A experiência de carregar o corpo desfalecente do pai nos braços queima a pele do espírito. Foi assim comigo.
Era uma manhã comum, em que madruguei estranhamente junto com ele e tomei seu café amargo. Fui pegar o carro na garagem quando minha irmã chega aflita anunciando o mal estar dele. Nunca nem lhe vi chorar uma lágrima sequer, sempre ativo e buscando resolver os problemas imediatos da existência. Raramente alguma conta se atrasava. Raramente nós nos atrasávamos em uma reunião. Parecia uma viga mestra entre nós. E, naquele dia, encontrei-o pálido sobre o sofá de espera do condomínio.
Carreguei-o, sofregamente, ao pronto-socorro; atordoadamente, ao velório; melancolicamente, à sua cidade amada. Ouvi as histórias de quem, como médico, ajudou. Segui a procissão que o enterrou no cemitério do lugar. Desde, então, seu Espírito me visita aqui e ali. Estou tendo menos consciência dessas visitas na medida em que venho me tornando ele: médico, pai, sem deixar atrasar os compromissos da casa.
Mas, aqui e acolá um sonho estranho vem, a guarda baixa, e a melancolia aperta. Diz o espiritismo, essa religião dele e minha, que a melancolia é uma saudade da liberdade que o Espírito gozava antes do nascimento na carne, uma vontade de voltar à liberdade, uma esperança que retornará. É sempre, portanto, uma ausência doce que acalentamos. Desse jeito que a sinto, também é a ausência dele.
Ontem, tive a sua imagem onírica bradicárdica sobre a cama em que assistia aos jornais. Eu prescrevia em seu consultório um soro para uma criança doente. O raciocínio pesava, a mão era lenta até que recebi a notícia de que passava mal. À época de sua verdadeira morte, não sabia as fases do morrer como sei hoje. Já conto algumas tantas pessoas que assisti o atravessar. Vivi o silenciamento de cada som do corpo, e dos monitores. Parece que estes sonhos que me devolvem para aquele dia no sofá fazem-me ter consciência dos sons que se calaram, e que não sabia existirem.
Outros sons são presentes. E como disse, parecem que vão se tornando menos conscientes na medida em que vão se reencarnando, em mim. O amigo que passar um pouco do dia em minha casa me verá assobiando para os filhos, roncando na sesta, com o lençol nos olhos, após ter lido algo, ou ainda, deixando que os meninos batuquem na minha barriga. É ele.
Se há algo que me faz compreender a relatividade do conhecimento humano em relação à perspectiva em que se encontra, esse algo é a experiência que tive de pai. A partir do que vivi quando criança, só posso querer ser mais, e, no muito, venho conseguindo ser cada vez mais quase igual. Que posso julgar daquele que não teve essa presença? É um esforço inaudito de construir uma forma de existir através de palavrórios das escrivaninhas de especialistas. Que posso julgar daquele que, com essa ausência, não acredita em um Pai Maior? É a não conexão com algo que nunca existiu. Pai e Deus são experiências, no finito, de encontro. E o desejo, no infinito, de reencontrá-los.
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segunda-feira, 21 de agosto de 2017
domingo, 20 de agosto de 2017
O amor comeu o meu nome e deixou nele pai
É a primeira vez que venho ao meu blog para falar deste assunto. Meu filho mais velho, mas ainda muito pequeno, tem esta condição neurológica a que chamam de autismo. É leve. Algumas singularidades muito especiais apontam para o diagnóstico. De todo modo, as duas questões que mais deve pesar sobre os pais destas crianças já nos tomam: o esforço de estimulá-lo ao máximo e o medo de ele ser rejeitado pela diferença.
Revezamos-nos, eu e minha amada, de tal forma que sempre há um de nós presente, e à noite, os dois. Diverti-lo com qualidade terapêutica é uma busca diuturna nem sempre bem sucedida. Algumas vezes é o cansaço que bate, outras é o desejo de ser casal, e outras poucas é a necessidade de estar sozinho.
Alegria é o que ele não nos cansa de dar. E, sentido pra vida. Sossego, nem tanto. Lembro que quase tudo que fiz até antes dele foi regido por muitos sonhos, excitação e pouca consecução. Do que venho mantendo até agora como os projetos sobre os quais posso falar em paz com Deus, há um de palhaçoterapia, há a medicina, e há a família.
O de palhaçoterapia, nem sou tão assíduo na contribuição, mas já dediquei boa parte da filosofia que estudo para o engrandecer. A medicina é minha relação de amor e ódio. Na verdade, não gosto muito dela, mas, justiça seja feita, é a atividade que me permite estar diante do sofrimento humano, semanalmente, com alguma ferramenta útil para diminuí-lo. Todavia, a família é um caso à parte.
A família primária sempre foi esse misto de "não escolhi nascer aqui" e "que bom que vocês existem". É onde já pude gritar e ser amado, brigar e ser querido, fugir e ser aguardado. E olhe que nem sou tão rebelde. Inimizades de berço foram desfeitas, admirações foram plantadas, saudades cresceram. O que já passei é o que quase todos passaram. E, por tudo, sou grato.
A outra família, o núcleo que venho construindo, não foge desta intensidade de poder se revelar em carne viva, nas próprias contradições, em meio ao amor. São experiências que não se pode viver em qualquer lugar. Contudo, penso que a família possui um elemento especial de proteção divina para suportar os choques de egos. Se não, deveria ter. Só Deus para fazer sobreviver ao encontro de pessoas despidas pelo cotidiano. É, de fato, para mim, o projeto mais meritório que poderei entregar a Deus, após selada esta vida.
Neste, meu filho trouxe um capítulo bem especial. Imagine o que é inclinar-se sobre o útero que acolhe corpo'ealma, ver este Espírito nascer para a Matéria, acompanhar suas conquistas diárias, tê-lo nos braços, levantá-lo do chão, sacrificar o sono nas febres e nas asmas, e estimulá-lo a ganhar o mundo.
O projeto de ser pai é um que abraçamos em uma noite amada, antes mesmo da noite da paixão. No escuro da nossa consciência, dorme a lembrança de quando recebemos de Deus a incumbência de cuidar de alguém que não é nosso e nunca será. Sabendo que a vida dele corre risco se não estivermos por perto. E que, quando não mais o podermos proteger, é que será o dia de ele ir para longe.
A família, eu dizia, é esse misto de "te quero" e "não te quero". Sinto que ser pai é esse misto de "é meu" e "nunca será". O símbolo de São José se repete em cada paternidade. Que deus cada menino guarda? Sentar no silêncio da marcenaria do dia e olhar que é preciso protegê-lo do mundo. A porta de grades, um dia ele saberá abri-la, cada cadeado. O mundo será pequeno para sua ânsia.
- Mas, menino, volte aqui e venha tomar café! Ainda sou seu pai.
Revezamos-nos, eu e minha amada, de tal forma que sempre há um de nós presente, e à noite, os dois. Diverti-lo com qualidade terapêutica é uma busca diuturna nem sempre bem sucedida. Algumas vezes é o cansaço que bate, outras é o desejo de ser casal, e outras poucas é a necessidade de estar sozinho.
Alegria é o que ele não nos cansa de dar. E, sentido pra vida. Sossego, nem tanto. Lembro que quase tudo que fiz até antes dele foi regido por muitos sonhos, excitação e pouca consecução. Do que venho mantendo até agora como os projetos sobre os quais posso falar em paz com Deus, há um de palhaçoterapia, há a medicina, e há a família.
O de palhaçoterapia, nem sou tão assíduo na contribuição, mas já dediquei boa parte da filosofia que estudo para o engrandecer. A medicina é minha relação de amor e ódio. Na verdade, não gosto muito dela, mas, justiça seja feita, é a atividade que me permite estar diante do sofrimento humano, semanalmente, com alguma ferramenta útil para diminuí-lo. Todavia, a família é um caso à parte.
A família primária sempre foi esse misto de "não escolhi nascer aqui" e "que bom que vocês existem". É onde já pude gritar e ser amado, brigar e ser querido, fugir e ser aguardado. E olhe que nem sou tão rebelde. Inimizades de berço foram desfeitas, admirações foram plantadas, saudades cresceram. O que já passei é o que quase todos passaram. E, por tudo, sou grato.
A outra família, o núcleo que venho construindo, não foge desta intensidade de poder se revelar em carne viva, nas próprias contradições, em meio ao amor. São experiências que não se pode viver em qualquer lugar. Contudo, penso que a família possui um elemento especial de proteção divina para suportar os choques de egos. Se não, deveria ter. Só Deus para fazer sobreviver ao encontro de pessoas despidas pelo cotidiano. É, de fato, para mim, o projeto mais meritório que poderei entregar a Deus, após selada esta vida.
Neste, meu filho trouxe um capítulo bem especial. Imagine o que é inclinar-se sobre o útero que acolhe corpo'ealma, ver este Espírito nascer para a Matéria, acompanhar suas conquistas diárias, tê-lo nos braços, levantá-lo do chão, sacrificar o sono nas febres e nas asmas, e estimulá-lo a ganhar o mundo.
O projeto de ser pai é um que abraçamos em uma noite amada, antes mesmo da noite da paixão. No escuro da nossa consciência, dorme a lembrança de quando recebemos de Deus a incumbência de cuidar de alguém que não é nosso e nunca será. Sabendo que a vida dele corre risco se não estivermos por perto. E que, quando não mais o podermos proteger, é que será o dia de ele ir para longe.
A família, eu dizia, é esse misto de "te quero" e "não te quero". Sinto que ser pai é esse misto de "é meu" e "nunca será". O símbolo de São José se repete em cada paternidade. Que deus cada menino guarda? Sentar no silêncio da marcenaria do dia e olhar que é preciso protegê-lo do mundo. A porta de grades, um dia ele saberá abri-la, cada cadeado. O mundo será pequeno para sua ânsia.
- Mas, menino, volte aqui e venha tomar café! Ainda sou seu pai.
domingo, 13 de dezembro de 2015
Microcefalia segundo o espiritismo (parte 4 - outros diálogos)
LEITOR: Uma coisa interessante que teve nesse teu texto e que considero um aprendizado novo pra mim é o reflexo das ações humanas como sociedade mais do que como pequeno núcleo. Sempre pensava em encarnação como evolução individual e ajudar na evolução dos próximos, mas é interessante pensar que Espíritos também podem reencarnar "em resposta" a um contexto mais global. Não sei se entendi direito essa parte. Tem alguma coisa muito errada com a interpretação?
EU: É isso mesmo! Tá certo! Uma malha muito fina conecta global e individual. Se os governantes entendessem que a geração futura que eles devem proteger são eles mesmos (todos os que eles amam e toda a nação que eles governam) reencarnados, acho que teria um pouco mais de esforço.
LEITOR: Fiquei em dúvida em uma parte do seu texto. Tô relendo aqui e lembrei de perguntar. Você fala que Espíritos carregados de escolhas ruins tem seu perispírito afetado e que isso afeta a formação do corpo físico. Um parágrafo depois, tu fala que grandes almas "escolhem" corpos frágeis. Não é confuso?
EU: São dois caminhos possíveis para que tenhamos em mente que aquele ser pode ser algum endividado ou uma grande alma. Não tem como saber. Quando é uma grande alma, ela escolhe moldar seu corpo com limitações. É uma liberdade. Quando é um ser endividado, ele não tem escolha, ele não tem elementos para fazer uma embriogênese melhor do que aquela. Por que um Dalai Lama escolheria vir em um corpo débil? Para crescer com o exercício que todos aqueles obstáculos tem a lhe proporcionar. Seria uma encarnação de grande meditação rumo a uma iluminação sem precedentes!
LEITOR: Entendi. A gente já tinha conversado sobre isso. Sobre essa opção por corpos mais frágeis.
EU: Às vezes você percebe isso assim: a grande alma é um bebê tranquilo com tudo apesar das malformações. O indivíduo que está preso nas próprias limitações se revolta demais.
LEITOR: É que ficou um pouco confuso no texto. E no fim tu terminou só com o lado de "castigo". Sei lá...
EU: Porque as grandes almas são as que nos acolhem. Acabamos sentindo-nos muito bem ao lado delas. As mensagens de força são importantes para aqueles que receberão as que estão em situação de "castigo". Mas vou tentar melhorar lá. Valeu pelas considerações!
EU: É isso mesmo! Tá certo! Uma malha muito fina conecta global e individual. Se os governantes entendessem que a geração futura que eles devem proteger são eles mesmos (todos os que eles amam e toda a nação que eles governam) reencarnados, acho que teria um pouco mais de esforço.
LEITOR: Fiquei em dúvida em uma parte do seu texto. Tô relendo aqui e lembrei de perguntar. Você fala que Espíritos carregados de escolhas ruins tem seu perispírito afetado e que isso afeta a formação do corpo físico. Um parágrafo depois, tu fala que grandes almas "escolhem" corpos frágeis. Não é confuso?
EU: São dois caminhos possíveis para que tenhamos em mente que aquele ser pode ser algum endividado ou uma grande alma. Não tem como saber. Quando é uma grande alma, ela escolhe moldar seu corpo com limitações. É uma liberdade. Quando é um ser endividado, ele não tem escolha, ele não tem elementos para fazer uma embriogênese melhor do que aquela. Por que um Dalai Lama escolheria vir em um corpo débil? Para crescer com o exercício que todos aqueles obstáculos tem a lhe proporcionar. Seria uma encarnação de grande meditação rumo a uma iluminação sem precedentes!
LEITOR: Entendi. A gente já tinha conversado sobre isso. Sobre essa opção por corpos mais frágeis.
EU: Às vezes você percebe isso assim: a grande alma é um bebê tranquilo com tudo apesar das malformações. O indivíduo que está preso nas próprias limitações se revolta demais.
LEITOR: É que ficou um pouco confuso no texto. E no fim tu terminou só com o lado de "castigo". Sei lá...
EU: Porque as grandes almas são as que nos acolhem. Acabamos sentindo-nos muito bem ao lado delas. As mensagens de força são importantes para aqueles que receberão as que estão em situação de "castigo". Mas vou tentar melhorar lá. Valeu pelas considerações!
* Em vez de tentar melhorar no texto original, decidi expor esse diálogo elucidativo para que vocês tirem suas próprias conclusões.
2. Uma leitora amiga me questiona uma hora como médico, outra como espírita e pai
LEITORA compartilha um áudio de pediatras espelhando mensagens sobre a possível ligação entre a doença do Zica e a agressão ao sistema neurológico de crianças na primeira infância.
Após procurar artigos e conversar com infectologistas amigos, respondo:
- Não se pode afirmar nada ainda sobre isso, pois não há coorte de pacientes acometidos para se estabelecer uma inferência causal forte o suficiente.
A LEITORA insiste e muda a perspectiva da pergunta:
- Agora faço uma pergunta para o pai Allan: ainda que nāo se possa estabelecer uma inferência causal forte o suficiente, essa hipótese te faz modificar a conduta de cuidados com teu filhinho? Essa possibilidade te amedronta?
Resposta do Allan pai e espírita:
- Me amedronta. Estou mais perto dele e amando-o mais. Para que nestes momentos em que ele não foi acomeitdo por essa onda fique bem forte nele gravado o quanto nós o amamos. Para que seja importante para ele enfrentar o que pode vir por aí em sua jornada encarnatória! Temos que ter mais do que nunca em mente que o mundo tem rédeas e estão mas mãos de Jesus.
quinta-feira, 1 de outubro de 2015
Diálogo de penumbra
- Amor, eu sinto que os Espíritos conduzem nossa vida. Já deram várias provas de que sou apenas um partícipe de projetos que nos transcendem. Por exemplo, quando eu escrevia aqueles livrinhos sobre histórias do evangelho para crianças e, ao chegar no grupo de teatro, abrimos o evangelho ao acaso e caiu em "deixai vir a mim as criancinhas". Ou ainda quando eu pensava em exercer minha homeopatia junto à população carente do Bom Jardim e, ao chegar no ambulatório da especialização, tive a grata surpresa de este ser o mesmo pensamento da coordenadora do curso, inserir-se no mesmo bairro, no mesmo projeto. Mas, sinto tanta falta de meu pai. Queria que ele se comunicasse comigo de uma forma mais tangível.
- Mas, ele está em todos esses projetos, Amor.
- Queria que ele viesse ter comigo, face a face.
- Ele está ocupado demais.
- Demais ao ponto de não poder visitar de forma inquestionável o próprio filho? Tive sonhos com ele por estes tempos, mas foram muito enigmáticos, quase não o reconhecia neles.
- Você não é médium. Não como você pensa.
- Não importa. Nada impede que ele se manifeste singularmente comigo.
- Contente-se com o que você sente.
- Eu sinto... saudade.
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