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sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

Jesus é Deus? (Parte II)

     Que Deus existe, por argumentos ontológicos e silogismos metafísicos, não há como negar. No máximo, nada poderíamos falar por não ser de nosso alcance. Mas, na metafísica da cadeia das causas, claro que tudo se origina de uma causa primeira, os movimentos, de um primeiro motor imóvel. O salto da fé está em que a causa primeira também tenha se tornado homem, sendo ela e ele um só e a mesma pessoa sem desfigurar a ideia da unidade.

    Há outros desenrolamentos da fé católica que poderíamos resumir assim: 

    - Se a Verdade é criadora, é Deus. Se Ela se importa com você, é o Deus dos judeus. Se se importa com você a tal ponto de ter se tornado homem para te salvar, é Jesus, o Deus dos católicos.

    Em sendo verdade, torna-se um imperativo apascentar as pessoas para esse Jesus, com todos os sacramentos perpetuados pela igreja nos últimos dois milênios. E que se deixe de lado as noções de energia cósmica, chakras, reencarnação, diálogo com os desencarnados, astrologia, pois basta ao cristão os sacramentos de conexão com Deus. 

    Se você for católico, e não tiver o corpo de Cristo em suas veias toda semana, não lhe entendo. Isso é o máximo da comunicação com Deus: Ele se dividir ao infinito, não mais se fazendo homem, mas se fazendo hóstia, para ter com você no seu corpo.

    Todavia, não o sou. E, apesar da minha crença infantil da obviedade da negativa ser abalada com tamanha fé de tantos luminares, o máximo que consigo alcançar é isto:

  1. O Espírito ascende por vias multimilenares até um ponto que se distingue qualitativamente da humanidade como a vemos hoje, simiesca.
  2. Aos poucos, como o bebê que enxerga a mãe, divisa seus contornos, a vê de fato e por inteiro. 
  3. O momento de visão integral de Deus e de submissão absoluta à Sua vontade lhe torna um Cristo. 
  4. Houve apenas um Cristo na história da humanidade: Jesus. 
  5. Pela teoria da mediunidade, o melhor dos médiuns para a manifestação de um Espírito é aquele que tem bagagem suficiente para deixar o Espírito livre para ser através dele, permitindo uma comunicação bem fluida, em palavras e atos.
  6. Jesus foi o médium de Deus na Terra.
    Isso não desmerece ou descarta outras crenças, a não ser aquelas que são contra Deus, na Sua ação amorosa e salvífica para com as criaturas. Creio que permita todos os bons movimentos de busca da alma florescerem e frutificarem, do contorcionismo iogue, subjugando as resistências do corpo, à mendicância franciscana, subjugando as paixões da alma.
    Só que o Espiritismo tem se afastado de Jesus, por achá-lo um grande personagem histórico, mas apenas um personagem histórico, e por ter vários outros homens hoje vivos no mundo que parecem ser tão pertos de Deus quanto ele. Aí é que mora o perigo, onde estão os gurus, onde se espreitam os falsos cristos e profetas. 
    As teses espíritas que expus tiram Jesus da definição de Deus, mas coloca-o lado a lado, ou até mesmo misturado só que em dimensões diferentes. O sentimento de veneração deveria ser o mesmo, e claro que nunca será. É diferente eu venerar o Espírito comunicante e o médium, por melhor que o médium seja. É assim que entendo, sob a perspectiva do apocalipse, ser historicamente melhor deixar Jesus como Deus, e permitir a sua governança no coração dos homens, do que rebaixá-lo a um médium de Deus. 
    É só até aí onde consigo chegar hoje, ao dia 2 de fevereiro de 2024. Uma conclusão pragmática, que não me permite nem mais amor ao Cristo nem ser uma melhor pessoa. Apenas ter uma visão mais sóbria do mundo e de seus fluxos de transformações.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

Jesus é Deus? (Parte I)

     A questão que mais me intriga nos últimos meses é se Jesus é Deus. Sempre tive por certo, por ter sido criado ouvindo isso, que não. Não é. E a lógica e a obviedade estavam ali nessa negativa. Porque em um universo nem mais heliocêntrico, mas sem qualquer centro, em que a Terra não passa de um pálido ponto azul, um Jesus, por maior e mais milagreiro que tenha sido, ainda que tenha fendido a história ao meio, é apenas um personagem histórico deste planeta. Como pode ele ser Aquele que criou tudo, e permanece criando, expandindo os limites do universo, e até mesmo, fazendo proliferar multiversos?

    Contudo, a crença dos cristãos ortodoxos - coloco nessa conta tanto os católicos quanto os protestantes, mas tenho me aproximado mais dos católicos - é tão forte, certa, inabalável, persistente e resistente, e vindo de pessoas, muitas!, de inteligência tão superior a minha, que aquela obviedade e lógica da minha infância fazem água. Falo de um Agostinho de Hipona, de um Tomás de Aquino, de um Dostoiévski, e mais recentemente, de um Chesterton. Vejam só, dizem que Tomás de Aquino teve com Jesus, e disse:

    - Senhor, pode queimar todos os meus escritos onde acalantei os mais robustos raciocínios. Tudo foi querendo Te encontrar. Só quero a Ti.

    Dostoiévski, por sua vez, teria deixado claro: "prefiro o Cristo à verdade". É a mesma fala de São Tomás, só que mais concisa e explosiva. 

    Como conciliar a eterna onipresença criadora de multiversos com a presença única de um homem que provocou tantas paixões em gente tão nobre, mas sendo isso mesmo: uma presença única e historicamente limitada? Os católicos, fiquemos neles, criaram a explicação da Trindade. Dividiram Deus em três, mas disseram que cada parte vale o mesmo tanto, isto é, trabalharam na ordem do infinito. Entretanto, lá nessa ordem é tudo igual, infinitos indiscerníveis. Jesus claramente foi alguém aqui, inigualável. 

    Trabalho hoje visitando lares de pessoas doentes. Quase todas as casas tem santuários e quadros religiosos. Jesus está lá, quando não os seus anjos, ou então os seus santos. Sua mãe, também. Todos os personagens que acercam Jesus ganham ar de eternidade. Não daquela eternidade matemática de infinitos, num caldo de números cuja borda do conjunto se perde no horizonte, mas de uma eternidade que ama a tal ponto de abandonar a própria imperturbabilidade dos éteres e vir interceder pelos seres desprezíveis (no sentido moral e no sentido matemático).

    Minha esposa acredita na Trindade, do jeito que ela é, do jeito que eles são, que eles são um. Não há problema para ela. Foi amamentada com uma obviedade trinitária, e questioná-la nunca lhe passou pela cabeça, ou não deixou que a dúvida se aninhasse. Nunca fui de sequer tentar desfazer essa crença. Não a acho nociva, pelo contrário. 

    Ela não acredita em um homem que se quis Deus, mas um Deus que se multiplicou em se dividindo, não comprometendo, assim, a sua própria identidade, e se fez homem. Sendo Pai, se fez filho; sem perder o ar de Pai, foi amigo; sem deixar de ser um Mestre, esteve aprendiz de carpintaria com seu pai terreno, para então talhar novas imagens de Deus no coração dos homens. Como? Revelando-se a Si mesmo no cotidiano das gentes. 

    Daí, nasceu uma religião que busca resgatar cada ser humano, um por um, de volta a um paraíso há muito tempo perdido. Na conversão deles, o amor vai se fazendo a tônica das relações, e o perdão das ofensas, junto com a abertura para o pecador, na esperança que ele seja santo um dia. 

    Muitas outras crenças que querem salvar os homens, desprezam-nos como indivíduos, e voltam sua lógica para a matemática dos infinitos indiscerníveis. Como o socialismo, que não se importando em sacrificar inimigos no altar da história, e até mesmo amigos, faz desaparecer o homem em conjuntos amorfos que devem ser conduzidos ao final perfeito. Ou mesmo o liberalismo, que nos promete a equação certa da riqueza e a herança de um mundo menos desigual, embora sempre desigual, só que menos. E para os que não tem forças para esses empreendimentos, o da conquista do final da história ou do fim da pobreza, não há muito para lhes falar. A história e o seu fim, a riqueza e sua receita, infinito, infinitos.

    A religião de Jesus promete a eternidade. Jesus não precisava prometer. Ele era a eternidade andando entre nós. E as pessoas quedavam-se prosternadas com este absurdo: a eternidade invadindo o passageiro. Os que lêem suas palavras, trazem-nas como se elas tivessem o poder de iluminar cada momento de suas vidas, pelos séculos e séculos. Na hipótese mais redutora, com Jesus inaugura-se a possibilidade de interagir, olho no olho, com o eterno.

domingo, 7 de abril de 2019

Santo Agostinho e o Espiritismo

Lemos hoje sobre a presença de Santo Agostinho como Espírito ajudando no nascimento do Espiritismo entre nós, humanidade. Em o Evangelho Segundo o Espiritismo, é o Espírito Erasto que evoca essa lembrança. Veio-me a dúvida sobre a teoria da graça ou da iluminação divina que Santo Agostinho construiu quando encarnado nos idos de quatrocentos depois de Cristo. Seria ela incompatível com o que pregamos? Concluímos que não. 

A teoria da iluminação divina é bem simples de entender quando assumimos uma coisa: a corrupção que trazemos em nós como noção antropológica primeira. A observação da natureza humana que nos circunda torna isso bem evidente. Não somos santos. E os santos se destacam tanto mais quanto mais pecadores ao redor, quanto mais eles tem de se esforçar para se superpor às paixões que puxam o homem à selvageria. 

Se o fim da salvação é a felicidade ao lado de Deus, algo tão supremo, como nossos atos, todos mesquinhos, por mais grandiosos que sejam, na nanica escala em que ocupamos no universo, como podem valer a salvação que Deus promete? Não valem nada - em comparação. Não quer dizer que não tenhamos que nos esforçar, mas aí está o nó da questão. Nó insolúvel para a modernidade: se Deus tem o poder de conceder a salvação, e apenas Ele, de que adianta o esforço?

Não é uma questão de o que adianta, não é uma questão de entender o propósito de Deus, tentação humana por excelência que nos faz se afastar Dele, já que extrapola o nosso limite essa pretensão, mas suportar conviver com o mistério. Confiar, ter fé, suportar o mistério, eis o que santifica o homem ao lado de amar. Se a equação da salvação fosse matemática, de que adiantaria a fé. Não passaria a vida de uma contabilidade de obras. 

Nós espíritas caímos nesse erro quando não entendemos bem a psicologia da alma. Isso faz de Santo Agostinho um senhor muito atual. Queremos exigir de Deus que nos dê o céu porque merecemos. Quando Kardec conclui que fora da caridade não há salvação, essa caridade abarca tanta coisa, que mal cabe na nossa cabeça. Envolve os mais diversos tipos de ajuda material, as mais diversas dedicações para o desenvolvimento moral, mas, coisa esquecida!, a submissão do espírito à vontade de Deus, a tal ponto, virtude suprema!, de temer não ser um dos escolhidos. É aprender a conviver com o mistério.

O que é a teoria da iluminação, então? Não é rejeitar o livre-arbítrio, mas reconhecer que se ele é suficiente para nos fazer cair, nunca o será para nos salvar. Sempre haverá o hálito do Criador, insuflando boas resoluções a nos guiar para o bem. Saber surfar nessa onda é o que Ele espera de nós. 

Meu amigo ainda comentou algo: que a reencarnação, coisa desconhecida ou rejeitada nos moldes em que ela era apresentada pelas heresias e pelos bárbaros da época de Agostinho, é a única forma de conciliar a bondade de Deus em querer salvar todos os seus filhos com o seu poder de verdadeiramente salvar no final dos tempos. Deus insufla o bem no coração humano, que hoje é pecador e amanhã será um santo, mais dia, menos dia, neste ou em outro milênio. Com a reencarnação reconciliamos os atributos de Deus, apartados, por exemplo, quando Diderot O acusava de negligente ou incoerente já que podia fazer o bem, queria fazer o bem e não o fazia. A teoria da transmigração evolutiva das almas não mais coloca a questão como um mero ato de Deus, mas devolve aos homens o sentido do esforço histórico. É preciso conquistar patamares de felicidade com ouvidos dóceis para os conselhos de Deus, através de seus mensageiros. 
 

sexta-feira, 8 de março de 2019

Amiga diz que sua filha nasceu com múltiplas deficiências



AMIGA: Allan! Como vc está? Quanto tempo! Sabe, esses dias eu me vi pensando sobre nossas conversas sobre religião e o sentido de muita coisa, sobre os problemas da minha avó que não sei se vc lembra. Allan, quanta dificuldade a vida tem, e quanta força temos que ter para continuarmos felizes! Minha filha nasceu com múltiplas deficiências. E eu tenho muita fé em Deus e penso que deve ter sentido tudo tão intenso acontecer na vida. Não sei pq estou falando isso, talvez porque sempre te vi com tanta fé. Rezo para a minha aumentar todo dia. Espero que esteja tudo bem com sua linda família! Um grande Abraço!

ALLAN: Que saudade das nossas conversas! Não sabia sobre as deficiências da sua filha. Meu núcleo familiar mais próximo (eu, Mia e as crianças) está bem, mas quando começa a se afastar desse circulozinho as coisas estão desmoronando. Não cabe eu detalhar pra você. Às vezes dá uma trégua, e eu penso, deve se estar dando um fôlego porque vem chumbo grosso pela frente. Daquela nossa conversa (2006) para cá, vi tantas dores nos seres humanos. A profissão me fez ficar próximo de tantas mazelas humanas, que a fé chegava a estremecer. Dia desses me vi sendo interpelado por um amigo que queria entender porque o ano de 2019 estava começando com tantas bombas (incêndio, morte, destruição). Ele tinha perguntado porque sabia que eu era espírita e gostaria que eu conversasse com ele como naqueles dias que conversei com você, mostrando caminhos de consolo e, apesar de tudo, grandeza na Criação. Veja só: eu titubeei em falar, minha fala falhou. 

Ainda sou espírita, e muito, mas tenho abraçado um certo espiritismo sombrio, um que entende a onipresença do sofrimento no mundo e aceita o mistério de Deus. Faz tempo que não converso com Deus, com devoção e carinho. Tenho passado a ideia de Deus para meus filhos, em pequenas preces noturnas antes de eles dormirem, em frente a uma vela que queima lentamente enquanto rezamos preces decoradas. Sempre tive críticas sobre preces decoradas. Sempre fazia questão de improvisar as palavras. Hoje não mais. É como se o espírito estivesse cansado do meu próprio verbo e cedesse às palavras sagradas da boca de santos, que puderam mais do que eu na passagem pela Terra. Quatro principais embalam o sono das minhas crianças: Pai Nosso, Avé Maria, Oração ao Anjo da Guarda e Oração ao Divino Menino Jesus. Houve uma época até que tentei rezar o terço. Não suportei a repetição. E certamente isso fala menos contra o terço do que contra minha disciplina diante de Deus. 

Vou te falar um pouco sobre duas faces da vida. Tem uma que é bem lógica e é o que aprendemos insistentemente no espiritismo mais prosaico: tudo tem um porque. Lemos os romances psicografados por Chico Xavier, e lá as revelações das conexões dos nosso sofrimentos são bem claras com ações que fizemos no passado. O mundo há muito é quebrado, e sempre esteve nas nossas mãos deixar de quebrar e passar a consertar. Sua avó, sua filha, meus parentes que sofrem são reflexos de todo esse movimento. Ajudamos se não quebramos ainda mais o que já vem trincado. Tem outra face que é a do amor de Deus, infinito porém obscuro. Se Ele tem todo o poder, como Ele deixou tudo isso acontecer? Obscuro. Parece racional aceitarmos as teses propostas pelos romances espíritas de uma lei que nos chama a responsabilidade do mundo, mas às vezes parece pouco consoladora essa visão matemática. Sabe o que me consola mais nesse amor infinito e obscuro de Deus? É que é direcionado especialmente para mim, para você, para cada pessoa em particular. A imagem mais forte desse amor é a do Jesus abandonado. Ele era Deus, ou para os espíritas, um deus, e sua dedicação era tal que deu sua própria vida para ajudar cada pessoa que nele confiou (fé=fides=confiança). A imagem de Jesus é a de um deus quebradiço, mas que foi até a última gota alguém que esteve conosco, do lado. Essa imagem ressurgiu do sepulcro como um amigo que mostra as chagas e continua dizendo: vou ao Pai, mas estamos juntos. 

A encarnação do Cristo na Terra fala mais ou menos assim: "Eu sei de todo o sofrimento pelo qual você passa! (Veja que ele não fala para uma comunidade, mas para cada pessoa em particular, direto ao coração). Eu passei por algo assim também. Decidi sair das mais altas esferas da felicidade incorruptível para ser junto de você. Ao morrer e ressuscitar, eu quis dizer, não tema. Lute, continue, persevere, e em breve, parece um infinito, mas em breve, você estará comigo, em paz, do meu lado, no meu abraço." Ele se dirige a você e a sua filha. Fala ao ouvido de cada uma de vocês. E vendo Jesus falar assim, dá um ânimo que, para além de qualquer lógica, nos faz querer ser pelo ser amado que sofre o que ele foi por cada um de nós: alguém que abdica da própria felicidade, que se quer incorruptível, para apaziguar uma dor.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

O Incal






O Incal é uma história em quadrinhos de 1980, idealizada pelo cineasta e psicólogo chileno Alejandro Jodorowsky e ilustrada por Moebius que devorei em três dias.

Conta a história da salvação da humanidade a partir de um único ser humano tosco, menor, sensual, fraco, inquieto, impuro, porém sem maldade. Sedento de amor carnal e de sentir a realidade. Esse é Jonh Difool.


Sua profissão era detetive, porém era medíocre nela. Em nenhum momento é mostrado Jonh Difool exercendo seu ofício de investigador. Contudo, é ele, e ninguém mais, que chega ao fundo dos mistérios do universo, mesmo se esquivando o tempo todo dessa busca.

Tudo começa com uma mini-pirâmide que termina em suas mãos por caminhos misteriosos. Um monstro extra-terrestre a entrega - para Jonh Difool especificamente - antes de morrer. Esta mini-pirâmide é o Incal luminoso.

O Incal é portador de dons divinatórios e curadores. Todos o querem para domínio do universo, mas o próprio Incal vai forjando estratagemas para vencer o principal e verdadeiro inimigo que se aproxima: a Escuridão. 

A outra metade da pirâmide, o Incal negro, foi dominada pelos humanos que se devotaram à Escuridão. Mas, logo é resgatado, e não apenas a fusão da luz com a sombra, mas também a sua melhor possibilidade de expressão através do andrógino perfeito permite, em sucessivas descobertas místicas, a batalha final. 

Assim, Jonh Difool sem querer e sem saber vai conhecendo a existência da mais pura beleza e verdade semeada no íntimo da feiura, do grotesco, do asqueroso, do pútrido. Cada batalha que a história narra é a busca do equilíbrio das contradições, mas sempre, isso é imperioso explicitar, a partir da humanidade demasiadamente humana de Difool.

O andrógino perfeito, Solune, por exemplo, que em certo momento passa a ser a manifestação perfeita da consciência do Incal, é filho de Jonh Difool com uma espécie  de semi-deusa, Animah. Mas, esse amor não é sublime. Ela havia se disfarçado em uma prostituta para poder gerar Solune. O desejo por Animah, todavia, passa a animar a motivação mais forte no coração de Jonh Difool e sempre retorna como o único argumento possível para que este enfrente os desafios da jornada. 

Ao final de toda a história, quando morte e destruição já haviam se espalhado por grande parte do universo, e a Escuridão prosseguia seu domínio com fúria, o andrógino perfeito, médium do Incal unificado, é elevado ao lugar do imperador/triz do universo, profetizando o único jeito de derrotar a escuridão: que a galáxia sonhasse. Todos os habitantes do cosmos deveriam entrar em sono profundo a fim de fornecer a energia psíquica para o enfrentamento final com a escuridão. Um comandante solitário de um planeta qualquer reclama dessa loucura:

- Justo quando o inimigo está mais perto, ele vem pedindo para dormir. Está louco!

- Mas, chefe, desta vez, talvez sonhar é que seja revolucionário.

O planeta que deu o maior exemplo de que isso seria possível era aquele onde viviam crianças, há muito recebendo as lições de sábios, os Arath, que um dia tiveram a missão de guardar a entrada para os mistérios do sol interior, em meio à floresta de cristais, destruída pela encarnação maligna da tecnociência.


Aqui é preciso um aparte. Já não dá para vislumbrar a solução final? Quando todos os sóis tiverem desaparecido, que luz restará?

Jonh Difool, que irremediavelmente não se entregava para a saga da salvação da humanidade, é, de novo e mais uma vez, colocado como único possível de finalizar a missão de adormecer o universo. Faltavam 78 bilhões de seres para cair no sono, e quem eram eles? Seus filhos. Explico.

Há não muito tempo, Jonh Difool havia se entregue em uma experiência idílica com uma entidade chamada Protogenitora. A cada cinco mil anos ela acasalava com um grande guerreiro. O Incal fez com que Difool vencesse a competição e fecundasse a Protogenitora. Contudo, de fato apaixonada por Difool, ela se desfaz em ódio e rancor quando este a deixa por Animah. Todos os filhos da protogenitora, 78 bilhões!, neste planeta distante que Difool estava fadado a converter para o sono salvador, representavam o que havia de pior em Difool e numa mulher traída. O penúltimo desafio de Difool para sua autoiluminação é ter que ver os filhos do rancor e do amor traído que gerou, a imagem e semelhança de sua sombra.

Faltando pouco tempo para o ocaso, iluminada pela verdade que soprou ao seu ouvido através de um pássaro, Deepo, aquele que sempre mergulhou para salvar Difool nas horas mais drásticas, a Protogenitora entende que o que ela amou em Difool nunca foi o próprio homem, mas a luz que havia nele: o Incal. 

Quero que você perceba o quanto o Incal vai parecendo um pretexto material para ir abastando todas as arestas e dissipando todas as discórdias. Sua força inicial, gerada da união do luminoso e do sombrio, continua, ininterruptamente provocando uniões. 

A Protogenitora sai do ninho em todo seu esplendor, apazigua seus filhos, pede-lhes que escutem ao pai, e este os adormece. Até mesmo as raças que foram subjugadas como escória nesse planeta, por terem perdido a batalha do acasalamento, são reintegradas no chamado da Grande Mãe. 

Tudo está pronto para a batalha final. Os grandes sábios Arath conduzem as mentes dos setes escolhidos (Difool e seus amigos que lutaram bravamente até aqui) para o embate último com a Escuridão. Ela desperta o pior pesadelo deles. O único que não foi dominado por esse encanto foi nosso detetive medíocre. Explica o Incal que a experiência de acasalamento com a Protogenitora havia deixado o detetive Jonh imune. Mas, talvez é que o pobre já vivesse no pesadelo, no pior inferno do giro da vida, aquele que o fazia ser escravo da sensualidade perpetuamente. De todo modo, expulso o Incal do corpo de Solune, o andrógino perfeito, assume o ser místico o corpo de Difool, o homem insaciável. A partir dele as últimas rebeldias das almas da pessoas se apaziguam:

- Parem de lutar contra os monstros dos pesadelos. Aceitem-nos, eles são apenas as partes de si mesmos que vocês tem medo de enfrentar. Transformem-nos. Cada horror contém uma semente positiva. Um pesadelo não passa de um dom disfarçado.

E assim, Difool, possuído pelo Incal, faz perceber, a harmonia por trás da tecnociência, as energias criativas por trás da violência, o correto domínio da realidade por trás da morte, a interminável totalidade por trás da individualidade, o efêmero rumo ao eterno pelas vias do que parece um corpo decadente, enfim, o assassinato do amigo que entrega seu pescoço ao lobo voraz como a doação suprema em prol dos outros. 

Após estas reconciliações, o Incal luminoso é dominado pelo negro. Cada um se entrega à sombra, em chamas. Menos o ego de Difool, que se torna a eterna Testemunha do Ser supremo, da Luz Imortal, Orh, de onde tudo provinha: o Incal, a Escuridão e a aventura épica de toda a reconciliação.

- Não sabia? O núcleo da Escuridão é feito de Luz. (...) Translucidez é minha última mutação. 

O Ser supremo transfigurado na face de um velho áureo se torna infante de novo e permite Difool voltar no tempo, lembrando de tudo o que viveu.

Como viver essa nova velha vida, então? Eis algo que realmente deveríamos investigar, detetives medíocres que somos da existência.

domingo, 7 de janeiro de 2018

Espírito Santo segundo o Espiritismo



Papai, que foi catequisado em cidade do interior do Ceará, afilhado de Padre Cícero, médico, um dos melhores de sua turma, muito sabedor de história, leitor contumaz de livros culturais, me confessava não entender muito a tal da santíssima trindade. Tendo me iniciado no espiritismo, passou a incumbência desta compreensão para mim.

Mesmo sendo uma seita herética em relação à igreja católica, entendo que não devamos desprezar a experiência da crença de toda uma história da comunidade cristã. O Espírito Santo e a Santíssima Trindade da qual ele participa são símbolos muito significativos onde todo aquele que se quer cristão, ainda que herético, deve se situar.

Já vi no movimento espírita se dizer que o Espírito Santo seria a plêiade de Espíritos superiores comunicantes que trouxeram a revelação espírita ao mundo. Seriam, portanto, Espíritos santos. Podendo ser tido como uma pessoa apenas simbolicamente, isto é, uma comunhão de Espíritos. Dizem ainda que as três pessoas da trindade não seriam consubstanciais. Pai originou filho que originou os Espíritos santos*. 

Como a trindade é um dogma fundamental, vê-se já por aí que, ao contrário do que Kardec imaginava em 1862, não dá pra ser espírita e católico ao mesmo tempo.   

Diz, contudo, o próprio catecismo da igreja católica do ocidente que "a tradição oriental exprime o caráter de origem primeira do Pai em relação ao Espírito" (art. 248) e que Este se origina Daquele a partir do Filho. Então, já que nem as igrejas católicas se entendem, acredito não estarmos cometendo tão grande pecado em discordar também e manter a posição: Pai origina Filho que origina Espírito Santo. 

Não creio, todavia, que o Espírito Santo seja os Espíritos santos, pois a grandeza do que a tradição cristã entende por Espírito Santo está em algo difuso que antes falava pelos profetas e após a promessa de Cristo do Paráclito passaria a estar para sempre entre os discípulos os conduzindo. O poder que essa descrição tem ultrapassa e muito essa ideia de uma legião de Espíritos norteadores. É como se fosse um poder de Deus capilarizado pelos seus filhos. 

O que seria, então, o Espírito Santo?

Ouso levantar a hipótese de que seja algo em nós de divino que Jesus despertou ao deixar seu rastro histórico. Está fora de nós e em nós ao mesmo tempo. É como um cordão umbilical renovado que nos religa (religião) a Deus. Ele nos permite prodígios e é o que torna possível a caminhada para a salvação. 

Os que se denominam portadores da mensagem esotérica cristã sempre falaram da dimensão da doutrina do Cristo que não nos queria salvar de fora, mas que nos devolvia o poder de salvarmo-nos a nós mesmos. 

Encarando assim o Espírito Santo, isto é, esta força beatífica que nos envolve e nos invade, despertada por Jesus, acredito que as duas visões se reconciliam: Jesus nos salvou acordando o poder salvífico em nós. A mediunidade é apenas um átomo desse poder, outros tantos surgirão, outras tantas forças hoje tidas como parapsíquicas, o homem novo, o homem-psi, ou ainda melhor, o homem santo que vai acordando gradativamente para sua inalienável imortalidade.  

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Para falar com Deus: símbolos e ritos



Venho repensando os ritos e a linguagem simbólica que se usa todo o tempo na religião. Fui criado em um racionalismo que rejeitava esses artifícios como superstição. Descubro que não são.

A única forma de falarmos sobre (ou com) a realidade é através de intermediários. A mínima realidade que nos transcenda precisa já de um intermediário (leia-se médium). Tudo, em verdade, está mais ou menos revestido por um instrumento de manifestação que possibilita a comunicação de outro, comunicação com outro. 

Nós espíritas estamos acostumados com a mediunidade que intermedeia a comunicação do Espírito desencarnado através de um corpo carnal dotado de recursos especiais. No indivíduo, o próprio Espírito manipula o corpo por intermédio do perispírito. Por fim, dialogamos por intermédio da linguagem verbal e não-verbal.

Recapitulemos as tríades:

Espírito desencarnado - médium - Espírito encarnado
Espírito - perispírito - corpo
Eu - linguagem - Outro

Da mesma forma:

Sagrado - símbolos e ritos - profano

Todos seguem mais ou menos esse padrão:

Transcendência - intermediário - Imanência.

Nas elaborações poéticas, tanto da Grécia antiga quanto dos Hebreus, entendia-se que não se poderia ver qualquer deus, ou o Deus, em seu esplendor, em sua totalidade. Qualquer manifestação divina se dava por uma imagem: um touro, por exemplo, para Zeus, a sarça ardente, para Deus.

Daí, entender, agora, que símbolos e ritos não serem mais do que a condição necessária para ultrapassarmos, ainda que na insuficiência intransponível, nossa limitação de lidar com o divino. A realidade absoluta é incomunicável ou inapreensível para nós relativos*. Daí constantemente chegarmos à esta tríade que os místicos vivenciam:

Verdade - silêncio - Sensciência

É assim que consigo entender a Santíssima Trindade:

Deus-Pai - Sua ação no mundo - Jesus.

É assim que venho sentindo Deus:

Eu de joelhos para Ele.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

A insuportável transparência dos outros



Estive pensando sobre a opacidade das pessoas depois de ter vivido uma experiência grupal hoje em que uns choraram aos outros suas dores íntimas. Foi um momento catártico que teve sua razão de existir. Mas, seria universalizável? Seria desejável absoluta e infinitamente?

Acredito que não. A bíblia nos adverte que a visão de Deus cega o homem, talvez mais do que isso, fulmina-o. A mitologia grega não dizia diferente a respeito de um deus menor que Javé como era o caso de Zeus. Menor porque Zeus não representava a onisciência e a onipotência na mesma unidade. 

Pensar em Deus se manifestando completamente a nós é pensar em a Onisciência e a Onipotência se revelando de súbito, sem máscaras, sem intermediários. Ver a Onisciência sem máscaras seria o meu saber inteligir a Onisciência. Ver a Onipotência sem máscaras seria a minha vontade se confrontar com a Onipotência. A loucura e a humilhação seriam as conseqüências imediatas no primeiro átimo de contato com qualquer átomo desta experiência. 

Não creio que fosse diferente entre os seres humanos. Se tivéssemos a oportunidade de contemplar por um instante cada indivíduo em toda a sua nudez, cada curva e cada cicatriz deveria se me apresentar com a sua história no mesmo tempo. Tudo seria revelado: o que ele foi, o que vem sendo, suas descontinuidades, projetos soltos, tudo isso em sua simples presença.

Nem nós mesmos suportaríamos esta visão no espelho. Deformidade, aberração, protuberâncias e cavidades. Tudo o que deixa o outro substancialmente diferente de mim exposto em um estalo. O mais natural seria ficar cego à tudo. O outro, assim como Deus, carrega um assombroso infinito incógnito. Deus, no perfeito. O outro, na diferença radical. 

Quando escutei, então, no círculo de desabafo que experienciei hoje, que o mundo poderia ser bem melhor se nos revelássemos mais no que temos de bom, me perguntei por que não no que temos de ruim. No mesmo caminho, por que não nos despirmos por completo? E veio, por fim, esta reflexão dantesca que ora se apresenta nesta página. 

Leibniz tinha razão em sua monadologia. A única forma que temos de chegar ao outro é através de um outro que consiga atravessar a todos, sem se ferir. Apenas o Absoluto e o Fundamento de tudo tem o poder de fazer com que nos comuniquemos em paz. Ele nos protege uns das imagens nuas vizinhas. 

O tempo, nossa condição, faz cair as roupas aos poucos, graças à Deus! Dá tempo de segurar a peça que se desmonta a fim de não ferir o próximo. Revelar nem sempre é a boa opção. Esconder é tão sábio quanto. O antídoto de tudo isso se chama tempo oportuno até o dia em que tivermos sentidos robustos o suficiente para mirar a realidade inteira face-a-face. 

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Carregar o pai nos braços

A experiência de carregar o corpo desfalecente do pai nos braços queima a pele do espírito. Foi assim comigo.

Era uma manhã comum, em que madruguei estranhamente junto com ele e tomei seu café amargo. Fui pegar o carro na garagem quando minha irmã chega aflita anunciando o mal estar dele. Nunca nem lhe vi chorar uma lágrima sequer, sempre ativo e buscando resolver os problemas imediatos da existência. Raramente alguma conta se atrasava. Raramente nós nos atrasávamos em uma reunião. Parecia uma viga mestra entre nós. E, naquele dia, encontrei-o pálido sobre o sofá de espera do condomínio.

Carreguei-o, sofregamente, ao pronto-socorro; atordoadamente, ao velório; melancolicamente, à sua cidade amada. Ouvi as histórias de quem, como médico, ajudou. Segui a procissão que o enterrou no cemitério do lugar. Desde, então, seu Espírito me visita aqui e ali. Estou tendo menos consciência dessas visitas na medida em que venho me tornando ele: médico, pai, sem deixar atrasar os compromissos da casa.

Mas, aqui e acolá um sonho estranho vem, a guarda baixa, e a melancolia aperta. Diz o espiritismo, essa religião dele e minha, que a melancolia é uma saudade da liberdade que o Espírito gozava antes do nascimento na carne, uma vontade de voltar à liberdade, uma esperança que retornará. É sempre, portanto, uma ausência doce que acalentamos. Desse jeito que a sinto, também é a ausência dele.

Ontem, tive a sua imagem onírica bradicárdica sobre a cama em que assistia aos jornais. Eu prescrevia em seu consultório um soro para uma criança doente. O raciocínio pesava, a mão era lenta até que recebi a notícia de que passava mal. À época de sua verdadeira morte, não sabia as fases do morrer como sei hoje. Já conto algumas tantas pessoas que assisti o atravessar. Vivi o silenciamento de cada som do corpo, e dos monitores. Parece que estes sonhos que me devolvem para aquele dia no sofá fazem-me ter consciência dos sons que se calaram, e que não sabia existirem.

Outros sons são presentes. E como disse, parecem que vão se tornando menos conscientes na medida em que vão se reencarnando, em mim. O amigo que passar um pouco do dia em minha casa me verá assobiando para os filhos, roncando na sesta, 
com o lençol nos olhos, após ter lido algo, ou ainda, deixando que os meninos batuquem na minha barriga. É ele. 

Se há algo que me faz compreender a relatividade do conhecimento humano em relação à perspectiva em que se encontra, esse algo é a experiência que tive de pai. A partir do que vivi quando criança, só posso querer ser mais, e, no muito, venho conseguindo ser cada vez mais quase igual. Que posso julgar daquele que não teve essa presença? É um esforço inaudito de construir uma forma de existir através de palavrórios das escrivaninhas de especialistas. Que posso julgar daquele que, com essa ausência, não acredita em um Pai Maior? É a não conexão com algo que nunca existiu. Pai e Deus são experiências, no finito, de encontro. E o desejo, no infinito, de reencontrá-los.

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Quando acontece o milagre?



Você já se sentiu submerso em um mar de forças contra as quais parecia inútil lutar? Forças que ou queriam esmagar sua cabeça ou a dos que você amava, magnanimamente superiores a qualquer um? Bem, um dos nomes delas é mundo.

Consideramos ridícula a tradição judaica-cristã por "inventar" um deus para salvar o homem. Um deus que se manifesta em imagens redutoras na matéria, mas cuja real natureza transcende qualquer noção deste mundo. 

A verdade é que qualquer pensamento que queira apontar alguma solução para a aventura humana terá de recorrer a este artifício: inventar um deus. Aqui é a causa revolucionária, ali é a ciência, mais além é a pátria, acolá é a autonomia, bem mais acolá é a mãe-terra. 

O mundo é tão vasto e tão incognoscível que temos de colocar marcos para qualquer horizonte fora de nós a fim de termos alguma noção para onde andar. Do contrário, paralisia. 

O sentimento do homem no deserto, após dias vagando, sem água, sem comida,  sem qualquer sinal de abrigo: parar e reconhecer a enormidade do mundo. Ajoelhar-se, quedar-se à areia. Submergir. Entregar-se à unidade com o solo. Parar de resistir.

É aí, quando as defesas do homem estão expostas, que o tema de Deus aparece com esplendor. Ao contrário do que imaginam os céticos, isso não demonstra as convulsões de um homem querendo viver. A verdade de Deus, Aquele que É, surge imponente quando a vida do homem já não é mais. 

"Deus está morto!", berrava Zaratustra anunciando a vida do homem. O contrário ainda é mais verdadeiro: O homem está morto, vede Deus vivo! A sarça, símbolo da sequidão, arde e não se consome, símbolo da perpétua morte que não se consuma, mas vive para sempre. 

Quando acontece o milagre, então? Quando o homem está pronto para recebê-lo? Não. Quando o homem está morto. Lázaro é o ápice do Evangelho. 

terça-feira, 9 de maio de 2017

Por que o livre-arbítrio seria tão importante assim para Deus?



Pergunta de um leitor: "Por que o livre-arbítrio seria tão importante assim para Deus?". Acho mais fácil responder seguindo outra perspectiva: "Por que o livre-arbítrio é tão importante para nós ao ponto de tornarmos ele sagrado?". 

Tem autores que dizem ser o livre-arbítrio uma ilusão, vide Espinoza, e todos os que seguem a esteira do determinismo espinosista. Há a outra ala que diz que não. Aliás, que o livre-arbítrio seria mesmo a única coisa que nos faz humanos, para além da inteligência ou da linguagem. Assim vemos Rousseau, entre os mais modernos, e Kant, de um jeito muito especial. 

O fato é que a ideia, no Ocidente, de sermos essencialmente livres é uma ideia judaico-cristã. Se pararmos para ver a forma como a mitologia grega encara as profecias, e a forma como são encaradas pela Bíblia, veremos que lá os vaticínios são certos e implacáveis, já aqui, as falas dos profetas não são anúncios de uma fatalidade, mas orientações de um Pai que quer ver seus filhos voltarem ao caminho certo. Dessa forma, a visão do futuro não esmaga aqueles que estão nela, mas oferece alternativas de escapar daquele destino. Apenas se escapa de um destino se ele não está determinado. Se, pois, temos possibilidade de escapar dele, isto é, liberdade. 

Nenhuma pergunta que seja no molde de "por que isso é tão assim para Deus" pode ser respondida. Seria eu atestar conhecimento do que se passa na cabeça do Absoluto. O que podemos fazer é pensar porque um atributo humano foi tido como tão especial ao ponto de ser mesmo elevado a categoria de divino. 

Para a tradição judaico-cristã, Deus espera, agindo ativamente, o momento em que seus filhos <<escolherão>> voltar ao mundo que Deus fez e "viu que era bom". E não este cheio de dissonâncias provocadas pela má escolha. Aliás, perceba que mesmo este mundo, para a Bíblia, é fruto de uma liberdade radical no seio da criação. Aqui é fruto de uma escolha, de uma má escolha, mas de uma escolha de todo modo. Pela escolha nos distanciamos de Deus, pela escolha voltaremos. 

O que fiz até agora é mostrar o quanto o pensamento bíblico gravita em torno da tipologia de homens livres. Liberdade, fraternidade e igualdade está longe de ser uma temática moderna. 

Fora dessas narrativas sagradas, o ponto é saber se somos determinados ou não por o que quer que seja: do inconsciente à infraestrutura econômica, dos deuses aos motores de um materialismo dialético. A questão na filosofia está longe de estar encerrada, e não há o que fazer a não ser escolher um partido e argumentar a seu favor. 

Eu sou dos que vêem o homem como um ser livre, embora seus movimentos, vira e mexe, findarão no horizonte de Deus. Mas, a caminhada é tanta daqui pra lá que haja espaço para se movimentar. 

sexta-feira, 3 de março de 2017

Doutor Estranho e o Espiritismo



Poderia falar sobre o corpo astral, as múltiplas realidades, particularmente a espelhada, as lutas místicas paralelas ao nosso dia-a-dia, que são tantos temas que o Espiritismo aborda de outro modo e com outros termos, mas o que quero falar mesmo é da trapaça da Grande Anciã

Leia apenas quem já assistiu ao filme, porque aqui falo sobre o nó górdio da questão: 

(pausa)

- Para proteger o mundo é preciso trapacear as leis naturais. 

Kardec nos falava que não havia fenômenos sobrenaturais, que Deus não precisava demover suas leis com milagres para fazer as coisas acontecerem. Tudo era natural, até mesmo o que dizíamos sobrenatural. Ao mesmo tempo, entendia que Deus poderia sobrepor a natureza se quisesse, já que era dela soberano. A posição de Kardec era, assim, mais ou menos cartesiana, tendendo a leibniziana, e quase iluminista. Teria realmente Deus a possibilidade de derrogar suas leis já que tão perfeitas? Se elas não precisassem ser derrogadas de forma nenhuma, então seria como em um relógio em que o criador dá a corda e já não precisa fazer nada. 

Em Doutor Estranho, vimos que a primeira grande metáfora geradora de todo o despertar do herói foi a quebra das mãos (que proporcionava sua arte regeneradora de vidas) e, logo depois, do relógio (símbolo da precisão e da referência absoluta da física clássica). Isso teve de acontecer para dar lugar a mente-espírito e ao indeterminismo, pois revela-se por todos os lados uma realidade cambiante ao infinito. 

Na história da nossa ciência, quando Heisenberg semeou a incerteza no então bem sólido edifício da física, algumas pessoas entenderam que era o golpe final ao Deus cristão. Mas, não! Na verdade, era o anúncio do regresso. Um universo incerto carece de um agente universal, como que um Grande Arquiteto, que o faça coerente. Este pode ser um Grande Espírito Cósmico, talvez Deus. O fato é que a realidade que escapa ao determinismo só tem sentido como realidade palpável, cuja obviedade vemos e sentimos cotidianamente, se um agente externo estiver atuando para que ela seja assim. 

Não adianta os profetas da Nova Era insistirem em falar que a mente pode tudo, se o que nos é exterior se impõe de forma esmagadora. A intimidade da matéria revela sua indeterminação? Como não nos afogamos nela, então? É que esta indeterminação é virada ao avesso diuturnamente por um trabalho secreto de inteligências invisíveis que nos dão segurança. 

A história de Doutor Estranho retoma a lenda dos magos celtas que possuíam um conhecimento prodigioso sobre as forças ocultas da natureza. Fala sobre um conjunto de guerreiros que se debruça na manutenção da ordem planetária em níveis supra-humanos. Fala mais ainda que a virtude do mago não é prestar culto ao determinismo das leis, mas ser flexível para deixar-se levar pela correnteza de certo veio que deve emanar da verdade da vida, que é fluida por definição. 

Perceba que, mesmo diante de tantos possíveis que explodem aos olhos de Stephen Strange, um imperativo ético acaba guiando sua conduta. Nem tudo é possível, pois. Ainda sobre-existe uma transcendência robusta, a qual ele aceita em sabedoria. 

Alguns podem interpretar que a fonte desse imperativo é a própria pessoa (seria uma imanência). Defendo que a própria pessoa só chega a ter esse poder todo se ela houver, enfim, encontrado a fonte de tudo, que é Deus (é uma transcendência na imanência). Não é que no fundo de nós sejamos o Deus, mas sim que as marcas de Deus em nós nos levam a Ele.  

Deus, portanto - e esta já era uma hipótese latente no Espiritismo, elucidada pelo professor José Herculano Pires(1) - é, não apenas o que cria a realidade, mas o que incessantemente dá coerência a ela. Todo grande herói deste mundo há de imitar esse trabalho cósmico em escala menor, entre nós. Protegendo a vida, espalhando o bem (que é a vida em abundância[2]) e lutando contra o mal (que é a morte de tudo - Dormammu). 

Por que Deus precisaria de heróis? Como a coerência da realidade cósmica pode ser profanada por ações más? Por que Deus simplesmente não pulveriza aqueles que querem manchar sua criação? Estes são assuntos intrigantes para outras postagens. 

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Não acredito mais em Deus



Foi o que um jovem me disse numa conversa privada. Nem desenvolveu muito os motivos, mas completou logo em seguida que carregava o crucifixo consigo por tudo o que ele significava em sua história de vida. 

Perguntei desde quando ele havia deixado de crer. Foi acontecendo aos poucos, acelerando a partir do ensino médio, se aprofundando na faculdade de medicina.

Eu também não acredito mais em Deus, digo, no deus da minha infância. Lembro quando desenhava Sua silhueta em cima de nuvens resplandecentes nas folhas de ofício da sala de alfabetização. 

Junto ao Centro Espírita, as evangelizadoras me falavam o que significava onipresença. Então, eu ficava brincando de imaginar um homem múltiplo, um homem em infinitos lugares. Mas, por mais que eu multiplicasse essa presença ao meu infinito, o universo ainda tinha vazios. Seria por onde entraria o mal?

Na adolescência, conheci a metáfora de Kardec: um fluido que abraçava tudo, sem centro de massa concebível. A múltipla presença do homem que imaginara havia coalescido. Era uma coisa só. Mas como entender onde estaria sua atenção? Inconcebível. Como ele pode me ouvir, ouvir a prece de um plutoniano e as preces que ecoam em todas as galáxias, e mesmo até em outros universos possíveis. 

O que mais feria meu raciocínio sobre Deus, todavia, era menos a sua presença, que sempre senti, do que a sua onipotência aliada incondicional de sua bondade infinita. A gente vai crescendo e entendendo o corpo caquético das crianças na miséria. E, cá entre nós, dá um pouco de vergonha dizer que há uma justiça reencarnatória por trás disso. Porque nunca consegui responder o enigma da possibilidade do mal em um universo criado pelo bem infinito. 

Kardec ainda nos propôs ser um viés de uma visão parcial. O conjunto é bom. O mal: uma ausência de bem. Uma ausência de enxergar o que há de bom por trás, também. Contudo, cada vez mais, parece ser outra coisa. O mal: o bem ausente. O mal, quando o bem se ausenta. 

Deus, Aquele que venho conseguindo entender, me parece, perdoem-me a blasfêmia, um Deus de guerra. Ele forja combatentes do bem. Incita-nos a luta contra o mal. Deseja que experienciemos o amor que há no final da batalha, o amor que há durante a batalha, o amor que imperava antes dela. Um Deus de amor, pois e também. O meu amor pelo estudo da história é esse: entender o que houve que destronou o amor onipresente, o que houve no coração humano que permitiu o surgimento do mal. 

Jesus dizia: "nem sempre foi assim". Dizia depois: "foi pela dureza de seus corações". Uma dureza que mostra a fragilidade maior: os nossos corações.


quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

O paradoxo cristão da sabedoria do amor



O cristianismo é uma doutrina da imortalidade da alma. Acreditar que a vida não finda aqui é não ter tanto apego à ela. O que poderia levar a crer que não deveríamos nos apegar às pessoas também. O que seria evitar amar. E há filósofo cristão que endosse isso, entre eles, Pascal:

"É injusto que se apeguem a mim, embora o façam com prazer e voluntariamente. Eu iludiria aquele em quem eu despertasse desejo, pois não sou o fim de ninguém e não tenho com o que satisfazê-los. Não estou eu pronto a morrer? E assim, o objeto do apego dessas pessoas morrerá". (Pensamentos)

Mas, eis o que é tudo: apegar-se ao que morre. Todavia, apegar-se ao que é imortal é doutrina do Cristo em essência. Isso é o amor que ele pregou. Um ser divino que desce das suas alturas a fim de dar sua vida para a iluminação de todos e cada pessoa em particular, espalhando milagres e bênçãos  o que seria isso senão um amor apegado? 

A grande diferença é essa: apegar-se ao que não morre. Quando Jesus salvava uma pessoa, seja cobrindo-a com um milagre ou com uma palavra que abrisse o caminho dela para sempre, não estava ali por aquele corpo corruptível que vaga pela terra, por uma massa de células bestiais que em breve se humilharia de volta ao pó. Ele veio por estes Espíritos imortais, em busca de reconduzi-los ao Pai. O corpo ao pó, a alma, ao Pai. 

Acho que já disse isso outra vez, não custa repetir. A história da bíblia é uma história antropocêntrica. E isso não é um defeito. Ela é a história de Deus em busca de salvar o homem. Não gira em torno de Deus. Que espécie de relação é essa entre Deus e o homem senão a de um pai que nutre um amor apegado por essa espécie frágil da criação? Se olharmos a coisa com a visão da unicidade da existência, não parece assim como falei. Mas, se enxergarmos que todos os Espíritos personagens dessa história são almas reencarnantes, fica claro que são educandos transmigrando em infinitas oportunidades de redenção. Deus não desiste de nós. 

Por que eu digo que isso é um paradoxo? Ora, não percebe que são forças contrárias esgarçando nosso coração? O amor de Cristo que devemos ter como modelo é um que ama tanto a pessoa a ponto de a querer muito. Mas, ao mesmo tempo, é um amor que a reconhece um ser transcendente. Devemos amá-la com devoção, mas sabendo que ela nos escapa a todo instante. É para dedicar a vida à ela, mas preparar nossa alma para a morte. O que acontece ao final é a reconciliação do paradoxo. As almas se reencontram em um final feliz, mas isso se dá apenas ao seio do Pai. E daqui para lá é chão!

domingo, 20 de novembro de 2016

Os avanços de Jesus na sociedade laica



Inspirei-me em escrever este post quando, participando de uma conversa com estudantes de medicina sobre saúde e espiritualidade, uma das participantes alegou que Deus privilegia os seus escolhidos nas vitórias da história. Algumas considerações muito importantes a respeito disso podemos fazer. 

O privilégio que Deus (o Deus judaico-cristão) concede não é tão agradável assim. Não na vida terrena. A história de boa parte dos heróis é de sofrimento, sacrifício, carregar um povo nas costas, esgotar-se, dedicar-se de corpo e alma, consumir-se por uma causa. O ápice disso é o exemplo de Jesus. 

Os hebreus viviam ansiando a vitória do próprio povo sobre os vizinhos, e, em vez de vitória perene, algumas diásporas se sucederam. Uma intervenção militar lhes devolveu algum Estado-Nação, não sem conflito. 

Mesmo com a chegada do filho de Deus, o chamado Unigênito, haja visto, o Cristo (para os cristãos), mesmo a promessa dele ficou por acontecer, caso estejamos olhando a concretização do prometido na instalação terrena de um, enfim, reino de amor. Pelo contrário, a busca da concretização do "ano aceitável do Senhor", libertando os cativos, gerou muito sangue. 

Depois de todos esses anos, ainda há quem espere, no Cristianismo, a vitória do próprio Deus em cima dos inimigos. Que Deus os esmague, os devore. E que, assim, só haja espaço para si, o escolhido, no reino terráqueo livre dos iníquos. É certa lógica desvendada pela sociologia de Max Weber, analisando a motivação dos yankees protestantes. É, de outro modo, a transposição do próprio ódio e da própria vontade de domínio para as divinas mãos. 

Acreditam que a morte foi inventada pelo pecado. Que o santo viverá rica e eternamente - na Terra. E que o juízo final acalenta um fogo eterno para onde serão lançados os reprovados. 

Bem, gostaria de dizer alguns sinais pelos quais vemos o Reino se instalando entre nós. Levo em consideração muito da sociologia contemporânea e quase nada do que essas esperanças aí de cima almejam:


  • As causas pelas quais viemos morrendo, todas em busca de um reino mundano, estão em falência: a igreja, a causa revolucionária, a pátria;
  • A família vem se tornando cada vez menor, e os pais se dedicando com mais afinco e amor aos poucos filhos. Eles passam a ser nosso motivo de sacrifício;
  • As barreiras das nações vem se pulverizando e tornando o encontro entre povos cada vez mais fácil (e difícil). O desafio, nos diz Zygmund Bauman, é construir, como nunca antes na história da humanidade, uma "comunidade da humanidade";
  • A nossa identidade de povo vem se tornando mais fluida, e cada vez mais tendo de aceitar o outro em nós, tentando entender qual o espaço que ele pode (deve?) ocupar aqui dentro;
  • A liquidez do mundo vem servindo para relativizar as crenças e destronar as castas;
  • O conhecimento vem se tornando de todos e cada vez mais sendo entregue para que todos descubramos juntos o que vale a pena;
  • A preocupação ética entrou nos imperativos da ciência e não tem mais como sair;
  • A filosofia, em toda parte, vem resgatando os sentidos das grandes espiritualidades de todos os tempos. O terceiro milênio será da espiritualidade (laica ou não) ou não será. Mesmo o materialismo, inimigo dos espiritualistas há tanto tempo, procura o espírito, a seu modo;  
  • Aumenta-se a busca das pessoas pelos valores do espírito, por isso que as reflexões morais e metafísicas (sobre o bem, sobre o mal, sobre a felicidade) voltam a chamar a atenção. No meio do século passado era a política. Já não mais;

Esse movimento não vem se instalando sob os cuidados de qualquer oligarquia. As inovações nascidas do espírito humano cavalgam sem rédeas, espaço perfeito para atuação de inteligências supremas. 

Os socialistas abominam o mercado, mas querem construir a própria ditadura, assumindo as rédeas da história (e da economia) com a própria concepção de "o que deve ser o mundo melhor", ignorando a grandeza de cada indivíduo singular. As pessoas vêem estarrecidas novos extrema-direita subir ao trono, mas tudo é fruto do medo da maioria de se deixar abrir.  E vêm a xenofobia e as leis de proteção e insulamento. Era o que Herculano Pires chamava de "os atalhos do Reino". Mas, o céu não se conquista de assalto. 

A história da humanidade pendula entre a genialidade de um povo (e o seu individualismo egoísta conseqüente) e o sentimento de pátria (e a massificação embrutecedora necessária para isso). É o desejo de liberdade de um lado e a busca de segurança de outro. Grosso modo, Atenas e Esparta. O Espiritismo aplaude o gênio e o esforço intelectual, o avanço da tecnologia, pois. Mas, espera o crescimento moral para o restabelecimento dos laços fraternos entre as pessoas. Nossa esperança e esforço, portanto, é a síntese desses dois extremos.

Não já há perfeição. Falta um tanto. Esclarecia Kardec, contudo, que "o que nos parece perturbações são os movimentos parciais e isolados que só nos parece irregulares porque nossa visão é circunscrita." Isso é um jogo de xadrez. Jesus e suas potestades contra os homens que sobem a própria ganância ao topo do mundo. Aos poucos, com tranquilidade, vai colocando os valores caducos em xeque. 

domingo, 13 de novembro de 2016

Ágape: o amor sublimado



Falar sobre ágape é dos mais difíceis temas que se pode falar, porque ele não nos pertence, não de forma fácil. Os imperativos cristãos de amar talvez sejam o que melhor apontam para o ágape. Tão distante de nós que precisa alguém nos mandar (imperativo) vivê-lo. Contudo, de fato ele existe como possibilidade do nosso peito. 


Comecemos por Deus 


Parto do absoluto para depois relativizá-lo. A melhor forma de pensar a ideia de ágape é a da criação do homem segundo a concepção judaico-cristã. Deus era tudo, porque precisava criar algo? Não precisava, mas criou. Primeiro ponto: ágape é um tipo de amor que ama sem motivo, sem necessidade. 

Deus cria do nada (ex nihilo). Sua palavra gera o universo, e o homem no centro dele. Importa lembrarmos que o homem, na tradição judaico-cristão, é a criatura a que Deus reservou o destino de viver conSigo. É o Grande Pai cuidando do filho: lhe concede terras, animais e até uma bela esposa. A visão do Gênese é de uma comunidade patriarcal, claro, mas depois entendemos que o destino de estar ao lado de Deus é para todos, homem e mulher. Então, Deus cria do nada. Segundo ponto tirado da palavra nada: ágape é um tipo de amor incondicional. Não há algo anterior ou um interesse prévio que justifique amar o outro. Terceiro ponto tirado da palavra criar: não é preciso mesmo que o outro exista para ser amado, ágape é um amor que concede existência ao outro. Se Deus era o único existente, e criar o homem foi um ato de amor, ágape é um amor que gera (concede existência) amando. 

Há uma visão judaica da criação de Deus que nos dá uma pista ainda mais preciosa sobre o ágape. Chama-se Tzin-tzum. Chama-nos a atenção que o Tudo não pode criar mais qualquer coisa, pois já é tudo. Portanto, para Deus (o Tudo) criar algo teve de se esvaziar (nadificar-se) um pouco para dar lugar à criação. Quarto ponto: ágape é um tipo de amor que está aberto ao sacrifício de si. O que vemos na tragédia de Jesus, o homem-Deus que desceu à Terra para dar sua vida para a redenção do homem adâmico, é a materialização do tzin-tzum


O que tudo isso tem a ver com nossa forma de amar?


Vamos para a relativização do absoluto, ou melhor, a secularização dele. Como podemos enxergar ágape entre nós?

Primeiro ponto: amar sem motivo. Eros tem motivo para amar, embora muitas vezes pareça imotivadamente visceral. Ou é a forma, ou o cheiro, ou o jeito, o andar, o sorriso, algo que afeta os sentidos. Amar sem motivo é algo gratuito. No nosso cotidiano pode aparecer a posteriori: amar o companheiro quando já não temos mais motivo para amá-lo. Amava-o porque era jovem, mas envelheceu; porque era forte, mas enfraqueceu; porque era sadio, mas adoeceu; porque era rico, mas empobreceu; porque era belo, mas tornou-se feio. E, provavelmente, o amor mais difícil: porque era amável, mas tornou-se um bruto. 

Segundo ponto: amor incondicional. Dialoga com o primeiro ponto. É a extensão do amor gratuito. Poderíamos nos ver dizendo: "Amo-o contanto que ele cuide de mim ou dos meus filhos". Dizer simplesmente "Amo-o" é o que esse segundo ponto nos convida a fazer. Veja este exemplo de minha vida. Quando meu primeiro filho nasceu, papai estava morto já iam cinco anos. Desejei por um minuto que o pequeno fosse papai de volta à carne. Minha esposa me chamou a atenção: "Você não pode colocar esse peso sobre ele. Deve amá-lo pelo que é agora, não pelo o que possa ter sido." Vê? "Amo-o contanto que seja meu pai". Não. "Amo-o". 

Terceiro ponto: amor que concede existência ao outro. Acontece quando amamos mesmo sem retorno, mesmo que no outro não haja possibilidade aparente de amar de volta. Quando o companheiro se acidenta e entra em demência grave. Quando, perde a sanidade mental e o olhar perde o brilho. Mas também, e talvez é a forma mais fácil de ver este amor, quando se ama o filho recém-nascido que pode morrer amanhã sem ter chegado na idade de demonstrar seu amor. 

Quarto ponto: o amor que está aberto ao sacrifício. Dialoga com o terceiro ponto, mas esclarece a natureza de amar um outro que não nos ama: é sacrifício. Todas as situações que citei são vivências dolorosas, caminho de espinhos, crucificação. O desafio está em conseguir viver esse amor sem perder a alegria. Cair na tristeza e na desesperança é o mais fácil, o mais lógico. Aliás, não amar dessa forma que expus aqui é o mais natural, o mais humano. Esse amor é de Deus, por isso comecei falando Dele. Todavia, é o desafio que Jesus nos propôs já vão dois milênios, assumindo a condição de sermos filhotes de Deus

No post anterior, eu disse que esse é um tipo de amor que pode salvar os outros dois quando tudo parecer perdido. Quando se vê que o outro está impossibilitado de dar algo de volta (quebra do eros), quando se vê que o outro te traiu (quebra da filia), ágape surge como possibilidade de o amor ainda dar certo. Para isso, ágape pede paciência, resignação, concede força, perseverança. 

Sobre o tempo dele. Lembram? Eros era instante que se dilatava. Filia, tempo que se contraía. Ágape vive na dimensão do eterno (o tempo anulado). É o tempo que Deus espera pelo nosso amor. 

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Filhotes de Deus



Complementando o post passado em que falei sobre nossa potência divina, atualizada no caminhar da existência, pensei que a metáfora do filhote de Deus seria ilustrativa. Deem-me licença para a antropomorfização didática. 

Em toda a natureza o semelhante gera o semelhante. Partículas infinitesimais se partem em outras. Pedras enormes viram cascalho, pequenas pedras. Plantas brotam seus rebentos. No reino animal, cada espécie gera sua continuação. 

A visão espírita do espírito é algo complexo. Cheira a alquimia e ocultismo, mas está lá em O Livro dos Espíritos para quem quiser ler. Disseram as Comunicações a Kardec, que Deus gera matéria e espírito. Aquela sendo o arcabouço para o desenvolvimento deste, até que este alcance a perfeição. O espírito nasce pobre e ascende resistindo aos vários estágios que a matéria oferece. Dessa forma, temos espíritos desde o reino mineral até o homem. Do homem mais selvagem ao mais civilizado. Do mais inocente ao mais cruel. A vida cósmica gira em torno de fazer crescer o espírito, fazê-lo florescer e frutificar.  

O que flerta com a filosofia alquímica é a história de transformar qualquer metal fosco no ouro do espírito. Para o Espiritismo seria transformar o espírito mais simples no Espírito mais complexo, ao qual poderíamos chamar de deus. Todo politeísmo é uma manifestação primordial dessa realidade espiritual de que o universo é habitado por infinitos deuses. Os panteísmos guardam essa certeza que cada elemento do universo traz a divindade em si. 

O espírito é o filhote de Deus. Como um pai - imagem que tomamos emprestado das palavras de Jesus - Deus cria (no sentido paterno-materno do termo) seus filhos. Ensina-lhes a caçar o próprio alimento e sobreviver no mundo. O intuito é entregar-lhes para si mesmos. 

Essa visão não é isenta de obstáculos filosóficos. Como um filhote de Deus pode carregar o mal em si, produzir o mal? Não falo do mal como má interpretação das nossas opiniões, mas o mal ativo, cruel, que excede os limites da necessidade. Não é apenas matar algo para se alimentar e sobreviver numa justa cadeia natural, mas dizimar uma espécie inteira - por diversão. Não é prender o inimigo de guerra, ou matá-lo antes que ele nos mate, mas torturá-lo mesmo que já se tenha chegado à certeza de que não se terá mais nada com qualquer dor adicional. Como o livre-arbítrio, dádiva de Deus aos seus filhotes, pode ir até o ponto de ameaçar a existência da própria criação? Como pode haver a possibilidade de excesso em um universo criado pelo Todo Justo? 

A filosofia atéia pega o caminho mais fácil e diz que Deus é desculpável por tudo isso pelo fato de não existir. Várias escolas filosóficas contemporâneas nos dizem que tudo o que se aproxima da explicação última é impossível de pensar, mesmo Deus, que não é razoável apenas por ser fora de cogitação. Antes de Deus, o mistério. 

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

O deus em mim




Ao contrário do que alguns imaginam, essa frase não é uma profanação. Poderia tê-la colocado ainda mais intensa: “o deus que sou”. E ainda assim não seria blasfêmia. Ilumino neste texto a potência que carregamos, ainda que, hoje, sejamos quase nada.

Vamos partir desse ponto: somos quase nada. O conjunto de vulnerabilidades que nos cercam e que nos fragilizam constitucionalmente é tão grande que a divindade parece ter escolhido qualquer lugar para se abrigar menos em nós. Isso vai desde nossa gestação, com suas múltiplas possibilidades de aborto, até toda nossa vida, com todos os pontos de adoecimento. O normal seria morrer. Viver é uma resistência.

Vamos nos focar, então, nesse outro ponto: viver é uma resistência. De cada desafio de morte, saímos maiores. Um aprendizado se acomoda na teia de aprendizados anteriores. Haveria um fim nisso para além de simplesmente sobreviver? Se considerarmos a espécie, estamos aprimorando o arsenal de habilidade da nossa. Se pensarmos em indivíduo, e se este for mortal, é uma inutilidade. Mas, a imortalidade nos dá um horizonte: a perfeição. O limite de todo melhoramento é a perfeição. A recompensa dela seria a felicidade.

Essa mensagem é retórica para aqueles que já são movidos pelo impulso de crescer, inovar, competir. Mas, ela se torna uma preciosidade para aqueles que acham estar perdidos no mundo, que não foram feitos para viver, que são destinado a derrota.

Somos frágeis, é verdade. Contudo, temos em nós a potência de um deus. Desabrochar virtudes é a conseqüência de caminhar. O Espiritismo não entende o ser humano como já sendo um deus. Aponta nossa perfectibilidade. Saímos do átomo, rumamos ao arcanjo. Isso tira o peso de termos que ser perfeitos desde já, como que por um shift mental. Isso nos convida a olhar a vida na perspectiva da eternidade.

O Universo é uma grande escola. O Espírito transmigra na matéria (nos mais diferentes reinos e planetas) em busca de lições. Com trabalho, solidariedade e tolerância chegaremos lá.


segunda-feira, 31 de outubro de 2016

O demônio em mim



Quando lerem esse título, alguns vão dizer "não falei que espíritas são possuídos!", outros "hum! vai explicar sobre o fenômeno da possessão!". Mas, não, e não. Queria falar sobre a condição humana de termos o demônio em nós, bem como o deus. De sermos o demônio de nós, e precisarmos de Deus. 

Eu falo isso propositalmente depois de ter escrito sobre um caso de obsessão levando a pensamentos suicidas. A pergunta que nos vem é por que alguém consegue entrar em nossa mente e nos incitar a algo. Resposta: porque o que ela diz já está em nós. Por vezes latente, até mesmo sufocado. Então, qualquer inimigo que descubra nossa fragilidade, pode se valer dela contra nós. 

A grande maioria das obsessões não insere dados novos em nossa mente. Elas resgatam fragilidades, e as colocam em evidência. Quanto mais santinhos nos achamos, pior para nós. Não estamos enxergando a debilidade que se esconde no peito. Importa conhecermo-nos profundamente - potências e falhas - se quisermos crescer e vacilar o menos possível. 

Homo sapiens demens. Assim deveríamos nos reconhecer. Somos contraditórios. O que nos separa de alguém que perdeu o juízo é uma certa quantidade de passos. 

A tradição judaico-cristã aconselha a humildade com veemência. Devemos nos reconhecer pequenos. Por vezes ela é mais intensa e aponta nossas chagas, seres pustulentos. Só assim é que nos abrimos para caminhos de redenção. Tanto mais Deus se faz presente quanto mais estamos afastados Dele. Para encontrá-Lo não basta reconhecer que Ele existe, mas que você está sem Ele. 

Não é à toa que encontramos isso ao final do "Pai Nosso": "Não nos deixeis cair em tentação". Pois somos instáveis e passíveis de queda. Precisamos de Ti. 

* Leia também: "O deus em mim"

domingo, 13 de setembro de 2015

É preciso perdoar Deus


Clarice Lispector, em 1970, publicava um conto, no Jornal do Brasil, intitulado Perdoando Deus. Nele descreve o sentimento de um êxtase estranho em que se vê tomada por um amor por tudo o que existe - Deus sendo tudo o que existe - como se fosse a mãe do vasto mundo. Amar à Deus de forma solene é o que a religião nos ensina. Mas, como sendo dele a mãe?! Isso é profanação. De súbito, topa com um rato morto a lhe quedar para o outro extremo do divino, desce aos infernos de si. É dessa viagem psico-astrológica que tira a seguinte dedução:

"Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda."

Depois disso ela vai percebendo que é impossível amar o mundo sem aceitá-lo por completo, no que há de esplêndido e de grotesco. Talvez o asco contra o podre do mundo, e de Deus por conseguinte, é o desprezo por esse outro lado de si. 

Entretanto, a foto que postei no início dessa reflexão não parece se encaixar nesse movimento de alma. Dirão os teólogos mais radicais que parto do lugar errado: o que é preciso perdoar é o homem que provoca toda essa miséria. Todavia, o lugar filosófico é o que me importa: quem criou o homem e sua pulsão de morte?

Daí que, ao contrário de todos os movimentos religiosos que partem sempre da visão de Deus olhando para o mundo, eu me coloco na visão dos transeuntes olhando para o universo e assim perdoar Deus. Sei que a profanação dessa frase é sem medida. Contudo, o movimento de perdão é justamente o movimento cognitivo-emocional de se abrir para o outro em toda a sua alteridade, o que significa em toda a sua estranheza. 

- Por que o Senhor silenciaste? - pergunta o ortodoxo papa emérito Bento XVI quando visitou o campo de concentração do holocausto judeu em Auschwitz. 

Infelizmente, não venho neste post trazer uma resposta plausível. Não quero falar das dívidas que arrastamos da encarnações pretéritas, sob pena de menosprezar a dor. Quero, de fato, deixar o coração aberto, e não mergulhar em alguma "matemática errada". Coração aberto, coração sangrando. 

Na temática do perdão à Deus, meu filósofo materialista Sponville disse que a única desculpa é Ele não existir. 

Não quero desculpas. Desculpar é por demais exato. Perdão é a única palavra que encontro para o movimento da alma que envolve carinhosamente o agressor e deixa-o existir dentro de nós, talvez mesmo conduzindo-nos a pensar que nós tenhamos sido o agressor. Ela, enfim, e então, nos confunde.  Querer que Deus seja a imagem e semelhança de tudo o que eu acho que Ele deveria ser, eis a grande prepotência humana, a verdadeira profanação. É o que Clarice enxerga ao final:
"Porque enquanto eu amar a um Deus só porque não me quero, serei um dado marcado, e o jogo de minha vida maior não se fará. Enquanto eu inventar Deus, Ele não existe."