Mostrando postagens com marcador Espiritualidade Laica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Espiritualidade Laica. Mostrar todas as postagens

domingo, 20 de novembro de 2016

Os avanços de Jesus na sociedade laica



Inspirei-me em escrever este post quando, participando de uma conversa com estudantes de medicina sobre saúde e espiritualidade, uma das participantes alegou que Deus privilegia os seus escolhidos nas vitórias da história. Algumas considerações muito importantes a respeito disso podemos fazer. 

O privilégio que Deus (o Deus judaico-cristão) concede não é tão agradável assim. Não na vida terrena. A história de boa parte dos heróis é de sofrimento, sacrifício, carregar um povo nas costas, esgotar-se, dedicar-se de corpo e alma, consumir-se por uma causa. O ápice disso é o exemplo de Jesus. 

Os hebreus viviam ansiando a vitória do próprio povo sobre os vizinhos, e, em vez de vitória perene, algumas diásporas se sucederam. Uma intervenção militar lhes devolveu algum Estado-Nação, não sem conflito. 

Mesmo com a chegada do filho de Deus, o chamado Unigênito, haja visto, o Cristo (para os cristãos), mesmo a promessa dele ficou por acontecer, caso estejamos olhando a concretização do prometido na instalação terrena de um, enfim, reino de amor. Pelo contrário, a busca da concretização do "ano aceitável do Senhor", libertando os cativos, gerou muito sangue. 

Depois de todos esses anos, ainda há quem espere, no Cristianismo, a vitória do próprio Deus em cima dos inimigos. Que Deus os esmague, os devore. E que, assim, só haja espaço para si, o escolhido, no reino terráqueo livre dos iníquos. É certa lógica desvendada pela sociologia de Max Weber, analisando a motivação dos yankees protestantes. É, de outro modo, a transposição do próprio ódio e da própria vontade de domínio para as divinas mãos. 

Acreditam que a morte foi inventada pelo pecado. Que o santo viverá rica e eternamente - na Terra. E que o juízo final acalenta um fogo eterno para onde serão lançados os reprovados. 

Bem, gostaria de dizer alguns sinais pelos quais vemos o Reino se instalando entre nós. Levo em consideração muito da sociologia contemporânea e quase nada do que essas esperanças aí de cima almejam:


  • As causas pelas quais viemos morrendo, todas em busca de um reino mundano, estão em falência: a igreja, a causa revolucionária, a pátria;
  • A família vem se tornando cada vez menor, e os pais se dedicando com mais afinco e amor aos poucos filhos. Eles passam a ser nosso motivo de sacrifício;
  • As barreiras das nações vem se pulverizando e tornando o encontro entre povos cada vez mais fácil (e difícil). O desafio, nos diz Zygmund Bauman, é construir, como nunca antes na história da humanidade, uma "comunidade da humanidade";
  • A nossa identidade de povo vem se tornando mais fluida, e cada vez mais tendo de aceitar o outro em nós, tentando entender qual o espaço que ele pode (deve?) ocupar aqui dentro;
  • A liquidez do mundo vem servindo para relativizar as crenças e destronar as castas;
  • O conhecimento vem se tornando de todos e cada vez mais sendo entregue para que todos descubramos juntos o que vale a pena;
  • A preocupação ética entrou nos imperativos da ciência e não tem mais como sair;
  • A filosofia, em toda parte, vem resgatando os sentidos das grandes espiritualidades de todos os tempos. O terceiro milênio será da espiritualidade (laica ou não) ou não será. Mesmo o materialismo, inimigo dos espiritualistas há tanto tempo, procura o espírito, a seu modo;  
  • Aumenta-se a busca das pessoas pelos valores do espírito, por isso que as reflexões morais e metafísicas (sobre o bem, sobre o mal, sobre a felicidade) voltam a chamar a atenção. No meio do século passado era a política. Já não mais;

Esse movimento não vem se instalando sob os cuidados de qualquer oligarquia. As inovações nascidas do espírito humano cavalgam sem rédeas, espaço perfeito para atuação de inteligências supremas. 

Os socialistas abominam o mercado, mas querem construir a própria ditadura, assumindo as rédeas da história (e da economia) com a própria concepção de "o que deve ser o mundo melhor", ignorando a grandeza de cada indivíduo singular. As pessoas vêem estarrecidas novos extrema-direita subir ao trono, mas tudo é fruto do medo da maioria de se deixar abrir.  E vêm a xenofobia e as leis de proteção e insulamento. Era o que Herculano Pires chamava de "os atalhos do Reino". Mas, o céu não se conquista de assalto. 

A história da humanidade pendula entre a genialidade de um povo (e o seu individualismo egoísta conseqüente) e o sentimento de pátria (e a massificação embrutecedora necessária para isso). É o desejo de liberdade de um lado e a busca de segurança de outro. Grosso modo, Atenas e Esparta. O Espiritismo aplaude o gênio e o esforço intelectual, o avanço da tecnologia, pois. Mas, espera o crescimento moral para o restabelecimento dos laços fraternos entre as pessoas. Nossa esperança e esforço, portanto, é a síntese desses dois extremos.

Não já há perfeição. Falta um tanto. Esclarecia Kardec, contudo, que "o que nos parece perturbações são os movimentos parciais e isolados que só nos parece irregulares porque nossa visão é circunscrita." Isso é um jogo de xadrez. Jesus e suas potestades contra os homens que sobem a própria ganância ao topo do mundo. Aos poucos, com tranquilidade, vai colocando os valores caducos em xeque. 

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Para meu amigo ateu: A gratidão




Fui interpelado hoje para atender a uma conhecida de uma amiga. Ao final, ela me agradeceu. Eu disse que estava fazendo a obrigação que o livro me preconizava: a garota apresentava uma dor de cabeça com sinais de alarme. Ela disse que entendia, mas que mesmo assim agradecia. Fiquei sem jeito e feliz. 

Gratidão não é um sentimento que precisa de um favor para acontecer, basta uma troca. Nem precisa que seja entre pessoas. Podemos agradecer ao Sol depois de um longo período de chuvas. Às chuvas depois de um longo período de sol. E isso não é adoração à um deus. É adoração. 

Não digo que aquela amiga me adorou. Bem, não nesse sentido religioso. Adorou o que fiz por ela. Minha abertura. E a vontade de extravasar a leveza que sentiu quando me propus a assumir aquele peso de preocupação que carregava gerou gratidão, graça, o contrário de gravidade. 

É uma paixão alegre. Diz mais a respeito de quem agradece do que de quem é alvo dessa gratidão. Mostra um coração aberto para fora que permite ser tocado por o que vem de lá. Amor: uma alegria que tem sua causa em um ato exterior que lhe acompanha.

- Obrigado por você existir!

Que responsabilidade temos pela nossa existência? Nenhuma. E essa frase não deixa de ser uma das mais tocantes que conheço. 

Meu amigo, o ato de agradecer é um triunfo do "sim, para a vida!", no que ela tem de enriquecedora da nossa potência de existir.  Saltar de cima de uma tábua no meio de uma lagoa, os três irmãos juntos sendo cristalizados numa foto que lhes deixa voando para sempre! 

Sei que já compartilhei com você este poema, mas aqui cabe a sua volta gratamente:

Passagem da noite


É noite. Sinto que é noite
não porque a sombra descesse
(bem me importa a face negra)
mas porque dentro de mim,
no fundo de mim, o grito
se calou, fez-se desânimo.
Sinto que nós somos noite,
que palpitamos no escuro
e em noite nos dissolvemos.
Sinto que é noite no vento,
noite nas águas, na pedra.
E que adianta uma lâmpada?
E que adianta uma voz?
É noite no meu amigo.
É noite no submarino.
É noite na roça grande.
É noite, não é morte, é noite
de sono espesso e sem praia.
Não é dor, nem paz, é noite,
é perfeitamente a noite.

Mas salve, olhar de alegria!
E salve, dia que surge!
Os corpos saltam do sono,
o mundo se recompõe.
Que gozo na bicicleta!
Existir: seja como for.
A fraterna entrega do pão.
Amar: mesmo nas canções.
De novo andar: as distâncias,
as cores, posse das ruas.
Tudo que à noite perdemos
se nos confia outra vez.
Obrigado, coisas fiéis!
Saber que ainda há florestas,
sinos, palavras; que a terra
prossegue seu giro, e o tempo
não murchou; não nos diluímos.
Chupar o gosto do dia!
Clara manhã, obrigado,
o essencial é viver!



(Boa noite! Dorme em paz que amanhã... salve!)

sábado, 17 de janeiro de 2015

Para meu amigo ateu: A felicidade des-esperadamente



Uma das suas críticas contra aquele texto que te passei foi que aquela felicidade do momento presente era utópica, provavelmente mais metafísica do que a esperança.

O que dizia Sponville sobre a felicidade do momento presente (des-esperada)? Que a esperança era um engodo, pois era um tipo de desejo sem gozo, sem saber, sem poder. Sem gozo, porque só se espera aquilo que falta. Sem saber, porque só se espera aquilo que se ignora de fato. Sem poder, porque só se espera aquilo que não se pode conquistar, do contrário, já se teria feito. 

Tudo isso o conduzia para querer viver uma forma de existir mais em busca da fruição, da lucidez e da ação. Para isso, uma das virtudes essenciais seria a aceitação, que assim ele define em outro momento:


A.cei.ta.ção: Aceitar é fazer seu: é acolher, receber, consentir, é dizer sim ao que é, ao que acontece. É a única maneira de viver homologoúmenos, como se dizia em grego, isto é, em concordância, indissoluvelmente, com a natureza e com a razão. Recusar? Para quê, se isso não altera em nada o que é? É melhor aceitar e agir. (...) A aceitação verdadeira é alegre [senão seria tolerar, o que poderia até ser uma virtude, embora forçada, ou pior, suportar, que é uma paixão triste: "eu te suporto", sinta o peso dessa afirmação]. É nisso que ela é o conteúdo prinicipal da sabedoria. Assim, em Montaigne: "Aceito de bom grado, e reconhecido, o que a natureza fez por mim, e me satisfaço com isso, e me louvo por isso..." Ou em Prajnanpad: "O que tenho a lhes dizer é muito simples e pode se resumir numa palavra: sim. Sim a tudo o que vem, a tudo o que acontece... O caminho é saborear os frutos e a riqueza da vida..." O caminho é compreender que o caminho só há um, que é o mundo, e que ele é para pegar ou largar. Aceitar é pegar.
Claro, você pode me argumentar, como de fato o fez, que há mal demais no mundo para se acolher em si. A argumentação para defender o ponto de Sponville pode se tornar densa demais ao ponto de nos convencer que mais fácil seria não a aceitar. Antes disso, convido-o para perceber que, se não podemos dizer sim ao total da realidade, à parte dela é possível. 

Exemplos: Às vezes me pego olhando para meu filho perguntando quando ele vai dizer "papai". E enquanto me pergunto isso, perco todas as palavras que ele já balbucia. Se toda vez que a alma de minha esposa estiver aflita, eu for tentar forçá-la a se abrir e me falar, perderei a doce oportunidade do silêncio que aceita o silêncio e a acolhe nos braços, apenas, sem questionamento. 

As palavras presentes do filho. A realidade presente da esposa. A fruição do presente. Poderia falar ainda do efeito que as notas de uma flauta tem quando são tocadas com maestria. Ouvi-las: aceitá-las. Ou ainda das qualidades de uma boa amizade. O amor do encontro, o gozo das horas. Mais fundo, mais difícil: não confundir o amor que se tem pelo próprio pai, as boas lembranças (quando elas realmente existiram), com a finada paixão de seus pais. Esta sangra, mas aquele pulsa! 

Todavia, eu também amo a esperança, ao contrário do materialista. Sou fã das coisas que ainda não são, por causa do ainda de que são grávidas. Sponville diz: sem gozar porque falta - mas algumas faltas não são absolutas, são prenúncios, são profecias, são pancadas de chuva, é saber que por aí vem arco-íris; sem saber porque se ignora - mas é uma humildade saber-se ignorante, pequeno e menor do que tanta coisa que nos transcende, tantos mistérios, e há curiosidades que são gostosas de se ter no corpo; sem poder porque é impossível a conquista - de fato, não posso oferecer a lua ao meu amor, mas, aprenda essa, elas amam a intenção! 

Sobre os meninos de Ruanda, as guerras, as pestes, concordo: a esperança. E nesses casos não a vejo como tristeza, nem muito menos como a crença de ignorantes. É a essência dos sobreviventes e desejosos de mais vida. Sobre ela falo na próxima. E ainda sob uma perspectiva laica. 

P.S.: Resposta do meu amigo:


Aceitei cada nota.

sábado, 3 de janeiro de 2015

Fortalecendo o ateísmo de um amigo



Certo dia um membro da igreja evangélica me disse que nosso espiritismo era fraco porque não buscávamos converter as pessoas, espalhar nossa verdade. Senti-me elogiado. Tenho certo repúdio a proselitismo. Muitas pessoas morreram por causa disso: da insistência de as querer em nossa verdade. 

Mas, duas coisas me satisfazem: 1. Que uma pessoa já sequiosa pela mensagem que carrego no peito me procure; 2. Que eu consiga fazer com que uma crença boa, diferente da minha, seja fortalecida. 

Percebo que muitos ateus, hoje em dia, vêm abandonando seu pessimismo e falta de amor. Até mesmo falam de certa espiritualidade sem Deus. É isso que faz com que eu ache que o ateísmo pós-moderno vem se tornando uma ótima crença (para dizer que Deus não existe é fazer uma inferência que é um salto tanto quanto a fé - não crer é crer em negativo), embora não me sirva. A coisa está tão séria, que alguns espíritas cogitam fundar um espiritismo sem Deus. O que acho uma falácia. 

Inauguro aqui mais um marcador para esse blog: Espiritualidade Laica. Vou escrever sobre a saga de mostrar ao meu amigo ateu que ele pode sim ter uma espiritualidade, um ideal de sabedoria que otimize sua vida atéia, suas relações com os outros e com as próprias angústias.  

Temporariamente estará disponível este áudio que gravei comentando um capítulo sobre Jesus - pensamentos de um filósofo ateu:

https://soundcloud.com/allan-denizard-1/grava-o-2

Espero que lhes seja útil e engrandecedor!