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domingo, 7 de abril de 2019

Santo Agostinho e o Espiritismo

Lemos hoje sobre a presença de Santo Agostinho como Espírito ajudando no nascimento do Espiritismo entre nós, humanidade. Em o Evangelho Segundo o Espiritismo, é o Espírito Erasto que evoca essa lembrança. Veio-me a dúvida sobre a teoria da graça ou da iluminação divina que Santo Agostinho construiu quando encarnado nos idos de quatrocentos depois de Cristo. Seria ela incompatível com o que pregamos? Concluímos que não. 

A teoria da iluminação divina é bem simples de entender quando assumimos uma coisa: a corrupção que trazemos em nós como noção antropológica primeira. A observação da natureza humana que nos circunda torna isso bem evidente. Não somos santos. E os santos se destacam tanto mais quanto mais pecadores ao redor, quanto mais eles tem de se esforçar para se superpor às paixões que puxam o homem à selvageria. 

Se o fim da salvação é a felicidade ao lado de Deus, algo tão supremo, como nossos atos, todos mesquinhos, por mais grandiosos que sejam, na nanica escala em que ocupamos no universo, como podem valer a salvação que Deus promete? Não valem nada - em comparação. Não quer dizer que não tenhamos que nos esforçar, mas aí está o nó da questão. Nó insolúvel para a modernidade: se Deus tem o poder de conceder a salvação, e apenas Ele, de que adianta o esforço?

Não é uma questão de o que adianta, não é uma questão de entender o propósito de Deus, tentação humana por excelência que nos faz se afastar Dele, já que extrapola o nosso limite essa pretensão, mas suportar conviver com o mistério. Confiar, ter fé, suportar o mistério, eis o que santifica o homem ao lado de amar. Se a equação da salvação fosse matemática, de que adiantaria a fé. Não passaria a vida de uma contabilidade de obras. 

Nós espíritas caímos nesse erro quando não entendemos bem a psicologia da alma. Isso faz de Santo Agostinho um senhor muito atual. Queremos exigir de Deus que nos dê o céu porque merecemos. Quando Kardec conclui que fora da caridade não há salvação, essa caridade abarca tanta coisa, que mal cabe na nossa cabeça. Envolve os mais diversos tipos de ajuda material, as mais diversas dedicações para o desenvolvimento moral, mas, coisa esquecida!, a submissão do espírito à vontade de Deus, a tal ponto, virtude suprema!, de temer não ser um dos escolhidos. É aprender a conviver com o mistério.

O que é a teoria da iluminação, então? Não é rejeitar o livre-arbítrio, mas reconhecer que se ele é suficiente para nos fazer cair, nunca o será para nos salvar. Sempre haverá o hálito do Criador, insuflando boas resoluções a nos guiar para o bem. Saber surfar nessa onda é o que Ele espera de nós. 

Meu amigo ainda comentou algo: que a reencarnação, coisa desconhecida ou rejeitada nos moldes em que ela era apresentada pelas heresias e pelos bárbaros da época de Agostinho, é a única forma de conciliar a bondade de Deus em querer salvar todos os seus filhos com o seu poder de verdadeiramente salvar no final dos tempos. Deus insufla o bem no coração humano, que hoje é pecador e amanhã será um santo, mais dia, menos dia, neste ou em outro milênio. Com a reencarnação reconciliamos os atributos de Deus, apartados, por exemplo, quando Diderot O acusava de negligente ou incoerente já que podia fazer o bem, queria fazer o bem e não o fazia. A teoria da transmigração evolutiva das almas não mais coloca a questão como um mero ato de Deus, mas devolve aos homens o sentido do esforço histórico. É preciso conquistar patamares de felicidade com ouvidos dóceis para os conselhos de Deus, através de seus mensageiros. 
 

sábado, 18 de julho de 2015

Sobre nossa mudança moral




Então o jovem, em desespero, me aborda, porque parecia ter se encantado com essas coisas de evolução espiritual que fico espalhando por aí:

- Estou tentando, mas quanto mais eu tento, mais vejo que é um grande esforço. Será assim mesmo? Mas, se for, serei eu de fato? Não estaria me enganando, lutando contra minha natureza.

Um dia eu lia empolgado o Evangelho Segundo o Espiritismo e vi a seguinte frase:

Mas, já ganhastes muito, vós que me ouvis, pois que já sois infinitamente melhores do que éreis há cem anos. Mudastes tanto, em proveito vosso, que aceitais de boa mente, sobre a liberdade e a fraternidade, uma imensidade de idéias novas, que outrora rejeitaríeis. Ora, daqui a cem anos, sem dúvida aceitareis com a mesma facilidade as que ainda vos não puderam entrar no cérebro. (Espírito Sanson, 1863)

Infinito parece muito, mas quando ele diluiu esse infinito em cem anos, me pareceu quase nada. Fiquei pensando o que ele considerava infinito. Sair do nada para o um é um estrondo de crescimento. Se não há nenhum caso de uma doença rara e grave em certa aldeia e um caso aparece, meu Deus! Foi isso que eu pensei: que, se nesta encarnação, me foram necessário cem anos para conseguir pelo menos não mais odiar minha irmã de sangue, sou infinitamente melhor.

Mais tarde me deparei com este pensador:

O Espiritismo é natural e exige naturalidade dos que pretendem vivê-lo no dia-a-dia, em relação natural e simples com o próximo. Os maneirismo, as modulações artificiais da voz, os excessos de gentileza mundana e tudo quanto representa artifício de refinamento social, deformando a natureza humana a pretexto de aprimorá-la, não encontraram aceitação nos meios verdadeiramente espíritas. (…) As modificações exteriores, precisamente por serem forçadas e portanto mentirosas, não exercem nenhuma influência em nosso interior. O contrário é que vale: quem exercitar-se na prática das boas ações, da verdade e da sinceridade, modificará sem querer e perceber o seu comportamento, sem nenhum dos sintomas desagradáveis de fingimento e hipocrisia. (J. Herculano Pires in o Centro Espírita)

Então: 1. não esperar grandes saltos evolutivos; 2. exercitar-me na prática do bem sem me impor maneirismos (leia-se mudanças exteriores).

Estas duas percepções vêm trabalhando-me nesta última década e meia sem pretensões de que este projeto de aprendiz de mim finde até o final dos próximos milênios. No mais, trabalho, solidariedade e tolerância. 

domingo, 7 de dezembro de 2014

Nossa homenagem ao Sr. Bolaños (Chaves, Chapolin, Dr. Chapatin, Soldado Chispirito, etc.)



Vejo mães dizendo que Chaves não era um desenho para crianças, pois as deseducavam. Mas, porque aquelas crianças se tornaram tão queridas para gente?

Elas brigavam umas contra as outras, os mais ricos esnobando os mais pobres, os donos dos meios de produção humilhando os inquilinos, os mais velhos sendo insultados pelos pequenos, a falta de polidez, a violência entre os vizinhos, a malandragem, a mentira, a sinceridade que agride. Todos estes recursos que reconhecemos tão nossos que rimos de nossa própria humanidade espelhada nos personagens de Bolaños.

Todavia, quando estávamos no ápice dessa identidade ao ponto de reforçá-la em nosso dia-a-dia, vinha aquela vila nos falar sobre a juventude do coração, a reconciliação dos díspares, o nivelamento das classes, a grandeza da amizade, a beleza do amor, a divindade de acolher um menino de rua como protagonista de nossas melhores lembranças, sem nem sabermos direito sua história ou a glória de seu sobrenome, mas pela ingenuidade e leveza com que vivia sua vida de barril.

E quem já não se sentiu tão herói quanto o anti-herói Chapolin? As pessoas em suas aventuras se salvam menos pelas habilidades deste do que pelo acaso delas. Ele é quase um fator confundidor que, por desnortear o mal, acaba o desmantelando.

Isso é uma lição para todos que quiserem "educar o ser humano". Não adianta tanto nos contar histórias de grandes heróis e deuses. Não o somos. Poderemos até nutrir admiração por eles, mas porque os imitar? Não são da nossa leva. Se quiserem fazer vibrar nosso íntimo ao ponto de nos guiar para transformações verdadeiras, tem que começar a partir do que verdadeiramente estamos, hoje. Para, então, mostrar como poderemos ser a partir dessa massa confusa de que somos feito.

domingo, 9 de junho de 2013

Imortalidade e Imoralidade




O filósofo Clóvis de Barros Filho esteve no programa do Jô expondo suas elucubrações com muita didática e, acredito, muita justeza. 

A definição de moral ele a atrelou aos conceitos de invisibilidade ou invencibilidade que, para esse caso, acredita ser a mesma coisa. 

Veja os exemplos tanto mais significativos quanto mais cotidianos: 

Exemplo 1: Uma cédula de dois reais no chão. Ninguém por perto a quilômetros. Nenhuma câmera da polícia. Se apropriar ou não se apropriar? E se fossem os cem reais exatos para quitar uma dívida? 

Exemplo 2: Uma festa distante, em outra cidade, nenhum conhecido. O namorado nem imagina onde você está. Um menino lindamente atraente. O corpo se sente agradado pelo dele. Trair ou não trair? 

Exemplo 3: Você, um velho. Sua esposa, também, mas acamada, muda, neurologicamente estática. Há anos você cuida dela. A doença só piora. A qualquer momento ela pode morrer. Você está cansado, exausto, esgotado e sozinho. Todos os filhos se foram, ou melhor, não houve filhos desse relacionamento. Sufocar a sua esposa com um travesseiro ou não? Tudo indicaria que ela morreu de afecção respiratória. 

O prof. Clóvis se ateve aos casos de invisibilidade, mas para o Espiritismo esta é ilusória. Os Espíritos e o Grande Espírito tudo vêem. Mas, a invencibilidade...

Leia-se imortalidade. O que os Espíritos nos falam é que não morremos. Pior, que podemos voltar para consertar o que erramos. Ainda pior, que, independente de qualquer caminho que escolhamos, chegaremos a felicidade ao lado de Deus. Por que pior? É que isso é um prato cheio para que tenhamos o pretexto da liberdade ilimitada, agora mais que nunca. Os defensores modernos desse estilo de vida o fazem pela finitude da condição humana. Alguns espíritas o fazem pela infinitude da misericórdia divina. Se teremos a salvação custe o que custar ao final, aproveitemos o presente instante. 

Poderão lhes contra-argumentar o umbral em vez do inferno, os obsessores no lugar dos demônios, as dores e os dissabores de vidas de expiação. Contudo, nenhum sofrimento é tão grandioso ao ponto de cobrir o fim glorioso da existência espiritual. Todas as contradições e angústias se desvanecerão quando estivermos ao lado do Criador. Ele é o imã universal que nos atrai apesar de toda a resistência. Nossa liberdade um dia se curva e se deixa arrastar.

O questionamento ético, então, para o Espírito invencível, para o Espírita convicto, é mais atual que nunca. Não é mais uma ameaça divina que nos entrava de fazer o mal, mas uma reflexão moral que nos conduz ao bem, por nossa conta e risco

O que fazer com a imortalidade e a certeza de que necessariamente seremos felizes? Protelar até quando a dor nos amputar todos os membros? Não. Novos membros sempre renascerão! Aqui e ali defeituosos, depois cicatriza. Eu busco entender o que é o Certo e segui-Lo no que posso, procurando que esse possível seja o máximo. Mas, se o limite humano me constranger, por vezes paro e me aquieto, outras me forço e elevo o espírito ainda mais alto - ao passado não retorno mais. 

A máxima que coloco no pórtico do meu oráculo é: ser um homem de bem não por temer o pecado, mas por amar a virtude.