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sexta-feira, 5 de janeiro de 2018
Qual o incoveniente de se construir uma doutrina em torno de um médium?
Tive vontade de escrever esta postagem porque é disso que se trata alguma parte do posicionamento de certos antropósofos com quem venho tendo contato, mas também boa parte do movimento espírita que, sem dar valor à obra de Kardec, vai fundamentando seus conhecimentos apenas em romances mediúnicos.
Vamos começar por este ponto: o médium pode trazer informações falsas ou frutos da própria imaginação. Quando assim é, não é difícil de entender onde está o inconveniente.
Digamos, porém, que o médium traga apenas informações aparentemente boas, justas e belas, e que a própria imaginação não tenha causado interferência. Como saber se são, de fato, boas, justas e belas se não pelo olhar crítico das pessoas?
No primeiro caso seria uma doutrina fundada na falsidade, no segundo, na possibilidade da falsidade.
Vamos avançar e considerar que o médium possui um desenvolvimento intelecto-moral tal que consiga controlar o teor de suas comunicações e mesmo acessar os "mundos superiores" sem se perturbar. E que ele, ainda, tem a virtude de passar estas informações de forma clara e precisa. É o que parecem considerar certos antropósofos em relação à Rudolf Steiner ou muitos espíritas em relação à Chico Xavier. Qual o mal disso? É que, nesse momento, a verdade flerta com o poder de forma muito perigosa.
Uma tal pessoa, portadora desta aura de verdade, imporia suas concepções facilmente sobre muitos. Qual o problema se for a verdade mesmo? O problema é que, como Kardec bem considerava, não temos condição de saber a verdade de uma revelação apenas pela índole do médium mas apenas após a análise do conteúdo da mensagem, isto é, a verdade passa pela interação do médium e do ouvinte em pé de igualdade e respeito. Considerar como verdade qualquer informação emitida por um sujeito pretensamente portador de autoridade intelecto-moral é dar o pescoço à uma possível guilhotina.
O projeto socrático consistia exatamente em ensinar às pessoas a, analisando as questões por elas mesmas, chegar a verdades construídas em diálogo que tem a força de apaziguar as exigências de dois espíritos sequiosos de verdade. Saíamos, assim, de uma monarquia para uma democracia.
A natureza humana não comporta ainda estas perfeições projetadas em muitos médiuns e gurus. Toda monarquia guarda em si a corrupção do totalitarismo, e a democracia, a da demagogia. Aquele que se arvora portador de uma verdade limpa extraída de mundos superiores contra a qual ninguém pode se levantar está mais para um déspota ou demagogo do que para novo messias.
De outro modo, me parece que Steiner dava muito valor à filosofia da liberdade, pedindo para que todos os indivíduos analisassem suas verdades com o cuidado necessário, e Chico Xavier nunca tentou ser chefe de doutrina, sempre submetendo suas revelações ao evangelho de Cristo e às obras básicas de Kardec. Assim deve ser.
domingo, 10 de dezembro de 2017
Apenas a revelação pode nos dar a verdade vital
E pela manhã cedo tornou para o templo, e todo o povo vinha ter com ele, e, assentando-se, os ensinava.
João 8:2
João 8:2
"E pela manhã cedo tornou para o templo,
e todo o povo vinha ter com ele,
e, assentando-se,
os ensinava."
(João 8:2)
Para começar, tenho que elucidar alguns pontos do título:
- Por revelação quero dizer todo conhecimento que se manifesta fora da construção que a razão individual pode engendrar.
- Por verdade vital quero dizer toda verdade que é essencial para conseguirmos viver diariamente.
Cotidianamente não buscamos a verdade das coisas. Vivemos sem essa busca consciente. O que nos faz tomar as rédeas dessa busca é o estranhamento, o espanto, o assombro. Desde que mamãe me ensinou a escovar os dentes, nunca precisei parar para entender pormenorizadamente o mecanismo dessa ação, e a tenho como primeiro imperativo assim que acordo. Caso um acidente vascular venha danificar minha motricidade, se meu juízo crítico não for junto com a falha cerebral, a busca pela verdade da escovação dentária se impõe.
Mesmo esse problema banal, o da escovação da primeira hora da manhã, se evidencia: uma verdade vital que necessita de uma revelação para ocorrer. Mamãe me revelou que a manutenção da saúde bucal passava pela escovação. Sem ela, ou qualquer contato social que tivesse me apontado esse dever, teria de ter reinventado essa arte. Aqui se apresenta uma das faces da revelação: ela poupa esforços quando se encarna na história humana.
Há, contudo, verdades vitais, de ordem cada vez mais superior, cujo alcance gradativamente escapa do sujeito isolado. São elas as de ordem ética e da beatitude. Entendendo a ordem ética a que nos permite viver em sociedade e as da ordem beatífica a que nos permite viver para Deus. Ser solidário às necessidades da civilização participa da primeira ordem e anuncia a segunda. Ser sincero e coerente com os próprios ideais, ainda que eles sejam ignorados pela sociedade, participa da segunda ordem, coroando a primeira. Saber ajoelhar-se diante do infinito e praticar as lições escondidas do amor está imerso na segunda ordem, permitindo a primeira ter sua parte nesta. Mas, como ascender ao conhecimento necessário para praticar estas duas ordens se fôssemos solitários? Impossível.
Para termos acesso aos conhecimentos da ordem ética e da beatífica necessariamente é preciso de alheios que firam nossa consciência cotidiana, que cobrem respostas retas, que exijam posicionamentos oportunos. Estes outros são os reveladores dos desafios e, não raro, os doadores de respostas. Novamente, se fôssemos esperar sempre ter de construir as respostas apenas por nós mesmos, cada vida terminaria em projetos inacabados sem nenhum avanço global. Restaria ao maior ou menor grau de genialidade de cada um ser mais ou menos probo, mais ou menos santo que o vizinho radicalmente separado da minha aventura existencial.
Mesmo que tivéssemos vida o suficiente para tanto, para ter possibilidade de finalizar a questão da ética e da beatitude, há um limite da nossa consciência que impede a resposta final. Aqui é onde entra a metafísica. Apenas um ente que pertence ao além do lugar onde estamos é que pode nos iluminar o caminho a seguir. Sem esse estranho nada podemos fazer senão circular em torno de nossa idiotia. É o mesmo que um povo de uma ilha querer conhecer o mundo sem jamais sair dali. Trocam figurinhas do mesmo. Diante dessa limitação, há apenas dois movimentos: (1) desistir de procurar e imaginar que o futuro é construção pessoal de cada amanhecer, (2) abrir o ego para o novo que o alheio traz, não como uma possibilidade radicalmente diferente que inauguraria uma outra forma de existir na qual perderíamos tudo o que vimos sendo, mas como revelação de possibilidades ulteriores que iriam se somar aos nossos esforços na construção de um homem integral.
As experiências de peregrinação, de rebanho, de plateia de pregadores, na segunda hipótese recebem novos ares de validade, e talvez mesmo de necessidade ontológica da condição humana.
segunda-feira, 23 de outubro de 2017
Para falar com Deus: símbolos e ritos
A única forma de falarmos sobre (ou com) a realidade é através de intermediários. A mínima realidade que nos transcenda precisa já de um intermediário (leia-se médium). Tudo, em verdade, está mais ou menos revestido por um instrumento de manifestação que possibilita a comunicação de outro, comunicação com outro.
Nós espíritas estamos acostumados com a mediunidade que intermedeia a comunicação do Espírito desencarnado através de um corpo carnal dotado de recursos especiais. No indivíduo, o próprio Espírito manipula o corpo por intermédio do perispírito. Por fim, dialogamos por intermédio da linguagem verbal e não-verbal.
Recapitulemos as tríades:
Espírito desencarnado - médium - Espírito encarnado
Espírito - perispírito - corpo
Eu - linguagem - Outro
Da mesma forma:
Sagrado - símbolos e ritos - profano
Todos seguem mais ou menos esse padrão:
Transcendência - intermediário - Imanência.
Nas elaborações poéticas, tanto da Grécia antiga quanto dos Hebreus, entendia-se que não se poderia ver qualquer deus, ou o Deus, em seu esplendor, em sua totalidade. Qualquer manifestação divina se dava por uma imagem: um touro, por exemplo, para Zeus, a sarça ardente, para Deus.
Daí, entender, agora, que símbolos e ritos não serem mais do que a condição necessária para ultrapassarmos, ainda que na insuficiência intransponível, nossa limitação de lidar com o divino. A realidade absoluta é incomunicável ou inapreensível para nós relativos*. Daí constantemente chegarmos à esta tríade que os místicos vivenciam:
Verdade - silêncio - Sensciência
É assim que consigo entender a Santíssima Trindade:
Deus-Pai - Sua ação no mundo - Jesus.
É assim que venho sentindo Deus:
Eu de joelhos para Ele.
quarta-feira, 4 de outubro de 2017
Quero falar com minha avó que já morreu
Uma leitora do blog me questiona se seria possível se comunicar com sua avó já falecida. Segue o diálogo:
Ela: Oi, Allan, queria tirar uma dúvida contigo. Minha avó faleceu há 8 anos. Eu era muito apegada à ela. De toda a família, a única que ainda sonha com ela sou eu. Recentemente faleceu um tio e anda tendo algumas confusões familiares sobre herança. Queria muito tentar uma comunicação com minha avó. Nem sei se seria possível. Queria saber como ela está, algo assim. Venho de uma formação bem católica e tudo isso é desconhecido para mim.
Allan: Primeiro, queria agradecer por você ter de alguma forma confiado em mim para um assunto tão pessoal.
Seguinte, imortalidade da alma é a base. Ninguém morre, né? Acho que isso você acredita. O que o catolicismo não acredita ou abomina é a possibilidade de se comunicar com o que eles chamam de almas do purgatório. Mas, o Espiritismo mostrou que toda e qualquer alma que esteja no plano espiritual tem condições de se comunicar com os que estão "na carne" (encarnados). Basta pensar que quando morremos não mudamos em quase nada. Persistem os mesmos desejos, raivas, faltas, sonhos, saudades, etc. Então, pra sua pergunta se seria bom para sua avó se comunicar com você, pergunte se seria bom ela falar com você aqui. Se sim, seria.
Contudo, é muito importante, quando estamos do outro lado, deixar de se preocupar com as coisas daqui. Passamos a ter outras necessidades de crescimento. Todavia, nem todos conseguem se desprender. Ficam preocupados com o que foi deixado para trás e não conseguem focar nas novas tarefas.
Um conjunto de Espíritos amigos (entre eles o Anjo-da-guarda) estão ao redor da pessoa tentando lhe proporcionar uma ótima vida no plano espiritual. Não é proibido você querer se comunicar com sua avó. Talvez seus sonhos sejam ela se comunicando já com você. O que pode acontecer em uma mediúnica é: ela demorar pra se comunicar, pois não recebeu permissão ainda; se comunicar um espírito amigo dela, que pode estar querendo poupá-la, pois ela não sabe o que lhe falar para "resolver" o problema ou lhe consolar; ela se comunicar e propor nortes importantes para o que vocês estão vivendo; ela se mostrar aflita com a situação e demonstrar isso na própria comunicação. Entre outras várias possibilidades.
Me permita uma dica para um assunto tão delicado. Não espere muito de uma comunicação mediúnica em termos de ela lhe revelar uma solução para os problemas. Vá com o espírito de querer reencontrar sua avó e matar a saudade com algo mais palpável que um sonho. A mediunidade foi feita para que tenhamos fé renovada de que a vida não acaba, a pessoa não se dilui na eternidade, e o amor tem motivos de sobra para continuar existindo. Só isso*. Querer respostas para a vida presente, das preocupações da vida presente, pode ser uma grande frustração.
Ela: Aceitei bem a morte da vovó, apesar da saudade. Mas, ocorrem tantas coisas em sonhos que tenho com a vovó, que me deu vontade de ver melhor isso. Entendi tudo! O que mais queria era sentir que ela está bem, que está feliz, que recebeu meu tio lá, que ela viu meus gêmeos. Seria mais isso!
Outro dia, li uma carta mediúnica de alguém que uma amiga conhecia. O que me chamou a atenção foi o português tão rebuscado. Minha avó não falaria assim com tão pouco estudo. A comunicação seria, então, como ela fazia aqui? Um dia antes de morrer, ela me disse: "eu te amo tanto, você vai ser mais feliz do que pensa, por tudo que fez por mim!" Ela teve morte súbita no outro dia! Ou seja, não esperávamos e nem ela. Me pareceu muito um recado.
Allan: Sobre o português rebuscado, há algumas questões bem mais complexas sobre isso. Por exemplo, a mediunidade, que é o dom de ser intermediário para os desencarnados, não é algo igual para todos, existem graus. Existem aqueles médiuns que deixam passar a mensagem como se ele fosse apenas um gravador, e existem outros que misturam coisas da própria personalidade na comunicação. O médium sente a presença, às vezes chega a enxergar o Espírito, mas não permite que a mensagem seja passada com fidelidade absoluta. Nestes casos, você encontra as marcas do médium na mensagem que ele passa. É como se estivesse passando um recado de ter ouvido falar. Aí passa na linguagem dele, porém você reconhece que deve ter sido a pessoa que disse pois há informações muito particulares que ele não poderia saber.
E a respeito do recado que ela lhe deu, às vezes, perto do Espírito se libertar do corpo, ainda que este não esteja moribundo, abre-se uma lucidez não usual. É como se o peso dos sentidos da carne diminuísse, deixando acontecer um lapso de eternidade na consciência da pessoa. Daí, as profecias podem vir à tona, ainda que seja revestida de uma fala de carinho profundo. Aliás, tanto melhor quando vem assim.
Ela: Entendi. Bem interessante tudo isso! Deus existe!
Dançando com os mortos ou Vovó em mim
Um amigo dado ao estudo de muitas culturas para além da nossa se encantou pelo butoh.
... é uma dança que surgiu no Japão pós-guerra e ganhou o mundo na década de 1970. Criada por Tatsumi Hijikata na década de 1950.
Ela é a filha de um passado de respeito religioso aos antepassados com um presente (o pós-guerra) cheio de mortos. A técnica da dança pede para que o ator se deixe assumir por toda a morte que nos circunda. É como se cada movimento fosse guiado por um passo das sombras.
Quando você vê a coisa acontecendo, parece de fato bem sombrio. Não era para menos, a carnificina foi incomensurável. Há um luto profundo encarnado na dança. Parece que pega nosso coração atravessando o esterno e o acocha.
Como o princípio desta dança é universal - a vida está cercada por morte, animada uma pela outra - fiquei pensando o quanto estamos dançando no nosso cotidiano, e percebi particularmente vovó ao acordar.
Quase todos os dias, tomo um remédio, acendo o fogo, coloco água na chaleira, preparo o filtro do café, coo o café para a garrafa. Preparo o leite do filho mais velho, e acolho o mais novo nos braços descendo com a mãe dele pelas escadas.
Todos os dias, vovó deixava o sol entrar em casa, acendia a lareira, colocava uma pequena panela velha no fogo, e o cheiro de café inundava a casa. As tapiocas esperavam os netos à mesa, e nós, pouco tempo depois, invadíamos seu lar envolvidos pelo seu sol, pelo seu café e pelo seu abraço.
Parem um pouco e vejam o quanto o butoh, com mais saudade ou mais luto, está em nós.
sábado, 23 de setembro de 2017
Médium João de Deus, Lair Ribeiro e a morte de Marcelo Rezende
"Médium João de Deus e médico sofrem acusações após morte de Marcelo Rezende" diz a notícia que pode ser conferida clicando aqui.
Os repórteres registram que o médium João de Deus teria revelado (mediunicamente?) Lair Ribeiro como a cura para o câncer que matava Marcelo Rezende, famoso apresentador de um programa de TV.
Por que se deve tomar cuidado com revelações bombásticas de médiuns?
Qualquer espírita que leu qualquer livro introdutório de Allan Kardec responde isso brincando.
Médiuns não tem acesso a verdades absolutas. O mundo dos Espíritos a que os médiuns têm acesso é composto por um sem fim de habitantes que podem emitir revelações. Estes Espíritos são de todas as classes, desde os mais sábios aos mais embusteiros. Kardec havia pedido cautela com qualquer revelação. "Rejeitar nove verdades a aceitar uma mentira", aconselhava.
Nenhum médium pode se gabar de ser imune a espíritos enganadores. Ninguém é blindado contra a sugestão de mentirosos. Não há pessoa completamente transparente a si mesma. A quantidade de fragilidades presentes em nossa alma que podem ser utilizadas contra nós por qualquer um não tem conta. Não se pode receber dos médiuns qualquer informação que, pretensamente, venha do mundo espiritual sem análise.
Isso não quer dizer que a mediunidade não exista. Falhas de um fenômeno não provam a total inexistência do mesmo. Provam apenas que o fenômeno tem falhas. No caso aqui, a verdade que cai por terra é: "é confiável qualquer informação que venha de um médium confiável?". Resposta: não. Um médium de boa índole e que se vigie muito acaba por se tornar um excelente intermediário de Espíritos bons, mas nada impede que Espíritos dissimulados também se comuniquem.
O que acontece com as pessoas, particularmente as fragilizadas pela doença e sedentas de esperança, é que se apegam, como a uma tábua em alto mar, aos que trazem nos olhos certezas de salvação. É uma situação complicada, porque o milagre depende dessa entrega, o que implica certa anulação do espírito crítico. Porém, há outros fatores que geralmente desconsideramos: o tempo de Deus e o que para Deus é vida.
O sofrimento tem um tempo de acontecer no ser humano que é o da sua redenção. Sempre está de mãos dadas com um processo de amadurecimento do Espírito. Seu fim é a aquisição do aprendizado. Os espíritas, acreditamos que as curas de Jesus aconteciam na clarividência do momento certo de fazê-las nascer. Como um parteiro respeita o momento de tirar a criança.
E o fato de viver mais um pouco ou morrer são dois caminhos indiferentes para Deus, já que para Ele tudo é vida. Sendo o tempo uma ilusão para a eternidade, viver mais um pouco ou morrer, e portanto continuar vivendo de outro modo, com a busca de uma consciência em outro nível, são apenas vivências diferentes aos olhos de Deus.
Pense nisso, se você estiver diante de um médium, e um Espírito "de luz" disser a este que não se preocupe pois você vai viver ou sobreviver ou se curar do mal que te aflige, não será uma mentira se morrer, será apenas uma outra verdade que você não estava preparado para entender. Faltava o complemento da revelação, pois mesmo morto, estará vivo, redivivo, e em algum tempo liberto.
Em outras palavras: se você é uma pessoa apegada no aqui e agora, não confie em pessoas que tem o ponto de vista da eternidade, a frustração é certa.
quinta-feira, 20 de julho de 2017
Um caso de sonho mediúnico no interior do Ceará
O envolvido nos narra da seguinte forma:
"Uma senhora morreu e deixou um filho aos cuidados da amiga. Esta engravida e o Espírito da falecida aparece para minha esposa em sonho temendo pelos cuidados do seu filho, pois poderia passar necessidade já que poderia ser colocado de lado. Minha esposa acorda sabendo da existência de uma mulher que não tem intimidade, da gravidez dessa mulher, de que ela cuidava do filho de uma falecida, e, até mesmo - detalhe estranho - da data de nascimento dela. Vai falar com esta mulher. Ela nem sabia que estava grávida. Depois disso foi atrás do exame, deu positivo."
Casos como este se repetem aos milhares. Nada do que se admirar aos olhos espíritas. Todavia, é preciso todas estas chaves de compreensão para elucidar o caso:
1. As pessoas não morrem. Perpetuam-se para além do corpo, geralmente levando as mesmas preocupações do que quando vivas, mantendo pois a sua individualidade. Nenhuma identidade se dissolve no nada.
2. As pessoas que morrem, e se mantém vivas, podem se comunicar com quem está ainda no corpo carnal. Mas, não com qualquer um. É preciso ter uma abertura natural para que a comunicação se processe. Chamamos essa abertura de mediunidade, pois são pessoas que servem, de algum modo, de meio ou estão no meio dos dois mundos.
3. Os Espíritos, desvencilhados da carne, experimentam um alargamento de seus sentidos, podendo perceber detalhes que passam ao largo dos nossos canais de captação. Ninguém consegue ver uma gravidez em estágio inicial, mas um Espírito percebe as mudanças do corpo espiritual e mesmo do ambiente da pessoa, no que tange a vizinhança espírita(1) dela.
Por outro lado, existem chaves que bloqueariam a compreensão, as quais, por isso, devem ser questionadas criticamente:
1. Se o que vem aos nossos sonhos for produto apenas da nossa atividade de vigília, resíduos de cenas não elaboradas, como se explicaria a adivinhação do que nunca esteve ao nosso alcance?
2. Se os mortos não podem voltar para se comunicar ou se uma borracha divina for passada na consciência da alma ao fazer a derradeira passagem, por que tantas "visagens" tentando resolver assuntos inacabados?
3. Se as pessoas são pedras intransponíveis, onde apenas o que é muito tangível consegue chegar à consciência pelas portas dos sentidos que conhecemos dos livros de biologia, como explicar as intuições e as comunicações à distância que unem indivíduos cujos laços afetivos os fazem um só? As mães que sentem a dor do filho sem ver o ferimento, ou os amigos que antecipam o desejo do outro? Ou, por fim, as adivinhações? Não falo das adivinhações tolas, dos contos que tentam ridicularizar as cartomantes, mas das verdadeiras, que confundem nossa razão, que perturbam o que acreditamos ser a realidade, este tecido de conexões lógicas cujos elos só podem existir neste plano material. As adivinhações verdadeiras, as profecias, os vaticínios, arrebatam o Espírito do médium e o faz ter acesso a informações que estão para além de qualquer dado cotidianamente apreensível.
Dito isto, eis como fica a explicação:
- Sua esposa é médium. O Espírito dela encontrou com o da falecida ao sair do corpo no momento que este dormia. Dialogaram no plano espiritual. Ela retornou com informações novas, que eram fato já no mundo dos espíritos, mas ainda prenúncio no plano material. Foi ao encontro dos envolvidos no caso, e acabou sendo anunciante de coisas que estavam por vir.
quarta-feira, 10 de maio de 2017
Sobre Sense8
Demorei para falar sobre esta série porque até então me parecia que eles tocavam em apenas um ponto isolado dessa realidade que acredito: todos conectados. Dando apenas uma explicação evolutivo-adaptativa para isso. Mas, nesta segunda temporada, os Wachowski me pegaram.
Dia desses estava comendo uma pizza e lembrei que há meses um amigo havia me pedido o telefone de um médico. Disse que procuraria e perdi da memória. Retomei, de súbito, a promessa e, ainda mais de súbito, o celular toca. Era ele cobrando o número do especialista. 1. Eu lembrei. 2. Ele ligou. Nessa ordem.
O Sense8 fala de um mundo em que é possível a conexão entre indivíduos sem palavras. Essa conexão não é espiritual. É sentida na carne. Não é inteligível, como costumam dizer os platônicos, é sensível. E os irmãos Wachowski fazem questão de deixar essa sensibilidade bem clara em muitas cenas.
Nesta segunda temporada, deram para extrapolar a coisa toda e chegar na imortalidade das... memórias. Eles chegam a acariciar a memória de uma menina, que é a filha morta de uma mãe. Por Deus! Acariciar uma memória!
Acredito que muitas pessoas estão se identificando com o desnudamento das interconexões dessa série. Fico feliz. Prepara cada vez mais as pessoas para o mundo vindouro que já está aqui.
Herculano Pires falava que éramos seres interexistentes. Era como se nossa mente flutuasse entre dois planos: o do leme que guiamos e o do mar que nos balança.
No final da infância, começo da adolescência, sozinho na escola nova, onde todos menosprezavam o gordinho, subia a escadaria do ginásio e me tomava a conversar com o que dei para entender ser meu anjo-da-guarda. Charles era o seu nome. Quando ao Colégio Militar, em plena puberdade, a primavera dos amores aflorava nos sentidos, assim como o inverno da angústia de me entender no mundo. Entre amizades que se criavam e paixões choradas à sombra, escrevia em papéis perguntas sobre minhas emoções confusas a fim de que outros tomassem o papel, que tinha sob a mão, com respostas. Foram diálogos calorosos. Nunca estava sozinho.
Perto do vestibular, conheci uma moça que tranquilamente esculpia a cura do câncer no próprio corpo. Avançado que ele estava, restou a ela falecer. Já à faculdade, estudando indigestos livros de anatomia, de súbito, recordo-me dela. Entendo que se tratava de uma visita. Fecho os olhos, desdobro a alma em prece e acaricio a memória dela.
Hoje, tenho comigo pessoas que convergiram de zonas tão inesperadas para (re)unirem-se num grupo a que chamamos de "família espiritual".
Nós estamos aqui. Nossos clusters se multiplicam aos milhares. Qual o seu? Por que não experienciamos essa conexão com tanta intensidade?
Ao interior do Ceará, um amigo me convidou para aprender algumas primeiras noções de astronomia.
- Aqui é o melhor lugar para vermos as estrelas. Longe das luzes da cidade. Devemos esperar um pouco para os olhos se acostumarem com a noite. Apenas, então, será possível entrever aqueles brilhos que são mais tímidos. E quiçá, a sutil poeira das nebulosas.
De fato, amigo! Por uma vida com menos luzes e mais nebulosas.
terça-feira, 28 de julho de 2015
Naruto e o Espiritismo
Pela influência da raposa, ou não, sua personalidade é muito impulsiva e irritadiça. É aluno de uma escola ninja e tem o sonho de ocupar, um dia, o mais alto posto da aldeia, relacionado a essa arte marcial. Para isso, precisa seguir uma ascese espiritual que tem como uma das lições aprender a controlar o "chakra" da raposa dentro de si.
Segundo o desenho, chakra seria a energia espiritual que mantém o corpo vivo e batalhador. Geralmente temos essa energia fluindo em nós de forma inconsciente, mas quando aprendemos a dominá-la podemos realizar grandes feitos.
Aqui começa a profanação, digo, a comparação. Para o espiritismo somos dotados de uma força vital que nos mantém vivos. E essa força pode ser instrumentalizada para muitos prodígios. Ela descende do universo e é utilizada pelo Espírito reencarnante para dirigir a embriogênese e o metabolismo do corpo. O seu desequilíbrio é a causa da maior parte das doenças. Sua harmonia, da saúde. Contudo, podemos nos valer dela para curar outras pessoas, fazer os ditos milagres.
Por exemplo, uma das explicações possíveis para as curas que acontecem nos cultos das igrejas cristãs reformadas é o grande influxo de energia vital que é trocado entre os sãos e os doentes mediatizado pela fé.
Assim como em Naruto, a utilização dessa energia requer um aprendizado árduo, diria mesmo, ninja! A facilidade está diretamente relacionada com (1) a quantidade de energia disponível, o que pode ser em virtude de uma multidão com pensamento devotado a isso; (2) ao esforço próprio de uma vida disciplinada, o que explica, em parte, o milagre dos santos; (3) à influência de uma entidade infinitamente superior que nos utiliza como meio, é o caso da raposa de nove caudas presa em Naruto, é o caso de Jesus que liberta o ego de Paulo de Tarso a tal ponto de um dia - após muito exercício ninja-apostólico - o convertido de Damasco dizer "não sou eu quem vivo, mas o Cristo que vive em mim."
A questão é que Naruto nos dá uma excelente ideia de como deve ser a coisa para aquele que enxerga o mundo como o espiritismo ensina: nós podemos atuar energeticamente sobre os outros, ou Grandes Espíritos através de nós, contanto que nos dediquemos ao exercício do nosso próprio controle.
É assim que um passe meu vale menos que de uma pedra (fui correndo hoje de madrugada pegar o ibuprofeno pra baixar a febre do meu filho porque já chegava aos quarenta e nada de ceder com meu "chakra"), mas o de Chico Xavier, Francisco de Assis, Madre Tereza, etc...
domingo, 21 de junho de 2015
Sobre a carta psicografada de Cássia Eller
Suposta carta psicografada de Cássia Eller é divulgada na web. Leia a matéria aqui
Mexer com a atividade de Correio do Além é como mexer em uma casa de maribondo. Ainda mais quando se trata de um personagem famoso. Primeiro de tudo porque o médium terá que lidar com o luto das famílias, as fortes emoções que podem advir das revelações sobre a vida após esta vida. Depois, porque o quesito da identidade de uma comunicação é recheado de sutilezas que vão muito além de deixar transparecer particularidades da relação que unia o remetente e o destinatário.
Eu mesmo já tive um momento eufórico de intensa vontade de psicografia sobre a morte de um colega de trabalho. Assaltou-me a vontade de correr à sua família e contar minhas visões. Mas, como estava envolvido emocionalmente demais com o ocorrido, busquei ajudar de outra forma que não através dessa revelação intervencionista. Tão importante quanto deixar passar, é saber calar. Eis uma lição que Chico Xavier aprendeu em seu mediunato. Por que muitos médiuns, de todas as culturas, falam por parábolas, metáforas, provérbios? Porque a revelação sem intermediação do simbólico poderia chocar as mentes mais do que esclarecer, perturbar mais do que ajudar. As parábolas tem o mérito do exercício da interpretação que, quando bem conduzida, oferece lições para além do simples recado.
É bem melhor que as comunicações mediúnicas não sejam enquadradas no binômio verdade-falsidade, mas de verossímeis ou não. Verossímel é aquilo que guarda relação de possibilidade com a realidade, já que não podemos firmemente afirmar que seja de fato. E, se pensarmos bem, toda história, qualquer que seja ela, que não está sendo presenciada e vivida pela própria pessoa, que está apenas sendo narrada, transcrita, só pode ser analisada nos termos da verossimilhança. Se quisermos ser rigorosos, mesmo a história narrada por alguém que acabou de chegar do evento, só pode ser no máximo verossímel, já que toda narração é intensamente construída pelo narrador, com seu ponto de vista bem particular.
A relação mediúnica SEMPRE é uma interação entre o Espírito comunicante e o Espírito do médium. A mensagem SEMPRE tem participação das duas mentes. É um ajudando a contar a história do outro. Vede, então, a reserva que tem de se ter para com "a verdade" daquilo.
No mais, acho a carta de Cássia Eller bem verossímel. As descrições do ambiente do "inferno" muito semelhante a de vários Espíritos que já se comunicaram em situações semelhantes, embora haja essa estranha presença destes "dragões" cuja descrição já se apresentou em psicografias de Chico Xavier pelo Espírito André Luís, salvo engano, no romance Libertação, mas que não configura princípio de doutrina. A existência de insetos e anfíbios como figuras asquerosas a piorar o ambiente das zonas de sofrimento também é de levantar estranhamento, mas também estão presentes em vários outros relatos. A cena do reencontro com Cazuza não surpreende, ligados que os dois deviam ser pelas afinidades artísticas e comportamentais. E, por fim, a transmutação do discurso de Cássia Eller para um que valoriza a misericórdia divina não tem nada de anormal, já que, vemos isso constantemente, os sofrimentos atrozes, e a o véu que se rasga na consciência após a morte, tem o poder de reconduzir as pessoas para o pensamento em Deus.
O que Kardec sempre buscava fazer era se afastar dos detalhes e buscar a essência das mensagens:
- Há zonas de sofrimentos enormes, mas nunca eles são perpétuos;
- O abuso do próprio corpo, e não apenas o insulto contra o vizinho, é também motivo de sofrimento;
- A não existência de um lugar para onde vamos, mas onde já estamos, reflexo de nossa consciência viciada ("Com o fenômeno da morte, nós não vamos para o umbral, nós já estamos no umbral...);
- O resgate chega em momento oportuno, depois que o próprio Espírito está preparado para o mesmo;
- A união dos seres afins em lugares que são o reflexo do seu estado de espírito;
- O esclarecimento espiritual, objetivo de todos nós que labutamos nestes círculos de luz e sombra.
Sobre alguma particularidade que revelasse, sem sombra de dúvidas, a identidade do Espírito, não as enxerguei, mas nem conheço a intimidade de Cássia Eller tanto assim. Contudo, já não é suficientemente reconfortante saber que não há sofrimento eterno e tudo se encaminha para desfechos de grandes aprendizados em uma ascese espiritual interior?
Aconselho a leitura desta matéria aqui também.
terça-feira, 16 de junho de 2015
Há Espíritos?
Com essa pergunta Kardec inicia O Livro dos Médiuns, e sobre ela comento um pouco junto aos queridos amigos do Centro Espírita Irmão Leite.
Tento mostrar a importância dessa pergunta como alicerce da doutrina Espírita e no contexto da revolução científica em que se estava imerso àquela época. Por cima, mostro a evolução da análise de Kardec da fenomenologia espírita e sua formação de hipóteses com a conseqüente construção das teorias que hoje abraçamos. Quase no final, cito alguns episódios bíblicos que apontam mediunidade entre os hebreus e a vivenciada por Jesus.
Ao final - eis onde quero chegar - bem ao final, eu começo a formular pela primeira vez uma teoria minha sobre COMO O AMOR FAZ COM QUE SE RECONHEÇA A EXISTÊNCIA DAS PESSOAS, E COMO O CONTRÁRIO AS TORNA VERDADEIRAMENTE INVISÍVEIS. Contudo, como era uma elaboração inédita de uma tese difícil de explicar, acho que me embaralhei um pouco, e o cérebro cansado de tanto raciocínio me traiu.
A tese é a seguinte: independente de vivos ou mortos, seres humanos ou de diferentes espécies, o outro só se torna um existente para mim quando eu passo a amá-lo. Só assumimos, de fato, a radical verdade de sua existência quando se ama o outro. Mil vezes minha esposa passou por mim na vida, e pouco reservei no espírito um espaço para que ela o ocupasse, mas quando passei a amá-la... não sei como hoje posso viver sem ela. Falo de minha esposa, com quem tenho um filho lindo, mas vale também para outros amores: o amigo que ontem era apenas um cabeludo qualquer. Quando amarmos verdadeiramente, por exemplo, de forma franciscana, tudo ao nosso redor importará e existirá com muito mais intensidade.
Bem, fica o começo da tese, sem tanta elaboração para ser pensada. Deixo vocês com o áudio da palestra gentil e carinhosamente escutada pelos freqüentadores do Centro Espírita Irmão Leite e, espero, por você.

sábado, 23 de maio de 2015
Sobre sonhos com pessoas mortas (& cia)
"Tive um sonho com meu pai... com minha avó... com meu esposo... com uma pessoa que faleceu logo após... com uma amiga... e ele (ou ela) estava assim... me disse isso... pediu que eu dissesse isso para fulano... aconselhou-me isso... Era muito real!"
Várias pessoas já me abordaram sobre esse assunto. O que poderia significar?
Quando elas vem perguntar para mim, sabem que sou espírita. Não estão abordando o Allan médico. Então, já supõem o que vou dizer: endossarei a sensação que elas têm de que aquilo foi real, aconteceu de fato. É o que o Espiritismo diz. Quando dormimos, o corpo repousa e o Espírito perambula por lugares onde a vontade, antes de dormir, estava afim. Encontra-mo-nos com pessoas com quem travamos diálogos corriqueiros ou que nos fazem revelações, nos fazem de mensageiros, nos orientam.
Por vezes se acorda extremamente cansado. Não se deve ter andado por bons lugares. Outras vezes se está leve. Quão prazeroso deve ter sido esse encontro! Quando voltamos para o corpo, a percepção espiritual é perturbada pela densidade corporal, e as imagens tornam-se truncadas, enigmáticas. Muitas vezes esquecemos do que ouve, então dizemos: não sonhei.
O sonho, portanto, pode ser uma lembrança do que aconteceu com o Espírito enquanto o corpo dormia. Mas, não sejamos radicais, pode ser também algum resquício de atividade cerebral que, então, misturar-se-á com as lembranças da vida espiritual deixando os sonhos ainda mais confusos. Também pode ser o que os freudianos dizem: cenas simbólicas de experiências recalcadas que se reverberam no aparelho psíquico. Todavia, escutem só essa, quando um psicanalista trabalha muito com o conteúdo dos sonhos, um Espírito protetor da pessoa analisada pode mandar mensagens através dos sonhos que ajudem ao psicanalista entender o caso da paciente, dando nortes na condução da terapia.
Temos que entender a realidade como um emaranhado tecido em que os novelos do mundo espiritual se entrelaçam com as experiências materiais. Dividimos os planos por questão didática, mas a verdade é que as coisas estão tão imbricadas que algumas divisões obscurecem mais do que explicam. Importante, de vez em quando, fazermos esse esforço mental de nos entender como seres conectados em teia. Isso vale para as vidas múltiplas. O passado se engalfinha com o presente projetando um futuro de forma dinâmica. O presente elabora o passado, gerando o futuro sempre mais promissor, reza o otimismo espírita.
- O que fazer com estes sonhos reveladores? - acho que é o que mais querem saber de mim.
Sem se fixar na mensagem literal que lhe foi passado, deixar as portas abertas para encontrar o significado que, em momento oportuno, poderá ser utilizado em serviço que se pretendia com a mensagem. Você é um intermediário, o momento certo de utilizar o que lhe foi dado aparece. Importa ir em busca de alguma forma, mas sem muita insistência a fim de que não vire uma obsessão. Quando o receptor estiver pronto, e o meio for oportuno, a mensagem ficará clara.
sábado, 21 de março de 2015
Inquisição de Curandeiros em pleno Iluminismo
O historiador Thimothy Walker, da Universidade de Massachusetts-Dartmouth, andou pelas terras de Portugal coletando dados para o seu doutorado sobre a caça aos bruxos curandeiros à época da inquisição portuguesa no auge do século XVIII.
O século XVIII, pessoal, foi o século do Iluminismo, da Enciclopédia, de Voltaire que dizia defender até a morte o direito do outro falar embora não concordando com ele. Havia visto há pouco Descartes separar igreja e laicos no pensamento do método, Newton com um galo na cabeça pela maçã que o fez ter a intuição da gravidade. Mas, claro que isso se deu para além da península Ibérica, porque nesta, a cauda da inquisição ainda deixava escombros.
É isso que vai mostrar Walker em seu livro Médicos, medicina popular e Inquisição: a repressão das curas mágicas em Portugal durante o Iluminismo. Tendo passado oito (!) anos lendo processos de inquisição, descobre o forte conluio que a medicina oficial firmou junto à igreja a fim de desacreditar as práticas e punir os praticantes da medicina popular. Diz-nos o pesquisador:
"Acreditava-se que algumas pessoas nasciam com um dom, uma capacidade divina de curar pelo toque das mãos. Eram os chamados saludadores. Eles usavam suas mãos para ‘extrair’ a doença ou o que quer que fosse que estivesse a causar sofrimento ao paciente. Por isso, os saludadores preocupavam muito a Inquisição. Pois, teologicamente, havia um entrave: ou essas pessoas estavam sob forças demoníacas; ou Deus poderia, quem sabe, estar mesmo atuando por meio delas. Isso seria um problema e tanto para a Igreja, pois naquela época ensinava-se que a era dos milagres já havia terminado. E a existência de pessoas comuns com capacidade de cura era algo que contradizia a ortodoxia da Igreja." (em entrevista ao Ciência Hoje)
Vamos aprofundar um pouco a questão de "Deus poderia, quem sabe, estar mesmo atuando por meio delas".
A base do cristianismo oficial é que Deus se manifestou em Jesus e, por isso, ele conseguiu curar e, o que estava constantemente associado ao ato de cura, perdoar pecados. Se um qualquer pudesse fazer esse mesmo ato, Jesus poderia não ser mais que um simples mortal, portador de uma brecha para divindade como qualquer outra pessoa. Claro que sua superioridade moral ainda valia demasiadamente, mas eram os milagres que deram à sua palavra a força de Deus. Se Jesus fosse apenas o mais bem dotado de todos os seres humanos que já passaram pela Terra, diferindo-se de nós apenas de forma quantitativa e não qualitativa, isso seria o fim de uma autoridade que descolava a Igreja do mundo secular, deixando seu poder fragilizado.
As conseqüências para essa fragilização do poder espiritual não se daria apenas em termos de política e economia, mas dentro dos próprios valores morais que sustentavam as pessoas, bem como na dissipação das angústias sobre o destino último da vida que, rezava o catecismo, seria ao lado daquele que, tendo vencido a morte, era o dono do Céu em que se findavam todas as misérias que o mundo material outorgara.
Todavia, é exatamente esse desfecho que o Iluminismo vai lograr alcançar na secularização do mundo. Destruindo o poder intemporal da igreja e dos nobres, as pessoas terão o terrível desafio de encontrar o sentido da vida em outro lugar que não no Céu ao lado de Jesus. Terão de fundar o Reino dos Céus na Terra, pelas próprias mãos. É essa a proposta da democracia. Será a luta dos socialistas. Será a busca dos liberais. Com que armas? Nada que escape do humano. Nada que lembre os sacerdotes ou a natureza hierarquizada da realeza. Tudo que seja próprio do homem: a luta, o trabalho, o debate, o diálogo, a razão. Nada de dádiva, nada de dom, nada de messianato.
É nessas últimas negações (contra a dádiva, o dom e o messianato, acresça-se a esta lista o mediunato) que o Iluminismo será também um inquisidor da medicina popular. É essa obra que eu ainda estou para encontrar. Precisamos de alguém de fôlego e coragem para construí-la. Sobre isso falarei em outro post.
***
Ficam mais alguns lugares em que você pode ver mais sobre o estudo que citei:
- Entrevista concedida à Agência Fiocruz de Notícia: aqui.
- Entrevista concedida ao Ciência e Letras:
sábado, 31 de janeiro de 2015
Curar é assumir os demônios das pessoas
Tive um pesadelo dias desses em um plantão. Pacientes começavam a chegar ininterruptamente trazidos pelas ambulâncias, sangrando muito, com cortes grandes. Mas, o pior deles estava com uma úlcera na zona axilar, por onde tínhamos acesso ao pulmão, que estava completamente enegrecido e se desfazendo. Sem dor e sem anestesia, conseguíamos retirar os arcos costais anteriores, e a paciente viva. O pulmão se desfazia necrosado em uma pasta gelatinosa que um dos estudantes que nos acompanhava inventou de provar um pouco para tentar reconhecer o tipo de câncer que estava a nossa frente. Isso fez com que um edema de glote se instalasse nele. Foi só então que eu, até agora sob controle das minhas emoções, comecei a me desesperar.
- Não podemos deixar esse rapaz morrer! - acordei.
É que só naquela noite, em vigília, havia atendido dois edemas de glote. Graças a Deus (e a adrenalina) os consegui sanar.
A nossa concepção de cura é que sanar um paciente é devolvê-lo a normalidade fazendo desaparecer o mal. Desaparecer, esfumaçar, virar nada, extinguir, exterminar.
Não é assim que o antropólogo Mauss entendia. Estudando sociedades tradicionais, em que vigia a medicina xamânica, via que as doenças eram consideradas espíritos que muitas vezes o xamã trazia para si, fazendo-os se manifestar em seu corpo, e nele os aquietando.
No espiritismo funciona assim, também. As doenças que são tidas de difícil cura pela medicina oficial são trazidas para nós. Constatamos, nas mediúnicas, que se não é um Espírito provocando diretamente a doença, o é facilitando o processo patológico.
O que a hipótese de Mauss e a concepção espírita tem a nos dizer, a nós médicos, independente de acreditarmos ou não em espíritos, é que a doença não desaparece. O curador parece deslocá-la de lugar ou compartilhar o mal para que ele pese menos sobre o doente.
Dividir a doença com o doente, é isso o que acontece conosco, curadores e doentes, mesmo de forma inconsciente. Fica sempre um pouco da dor do paciente em nós. Foi isso que um professor de psiquiatria disse para a gente após um turno de atendimento:
- Vê! Não suturei, não interpretei radiografias, não peguei veia nem intubei ou massageei ninguém. Mas, ouvir todas essas dores me esgotou demais.
E ele sai do ambulatório encurvado como se carregasse o peso (os demônios) de muitos.
terça-feira, 30 de setembro de 2014
Sobre o medo que temos dos Espíritos
Uma colega de trabalho me fez a seguinte pergunta: "Venho sentindo muito a presença de Espíritos em minha casa. Às vezes tenho até medo de olhar e ver. Quando temos medo de ver o Espírito é porque ele é ruim?"
Não acho. Temos medo de quase tudo que nos é desconhecido. Muitas pessoas dizem que tinham medo de mim antes de me conhecer. Não que eu seja uma pessoa boa, mas não me considero ruim. Acho mesmo é que estamos completamente desacostumados com essa realidade espiritual ao nosso redor.
Nossos últimos séculos corroeram a crença de que há Espíritos espalhados em todo o lugar, em tudo, em todos. Desencantaram o mundo, dizem. Mas, esse desencantamento possui conseqüências graves. Como que produzindo o seu contrário, o século das Luzes desemboca na era do extermínio das raças. Se você é uma ameaça para mim, basta que eu não te conceda o certificado de meu semelhante para que eu possa te exterminar. É quase como se fosse um não-existente. Se eu não te enxergo como merecedor do status de existente, facilmente posso te extinguir do meu quadro de possibilidades de vida. Falo do holocausto dos judeus, mas dos abortados também.
Entendem onde quero chegar? Se não pudemos matar os Espíritos, fizemos com que pelo menos fossem inverossímeis. O status de existente deles foi ridicularizado. E isso foi mais uma estratégia política-ideológica do que científica. Essa realidade espiritual-divina era usada para justificar poderes mágicos para classes nobre-sacerdotais que impediam outras classes de ascender ao poder.
Tolice! Os Espíritos não conferem nem justificam poder à classe alguma. Eles, somos todos. É isso o que nos falta ver. Quando assimilarmos essa identificação visceral entre nós, ver Espíritos será tão natural quanto respirar.
(Certamente, eu respondi para ela só aquele primeiro parágrafo em negrito. O resto desenvolvi aqui pro blog).
terça-feira, 8 de julho de 2014
O que é uma Sessão Mediúnica?
Todas as segundas vou para a do meu centro espírita. Lá no fundo há uma sala. Um ventilador simples e quase quebrado gira, espalhando um pouco de poeira no ar. Os Espíritos desde já nos protegem, me impedem de espirrar. Algumas poucas teias de aranha no telhado. Esquecemos de limpar!
Vão chegando, de um por um, amigos que apertam as mãos, se dão um abraço. Há um médico, um bombeiro, um representante de farmácia, um pedreiro, um músico, uma servidora pública, uma dona de casa mãe de muitos filhos. Cantam algumas músicas, fazem uma prece, pedindo permissão à Deus para começar a se comunicar com os Espíritos, lêem uma a duas páginas de um livro instrutivo, alguma passagem do evangelho. Colocam um punhado de nomes em um caderno improvisado. Todos deverão manter aquelas pessoas em mente querendo ajudar.
Apagam-se as luzes. Abre-se uma menos intensa que permita melhor concentração. Alguns dos presentes, tentando conter os impulsos para que seja um por vez, começam a deixar sentimentos estranhos a si aflorarem. Aqui é um que chora a culpa do assassinato do irmão, ali um senhor que nunca deixou de amar a mulher que está triste em vida, acolá a fúria de alguém que não gosta que tentemos ajudar a quem ele persegue por vingança. São melancolias, ironias, atordoações, zombarias. Mas também são instruções, consolos, amizades, alegrias. É um anjo bom que fala sobre a vida que vinga para além da vida, um velho simples que adverte sobre as pedras do caminho, uma jovem que chora a gratidão da música que o violão de um dos presentes tocava fora dali. E, para todos, uma palavra amiga do coordenador da reunião. Sem gritaria, sem consternação; com respeito, com persuasão. Os Espíritos amigos pedem que se fale com mais amor. O amor é uma lição que estamos pelejando por aprender sempre, cada vez mais.
A mesa não é branca. É uma grande mesa marrom um pouco carcomida por dentro de onde saem, vez ou outra, algumas formigas para olhar o que acontece fora. Uma delas tem que se desviar da gota que caiu ali. Era a lágrima de uma mãe que chorava a perda do filho nas drogas. Outro desvio. Era a lágrima de um filho que voltava a ver a mãe depois de tanto tempo perdido.
A pequena sala é lotada, apesar de sermos só sete, às vez oitos, outras seis. Nem todos são tão médiuns a ponto de deixarem os Espíritos falarem por si. Ao final, mesmo estes menos médiuns sempre têm algo a contar. Foi um peso na nuca, foi um sopro no ouvido, foram luzes aqui e ali a piscar.
É uma prece boa que finda o trabalho. Os livros guardados no armário. Uma coceira chata dos pernilongos nas pernas. Uma felicidade no ar. Ninguém sabe de onde vêm, nem para onde vai.
- Vou pra casa!
- Pode me deixar ali?
- Claro! É meu caminho. Vamos lá!
Veja outras definicões de termos espíritas AQUI!
quarta-feira, 2 de julho de 2014
Continuando o diálogo sobre Obsessão Espiritual com os médicos
Em resposta a nossa postagem sobre obsessão espiritual, o Dr. George Magalhães partilha a seguinte experiência:
Anos atrás, conversando com minha psicanalista sobre estes aspectos, os limites da medicina, ela me contou esta história que se passou com um psicanalista amigo dela em outra capital. Ele, com alguns pacientes que não conseguiam sair do canto - uma análise emperrada, como se um algo existisse que não percebesse - ele tinha um amigo médium de um centro espírita. Perguntou a este amigo se não poderia ver alguns destes poucos e intrigantes pacientes. Como psicanalista, não tinha crença alguma, mas tinha a curiosidade. O seu colega médium se dispôs a ver os poucos casos no centro espírita e, de fato, alguns analisados estavam obsediados e passaram a melhorar e entrar em análise após alguns passes. Mas, o incrível é que alguns pacientes foram devolvidos com uma pequena carta: "Amigo continue o tratamento deste paciente, seu caso não é daqui, não está obsediado." Minha psicanalista disse-me que o amigo dela lhe comentou que era verdade, estes pacientes depois de algum tempo ou haviam melhorado ou haviam tido necessidade de farmacoterapia.
Uma pesquisa empreendida em 2004, por Frederico Camelo Leão (acesse aqui esta pesquisa), havia realizado experiência semelhante à relatada pelo nosso professor, jogando em cima alguma análise estatística, concluindo, com certa significância, a melhora clínica e comportamental dos pacientes em comparação com quem não havia sido submetido à intervenção.
A coisa é revolucionária! Você pegar o nome de pacientes, colocar em uma mesa mediúnica alheia aos casos abordados, e nela serem construídos diálogos que apaziguam entidades espirituais que possam estar comprometendo a saúde deste ou daquele sujeito - minha nossa! Não é uma hipnose que se aprofunda no inconsciente do indivíduo no divã a fim de mexer com seus traumas recalcados. Nem muito menos uma sessão de terapia que visa mexer com esses traumas pelas vias do fortalecimento da consciência. É como se você pegasse estes traumas, arrancasse dos indivíduos, levasse a um círculo mediúnico e começasse a falar com eles intermediados por outro corpo que não o do paciente. Entendeu? Seriam Traumas com T maiúsculo, portadores de identidade e materialidade (até onde se pode usar essa palavra?) próprias, independentes do aparelho psíquico original do "caso" em questão.
Platão falava da realidade substancial do Bem, do Belo, da Verdade, como se fossem entidades que você pudesse ver, tocar, abraçar, cheirar, beijar quando tivesse elevado seu espírito à altura do Mundo das Ideias. Falamos aqui de Traumas, Violências, Vinganças, Ódios, como se fossem entidades com quem você pode dialogar intermediadas pelo corpo de uma pessoa em transe. Os poetas, como Homero e Hesíodo, na Grécia homérica, eram tidos como intermediários dos deuses. Seus poemas, como mensagens. Muitas vezes, dava-se menos importância ao homem do que à sua fala que, todos acreditavam, estava vindo de uma musa, e ele, mero mortal, não era mais que um gramofone.
Hipócrates, por exemplo, contra essa mentalidade mitológica e antecipando assustadoramente a mentalidade moderna, dizia: "Na minha opinião ela [a doença sagrada - imposta pelos deuses] não é nem mais divina nem mais santa que qualquer outra doença tendo, ao contrário, uma causa natural, sendo que sua suposta origem divina se deve à ignorância dos homens."
Mas, o professor acha incrível que os Espíritos coordenadores das sessões mediúnicas tenham devolvido alguns casos, alegando não serem questões de obsessão. Pode ser incrível para os muitos espíritas que culpam os pobres dos Espíritos de tudo o que acontece na vida deles. Todavia, a nossa modernidade se fundou sobre a rejeição do mundo dos espíritos, do sagrado mediúnico, da Natureza portadora de alma, devolvendo os casos antes considerados espirituais para a ciência da natureza material. Na verdade, para os modernos, a resposta do Espírito não passa de sensatez.
"A Interpretação dos Sonhos" de Freud havia sido revolucionária exatamente porque rejeitava o viés profético-místico da mensagem onírica a favor de uma mensagem que partia da própria pessoa, mensagem subliminar, criptografada, exalada de seus calabouços psíquicos onde muita coisa rastejava em sussurros. Ele insistia na imanência dessa mensagem na história do próprio sujeito em detrimento da transcendência da mesma vindo de deuses ou demônios. O que era revolucionário para a época não passa de senso comum dos nossos dias.
Incrível mesmo, olhando o fenômeno com minha face moderna, é estes pacientes terem melhorado diante da simples dedicação de algum punhado distante de médiuns reunidos a fim de ajudar nestes casos. Eu acharia isso, na verdade, um tremendo absurdo, se eu já não tivesse me convencido de que é verdade.
terça-feira, 30 de julho de 2013
Influência dos bons Espíritos
O objetivo da palestra era ultrapassar um pouco a imagem que temos de que influência espiritual é só uma questão de anjinho versus diabinho no ouvido. Há vários caminhos para engrandecer essa reflexão, por exemplo, esclarecendo as influências que nós, Espíritos encarnados, exercemos uns sobre os outros. Todavia, focarei nesse post o caminho de retirar o pessimismo das influências satânicas, alargar o horizonte da vida espiritual com a população invisível que compartilha espaços semelhantes do cotidiano e, por fim, deixar uma mensagem de otimismo sobre a dedicada missão de nossos (de todos nós!) anjos guardiões.
Comecei, então, tentando destruir a ideia de Satanás na cabeça do público. Como o Espiritismo faz isso?
Não nos valemos de um arcanjo poderoso para, com uma espada incandescente, matar o anjo decaído. Simplesmente, submetemos o Diabo às leis da natureza e o fazemos reencarnar. Em condições tais que ele não poderá ter poder na vida, devendo elevar seu Espírito com as dores da humana condição terrena e cultivando as virtudes com o suor do rosto. Para conduzir essa educação é mister pai e mãe exemplares que aceitem essa missão com sincero amor ao próprio filho e à Deus. Pronto! Nenhuma violência foi necessária, a não ser a de submeter compulsoriamente um Espírito obstinado no mal ao manto de sangue, ao arcabouço de ossos, às vestes de carne e às lágrimas de um coração que já pode ter piedade.
A segunda parte é a descrição de um mundo repleto de habitantes para além dos nossos olhos. Seriam eles mais neutros que bons ou maus. Perambulam pelas ruas, assistem aos cinemas e aos teatros, se valem de ônibus para se transportar, porque completamente ignorantes da própria condição de imortalidade e, ainda pior, do sentido de toda essa vida errante. Visitam parentes, amigos, pessoas caras. Dialogam com elas através do pensamento. Rejeitam a ajuda de pessoas estranhas, mas cândidas, que lhes querem resgatar dessa vida alienada. Quase conseguimos enxergar todos os habitantes da Terra nessa situação. De fato, é mais ou menos assim, a morte não nos muda, só nos atrapalha por um instante, depois retomamos uma forma de viver que nos era muito peculiar. A espiritualidade nos faz enxergar o sentido das coisas, o rumo dos passos. Todavia, sem ela, sem direção. Ficamos a mercê dos atos ordinários de cada dia.
Na terceira, tentei evidenciar nossa condição de “interexistentes”, como frisava o prof. Herculano Pires. Somos como que navegantes em um barco a deriva, ora fixando no leme e na rota do barco, ora em todo o oceano e sua beleza, no horizonte e sua imensidão, nos pássaros e sua liberdade. O barco e o leme são o corpo, a rota, essa vida, as outras coisas são tudo o mais que transcende isso aqui. Por menos médiuns que sejamos, somo mais médiuns do que imaginamos. Os momentos de ausência e fuga são a percepção da presença de tudo o que escapa aos nossos costumeiros sentidos e o mergulho em todo esse universo que nos embala para além da matéria. Não podemos nos esquecer que a carne é porosa, e isso diz tudo sobre a mediunidade de todos nós.
Temos, até agora, um mundo sem anjos perpetuamente devotados ao mal, com milhares de Espíritos nem bons nem maus ao nosso redor e um corpo esponjoso que está receptível às mais variadas influências. É nesse cenário que introduzo a teoria dos Anjos Guardiões a que Kardec dedica trinta e três itens de O Livro dos Espíritos:
“É uma doutrina, esta, dos anjos guardiães, que, pelo seu encanto e doçura, deverá converter os mais incrédulos. Não vos parece grandemente consoladora a ideia de terdes sempre junto de vós seres que vos são superiores, prontos sempre a vos aconselhar e amparar, a vos ajudar na ascensão da abrupta montanha do bem; mais sinceros e dedicados amigos do que todos os que mais intimamente se vos liguem na Terra? Eles se acham ao vosso lado por ordem de Deus. Foi Deus quem aí os colocou e, aí permanecendo por amor de Deus, desempenham bela, porém penosa missão. Sim, onde quer que estejais, estarão convosco. Nem nos cárceres, nem nos hospitais, nem nos lugares de devassidão, nem na solidão, estais separados desses amigos a quem não podeis ver, mas cujo brando influxo vossa alma sente, ao mesmo tempo que lhes ouve os ponderados conselhos.” (L.E. 495)
Há, depois, uma pergunta intrigante sobre a necessidade de se ter sempre um protetor. O Espírito responde que, quando a pessoa atinge certo nível de maturidade espiritual, a tal ponto de poder “guiar-se a si mesmo”, o “momento chega em que não mais precisa de mestre”. Acrescenta, contudo, que isso não se dá na Terra. Mas, já presenciamos um Espírito nesse estágio...
Era Jesus. Diz-nos Emmanuel que os planetas por onde esse Espírito cresceu, seus sóis já se esfacelaram no espaço. Não mais sendo possível o seu tropeço, segue senhor de si, o que significa completamente em harmonia com a Vontade do Senhor das Estrelas. Veja, portanto, que não é possível deixar de receber influência de alguém. O almejado é que essa influência seja a todo tempo ainda mais nobre, a tal ponto de chegarmos a entender Deus. Poder-se-ia dizer que se a vontade do filho é igual a Vontade do Pai, não há mais influência, senão trabalho em conjunto. Que seja! Os jogos de palavras importam menos que a beleza desse fim.
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