não fenecer diante da voracidade do mundo dos homens que há muito mastigava os seres humanos com seus dentes ferinos.

A manifestação de anjos entre nós: anunciando a gravidez improvável de Isabel, calando Zacarias, dizendo o nome do menino à Maria, acalmando José, guiando os magos, enganando Herodes,  não cansando de entrar nos sonhos destes personagens para dar nortes e providenciar a sobrevida de Jesus pequenino.  

Festejamos, então, Deus conosco, anunciando a resposta das preces na figura de uma criança que traz libertação, surpreendendo-nos com a forma que responde aos nossos apelos, concedendo resistência para que sua promessa viva não feneça no mal, provocando mensagens que transpassam o abismo que separa os mundos - daqueles que ainda estão na matéria, daqueles que não estão. 

Feliz Natal!

sábado, 5 de dezembro de 2015

Microcefalia segundo o espiritismo (parte 3 - mensagem de consolo)



“O que dizer para uma mãe que descobre que seu filho tem microcefalia e se pergunta o porquê de tudo isso?”


Antes de tudo, importa esclarecer para qual mãe eu diria o que diria. Uma mãe que se pergunta pode procurar as respostas em muitos lugares... Então, de princípio, eu jamais me dirigiria a uma ou várias mães para falar do Espiritismo a menos que elas se mostrassem dispostas a tal; seria uma ofensa, num momento de fragilidade, despejar crenças estranhas a elas. Portanto, apenas diria qualquer coisa diretamente ligada ao Espiritismo caso fosse uma vontade da mãe conhecer mais sobre o assunto, por respeito a ela e sua dor. Com um último adendo: incluo o pai também. Resquícios infelizes ainda nos prendem a uma responsabilidade diminuída do sexo masculino, a qual acho importante refutar e recolocar. O pai responsável ama e sofre como a mãe; junto com ela.

Nesse caso, antes de tudo eu lembraria Deus. Traço comum das religiões, a simples lembrança que temos um Pai amoroso que nunca se descuida de nós tem potencial altamente consolador. A certeza de que alguém olha por nós, velando por todos os nossos passos e cuidando de nossas dores mais ocultas oferece a promessa de uma tranquilidade segura. Não esquecer nem se distanciar de Deus é o primeiro passo.

Contudo, alguém que procura o Espiritismo sabe que isso não basta... Sua alma anseia por mais. Por uma fé com embasamento. Por que eu? Por que meu filho? A Justiça Divina, para ser efetiva, precisa abarcar mais que essa vida. Logo, recorremos a reencarnação. A ciência de que vivemos inúmeras vezes, colhendo e plantando, sucessivamente, abre caminho para novas reflexões. Não sabemos exatamente a razão, mas entendemos os mecanismos.

Mas ainda não é o suficiente saber da sucessão das vidas. Milênios da Lei de Talião impregnados em nossas sociedades dirigem imediatamente o pensamento à culpa do erro castigado. Sinônimo de punição? Não. Não é o que consolará uma mãe, um pai. Será necessário participa-los da grandeza Divina. Deus não é mero punidor, que nos faz “pagar” os erros em moeda de sofrimento. Reencarnação, provas e expiações são apenas os meios de um fim: o aprendizado, o alcance da perfeição, o conhecimento de si mesmo e a ação regida pelas Leis Naturais. Sob esse novo panorama, não sabemos se punição, se consequência, se missão; sabemos apenas que, seja o que tenha sido, o véu nos foi estendido para que nos concentremos no que há a fazer, em vez de estarmos atados improdutivamente ao que foi. É a melhor oportunidade que nos cabe, oferecida segundo a misericórdia do Pai. Novo recomeço. Chance renovada de se fazer melhor que o ontem. Redenção pelo amor. Eis a tarefa.

E... o que fazer, de fato, de posse desse novo olhar? Amar. As dificuldades que se apresentarem, que oferecerem resistência à ideia do amor são exatamente o que deve ser combatido em nós mesmos. Como todo véu, sob a luz adequada é possível ver vultos por trás do ocultamento; cada mancha que se revele contra a luz é sinal de luta passada ainda por vencer. Orgulho, vergonha da sociedade, medo de falhar, dificuldades materiais... Tudo aponta para o que já fomos e o que precisamos vir a ser.

Conscientes da verdade de que o Senhor da Vida olha por nós, que não nos desampara, que oferece a redenção pela justiça através das melhores oportunidades, segundo a nossa semeadura, o caminho está traçado. Não poupará levianamente das dores nem das lutas. Mas provará, diariamente, que o alcance da felicidade só depende de nós. Na perseverança por agir no bem e na sabedoria do olhar consciente que lançamos à nossa própria condição. Munidos da fé raciocinada, da esperança no futuro e tendo a caridade como força motriz, inevitavelmente venceremos, em paz.

Por Erick Machado

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Microcefalia segundo o espiritismo



O momento para o Brasil é de pesar. Um surto de malformações fetais onde se predomina a microcefalia desespera a população e, para piorar a história, o Nordeste é vítima da maior parte dos casos, superpondo esse sofrimento ao da seca. As notícias sobre os agravos aumentam e vazam com a leviandade dos boatos. 

Venho aqui para tentar pensar qual o motivo dessa tragédia entre nós. Vou elencar algumas correntes de pensamento espírita que provavelmente fundamentarão explicações daqui em diante nos relatos mediúnicos, esperando que algum me surpreenda e fortaleça-nos ainda mais.


A tese das expiações evolutivas ou das dores do parto 


Um surto que acomete populações inteiras pode ter relação com uma leva de Espíritos reencarnantes, cujo tempo para a progressão moral se finda no avançar da hora da maturação do planeta. A humanidade, nestes últimos séculos, se ressente das dores de um parto que custa a acabar, cujos momentos de seu curso se refletem na eclosão de violências, no escancaramento de vícios e corrupções, e, agora, na materialização de meios propícios para a vivência de dores de resgate e aprendizado.

Parteja-se aqui um mundo melhor, entregue em breve às luzes de um descanso de regeneração para o corpo social sofrido. 


Sobre o caráter dos Espíritos envolvidos


Quando carregados de escolhas ruins, estas fragilizam seu perispírito, órgão espiritual que plasma o corpo físico, fazendo com que as malformações emerjam. As limitações extremas do corpo conduzem o Espírito a um aprendizado de seus movimentos interiores, de suas emoções, e mesmo os pais e familiares passam a ler as lições trazidas pelas próprias vulnerabilidades. 

Acontece de grandes almas escolherem reencarnar em um corpo débil. Almejam mais iluminação ao sofrerem com as ilusões da dor. Pensam também em se engajarem em contexto de aprendizado para os pais, sendo instrumentos para tanto. 

Ocorre de igual modo que pais abnegados tenham escolhido receber Espíritos em situação de resgate expiatório, e, assim, acolhem aquele sofrimento com devotamento ímpar.


Sobre a "culpa" da natureza 


O Espiritismo tenta mostrar que a natureza não é nossa inimiga. Uma superficial visão ecológica nos faria entender que os ciclos de vida e morte são inevitáveis, que as doenças são caminhos possíveis. A imortalidade da alma nos deixa estagiários destes processos. 

É verdade, porém, que viemos, com nossa tecnologia, alargando vários limites da natureza. Algumas dessas nossas tentativas descambam em não menos naturais desequilíbrios que nos convidam a empreender melhores respostas. 

Não se defende o crescimento zero, mas o crescimento bem guiado pela inteligência e pela ética a fim de tornar o desenvolvimento o mais democrático possível. Somos destinados a fazer imperar o cosmos sobre o caos, mas nunca em benefício de uma oligarquia olímpica. As tentativas que se direcionam para o privilégio são corrupções da nossa missão e sempre tendem a desandar. 

De outro modo, assim como em pequena escala o Espírito é responsável pelo origami do corpo, em larga escala, nossas ações como humanidade se refletem em tudo que nos é considerado meio de existência. Está perfeitamente conforme à cosmovisão espírita pensar que as catástrofes naturais possam refletir o estado de espírito dos homens e mulheres, formando bolsões de miasmas que se precipitam sobre nós o que, aos tempos do Egito antigo, foram considerados como pragas, e que, todavia, tinha menos a ver com a ação direta de Deus do que com a repercussão dos nossos atos sobre o mundo. 


A missão do Brasil


Certa corrente do pensamento espírita imagina ser o Brasil um grande acolhedor das práticas do Evangelho. E, como ele tivesse sido destinado por Jesus para acolher os aflitos do mundo, é provável que alguém nos fale que os Espíritos envolvidos em crimes de outras nações estejam sendo destinados para compor nossas novas crianças cujos corpos débeis servem de poderoso cadinho para as transformações viscerais do espírito imortal. 

O que todas essas teses apontam é que não devemos vestir a túnica dos coitados do mundo, que o desespero deve ser convertido em trabalho, que o amor pelo próximo e o acolhimento dos debilitados deve ser, mais do que nunca, a tônica de nossos corações. 


Leia também:

* O comentário que faço à contribuição de leitores desse assunto: link
** Uma mensagem de consolação escrita por um leitor endereçada à família vivendo com  a situação da microcefalia: link
*** Outros diálogos que andei tendo com leitores deste blog: link


sábado, 24 de janeiro de 2015

A grandeza de Jesus

É menos por causa de Lázaro
Por mais podre que aquele cadáver estivesse
Tão pouco por causa da ressurreição
Sei que ela dividiu a história e os homens
Mas, não é por causa dela.

Seus encantos?

Sobre
Coxos
Cegos
Leprosos
Febris
Expulsando demônios - também não!

Seu perdões?

A
Ladrões
Prostitutas
Publicanos
Castigados - não, acho que não.

Uma menina
Sim, aquela menina
A tranqüilidade dele ilhada pela angústia dos pais
De todos

A menina morta...
Morta?

- A menina dorme!

E riam-se dele.
Essa é a melhor parte:
Riam-se dele!

Da sua visão de mundo
Nós: é morte
Ele: são sonhos
Nós: sobreviventes
Ele: vivo

"Pegou-lhe na mão, e ela se levantou". 

sábado, 3 de janeiro de 2015

Fortalecendo o ateísmo de um amigo



Certo dia um membro da igreja evangélica me disse que nosso espiritismo era fraco porque não buscávamos converter as pessoas, espalhar nossa verdade. Senti-me elogiado. Tenho certo repúdio a proselitismo. Muitas pessoas morreram por causa disso: da insistência de as querer em nossa verdade. 

Mas, duas coisas me satisfazem: 1. Que uma pessoa já sequiosa pela mensagem que carrego no peito me procure; 2. Que eu consiga fazer com que uma crença boa, diferente da minha, seja fortalecida. 

Percebo que muitos ateus, hoje em dia, vêm abandonando seu pessimismo e falta de amor. Até mesmo falam de certa espiritualidade sem Deus. É isso que faz com que eu ache que o ateísmo pós-moderno vem se tornando uma ótima crença (para dizer que Deus não existe é fazer uma inferência que é um salto tanto quanto a fé - não crer é crer em negativo), embora não me sirva. A coisa está tão séria, que alguns espíritas cogitam fundar um espiritismo sem Deus. O que acho uma falácia. 

Inauguro aqui mais um marcador para esse blog: Espiritualidade Laica. Vou escrever sobre a saga de mostrar ao meu amigo ateu que ele pode sim ter uma espiritualidade, um ideal de sabedoria que otimize sua vida atéia, suas relações com os outros e com as próprias angústias.  

Temporariamente estará disponível este áudio que gravei comentando um capítulo sobre Jesus - pensamentos de um filósofo ateu:

https://soundcloud.com/allan-denizard-1/grava-o-2

Espero que lhes seja útil e engrandecedor!

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Respondendo natalinas perguntas ou Sobre a árvore, os presentes e o materialismo



O jovem: 

"E o que vocês tem a dizer sobre árvore, presentes, materialismo... e sei lá.  Acho que tem tanto sobre natal que extrapola o nascimento de Jesus.  Mas, talvez ficasse extenso demais, mesmo. (...) E o pensamento racional ao qual tu se propõe também deveria considerar que provavelmente Jesus nem nasceu no dia 25 de dezembro. (...) O que me chamou atenção, no final, é que tu se refere a Jesus como Deus, no fim do texto. Pera, deixa eu ver aqui se acho o quote: "o parto dessa Divina Criatura que ESCOLHEU nascer em condições tão deprimentes entre nós para mostrar, a partir de baixo, como o humano pode se elevar às mais cristalinas alturas."

  •  Sobre árvore, presentes e materialismo: 
Depende do espírita. Tem deles que vai dizer: "Materialismo abominável! Nos faz esquecer que o que importa é o aniversário das lições de Jesus que nos libertava das ilusões deste mundo." Eu digo: "É lindo!"

A árvore nos devolve a um culto ao redor de seres vivos com potencial para viver bem mais que a gente e testemunhar gerações. Ainda me lembro* que papai costumava enfeitar de lâmpadas coloridas a laranjeira que nasceu em nossa casa do sertão, aguada pela sujeira que escorria de nossos corpos - meu, de minha irmã e do meu primo -  pelados ao pé do tanque. Então, a árvore, para mim, tem gosto de lembrança do papai e da mão da mamãe ensaboando meu corpo. 

Os presentes. Minha esposa sai em busca de gastar o décimo terceiro nosso com cada pessoa próxima a quem ela quer muito bem, e mesmo para os distantes a quem ela deve respeito. Às vezes a gente nem recebe de volta nada. Então, uma grande lição me proporciona: amar sem esperar de volta.

E o materialismo. O que seria de nós se não fosse a matéria? Penso em beijos, cheiros e abraços quando falo nisso. 

Da data de nascimento de Jesus. Sério?! Que me importa se algum imperador do passado baixou um decreto criando essa data? Que Jesus tenha nascido dois meses antes ou dois meses depois só vale para os astrólogos que ficam tentando saber de que signo seria o menino. De novo: me é querida a data em que, lembrando o "amai-vos uns aos outros como eu vos amei", tentamos, no maior consenso da civilização ocidental possível, nos aproximar do aniversariante por esses caminhos: árvore, presentes e matéria. 

Sobre o fato de Jesus ter escolhido o próprio nascimento. Só um deus escolhe nascer, não é? Humanos são nascidos, confere? É que acreditamos que Jesus, embora não sendo Deus, era deus suficiente para já não estar submetido a obrigações de ciclos de renascimento. Nascer entre nós, os necessitados disso, foi uma escolha de retorno para nos mostrar o caminho que conduz a libertação dessa necessidade, bastas vezes dolorosa. Ou talvez, ensinar que esses ciclos não precisam ser dolorosos. E o quanto de dor ele sofreu para nos ensinar isso, não é? Mas, isso, querido, é um artigo de fé espírita. Foge um pouco da filosofia. Sim, também temos artigos de fé. Podemos viver sem ter? 

Mas, tipo, lembrar que possuímos escolha de amar ou não as pessoas, aceitar que, semelhante ao Cristo, apesar das contingências, SOMOS ESCOLHA, me faz sentir livre para ser um pouco mais do que sou a favor daquele que não é como eu. Esse movimento, de sair da certeza de si para o mistério do outro, é uma das definições de caridade. 

* Não dá para responder sobre essas datas comemorativas sem ser algo completamente pintado com as próprias vivências.



sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

O Natal para o espírita



Em um ano desses, um grupo de estudante de medicina que empreendia uma atividade de promoção à saúde de idosos assistidos por um centro espírita decidiu realizar o natal deles. Um dos integrantes ponderou:

- Mas, tem que tomar cuidado sobre falar em Jesus, afinal, são espíritas, não é?

A ideia do garoto, imagino, é que somos completamente indiferentes à Jesus, até mesmo hostis. Dedução feita, talvez, do fato de o não considerarmos Deus encarnado. 

Passava ao largo do conhecimento do graduando o quanto Jesus era a base da moral espírita, que a prática de suas palavras nos são o maior caminho de salvação possível. Não que as utilizemos para rebaixar outras doutrinas, mas que - é nossa crença - servindo às suas máximas ao máximo, poderíamos entrar, com maior certeza, no reino interior de nossa serenidade de espírito. A forma mais sublime de amor, o conceito mais elevado de Deus, o futuro médico não pensava que os tínhamos tomado totalmente de Cristo. Ignorava completamente o que Kardec enfrentou ao ter filiado a doutrina espírita à cristã: o anátema da igreja, o escárnio dos cientistas. 

Não o considerar Deus, mas um modelo a seguir, o maior modelo, deve levar o espírita, neste dia, a agradecer ao Criador o parto dessa Divina Criatura que escolheu nascer em condições tão deprimentes entre nós para mostrar, a partir de baixo, como o humano pode se elevar às mais cristalinas alturas. 

P.S.: Um leitor desse blog me fez perguntas sobre o natal para o espírita. Confira as respostas aqui.