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sexta-feira, 13 de março de 2015

Por uma ciência mais complexa

Aqui temos a imagem de uma jovem E de uma velha. Não é porque se vê a jovem que a velha não existe. Importa agregar olhares mais do que os colocar em conflito.



Postagem passada critiquei o chamado pensamento científico que é espalhado como senso comum pelas pessoas mais notáveis, por exemplo, um aluno meu de medicina com quem tive calorosa e instigante conversa.

Nessa postagem aqui, respondo à provocação de um dos leitores deste blog que entendeu que eu estava querendo destruir o pensamento científico a fim de provar sofismaticamente que a doutrina espírita, não científica, era verdade. Como se, destruir a ciência, que é, por natureza, aniquiladora de superstições, fosse um ardil para que a minha superstição espírita pudesse crescer em paz. O opositor ironiza: "Eu devo entender que se eu não posso provar que existe: então existe."

Não. Não era aí onde eu queria chegar. Mas, que a ciência é insuficiente para captar a realidade em sua totalidade e, por isso, devemos nos munir de muitos métodos para entender o que está ao redor de nós.

Quando a ciência se arvora como a detentora do poder de considerar existente determinada coisa, a tal ponto de dizer provar que esse ou aquele fato não existe, ela entra em um terreno muito movediço e - a história dá exemplos cruéis disso - por vezes se entrega como discurso político para extinguir determinadas culturas e formas de existir de pessoas. Daí a necessidade imperiosa que surgiu nos últimos séculos de relativizar o pensamento científico ou, pelo menos, encontrar o seu lugar de atuação.

É do pensamento científico afirmar categoricamente que Deus inexiste? Não. Sobre Deus, a questão é quase ponto pacífico. A ciência nada pode dizer nem contra nem a favor. A ideia de Deus escapa dos métodos científicos. A ideia dos Espíritos, por outro lado, nós espíritas defendemos que a ciência, ao contrário do que diz o discurso oficial, não só pode provar como provou a existência deles. As experiências de Kardec, León Denis, William Crookes, Gabriel Dellane, Albert de Rochas, Cesare Lombroso, Ernesto Bozzano, Joseph Banks Rhine (fenômenos teta), para citar os mais clássicos, fazem a festa nesse sentido.

Importa saber, lembrando a teoria de Thomas Khun sobre os saltos paradigmáticos, que a ciência não vive apenas de encontrar a verdade, mas de defender um tipo de verdade que obedece a fortes disposições sócio-históricas, até que as mesmas caduquem. Não somos sempre isentos de emoção quando fazemos ciência. Muitas vezes defendemos apaixonadamente a teoria a qual nos filiamos para deixar os fenômenos claros em um tecido explicativo, o que impede, por muito tempo, de ver os furos da teoria. Há também as thematas, que são crenças que servem como panos de fundos para as grandes cabeças pensantes direcionarem as próprias suspeitas. Por exemplo, esclare Edgar Morin: "Max Born diz que Einstein acreditava no poder da razão de captar, por intuição, as leis pelas quais Deus criou o mundo, isto quer dizer que, na mente de Einstein, Deus não é totalmente metafórico." E essa themata tem uma característica "obsessiva, pulsional que estimula a curiosidade e a investigação do pesquisador."

Isso é ruim? Coisas não-científicas estarem no bojo da criação científica? Isso é a realidade! Ainda Morin:

"A ciência é impura. A vontade de encontrar uma demarcação nítida e clara da ciência pura, de fazer uma decantação, digamos, do científico e do não-científico, é uma idéia errônea e diria também uma idéia maníaca. (...) O notável é que a ciência não só contém postulados e themata não-científicos, mas que estes são necessários para a constituição do próprio saber científico, isto é, que é preciso a não-cientificidade para produzir a cientificidade, do mesmo modo que, sem cessar, produzimos vida com a não-vida." (in Ciência com Consciência)

No Espiritismo, por exemplo, Kardec começou sem nem acreditar em Espíritos, como mostram textos de sua juventude e diálogos entre amigos revelados postumamente. Mas, as evidências saltaram aos olhos com as brincadeiras das mesas girantes. Depois, associou o Espiritismo à filosofia moral, conseqüência da sua visão de mundo forjada na escola de Pestalozzi, e ainda ao Cristianismo purificado de dogmas, fruto de uma vontade que buscava acabar com os conflitos protestantes. Direcionou-o para uma vivência íntima das máximas morais, traços de um mundo laico nascente. Kardec ainda utilizava como sinal de que estava indo no caminho certo o fato de povos tradicionais terem crenças muito semelhantes com o que o Espiritismo estava sugerindo em suas revelações. Por causa disso foi chamado de faquirismo ocidental ou denunciado como querendo resgatar superstições. Todavia, ele simplesmente entendia que, se uma verdade estava presente em tantos povos por muitas épocas não haveria de ser uma lenda vazia, mas possuir uma réstia de verdade importante de ser investigada.


Em uma época que o homem tentava ser como "mestre e senhor" do objeto cognoscível, submetendo-o aos instrumentos de observação, Kardec dialoga com o objeto de estudo de igual para igual, pedindo mesmo a opinião dos sujeitos estudados sobre as conclusões por ele alcançadas. Os diálogos com os Espíritos poderiam ser considerados como um precursor das Ciências Humanas e seu método investigativo. Muito intrigante o título da clássica obra do Sr. Dilthey: "Introdução às ciências do espírito". Alguns traduzem: "Introduçãos às ciências humanas". Falo menos do objeto do que do método: as dicas para se investigar o espírito humano.

Percebe? Então, o Espiritismo tira suas conclusões não apenas baseado nas observações empíricas, mas no contexto sócio-histórico da época, na força da filosofia moral cristã, em um certo estudo de culturas comparadas, nos resultados pedagógicos das experiências de Pestalozzi, no debate entre diferentes centros espíritas dinamizado por periódicos de circulação mensal, etc.

Por fim, veja o Amor! Que ciência há de provar a sua existência e seus efeitos? A nossa medicina biologiciza o sentimento até reduzi-lo a pó de hormônios. A concepção de Amor que temos na Doutrina Espírita foi tirada das atitudes e palavras da vida de Jesus, que aliás é a base do nosso sistema de pensamento ocidental, quer queiramos ou não. E que bom é Amar! 

sexta-feira, 6 de março de 2015

Ilusões da ciência ou Discurso do método ao avesso



Quero falar, na verdade, das ilusões da maioria das pessoas que dizem pautar seus julgamentos pelo pensamento científico. Passam longe de fazê-lo. 

Um aluno de medicina abordou-me, sabendo que eu era espírita, sobre o significado e a pertinência real dos processos obsessivos e, no geral, da influência que os Espíritos exercem sobre nós. 

Expliquei tão bem quanto podia. Ao final, falou que era interessante, mas não acreditava. Balizava-se pela ciência que tinha uma visão mais enxuta, porém mais sólida da realidade. O Espiritismo se valia de premissas demais (Espíritos ao nosso redor, oceano fluídico em que estamos imersos e de que nosso corpo é feito, possibilidade de manipulação desses fluidos pela força do pensamento) para ser credível. 

Vou analisando os argumentos dele em termos de falácias, isto é, as concepções truncadas que ele tem do que é o pensamento científico. 

Falácia 1: A ciência é um pensamento que enxuga a realidade, deixando-a mais sólida. 

Tese: Por uma herança matemática, as hipóteses científicas são formuladas pelo quesito da elegância. Supõe-se que, entre duas hipóteses, se ambas explicam igualmente a realidade, deve corresponder à verdade a que se vale de menos subterfúgios para chegar ao mesmo fim. 

Refutação: Isso é válido para a elegância não para a verdade, não para a realidade. Esta é complexa, cheia de meandros, circunvoluções, sombras. Poderia se argumentar como Leibniz: foi a forma mais econômica de se dispor as coisas. Contra-argumento imediato: não temos nenhuma outra forma para comparar. O universo que há aí é o que é. É pegar ou largar. Se ele precisa de muito mais premissas do que as que as hipóteses tradicionais aventam para ser compreendido, que nos resta fazer senão abraçar? Fórmulas enxutas só tem um mérito além do da elegância: o de enxugar a realidade.  

Depois, me pergunta se há alguma máquina que tenha capturado a imagem desse universo fluídico. Eu desconheço (sabia das máquinas Kirlian, mas vejo mil vieses nos experimentos as envolvendo, achando melhor dar por ignorado esse assunto). 

Falácia 2: Para ser científico é preciso ter o objeto estudado, de alguma forma, tangível. 

Tese: Por uma herança da física clássica, os objetos que não podemos tocar para os submeter aos instrumentos de experimentação devem ser ignorados como objeto de ciência. Quase que os astros ficavam de fora da abordagem científica, mas, embora intocáveis, eram passíveis de observação por instrumentos científicos de forma "direta"*. Os espíritos e os fluidos não. 

Refutação: E o átomo, cuja existência foi pressuposta por feixes catódicos? E o elétron, cuja posição já não pode ser medida ao mesmo tempo que sua velocidade - ou se toca em um dado ou no outro? Não, não é pelo toque que se faz a ciência. Aliás, essa concepção originou as experiências mais cruéis da história da medicina. 

Então, tentando melhor me explicar em que se baseia o pensamento científico, assevera:

- Quando vou passar uma dipirona para um paciente, tenho em mente que aquele remédio é válido porque baseado em experimentos que revelam uma resposta terapêutica 30% superior ao placebo, por exemplo. 
- Que experimentos? - replico.
- Experimentos sobre pacientes.
- Que pacientes?
- Os que participaram do estudo.
- De onde eles eram e quantos eram?
- Não sei bem estes por menores da pesquisa científica...

Falácia 3: O experimento científico nos confere uma resposta universal para nossas perguntas. 

Tese: Ainda por uma herança da física clássica, tomando a gravidade como modelo, as leis que ela sugere tem o mérito de valer para todas as pessoas do mundo, senão pela eternidade, pelo menos por um bom tempo. 

Refutação: É válido para todas as pessoas do mundo, mas na ordem de fenômenos do cotidiano. Os pilares da física clássica perdem precisão no infinitamente pequeno, no infinitamente grande e... no íntimo do ser humano. Não se pode, quando se trata de ser humano, desconsiderar as particularidades locais e vivenciais dos indivíduos e dizer que tal experimento feito no Japão com um punhado de pessoas pode ser válido para os brasileiros. Se for, muito bem. Se não for, era de se esperar. Claro que mais vale se basear em algo que tenha algum fundamento para ser extrapolado do que no achismo de um iluminado. Não podemos é elevar esse fundamento experimental à categoria de verdade transcendental da humanidade.  

Quando devolvi estas refutações ao rapaz, não tinha a pretensão de fazê-lo desacreditar na ciência que ainda acho um dos métodos mais grandiosos para se "aumentar de forma gradativa o conhecimento, e de elevá-lo, pouco a pouco, ao mais alto nível, a que a mediocridade do [nosso] espírito e a breve duração da [nossa] vida nos permitam alcançar."

Acabei de citar o homem que criou a nossa moderna forma de pensar ciência. O que as pessoas esquecem é dessa ressalva dele, não menos valiosa que o método que engendrou:

"Contudo, pode ocorrer que me engane, e talvez não seja mais do que um pouco de cobre e vidro o que eu tomo por ouro e diamantes. Sei como estamos sujeitos a nos enganar no que nos diz respeito, e como também nos devem ser suspeitos os juízos de nossos amigos, quando são a nosso favor."

Daí, todo bom cientista sempre olhar cabreiro para as teorias que duram demais.  


* O fato de haver uma lente entre mim e o objeto estudado já mostra o quanto é indireta a observação. Se levarmos ao extremo esse pensamento, o fato de eu só ter acesso à realidade exterior pelos órgão do sentido já mostra o quanto a minha forma de ver a realidade é uma filtragem. Conclusão: a realidade em si é uma pretensão intangível para mim.

sábado, 25 de janeiro de 2014

Sobre o que define a existência das coisas



Sobre o rascunho que escrevi acerca de uma possível história do que consideramos existente na postagem anterior, um amigo querido me responde:

“Acrescentaria apenas que, para o paradigma contemporâneo dominante, não se trata apenas de ‘palpar’, mas de ser matematicamente demonstrável. Muito daquilo que consideramos hoje uma realidade, cientificamente falando, não passa do resultado de bem concatenados e amplamente revisados cálculos, cujos resultados não pareçam dar margem a dúvidas. Assim foi com a existência de Netuno, a seu tempo, dos buracos negros, do bóson de Higgs e muitas outras coisas. É claro que uma boa palpada, ainda que pelo menos visual, ajuda a conferir status de existência para qualquer coisa. Lamentavelmente, a beleza e o êxtase causados já não integram mesmo os critérios de concretude de algo. Menos dependência de envolvimento e de emotividade é sinônimo de ‘mais verdade’...”

Eu havia pensado na matemática – relutei em colocá-la. Filosoficamente, ela, enquanto procedimento que confere status de existência a qualquer ser, vem exercendo essa função desde Pitágoras, que já veio dos egípcios, que tomaram isso sei lá de onde. Ali, a coisa era tão séria, que os números possuíam aura divina. O cosmos era lógico. O logos era o cosmos. Não tardaria muito para João pegar essa noção toda e colocar no começo de seu evangelho que o Logos era Deus, que estava com Deus e que veio para Terra, recebendo o nome de Jesus.

A matematização da vida para engendrar sua compreensão tem uma vasta herança filosófica. Descartes escreverá em seu “Discurso sobre o Método”:

Enquanto, ao voltar a examinar a ideia que eu tinha de um Ser perfeito, verificava que a existência estava aí inclusa, da mesma maneira que na de um triângulo está incluso serem seus três ângulos iguais a dois retos, ou na de uma esfera serem todas as suas partes igualmente distantes do seu centro, ou ainda mais evidentemente; e que, por conseguinte, é pelo menos tão certo que Deus, que é esse Ser perfeito, é ou existe quanto seria qualquer demonstração de geometria.”

Spinoza, seu discípulo infiel, intitulará seu livro maior de: “Ética demonstrada à maneira dos Geômetras”. Leibniz se valerá do seu cálculo integral para defender a justiça de Deus no mundo, a Teodicéia.

A própria noção de Leis Naturais dos positivistas nos faz sentir o cheiro forte de uma certeza matemática que nos permite não apenas entender o presente, mas prever o futuro, o que é, novamente, um universo pitagórico da função divina (divinatória!) do número.

Mesmo Marx, esse semi-deus do pessoal das ciências sociais, resvalou nesse pensamento ao considerar seu socialismo definitivamente científico ao ponto de poder prever o colapso inevitável do capitalismo a partir do encontro de sua lei por vias, também, matemáticas. Marx utilizou a economia – não apenas a história, a sociologia e a filosofia – no seu tratado.

O fato é que, apesar de tudo, os empiristas dominam esse campo da existência: o de falar sobre a real existência das coisas. Não é a toa que Kant dirá que Hume o fez despertar de seu sono dogmático. Criticará, então, de uma forma inigualável – apenas terá herdeiros dessa crítica – tudo o que se apoia nesse caminho de provar a existência a partir de conceitos pretensamente matemáticos sem fundamentos sensíveis correspondentes.


Mas, a matemática, para nós espiritualistas, amigo João, é a grande aliada. Um pensamento que é tão forte a ponto de dispensar a matéria para nos fazer acreditar na existência da coisa, o nome disso é espírito – ou quase. Não me admira o conhecimento da astronomia se valer desse expediente. Ela também é herdeira de Pitágoras. Das ciências, é a que mais nos conduz a enxergar Deus apesar dos homens. Mas, particularmente, amigo, minha paixão nasce e renasce em tentar enxergar, nos homens, Deus, apesar de serem tão não-matemáticos!

domingo, 19 de janeiro de 2014

Vidas humanas em outros planetas ou Eu vejo espíritos em tudo - Parte II



Vou falar sobre a vida humana em outros planetas. A vida como organização biológica complexa já está quase certa. Mas, a humana, aquela dotada de história, cultura e política, dizem as fontes oficiais e hegemônicas que não.

Mas, antes de entrar nesse assunto, preciso fazer uma digressão importantíssima: sobre a história de como nós aceitamos o que é existente.

Provar a existência das coisas, atualmente, significa palpar. Um dia, na eras mitológicas, significava ouvir e se extasiar. Toda grande história cuja trama nos arrebatava, nos devolvendo uma noção de sentido da existência, deveria ser verdade. Em outro dia, na era filosófica, existir passava pelo caminho de ser coerente. Bastava que o raciocínio engendrasse uma lógica que conectasse bem todos os elementos que a natureza nos revelava. Não precisava que tudo fosse medido. Dava para ter um fundamento duro, mas que se desdobrava em realidades etéreas a que deram de chamar de metafísica. Nesses tempos, era possível se entregar, em reconhecida atitude científica, aos pensamentos sobre felicidade e serenidade. Um pouco mais tarde, na era medieval, uma grande mitologia imperou sobre todas as outras. Incrementada aqui e ali com pitadas de filosofia, mas extremamente presa às páginas de um livro sagrado. Para considerar existente era necessário que a história se encaixasse perfeitamente na Grande História do Livro Sagrado e da Tradição Interpretativa da Igreja. Devo grafar tudo isso em maiúscula.

Hoje, para que uma coisa possa ser considerada existente, é imperioso podermos palpá-la. Ainda é necessário que ela tenha uma história; que essa história convença (não mais que extasie, infelizmente); que tenha uma coerência interna e uma conexão lógica a fim de permiti-la ser enquadrada em certo tipo de tradição de textos, de escolas de pensamento e pesquisa. Mas, se ela não puder ser palpada, esfumaça-se na nossa mente e escapa da nossa crença. Claro que isso é um esquema! Vale muito mais para a academia oficial dos cientistas do que para as pessoas cotidianas. Eles mesmos, quando estão enredados no dia-a-dia, devem se curvar à exigência das crenças que não passam pelos seus critérios de verdade. Se todo objeto que manipulamos, se toda realidade da qual fazemos parte devesse passar por toda essa prova mortal de que lhes falei para ser considerada existente, morreríamos sem utilizar nada. A ingenuidade é a base da vida. Meu café-da-manhã que vou tomar daqui a pouco existe, ninguém precisa me provar nem que sim nem que não.

Precisei fazer esse parênteses, porque a existência de vida em outros planetas é desses princípios doutrinários no Espiritismo que simplesmente não temos nada palpável para apresentar. Os Espíritos podem ser palpados de forma direta, nas sessões de materialização, ou de forma indireta, nos fenômenos dos espíritos batedores ou nas primordiais mesas girantes. A reencarnação vem se tornando palpável nas pesquisas de lembranças espontâneas de vidas passadas, particularmente fortes na cultura oriental. Mas, a vida humana extraterrestre, ainda faz parte de uma história bem defendida e logicamente conectada ao arcabouço maior da doutrina, que tem o bônus de ser narrada por Espíritos e de retomar o sentimento de êxtase que nos faz sentir reconectados com um plano maior de existência, todavia ainda impalpável:

Se Deus existe e ele é todo sábio, nada de inútil pode ter feito, portanto o resto do Universo, que faz com que a Terra não seja mais que um planetinha periférico, deve ser habitado por muito mais gente do que podemos imaginar.

Como eu já havia dito no post anterior, é preciso um pouco mais de espaço, então, para falar da Humanidade. O espaço sideral é um bom começo. Permita-se viajar um pouco comigo nessa questão. Se isso for verdade, será se acreditam em Deus? Será se possuem cultos mediúnicos? Será se acreditam em reencarnação? Será se buscam intensamente a solução para a angústia que a morte de um ente querido traz? Será se buscam salvação da alma? Se buscarem? Por que meios? Que respostas encontraram para os salvar? Que visões de salvação? Se eles forem menos poderosos do que nós, o nosso homem de ciência manterá sua empáfia e não se abalará com qualquer resposta que dali vier. Se eles forem mais poderosos, as respostas que vierem lá de fora nos abalarão um bocado.

Será se já não vieram? Será se eles já não estão por aqui? Será se já não há uma política interplanetária que se desenvolve sobre a nossa completa alienação mais palpável do que esse meu pão com queijo, mais quente do que esse café-com-leite. Que apocalíptico!


Por falar em apocalipse. Esqueci de falar sobre a nossa visão do assunto. Sério! Prometo que finalizo os princípio da Doutrina Espírita com isso. Apocalipse e Soteriologia são temas irmanados. Se quiserem dar uma lida no marcador Soteriologia deste blog já vão tendo uma ideia sobre o que irei falar. Até mais!

domingo, 24 de março de 2013

Conhecereis a Verdade e a Verdade vos Libertará




No Espiritismo, a liberdade humana é relativa. O absoluto é Deus. Nada diferente de qualquer outra doutrina cristã. Sendo o homem criação de Deus, há um propósito para cada criatura. Qual o propósito do homem? Pra que ele serve? É o que determinam as leis divinas, como um manual de instruções.

Quais leis nos governam? Moisés apresentou algumas no decálogo de pedra. Jesus exemplificou tantas na sua passagem pela Terra. Os apóstolos tentaram escrever alguma coisa nos Evangelhos. Kardec colocou dez em O Livro dos Espíritos. Cito apenas estes porque coincidem na mesma interpretação do que é o homem, somos filhos de Deus submetidos às suas leis, e na mesma forma de encontrar as leis, haja vista, pela Revelação

Deus, pretende a Bíblia, revela à Moisés. Jesus, aos apóstolos. Os Espíritos, à Kardec. 

Os filósofos do modernismo abominavam essa questão da sabedoria revelada. Com razão! Qualquer pensamento que fugisse da linha era cortado pelo argumento de autoridade, isto é, pelo que estava escrito na Revelação. Rousseau nos ilustra esse conflito em Emílio com o diálogo do Raciocinador contra o Inspirado:

O INSPIRADO: O entendimento que vos concedeu! Homem mesquinho e vão! Como se fôsseis o primeiro ímpio que se perde na razão corrompida pelo pecado! O RACIOCINADOR: Homem de Deus, também não sois vós o primeiro velhaco que apresenta a arrogância como prova de sua missão! O INSPIRADO: O quê? Os filósofos também injuriam? O RACIOCINADOR: Às vezes, quando os santos lhes dão o exemplo. O INSPIRADO: Oh! tenho o direito de falar assim; falo da parte de Deus. O RACIOCINADOR: Por que não me mostrais o título, antes de usardes do privilégio.


Kardec não deixa de abordar esse assunto. Primeiro, na forma como escreveu O Livro dos Espíritos: perguntas, respostas e comentários. Alguém, algum dia, teve a ideia de travar um diálogo racional com as Revelações? Não só questionar, mas debater, esquadrinhar. Se teve, manteve em segredo - ciência oculta. O professor Rivail democratizou a pesquisa. Depois, em O Evangelho Segundo o Espiritismo, propondo um método que livrasse, ao máximo, as revelações de um viés de seleção de castas de Espíritos, na busca de um discurso que fosse comum a várias comunicações de diferentes sessões mediúnicas, de diferentes países, ao que ele chamou de Controle Universal dos Espíritos. Alguém, algum dia, teve a ideia de engendrar um método de pesquisa para entrevistar Espíritos, se preocupando com vieses de seleção? Se teve, Kardec foi o primeiro. Por fim, em A Gênese, quando ele tece longos comentários sobre as particularidades da revelação espírita, argumentando que revelações de Espíritos, na verdade, temos a todo instante na história da humanidade. Não é preciso ter um médium para um Espírito revelar algo. Há gênios do lado de lá e do lado de cá, desencarnados e encarnados. Ambos revelam algo aos comuns dos mortais. A nova atitude que o homem espírita deveria tomar, bem no espírito da revolução Iluminista, era submeter as revelações à crítica da razão, pois há gênios bons, bem como os há bobos.

Não bastava simplesmente uma entrega de fé e emoção para escolher qual profeta ou qual tribo seguir. Em um mundo que se globalizava e começava a fazer correr a informação na velocidade de um telégrafo, era importante o discernimento racional para separar joio e trigo. 

Isso é toda uma revolução na forma de se comunicar com o Além que ninguém percebe. Se perceber, torna-se simpatizante do Espiritismo.

Algumas perguntas são muito pertinentes depois de tudo que falei. Revelo-as para evidenciar que tenho consciência das lacunas que merecem ser enfrentadas em outros momentos: 1. Como pensar qualquer coisa sobre Deus, o absoluto, dentro de uma perspectiva humana, relativa por natureza? Dessa forma, como afirmar qualquer coisa sobre Deus? Não seria ultrapassar uma linha que nos é interdita pela nossa limitação? 2. Idem para as Suas leis. 3. Leis que emanam de um Ser Absoluto para determinar o que devem fazer os homens?! Não seria o Espiritismo mais uma doutrina filha do Antigo Regime, alheia ao ambiente democrático, reacionária, portanto? 4. Para ser revolucionária, a atitude de Kardec perante os Espíritos, seria preciso antes saber se Há Espíritos.

Cada uma dessas questões, qualquer dia desses, tentarei esmiuçar. As duas primeiras com mais dificuldade que a última, já que esta os amigos já podem encontrar resposta logo ao abrir O Livro dos Médiuns. Vale dizer que com o “não” a essa pergunta, todo o resto do Espiritismo é vão, e assim, digo sem medo, pode esquecer tudo o que falamos. Mas se o “sim” teimar em aparecer, os comentários prosseguem por aqui, com muito gosto!