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quinta-feira, 4 de julho de 2024

O mundo que vem por aí e minha conversão

 Estive testando as inteligências artificiais no modo avançado. Ainda que na versão mais simples do que elas serão, porque estamos no começo de tudo, já são assustadoras. Em segundos, entregaram-me análises de textos que há tempos venho ruminando, discutiram comigo sobre casos clínicos de pacientes dando respostas coerentes, interpretaram minhas poesias com a profundidade de um graduando da faculdade de letras de primeiro ou segundo semestre e, por último, musicaram minha poesia, com voz e melodia, com uma maestria de deixar meu coração inquieto e o meu amigo, grande compositor, boquiaberto. Até o verso que ele achava que não se encaixaria, elas o acomodaram da forma sublime.

"Ela não faz isso só, precisa de um comando", diz o especialista. Mas, com o comando de uma pessoa ela faz sozinha o trabalho de vinte. E essa proporção há de crescer assombrosamente: 1/20, 1/400, 1/160.000. Você entendeu a matemática.

As relações ficarão cada vez mais virtuais. E se antes já estavam se virtualizando, com todos os pescoços curvados ao celular, imagine com o corpo imerso em uma realidade alternativa, transmutado em bits, joelhos dobrados ao artificial.

Meu amigo compositor, um dos mais inteligentes que conheço, fez uma piada: "caberá a nós apenas sentir e adorar". 

Piada?

Eu que vinha lendo tanto, estudando tanto, buscando encontrar uma resposta que enfim devolvesse a fé às pessoas, como se fosse a solução final da maior equação de todos os tempos, vejo-me com a minha abalada. 

Não. Não adorarei uma IA. Adorarei a Cristo. Nossa! Soa tão estranho isso saindo de mim. Sou tão racional. Só que a razão já não parece ser o nosso diferencial. 

"...sentir e adorar..." 

Tenho chorado pelo que venho a enterrar, o Allan espírita.  

Não vejo como o espiritismo poderá trazer consolo às pessoas de fato. As comunicações mediúnicas estão comprometidas na sua capacidade de impactar o intelecto e guiar os corações. Outro dia, uma colega me chega emocionada porque recriaram a imagem da cantora morta de sua banda favorita em pleno palco, imagem, som, voz, jeito de falar, jeito de se portar, de se expor ao público. Agora entendo aquelas pessoas que falavam contra o espiritismo que devolvia à vista espectros rematerializados em névoas ectoplásmicas. 

E a tradição da minha família? Era ela que vinha me sustentando por um tempo. Trair meu pai?! Nunca! Então, eis que me vejo fragilizado por uma autobiografia dele, narrada até antes de se casar com mamãe. Essas páginas estavam ali criando mofo, e só agora tive coragem de ler. Quanta coisa das sombras de uma vida! O espiritismo salvou sua alma materialista bem no final. Não era uma tradição, mas um bote salva-vidas. 

Pois bem, gratidão ao espiritismo que me salvou do materialismo até então e me deu a capacidade de raciocinar sem me distanciar de Deus. O bote que papai me repassou me ajudou a chegar até a ilha do mundo. Daqui para frente, procurarei não mais uma doutrina, mas a Cristo. E, enquanto o procuro, quero tê-lo aqui comigo, fazendo parte de mim, com as migalhas sagradas que ele faz multiplicar a cada domingo pelas igrejas afora, de forma bem palpável.

Se você ainda quiser acompanhar a minha peregrinação, este blog termina aqui, Por uma Filosofia Espírita, e outro começa em seguida que se chamará doravante "Encontrando Você". Os motivos desse nome são óbvios, mas o iniciarei explicando-os.

Até lá.

PS.: Dêem-me licença, estou indo na igreja providenciar meu batizado.

domingo, 10 de maio de 2020

Do medo

O mundo mergulha numa nuvem de medo. As pessoas morrem aos magotes. Corpos são amontoados em valas comuns. Os ritos fúnebres são silenciados. 

Se após a morte há algo, e se esse algo é uma continuidade promissora, ainda que com passageiro ranger de dentes, devemos mais temer entregar o mundo ao medo do que a alma à imortalidade. 

Viver lutando, sabendo que à esquina pode estar a morte foi o normal da humanidade. Estes últimos séculos foram bem atípicos. 

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

João de Deus: uma chaga evitável



Qual o caso que tenho em mente quando escrevo isto:

- Um médium próximo ao espiritismo* (mas que se dizia católico?) que se dedica à medicina alternativa denominada cirurgia espiritual, internacionalmente conhecido e visado. Cobra certo preço em meio ao processo. Recentemente caiu sobre ele acusações de abusos sexuais, centenas, provindas de todo o Brasil.

Sobre essa imagem, trago de volta os conselhos do Prof. Allan Kardec com minhas palavras.

Centro espírita tem que ser pequeno. Por quê?
- Porque assim as pessoas podem se conhecer melhor, estudar com mais conforto as obras fundamentais para o engrandecimento moral, bem como engendrar um processo de análise das comunicações mediúnicas que receberem com mais cuidado e menos melindre, já que se tratam de amigos. Assim se tem um processo de vigilância que as previne de as discórdias tomarem proporções destruidoras para o grupo.

E se houver discórdia?
- O discordante, se não arrastar a todos pela verdade de sua palavra, funda outro centro espírita além. E se discordar dos pontos tidos como fundamentais na definição do espiritismo, funda novo movimento com outro nome.

É temerário o médium ter um lugar de destaque no centro espírita. Por quê?
- Porque suas comunicações são o objeto de estudo e não o núcleo fundante de novos dogmas. Se ele for o centro, o líder, o sacerdote, quem estará acima dele para criticá-lo, guiá-lo em direções mais sãs? Como saber se o que vem dele é de Deus se sua palavra for a última?

A humanidade precisa do contato com o transcendental pelos mais diversos canais. Médiuns são indispensáveis!
- É verdade. Quando éramos aqueles que errávamos no deserto esperando um profeta, muitos eram os que jogavam prodígios e milagres sobre a população. O profeta verdadeiro se sobressaía pelo seu exemplo santo, esmagado pela sombra de Deus. Hoje estamos em uma sociedade em que todo autor de milagre é glorificado em algum X's Got Talent. A sociedade do espetáculo.

Ainda Kardec: a mediunidade é apenas a entrada da doutrina. Quando se é convencido da realidade do mundo espiritual, devemos partir para as consequências morais.

Mas, os milagres de cura são bem diferentes. Eles são o poder de Deus descendo para aliviar os aflitos.

- Qualquer alívio ou mesmo cura é temporário se não houver transformação moral efetiva. Não é demais insistir: fenômeno mediúnico, qualquer que seja, é apenas ignição.

Pode-se cobrar pela graça distribuída?
- Não, já que é graça. Isso previne o charlatanismo. De onde virá a renda que sustenta o que quer que seja (uma cidade inteira?!) quando a graça da forma que veio, isto é, espontaneamente, desaparecer? Resposta: de fenômenos forjados.

O perigo do exercício da mediunidade à la João de Deus já estava previsto nos primeiros anos de doutrina espírita. O que acontece com um médium que é o foco das atenções de milhões de adoradores?
- Envaidece-se, certo dia suas vestes são rasgadas, revela-se a carne humana, e cai.


sábado, 23 de setembro de 2017

Médium João de Deus, Lair Ribeiro e a morte de Marcelo Rezende



"Médium João de Deus e médico sofrem acusações após morte de Marcelo Rezende" diz a notícia que pode ser conferida clicando aqui

Os repórteres registram que o médium João de Deus teria revelado (mediunicamente?) Lair Ribeiro como a cura para o câncer que matava Marcelo Rezende, famoso apresentador de um programa de TV. 

Por que se deve tomar cuidado com revelações bombásticas de médiuns?

Qualquer espírita que leu qualquer livro introdutório de Allan Kardec responde isso brincando.

Médiuns não tem acesso a verdades absolutas. O mundo dos Espíritos a que os médiuns têm acesso é composto por um sem fim de habitantes que podem emitir revelações. Estes Espíritos são de todas as classes, desde os mais sábios aos mais embusteiros. Kardec havia pedido cautela com qualquer revelação. "Rejeitar nove verdades a aceitar uma mentira", aconselhava. 

Nenhum médium pode se gabar de ser imune a espíritos enganadores. Ninguém é blindado contra a sugestão de mentirosos. Não há pessoa completamente transparente a si mesma. A quantidade de fragilidades presentes em nossa alma que podem ser utilizadas contra nós por qualquer um não tem conta. Não se pode receber dos médiuns qualquer informação que, pretensamente, venha do mundo espiritual sem análise. 

Isso não quer dizer que a mediunidade não exista. Falhas de um fenômeno não provam a total inexistência do mesmo. Provam apenas que o fenômeno tem falhas. No caso aqui, a verdade que cai por terra é: "é confiável qualquer informação que venha de um médium confiável?". Resposta: não. Um médium de boa índole e que se vigie muito acaba por se tornar um excelente intermediário de Espíritos bons, mas nada impede que Espíritos dissimulados também se comuniquem. 

O que acontece com as pessoas, particularmente as fragilizadas pela doença e sedentas de esperança, é que se apegam, como a uma tábua em alto mar, aos que trazem nos olhos certezas de salvação. É uma situação complicada, porque o milagre depende dessa entrega, o que implica certa anulação do espírito crítico. Porém, há outros fatores que geralmente desconsideramos: o tempo de Deus e o que para Deus é vida.  

O sofrimento tem um tempo de acontecer no ser humano que é o da sua redenção. Sempre está de mãos dadas com um processo de amadurecimento do Espírito. Seu fim é a aquisição do aprendizado. Os espíritas, acreditamos que as curas de Jesus aconteciam na clarividência do momento certo de fazê-las nascer. Como um parteiro respeita o momento de tirar a criança.  

E o fato de viver mais um pouco ou morrer são dois caminhos indiferentes para Deus, já que para Ele tudo é vida. Sendo o tempo uma ilusão para a eternidade, viver mais um pouco ou morrer, e portanto continuar vivendo de outro modo, com a busca de uma consciência em outro nível, são apenas vivências diferentes aos olhos de Deus. 

Pense nisso, se você estiver diante de um médium, e um Espírito "de luz" disser a este que não se preocupe pois você vai viver ou sobreviver ou se curar do mal que te aflige, não será uma mentira se morrer, será apenas uma outra verdade que você não estava preparado para entender. Faltava o complemento da revelação, pois mesmo morto, estará vivo, redivivo, e em algum tempo liberto

Em outras palavras: se você é uma pessoa apegada no aqui e agora, não confie em pessoas que tem o ponto de vista da eternidade, a frustração é certa. 





domingo, 13 de dezembro de 2015

Microcefalia segundo o espiritismo (parte 4 - outros diálogos)



1. Um leitor amigo dialoga sobre a teoria da reencarnação como um fenômeno coletivo

LEITOR: Uma coisa interessante que teve nesse teu texto e que considero um aprendizado novo pra mim é o reflexo das ações humanas como sociedade mais do que como pequeno núcleo. Sempre pensava em encarnação como evolução individual e ajudar na evolução dos próximos, mas é interessante pensar que Espíritos também podem reencarnar "em resposta" a um contexto mais global. Não sei se entendi direito essa parte. Tem alguma coisa muito errada com a interpretação?

EU: É isso mesmo! Tá certo! Uma malha muito fina conecta global e individual. Se os governantes entendessem que a geração futura que eles devem proteger são eles mesmos (todos os que eles amam e toda a nação que eles governam) reencarnados, acho que teria um pouco mais de esforço.

LEITOR: Fiquei em dúvida em uma parte do seu texto. Tô relendo aqui e lembrei de perguntar. Você fala que Espíritos carregados de escolhas ruins tem seu perispírito afetado e que isso afeta a formação do corpo físico. Um parágrafo depois, tu fala que grandes almas "escolhem" corpos frágeis. Não é confuso?

EU: São dois caminhos possíveis para que tenhamos em mente que aquele ser pode ser algum endividado ou uma grande alma. Não tem como saber. Quando é uma grande alma, ela escolhe moldar seu corpo com limitações. É uma liberdade. Quando é um ser endividado, ele não tem escolha, ele não tem elementos para fazer uma embriogênese melhor do que aquela. Por que um Dalai Lama escolheria vir em um corpo débil? Para crescer com o exercício que todos aqueles obstáculos tem a lhe proporcionar. Seria uma encarnação de grande meditação rumo a uma iluminação sem precedentes!

LEITOR: Entendi. A gente já tinha conversado sobre isso. Sobre essa opção por corpos mais frágeis.

EU: Às vezes você percebe isso assim: a grande alma é um bebê tranquilo com tudo apesar das malformações. O indivíduo que está preso nas próprias limitações se revolta demais.

LEITOR: É que ficou um pouco confuso no texto. E no fim tu terminou só com o lado de "castigo". Sei lá...

EU: Porque as grandes almas são as que nos acolhem. Acabamos sentindo-nos muito bem ao lado delas. As mensagens de força são importantes para aqueles que receberão as que estão em situação de "castigo". Mas vou tentar melhorar lá. Valeu pelas considerações!

* Em vez de tentar melhorar no texto original, decidi expor esse diálogo elucidativo para que vocês tirem suas próprias conclusões. 


2. Uma leitora amiga me questiona uma hora como médico, outra como espírita e pai

LEITORA compartilha um áudio de pediatras espelhando mensagens sobre a possível ligação entre a doença do Zica e a agressão ao sistema neurológico de crianças na primeira infância. 

Após procurar artigos e conversar com infectologistas amigos, respondo:

- Não se pode afirmar nada ainda sobre isso, pois não há coorte de pacientes acometidos para se estabelecer uma inferência causal forte o suficiente.

A LEITORA insiste e muda a perspectiva da pergunta: 


- Agora faço uma pergunta para o pai Allan: ainda que nāo se possa estabelecer uma inferência causal forte o suficiente, essa hipótese te faz modificar a conduta de cuidados com teu filhinho? Essa possibilidade te amedronta? 

Resposta do Allan pai e espírita:
- Me amedronta. Estou mais perto dele e amando-o mais. Para que nestes momentos em que ele não foi acomeitdo por essa onda fique bem forte nele gravado o quanto nós o amamos. Para que seja importante para ele enfrentar o que pode vir por aí em sua jornada encarnatória! Temos que ter mais do que nunca em mente que o mundo tem rédeas e estão mas mãos de Jesus.

sábado, 5 de dezembro de 2015

Microcefalia segundo o espiritismo (parte 3 - mensagem de consolo)



“O que dizer para uma mãe que descobre que seu filho tem microcefalia e se pergunta o porquê de tudo isso?”


Antes de tudo, importa esclarecer para qual mãe eu diria o que diria. Uma mãe que se pergunta pode procurar as respostas em muitos lugares... Então, de princípio, eu jamais me dirigiria a uma ou várias mães para falar do Espiritismo a menos que elas se mostrassem dispostas a tal; seria uma ofensa, num momento de fragilidade, despejar crenças estranhas a elas. Portanto, apenas diria qualquer coisa diretamente ligada ao Espiritismo caso fosse uma vontade da mãe conhecer mais sobre o assunto, por respeito a ela e sua dor. Com um último adendo: incluo o pai também. Resquícios infelizes ainda nos prendem a uma responsabilidade diminuída do sexo masculino, a qual acho importante refutar e recolocar. O pai responsável ama e sofre como a mãe; junto com ela.

Nesse caso, antes de tudo eu lembraria Deus. Traço comum das religiões, a simples lembrança que temos um Pai amoroso que nunca se descuida de nós tem potencial altamente consolador. A certeza de que alguém olha por nós, velando por todos os nossos passos e cuidando de nossas dores mais ocultas oferece a promessa de uma tranquilidade segura. Não esquecer nem se distanciar de Deus é o primeiro passo.

Contudo, alguém que procura o Espiritismo sabe que isso não basta... Sua alma anseia por mais. Por uma fé com embasamento. Por que eu? Por que meu filho? A Justiça Divina, para ser efetiva, precisa abarcar mais que essa vida. Logo, recorremos a reencarnação. A ciência de que vivemos inúmeras vezes, colhendo e plantando, sucessivamente, abre caminho para novas reflexões. Não sabemos exatamente a razão, mas entendemos os mecanismos.

Mas ainda não é o suficiente saber da sucessão das vidas. Milênios da Lei de Talião impregnados em nossas sociedades dirigem imediatamente o pensamento à culpa do erro castigado. Sinônimo de punição? Não. Não é o que consolará uma mãe, um pai. Será necessário participa-los da grandeza Divina. Deus não é mero punidor, que nos faz “pagar” os erros em moeda de sofrimento. Reencarnação, provas e expiações são apenas os meios de um fim: o aprendizado, o alcance da perfeição, o conhecimento de si mesmo e a ação regida pelas Leis Naturais. Sob esse novo panorama, não sabemos se punição, se consequência, se missão; sabemos apenas que, seja o que tenha sido, o véu nos foi estendido para que nos concentremos no que há a fazer, em vez de estarmos atados improdutivamente ao que foi. É a melhor oportunidade que nos cabe, oferecida segundo a misericórdia do Pai. Novo recomeço. Chance renovada de se fazer melhor que o ontem. Redenção pelo amor. Eis a tarefa.

E... o que fazer, de fato, de posse desse novo olhar? Amar. As dificuldades que se apresentarem, que oferecerem resistência à ideia do amor são exatamente o que deve ser combatido em nós mesmos. Como todo véu, sob a luz adequada é possível ver vultos por trás do ocultamento; cada mancha que se revele contra a luz é sinal de luta passada ainda por vencer. Orgulho, vergonha da sociedade, medo de falhar, dificuldades materiais... Tudo aponta para o que já fomos e o que precisamos vir a ser.

Conscientes da verdade de que o Senhor da Vida olha por nós, que não nos desampara, que oferece a redenção pela justiça através das melhores oportunidades, segundo a nossa semeadura, o caminho está traçado. Não poupará levianamente das dores nem das lutas. Mas provará, diariamente, que o alcance da felicidade só depende de nós. Na perseverança por agir no bem e na sabedoria do olhar consciente que lançamos à nossa própria condição. Munidos da fé raciocinada, da esperança no futuro e tendo a caridade como força motriz, inevitavelmente venceremos, em paz.

Por Erick Machado

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Microcefalia segundo o espiritismo (parte 2 - resposta)

O correligionário Erick Machado comentou sobre o texto que eu havia escrito sobre o tema a fim de deixar os posicionamentos mais sãos. 

Então, vejamos o texto de Erick:

(Meus comentários entre parênteses).

A tese das expiações evolutivas ou das dores do parto


O surto não acomete “populações inteiras”. A prevalência da microcefalia, mesmo em surto 20 vezes maior que o comum, não chega a 1 em 1000 nascimentos no país. Para se ter uma ideia, a Síndrome de Down tem incidência de 1 a cada 800. E não é um surto pontual. Isso para não falar em todas as outras condições que afetam as crianças. A associação desses nascimentos a um suposto tempo que se finda é quimérica, falaciosa. As guerras já foram mais constantes, as corrupções, a violência, a injustiça de leis parciais, tudo já foi pior. Avançamos. Lentamente, mas avançamos. Conforme diz sabiamente “A Gênese”, não se darão abalos físicos como sinal dos tempos, mas unicamente morais. A microcefalia é uma questão de ordem física e, portanto, não pode ser vista, sob a ótica espírita, como nenhum tipo de sinal. É apenas o reflexo da nossa falta de cuidado físico com um vetor de transmissão de outras doenças, vetor que não combatemos adequadamente.


  • (A Vigilância Epidemiológica do Ceará se alarma exatamente porque há um aumento da incidência de microcefalia sem precedentes na coorte histórica dos últimos anos, e, segundo BOLETIM EPIDEMIOLÓGICO MICROCEFALIA de 30 de novembro de 2015 já existem casos em torno de 14 estados do Brasil, a maioria esmagadora no Nordeste. Acredito que isso justifica a utilização do termo "populações inteiras", ao menos como metonímia). 


  • (Sobre avançarmos lentamente, Kardec também coloca que há abalos súbitos que devastam toda uma forma de pensar, substituindo-a. De qualquer forma, Erick nos lembrou um texto magnífico do codificador presente em seu último livro "A Gênese", cuja profundidade não tenho como discutir aqui, mas que vale a pena ser lido: "São chegados os tempos". De todo modo, gostaria de me afastar da atitude de conceituar o surto da microcefalia em nossos recém-nascidos um sinal, mas uma situação de catástrofe que merece a preparação de nossos corações) 


Sobre o caráter dos Espíritos envolvidos


As condições do corpo nada mais são que as condições melhores para cumprimento de suas necessidades de crescimento na Terra. Como parcialmente levantado no texto, podem ser provas de Espíritos comuns, podem ser expiações de Espíritos maus, podem ser missões de Espíritos elevados, pode ser uma prova para os pais, mais que para o próprio. Notemos que, nessa condição, o Espírito estará privado de muitas escolhas morais que poderiam concorrer para o seu adiantamento, se tivessem maiores possibilidades. São inúmeros os caminhos. Nada se pode dizer quanto ao caráter de um Espírito baseado na dificuldade de sua condição material, de modo que os casos de microcefalia são exatamente iguais a qualquer outro nascimento em qualquer corpo: nada se pode afirmar sobre o Espírito reencarnante.

  • (Aqui Erick quis enfatizar que não devemos nos preocupar com o que a criança pode ter sido em outras vidas - são infinitas as possibilidades explicativas dessa forma de existir. Essa sua precaução nos ajuda muito a não cair no erro de julgar o ser humano que sofre em corpo malformado como sendo merecedor ou não desse mal. Precisamos, independente de passados, lhe oferecer abrigo e fortes braços que o sustentem agora.)  

Ademais, não existe “fragilidade” do perispírito. Existe a fragilidade ou força do Espírito, sobre a qual, insisto, o corpo nada diz. Se o corpo nada diz, dissertar sobre o caráter dos Espíritos e a microcefalia é dissertação vazia de significado.

  • (Talvez, de fato, não valha a pena insistir na especulação do passado analisando o corpo destas crianças microcefálicas. Mas, creio existir uma arqueologia da imortalidade esculpida em nosso corpo. Não entendo porque isso seria vazio de significado. Nos oferece mil nortes para encararmos a solidariedade das vidas sucessivas). 


Sobre a "culpa" da natureza


Não está conforme a visão espírita pensar que as catástrofes naturais possam refletir o estado de espírito dos homens e mulheres. Não existe base alguma na Doutrina Espírita para falar em “bolsões de miasmas”. O que repercute no mundo físico é a nossa ação física e as leis naturais. Nenhuma delas diz que podemos, por efeito de nossos pensamentos, atrair vírus e mosquitos para infectar populações. A nossa imprevidência no campo físico deu origem a essa possibilidade, e Espíritos reencarnantes que julgaram ou foram julgados como adequados para ocupar esses corpos se aproveitaram da oportunidade ensejada. Nada mais.


  • ("Bolsões de miasmas" soou estranho, não é? Deixo essa expressão em suspenso porque participa de um contexto de explicação de uma medicina antiga que a medicina moderna entende ter derrotado, mas que não estou tão certo de ter conseguido. Quando Erick diz que "o que repercute no mundo físico é a nossa ação física e as leis naturais" me parece desconsiderar completamente a ação, por exemplo, da prece que pode chegar até mesmo a curar doenças, acalmar fúrias à distância, enxugar lágrimas escondidas. A prece é uma ação simples cujo poder me faz crer que o mundo físico não é tão imune assim à ação de nossos pensamentos. Não vejo porque a influência de nossos pensamentos sobre a materialidade do mundo não possa ser também uma lei natural.)


A missão do Brasil


A corrente de pensamento de um Brasil missionário carece de fundamentações mínimas. Suas descrições entram em franco desacordo com o que se conhece acerca de Jesus pela ótica espírita, mostrando um ser eventualmente dolorido e amargurado, distante das descrições dos Espíritos Puros. Mostram um governador do planeta que desconhece o território pelo qual é responsável. O Brasil não é o melhor nem pior país. Não é o mais adiantado nem o mais atrasado. Não é o mais moralizado, nem o mais deturpado. Tem avanços e atrasos como qualquer outro. Nada há de especial no Brasil que possa distingui-lo como merecedor de qualquer missão mais especial que os demais. Há aqui corrupção moral o suficiente para ocupar nossas crianças, embora os países e os mundos sejam solidários na reencarnação dos Espíritos. Não há nada aqui que possa ser de mais valia a esses espíritos que não haja em outras terras, até mais abundantemente.

  • (Então, eis um contra-ponto de um estudioso da Doutrina Espírita sobre a questão do Brasil missionário. De todo modo, se o Brasil em si não guarda qualquer missão, nós o fazemos, cada um tendo que contribuir para o melhoramento do mundo e a materialização do amor ao próximo que Jesus nos aconselhou a fim de por término a esses ciclos de sofrimentos em que nos vemos enredados por tanto tempo).  

CONCLUSÕES QUE TIRO PARA MIM

  1. Devemos nos importar menos com as causas íntimas das aflições do que nos fortalecer para saná-las;
  2. Insistir menos nas especulações do nosso passado e investir mais nas ações de hoje;
  3. Considerar a prece como uma forte aliada para ajudar-nos na materialidade de nossos problemas;
  4. Não esquecer que, não importa quem sejamos, viemos sempre à terra com uma missão para o bem.

***

Retorno de Erick Machado

No mesmo sentido de síntese, aproximação e complementação de ideias, gostaria de deixar apenas pequenos pontos que, me parecem, vem ao encontro do que o amigo ponderou em todas as questões.

Dores do parto
- Como metonímia, acredito ser aceitável a expressão "populações inteiras". Minha questão era que existem condições comparáveis à microcefalia em bem maior quantidade, diariamente. Isso minimiza episódio do surto como oportunidade reencarnatória extraordinária. De resto, concordo com os apontamentos.

Caráter dos Espíritos envolvidos
- Aqui acredito que aqui nossa diferença seja mais de foco que de conteúdo. Concordo com você que, individualmente, a condição corporal seja norte para entender a solidariedade das vidas sucessivas. Perfeito. O que não acredito ser possível é a generalização de que uma condição corporal, como a microcefalia, possa determinar, de forma geral, o caráter dos Espíritos reencarnantes. Acho que há complementação de pensamentos: ambos acreditamos na mesma relação entre corpo e Espírito; mas eu me referi ao fato de que, dadas as múltiplas condições possíveis do Espírito, não é possível determinar, pelo corpo, qual delas está em questão, e você se referindo ao fato de que, ainda que não possamos apontar que condição é essa, não é sem razão que aquele Espírito vem naquele corpo.

Culpa da Natureza
- Entendo que apesar de uma divergência sutil, novamente temos mais uma questão de foco. O amigo tem razão quando lembra a prece como forma de interferência do espírito na matéria, via perispírito. Ainda assim, entendo que a interferência tem foco moral, antes de tudo. As lágrimas enxugadas e mesmo as doenças têm essência moral por trás de si. Contudo, embora entenda que, no caso da microcefalia, o pensamento não tenha interferido numa suposta "atração" do surto em si, acredito ter me equivocado ao dar a entender que apenas o físico interfere no físico, já que concordo que o pensamento pode interferir notoriamente na materialidade.

Missão do Brasil
- Concordo plenamente. Mesmo advogando contra a tese do Brasil missionário, não podemos perder de vista que a cada um de nós foram confiadas missões de acordo com nosso conhecimento e capacidade.

Microcefalia segundo o espiritismo



O momento para o Brasil é de pesar. Um surto de malformações fetais onde se predomina a microcefalia desespera a população e, para piorar a história, o Nordeste é vítima da maior parte dos casos, superpondo esse sofrimento ao da seca. As notícias sobre os agravos aumentam e vazam com a leviandade dos boatos. 

Venho aqui para tentar pensar qual o motivo dessa tragédia entre nós. Vou elencar algumas correntes de pensamento espírita que provavelmente fundamentarão explicações daqui em diante nos relatos mediúnicos, esperando que algum me surpreenda e fortaleça-nos ainda mais.


A tese das expiações evolutivas ou das dores do parto 


Um surto que acomete populações inteiras pode ter relação com uma leva de Espíritos reencarnantes, cujo tempo para a progressão moral se finda no avançar da hora da maturação do planeta. A humanidade, nestes últimos séculos, se ressente das dores de um parto que custa a acabar, cujos momentos de seu curso se refletem na eclosão de violências, no escancaramento de vícios e corrupções, e, agora, na materialização de meios propícios para a vivência de dores de resgate e aprendizado.

Parteja-se aqui um mundo melhor, entregue em breve às luzes de um descanso de regeneração para o corpo social sofrido. 


Sobre o caráter dos Espíritos envolvidos


Quando carregados de escolhas ruins, estas fragilizam seu perispírito, órgão espiritual que plasma o corpo físico, fazendo com que as malformações emerjam. As limitações extremas do corpo conduzem o Espírito a um aprendizado de seus movimentos interiores, de suas emoções, e mesmo os pais e familiares passam a ler as lições trazidas pelas próprias vulnerabilidades. 

Acontece de grandes almas escolherem reencarnar em um corpo débil. Almejam mais iluminação ao sofrerem com as ilusões da dor. Pensam também em se engajarem em contexto de aprendizado para os pais, sendo instrumentos para tanto. 

Ocorre de igual modo que pais abnegados tenham escolhido receber Espíritos em situação de resgate expiatório, e, assim, acolhem aquele sofrimento com devotamento ímpar.


Sobre a "culpa" da natureza 


O Espiritismo tenta mostrar que a natureza não é nossa inimiga. Uma superficial visão ecológica nos faria entender que os ciclos de vida e morte são inevitáveis, que as doenças são caminhos possíveis. A imortalidade da alma nos deixa estagiários destes processos. 

É verdade, porém, que viemos, com nossa tecnologia, alargando vários limites da natureza. Algumas dessas nossas tentativas descambam em não menos naturais desequilíbrios que nos convidam a empreender melhores respostas. 

Não se defende o crescimento zero, mas o crescimento bem guiado pela inteligência e pela ética a fim de tornar o desenvolvimento o mais democrático possível. Somos destinados a fazer imperar o cosmos sobre o caos, mas nunca em benefício de uma oligarquia olímpica. As tentativas que se direcionam para o privilégio são corrupções da nossa missão e sempre tendem a desandar. 

De outro modo, assim como em pequena escala o Espírito é responsável pelo origami do corpo, em larga escala, nossas ações como humanidade se refletem em tudo que nos é considerado meio de existência. Está perfeitamente conforme à cosmovisão espírita pensar que as catástrofes naturais possam refletir o estado de espírito dos homens e mulheres, formando bolsões de miasmas que se precipitam sobre nós o que, aos tempos do Egito antigo, foram considerados como pragas, e que, todavia, tinha menos a ver com a ação direta de Deus do que com a repercussão dos nossos atos sobre o mundo. 


A missão do Brasil


Certa corrente do pensamento espírita imagina ser o Brasil um grande acolhedor das práticas do Evangelho. E, como ele tivesse sido destinado por Jesus para acolher os aflitos do mundo, é provável que alguém nos fale que os Espíritos envolvidos em crimes de outras nações estejam sendo destinados para compor nossas novas crianças cujos corpos débeis servem de poderoso cadinho para as transformações viscerais do espírito imortal. 

O que todas essas teses apontam é que não devemos vestir a túnica dos coitados do mundo, que o desespero deve ser convertido em trabalho, que o amor pelo próximo e o acolhimento dos debilitados deve ser, mais do que nunca, a tônica de nossos corações. 


Leia também:

* O comentário que faço à contribuição de leitores desse assunto: link
** Uma mensagem de consolação escrita por um leitor endereçada à família vivendo com  a situação da microcefalia: link
*** Outros diálogos que andei tendo com leitores deste blog: link


domingo, 21 de junho de 2015

Sobre a carta psicografada de Cássia Eller

Suposta carta psicografada de Cássia Eller é divulgada na web. Leia a matéria aqui


Mexer com a atividade de Correio do Além é como mexer em uma casa de maribondo. Ainda mais quando se trata de um personagem famoso. Primeiro de tudo porque o médium terá que lidar com o luto das famílias, as fortes emoções que podem advir das revelações sobre a vida após esta vida. Depois, porque o quesito da identidade de uma comunicação é recheado de sutilezas que vão muito além de deixar transparecer particularidades da relação que unia o remetente e o destinatário.

Eu mesmo já tive um momento eufórico de intensa vontade de psicografia sobre a morte de um colega de trabalho. Assaltou-me a vontade de correr à sua família e contar minhas visões. Mas, como estava envolvido emocionalmente demais com o ocorrido, busquei ajudar de outra forma que não através dessa revelação intervencionista. Tão importante quanto deixar passar, é saber calar. Eis uma lição que Chico Xavier aprendeu em seu mediunato. Por que muitos médiuns, de todas as culturas, falam por parábolas, metáforas, provérbios? Porque a revelação sem intermediação do simbólico poderia chocar as mentes mais do que esclarecer, perturbar mais do que ajudar. As parábolas tem o mérito do exercício da interpretação que, quando bem conduzida, oferece lições para além do simples recado. 

É bem melhor que as comunicações mediúnicas não sejam enquadradas no binômio verdade-falsidade, mas de verossímeis ou não. Verossímel é aquilo que guarda relação de possibilidade com a realidade, já que não podemos firmemente afirmar que seja de fato. E, se pensarmos bem, toda história, qualquer que seja ela, que não está sendo presenciada e vivida pela própria pessoa, que está apenas sendo narrada, transcrita, só pode ser analisada nos termos da verossimilhança. Se quisermos ser rigorosos, mesmo a história narrada por alguém que acabou de chegar do evento, só pode ser no máximo verossímel, já que toda narração é intensamente construída pelo narrador, com seu ponto de vista bem particular. 

A relação mediúnica SEMPRE é uma interação entre o Espírito comunicante e o Espírito do médium. A mensagem SEMPRE tem participação das duas mentes. É um ajudando a contar a história do outro. Vede, então, a reserva que tem de se ter para com "a verdade" daquilo. 

No mais, acho a carta de Cássia Eller bem verossímel. As descrições do ambiente do "inferno" muito semelhante a de vários Espíritos que já se comunicaram em situações semelhantes, embora haja essa estranha presença destes "dragões" cuja descrição já se apresentou em psicografias de Chico Xavier pelo Espírito André Luís, salvo engano, no romance Libertação, mas que não configura princípio de doutrina. A existência de insetos e anfíbios como figuras asquerosas a piorar o ambiente das zonas de sofrimento também é de levantar estranhamento, mas também estão presentes em vários outros relatos. A cena do reencontro com Cazuza não surpreende, ligados que os dois deviam ser pelas afinidades artísticas e comportamentais. E, por fim, a transmutação do discurso de Cássia Eller para um que valoriza a misericórdia divina não tem nada de anormal, já que, vemos isso constantemente, os sofrimentos atrozes, e a o véu que se rasga na consciência após a morte, tem o poder de reconduzir as pessoas para o pensamento em Deus. 

O que Kardec sempre buscava fazer era se afastar dos detalhes e buscar a essência das mensagens: 

  1. Há zonas de sofrimentos enormes, mas nunca eles são perpétuos; 
  2. O abuso do próprio corpo, e não apenas o insulto contra o vizinho, é também motivo de sofrimento; 
  3. A não existência de um lugar para onde vamos, mas onde já estamos, reflexo de nossa consciência viciada ("Com o fenômeno da morte, nós não vamos para o umbral, nós já estamos no umbral...); 
  4. O resgate chega em momento oportuno, depois que o próprio Espírito está preparado para o mesmo; 
  5. A união dos seres afins em lugares que são o reflexo do seu estado de espírito; 
  6. O esclarecimento espiritual, objetivo de todos nós que labutamos nestes círculos de luz e sombra. 

Sobre alguma particularidade que revelasse, sem sombra de dúvidas, a identidade do Espírito, não as enxerguei, mas nem conheço a intimidade de Cássia Eller tanto assim. Contudo, já não é suficientemente reconfortante saber que não há sofrimento eterno e tudo se encaminha para desfechos de grandes aprendizados em uma ascese espiritual interior?  

Aconselho a leitura desta matéria aqui também.


quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Je suis...

 

República*

Em meio às manifestações contra os atentados à Charlie Hebdo, as muitas faces de "Je Suis": Charlie (grande maioria), mas também Muçulmano, Judeu, República.

Uma manifestação como jamais vista na França sem partidarismo, sem particularismos. Embora todos alegassem o seu pertencimento, esse conjunto de particulares se reuniam em um coletivo que acabavam por se transcender em um objetivo comum, em uma identidade: o que não eram, não eram terroristas.

Dizer que se é a República dá o que pensar, pois esta, desde sempre, não se propunha ser uma instituição nem muito menos uma atividade em prol de uma maioria. Ela era, acima de tudo, um ideal regulador que queria o poder a serviço do interesse comum (leia-se: de todos), sem privilégios, corporativismos, Igreja, comunitarismos, partidos. Enxergar o indivíduo - cada um e todos - mas abstração feita de seus pertencimentos.

Os governos democráticos, contudo, mirando tal fim, se enchem de alianças, conflitos, relações de força, maiorias mais ou menos frágeis e cambiantes. Tudo em busca desse consenso universal que brilha pela sua ausência e dificuldade, o que nunca fez com que o espírito francês esmorecesse sua vontade de ser República. 

Voltaire

O fantasma de Voltaire também vagou pelas passeatas, pelos sentimentos. Em verdade, nunca desapareceu das penas daquela sociedade. Seus cartunistas sempre foram mais ou menos médiuns de Voltaire. A diferença, me parece, é que havia alguma coisa pelo que lutar à época do filósofo das Luzes: contra a Inquisição, contra o dízimo, contra os abades mundanos, contras as alianças obscenas entre o trono e o altar, o despotismo e a superstição. Mas, substituímos nosso ídolos pelo capitalismo triunfante, a indústria cultural, a comunicação universal e narcísica. 

A Igreja, àquela época era um inimigo, mas hoje? O catolicismo era nossa religião mais intrometida, mas o islamismo? Depois de enterrada a Igreja ocidental, o laicismo tinha de querer devorar as do Oriente? Estamos realmente de luto para com toda a violência que ainda há (sempre haverá?) no mundo. Charlie Hebdo: um epifenômeno. 

Je suis

Mais do que acordar contra a violência, seria de bom grado despertarmo-nos para o deus presente em cada outro de nós. Se antigamente a voz de Javé soava extremamente transcendente para captarmos, o Seu simples "Je suis" nos faz lembrar, hoje, porque devemos amar as pessoas: porque é ela, porque sou eu. 


* Sobre esse assunto, tomei as ideias de Sponville neste artigo: clique aqui


domingo, 7 de dezembro de 2014

Nossa homenagem ao Sr. Bolaños (Chaves, Chapolin, Dr. Chapatin, Soldado Chispirito, etc.)



Vejo mães dizendo que Chaves não era um desenho para crianças, pois as deseducavam. Mas, porque aquelas crianças se tornaram tão queridas para gente?

Elas brigavam umas contra as outras, os mais ricos esnobando os mais pobres, os donos dos meios de produção humilhando os inquilinos, os mais velhos sendo insultados pelos pequenos, a falta de polidez, a violência entre os vizinhos, a malandragem, a mentira, a sinceridade que agride. Todos estes recursos que reconhecemos tão nossos que rimos de nossa própria humanidade espelhada nos personagens de Bolaños.

Todavia, quando estávamos no ápice dessa identidade ao ponto de reforçá-la em nosso dia-a-dia, vinha aquela vila nos falar sobre a juventude do coração, a reconciliação dos díspares, o nivelamento das classes, a grandeza da amizade, a beleza do amor, a divindade de acolher um menino de rua como protagonista de nossas melhores lembranças, sem nem sabermos direito sua história ou a glória de seu sobrenome, mas pela ingenuidade e leveza com que vivia sua vida de barril.

E quem já não se sentiu tão herói quanto o anti-herói Chapolin? As pessoas em suas aventuras se salvam menos pelas habilidades deste do que pelo acaso delas. Ele é quase um fator confundidor que, por desnortear o mal, acaba o desmantelando.

Isso é uma lição para todos que quiserem "educar o ser humano". Não adianta tanto nos contar histórias de grandes heróis e deuses. Não o somos. Poderemos até nutrir admiração por eles, mas porque os imitar? Não são da nossa leva. Se quiserem fazer vibrar nosso íntimo ao ponto de nos guiar para transformações verdadeiras, tem que começar a partir do que verdadeiramente estamos, hoje. Para, então, mostrar como poderemos ser a partir dessa massa confusa de que somos feito.

sábado, 22 de junho de 2013

Política do que sinto



A luta política me dá náuseas. Tendo a me afastar dela por uma herança maldita que nos fez desacreditar do poder nos últimos decênios. Aos poucos me reaproprio do que seja lutar, do objeto da luta, do desejo.

Não sigo nenhum mestre nesse ponto. Ou sigo deles a parte que me convém. Escondo a face para não ver o punho cerrado. Mas, feito fantasmas, reaparecem repetida e insistentemente.

O início do Bhagavad Gita mostra Krishna se aproveitando da guerra, enquanto luta, para desenrolar toda uma filosofia que, com algum sacrifício, se consegue distinguir do Espiritismo. Sócrates não deixava de participar das guerras com seus compatriotas. Jesus, olho no olho dos fariseus, manchava o sábado, erguia a Torá em punho como a um cetro ao proclamar seu messianato, se sujava com o toque e as essências das pessoas de má vida, jogava ao chão as moedas falsas de vendedores da oposição.

Mas, Kardec... ajudou a educar as crianças da França, tentou dar crédito a uma medicina onde o bom pensamento dirigido ao semelhante valeria mais que pílulas industrializadas, gastou a saúde corporal dando corpo a uma doutrina esfumaçada (luminosa para mim), nebulosa (eu digo clara), um engodo de espíritos (cujas vozes deslindam os meus nós mais íntimos). Onde a política? Vivendo ao lado de Napoleão III, qualquer reunião da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas corria o perigo de ser considerada conchavo. Morreu como um cidadão comum, de derrame cerebral, em casa.

Há quem diga que Allan Kardec havia sido o mesmo Jan Huss. Onde, então, a sua desobediência civil contra o Estado totalitário que foi Roma, que era o Segundo Império Napoleônico?  Dissipou-se do espírito com as cinzas de seu antigo corpo?

Se por um lado tudo é política, como queria Aristóteles, a política não é tudo. Nenhum destes sábios que citei – Jesus no topo da minha admiração – reduziram a luta ao embate de poderes. Tanto é assim, que ninguém lembra deles pela ascensão a um trono qualquer, mas pela realeza imperecível, mais que vitalícia.

Inúmeras são as rejeições de Jesus à coroa dos romanos com quem os fariseus, de bom ou de mau grado, barganhavam. Sócrates lutava, sim, mas conseguia a façanha de abster-se de toda a guerra, estando no centro dela, para se entregar a um estado de contemplação que era a fonte de seu fazer filosófico de emancipação. Isso nos sinaliza, talvez, que deve haver uma política de verdade, com valores inabaláveis, pelos quais se possa lutar e, até mesmo, se deixar morrer. Não concordo com Krishna que se possa matar. Meus votos a Arjuna, que foi tomado de compaixão pelos irmãos da linha inimiga. Voto ainda mais em Cristo, que perdoa os acusadores e se deixa crucificar, espalhando sua mensagem feito dente-de-leão, tão logo aberta a gruta sem mais corpo que justificasse a paixão pelas terras daqui.

Essa era de globalização, isto é, da confusão entre as inúmeras terras, nos traz uma perspectiva da necessidade de uma política universal, de outro modelo de desenvolvimento, para além da esquerda ou da direita, que faça valer os direitos humanos em qualquer lugar ou tempo. Parece a paz ser uma das armas. Não parece ser a inação outra delas. O amor, sim. Mas, não sem lutar pelo ser amado. É uma paixão, que é violenta por natureza, que nos violenta a tal ponto de não nos deixar quietos enquanto não possuímos o que desejamos ardentemente, mas que não vejo sentido gerar mais dor física do que a que é causada pela existência desse amor em nós. Ela nos faz andar, marchar, ocupar a ágora e convidar ao grito e à reflexão, subir ao madeiro infame e abrir os braços (pode ser com a bandeira de seu país entre eles) aos irmãos, mas, por favor, já não mais com o sangue de Abel em nossas mãos.

- Espíritas de todo o Brasil, uni-vos! (mas antes dêem uma lida no último capítulo de A Gênese de Allan Kardec)

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Por acaso nessa atual revolução


 
 
O acaso não é a indeterminação, nem a ausência de causas. Mas, o conjunto de sequências causais que nos escapa.

Ontem vi um exército de brasileiros na Esplanada dos Ministérios bradando em uníssono os próximos passos da legítima reivindicação. Como eles faziam para ter uma única voz, deslizava completamente da minha compreensão. Mas, entendi que de um ponto tudo partiu: do café amargo da necessidade histórica misturado ao leite quente da liberdade própria.

Minha esposa ficou aflita ao imaginar as possibilidades de confronto violento aqui em nossa cidade contra os familiares que estarão nessa luta.

Peguei o livro Pão Nosso de Emmanuel, psicografado por Chico Xavier, e lancei o dedo sobre uma página qualquer:

O Senhor dá sempre


“Pois se vós, sendo maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais dará o Pai Celestial o Espírito Santo aqueles que lho pedirem?” – Jesus. (Lucas, 11:13.)

Um pai terrestre, não obstante o carinho cego com que muitas vezes envolve o coração, sempre sabe cercar o filho de dádivas proveitosas.

Por que motivo o Pai Celestial, cheio de sabedoria e amor, permaneceria surdo e imóvel perante as nossas súplicas?

O devotamento paternal do Supremo Senhor nos rodeia em toda parte. Importa, contudo, não viciarmos o entendimento.

Lembremo-nos de que a Providência Divina opera invariavelmente para o bem infinito.

Liberta a atmosfera asfixiante com os recursos da tempestade.

Defende a flor com espinhos.

Protege a plantação útil com adubos desagradáveis.

Sustenta a verdura dos vales com a dureza das rochas.

Assim também, nos círculos de lutas planetárias, acontecimentos que nos parecem desastrosos, à atividade particular, representam escoras ao nosso equilíbrio e ao nosso êxito, enquanto que fenômenos interpretados como calamidades na ordem coletiva constituem enormes benefícios públicos.

Roga, pois, ao Senhor a bênção da Luz Divina para o teu coração e para a tua inteligência, a fim de que te não percas no labirinto dos problemas; contudo, não te esqueças de que, na maioria das ocasiões, o socorro inicial do Céu nos vem ao caminho comum, através de angústias e desenganos. Aguarda, porém, confiante, a passagem dos dias. O tempo é o nosso explicador silencioso e te revelará ao coração a bondade infinita do Pai que nos restaura a saúde da alma, por intermédio do espinho da desilusão ou do amargoso elixir do sofrimento.

 

A minha direita um país convulsionante, a minha esquerda uma internet ululante, atrás de mim a mulher grávida de um menino destinado a que país, sob os meus olhos, então, a mensagem de Emmanuel teve o efeito exato de uma calma, mas nunca de um desprezo pelos irmãos que marcham.

- Defender com espinhos, proteger com adubos fétidos, sustentar com a dureza. O desastre e o equilíbrio. As calamidades e os benefícios.

Fechei a página alegremente surpreso e dedicamos o resto das nossas forças noturnas a uma prece para que tudo se passe no coração das pessoas com a pacificidade possível que se pode ter em qualquer guerra.  

terça-feira, 18 de junho de 2013

Por ocasião da atual revolução




Não posso deixar passar em branco essa onda de contestações que se espraia pelo Brasil. 
 
São, pelo menos e didaticamente três tipos de poder que temos segundo os critérios da participação humana: monárquico, oligárquico, democrático. O primeiro se funda em uma pessoa, o segundo, em um grupo seleto, o último, na vontade de todo um povo.
 
Há uma correspondência intrigante da forma de encararmos Deus em cada uma destas visões. Um deus de quem tudo depende, um outro representado por um grupo de eleitos ou, enfim, um que se manifesta por todos os seus filhos. 
 
Existem formas de se apropriar do poder divino que, também por didática, exponho em três pontos: proclamar Deus em mim, e apenas em mim, proclamar Deus nos meus, e quase a mesma coisa que “apenas em mim”, proclamar Deus em tudo, que é a explosão do eu.
 
Para que a onipotência de Deus não se manifeste juntamente com sua onipresença, isto é, para que o poder não jorre por todos os lados, imperioso é saber calar as vozes: pela ignorância, pelo medo, pelo sono.
 
Tentaram fazer isso com os Espíritos, incinerando seus manifestantes, mas: o pensamento é imortal, é incessante, é indomável. 
 
O que não se mostra, se esconde, mas não se cala: se fala por dentro da terra, por sobre os ares, por entre a carne.
 
Há um túnel que se cava de lá para cá e de cá para lá. O encontro desses buracos é o que entendo por luz.