Amiga: Bom dia, Allan! Por favor, tira uma dúvida. A senhora que está morando na antiga casa do meu avô, disse que ele está aparecendo pra ela e pedindo pra família rezar por ele, mandar fazer missa e acender vela. Essa senhora não o conhecia, mas está com muito medo. Como é que a gente pode saber se é verdade? Poderia ser uma alucinação, mas o conteúdo não é compatível. Apesar do medo, não há outros comemorativos para um surto psicótico. Enfim...
Resposta: A história de vida dele é de alguma forma compatível com que ele, depois da morte, esteja precisando de amparo? Se sim, não custa nada rezar na intenção dele. Se não, não haveria porque se exasperar com essa pretensa revelação da senhora que está lá. Claro que é impossível, no fundo, saber a vida íntima de alguém, e saber se ela realmente não esteja precisando de ajuda. Mas, de todo modo, se fizer muito tempo que ele faleceu, por que ainda não conseguiu receber ajuda de seu anjo-da-guarda? O anjo-da-guarda é infinitamente mais poderoso do que qualquer um de nós.
Uma boa prece seria pedir luz para que ele consiga enxergar o próprio anjo, às vezes as pessoas se fecham para a ajuda. Outra coisa que acontece é Deus permitir a comunicação de um ente querido a fim de que a família como um todo se volte para a espiritualidade. De novo, não custa nada colocar nossos ancestrais em nossas preces. A cultura japonesa faz isso lindamente, e em larga escala, pela religião Shintō. Aqui, na nossa cultura do aqui e agora, particularmente esta que viemos construindo no último século, costumamos perder o contato afetivo com nossos ancestrais depois de eles terem ultrapassado a soleira da morte.
De todo modo, se você tem realmente desejo de receber alguma mensagem de seu avô, o Lar de Clara faz essa atividade de "correio do além". Vou te passar o endereço: R. Ubaldo Sólon, s/n - Guaié, Caucaia
Referente a palestra dado ao dia 06 de dezembro de 2017 à Sociedade Espírita Irmãos do Caminho
É um tema difícil de ser trabalhado para mim, haja vista os grandes místicos que venho tendo acesso dizerem que é a atitude mais importante que um ser humano pode realizar a cada dia, e menos procurada, e a menos conquistada. Todavia, há algumas questões cotidianas que precisam de um pouco de esclarecimento.
Quando uma mãe cristã pede a Deus que não deixe a chuva cair sobre a festa de sua filha, tão amorosamente preparada, essa prece é legítima ou seria uma mera expressão de um egoísmo impróprio para ser dirigido a Deus?
Diante de Deus, me parece claro, para a concepção cristã, que importa menos a falta de horizonte com que essa mãe encara um fenômeno meteorológico de proporções regionais do que a atitude de conversa com o Pai pensando no amor pela filha.
Os filósofos spinozistas diriam que Deus não privilegia ninguém. O que tem de acontecer acontece pela necessidade do Todo, e não para satisfazer tal ou tal ação.
A chuva não cair sobre a festa seria apenas um fato, não uma concessão para uma prece eficaz.
Se pensássemos assim para as doenças - que elas são necessidade - como explicar as curas milagrosas que Jesus operou nos indivíduos quando passou pela história humana?
Muito embora nós espíritas tenhamos elaborado uma resposta que casa com a necessidade do momento de libertação daquela alma que recebeu a cura, não deixa de parecer evidente aos olhos do povo que Jesus era um deus (ou o Deus) saneando a matéria dos corpos corrompidos pelo pecado.
A cura que Jesus provocava era uma já necessária consequência da história daquela alma ou uma graça do Mestre? Para entender os diversos ramos em que se dividiram os discípulos no tempo futuro, é preciso enxergar a profunda discrepância destes dois olhares.
Se a cura já fizesse parte de um processo necessário, seria um fato, não uma concessão para uma prece eficaz. Poderíamos tentar enxergar da seguinte forma, conciliando as visões: 1. De fato temos processos que se desenrolam na natureza material e humana que são apenas consequências de um movimento cujo motivo fundamental, muitas vezes, é invisível para nossa consciência. Exemplo: a chuva, o saneamento de uma doença aguda simples. 2. Deus, ou seu mais dileto representante, tem o poder de agilizar o processo sem interferir na harmonia do Todo. Exemplo: fazer parar a chuva, provocar uma cura. 3. Essas atitudes que aparentemente perturbam a ordem cósmica, em verdade, provocam movimentos que reorganizam o Todo em uma conformação mais propícia para a salvação de muitos. Toda intervenção divina, embora dirigida para um filho em particular, parece ter um efeito ecológico. É como quando uma cura provoca a calma de uma família, a volta ou o reforço da fé de outros tantos, a motivação evangélica de mais alguns. A prece é eficaz? Sim ou não?! Para responder de forma peremptória essa pergunta tem que se olhar não para as curas de Jesus, mas para o seu sofrimento final. Jesus, que parecia a encarnação da resposta de Deus frente aos clamores de Israel, não consegue livrar a si mesmo do sofrimento. Içado ao madeiro em cruz, começa a cantar baixinho o salmo dos antigos: "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?" - e desfalece. Isto era uma prece. Não era um pedido de benesses materiais, não era um agradecimento pela concessão de qualquer benesse, nem mesmo uma adoração. Era a constatação de uma solidão, de um vazio, de uma ausência de Deus ao seu lado. Esta canção que começa nestes termos - Jesus não a cantou por inteiro - ela se aprofunda na descrição das desgraças que o cercam, mas sobe de tom profetizando que o sofrimento do justo se converterá na salvação de muitos. O salmo previa o movimento de salvação das almas mediante a ressurreição do justo ferido. E apesar disso, Jesus morre, não sem antes perdoar os carrascos. Para, então, ressuscitar ao terceiro dia. Que significado tem estas imagens? Que a verdadeira prece não espera a modificação do entorno, mas a ressurreição da própria alma para que o entorno pungente não mais nos alcance. Se a chuva cai e a festa ensopa, dancemos na chuva. Se a doença chega aos ossos, e o coração feito cera derrete-se pelas entranhas, exultemos, o Espírito se libertará dançando em chuvas de bênçãos, acolhidos por um Pai no infinito. Tentar modificar a natureza ao nosso redor na busca de um paraíso terrestre é uma tarefa bem mais fácil do que provocar a santificação da vida em nós.
A que resultado gostaríamos que a eficácia da prece fosse dirigida?
Papai não sabia. Pelo menos estas orações que os espíritas estimulam ser de improviso. Não sei se, na verdade, ele não sabia ou não queria fazer por outro motivo. O velho nunca me revelava o que o Espírito dizia para ele no escuro do coração. Quando fazíamos a leitura e a interpretação do Evangelho em nosso lar, e, no rodízio, caía nele para conduzir a oração, simplesmente baixava a cabeça, fechava os olhos e dizia: - Prece de Cáritas... Começava a recitá-la com uma voz grossa, introspectiva, baixinho, mas que soava forte no corpo da gente. - Deus nosso Pai, que Sois todo poder e bondade, dai força àqueles que passam pela provação, dai luz àqueles que procuram a verdade, e ponde no coração do homem a compaixão e a caridade. Certa feita, esqueceu a prece no meio. Achou graça de si. Havia recitado aquela prece tantas e tantas vezes. Era, talvez, o poema mais curto que já havia decorado. Quando jovem, recitava "Navio Negreiro" de cor. Então, pele manchada pelo tempo, ressequida pela vida, deu para esquecer aquela pouca coisa. - Vou recomeçar. E ainda que falasse um balbucio quase inaudível, por causa do amor ficávamos em paz.
Certo dia uma moça da juventude espírita de que eu participava havia falado que conversava com Deus como se ele fosse um amigo, uma pessoa ao lado. Um amigo meu evangélico havia me dito que não sabia como eu conseguia conversar com Deus deitado na cama. Ele se sentia chumbado ao chão toda vez que orava, tamanha era a majestade de que sentia a presença. Eu havia achado simpática a forma de orar daquela moça. Mas, me tocava a prosternação do evangélico. Os espíritas tem por hábito fazer preces de improviso, para que o coração se exponha. Todavia, alguns desenvolvem uma técnica da eloqüência que acaba por parecer uma palestra a prece que fazem conduzindo o pensamento do público. E certas eloqüências parecem esconder mais ainda o coração. Criado no meio espírita, estranhei demais a forma como certo grupo evangélico orava. Entregavam-se a pensamentos e palavras de louvor, agradecimento e súplica de forma individual, sem conexão aparente com o coletivo, pensamentos dissincrônicos, emoções diversas. Uns mais introspectivos, outros mais comovidos. Alguns ajoelhados, outros quase deitados. Com o tempo fui percebendo a beleza daquele ritual. Nós espíritas pensávamos estar em pensamentos uníssonos porque havia algum condutor a nos guiar nas imagens que suas palavras suscitavam, porque as palavras guiavam - nos importamos demais com elas. Aqueles outros cristãos entendiam que o uníssono era estar completamente entregue a Deus, cada um da sua forma, mas completamente entregue. Outra vez me deparei com as pessoas que oravam em línguas. Uma amiga querida já havia sentido esse poder que "te toma o corpo e te arrebata". As línguas humanas são fracas para deixar passar o sentimento, daí se enrolarem tanto ao tentar. Cheguei a criticar esse jeito por ser algo que não se pode fazer compartilhar, mérito que seria de um discurso coerente, em línguas que os interlocutores pudessem decodificar facilmente. "As emoções são compartilhadas". De fato, vi mais pessoas chorando em círculos de oração em línguas do que em nossas cotidianas preces espíritas. Diante de tantas formas de orar, fui questionando a minha. Hoje venho buscando falar menos, sentir mais, respirar fundo, baixar a guarda, abrir os poros, deixar passar mais por mim, inocente, tudo o que me circunda, o céu incluso, o sol também, os demais astros, e os menores sons. Contudo, de vez em quando escapa a palavra que mais me acalma e parece ser a única que precisaria ser dita: Pai (nada impede que para você seja Mãe, mas Pai para mim é mais forte).
Constantemente me pego falando com Deus reforçando minha pequenez. Antes fosse só pequenez. Falo dos meus crimes. E olhe que nem sou o fora da lei mais procurado que existe por aí. É porque os crentes tem essa tendência de se humilhar diante do Absoluto. É o que nos conduz a humildade e, de certa forma, nos permite enxergar um pouco fora de nós, já que a exaltação do ego nos coloca como ídolo. Poderíamos dizer que os espíritas tem uma maior tendência de enveredar por esse tipo de confissão dos pecados em oração, uma vez que não temos por ritual a confissão de nossas faltas para qualquer sacerdote e que estas se multiplicam sobre nossos ombros com a adoção da crença em vidas passadas. Em verdade, a vontade de confissão e de perdão pelo que fazemos é do estado de espírito daqueles que crêem em algo maior. Se tudo o que nos circunda é quase nada em relação ao infinito, a pequenez de nossa vida nos leva a pensar que equivale a mesquinharia e a vileza quase qualquer coisa que fazemos. Esse post é para convidar para um outro tipo de comunicação com Deus: o da comunhão. Não é de nossa pequenez que nasce a culpa, mas de nossa tristeza. O mesmo sentimento de humildade diante do mais-alto-que-nós pode nos conduzir a alegria. Eis uma outra conversa possível:
- Senhor, que sol maravilhoso esta manhã, espantou meu frio. E que brisa leve, afagou meus cabelos. Os alimentos que me sustentam, que gosto, que gozo poder comê-los! As águas desse rio, o corpo deslizando nessa fluidez. Serpenteia, ó corpo! As pessoas ao redor, há semelhantes por todo o lugar. E as árvores, e o ar, e a terra. Que cores, que sopro, que bom poder andar! O sorriso do menino, o samba da moça, o batuque das gentes. Ó planeta Terra, que a vida nos seja leve nesse teu infindo girar!
Eu sei. Essa prece é demais minha para qualquer um poder recitar. Privilégios se somam em cada linha que não são compartilhados por muitas pessoas. O convite, contudo, não é para que eu seja invejado, mas para perceber que a alegria está na gratidão por cada coisa que positivamente se nos avizinha. Não é a posse da verdade que difere o pessimista do otimista, mas o viés de percepção.