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quarta-feira, 31 de maio de 2017

Dica de dinâmica para explicar a virtude política dos gregos antigos



Continuando a explicar a civilização grega no que tange sua mentalidade e o espírito do povo, elegia como a missão de hoje entrar no mérito da polis. Como explicar a virtude política que animava o espírito grego sem ser enfadonho? Tive a ideia de uma dinâmica!

Nível 1: As pessoas se movimentariam aleatoriamente no salão e eu, munido com uma bolinha de plástico, atiraria nelas. Em quem a pessoa pegasse morreria. 

Cena 1: Um senhor tomou a mocinha que passava na sua frente e colocou-a como escudo a fim de se proteger da bolinha mortal. 

Nível 2: Se a pessoa conseguisse agarrar a bola com a mão sobreviveria.

Cena 2: Uma moça tentou pegar a bola que não era direcionada para ela a fim de salvar o companheiro que andava ao lado. 

Nível 3: Palavra de ordem: "Escolham pessoas que você gostaria de proteger. Esta é sua família. Desta família escolham um para ser herói. O herói será imune à bola. Não morrerá se for tocado por ela."

Cena 3: Cada herói tentou defender a sua família. Tínhamos, ao todo, cerca de cinco heróis. Em nenhum momento falei que não poderiam se unir. Aliás, desde o começo não mencionei que ninguém poderia se ajudar, formar alianças, engendrar estratégias. Pelo contrário, deixei bem claro: "Vocês fazem parte de uma mesma civilização, a dos gregos. Estamos em guerra e sou seu inimigo." Eu, sozinho, derrotei, ao final, toda a civilização grega, malgrado o esforço dos heróis que, separadamente, cada um a sua maneira, tentavam salvar suas famílias e apenas suas famílias. 

Uma heroína depois revelou que teve vontade de unir forças com outros heróis, mas desistiu da ideia. 

Pois bem, ninguém teve sentimento de polis. A polis era isso. Somos muitos (poli). Mas somos um (polis). Eu sou minha polis. Minha identidade está nela. O pior castigo que alguém poderia sofrer era ser expulso da polis (ostracismo). Era pior do que a morte. Ajudar a polis a crescer, seja participando das deliberações, seja cultivando sua terra e gerando filhos, era o ideal de uma vida cidadã bem sucedida. 

Essa é a chave de compreensão para o motivo de o lendário herói Odisseu ter rejeitado a sedutora proposta da imortalidade regada a amores da ninfa Calips. Pois a felicidade para ele era retornar ao seu reinado, onde envelheceria junto a Penélope, a rainha, e Telêmaco, seu filho, e morreria. Seu lugar era na polis!

Da mesma forma vamos compreender a fala de Aquiles, ao ser encontrado no mundo das sombras, onde vagam os fantasmas dos que viveram: "Não elogie a morte, Odisseu. Antes vivo, ainda que escravo." Pois estaria vivendo na polis

Por fim, Sólon, um dos sete sábios da Grécia, é questionado pelo poderoso rei Creso sobre quem seria o mais venturoso homem do mundo. Resposta improvável para Creso: "Telo de Atenas". Este era um senhor que gerou filhos e viu os netos crescerem. Já tendo a riqueza do suficiente, entrega-se a uma batalha para proteger Atenas, morre nela, e é velado com grande honra pelos seus. Qual a virtude de Telos? A vida na polis, pela polis

Foi o que quase ninguém, ao salão, teve na dinâmica. Cada um querendo se salvar, ninguém teve a virtude política de agir por todos, buscando a todos salvar, a quem fosse possível, estratégias de união em punho. Imagino que se, ao final, os heróis tivessem se postado como na figura que coloquei no começo deste texto, representando a formação de guerra dos hopilitas, soldados gregos, ninguém teria se ferido. Virtude política!

***

As reflexões que se seguiram falaram sobre o quanto de fato sentimos falta da nossa polis. O quanto nossas raízes são importantes, nos definem. O quanto, portanto, deveríamos dedicarmo-nos uns aos outros, proteger-nos. O quanto não fazer isso nos enfraquece, nos deixa pobres. 

É uma mensagem que, tranquilamente, poderíamos tirar das sabedorias judaico-cristãs, embora com fundamentos diferentes. Segundo o livro "A caminho da Luz", de Emmanuel, que estamos estudando, essa admirável concordância sobre virtudes entre diferentes povos não tem nada a surpreender, já que mostra apenas as mensagens que Jesus espalha para fazer florescer os homens na grandeza de cada civilização. O motivo da derrocada de cada povo é a invigilância para com estas virtudes. Foi o que aconteceu com a Grécia ao matar Sócrates, um dos homens mais virtuosamente políticos que já tiveram. Um assassinato que demonstrava a decrepitude da percepção sobre seus valores. 



quinta-feira, 25 de maio de 2017

Estudos sobre Grécia Antiga no Centro Espírita



Estamos estudando, ao Lar Espírita Chico Xavier, o livro A caminho da luz, idealizado pelo Espírito Emmanuel. Cada mês dialogamos em roda sobre um determinado povo, conduzido por alguém que tenha mais afinidade de falar sobre ele. Neste mês, fiquei com gregos e romanos. 

Buscando alguma forma de abordar os gregos sem resvalar em uma narração monótona da história, decidi tentar fazer analogias entre a mentalidade daquele povo e a nossa. 

A primeira questão é sobre a importância das histórias para a formação do imaginário das pessoas. Toquei na era das mitologias. Todos nós temos alguma história que marcou nossa vida. Não precisa ter sido contada por pai e mãe. Pode ter sido por amiguinhos da escola, do bairro, primos, contos de assombração. Nelas podemos perceber lições de moral por trás, características dos heróis, da mocinha, do bandido que devem servir de exemplo. Era mais ou menos assim nas mitologias, com mais densidade e fervorosa crença. 

A história da "Ilíada e Odisséia" era contada nas casas, nas ruas, comentadas nas mesas de bar. Servia de norte para condutas cotidianas e até mesmo, reza a lenda, serviu para apaziguar a guerra entre duas cidades-estados. O que Odisseu (Ulisses) faria no meu lugar? 

Neste nosso primeiro encontro evoquei a característica de Odisseu de ser um herói cheio de peripécias, estratégias de combate e de se esquivar do perigo (polytropos). Pude assim relacionar esse tipo de personagem com vários outros heróis conhecidos por nós em histórias que nos são familiares, como a do João Grilo (Auto da Compadecida), Zé Carioca (Walt Disney), Calabar (Chico Buarque - aliás na obra de Chico Buarque os malandros ocupam lugar especial). 

Também falei sobre o quanto o sentimento de "um por todos e todos por um" era presente entre os reis. Os troianos raptaram Helena, então era como se tivessem raptado as rainhas de cada um. Por isso foram para guerra. 

Por fim, evocamos o costume da Zenia, que era a hospitalidade sagrada com que os habitantes das mais diversas ilhas gregas recebiam os desconhecidos que nela aportavam. Não por um sentimento de caridade, estrito senso, isso seria um raciocínio cristão, mas porque, na cultura politeísta e antropomórfica, não era de se admirar que um deus pudesse se vestir de homem para colocar os mortais à prova. É o que é demonstrado na solicitude com que o ilustre desconhecido Odisseu é recebido à ilha dos Feácios. 

Análise espírita-cristã


Perceba que respeitar alguém por ele poder ser um deus é algo que esconde uma verdade. É como se a mitologia tocasse de leve em um ponto profundo da ética humana maior. Em várias culturas parecemos encontrar formas míticas de justificar a hospitalidade a um estranho. 

Entre os judeus, cada um era considerado uma Torá viva, isto é, portador de uma mensagem de Deus no coração. Aquele que se fazia peregrino no deserto, merecia ser recebido nas casas por ter percorrido uma experiência que se tornara sagrada na história hebraica. 

Sobre homens esconderem alguma divindade em si, não seria a mesma imagem que sugere Jesus ao dizer aos seus discípulos que se a caridade fosse feita aos vulneráveis, a ele é que estariam fazendo?

Numa primeira instância, onde predomina no homem mais o medo da punição, a hospitalidade (zenia) pode ficar na superfície dos gestos. Aprofundando-se a sensibilidade moral, é de se esperar que realmente ascendamos a essa mística em que vemos em todos os seres, de fato, Deus.  

quarta-feira, 8 de abril de 2015

O conceito de inércia de três mundos diferentes



O que temos por inércia hoje como axioma da física clássica é um que tiramos do pensamento de Descartes, haja vista, que um corpo deverá modificar seu movimento se e somente um agente externo agindo sobre ele for motivo suficiente para isso. Se estiver em movimento e nada atuar sobre ele, continuará assim. Se parado, idem. 

Quando estamos no ensino fundamental e nos deparamos com isso achamos óbvio e nem entendemos o contexto em que isso foi criado nem, muito menos, as conseqüências político-religiosas de tal fato. 

Olha a tradução disso para a vida cotidiana: O que acontecer na sua vida continuará acontecendo a não ser que algo ou alguém de fora modifique esse estado. Mas, esse alguém de fora pode ser você! Porque você é um espírito, coisa pensante, que atua sobre a própria vida, coisa extensa. Isso dá uma importância fundamental para a força de sua vontade mudar o que parecia fatídico, sua depressão, por exemplo.  

Olha a tradução disso para a vida política: O que está acontecendo no contexto sócio-político ao seu redor continuará do jeito que está a não ser que algo ou alguém de fora modifique esse estado de coisas. Mas, de novo, esse alguém de fora pode ser você! Basta que você eleve sua capacidade de análise para além desse estado de coisas e, como se olhasse de outro ponto de vista, entendesse o que se passa e a necessidade de mudança. E, continuando nesse movimento de estranho no ninho, angariasse forças externas ao sistema em que está enredado para modificá-lo. Do contrário, você, confundido com tudo o que está aqui e agora, não passaria de mais uma das coisas que estão aqui e agora. Isso deu força para o mais diversos movimentos de libertação nacional das amarras monárquicas. 

Esse conceito de inércia, todavia, nem sempre foi assim. A mentalidade do mundo grego clássico, elucidado pelo raciocínio aristotélico, dizia que um corpo tenderia a seguir sua rota independente das outras forças que atuassem sobre ele, porque estava sob a atração de outra força insuperável, a do Grande Motor. Tradução para o cotidiano: tanto mais feliz você será quanto menos resistir a atração natural que o conduz para o seu lugar no cosmos, isto é, busque ser aquilo que você foi destinado para ser sob pena de ter trágicos sofrimentos. Tradução para a política: o melhor governo é o que tem uma forma de ser mais parecida possível com a natureza bruta. Olhem como ela governa seu grande ecossistema! Perfeito. Imite-a.  

Na Idade Medieval, a ideia do Grande Motor foi substituída por Deus, Ele é a grande força que nos atrai, o que nos gera carência e falta, o que nos move para Ele e nos faz felizes quando estamos no caminho certo. Uma diferença capital: a liberdade do ser humano. A atração para Deus não é insuperável. O homem pode vir a rejeitá-la e, assim sendo, conduzir a própria vida para o inferno, que é a distância infinita de Deus. 

Ainda hoje, essas três visões de inércia dialogam no nosso cotidiano sem percebermos. O Espiritismo é uma síntese entre a inércia de Aristóteles e a dos Cristãos. A liberdade do homem para atuar sobre o próprio movimento não vai até as últimas conseqüências de impedir definitivamente a união com Deus. Se houver insistência, um dia ele pára, inibidos todos os órgãos que o faziam resistir contra a atração divina, para que esta exerça sua força sobre um espírito mais dócil. Mas, há (certa) liberdade! Ao homem são dadas muitas oportunidades para que ele siga o caminho certo. E, no contexto político, a democracia tem suas chances de escolha das próprias trajetórias, embora conduzida por luzes que a direciona para a sociedade perfeita. 

Bem, os críticos do determinismo podem odiar essa visão de mundo, mas é assim que o Espiritismo vê as coisas. O melhor governo seria um governado pelos mais sábios e bons, aristocratas intelecto-morais que conseguem divisar as grandes leis universais, conduzindo seu povo para bem segui-las. A diferença da aristocracia intelecto-moral para uma oligarquia capitalista são os métodos de ascensão ao poder: os primeiros sobem pela magnitude do caráter e tem o apoio amoroso das massas, os segundos sobem pela grandeza das riquezas e negociam o próprio apoio.

Eu acho muito legal acreditar em uma inércia que me dá o direito de modificar os movimentos da vida, embora destine o que há de melhor para mim ao final, não permitindo que eu me perca para sempre. Os sartreanos replicariam: "Você acha legal ser criança!".  

- Acho!


sábado, 10 de maio de 2014

Noé, o filme, e os eternos conflitos do dilúvio em nós - Parte III



Perdoem-me se não consigo terminar a análise deste filme apenas nas didáticas três partes. Há coisa demais para se dizer, e não quero lhes cansar em uma só postagem. Abordarei hoje sobre estes dois pontos: a obediência como signo de perfeição e os anjos decaídos que não são satânicos.


A obediência como signo de perfeição. Se começarmos percebendo que os animais e as plantas são mais obedientes que os homens, ou pior (melhor?), são completamente obedientes aos desígnios de Deus, o que os torna perfeitos no sentido grego, isto é, completos, acabados, estaremos automaticamente nos remetendo ao mito de Prometeu sobre a criação dos seres. Epimeteu, o titã certinho, fez com que os seres vivos não-humanos tivessem atributos que os deixassem em equilíbrio perfeito com o cosmos. Prometeu, o irmão espertinho de Epimeteu, vendo que o seres humanos foram os pobrezinhos que ficaram sem atributos, a bem dizer, nus, decidiu ir lá em cima do monte dos deuses e roubar o fogo da criação para dar de presente aos coitadinhos pelados. O que aconteceu? Os homens ficaram com poder em excesso, e como não tinham atributos pré-definidos por nenhuma divindade, começaram a ultrapassar todos os limites. Qual o signo de perfeição de um ser? A obediência aos limites do cosmo em que você se enquadra. Troque o cosmo, novamente, pela palavra Deus e você terá a visão hebraica, só que um pouco mais paternal, já que Deus é um paizão que quer, na verdade, ensinar aos filhos a ser assim.


Os anjos decaídos que não são satânicos. Dizem que o Satanás era um dos mais belos anjos que vivia ao lado de Deus, mas quis ser mais que o Criador. Este, então, lhe amputou a beleza e o expulsou para o quinto dos infernos. Aí, aquele fez seu quartel general e passou a ter um só propósito na vida: impedir que os homens alcançassem a graça de viver em harmonia com o Criador. Como fazer isso? Seduzindo-lhes à desobediência.


Todavia, o filme mostra um conjunto de anjos que caíram por outro motivo: quiseram ajudar os homens que estavam se desvrituando. Também desobedeceram a Deus - nada escapa dessa temática - mesmo que por uma causa nobre, aos olhos de nós humanos. O interessante é que essa história, aparentemente inventada pelo filme, não flutua no nada das mitologias. Vemos que ela é um eco das história gregas, talvez de outras mais com as quais não tenho tanta intimidade.


Lembram-se que eu havia falado de uma geracão de homens de ouro, harmonizados no princípio de tudo com a natureza cirunjacente? Pois estes homens, nos narram as lendas, depois de terem morrido da forma mais serena que se possa imaginar, se tornaram Espíritos tutelares dos homens de bronze, tentando os reconduzir para o caminho da sabedoria. Eram os famosos daimons, que deram origem à palavra demônios em latim. Entre os gregos, esse vocábulo não tinha conotação negativa a priori, mas depois nossa cristandade medieval quis entender que sim. Ficou na nossa mente que seres incorpóreos que vagam entre os homens só podem ser almas penadas pedindo reza ou servos de Satanás espalhando o mal.


A princípio, pode-se ter pena dos simpáticos anjos decaídos que ficaram enclausurados em corpos de pedras, eles que eram luzes livres voando em torno da terra, ao lado do Criador. Contudo, perceba que há uma reconciliação ao final. Da linhagem de Set, o que não desobedeceu o pai, sai um predestinado para salvar a humanidade, que se manteve em linha reta até o fim, com quem os anjos se uniram ao enxergar nele a marca original de Deus, sendo ele, através daquela conduta nobre de equilíbrio com a natureza, o caminho da libertação, ou o que trilha o caminho certo.


É como se o Criador ficasse agindo constantemente sobre a criação que se desvirtua, em seu comportamento indócil, sulcando caminhos que a devolva para os rumos certos. É a perfeita imagem de um agricultor que cuida da sua plantação. Lembre-se que estamos falando da visão de mundo, e, portanto, de Deus, de um povo agropastoril. O Pai lhes deu liberdade para escolher entre o certo e o errado. Eles escolhem frequentemente o errado. Deus age constantemente para fazê-los retornar ao certo.


Eis a grande diferença da relação entre as divindades gregas e o Deus hebraico. Aquelas estão pouco se importando se os homens chegam ou não à sabedoria. Se um ou outro alcança, bom para ele, terá a recompensa automática da serenidade, às vezes concedida por Zeus, como no caso de Ulisses e Penélope. O resto merecerá o reino das sombras pelo próprio curso natural de sua burrice. O Deus hebraico gerou seus filhos para que TODOS fossem sábios. Age constantemente entre eles para este fim. Se conseguem, há imensa festa no céu. Se não… parece que vão sofrer muito no inferno. Visão esta que não é compartilhada totalmente pelo Espiritismo.

É triste que se encontre essa desistência de Deus nessa mitologia que tinha tudo para ser uma das mais belas. Esse Deus que provoca dilúvios e se cansa de seus filhos maus que Ele mesmo gerou... tem alguma coisa que não bate aí! É essa incongruência que o Espiritismo vai sanar com a teoria da reencarnação. Mas isso, são águas que ainda estão para rolar.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Noé, o filme, e os eternos conflitos do dilúvio em nós - Parte II




Pai e filho estão sob as barbas brancas, alvas nuvens de Deus. O mais velho vai passar ao mais moço o legado de ser homem. O que é ser homem para você?

Essa pergunta caiu na minha primeira prova de psicologia médica na faculdade. Não me fui bem na resposta porque o professor perguntava “segundo os conceitos da psicodinâmica”. E eu respondi, brilhantemente, segundo os conceitos da minha vida. Antes que me chamem de pedante, me respondam: Quem pode falar mais brilhantemente sobre minha vida se não eu?

A pergunta, rigorosamente, era assim:

- Segundo a psicodinâmica, você é filho ou homem? Explique.

Esquecendo a psicodinâmica e as instâncias da mente, o que você responderia?

A definição de homem, isto é, de maturidade espiritual. Os hebreus, consequentemente, os judeus, dão um valor sobrenatural para a paternidade e a gestão da família, célula-máter da comunidade. Colocar em risco essas bases é fazer estremecer todo o povo. Muitos dizem que a novidade trazida por Jesus é a de tratar Deus como Pai (Abba). Não é verdade. Deus-Pai está em toda a tradição. A forma como se encara esse Pai é que difere. Freud, que era judeu, parece ter entendido bem isso, dando importância fundamental a relação edipiana - trágica! - de como acontece essa relação e sua influência na formação da personalidade do filho. Perceba que os grandes guias da comunidade hebraica surgem da ordem que o Deus-Pai dá ao seu filho mais velho, enviando-o aos irmãos mais moços. Entenda mais velho em um sentido espiritual, isto é, aquele que “cresceu" o suficiente para entender sua vontade.

Aí está a grande chave para entender porque Noé pode ser considerado um homem. Ora, porque obedece a vontade do Pai. Eis porque ele diz para o filho rebelde, na cena em que começa a chover para o dilúvio, que, por mais doloroso que pareça, ele está a lhe ensinar a ser homem, fazendo não o que o desejo pede, mas o que é necessário fazer: o dever. Aliás, isso é o que representa, no sentido negativo, o mito de Adão e Eva. Um filho que passa a sofrer as conseqüências de ter ouvido mais a voz da sedução (serpente e Eva) do que a de Deus.

Retrógrado? Se for, essa visão de mundo não está só. Ouvir a voz de Deus e obedecê-la, entre os filósofos estóicos da Grécia, era perfeitamente traduzível por aceitar o seu lugar no cosmos. Aqui, mais perto, entre os iluministas, seria ouvir a voz da razão. Perder o juízo é sinal de loucura, de deixar-se dominar pelas emoções, de ser infantil e não homem. A gente muda o nome de Deus por Cosmo, Razão, Verdade. E para cada um destes pensamentos, uma forma de maturidade espiritual se anuncia.

A grande diferença entre o Deus judaico-cristão e estas outras formas de Deus engendradas por estas outras culturas é a abertura para o amor. Nem o Cosmo, nem a Razão, muito menos a Verdade (no que ela tem de estritamente racional) são capazes de nos amar. Não faz parte de seus atributos. Mas, Deus, este que foi espalhado por Jesus, resgatando um tema levítico, este é pleno de amor, ou ainda, é pleno amor. É a superação do conflito "dever x amor” que dará nova vida para tudo na Terra redimida pós-diluviana. Ou melhor, como diria Jesus, foi o amor, e não a água, que cobriu todos os pecados.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Noé, o filme, e os eternos conflitos do dilúvio em nós - Parte I



Não vou me ater aqui à análise bíblica da história de Noé segundo o original. Vou escarafunchar a história do cinema e suas conexões com grandes temas filosóficos. Vamos dividi-la em alguns itens:

O dilúvio não é um privilégio dos hebreus. Você deve saber que as grandes civilizações do mundo antigo tendiam a se instalar e crescer próximo a um grande rio, dentro de um vale. Quando havia época de muita chuva, aquele transbordava e provacava dilúvios trágicos. A relação do homem com Deus era questionada e elaborada não só pelos sacerdotes, mas também pelos grandes contadores de história, que, frequentemente, se valiam dos recursos de consulta aos deuses (ou os deuses se revelavam espontaneamente para eles) para melhor narrar o fato, a fim de ficar claro o motivo de tanto sofrimento e a solução para o resgate, o que é uma espécie de prevenção para a tragédia não se repetir. 

É comum, entre os antigos, a visão de mundo que conecta os grandes males à relação do homem com as divindades, já que só elas poderiam provocar tão vultosas calamidades. Há grandes lendas diluvianas entre os Sumérios (Gilgamesh, o grande rei, em busca de imortalidade, procura Utanapishtim, aquele que sobreviveu ao dilúvio), entre os indianos (Brama se transforma em peixe e vai falar com o monarca Vaivaswata sobre o dilúvio próximo), entre os gregos (Deucalião e Pirra, únicos salvos por Zeus - nem mesmo os animais se safaram).  

No filme, vejo muitos traços gregos. Os homens da idade de bronze, segundo a mitologia desse povo, eram uma geração posterior aos da idade de ouro que, diferentemente destes últimos, viviam em conflitos entre si e com o cosmos. Tenderiam a se destruir sem precisar da ajuda divina se não houvessem atiçado Zeus contra si. Perceba que os homens da descendência de Caim são artesãos do ferro e muito belicosos. Adão e Eva, os seres que viviam em harmonia com o paraíso, são representados no filme por entidades de pele dourada!

A história do dilúvio fala sobre reconciliação: do sensível com o inteligível, do homem com Deus. A geração dos homens inicia em completa harmonia com o meio e com Deus, o Criador. A desobediência é o ato primeiro de ruptura. Este ato é o que perpetua e multiplica a separação entre o homem e a natureza. É exatamente o que não encontramos com a geração de Set, particularmente em Noé. Logo de início, encontramo-lo colhendo espécimes de vida que, bravamente, ainda sobrevivem na terra devastada, bem como se compadecendo da morte de um animal caçado pelos filhos de Caim.

Entre os gregos, Aristóteles representou uma das primeiras grandes escolas de pensamento que buscou reconciliar o inteligível com o sensível, as ciências da natureza com as ciências do espírito. Não à toa, suas lições de biologia buscavam enxergar a grandeza do cosmos na engenhosidade dos animais. Por onde chegar à identidade com o cosmos? Não é pela libertação das armadilhas do sensível, mas pela descoberta intelectual das maravilhas do sensível em sua forma. É na forma que está encarnada a ideia nobre, mais que isso, ideia e forma se misturam indistinguivelmente.

A solução dos gregos em seu período filosófico rumou para essa resposta. E a dos hebreus? Seguir a vontade do Criador. Se, desde o início dos tempos, a humanidade tivesse se mantido obediente ao Criador, mal algum teria caído sobre ela. Veja que a estrutura dessa resposta está em perfeita conformidade com a estrutura social dos hebreus, bem como a de Aristóteles com a democracia Ateniense. Na Grécia antiga, era importante que o homem atingisse a maioridade de se guiar e ajudar a guiar a Pólis através do exercício da própria razão em fazendo sua cidade ser um reflexo do Cosmos, ou, em Aristóteles, não um reflexo, mas uma identidade. Entre os hebreus, sociedade eminentemente patriarcal, a obediência à vontade do Pai era o valor por excelência.

O mito estrutura a tradição de aprendizados em cada sociedade. Quando fazemos algo errado à revelia das orientações de nossos pais, o que eles dizem? "Viu, menino, não te falei?". Seguir as orientações do mais velho e experiente elemento da família é o grande ideal de sabedoria. E a sabedoria, em muitas culturas, sempre foi uma espécie de reconciliação do homem com a estrutura que lhe transcende e lhe contém.

Já me estendi demais. Vou deixar para próximos posts as outras questões que encontrei nessa história: a definição de homem, isto é, de maturidade espiritual, a obediência perfeita das plantas e dos bichos em contraste com os excessos dos filhos de Caim, os anjos decaídos por razões (ao nosso ver) mais nobres, o caminho da libertação, a voz de Deus que fala segundo a capacidade de apreensão de cada homem, o Deus de fora e o Deus de dentro, e, por fim, o caminho do amor para a verdadeira salvação (ou, é preciso destruir para salvar?).

Aproveite para assistir ao filme, porque vou revelar o final nos próximos posts. E quem for querendo encontrar a bíblia intocável lá, acho melhor mudar de ideia, se não a decepção pode lhe afogar.

domingo, 16 de junho de 2013

O Inimigo que Muito Ama


Vou fazer um comparativo das três formas de pensar o demônio: a mitologia grega, a teologia cristã e o ensino espírita. Essa abordagem é a mesma de Kardec. Quem quiser ter mais propriedade sobre o assunto é só consultar o livro O Céu e O Inferno.

Na mitologia grega, os demônios que conhecemos hoje, via mentalidade cristã, faziam parte dos descendentes do Caos, de Urano e de Gaia, que são os deuses originais. Desproporcionais, disformes, destruidores. Detalhe importante é que o amor Eros e a sensual Afrodite participam desse início. Bem se vê que os gregos tinham lá a perspicácia de ver o amor desejante como um promotor da desordem. As erínias eram filhas do sangue do Urano, jorrado a partir de seu sexo cortado pelo próprio filho, Cronos, sequioso de vida ao ar livre. Elas nasceram da traição e se tornaram perpétuas vigilantes contra esse tipo de pecado no seio das famílias. Criaturas terríveis, horrendas, com poderes dilacerantes.

Houve uma guerra entre os descendentes mais próximos do Caos e os filhos de Cronos, um pouco mais civilizados. Dessa guerra originou-se o Cosmos como o conhecemos hoje: hierarquizado, matematicamente organizado. A ordem era mantida pelos deuses vencedores, habitantes do Olimpo.

Havia um deus que mais se parecia com o diabo que nós conhecemos. Não era Hades, ao contrário do que muitos pensam, que cumpria bem a sua missão de reger o mundo dos mortos, independente se estes eram justos ou injustos. Mas era Dioniso, que vagava pelas cidades da Grécia com um conjunto de sedutoras mulheres, promovendo festas carnais, com tudo o que você poderia imaginar (talvez mesmo desejar!) para o corpo se excitar ao máximo, as dionisíacas. Chegava ao clímax de haver canibalismo entre os festejantes, tamanha a embriaguez que Dioniso provocava sobre as pessoas. Não é à toa. Dioniso nascera de um conflito enorme. Foi uma traição de Zeus, que engravidara uma humana. Para salvar o filho da morte de sua mãe, provocada por umas astúcia de sua esposa, arranca-o do ventre primitivo e o enterra na face interna da coxa. Dioniso é gestado muito próximo do sexo de seu Pai. E este realmente abusava do sexo, de vez em quando pulando a cerca do Olimpo para fecundar lindas mulheres mortais. O escudeiro fiel de Dioniso, o feio Pã, dará o molde para a pintura do futuro satanás.

O mais interessante é que os gregos não reservavam a Dioniso um lugar junto a Hades, embaixo da Terra, no Tártaro, onde se localizaria futuramente o Inferno cristão. Ele figurava como um dos deuses do Olimpo! Os mesmos deuses da ordem, da disciplina, da concórdia entre os mais diversos poderes. Eis a grande chave para a compreensão do pensamento grego: o equilíbrio entre os poderes. Era isso que permitia a vida. Não sacrificar o que é caótico completamente, pois isto também faz parte do universo. Ora fazemos sacrifícios a Apolo pela sua sabedoria e beleza, ora a Dioniso pela sua liberdade (libertinagem) e presteza (ainda que tenha de se valer de meios escusos para chegar ao intento, o que lhe confere a velocidade das resoluções). Dois poderes do Universo: o brilho do Sol que tudo deixa claro, a noite da Lua que esconde os atos mais sórdidos. Somos filhos do Cosmos, mas netos do Caos. 

Na próxima postagem, falarei um pouco sobre as revoluções que a mentalidade judaico-cristã promoveu sobre esse pensar. Antecipo que os mesmos dois polos de que lhe falei por último se perpetuarão. Claro! É sobre o que há em nós que estamos falando. A mudança de perspectiva é que um deles já não poderá merecer adoração, pelo contrário. E o Outro se elevará a mais alta potência, a princípio sendo a Ele dirigido o medo, isto é, o respeito temerário, o sacrifício e o sangue, e depois, o amor ágape (e não mais eros), quer dizer, a graça e o sorriso, o carinho e a boa vontade.

Peço que não se percam. A extensão desta análise é de extrema importância para a melhor compreensão do nosso posicionamento.

domingo, 13 de janeiro de 2013

O Espiritismo e a nossa Mortalidade


Os espíritas não se tornam alienados por viverem pensando sua imortalidade? 

Sobre essa pergunta mil pensadores se inclinaram. Não necessariamente analisando o Espiritismo, mas o duelo infindo entre mortalidade e imortalidade.

Eloqüentes e clássicos discursos existem nas obras de Kant, alertando para as ilusões da Metafísica, e nas obras de Nietzsche, reinventando o conceito de niilismo. 

E para começar diálogos com a filosofia, a que esse blog se propõe, devemos por o primeiro pé nas obras de Homero, ou atribuídas a ele, as tais Ilíada e Odisséia. Particularmente sobre a figura do sedutor Ulisses. 

Vindo da Guerra de Tróia, vitorioso e sujo de sangue - pois não contentes de vencer, os gregos decidem trucidar os troianos - Ulisses é castigado por Zeus, em virtude dessa desmesurada crueldade, com uma volta não pacífica a Ítaca, seu querido reino. Enfrenta mil desventuras, entre monstros e sereias. Mas, particularmente, a experiência de Calypso, é a que dá a maior ilustração ao tema que nos dispusemos enfrentar. 

A ninfa, apaixonada por Ulisses, se utilizando da sua potência divina, promete ao herói imortalidade e juventude se ao lado dela permanecer seu amante para todo o sempre. E o guerreiro aceita a proposta por um tempo até que o pranto de não estar em seu reino, no seu lugar, toma conta de seu peito.

Ulisses rejeita a imortalidade juvenil e as doçuras do acolhimento do corpo daquela divindade para ir em busca do seu reinado, mas também, da velhice (que traz a angústia da própria morte) e da reunião familiar (que traz a angústia da morte dos que estima). Por que tal escolha poderia ser considerada mais certa, louvada como mais sábia do que a outra? E, olhe, que definitivamente não era uma questão de fascínio e mentira de uma divindade traquinas. Calypso estava realmente disposta a ofertar ao seu amante o salvo-conduto para um idílio eterno. 

O que a sabedoria grega dos mitos antigos nos quer contar é que vale mais a assunção do nosso papel no seio do universo (reinar em Ítaca) do que o desfrute da miragem de uma vida que não nos pertence (amar Calypso). Mais vale morrer tentando cumprir a missão que nos cabe aqui e agora (voltar a Ítaca), do que viver a imortalidade que não tocamos lá e depois (permanecer para sempre na ilha da ninfa). Mil vezes viver o que vim para viver, do que já estar morto preso a uma certa imortalidade, perdida minha atual identidade, meu norte de hoje, meu trabalho desta vida.  

- Mas, como assim? Então, segundo a mais clássica fonte filosófica, é vã toda a pregação que os espíritas fazem sobre sermos imortais?

O tema promove um livro. E me basta, no momento, a façanha de apenas iluminá-lo. Peço para que o leitor amigo tenha apenas a graça de meditar sobre as seguintes passagens:



  1. "Jesus, porém, disse-lhe: Segue-me, e deixa os mortos sepultar os seus mortos"(Mt 8:22)
  1. "O anseio de morrer para ser feliz é enfermidade do próprio Espírito."(Emmanuel em Caminho, Verdade e Vida)
  1. "Não consiste a virtude em assumirdes severo e lúgubre aspecto, em repelirdes os prazeres que as vossas condições humanas vos permitem."(Um Espírito Protetor
  2. em Evangelho Segundo o Espiritismo)

Voltaremos ao tema, sob novos prismas.