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segunda-feira, 26 de março de 2018

O poder magnético da prece



Fui convidado para falar sobre o poder magnético da prece. Quando, em meio espírita, assim nos solicitam, um nome não pode deixar de ser mencionado: Mesmer.

Allan Kardec, embora tenha nascido para o círculo intelectual francês com os dotes de professor de crianças ao estilo pestalozziano, enveredou por vários campos do saber, culminando em ser um dos mais eminentes estudiosos do magnetismo animal ou mesmerismo.

Conhecemos as práticas magnéticas popularmente sob a alcunha de hipnotismo. O que diferencia a sugestão hipnótica moderna da exercida à época de Kardec é a explicação do fenômeno.

O cotidiano nos apresenta o magnetismo pelo comportamento ferromagnético de alguns metais, são as experiências de imantação. O que elas nos dizem é que alguns corpos na natureza podem influenciar outros corpos sem forças de contato. O médico Franz Anton Mesmer (1734-1815) verificou que essa propriedade era extrapolável para a natureza humana, chamando a isso de magnetismo animal. Essa influência pode ser tanto benéfica quanto maléfica. Podemos, portanto, modificar o moral de outros corpos auxiliando-os ou prejudicando-os. O Dr. Mesmer empregou isso de forma médica e desenvolveu uma teoria explicativa.

Para que um corpo exerça influência sobre outro a distância era preciso que algo os conectasse de algum modo, fazendo com que a substância de um estivesse em relação direta com a do outro. Se não havia matéria palpável e visível para tanto, deveria haver uma matéria sutil entre ambos, passível de ser afetada pelo impulso que um deles emitia, transmitindo este impulso para o outro, que sofreria suas consequências. A esta matéria sutil deu o nome de fluido cósmico. Aproveitava assim uma crença anterior de que todos os corpos estavam imersos em uma grande massa quintessencial chamada éter. No éter nos movemos, afetamo-lo e por ele somos afetados. Eis uma explicação quase nunca abordada de onde o filósofo Baruch Spinoza (1632-1677) tirou sua ideia de uma substância divina causa primária de todos os seres como afetos de seu grande corpo cósmico.

Dessa forma a explicação fica fácil tanto para o magnetismo mineral quanto para o animal. A afetação recíproca dos corpos é possível porque estamos mergulhados nessa substância sutil capaz de se deformar e propagar a deformação característica imprimida sobre ela.

O mesmerismo, febre que foi por um tempo, passou a ficar à margem das ciências médicas, escanteado como charlatanismo, superstição. Recentemente, os estudos de antropologia cultural voltaram a analisar os fenômenos de influência não tangível que alguns humanos poderiam exercer sobre outros, particularmente em culturas xamânicas. O mais notável antropólogo que divulgou estes estudos foi Claude Levi-Strauss (1908-2009). Em seu trabalho "o Feiticeiro e sua Magia” ele descreve a morte provocada por rituais e palavras de encantamento. Contudo, a explicação que agora era dada para a questão passava ao largo de qualquer concepção de massa etérica, referindo-se, então, a certa estrutura simbólica compartilhada entre os indivíduos partícipes do ritual. Por esse modelo explicativo, apenas pessoas mergulhadas na mesma estrutura simbólica eram passíveis de serem afetadas pelas palavras e gestos do xamã. 


O que dizer, no entanto, das curas que Jesus provocava à distância, como aquele do servo do centurião romano?

"Entrou Jesus em Cafarnaum. Um centurião veio a ele e lhe fez esta súplica: Senhor, meu servo está em casa, de cama, paralítico, e sofre muito. Disse-lhe Jesus: Eu irei e o curarei. Respondeu o centurião: Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha casa. Dizei uma só palavra e meu servo será curado. (…) Dirigindo-se ao centurião, disse: Vai, seja-te feito conforme a tua fé. Na mesma hora o servo ficou curado." (Mateus 8:5-8; 13)

O centurião, que era romano, não participava da mesma estrutura simbólica de Jesus, que era judeu. O servo estava distante e, embora talvez tivesse fé, não previa o momento das palavras e gestos de Jesus para “na mesma hora” ser curado. A explicação, pois, estruturalista do Prof. Strauss não cabe nesse contexto, sendo mais coerente retornarmos a noção do fluido cósmico afetado por Jesus para propagar a energia de cura.

O que essa discussão deve provocar é o aumento de nossa convicção a respeito da força de nossos gestos e dizeres a favor ou contra as pessoas. Toda vez que abençoar um filho ou um amigo saiba que essa bênção é mais do que um símbolo que hoje, nessa sociedade cada vez mais dispersa, tem cada vez menos valor. A bênção, ou a maldição - que seja sempre a bênção! -, tem força de contato (afago ou punhal) sobre as pessoas, quer elas queiram ou não. E quando alimentado por um grupo inteiro geram aquele clima benfazejo ou funesto, leve ou pesado, de certos lugares.

De outro modo, sobre as preces de caráter petitório direcionadas a Deus, além do chamado da ação direta de Deus em nossa vida, utilizando o modelo explicativo mesmeriano, atuam modificando o fluido cósmico ao nosso redor tornando-nos mais favoráveis de receber influências e promover ações que facilitem a consecução de nosso desejo.

Mais cuidado com nossas preces!

sábado, 13 de abril de 2013

Lei? Que lei?!




Eu gosto de comédia. Não há quem negue ao me conhecer. Ela tem um poder de modificar significados, revisitar lugares comuns. 

A ironia é um tipo de comédia (ab)usada por Voltaire para criticar uma igreja que não mais satisfazia. Segundo Sponville, ela “põe à distância, afasta, repele, rebaixa. Ela visa menos rir do que fazer rir. Menos divertir do que desenganar. Como Sócrates, com relação a todos os saberes, e ao seu próprio.” Ironia, vem do grego, eroneia que é interrogar. 

Esse vídeo do Porta dos Fundos brinca com a primeira apresentação do Decálogo. Não tenhamos a ingenuidade de nos sentir feridos, aqueles que têm o decálogo como primeira Lei Divina, porque afinal não aconteceu assim. As mentes eram outras. E a virtude dessa cena é nos fazer revisitar aquele momento crucial para a história da nossa civilização judaico-cristã com os olhos dos pós-modernos.  

Mas tudo começa com os argumentos dos modernos, e bem no estilo voltairiano, encontramos, por exemplo, Kant que buscava fundar uma lei moral sobre o princípio maior da ação desinteressada. A virtude deve ser uma que, mesmo contrariando meus interesses, a ela eu ceda porque é o bem da humanidade. Os contra-argumentadores de Moisés insistem que os mandamentos são muito cômodos para ele, isso basta para desconfiar. Há Rousseau, no seu discurso contra o inspirado, que rejeita uma verdade revelada (“Porque Deus falou!”) por uma razão fundamentada.

O argumento sobre o ponto de inflexão da Lei é um dos que mais faz pensar. E quando não havia Lei? E quando meu Espírito atravessou exatamente o deserto da mudança? Sob que lei deverei ser julgado? Uma condenação eterna para um ato que não estava submetido a essa nova consciência é de uma injustiça diabólica. Uma flexibilidade diante do impasse é de uma esperteza humana. Onde está a marca do divino na resolução desse problema? Filigrana? Seria para quem está salvo, mas para o condenado, qualquer brecha lhe é companheira. 

A ironia é assim: desestabiliza até o esgotamento. Mas aí pára. Três décadas são necessárias para se construir uma verdade, três segundos para destruí-la. A verdade que Moisés trazia pretendia ter sido forjada no tempo do infinito e pela eternidade durar, conforme a marca Daquele que assinou. Quatro minutos (filhos de quatro séculos de crítica) foram necessários para nos confundir, para nos fazer rir (50.000 gostaram), para enfurecer os que prestam culto ao Torá (5.000 não) há três milênios. 

Mas, e depois? Eis a marca do pós-moderno. Nossa crítica evoluiu de tal forma que saiu do nosso controle. Destruiu nossas espiritualidades mais caras. Não sobrou pedra sobre pedra para que fosse gravada nelas qualquer lei, ainda que com “l” minúsculo. 

Mas, Porta dos Fundos nos dá uma dica do que sobra como valor sagrado: “Quer dizer que você ama mais a Deus do que você ama sua mulher?”. A mente pára, o coração fibrila, a fala treme. Um novo sagrado se anuncia. Não há mais como conceber um amor por algo que não tenha carne. Todavia, não basta a carne para o amor. Se Deus pedisse para matar o seu filho hoje, o que você faria? Mataria Deus! E se nova Lei surgisse dizendo que o seu filho ou a sua mulher são tão amáveis quanto Deus? Que esse amor não deve ser imiscível? Uma Lei que unisse Corpo (o que é falível) e Espírito (o que não é).

Não, já não precisa mais condenação para me convencer. Só me basta convidar. "Vinde a mim..."