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sábado, 25 de novembro de 2023

Confissão

    O meu filho mais velho, atualmente com dez anos, por tradição materna, fará o ritual católico da primeira comunhão. Hoje foi o dia de se confessar para, limpo de pecados, poder comungar em breve. Na semana que passou, ele quebrou o pé e teve que o engessar. Eu que estive com ele no hospital, levando-o nos braços, um garoto de 36 quilos. 

    Uma das coisas que mais me dá raiva nesta vida é não entender a razão de algo. Isso me deixa inseguro, exposto, como que desnudo. A minha vida está cheia de âncoras para não me sentir à deriva, são os meus vários papéis: de médico, de marido, de pai, de irmão. A religião, particularmente a espírita, acalma o terror da incógnita do que há depois da morte, o que houve, o que haverá. Mas vá qualquer coisa do cotidiano sair da ordem que consigo prever, e já me dá um desespero. 

    A perna quebrada do João foi uma dessas coisas. Eu me certifiquei bem, pela descrição dele, pela do professor de educação física, ele estava apenas correndo, e uma corrida leve, apenas para se esconder como pedia o jogo. Então, torceu o pé e fraturou a base do 5º metatarso. Que raios! Isso lá é mecânica de trauma para fraturar nada! Daí me vem a busca pela razão suficiente, e fico remoendo cenários possíveis que me justifiquem o ocorrido. Nada me consola. Porque a alternativa possível é ter sido uma fratura em um osso fraco. E o osso fraco, na idade dele, é uma doença mais grave. Só que até hoje, nunca teve indícios de doença grave em seu corpo. E as divagações seguem seu curso catastrófico. 

    Conseguimos muletas para ele se equilibrar, já que não pode colocar os pés no chão. Todavia, ele não sabe usá-las, não tem destreza. E a carência de explicação misturada com o ter de ficar ajudando-o como a um aleijado, a possibilidade de ser algo mais grave que o deixe dependente por muito mais tempo e o seu desleixo com a muleta vão me dando uma fúria e uma impaciência que me fazem ser bruto com os cuidados com ele. 

    Parte disso é uma ferida que ainda habita em mim da época de mamãe. A dependência dela colocava em perigo a minha independência para seguir em frente a formação do homem que deveria ser. Do contrário, estagnaria como o filho perpétuo, sem casa, sem casar.

    Hoje, esse sentimento não faz mais sentido. Estou de casa e casamento, sou pai, tenho três filhos. Sou médico com os pacientes certos. Por que a insatisfação? É que a possibilidade da doença que deixa o outro dependente de mim traz de volta a quebra da cadeia lógica da vida que gostaria como fosse, o padrão. João deverá crescer e ser independente, ter a própria profissão e me deixar para trás, ganhando o mundo. Isso acontecerá se ele tiver uma doença de ossos frágeis? É uma ameaça à minha vida certinha.

    Daí vem não mais a razão, mas a sabedoria. A vida é certa, mas não para nós. É segundo uma visão da eternidade que o seu arrazoado se faz. Querer encontrar o gabarito antes da morte é uma pretensão diabólica. A verdadeira fé não é a que tem a resposta nas mãos, mas a que aceita o texto que vamos conseguindo ler na medida que caminhos pelas linhas traçadas.

    Ele estava tão feliz hoje entre seus colegas de primeira comunhão. 

    - Você viu, pai! Eles estavam me abraçando!

    Fechava os olhos ao abraçar cada amigo como quem morde o primeiro pedaço de chocolate que há tempos não provava. Passou a manhã sendo cuidado por eles. Sem mais insistir nas certezas, pelo menos no que toca esse incidente, deixo em aberto as hipóteses, acolhendo uma delas como a mais importante: quem sabe Deus não deu à João o sofrimento de um pé quebrado para que ele sentisse o prazer de ser cuidado, para que ele sentisse nos ossos o quanto somos frágeis, necessitados frequentemente de perdão.

    - Perdão, Senhor! Por ser bruto com meu filho quando ele mais precisava, por colocar a segurança da minha razão a frente do consolo de minha criança. 

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

João de Deus: uma chaga evitável



Qual o caso que tenho em mente quando escrevo isto:

- Um médium próximo ao espiritismo* (mas que se dizia católico?) que se dedica à medicina alternativa denominada cirurgia espiritual, internacionalmente conhecido e visado. Cobra certo preço em meio ao processo. Recentemente caiu sobre ele acusações de abusos sexuais, centenas, provindas de todo o Brasil.

Sobre essa imagem, trago de volta os conselhos do Prof. Allan Kardec com minhas palavras.

Centro espírita tem que ser pequeno. Por quê?
- Porque assim as pessoas podem se conhecer melhor, estudar com mais conforto as obras fundamentais para o engrandecimento moral, bem como engendrar um processo de análise das comunicações mediúnicas que receberem com mais cuidado e menos melindre, já que se tratam de amigos. Assim se tem um processo de vigilância que as previne de as discórdias tomarem proporções destruidoras para o grupo.

E se houver discórdia?
- O discordante, se não arrastar a todos pela verdade de sua palavra, funda outro centro espírita além. E se discordar dos pontos tidos como fundamentais na definição do espiritismo, funda novo movimento com outro nome.

É temerário o médium ter um lugar de destaque no centro espírita. Por quê?
- Porque suas comunicações são o objeto de estudo e não o núcleo fundante de novos dogmas. Se ele for o centro, o líder, o sacerdote, quem estará acima dele para criticá-lo, guiá-lo em direções mais sãs? Como saber se o que vem dele é de Deus se sua palavra for a última?

A humanidade precisa do contato com o transcendental pelos mais diversos canais. Médiuns são indispensáveis!
- É verdade. Quando éramos aqueles que errávamos no deserto esperando um profeta, muitos eram os que jogavam prodígios e milagres sobre a população. O profeta verdadeiro se sobressaía pelo seu exemplo santo, esmagado pela sombra de Deus. Hoje estamos em uma sociedade em que todo autor de milagre é glorificado em algum X's Got Talent. A sociedade do espetáculo.

Ainda Kardec: a mediunidade é apenas a entrada da doutrina. Quando se é convencido da realidade do mundo espiritual, devemos partir para as consequências morais.

Mas, os milagres de cura são bem diferentes. Eles são o poder de Deus descendo para aliviar os aflitos.

- Qualquer alívio ou mesmo cura é temporário se não houver transformação moral efetiva. Não é demais insistir: fenômeno mediúnico, qualquer que seja, é apenas ignição.

Pode-se cobrar pela graça distribuída?
- Não, já que é graça. Isso previne o charlatanismo. De onde virá a renda que sustenta o que quer que seja (uma cidade inteira?!) quando a graça da forma que veio, isto é, espontaneamente, desaparecer? Resposta: de fenômenos forjados.

O perigo do exercício da mediunidade à la João de Deus já estava previsto nos primeiros anos de doutrina espírita. O que acontece com um médium que é o foco das atenções de milhões de adoradores?
- Envaidece-se, certo dia suas vestes são rasgadas, revela-se a carne humana, e cai.


sábado, 24 de fevereiro de 2018

Diálogo com um Espírito enfrentando o medo da morte



Por que você não quer partir?

Por tudo que eu construí aqui e por tudo que eu ainda tenho para construir. 

Mas, do outro lado ainda há vida. 

Uma vida completamente nova. Eu queria ficar com os meus. 

Há seus também por lá. 

Pode ser consoladora a ideia de que há uma família que ultrapassa essas nossas vivências na carne, mas as experiências na carne nos marcam de uma forma que parece a ferro e fogo. Você já tentou fazer feliz uma mulher? É a coisa mais difícil que se pode tentar. Nunca se sabe ao certo o acerto. É um jogo de surpresas. Mas, quando se consegue, é prazeroso para os dois. Tanto mais quanto mais difícil. E criar uma criança? Querer o bem dela diuturnamente. Se enfurecer de tanto que ela não segue suas ordens, mas se felicitar por vê-la crescer exatamente nesse processo de te desobedecer, por estar encontrando o espaço dela no mundo. Pois bem, esses esforços que fazemos não dão apenas sentido a nossa vida, dão cor, sabor, textura, substância, nos fazem, necessariamente ter raízes. Depois de todo esse processo trabalhoso, oneroso, vem a morte e quer nos arrancar. 

Mas, você poderá continuar tendo contato com seus amores, mas de um outro modo. 

Que modo você fala? Com a invisibilidade e a intangibilidade próprias dos Espíritos errantes. Teve uma vez que fiquei afastado de meus filhos por causa de um exame que tive de fazer. Haviam me dado uma substância radioativa e orientado para se afastar deles.  Decidi mudar para a casa de minha mãe, para nem correr o risco desse irradiação os fazer qualquer mal. Olhava-os pela câmera do celular. Cheguei até a ir de carro lá, vê-los de longe. O menorzinho só ficava olhando o carro, sem entender porque não estacionava. O maior queria ir para o carro brincar. Para o menor, eu estava invisível, para o maior, intangível. Sabe o quanto isso me feriu?

Esse apego é o que mata!

Esse apego é o que salva, meu amigo. Se não fosse por ele, eu seria mais um perdido nesse mundão. Todo esse esforço por sair de mim, amando, me tornou um ser tão singular, com sentimentos tão próprios, na mesma medida em que ia vendo a singularidade daqueles seres amados para mim. Um dia fiquei com uma menina que se enamorou por certa beleza que enxergou em mim e admirava certa força que via em minha fala. Dias depois ela já estava com outra pessoa. O que eu fui para ela? Mais um com certa beleza e certa força. Todos os dias eu conheço cada vez mais a beleza da minha esposa e a força de meus filhos. Todos os dias eles se tornam cada vez mais especiais para mim, insubstituíveis. Sempre amei meus pequenos com toda a devoção, e se eles tivessem morrido recém-nascidos, eu teria sofrido, como sofri com o aborto espontâneo que sofremos na primeira tentativa. Mas, quando os temos nos braços, vemos saindo de nossos braços, andando, correndo, depois pulando, enfrentando as águas, cada conquista dessa vai tornando-os tão mais especiais que a possibilidade da perda só sinaliza a profundidade da dor que seria.

Melhor seria não os ter. 

Bobagem! Deixa que eu os tenha e que sofra a possibilidade de não mais os ter. Essa é a nossa sabedoria, irmão. 

Sabedoria da dor. 

Sabedoria da vida. A vida que vem com o que tem de bom e de finito. 

Voltando, então, para a tentativa de lhe esclarecer: não é finito. 

Voltando para a tentativa de lhe fazer enxergar: a noção de infinito tem gosto de teoria para quem ainda sente o peso da carne, não consola tanto quanto o cheiro das pessoas que amamos. Consola? Tem lá o seu consolo. E não repreendo você por estar me conduzindo nessa teoria. Devemos nos esforçar para amplificar o amor, mostrar o quanto o túmulo pode não ser o fim. Só a eternidade para dar um sentido para o finito. Só não devemos nos enganar e achar que esse sentimento poderá ser enfiado na consciência de quem vive intensamente a carne. E eu não estou falando de concupiscência ou luxúria, mas apenas de seres sencientes. Ah! Saborear o outro! Quem nunca teve isso no corpo, pouco poderá entender o que falo. Quem se escondeu no deserto para não sofrer me vê falando uma língua estranha. O peso dos corpos sobre o seu noites a fio, até o dia em que você está tão leve e quebradiço que o próprio filho pode te carregar. 

Sua tristeza lhe corrói. 

Deixe de ser criança. Isto é o próprio processo de morrer. Ser corroído até não sobrar mais nada, apenas este Espírito desencarnado que você prega. É doloroso? Sim. É angustiante? Sim. Mas, é também a vida. Todos esses sentimentos que lhe falei fazem parte do corpo do qual vou sendo expulso. Não me arrependo de nada, eis tudo o que é bom! Se as lembranças forem comigo, menos mal. Se eu puder voltar para vê-los, tanto melhor. Mas, faz parte do corpo o apego.  Corpo do pai nos braços do filho: que o pai voe enfim, e o filho o assimile. Eis nossa sina de ser adubo e horizonte, os dois, para os que ficam. 

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

O esoterismo da escola do meu filho



Estou tendo acesso a literaturas esotéricas, principalmente porque meu filho estuda em uma escola cujo fundador da proposta, Rudolf Steiner, foi um alemão imerso nestes conhecimentos. 

O que me encanta na pedagogia é muito do que os tempos pós-modernos estão precisando: menos pressão, mais respeito pelo ritmo da criança, mais arte, mais investimento na sensibilidade, no entendimento estético, mais corpo, mais movimento, mão, suor, sujeira. E, particularmente bem evidente nas obras Steiner, o desenvolvimento do olhar místico, ou simbólico se preferir.

Há toda uma corrente filosófica originada do romantismo alemão que aponta ser o entendimento da vida e das pessoas através do sentido estético o futuro da humanidade. Entenda-se futuro não a utopia ingênua, mas o que é necessário ainda acontecer para conseguirmos apaziguar muitos conflitos atuais - presentes.

O filósofo Luc Ferry, bastante influenciado pelo pensamento alemão, havia dito que a grande questão contemporânea sobre a qual a filosofia mais devia se debruçar era o problema do gosto para era democrática, isto é, de como a arte possibilita um entendimento entre as pessoas por caminho diverso ao da razão. Ora, as grandes guerras mostraram que a razão não parece ser um preventivo ideal contra o totalitarismo. A Alemanha e a Itália eram nações muito cultas. Pelo contrário, parece mesmo favorecer: a razão que quer engolfar tudo, dar conta de tudo, saber tudo, entender tudo, subjugar todos à verdade do Partido. Se o gosto tiver o mesmo poder de permitir entendimento entre os diferentes, seria uma força política mais sã? Permitiria o crescimento sem guerra? Essa é a questão!

Já sou bastante herege por ser espírita para criticar quem quer que fuja da norma católica, mas várias questões me inquietam no esoterismo steineano: 

1. A falta de um método claro que permita o compartilhamento, e portanto a crítica, universal da verdade que se prega

Steiner quis ultrapassar isso tentando iniciar as pessoas em sua forma de ver o mundo, ou melhor, os mundos superiores. E em algumas palestras ele é bem duro com os interlocutores dizendo, por exemplo, que se a pessoa não teve o resultado esperado segundo o que pregava sua "dica" é porque ela não fez direito. 

Vá lá que esse é o mesmo argumento que meus professores de medicina carrascos davam aos alunos que não chegavam a um certo resultado dentro do laboratório. Mas, não é do totalitarismo que estamos querendo escapar? Para que Auschwitz não se repita...

O espiritismo diz que esta visão dos mundo superiores não se alcança por esforço. É uma possibilidade dada por Deus em certa encarnação, a que poderíamos chamar de dom. Não seria Steiner portador de tal dom e queria ele que todos o fossem forçosamente? Kardec achava que tal esforço só poderia originar produtos da imaginação. Daí outro ponto...

2. O exagero de revelações

O espiritismo já havia provocado uma ruptura com a tradição católica que rezava ser apenas, e unicamente, através da aceitação de Cristo, com a consequente e necessária adesão à sua igreja apostólica romana, o caminho da salvação. O espiritismo vinha dizer que não, que era a caridade. 

No fundo, olhando a argumentação toda de Kardec, significava dizer que a pessoa que verdadeiramente abraçou a Cristo mostrava o distintivo desta adesão com o esforço de abertura ao próximo. 

O que as igrejas cristãs oficiais pregam, devemos buscar entender, é que nenhuma obra substitui a aceitação amorosa da figura de Cristo. Essa aceitação é condição sine qua non de todo o resto. 

Steiner faz as vezes de aceitar o Cristo como centro de sua teoria esotérica ou teosófica, ou ainda, antroposófica, mas insere um conjunto de elementos estranhos aos discursos oficiais que, creio eu, perturbam mais do que esclarecem. 

Outras incursões, todavia, são muito bem-vindas, por exemplo, a de reconhecer a vida humana como impulsionada por uma força crística, e a história da humanidade, pelo mistério do Gólgota. Sem pudor vai estabelecendo parâmetros para mostrar o que seria o comportamento saudável tanto da encarnação do espírito no corpo, como do progressivo domínio deste por aquele. São voos que nem Kardec nem os Espíritos através de Chico Xavier decidiram dar tão altos. É que, defendia o codificador na sua sensatez, perde-se o ar em zonas tão rarefeitas das esferas das revelações, e as figuras poéticas tomam o lugar da precisão.

3. É possível acessar conhecimentos dos mundos superiores e tê-los disponível ao intelecto encarnado de forma clara?

Steiner fala da "piscina" Akáshica, que seria um todo de conhecimentos bem vivos do mundo espiritual ao qual poderíamos ter acesso em êxtase místico. 

Os seguidores da antroposofia advogam que Steiner conseguiu ter fôlego para entrar lá e trazer a coisa bem clara. Por que ele e não João, e não Daniel, para citar autores apocalípticos que trouxeram revelações akáshicas milenarmente guardadas? 

O que quero dizer é que a literatura apocalípitca, que mais akáshica não poderia ser, está toda encarnada em um simbolismo profundo que desafia as maiores mentes exegéticas e provoca dissensões escolares. Steiner seria o iluminado supremo que teria ultrapassado a capacidade dos autores apocalípticos de expressarem coisas transcendentes para as mentes imanentes na carne? Sem desprezar a grandeza do homem, acho mais sensato pensar que este grande especialista de Goethe trouxe de lá outras tantas imagens que, ao se encarnarem na linguagem humana, viraram símbolos de portentoso valor. É o mesmo que acredito acontecer com outros tantos romances de Chico Xavier. Tomamos eles ao pé-da-letra para melhor lê-los, mas não os deveríamos levar a ferro e fogo, senão extrair a essência das lições morais que permeiam aquelas cenas.

 

Por fim...

Queria pontuar, que, apesar destas considerações, a ciência espiritual de Steiner é muitíssimo intrigante. Uma mente prolífica que saiu espalhando milhares de conferências sobre os mais variados assuntos em um mundo entreguerras, semeando verdades inquietantes nos mais diversos terrenos (medicina e terapias diversas, arquitetura, agricultura, religião, pedagogia, dança, pintura, política), e que frutificaram angariando adeptos fervorosos. 

Assim como Chico Xavier, renegado pela ciência oficial, este é outro médium que precisamos estudar com calma. 

domingo, 10 de dezembro de 2017

Apenas a revelação pode nos dar a verdade vital



E pela manhã cedo tornou para o templo, e todo o povo vinha ter com ele, e, assentando-se, os ensinava.
João 8:2
"E pela manhã cedo tornou para o templo, 
e todo o povo vinha ter com ele, 
e, assentando-se, 
os ensinava." 
(João 8:2)

Para começar, tenho que elucidar alguns pontos do título:

  • Por revelação quero dizer todo conhecimento que se manifesta fora da construção que a razão individual pode engendrar. 
  •  Por verdade vital quero dizer toda verdade que é essencial para conseguirmos viver diariamente. 
 
 A mediunidade é um exemplo de revelação, bem como o simples diálogo com alguém. Deus fala ao ser humano: diálogo e revelação. 

Cotidianamente não buscamos a verdade das coisas. Vivemos sem essa busca consciente. O que nos faz tomar as rédeas dessa busca é o estranhamento, o espanto, o assombro. Desde que mamãe me ensinou a escovar os dentes, nunca precisei parar para entender pormenorizadamente o mecanismo dessa ação, e a tenho como primeiro imperativo assim que acordo. Caso um acidente vascular venha danificar minha motricidade, se meu juízo crítico não for junto com a falha cerebral, a busca pela verdade da escovação dentária se impõe. 

Mesmo esse problema banal, o da escovação da primeira hora da manhã, se evidencia: uma verdade vital que necessita de uma revelação para ocorrer. Mamãe me revelou que a manutenção da saúde bucal passava pela escovação. Sem ela, ou qualquer contato social que tivesse me apontado esse dever, teria de ter reinventado essa arte. Aqui se apresenta uma das faces da revelação: ela poupa esforços quando se encarna na história humana.

Há, contudo, verdades vitais, de ordem cada vez mais superior, cujo alcance gradativamente escapa do sujeito isolado. São elas as de ordem ética e da beatitude. Entendendo a ordem ética a que nos permite viver em sociedade e as da ordem beatífica a que nos permite viver para Deus. Ser solidário às necessidades da civilização participa da primeira ordem e anuncia a segunda. Ser sincero e coerente com os próprios ideais, ainda que eles sejam ignorados pela sociedade, participa da segunda ordem, coroando a primeira. Saber ajoelhar-se diante do infinito e praticar as lições escondidas do amor está imerso na segunda ordem, permitindo a primeira ter sua parte nesta. Mas, como ascender ao conhecimento necessário para praticar estas duas ordens se fôssemos solitários? Impossível. 

Para termos acesso aos conhecimentos da ordem ética e da beatífica necessariamente é preciso de alheios que firam nossa consciência cotidiana, que cobrem respostas retas, que exijam posicionamentos oportunos. Estes outros são os reveladores dos desafios e, não raro, os doadores de respostas. Novamente, se fôssemos esperar sempre ter de construir as respostas apenas por nós mesmos, cada vida terminaria em projetos inacabados sem nenhum avanço global. Restaria ao maior ou menor grau de genialidade de cada um ser mais ou menos probo, mais ou menos santo que o vizinho radicalmente separado da minha aventura existencial.

Mesmo que tivéssemos vida o suficiente para tanto, para ter possibilidade de finalizar a questão da ética e da beatitude, há um limite da nossa consciência que impede a resposta final. Aqui é onde entra a metafísica. Apenas um ente que pertence ao além do lugar onde estamos é que pode nos iluminar o caminho a seguir. Sem esse estranho nada podemos fazer senão circular em torno de nossa idiotia. É o mesmo que um povo de uma ilha querer conhecer o mundo sem jamais sair dali. Trocam figurinhas do mesmo. Diante dessa limitação, há apenas dois movimentos: (1) desistir de procurar e imaginar que o futuro é construção pessoal de cada amanhecer, (2) abrir o ego para o novo que o alheio traz, não como uma possibilidade radicalmente diferente que inauguraria uma outra forma de existir na qual perderíamos tudo o que vimos sendo, mas como revelação de possibilidades ulteriores que iriam se somar aos nossos esforços na construção de um homem integral.  

As experiências de peregrinação, de rebanho, de plateia de pregadores, na segunda hipótese recebem novos ares de validade, e talvez mesmo de necessidade ontológica da condição humana. 

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Refutações filosóficas baseadas na vida familiar



Há algumas correntes filosóficas que imperam ao nosso redor, fazendo adeptos e provocando movimentos que acredito poderem receber séria refutação quando se pensa na simples convivência familiar. 

A filosofia moderna é inaugurada com a subjetivação da verdade. O pensador entende que o fundamento primeiro da verdade só pode residir no sujeito que pensa. E desse jeito encontra um abismo enorme para sair de si e conseguir a verdade que pode ser compartilhada com o outro.

Qualquer pessoa que tentou se relacionar com alguém, e buscou cultivar este relacionamento para que durasse, sabe o quanto é impossível fazê-lo se pensarmos em verdades que apenas nascem do nosso sujeito. O exercício do respeito pela verdade do outro é constante. A surpresa que o outro nos desperta em não conseguirmos ter atingido sua verdade é diária. É só pensar no desafio de presentear alguém, e nas frustrações que isso pode provocar.  

Quando pensamos nos idealistas, que entendem ser a realidade o reflexo de nossos pensamentos, ou no psicologismo, que pensa algo semelhante, reduzindo a verdade a imagens mentais, outro exercício que enfraquece esta ideia é acompanhar o crescimento dos filhos. Quase nada segue o que traçamos. O amadurecimento deles, muitas vezes, é o contrário de fazer o que queremos, pois é ser eles e não nós. 

Se formos olhar as filosofias que enxergam mais as categorias ou as classes de pessoas em detrimento do indivíduo singular, dá para desconfiar que os autores delas raramente se apaixonaram ou amaram alguém a tal ponto que a vida daquela pessoa fosse invendável ou insubstituível. É o que move os pais a velarem os filhos doentes nas madrugadas de febre. 

Cientificismos e historicismos, de uma forma geral, querendo reduzir as ações humanas a equações que geram predições acertadas ignoram a atitude de sabedoria diária que a família nos convida para baixar a guarda de nossas certezas a fim de deixar o outro viver em nós de forma mais livre. Você mal sabe o que se esconde no próprio peito, como poderia se erguer a uma onisciência tal que abarcasse as possibilidades da vida de qualquer um?

Para fechar o elenco das principais filosofias, pensemos naquelas que pregam que todos devem buscar a felicidade em todos os momentos, tentando viver cada instante como se fosse o último, e como se ele pudesse ser repetido pela eternidade. É insustentável pelo própria ritmo da existência. 

A única forma de não devotarmos amor por qualquer coisa é sermos cercados pelo nada. Qualquer amor que nos conecte a algo fora de nós, cedo ou tarde, fecunda a consciência da perda inadiável, que é o sonho da morte que nos visita de vez em quando. Esses momentos são sombrios, gelados, opressivos. A saudade é uma filha adorável deles. A falta é a carrasca. De uma forma ou de outra, ainda que a ausência se faça, flertando com a sombra da morte, qualquer esperança de reencontro faz o amor reacender como se fosse a primeira vez. 

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Carregar o pai nos braços

A experiência de carregar o corpo desfalecente do pai nos braços queima a pele do espírito. Foi assim comigo.

Era uma manhã comum, em que madruguei estranhamente junto com ele e tomei seu café amargo. Fui pegar o carro na garagem quando minha irmã chega aflita anunciando o mal estar dele. Nunca nem lhe vi chorar uma lágrima sequer, sempre ativo e buscando resolver os problemas imediatos da existência. Raramente alguma conta se atrasava. Raramente nós nos atrasávamos em uma reunião. Parecia uma viga mestra entre nós. E, naquele dia, encontrei-o pálido sobre o sofá de espera do condomínio.

Carreguei-o, sofregamente, ao pronto-socorro; atordoadamente, ao velório; melancolicamente, à sua cidade amada. Ouvi as histórias de quem, como médico, ajudou. Segui a procissão que o enterrou no cemitério do lugar. Desde, então, seu Espírito me visita aqui e ali. Estou tendo menos consciência dessas visitas na medida em que venho me tornando ele: médico, pai, sem deixar atrasar os compromissos da casa.

Mas, aqui e acolá um sonho estranho vem, a guarda baixa, e a melancolia aperta. Diz o espiritismo, essa religião dele e minha, que a melancolia é uma saudade da liberdade que o Espírito gozava antes do nascimento na carne, uma vontade de voltar à liberdade, uma esperança que retornará. É sempre, portanto, uma ausência doce que acalentamos. Desse jeito que a sinto, também é a ausência dele.

Ontem, tive a sua imagem onírica bradicárdica sobre a cama em que assistia aos jornais. Eu prescrevia em seu consultório um soro para uma criança doente. O raciocínio pesava, a mão era lenta até que recebi a notícia de que passava mal. À época de sua verdadeira morte, não sabia as fases do morrer como sei hoje. Já conto algumas tantas pessoas que assisti o atravessar. Vivi o silenciamento de cada som do corpo, e dos monitores. Parece que estes sonhos que me devolvem para aquele dia no sofá fazem-me ter consciência dos sons que se calaram, e que não sabia existirem.

Outros sons são presentes. E como disse, parecem que vão se tornando menos conscientes na medida em que vão se reencarnando, em mim. O amigo que passar um pouco do dia em minha casa me verá assobiando para os filhos, roncando na sesta, 
com o lençol nos olhos, após ter lido algo, ou ainda, deixando que os meninos batuquem na minha barriga. É ele. 

Se há algo que me faz compreender a relatividade do conhecimento humano em relação à perspectiva em que se encontra, esse algo é a experiência que tive de pai. A partir do que vivi quando criança, só posso querer ser mais, e, no muito, venho conseguindo ser cada vez mais quase igual. Que posso julgar daquele que não teve essa presença? É um esforço inaudito de construir uma forma de existir através de palavrórios das escrivaninhas de especialistas. Que posso julgar daquele que, com essa ausência, não acredita em um Pai Maior? É a não conexão com algo que nunca existiu. Pai e Deus são experiências, no finito, de encontro. E o desejo, no infinito, de reencontrá-los.

domingo, 20 de agosto de 2017

O amor comeu o meu nome e deixou nele pai

É a primeira vez que venho ao meu blog para falar deste assunto. Meu filho mais velho, mas ainda muito pequeno, tem esta condição neurológica a que chamam de autismo. É leve. Algumas singularidades muito especiais apontam para o diagnóstico. De todo modo, as duas questões que mais deve pesar sobre os pais destas crianças já nos tomam: o esforço de estimulá-lo ao máximo e o medo de ele ser rejeitado pela diferença. 

Revezamos-nos, eu e minha amada, de tal forma que sempre há um de nós presente, e à noite, os dois. Diverti-lo com qualidade terapêutica é uma busca diuturna nem sempre bem sucedida. Algumas vezes é o cansaço que bate, outras é o desejo de ser casal, e outras poucas é a necessidade de estar sozinho. 

Alegria é o que ele não nos cansa de dar. E, sentido pra vida. Sossego, nem tanto. Lembro que quase tudo que fiz até antes dele foi regido por muitos sonhos, excitação e pouca consecução. Do que venho mantendo até agora como os projetos sobre os quais posso falar em paz com Deus, há um de palhaçoterapia, há a medicina, e há a família. 

O de palhaçoterapia, nem sou tão assíduo na contribuição, mas já dediquei boa parte da filosofia que estudo para o engrandecer. A medicina é minha relação de amor e ódio. Na verdade, não gosto muito dela, mas, justiça seja feita, é a atividade que me permite estar diante do sofrimento humano, semanalmente, com alguma ferramenta útil para diminuí-lo. Todavia, a família é um caso à parte.

A família primária sempre foi esse misto de "não escolhi nascer aqui" e "que bom que vocês existem". É onde já pude gritar e ser amado, brigar e ser querido, fugir e ser aguardado.  E olhe que nem sou tão rebelde. Inimizades de berço foram desfeitas, admirações foram plantadas, saudades cresceram. O que já passei é o que quase todos passaram. E, por tudo, sou grato. 

A outra família, o núcleo que venho construindo, não foge desta intensidade de poder se revelar em carne viva, nas próprias contradições, em meio ao amor. São experiências que não se pode viver em qualquer lugar. Contudo, penso que a família possui um elemento especial de proteção divina para suportar os choques de egos. Se não, deveria ter. Só Deus para fazer sobreviver ao encontro de pessoas despidas pelo cotidiano. É, de fato, para mim, o projeto mais meritório que poderei entregar a Deus, após selada esta vida. 

Neste, meu filho trouxe um capítulo bem especial. Imagine o que é inclinar-se sobre o útero que acolhe corpo'ealma, ver este Espírito nascer para a Matéria, acompanhar suas conquistas diárias, tê-lo nos braços, levantá-lo do chão, sacrificar o sono nas febres e nas asmas, e estimulá-lo a ganhar o mundo. 

O projeto de ser pai é um que abraçamos em uma noite amada, antes mesmo da noite da paixão. No escuro da nossa consciência, dorme a lembrança de quando recebemos de Deus a incumbência de cuidar de alguém que não é nosso e nunca será. Sabendo que a vida dele corre risco se não estivermos por perto. E que, quando não mais o podermos proteger, é que será o dia de ele ir para longe.

A família, eu dizia, é esse misto de "te quero" e "não te quero". Sinto que ser pai é esse misto de "é meu" e "nunca será". O símbolo de São José se repete em cada paternidade. Que deus cada menino guarda? Sentar no silêncio da marcenaria do dia e olhar que é preciso protegê-lo do mundo. A porta de grades, um dia ele saberá abri-la, cada cadeado. O mundo será pequeno para sua ânsia. 

- Mas, menino, volte aqui e venha tomar café! Ainda sou seu pai.  

domingo, 4 de junho de 2017

As crises do casal na família moderna




Então foram abertos os olhos de ambos, 
e conheceram que estavam nus


É sabido que a família percorre fases. As transições sempre são críticas. Percebi que a nudez cai bem como modelo de compreensão das crises da família moderna. Aqui vai um esboço didático, obviamente sujeito às variações das singularidades. 

A primeira crise de um casal é quando se vêem nus no cotidiano. Logo após o casamento, liberto dos pais, entregues a sua forma de gerir a casa que compartilham, tem que acordar os papéis de cada um no sistema que se inicia. 

A segunda crise é quando vêm os filhos pequenos, e o casal se reconhece nu de conhecimento para criá-los, e, no começo, os pequenos tremem nus em frente do ambiente agressivo. 

A terceira crise é quando os adolescentes desnudam as imperfeições dos pais. Descobrem que eles não são aquela autoridade toda que se tinha em mente quando criança. E os próprios pais, caindo em si, nus, questionam-se sobre a própria autoridade. Revêem radicalmente a forma de serem pais para os filhos. 

A quarta crise é quando chega a hora de os filhos voarem definitivamente. Criarem seu próprios ninhos. O mercado de trabalho cobra a presença, mas por vezes não dá oportunidade. As paixões cobram amores, por vezes cobram demais. Estariam os filhos com roupa suficiente para enfrentar o frio lá fora? O mundo é enorme, maior do que a casa. Os pais estão despidos do poder de fazer curvar o mundo aos pés dos filhos.

A quinta crise é quando todos os filhos saem de casa, os pais voltam a ficar nus no cotidiano. Toda uma consciência do envelhecimento corporal de repente assoma-se ao indivíduo. São os mesmos corpos nus do começo da história, à época, gozando de uma jovem beleza imortal, mas agora revelados na própria historicidade, desnudos sob o lençol do tempo.  

A sexta crise é quando a vida de um dos dois se desnuda por completo. O Espírito se despe. Quando se conseguiu percorrer todas estas fases até aqui, é a saudade que imita, com a leveza porosa da velhice, aquela ansiedade que se tem enquanto o amor se despia à sua frente no quarto jovem. Ansiedade que prenuncia o desnudamento final de quem ficou. 

- Eu espero o momento em que minha roupa se gaste, enfim, para me entregar de novo a ti. - fala do lado de cá. 
- Eu aguardo ansiosamente o último botão ceder. - responde do lado de lá. 

É assim que, às vezes, a morte não os separa. 

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Não culpe seus pais por isso



Os psicólogos tem do que se alimentar. Somos repletos de traumas, histórias mal resolvidas, entraves, dores sufocadas, frustrações. Isso está em nós, mas há um certo alívio em dizer que a culpa é de outrem. Na maior parte dos casos, de algum dos pais. Bem, a novidade é que isso não leva a lugar nenhum, vejamos porque. 

Eu entendo a fala de culpar os pais. Se levarmos as perguntas dos motivos de algo ter acontecido até a última conseqüência desta vida, paramos na nossa concepção: culpa dos pais. 

- Não pedi pra nascer!

A solução do mundo, então, seria não haver novas gerações, para que o legado da imundície humana não se perpetuasse. Brás Cubas estaria certo: "Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria."

Bem, nenhum amor acontece com essa visão pessimista.  

Tomemos os piores pais como exemplo. Não os que abandonaram o filho na sarjeta, mas os que criaram o filho como se ele fosse um abandonado. Acrescentemos violência e cenas impróprias dentro do lar. Coloque aí mais descrições tenebrosas que você poder imaginar. Poderíamos dizer que qualquer futuro criminoso que esta criança pudesse se tornar estaria justificado. Todavia, não falo aqui para justificar futuros inglórios, mas para estimular quem almeja superação. 

Se quisermos ultrapassar esse passado, cabe entender que somos dotados da capacidade de ser mais. É o que chamamos de perfectibilidade. O ser humano, desde que adquiriu na evolução certo grau de liberdade, desmantelou as lógicas deterministas. Isso significa que o passado pode ter gerado o que somos hoje, mas não impõe o futuro. Desde o momento que tomamos consciência de nós e assumimos nossa vida, com toda a matéria negra da nossa história, passamos a ser mais ou menos sujeitos dela, isto é, autores. 

O Espiritismo vem revelar outro ponto. Não estamos sós no processo de nos fazer melhor. O universo, dizia Henri Bergson, é uma máquina de fazer deuses. Deus é um foco de atração para nós. Assim como as plantas crescem por causa do Sol e em busca do Sol (fototropismo), os Espíritos evoluem por causa de Deus, porque Deus existe, em busca de Deus. Como intermediários dessa evolução, o Pai coloca emissários diversos, anjos-guardiões, espíritos amigos que nos incitam o bom proceder.

O nosso mal atual poderia parcialmente ser devido às más ações maternas ou paternas? Nem tudo está perdido. Mil fatores promotores podem nos fazer crescer. Cabe a nós ASSUMI-LOS.  

domingo, 13 de dezembro de 2015

Microcefalia segundo o espiritismo (parte 4 - outros diálogos)



1. Um leitor amigo dialoga sobre a teoria da reencarnação como um fenômeno coletivo

LEITOR: Uma coisa interessante que teve nesse teu texto e que considero um aprendizado novo pra mim é o reflexo das ações humanas como sociedade mais do que como pequeno núcleo. Sempre pensava em encarnação como evolução individual e ajudar na evolução dos próximos, mas é interessante pensar que Espíritos também podem reencarnar "em resposta" a um contexto mais global. Não sei se entendi direito essa parte. Tem alguma coisa muito errada com a interpretação?

EU: É isso mesmo! Tá certo! Uma malha muito fina conecta global e individual. Se os governantes entendessem que a geração futura que eles devem proteger são eles mesmos (todos os que eles amam e toda a nação que eles governam) reencarnados, acho que teria um pouco mais de esforço.

LEITOR: Fiquei em dúvida em uma parte do seu texto. Tô relendo aqui e lembrei de perguntar. Você fala que Espíritos carregados de escolhas ruins tem seu perispírito afetado e que isso afeta a formação do corpo físico. Um parágrafo depois, tu fala que grandes almas "escolhem" corpos frágeis. Não é confuso?

EU: São dois caminhos possíveis para que tenhamos em mente que aquele ser pode ser algum endividado ou uma grande alma. Não tem como saber. Quando é uma grande alma, ela escolhe moldar seu corpo com limitações. É uma liberdade. Quando é um ser endividado, ele não tem escolha, ele não tem elementos para fazer uma embriogênese melhor do que aquela. Por que um Dalai Lama escolheria vir em um corpo débil? Para crescer com o exercício que todos aqueles obstáculos tem a lhe proporcionar. Seria uma encarnação de grande meditação rumo a uma iluminação sem precedentes!

LEITOR: Entendi. A gente já tinha conversado sobre isso. Sobre essa opção por corpos mais frágeis.

EU: Às vezes você percebe isso assim: a grande alma é um bebê tranquilo com tudo apesar das malformações. O indivíduo que está preso nas próprias limitações se revolta demais.

LEITOR: É que ficou um pouco confuso no texto. E no fim tu terminou só com o lado de "castigo". Sei lá...

EU: Porque as grandes almas são as que nos acolhem. Acabamos sentindo-nos muito bem ao lado delas. As mensagens de força são importantes para aqueles que receberão as que estão em situação de "castigo". Mas vou tentar melhorar lá. Valeu pelas considerações!

* Em vez de tentar melhorar no texto original, decidi expor esse diálogo elucidativo para que vocês tirem suas próprias conclusões. 


2. Uma leitora amiga me questiona uma hora como médico, outra como espírita e pai

LEITORA compartilha um áudio de pediatras espelhando mensagens sobre a possível ligação entre a doença do Zica e a agressão ao sistema neurológico de crianças na primeira infância. 

Após procurar artigos e conversar com infectologistas amigos, respondo:

- Não se pode afirmar nada ainda sobre isso, pois não há coorte de pacientes acometidos para se estabelecer uma inferência causal forte o suficiente.

A LEITORA insiste e muda a perspectiva da pergunta: 


- Agora faço uma pergunta para o pai Allan: ainda que nāo se possa estabelecer uma inferência causal forte o suficiente, essa hipótese te faz modificar a conduta de cuidados com teu filhinho? Essa possibilidade te amedronta? 

Resposta do Allan pai e espírita:
- Me amedronta. Estou mais perto dele e amando-o mais. Para que nestes momentos em que ele não foi acomeitdo por essa onda fique bem forte nele gravado o quanto nós o amamos. Para que seja importante para ele enfrentar o que pode vir por aí em sua jornada encarnatória! Temos que ter mais do que nunca em mente que o mundo tem rédeas e estão mas mãos de Jesus.

sábado, 5 de dezembro de 2015

Microcefalia segundo o espiritismo (parte 3 - mensagem de consolo)



“O que dizer para uma mãe que descobre que seu filho tem microcefalia e se pergunta o porquê de tudo isso?”


Antes de tudo, importa esclarecer para qual mãe eu diria o que diria. Uma mãe que se pergunta pode procurar as respostas em muitos lugares... Então, de princípio, eu jamais me dirigiria a uma ou várias mães para falar do Espiritismo a menos que elas se mostrassem dispostas a tal; seria uma ofensa, num momento de fragilidade, despejar crenças estranhas a elas. Portanto, apenas diria qualquer coisa diretamente ligada ao Espiritismo caso fosse uma vontade da mãe conhecer mais sobre o assunto, por respeito a ela e sua dor. Com um último adendo: incluo o pai também. Resquícios infelizes ainda nos prendem a uma responsabilidade diminuída do sexo masculino, a qual acho importante refutar e recolocar. O pai responsável ama e sofre como a mãe; junto com ela.

Nesse caso, antes de tudo eu lembraria Deus. Traço comum das religiões, a simples lembrança que temos um Pai amoroso que nunca se descuida de nós tem potencial altamente consolador. A certeza de que alguém olha por nós, velando por todos os nossos passos e cuidando de nossas dores mais ocultas oferece a promessa de uma tranquilidade segura. Não esquecer nem se distanciar de Deus é o primeiro passo.

Contudo, alguém que procura o Espiritismo sabe que isso não basta... Sua alma anseia por mais. Por uma fé com embasamento. Por que eu? Por que meu filho? A Justiça Divina, para ser efetiva, precisa abarcar mais que essa vida. Logo, recorremos a reencarnação. A ciência de que vivemos inúmeras vezes, colhendo e plantando, sucessivamente, abre caminho para novas reflexões. Não sabemos exatamente a razão, mas entendemos os mecanismos.

Mas ainda não é o suficiente saber da sucessão das vidas. Milênios da Lei de Talião impregnados em nossas sociedades dirigem imediatamente o pensamento à culpa do erro castigado. Sinônimo de punição? Não. Não é o que consolará uma mãe, um pai. Será necessário participa-los da grandeza Divina. Deus não é mero punidor, que nos faz “pagar” os erros em moeda de sofrimento. Reencarnação, provas e expiações são apenas os meios de um fim: o aprendizado, o alcance da perfeição, o conhecimento de si mesmo e a ação regida pelas Leis Naturais. Sob esse novo panorama, não sabemos se punição, se consequência, se missão; sabemos apenas que, seja o que tenha sido, o véu nos foi estendido para que nos concentremos no que há a fazer, em vez de estarmos atados improdutivamente ao que foi. É a melhor oportunidade que nos cabe, oferecida segundo a misericórdia do Pai. Novo recomeço. Chance renovada de se fazer melhor que o ontem. Redenção pelo amor. Eis a tarefa.

E... o que fazer, de fato, de posse desse novo olhar? Amar. As dificuldades que se apresentarem, que oferecerem resistência à ideia do amor são exatamente o que deve ser combatido em nós mesmos. Como todo véu, sob a luz adequada é possível ver vultos por trás do ocultamento; cada mancha que se revele contra a luz é sinal de luta passada ainda por vencer. Orgulho, vergonha da sociedade, medo de falhar, dificuldades materiais... Tudo aponta para o que já fomos e o que precisamos vir a ser.

Conscientes da verdade de que o Senhor da Vida olha por nós, que não nos desampara, que oferece a redenção pela justiça através das melhores oportunidades, segundo a nossa semeadura, o caminho está traçado. Não poupará levianamente das dores nem das lutas. Mas provará, diariamente, que o alcance da felicidade só depende de nós. Na perseverança por agir no bem e na sabedoria do olhar consciente que lançamos à nossa própria condição. Munidos da fé raciocinada, da esperança no futuro e tendo a caridade como força motriz, inevitavelmente venceremos, em paz.

Por Erick Machado

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Microcefalia segundo o espiritismo



O momento para o Brasil é de pesar. Um surto de malformações fetais onde se predomina a microcefalia desespera a população e, para piorar a história, o Nordeste é vítima da maior parte dos casos, superpondo esse sofrimento ao da seca. As notícias sobre os agravos aumentam e vazam com a leviandade dos boatos. 

Venho aqui para tentar pensar qual o motivo dessa tragédia entre nós. Vou elencar algumas correntes de pensamento espírita que provavelmente fundamentarão explicações daqui em diante nos relatos mediúnicos, esperando que algum me surpreenda e fortaleça-nos ainda mais.


A tese das expiações evolutivas ou das dores do parto 


Um surto que acomete populações inteiras pode ter relação com uma leva de Espíritos reencarnantes, cujo tempo para a progressão moral se finda no avançar da hora da maturação do planeta. A humanidade, nestes últimos séculos, se ressente das dores de um parto que custa a acabar, cujos momentos de seu curso se refletem na eclosão de violências, no escancaramento de vícios e corrupções, e, agora, na materialização de meios propícios para a vivência de dores de resgate e aprendizado.

Parteja-se aqui um mundo melhor, entregue em breve às luzes de um descanso de regeneração para o corpo social sofrido. 


Sobre o caráter dos Espíritos envolvidos


Quando carregados de escolhas ruins, estas fragilizam seu perispírito, órgão espiritual que plasma o corpo físico, fazendo com que as malformações emerjam. As limitações extremas do corpo conduzem o Espírito a um aprendizado de seus movimentos interiores, de suas emoções, e mesmo os pais e familiares passam a ler as lições trazidas pelas próprias vulnerabilidades. 

Acontece de grandes almas escolherem reencarnar em um corpo débil. Almejam mais iluminação ao sofrerem com as ilusões da dor. Pensam também em se engajarem em contexto de aprendizado para os pais, sendo instrumentos para tanto. 

Ocorre de igual modo que pais abnegados tenham escolhido receber Espíritos em situação de resgate expiatório, e, assim, acolhem aquele sofrimento com devotamento ímpar.


Sobre a "culpa" da natureza 


O Espiritismo tenta mostrar que a natureza não é nossa inimiga. Uma superficial visão ecológica nos faria entender que os ciclos de vida e morte são inevitáveis, que as doenças são caminhos possíveis. A imortalidade da alma nos deixa estagiários destes processos. 

É verdade, porém, que viemos, com nossa tecnologia, alargando vários limites da natureza. Algumas dessas nossas tentativas descambam em não menos naturais desequilíbrios que nos convidam a empreender melhores respostas. 

Não se defende o crescimento zero, mas o crescimento bem guiado pela inteligência e pela ética a fim de tornar o desenvolvimento o mais democrático possível. Somos destinados a fazer imperar o cosmos sobre o caos, mas nunca em benefício de uma oligarquia olímpica. As tentativas que se direcionam para o privilégio são corrupções da nossa missão e sempre tendem a desandar. 

De outro modo, assim como em pequena escala o Espírito é responsável pelo origami do corpo, em larga escala, nossas ações como humanidade se refletem em tudo que nos é considerado meio de existência. Está perfeitamente conforme à cosmovisão espírita pensar que as catástrofes naturais possam refletir o estado de espírito dos homens e mulheres, formando bolsões de miasmas que se precipitam sobre nós o que, aos tempos do Egito antigo, foram considerados como pragas, e que, todavia, tinha menos a ver com a ação direta de Deus do que com a repercussão dos nossos atos sobre o mundo. 


A missão do Brasil


Certa corrente do pensamento espírita imagina ser o Brasil um grande acolhedor das práticas do Evangelho. E, como ele tivesse sido destinado por Jesus para acolher os aflitos do mundo, é provável que alguém nos fale que os Espíritos envolvidos em crimes de outras nações estejam sendo destinados para compor nossas novas crianças cujos corpos débeis servem de poderoso cadinho para as transformações viscerais do espírito imortal. 

O que todas essas teses apontam é que não devemos vestir a túnica dos coitados do mundo, que o desespero deve ser convertido em trabalho, que o amor pelo próximo e o acolhimento dos debilitados deve ser, mais do que nunca, a tônica de nossos corações. 


Leia também:

* O comentário que faço à contribuição de leitores desse assunto: link
** Uma mensagem de consolação escrita por um leitor endereçada à família vivendo com  a situação da microcefalia: link
*** Outros diálogos que andei tendo com leitores deste blog: link


quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Sobre os traumas nas mentes infantis



Para onde quer que olhemos, estas teorias psicológicas dos sofrimentos humanos vivem a nos falar, no final das contas, de uma psicologia infantil tão frágil que qualquer abalo pode ocasionar o maior dos traumas no futuro, a mudança da rota, a diferença capital. Não é bem assim. 

De fato, cada ação importa para uma criança. E não tenho dúvida que quanto mais proteção e amor ela tiver, mais isto irá influir beneficamente em seu psiquismo. Mas, as lágrimas grossas das pessoas escorrem sentimentos que foram arrastados de vivências muito mais antigas do que a própria vida. Não somos tão frágeis assim. A pele de nosso Espírito possui camadas que o mais trabalhador arqueólogo está longe de revelar, quiçá interpretar. 

Não é uma vida anterior, nem duas. É todo um continuum de existência cuja origem se perde na escuridão da história de tudo, não só da humanidade. 

Leio e releio com gosto um médico polonês, o Sr. Janusz Korczak, que escreveu um dos livros mais sensíveis que já li sobre a criança: Como amar uma criança. Quase ao final, depois de ter nos revelado o imenso esforço humano de tentar desvendar os pequenos, na medida que os cobria do frio e os alimentava na privação, partindo de uma mão que já havia labutado muito a favor da sobrevivência deles em uma Polônia judaica perseguida no mundo entreguerras, nos diz isto:


Raras são as crianças que não são mais velhas que a sua idade real: trazem consigo as taras de muitas gerações. Nas circunvoluções do seu cérebro sangra a dor acumulada durante muitos séculos de sofrimento [...]. Não é a criança que chora, são o cansaço e a dor centenários que se lamentam: não foi por ter sido posto no canto, mas porque foi sempre oprimido, banido, desprezado, amaldiçoado. Estou fazendo poesia? Não, é apenas uma maneira de fazer uma pergunta para a qual não encontro resposta.

Eis a clarividência! "Nas circunvoluções do seu cérebro sangra a dor acumulada durante muitos séculos de sofrimento." E, muitas vezes, nos inquietamos porque não os conseguimos consolar de todo ou mudar seu caráter de forma inabalável em alguns parcos anos de convivência intermitente. É, então, que um árabe, Khalil Gibran, nos fala:

Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas.
O arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a sua força
Para que suas flechas se projetem, rápidas e para longe.
Que vosso encurvamento na mão do arqueiro seja vossa alegria.

Pais e mães que amam mais que tudo a vossos filhos, sejamos bons arcos, é o bastante. Os ventos de Deus cuidarão do resto. 

domingo, 10 de maio de 2015

As mães



Em certo lugar do Espiritismo, dizem que o instinto materno é o lugar pelo qual Deus se manifesta cuidando de seus filhos. Em outro lugar, dizem que aquele que aceita o papel de mãe, se fôssemos computar em ganhos materiais, a pessoa ganha o dobro do que qualquer outro trabalho na terra.

Ter um filho é estar aberta, do momento que o acolhe em diante, para a surpresa diária que ele representa. Quando o gesta, parecia ser parte de si, mas era um estranho que lhe consumia na medida que ia te preenchendo. Quando o ama, não se sabe como essa vida estava podendo ser sem ele, e o tempo vai se tornando pouco para si na medida em que vai sendo um outro tempo para dois. 

O filho é sempre a continuação de histórias: a sua, a de quem ajudou a gerá-lo, a dele.

Felicidades para todos aqueles que naquele dia do convite disseram sim!

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Pecadinhos



Quando estava na alfabetização, a tia pediu que fizéssemos uma redação de cinco linhas no nosso caderninho de caligrafia. Eu não sabia fazer, não conseguia, não vinha ideia. Papai sentou do meu lado, tentou me inspirar, sugerir, orientar. Eu relutei o quanto pude. Acho que era mais orgulho de não fazer feio. Então, pegou meu caderno, preocupado que eu fosse chamado a atenção, e fez as cinco linhas por mim tentando imitar minha letra. 

Na evangelização espírita infantil, a tia pediu que escrevêssemos uma prece com nossos próprios sentimentos, palavras. Fiquei com receio de fazer algo feio, que não fosse a altura de Deus. Pedi que papai fizesse algo para me inspirar. Ele escreveu uma página linda. Decidi não parodiar. Entreguei a dele. A tia da evangelização perguntou, com olhos esbugalhados, se eu que havia feito (ele tinha feito com uma letra de forma fácil de imitar, poderia ser a minha). Eu disse que sim! Ela foi mostrar para a outra tia, e as duas ficaram me olhando como se eu fosse um Espírito superior encarnado. 

Vejam aí o naipe do Espírito superior!

P.S.: Pensei sobre isso ao ver as cobranças que estava me fazendo sobre a evolução moral de meu filho. Se não sou um Espírito superior, tão pouco sou um dos piores Espíritos que conheço. Saudades de papai! Sua careca me daria muitos conselhos de quem sobreviveu a sete filhos.

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Meu filho está fazendo birra



"... a educação, não a educação intelectual, mas a educação moral. Não nos referimos, porém, à educação moral pelos livros e sim à que consiste na arte de formar os caracteres, à que incute hábitos, porquanto a educação é o conjunto dos hábitos adquiridos. Considerando-se a aluvião de indivíduos que todos os dias são lançados na torrente da população, sem princípios, sem freio e entregues a seus próprios instintos, serão de espantar as conseqüências desastrosas que daí decorrem? Quando essa arte for conhecida, compreendida e praticada, o homem terá no mundo hábitos de ordem e de previdência para consigo mesmo e para com os seus, de respeito a tudo o que é respeitável, hábitos que lhe permitirão atravessar menos penosamente os maus dias inevitáveis." (L.E. 685a)

 A partir da minha adolescência não tirei essa frase de Kardec da cabeça. 

- Então, os males do mundo se devem muito a como fomos educados?! - admirava.

Dizem que Freud falou que se o método de Maria Montessori fosse vivenciado com todas as crianças, não se precisaria mais de psicanalistas. 

Então, vim alimentando que precisávamos investir na educação. Fui evangelizador de crianças e quase desisti de medicina para ser professor. Idealista! 

Hoje vejo o quanto essa "arte de formar os caracteres" é difícil. Meu filho começou a fazer birra. Compreendeu que calar o choro dele é das mais importantes coisas para as pessoas ao redor. Estávamos nos curvando para isso incoscientemente, e a pediatra hoje nos advertiu sobre o erro que é ceder a esse tipo de comunicação. É um garoto muito esperto, no mais. Contudo, vem utilizando o nosso amor de forma antagônica ao seu crescimento, à sua independência. 

Ninguém poderia ter muita crítica sobre nós. Primeiro filho, fazemos o possível para dar o melhor para o garoto. Não apenas brinquedo, mas presença, carinho. Nesses últimos dias, porque me vi livre do mestrado que me consumia, estive sempre brincando horas seguidas com ele. Desde sempre revezo o banho, o ninar e escrevo poesias para ele. Mas, eis que ele resvala nessa fase da birra, do choro imotivado, mas também e principalmente, do choro tirânico ao invés da comunicação civilizada. 

A pediatra disse que teremos de ser pacientes e firmes, sem perder o carinho. Convidar sempre para a conversa olho no olho, estimular ao aprendizado de nomear as próprias vontades. Nós e todos ao redor. 

Quando a coisa depende da gente, a mudança poderia ser mais simples, porém ao envolver todo o ambiente relacional, complica um pouco. Como mudar as outras pessoas? Vigiar seu atos? De outro modo, precisamos tanto delas. Venho precisando de horas de sono além do comum, pois desenvolvi enxaqueca com esta profissão que me priva do sono em estudos e plantões. Minha esposa também anda cansada, motivos semelhantes. 

Vamos tentar, claro! E continuar tentando. 

Mas, fica aqui, de novo, a reflexão do quanto nossos caracteres são complexos e a sua educação penosa. Somos tão pequenos diante da quantidade de interações que se misturam no Espírito de nossos filhos. Mais lá na frente, chegarão a apontar o dedo e nos culpar por isso ou aquilo. Terão razão e não terão. Terão razão porque realmente fizemos ou deixamos de fazer algo que se tivesse sido o contrário talvez (!) tivesse mudado o que ele chamará, então, presente. Não terá razão porque somos apenas uma causa entre mil outras. 

- Lembra-se da vez em que choveu tanto em nossa cidade que o céu ficou negro por dias seguidos, mirrando o feijãozinho que você tentava cultivar no algodão plantado no pires à sua janela? Você amava tanto aquele experimento, e ele feneceu. Sua culpa? Não. Nossa culpa? Não. Do sol? Da chuva?

Mãos a obra! Mais vale pegar outro feijãozinho e tentar de novo, e de novo, e de novo...