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domingo, 10 de maio de 2020

Do Pecado

Não é de se livrar do pecado que se faz a salvação. O pecado a espreita faz parte de nossa natureza. Ir contra ele com todas as forças só nos faz dele escravos. Viver, sabendo que ele está ali, nos faz humanos e preparados. A vigilância é o que devemos procurar e não a santidade. 

sábado, 6 de janeiro de 2018

O discurso demoníaco deve ser calado a todo custo?



Na postagem passada falei sobre o discurso demoníaco que a ciência busca combater, restabelecendo a verdade divina. Todavia, outra questão que se deve considerar é se o discurso demoníaco deve ser calado a todo custo, ou, em outras palavras, exorcizado.

A posição espírita é diferente da do exorcismo. Se é verdade que o este discurso é identificado com a crueldade absoluta, por outro lado o que chamo de discurso demoníaco não se encarna por inteiro no ser humano. Ele é como uma ideia transcendental, uma categoria analítica necessária para entendermos certos movimentos da realidade. Kant falava assim da ideia de Deus, de sua necessidade para entendermos o movimento da ciência como legítimo. 

Assim como não há Deus encarnado no homem, abstração feita da crença cristã a respeito da existência histórica de Cristo, não há o demônio. O que encontramos é sim o divino e o demoníaco tomando mais ou menos espaço no coração das almas de forma flutuante. 

A cosmovisão espírita endossa a judaico-cristã:  

O divino é perman-ente, e o demoníaco é transi-ente.  

A esfera em que imaginamos Deus é superior a em que transita o demônio. O que isso significa? Que qualquer ação demoníaca é passageira. Por outro lado, o homem tem vontade de Deus, e qualquer vontade demoníaca que o mova nem é perpétua nem é forte o suficiente para superar a vontade divina a longo prazo.

O que se vê, então, é o movimento demoníaco sendo um caminho alternativo ao divino, porém sem possibilidades de determinar o destino do homem. O livre-arbítrio permite o clinamen, mas Deus atua para o retorno. É o que se chama, na tradição cristã, de ação salvífica de Deus. 

O exorcismo como atitude castradora da ação demoníaca não é o caminho do espiritismo, mas o diálogo com o que de mal se manifesta no discurso a fim de redirecionar o indivíduo, encarnado ou desencarnado, para o bem. 

O discurso demoníaco deve ser calado a todo custo?

- Não. Deve-se compreender quais as condições que permitiram sua instalação e, sem muitas delongas, reconduzir o indivíduo para caminhos de reencontro com a vontade de Deus.    

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Ciência como denúncia contra o demônio



Por que tanta crítica e desconfiança tanto na filosofia quanto na ciência?  Por que tanta rigorosidade metódica para extrair a verdade dos fenômenos? Por causa do discurso demoníaco.

Talvez você dissesse: "não, é pelo soberano bem, pela felicidade suprema". E nada disso, nem o soberano bem, nem a felicidade suprema, não fariam sentido suas buscas se não houvesse o demônio. 

Não estou falando necessariamente de uma entidade antropozoomórfica que espreita a queda do homem, mas sim de tudo o que espreita a queda do homem. 

Se de um lado a tradição cristã colocou Deus como Aquele que preparou para seus filhos o paraíso, de outro, enxergou uma divindade menor que serpenteia a natureza humana calcando sua perdição. São duas forças metafísicas ativas: uma oferecendo a salvação, a outra, o contrário. 

É mais condizente com a realidade circunvizinha entender estas duas forças como existentes do que definir uma pela ausência da outra. O holocausto nazista não se sobressaiu em crueldade pela mera ausência de democracia.   

O que seria a força demoníaca, então? Todas estas ações com força própria que levam o homem ao mal: a trapaça, a mentira, a ganância. Não entraria aqui o engano, por exemplo, pois este não é uma força ativa, mas o deslize de alguma força. 

A filosofia e a ciência, pois, não se esmeram em extrair verdades da pedra apenas pelo gosto lúdico de acertar. Elas querem salvar almas, e sabem que uma mentira que se propaga propositadamente como verdade é geradora de morte, merece, pois, ser questionada e desmascarada. Sabe que a trapaça se imiscui entre os fatos, e que é preciso denunciá-la a fim de que não faça vítimas.

Um artifício demoníaco que se incrustou nas ciências humanas foi a defesa de que não há verdade, apenas interpretações. Este subterfúgio permite que o discurso demoníaco seja acolhido como mera perspectiva. As ciências exatas não caem de todo nessa falácia, e é ainda o que nos permite estar vigilantes. 

Eis um fundamento metafísico da filosofia e da ciência que ignoramos, mas sem o qual não podemos entender a energia movente de muitos cientistas e filósofos genuínos.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

O método do discurso demoníaco



A primeira questão que se levanta é se existe um discurso demoníaco. Sim. Ainda que não se acredite em demônio na acepção que se toma no senso comum do termo, o discurso demoníaco é algo vastamente estudado por várias tradições, particularmente a cristã.

O discurso demoníaco consiste naquele que quer lhe afastar de Deus. 

Se acreditamos que Deus não é único e que depende da religião que o enxerga, o discurso demoníaco é aquele que contradiz a forma de enxergar o seu deus. Sendo Deus único, e as religiões apenas O enxergam por diferentes ângulos, o discurso demoníaco absoluto seria o que apresenta uma mentira fundamental sobre o caminho que Deus nos prepara. 

De todo modo, há um certo método do discurso demoníaco se apresentar. Dos mais efetivos, podemos resumir em alguns passos:

1. Descrever a realidade na verdade dela, muitas vezes evidenciando uma sobriedade a que nossa visão cotidiana não está acostumada; 
2. Apontar nesta realidade as lacunas, as falhas, as faltas que de fato existem.

Essa é a etapa de sedução do ouvinte. É quando o discurso aponta o que há de verdade e que reconhecemos como tal, mas aprofundando análises que nos levam a aderir ao discurso. 

3. Tendo conseguido levar o ouvinte ao aprofundamento da análise, começar a desvirtuá-la, semeando mentiras que passam despercebidas pelo incauto;

O nível superficial da realidade é fácil de ser descrito com certa precisão por uma mente inteligente, fazendo-se facilmente compreendida pelo interlocutor. Contudo, quando se guia o outro para as profundezas de qualquer análise, as ligações entre os fatos tornam-se vaporosas, quebradiças, frágeis, e apenas alguém seduzido no discurso para comprar o que está sendo vendido. 

4. A partir destas profundezas, agigantar as falhas da realidade em que se está inserido até o ponto de fazer o ouvinte sentir-se desapegado, por desprezo, da sua vizinhança. 

Esse é o momento crucial para este discurso, pois tem como que sua presa isolada, tanto melhor se todos os fatores de proteção e os amigos que poderiam lhe devolver a sobriedade tiverem sido desacreditados. 

5. Propor, a partir de então, uma nova realidade que se apresenta como revolucionária, fazendo com que o ouvinte seja, por assim dizer, iniciado nas novidades deste mundo recém-descoberto. Cercá-lo de outras relações generosas que apaziguem o desconforto da ruptura com a sua antiga forma de ver. 

Envolvido por esta teia astuciosamente urdida, a pessoa passa a se permitir ações que fogem completamente da sua forma de ser, podendo sacrificar a própria vida. A consciência e o senso moral se anestesiam, lançando-a para um cipoal que há muito custo, com bastante intervenção externa, poderá se desvencilhar. 

É desse modo, por causa dos múltiplos discursos demoníacos que sussurram em todos os lugares, que surge a necessidade do espírito crítico e da busca escolástica de entender qual a vontade de Deus, que verdade pode haver no mundo, que tesouros primordiais se escondem na consciência, que certezas para o senso moral. Deus, verdade, consciência e senso moral são os principais alvos de qualquer discurso demoníaco. Relativizá-los é o trunfo. 

domingo, 14 de maio de 2017

Obsessão: como escapar



[Após exposição sobre o tema "Obsessão, o que é e como escapar"]

PREMISSA: Obsessão é a influência maligna e insistente de um Espírito, costumeiramente desencarnado, sobre uma pessoa, seus pensamentos, podendo acontecer uma gradação de domínios sobre os atos do indivíduo.

PERGUNTA DA OUVINTE: "Como identificar que uma pessoa tem obsessão e como ajudar esta pessoa?"

RESPOSTA: Há vários graus de obsessão e podemos dividi-las em três tipos especiais.

  • A obsessão simples: o indivíduo ainda tem aquela consciência de que os pensamentos sugeridos são intrusos. 
  • A obsessão de subjugação: há esse sentimento de intrusão, mas o controle sobre os atos se perde. 
  • A obsessão de fascinação: o sentimento de intrusão se perde, pois a sugestão do Espírito se imiscui em pensamentos mais íntimos, provocando como que uma subjugação hipnótica que faz com que você se torne fantoche dele sem se dar conta. 


Os sintomas mais patentes da obsessão são estes sentimentos de intrusão. Em médiuns, aparecem vozes persistentes, visões perturbadoras e repetitivas, o domínio dos motivos de fala e escrita por um só enredo. 

Antes de saber quando ajudar, é preciso saber se há necessidade de oferecer ajuda. Pois pode-se cair no problema maior da psiquiatria: estaria eu tratando uma pessoa normal? Como saber se esse comportamento não passa de uma singularidade do Espírito? Há a dica de um velho professor meu que pedia para nos atentar para os quatro Ds:

  • Dor (para si ou para os outros)
  • Disfunção (cotidiana, laboral, conjugal) 
  • Dissociação (desligamento da consciência ou assunção de outro estado de consciência reativo a evento traumático)
  • Desrealização (sentimento de estranheza em relação ao mundo)

Esses Ds são os mais icônicos. Há uma infinidade de sintomas psicopatológicos, mas que findam por evidenciar algum grau destes Ds. Todos eles denotam algum grau de sofrimento psíquico. Claro que a cultura pode exacerbar ou amenizar estes sentimentos. O preconceito contra um médium pode causar dor para a família, para o médium, deixá-lo disfuncional, fazê-lo sentir-se dissociando e desrealizando, quando os fenômenos que experiencia não passam de alterações parapsíquicas. É essa brecha que o obsessor precisa para atacá-lo, reforçando todos os sentimentos negativos que vem cultivando no coração angustiado. 

Às vezes é clara a obsessão espiritual, outras vezes pode não passar de um julgamento precipitado segundo os nossos preconceitos. Não raras vezes, aquele que quer ajudar os outros é o maior obsediado!

O maior antídoto para a obsessão é a abertura à crítica e... (merece uma pausa estratégica)... o Evangelho! Devemos nos submeter diariamente à sabedoria do Evangelho, para que ele nos critique e nos aponte os caminhos de crescimento. 

Não há como negar: nossa civilização é cristã. Cada civilização foi gerada em cima de uma sabedoria. A nossa, é a de Cristo. Há outros luminares da história. Pode-se se apegar a eles. O que não dá é sair por aí tentando ser "o gostosão", "o sabichão", "o portador da verdade original" acima desses caras "desatualizados". As falas de cristos e budas não são itens da esteira de atualização das ciências modernas, são obras-primas do divino.  

Visitei um templo budista em que os monges todas os dias acordavam para ir ao templo desatar um dos escritos de Buda e passar a manhã meditando sobre uma frase dele. Os espíritas deram por fazer isso com o Evangelho segundo o Espiritismo, e, em família, implementar o culto do Evangelho no Lar, momento singular de meditação grupal. 

Quer ajudar? Primeiro veja, diariamente, se não é você que está precisando de ajuda. Permita que Jesus lave seus pés. Fortaleça-se com o estudo contínuo. Encha seus conhecimentos com práticas de caridade, para que, quando as palavras de conselho e consolo saiam de sua boca, venham recheadas de autoridade moral, sem pedantismo. 

Você tem certeza que a pessoa que você quer bem está obsediada? Escute mais do que fale a princípio. Nenhuma obsessão se instala sobre o nada, mas sim sobre uma história. Todo obsessor quer ser ouvido através de seu obsediado. Lembre que o mal é um bem se partejando com grande sofrimento. Como todo bom parteiro, mais vale estar presente, prestes, à postos como amigo, do que ativamente interferindo no processo de entendimento dos implicados. Não há vítimas e carrascos nestes processos, porém aprendizes das lições do amor.  

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

O demônio em mim



Quando lerem esse título, alguns vão dizer "não falei que espíritas são possuídos!", outros "hum! vai explicar sobre o fenômeno da possessão!". Mas, não, e não. Queria falar sobre a condição humana de termos o demônio em nós, bem como o deus. De sermos o demônio de nós, e precisarmos de Deus. 

Eu falo isso propositalmente depois de ter escrito sobre um caso de obsessão levando a pensamentos suicidas. A pergunta que nos vem é por que alguém consegue entrar em nossa mente e nos incitar a algo. Resposta: porque o que ela diz já está em nós. Por vezes latente, até mesmo sufocado. Então, qualquer inimigo que descubra nossa fragilidade, pode se valer dela contra nós. 

A grande maioria das obsessões não insere dados novos em nossa mente. Elas resgatam fragilidades, e as colocam em evidência. Quanto mais santinhos nos achamos, pior para nós. Não estamos enxergando a debilidade que se esconde no peito. Importa conhecermo-nos profundamente - potências e falhas - se quisermos crescer e vacilar o menos possível. 

Homo sapiens demens. Assim deveríamos nos reconhecer. Somos contraditórios. O que nos separa de alguém que perdeu o juízo é uma certa quantidade de passos. 

A tradição judaico-cristã aconselha a humildade com veemência. Devemos nos reconhecer pequenos. Por vezes ela é mais intensa e aponta nossas chagas, seres pustulentos. Só assim é que nos abrimos para caminhos de redenção. Tanto mais Deus se faz presente quanto mais estamos afastados Dele. Para encontrá-Lo não basta reconhecer que Ele existe, mas que você está sem Ele. 

Não é à toa que encontramos isso ao final do "Pai Nosso": "Não nos deixeis cair em tentação". Pois somos instáveis e passíveis de queda. Precisamos de Ti. 

* Leia também: "O deus em mim"

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

(Parte 2) Diálogo com um jovem pensando em suicídio



[Do diálogo passado ele filtrou que eu houvera ratificado seu estado de desconectado do mundo. Assim vinha sendo a maior parte de nossos diálogos. Eu falava um mundo de boas coisas, ele ouvia o local que mais se afinava com a depressão. Voltou a me procurar.]

Estou perdido. Me ajude. Não sei para onde ir. Não faz mais sentido nada do que vinha fazendo. Não vejo sentido em fazer qualquer outra coisa. 

Preciso que você tenha pelo menos alguma esperança antes de lhe orientar qualquer norte. Como está seu tratamento médico? 

Estou em uso de quatro drogas. Já estou mesmo em eletrochoque e não vejo melhora. 

Nada? Nenhuma mudanca sequer?

Pra falar a verdade - tenho até vergonha de confessar - antes, acordar para mim era um suplício, porque acordava mais um dia de nada a melhorar. Nos últimos dias (já se foram seis sessões de eletrochoque), uma nesga de esperança reacende ao amanhecer, mas me vem um medo de dar tudo errado, e me vem uma angústia de que, melhorando, as pessoas que cuidam de mim me abandonem. 

[Esqueci de dizer para ele que vi nessa fala três sinais de melhora: 1. a esperança; 2. o reconhecimento de que é cuidado; 3. o medo de perder as pessoas. Dias antes havia dito que tudo lhe era indiferente como parte de sua síndrome de desconexão do mundo.]

Amigo, sei que pode parecer difícil, mas cada vitória tem que ser festejada, por menor que seja. Sua mente veio sendo esmagada pela ansiedade da vontade do mundo. Essa vontade traz um passado que pesa e um futuro que cega. Permita-se viver hoje. Lembra-se da prece do Pai Nosso? "O pão nosso - de cada dia". Permita-se recomeçar hoje e esteja aberto, seja grato - por cada dia. 

Meus pais querem que eu retome tudo e venha a ser o que eu vinha sendo. Mas, tenho ódio do que eu vinha sendo.

[A automutilação a que vinha se submetendo, cortando-se em partes não letais, parecia ter três motivos: 1. sentir que ainda podia sentir alguma coisa; 2. mostrar que odiava a si mesmo; 3. punir-se por tudo o que estava acontecendo. Perguntei se também era uma forma de maltratar seus pais. Ele me disse que não.]

A tradição cristã (e não só ela) nos dá uma perspectiva extraordinária dos renascimentos. Todo convertido tem seu passado esquecido, ganha um novo nome, para recomeçar a vida redimida. O Espiritismo revela que isso acontece mesmo entre vidas: esquecer o passado, ganhar novo nome, recomeçar nova vida. O que vinha sendo a sua vida era odiável? Recomece, pois! Quando suas forças renovarem, Deus permitirá que o passado volte para que dê conta dele. Mas, então, será um outro homem, mais forte, mais sábio, enfrentando o homem velho. 

Sobre seus pais, parece que vem chegando a hora de você se tornar homem e ter suas próprias decisões, arcar com o seu sim-sim-não-não. Digamos que esse enfrentamento te custa ainda muita energia. Então, calma, respira fundo, recomponha-se, persista no tratamento, e seja grato pelo "pão nosso - de cada dia". 

Às vezes penso que eu vim errado pro mundo. Que sou um erro. 

Atualmente, duas grandes visões dominam nosso horizonte ocidental: o Grande Deus Todo Bom e Todo Sábio e o Nada sartreano. O primeiro não comete erros, o segundo não gera nada. De um jeito ou de outro, não há como você ser um erro. Ou você não encontrou seu caminho ainda (o caminho certo que Deus reservou para você), ou você é o autor do seu próprio caminho. De todo modo, a busca de se encontrar é a mesma. 

Diálogo com o Espírito que o induz ao suicídio


Parte de sua sombra está esmaecendo. O garoto entrevê esperança ainda que distante. Queria pedir para não se enfurecer com isso. Da mesma forma que ele pode emergir das trevas, você também pode. 

Vamos pensar no depois. Ele morre e se torna seu subjugado. E depois? Você o tortura de mil formas físicas e verbais. E depois? Você o joga no deserto das aflições para que aves de rapina o devore. E depois? 

Em ele sendo imortal, cai-se no tédio. Depois dele, haverá algum outro na sua lista de caçados? Que qualidade de felicidade é essa sua que se ergue sobre a infelicidade alheia?

Desejo que o manto do ódio que encobre sua visão também esmaeça e que você passe a ver, ainda que distante, a plenitude da vida para além destes mesquinhos acertos de conta.

Deus aceitaria um demônio em seu Reino?

Um demônio não, mas você, um filho temporariamente equivocado, certamente. 

* Texto baseado em um conjunto de diálogos com pessoas em sofrimento atendidas ao Lar Espírita Chico Xavier.


domingo, 23 de outubro de 2016

Diálogo com um jovem pensando em suicídio



Sinto-me deslocado. 

Essa sua sensação de já não estar entre nós, ver tudo passando como um filme chato, seus sentimentos ilesos ao que acontece conosco, é parte dessa verdade de que você é um Espírito para além deste corpo. Seu Espírito parece estar deslocado. O corpo emite sinais ao Espírito distante.

Se isso fosse apenas um vôo, te pouparia da minha fala. Mas, se anda gerando vontade de morte, não posso me abster de tentar te convencer do contrário. Toda vontade de morte é doença. Precisamos ir em busca do que te devolve vida, potência de existir.

Por que insistir em mim? 

Conheço seus familiares. Estão aflitos. A aflição em perder alguém é uma das formas de amor. Um amor que se acalma com a presença do ser amado. Sofre com a distância. Há, de outro modo, nas nossas crenças (e na comunicação dos Espíritos), a ideia de que não é boa coisa tirar deliberadamente a vida. O estado de alma depressivo se perpetua depois da morte. Esse inferno na consciência permanece e queima na pele do Espírito como se estivesse em carne viva.

Por que Deus fez um universo com sofrimento?

Não sei. Sério. Não sei. Ainda não consegui entender completamente a cabeça de Deus. E, sinceramente, não sei se conseguirei nos próximos dias. O universo que Deus fez é este aí que estamos vendo. Há belezas estonteantes que a sua visão cinza atual não enxerga. E há a feiúra que sua visão acizenta mais do que deveria. Queria te convidar a pintar os olhos. Não se pode colorir a feiúra, mas há quem peleje por saná-la. Agora não. Mas, podemos vir a ser destes últimos, um dia.


Diálogo com o Espírito que o induz ao suicídio


Você não aparece. E se mistura nos pensamentos do rapaz como se fosse os dele. No início até poderia se distinguir, mas hoje a relação que você conseguiu construir é tão emaranhada que o pobre pensa serem uma só e a mesma pessoa.

Não posso te censurar. Sinto que vocês dois se amaram muito em outra vida. Um amor traído, não foi? Hoje virou vingança. Ainda é amor, não é? Mas, adoecido. 

Se ao menos ele acreditasse em reencarnação e que os Espíritos podem atuar em nossa vida, eu poderia convencê-lo a lutar contra você ou te perdoar e pedir que se pacifique. Mas, não acredita, e pensa que tudo o que chega no coração vem dele mesmo. Sente-se mau por pensar em se matar, em se cortar, em se intoxicar. E ser alguém mau o fere ainda mais do que a faca. 

Por que Deus permitiu que nós nos reencontrássemos e déssemos seguimento a essa simbiose de morte? 

Suponho que Ele queira ver os filhos se entenderem. Que os nós sejam desatados por nós. 

Vê. Você não é um demônio. É apenas alguém precisando ser amado. E será. 

(Continua)


* Texto baseado em um conjunto de diálogos com pessoas em sofrimento atendidas ao Lar Espírita Chico Xavier.

  




segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Jessica Jones, Killgrave e o Espiritismo




Jessica Jones é um dos heróis da Marvel partícipes de um mundo que tenta se reconstruir da grande invasão alienígena que deu origem aos Vingadores. Embora a estrutura de herói contra vilão se mantenha, a densidade psicológica dos personagens vai além do que costumamos nos deparar, e os conflitos existentes dentro do herói dão ao personagem uma riqueza cujo caos é mais fácil de encontrar na vida do que aqueles modelos de mocinho à antiga. 

Vim aqui falar do primeiro inimigo veiculado para série criada pela Netflix-Marvel: Killgrave. Por uma experimentação feita em seu próprio corpo, esse vilão passa a ter a habilidade de controlar as pessoas com um simples comando de voz. O interessante é que todos os que passam pela experiência de ter sido controlado por ele o fazem a partir de uma vontade que as compele, mas em conflito com outra vontade - irrisória - de não querer obedecer. 

Em certo momento, o grupo de pessoas que foi instado a fazer o mal sob o domínio dessa força incontrolável acaba deixando escapar que, talvez, no fundo haja aquela vontade em si, motivo pelo qual houve a possibilidade de ela se instalar em seus atos. 

A associação que gostaria de trazer para essas intrigas psíquicas é a da obsessão (influência nociva de um espíritos obre outro). Aqui ilustrando bem o que seria a subjugação. Kardec a define assim em O Livro dos Médiuns: "A subjugação é uma constrição que paralisa a vontade daquele que a sofre e o faz agir a seu mau grado. Numa palavra: o paciente fica sob um verdadeiro jugo."

Na subjugação a vontade do indivíduo é como que paralisada. Portanto, quando uma obsessão chega nesse ponto, sempre a cura deve vir com a intercessão de um agente externo: o passe (quem é a imposição de energias que tentam provocar o desenlace do jugo do obsessor) e a doutrinação (que é a tentativa de fazer com que o obsessor deixe de protagonizar esse jugo). A água fluidificada e os remédios da psiquiatria agem todos como o passe. A terapia aqui, que seria "a doutrinação" do paciente, age no intuito de fortalecer sua vontade contra a do obsessor, e, nesse caso, é de pouca valia. 

Vê-se todos esses elementos em Jessica Jones. Ela é o agente externo terapêutico necessário. Sua força atua sobre os subjugados a fim de afastá-los da consciência dominada por Killgrave. A sua fala em busca de trazer à lucidez seus amigos é quase vã. 

O Espiritismo nos faz perceber que nada acontece por acaso. Toda ligação, por mais tenaz e atroz que seja, possui uma razão de ser na história dos envolvidos. Toda relação é a tentativa de desatar nós anteriores. Elas findam por encontrar termo quando o reequilíbrio dos sentimentos se restabelece. Por vezes, não é possível que isso aconteça na mesma vida, mas depois da morte o caminho educativo e restaurador prossegue com ainda mais agudez, já que é quando as consciências estão desnudas do peso da matéria, a culpa se torna mais viva, e as leis do Criador, adormecidas em nós, acordam, acalmando os que fizeram boas escolhas, esmagando em remorso os que insistiram no mal, para depois fazê-los renascer em caminho de reparação. 

Sempre nos deparamos, nessas história dos super-heróis que querem fazer justiça com as próprias mãos, com a ausência de fé em uma justiça superior e na descrença de que haja um controle bom do cosmos. A pergunta que não se cala é: se eu tenho o poder de parar este mal, por que não fazê-lo? Até que ponto Deus, com essas habilidades que tenho, não me fez o instrumento de Sua própria Vontade para por um fim nisso? Deixo um pouco essas questões para serem trabalhadas em breve. 
  

sábado, 1 de agosto de 2015

Naruto e o Espiritismo: Sobre as ovelhas negras



Bem que me alertaram para não demonizar tanto assim o Gaara.

Esse menino, inimigo quase de todos, que tinha como lema "amar apenas a si mesmo" e "preciso matar para me sentir vivo", ao final de uma grande batalha contra Naruto, revela que assumiu aquele comportamento destrutivo, reagindo ao seu próprio povo que o queria destruir. Assim como Naruto, ele escondia dentro de si um demônio que, nas situações de perigo, o protegia para lhe manter vivo, seu hospedeiro.

Abstração feita de todo o contexto de lutas sangrentas, bem no estilo das histórias de samurai, podemos ver o mesmo desfecho de todos os grandes casos de pessoas na nossa família que demos para chamar de obsediados em Gaara. A sua história era marcada pela perseguição daqueles que queriam vê-lo extinto da existência, por considerá-lo perigoso. O amor que poderia curar a sua ferida no coração nunca lhe foi endereçado por mais ninguém depois da morte de sua mãe.

Gaara era mau? Não foi essa a questão que dominou Naruto ao se deparar na batalha final com ele. Mas sim, eu poderia ter virado Gaara se não tivesse tido amigos que se sacrificaram por mim em vez de quererem me sacrificar? Foi assim que Naruto encontrou mais força na motivação do amor que Gaara conseguiu encontrar na do ódio. 

Pode prestar atenção: em qualquer romance espírita, a solução não é a punição do mal, mas a conversão de nosso olhar em compreensão de todo o mal que se passou, bem como o acolhimento dele dentro de nós. O amor cobre a multidão de pecados. 

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Diabolos: um ser histórico

O catecismo da igreja católica reconhece o diabo como uma entidade devotada ao mal. Sua profissão de fé é afastar, por sedutoras artimanhas, os indivíduos comuns de Deus. Sua existência faz pensar que o mal como absoluto seria possível. Mas, como o absoluto é só Deus, o mal seria apenas uma revolta cujo fim é inevitável, se não previsível. 

Fora dessa ordem de divindades, trazendo as conseqüências dessa cosmovisão para o cotidiano, entende-se por ato diabólico o que abraça o mal como projeto. O diabólico não é qualquer mal ou erro, é ter a maldade como meta. 


Era o que víamos no nazismo, por exemplo. É o que os militantes do movimento anti-manicomial pretendem ver nos psiquiatras, os marxistas nos empresários, os sem-terra nos latifundiários, as feministas na sociedade patriarcal, os pesquisadores das ciências humanas nos cartesianos, etc. Os espíritas nos obsessores. Sempre o adversário é o maligno. 

Nunca é tão simples assim. Essa visão é suspeita porque extremista. Por trás de cada ação histórica há seus condicionantes que servem de atenuantes e nos dispensam do julgamento ácido, embora não de qualquer julgamento. O direito de buscar a justiça permanece ileso, mas não a vingança, não o ódio. E é o que constantemente vemos nessas intrigas de opostos. 

Se começássemos ressignificando a mitologia que origina toda essa forma de pensar, a do Satanás, poderíamos ter mais lucidez nessas variantes. Começo então o exercício dessa revisão sobre o mal personificado:

Não há um ser devotado ao mal. Todos somos sujeitos ao erro. As condições históricas delineiam as necessidades da época, esclarecem a ignorância de então. O tempo muda e os pensamentos com ele. Cedo ou tarde, com mais ou menos lutas, mas sempre com trabalho incessante, o diabolos em nós deixa de fazer sentido e desaparece de nosso espírito feito órgão vestigial. Essa transição pode ser mais ou menos cruenta, dependerá das virtudes que tenhamos podido angariar. 

sábado, 31 de janeiro de 2015

Curar é assumir os demônios das pessoas



Tive um pesadelo dias desses em um plantão. Pacientes começavam a chegar ininterruptamente trazidos pelas ambulâncias, sangrando muito, com cortes grandes. Mas, o pior deles estava com uma úlcera na zona axilar, por onde tínhamos acesso ao pulmão, que estava completamente enegrecido e se desfazendo. Sem dor e sem anestesia, conseguíamos retirar os arcos costais anteriores, e a paciente viva. O pulmão se desfazia necrosado em uma pasta gelatinosa que um dos estudantes que nos acompanhava inventou de provar um pouco para tentar reconhecer o tipo de câncer que estava a nossa frente. Isso fez com que um edema de glote se instalasse nele. Foi só então que eu, até agora sob controle das minhas emoções, comecei a me desesperar. 

- Não podemos deixar esse rapaz morrer! - acordei. 

É que só naquela noite, em vigília, havia atendido dois edemas de glote. Graças a Deus (e a adrenalina) os consegui sanar. 

A nossa concepção de cura é que sanar um paciente é devolvê-lo a normalidade fazendo desaparecer o mal. Desaparecer, esfumaçar, virar nada, extinguir, exterminar. 

Não é assim que o antropólogo Mauss entendia. Estudando sociedades tradicionais, em que vigia a medicina xamânica, via que as doenças eram consideradas espíritos que muitas vezes o xamã trazia para si, fazendo-os se manifestar em seu corpo, e nele os aquietando. 

No espiritismo funciona assim, também. As doenças que são tidas de difícil cura pela medicina oficial são trazidas para nós. Constatamos, nas mediúnicas, que se não é um Espírito provocando diretamente a doença, o é facilitando o processo patológico. 

O que a hipótese de Mauss e a concepção espírita tem a nos dizer, a nós médicos, independente de acreditarmos ou não em espíritos, é que a doença não desaparece. O curador parece deslocá-la de lugar ou compartilhar o mal para que ele pese menos sobre o doente. 

Dividir a doença com o doente, é isso o que acontece conosco, curadores e doentes, mesmo de forma inconsciente. Fica sempre um pouco da dor do paciente em nós. Foi isso que um professor de psiquiatria disse para a gente após um turno de atendimento:

- Vê! Não suturei, não interpretei radiografias, não peguei veia nem intubei ou massageei ninguém. Mas, ouvir todas essas dores me esgotou demais. 

E ele sai do ambulatório encurvado como se carregasse o peso (os demônios) de muitos. 

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Continuando o diálogo sobre Obsessão Espiritual com os médicos



Em resposta a nossa postagem sobre obsessão espiritual, o Dr. George Magalhães partilha a seguinte experiência:


Anos atrás, conversando com minha psicanalista sobre estes aspectos, os limites da medicina, ela me contou esta história que se passou com um psicanalista amigo dela em outra capital. Ele, com alguns pacientes que não conseguiam sair do canto - uma análise emperrada, como se um algo existisse que não percebesse - ele tinha um amigo médium de um centro espírita. Perguntou a este amigo se não poderia ver alguns destes poucos e intrigantes pacientes. Como psicanalista, não tinha crença alguma, mas tinha a curiosidade. O seu colega médium se dispôs a ver os poucos casos no centro espírita e, de fato, alguns analisados estavam obsediados e passaram a melhorar e entrar em análise após alguns passes. Mas, o incrível é que alguns pacientes foram devolvidos com uma pequena carta: "Amigo continue o tratamento deste paciente, seu caso não é daqui, não está obsediado." Minha psicanalista disse-me que o amigo dela lhe comentou que era verdade, estes pacientes depois de algum tempo ou haviam melhorado ou haviam tido necessidade de farmacoterapia.


Uma pesquisa empreendida em 2004, por Frederico Camelo Leão (acesse aqui esta pesquisa), havia realizado experiência semelhante à relatada pelo nosso professor, jogando em cima alguma análise estatística, concluindo, com certa significância, a melhora clínica e comportamental dos pacientes em comparação com quem não havia sido submetido à intervenção.


A coisa é revolucionária! Você pegar o nome de pacientes, colocar em uma mesa mediúnica alheia aos casos abordados, e nela serem construídos diálogos que apaziguam entidades espirituais que possam estar comprometendo a saúde deste ou daquele sujeito - minha nossa! Não é uma hipnose que se aprofunda no inconsciente do indivíduo no divã a fim de mexer com seus traumas recalcados. Nem muito menos uma sessão de terapia que visa mexer com esses traumas pelas vias do fortalecimento da consciência. É como se você pegasse estes traumas, arrancasse dos indivíduos, levasse a um círculo mediúnico e começasse a falar com eles intermediados por outro corpo que não o do paciente. Entendeu? Seriam Traumas com T maiúsculo, portadores de identidade e materialidade (até onde se pode usar essa palavra?) próprias, independentes do aparelho psíquico original do "caso" em questão.


Platão falava da realidade substancial do Bem, do Belo, da Verdade, como se fossem entidades que você pudesse ver, tocar, abraçar, cheirar, beijar quando tivesse elevado seu espírito à altura do Mundo das Ideias. Falamos aqui de Traumas, Violências, Vinganças, Ódios, como se fossem entidades com quem você pode dialogar intermediadas pelo corpo de uma pessoa em transe. Os poetas, como Homero e Hesíodo, na Grécia homérica, eram tidos como intermediários dos deuses. Seus poemas, como mensagens. Muitas vezes, dava-se menos importância ao homem do que à sua fala que, todos acreditavam, estava vindo de uma musa, e ele, mero mortal, não era mais que um gramofone.

Hipócrates, por exemplo, contra essa mentalidade mitológica e antecipando assustadoramente a mentalidade moderna, dizia: "Na minha opinião ela [a doença sagrada - imposta pelos deuses] não é nem mais divina nem mais santa que qualquer outra doença tendo, ao contrário, uma causa natural, sendo que sua suposta origem divina se deve à ignorância dos homens."


Mas, o professor acha incrível que os Espíritos coordenadores das sessões mediúnicas tenham devolvido alguns casos, alegando não serem questões de obsessão. Pode ser incrível para os muitos espíritas que culpam os pobres dos Espíritos de tudo o que acontece na vida deles. Todavia, a nossa modernidade se fundou sobre a rejeição do mundo dos espíritos, do sagrado mediúnico, da Natureza portadora de alma, devolvendo os casos antes considerados espirituais para a ciência da natureza material. Na verdade, para os modernos, a resposta do Espírito não passa de sensatez.

"A Interpretação dos Sonhos" de Freud havia sido revolucionária exatamente porque rejeitava o viés profético-místico da mensagem onírica a favor de uma mensagem que partia da própria pessoa, mensagem subliminar, criptografada, exalada de seus calabouços psíquicos onde muita coisa rastejava em sussurros. Ele insistia na imanência dessa mensagem na história do próprio sujeito em detrimento da transcendência da mesma vindo de deuses ou demônios. O que era revolucionário para a época não passa de senso comum dos nossos dias.

Incrível mesmo, olhando o fenômeno com minha face moderna, é estes pacientes terem melhorado diante da simples dedicação de algum punhado distante de médiuns reunidos a fim de ajudar nestes casos. Eu acharia isso, na verdade, um tremendo absurdo, se eu já não tivesse me convencido de que é verdade.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Médico Generalista me pede esclarecimento sobre Obsessão Espiritual



MÉDICO: Olá, Allan. Ontem atendi uma paciente que me deixou encucado.

Idosa, com depressão de longa data, vem à emergência com agitação aguda mal caracterizada por seus familiares. Como ela já estava em acompanhamento psiquiátrico apenas solicitei alguns exames e prescrevi um tranquilizante. Mas, o que me deixou encucado foi o motivo da agitação que a idosa disse, de forma bem clara, detalhada e consciente, entre  uma "crise de agitação" e outra:


Que estava sendo perseguida e possuída por dois espíritos malignos; um era de um velho sujo e o outro era de um louco, que não saía de perto dela.


Sabe me dizer algo sobre a relação entre doenças psiquiátricas e o espiritismo?


ALLAN: Partindo da cosmologia a que me filio, os espíritos dos seres humanos sobrevivem à morte e apresentam uma vida paralela a nossa que mantem contato constante através da comunicação e influência via pensamento, que não está limitada ao corpo físico, mas se irradia pelo espaço.


O indivíduo não muda da água para o vinho. Continua com os mesmos projetos e anseios de antes. Se ele apresentava projetos ligados a assuntos espirituais, mais fácil será de ele se engajar nalgum projeto que envolva a ajuda para as pessoas encarnadas encontrarem o caminho do espírito, da sabedoria, da iluminação - a vitória sobre as angústias da vida. Se foi muito apegado aos afazeres materiais e à mera sobrevivência, terá dificuldade em se engajar em algo que não seja material e, diante da liberdade e invisibilidade relativas, poderá se dedicar a projetos odiosos que podem prejudicar muito os encarnados.


A vingança é um deles.


E a maioria do que chamamos de obsessão* nasce de relacionamentos quebrados que o espírito desencarnado entende merecer vingança.


MÉDICO: Como cuidar disso?


ALLAN: Tem que cuidar dos dois lados. Nos centros mediúnicos espíritas, os espíritos perseguidores devem ser esclarecidos. Nas sessões de terapia, a pessoa perseguida deve ter suas fragilidades psíquicas trabalhadas a fim de que tenha mais segurança em se conduzir sem eles. Por vezes há uma simbiose doentia entre ambas as partes formada por complexos de culpa e inferioridade.


É como se ela não quisesse ficar boa!


Os antidepressivos têm a função de ajudar a pessoa a se abrir para novas perspectivas que a terapia há de conduzir. Os antipsicóticos, de diminuir no cérebro a conexão entre perseguido e perseguidor permitindo àquele mais tempo de sobriedade para elaborar as questões que fortaleçam seu espírito e o permita se libertar dessa simbiose.


Chamo particular atenção à relação simbiótica. Ela é um dos motivos principais pelo qual a pessoa se torna refratária ao tratamento. E Freud não deixa de ter razão ao tentar resolver esses motivos procurando laços afetivos doentios nas relações familiares. Frequentemente a história envolveu mais de um indivíduo presentemente encarnados (temporariamente) naquela família. Daí a importância de muitas vezes resolver conflitos familiares em terapia sistêmica familiar.


MÉDICO: Assumindo que espíritos existam e obsediem (é esse o verbo?) um paciente, como irei diferenciar um simples delírio de influências espirituais não benignas? Gostei bastante da resposta, embora a veja com ressalvas devido ao meu ateísmo.


ALLAN: Veja bem, existe todo um caminho de terapêutica da paciente que independe do tratamento do espírito obsessor. Esse caminho terapêutico é cada vez mais abordado e melhorado pelos psicoterapeutas e psiquiatras. A princípio, deve-se investir nesse caminho para todo mundo, obsediados e portadores de delírios não-obsessivos. O mecanismo da obsessão é, no fundo e grosso modo, o mesmo para qualquer sofrimento psíquico: a culpa, o remorso, a mágoa, a deseperança, a negatividade. Todos esses sentimentos são os que o filósofo Espinoza chamava de paixões tristes, ligados a uma forma não-sábia de ver a vida.

O objetivo da terapêutica é criar estruturas interpretativas na mente do indivíduo que o permita sair das paixões tristes para as alegres. Quando não tem obsessor desencarnado no meio, há os "obsessores encarnados" e, sempre, a própria pessoa como obsessora de si mesma. Ninguém consegue influenciar ninguém se não houver uma imagem muito forte do influenciador em si. Explico melhor: se uma pessoa tem sérios conflitos com sua imagem corporal, esse conflito está dentro dela, cultivado por uma história familiar intensa e complexa, relacionado com um passado reencarnatório denso e emaranhado. Nessa cadeia psíquica, a pessoa quase não passa de um barril de pólvora que o obsessor só precisa acender uma faísca perto.


O problema é quando os processos se tornam tão intensos que tudo se confunde. É o que chamamos de obsessão de fascinação e a de subjugação. É como se o influenciador tivesse uma força de influência para além de qualquer possibilidade de defesa do indivíduo. Aí é quando a terapêutica mediúnica, buscando esclarecer o obsessor e convencê-lo de se afastar da paciente tem função primordial. Sem nunca deixar de lado a terapêutica sobre a própria paciente.


De forma objetiva a resposta é: não precisa se preocupar em diferenciar até que você perceba que o caso é refratário à terapêutica habitual. Na verdade, essa é a situação em que a maior parte dos psiquiatras começam a duvidar da sua teoria maternal e vão a procura de outras abordagens, entre elas, a espírita.


MÉDICO: Bem interessante realmente. Suas respostas são tão boas que geram centenas de dúvidas. Acredito que é uma forma de abordagem bem completa e complexa, embora também bastante cômoda, já que, num primeiro momento, ela se isenta da responsabilidade sobre o paciente e não interfere em conceitos e tratamento já estabelecidos. Mas, assumo minha ignorância. Não sei o bastante sobre a psiquiatria nem sobre espíritos, muito menos suas relações passadas ou vindouras com os viventes.


ALLAN: Muito bom a parte do "bastante cômoda". Você tem razão! Mas, isso tem muito de mim que tive de tentar, nestes anos imersos na faculdade, de conciliar o Espiritismo e a Medicina materialista na minha cabeça, para não explodir meu coração. Talvez se eu fosse um militante mais radical e tivesse uma prática psiquiátrica que desse suporte aos meus estudos, eu seria mais contundente e defenderia uma prática espírita mais presente em todos os âmbitos da saúde mental.


MÉDICO: Nao acredito em espíritos. mas reconheço q a psiquiatria nao explica tudo. Na verdade, nem a metade. Ou pior. Explica o dobro… [ironia sobre o fato de às vezes a psiquiatria inventar teorias demais sem resultados concretos]
Boa noite, Allan. Muito obrigado. Fico feliz mesmo por tuas respostas. Abraço.

ALLAN: Abração!


* Obsessão, em espiritismo, é a relação patológica entre um Espírito ainda animando um corpo material, que denominamos de encarnado, e um Espírito desencarnado. Ela é patológica porque, no comum dos casos, o desencarnado insiste em influenciar negativamente o encarnado através da sugestão persistente de pensamentos e atos prejudiciais à vida moral. Dizemos obsessão simples quando o encarnado ainda mantém seu juízo crítico e entende estar realizando atitudes e tendo pensamentos que não são de sua índole; obsessão de fascinação, quando este juízo crítico se esvai; e subjugação ou possessão quando o domínio sobre o próprio corpo está comprometido.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Todos somos filhos e filhas de Deus, entendeu?




Aqui finalizo a crítica sobre a teoria do demônio, mostrando o posicionamento espírita. De tão simples parece ser ridículo. Mas, as melhores respostas são as que precisam de menos artifícios para explicar um fenômeno. Aliás, a melhor das respostas é a que faz mais homens de bem. 

Deus é uno, criou o universo e tudo o que o move, todos que nele habitam. Da sua perfeição infinita, nada de imperfeito pode sair. Da sua bondade, nada de mau. Não existe um ente devotado a perverter os homens. A liberdade é a única que provoca desvios do caminho. Cada Espírito, atingido o grau de poder escolher, é responsável pelo seu próprio desvio. 

Somos influenciados por tudo na vida. Mínimas coisas, não necessariamente pessoas, nos estimulam aos mais diversos atos. Então, devemos parar de culpar A ou B pelo o que acontece conosco. Estamos com as rédeas nas mãos. Quanto mais senhores de nós mesmos, mais donos da nossa condução. Quando provamos o contrário, isto é, que a nossa direção é perigosa, ora Espíritos bons nos tomam as rédeas, ora nos deixam cair. 

Essa história de seres devotados ao mal é uma ilusão... deles! Um dia acordarão das trevas em que chafurdam e seguirão o caminho de todos os sábios: o do encontro com Deus. Mas, a vida cósmica é realmente um grande ecossistema. Uns sobre os outros agem e reagem. Pronto, é isso! Ação vai, ação vem. De tal forma que esse sistema vai entrando em equilíbrios múltiplos e progressivos rumo ao Pai. Quando isso vai se dar, Jesus o sabe! Os elementos que não acompanham a carruagem, são descalonados para outros sistemas em estágios inferiores de equilíbrio. A discrepância entre o que se estava acostumado de bom e a brutalidade, haja vista, rigidez e pouca criatividade da nova condição, é uma dura prova, dói, incomoda. Mas, passa. Tudo passa e prossegue rumo ao Autor de todas as coisas. 

Há quem diga que só podemos ser considerados filhos de Deus quando aceitarmos as Suas condições de existência, o que vale dizer, curvarmo-nos diante das Suas leis, melhor dizendo, dançarmos segundo a Sua condução. Até lá somos meras criaturas. Isso é uma visão mesquinha que só tem sentido olhando do lado de quem se humilha, de quem não entende o lado do Amor. A parábola do filho pródigo é pródiga na descrição do Amor do Pai. Desde quando ele considerou aquele que pediu a própria herança e a esbanjou como filho? Desde sempre! Desde o início! Desde mesmo ele nem ter nascido! Quem já teve um filho sabe o que digo. Eu ainda nem o tenho em meus braços e sinto essa verdade.

Pois bem, preenchendo as reticências que deixei na postagem anterior temos que para os filósofos gregos, particularmente os socráticos, vencer o mal é uma questão de superar uma ilusão através do conhecimento das coisas. Para a ortodoxia cristã, é um escolher a Cristo e rejeitar o resto - essa escolha é colocada a prova a cada segundo, pelo tal Demônio, Satanás, etc. Para o espírita, não deixa de ser a busca do conhecimento, mas sempre em meio ao trabalho, nem deixa de ser a busca do Cristo, mas sem esquecer que os maiores desafios que nos afastam do Mestre não estão fora. Definitivamente, não estão. 

domingo, 15 de setembro de 2013

No início era Deus... e Ele só




Estive ausente da reflexão demonológica por uns tempos, porque outras questões me tomavam o espírito. Relembro que introduzi o assunto esclarecendo, em rápidas linhas, a concepção espírita de céu e inferno. Depois, desvendei de onde parece a teologia cristã herdar a figura de Satanás. Agora, localizo onde está o Condenado na concepção cristã oficial. 

Não está no início de tudo. Pois o início se deu com Deus. Daí, a concepção antropológica de Rousseau, no início de Emílio, ser de uma cristandade sem limites: “Tudo está bem quando sai das mãos do autor das coisas, tudo degenera entre as mãos do homem”. Se ele tivesse dito o motivo da degeneração, fecharia a visão cristã: a liberdade e a influência maligna de quem desafia a ordem de Deus. Lembrem que eu disse que diabolos era tudo aquilo que provocava o afastamento do que é divino. Mas, na teologia cristã, há uma personificação desta força centrífuga: o Satanás, o Demônio, o Sete Peles, o Anjo Decaído...

Ele era um anjo, portanto, como bem percebe Rousseau, um ser bom saído das mãos do Autor das coisas. A liberdade de sentir orgulho o fez despencar da sua altura, manchar a sua alvura. Essa metáfora, digo, este pecado da queda do que, puro, ainda assim quis subir até Deus é conhecida pelos hebreus:

“Como caíste desde o céu, ó estrela da manhã, filha da alva! Como foste cortado por terra, tu que debilitavas as nações! E tu dizias no teu coração: Eu subirei ao céu, acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono, e no monte da congregação me assentarei, aos lados do norte. Subirei sobre as alturas das nuvens, e serei semelhante ao Altíssimo. E contudo levado serás ao inferno, ao mais profundo do abismo.” (Isaías 14:12-15)

Dizem outras línguas que a criação de Jesus, também no início dos tempos, como mediador salvífico da humanidade, provocou a inveja neste ser de que vos falo. Como que em um movimento dialético, a criação do mediador da salvação gerou o mediador da perdição. No meio dessa mesa de ping-pong, o homem. O movimento de sua alma corre segundo o fluxo da própria vontade contra ou a favor dos ventos que sopram para os lugares antípodas da salvação. 

Perceba as semelhanças e diferenças com a mitologia grega. Dioniso era um deus lindo, mas devotado ao prazer, a concupsicência. Não foi sua culpa ser assim. Desde sua fecundação, ato de traição, até a sua gestação, perto do sexo plural de seu pai, tudo o impelia ao que ele era. Não houve queda de Dioniso e, mesmo os homens, não cometiam realmente pecado ao estar nas dionisíacas. Eram mais ou menos brinquedos desse deus. Aliás, Dioniso não era devotado a perverter o homem. Ele vivia sua vida libidinosa porque essa era a sua forma de viver. Quem o seguisse que agüentasse os gozos e os desmandos desse deus. Já Lúcifer não foi criado mau, mas caiu! Tudo por causa de uma vontade mau direcionada, uma liberdade pessimamente utilizada. Essa questão da salvação ligada à liberdade traz consigo a genealogia da culpa e do mérito. 

Na cosmologia judaica-cristã, parece haver um certo antropocentrismo. Deus cria o homem... o perde. Gera o meio da salvação... a perdição vem no encalço. Tudo ao redor do homem. Que o destino último seja a reconciliação com o Criador, portanto, um teocentrismo, não impede percebermos que essa história faz gravitar uma constelação de missões sobre-humanas (a de Jesus, a de Satanás) ao redor do mísero ser humano.  Seríamos mesmo tão mais importantes que o resto da criação para merecermos tanta atenção? Ou seríamos apenas mais uma vida de uma Grande Vida?

Algumas dúvidas preenchem o escuro deste espaço, entre as mais adoradas estrelas: (1) Se Deus é acima de todas as coisas e, no início, era apenas Ele, o mal deve ser algo extremamente relativo e, naturalmente, temporário, não? (2) Por que a necessidade de uma intermediação, pro bem ou pro mal? Rousseau, no mesmo Emílio, criticava: “Quantos intermediários entre mim e Deus?!” (3) Tudo partindo de Deus, o Bem supremo, como é possível o mal em qualquer escala na humanidade? Se o mal inexiste, tão pouco existe a missão satânica, e quem a pretende cumprir é um grande iludido. (4) Por que Deus permitiria essa ilusão?

Vencer a ilusão: tema grego. Vencer o arrastamento ao mal: tema cristão. Vencer...: tema espírita. Preencher estas últimas reticências é a que me dedicarei na próxima postagem sobre este assunto.  

domingo, 16 de junho de 2013

O Inimigo que Muito Ama


Vou fazer um comparativo das três formas de pensar o demônio: a mitologia grega, a teologia cristã e o ensino espírita. Essa abordagem é a mesma de Kardec. Quem quiser ter mais propriedade sobre o assunto é só consultar o livro O Céu e O Inferno.

Na mitologia grega, os demônios que conhecemos hoje, via mentalidade cristã, faziam parte dos descendentes do Caos, de Urano e de Gaia, que são os deuses originais. Desproporcionais, disformes, destruidores. Detalhe importante é que o amor Eros e a sensual Afrodite participam desse início. Bem se vê que os gregos tinham lá a perspicácia de ver o amor desejante como um promotor da desordem. As erínias eram filhas do sangue do Urano, jorrado a partir de seu sexo cortado pelo próprio filho, Cronos, sequioso de vida ao ar livre. Elas nasceram da traição e se tornaram perpétuas vigilantes contra esse tipo de pecado no seio das famílias. Criaturas terríveis, horrendas, com poderes dilacerantes.

Houve uma guerra entre os descendentes mais próximos do Caos e os filhos de Cronos, um pouco mais civilizados. Dessa guerra originou-se o Cosmos como o conhecemos hoje: hierarquizado, matematicamente organizado. A ordem era mantida pelos deuses vencedores, habitantes do Olimpo.

Havia um deus que mais se parecia com o diabo que nós conhecemos. Não era Hades, ao contrário do que muitos pensam, que cumpria bem a sua missão de reger o mundo dos mortos, independente se estes eram justos ou injustos. Mas era Dioniso, que vagava pelas cidades da Grécia com um conjunto de sedutoras mulheres, promovendo festas carnais, com tudo o que você poderia imaginar (talvez mesmo desejar!) para o corpo se excitar ao máximo, as dionisíacas. Chegava ao clímax de haver canibalismo entre os festejantes, tamanha a embriaguez que Dioniso provocava sobre as pessoas. Não é à toa. Dioniso nascera de um conflito enorme. Foi uma traição de Zeus, que engravidara uma humana. Para salvar o filho da morte de sua mãe, provocada por umas astúcia de sua esposa, arranca-o do ventre primitivo e o enterra na face interna da coxa. Dioniso é gestado muito próximo do sexo de seu Pai. E este realmente abusava do sexo, de vez em quando pulando a cerca do Olimpo para fecundar lindas mulheres mortais. O escudeiro fiel de Dioniso, o feio Pã, dará o molde para a pintura do futuro satanás.

O mais interessante é que os gregos não reservavam a Dioniso um lugar junto a Hades, embaixo da Terra, no Tártaro, onde se localizaria futuramente o Inferno cristão. Ele figurava como um dos deuses do Olimpo! Os mesmos deuses da ordem, da disciplina, da concórdia entre os mais diversos poderes. Eis a grande chave para a compreensão do pensamento grego: o equilíbrio entre os poderes. Era isso que permitia a vida. Não sacrificar o que é caótico completamente, pois isto também faz parte do universo. Ora fazemos sacrifícios a Apolo pela sua sabedoria e beleza, ora a Dioniso pela sua liberdade (libertinagem) e presteza (ainda que tenha de se valer de meios escusos para chegar ao intento, o que lhe confere a velocidade das resoluções). Dois poderes do Universo: o brilho do Sol que tudo deixa claro, a noite da Lua que esconde os atos mais sórdidos. Somos filhos do Cosmos, mas netos do Caos. 

Na próxima postagem, falarei um pouco sobre as revoluções que a mentalidade judaico-cristã promoveu sobre esse pensar. Antecipo que os mesmos dois polos de que lhe falei por último se perpetuarão. Claro! É sobre o que há em nós que estamos falando. A mudança de perspectiva é que um deles já não poderá merecer adoração, pelo contrário. E o Outro se elevará a mais alta potência, a princípio sendo a Ele dirigido o medo, isto é, o respeito temerário, o sacrifício e o sangue, e depois, o amor ágape (e não mais eros), quer dizer, a graça e o sorriso, o carinho e a boa vontade.

Peço que não se percam. A extensão desta análise é de extrema importância para a melhor compreensão do nosso posicionamento.