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sexta-feira, 14 de abril de 2017
Punho de Ferro e seus dilemas espirituais
Um super-herói que não foi treinado, nem escolhido, para salvar a humanidade, mas apenas um pequeno povoado mágico dos confins do Himalaia. Esse seria o Punho de Ferro.
Anunciado por uma lenda de que cairia do céu, como que sendo o elefante branco da mensagem onírica que antecede a vinda de Buda, Daniel Rand, um garoto americano vítima de um acidente de avião, por assim dizer, rouba a vez dos meninos de K'un-Lun.
Passando por um rigorosíssimo treinamento marcial, é coroado com o dom do Punho de Ferro, uma linhagem de guerreiros com poderes especiais destinados a impedir que a passagem da cidade sagrada fosse violada pela invasão de uma grande organização criminosa chamada Tentáculo.
O seriado veiculado pela Netflix inicia com o herói buscando o reencontro com seu passado. Ingênuo, vai tentando entrar nos lugares familiares, mas que hoje se revelam hostis. A princípio a hostilidade é porque o mundo o esqueceu. Depois descobre que o mundo não apenas o esqueceu, como forjou sua morte.
Rand utiliza o poder do Punho de Ferro (propriedade espiritual do povoado de K'un-Lun) para, em vez de salvar aquele povo, reconstituir a paz com o que sobrou de sua família. Sua escolha é de tal modo comprometedora que, ao final descobrimos, sua ausência no povoado significou a morte deste. Imaginava estar exercendo a verdadeira função do Punho de Ferro, destruindo os planos do Tentáculo, justificando o que na verdade consistia a busca de preencher seu próprio vazio. Contudo, não esperava que o Tentáculo tivesse ubiqüidade tão grande no mundo, ao ponto de uma mão estar aqui - ele a combatê-la - e outra estar, lá distante, esmagando K'un-Lun.
O principal conflito do herói resgata o dilema maior das mentes ocidentais: (1) esforçar-se por dar paz à família ou (2) sacrificar tudo em nome da vida de uma tradição espiritual. Mais do que isso, há o choque de duas visões de salvação aqui: uma que prega ser a família o caminho que conduz o homem a sua inteireza e ao seu exercício da vontade de Deus (o judaísmo, o cristianismo para os leigos); outra que diz ser o apego o pior dos males, e que mais válido é buscar sua luz na prática de exercícios espirituais junto ao isolamento sagrado de uma comunidade que partilha a mesma busca (o cristianismo e o budismo de monastério).
O que deixa uma brecha para a reconciliação destas duas visões de salvação na história é que o menino branco fora profetizado. As profecias não se enganam. Quando muito, elas fazem cumprir o prometido de forma incompreensível para as mentes cotidianas. K'un-Lun foi destruída? Como se pode destruir uma cidade espiritual? Mais fácil ela ter encontrado seu verdadeiro lugar no cosmos multidimensional. Daniel Rand derrotará o Tentáculo? Estamos torcendo. Nada impede que se dedicar ao amor apego pelos seres humanos particulares possa acontecer conjuntamente à busca de concretizar nossos maiores deveres espirituais para com as tradições que nos dão nortes. Pelo contrário, a missão fica mais difícil, mais grandiosa, mais arrebatadora. É o símbolo de Cristo crucificado por muito ter amado os que o crucificaram.
sexta-feira, 3 de março de 2017
Doutor Estranho e o Espiritismo
Poderia falar sobre o corpo astral, as múltiplas realidades, particularmente a espelhada, as lutas místicas paralelas ao nosso dia-a-dia, que são tantos temas que o Espiritismo aborda de outro modo e com outros termos, mas o que quero falar mesmo é da trapaça da Grande Anciã.
Leia apenas quem já assistiu ao filme, porque aqui falo sobre o nó górdio da questão:
(pausa)
- Para proteger o mundo é preciso trapacear as leis naturais.
Kardec nos falava que não havia fenômenos sobrenaturais, que Deus não precisava demover suas leis com milagres para fazer as coisas acontecerem. Tudo era natural, até mesmo o que dizíamos sobrenatural. Ao mesmo tempo, entendia que Deus poderia sobrepor a natureza se quisesse, já que era dela soberano. A posição de Kardec era, assim, mais ou menos cartesiana, tendendo a leibniziana, e quase iluminista. Teria realmente Deus a possibilidade de derrogar suas leis já que tão perfeitas? Se elas não precisassem ser derrogadas de forma nenhuma, então seria como em um relógio em que o criador dá a corda e já não precisa fazer nada.
Em Doutor Estranho, vimos que a primeira grande metáfora geradora de todo o despertar do herói foi a quebra das mãos (que proporcionava sua arte regeneradora de vidas) e, logo depois, do relógio (símbolo da precisão e da referência absoluta da física clássica). Isso teve de acontecer para dar lugar a mente-espírito e ao indeterminismo, pois revela-se por todos os lados uma realidade cambiante ao infinito.
Na história da nossa ciência, quando Heisenberg semeou a incerteza no então bem sólido edifício da física, algumas pessoas entenderam que era o golpe final ao Deus cristão. Mas, não! Na verdade, era o anúncio do regresso. Um universo incerto carece de um agente universal, como que um Grande Arquiteto, que o faça coerente. Este pode ser um Grande Espírito Cósmico, talvez Deus. O fato é que a realidade que escapa ao determinismo só tem sentido como realidade palpável, cuja obviedade vemos e sentimos cotidianamente, se um agente externo estiver atuando para que ela seja assim.
Não adianta os profetas da Nova Era insistirem em falar que a mente pode tudo, se o que nos é exterior se impõe de forma esmagadora. A intimidade da matéria revela sua indeterminação? Como não nos afogamos nela, então? É que esta indeterminação é virada ao avesso diuturnamente por um trabalho secreto de inteligências invisíveis que nos dão segurança.
A história de Doutor Estranho retoma a lenda dos magos celtas que possuíam um conhecimento prodigioso sobre as forças ocultas da natureza. Fala sobre um conjunto de guerreiros que se debruça na manutenção da ordem planetária em níveis supra-humanos. Fala mais ainda que a virtude do mago não é prestar culto ao determinismo das leis, mas ser flexível para deixar-se levar pela correnteza de certo veio que deve emanar da verdade da vida, que é fluida por definição.
Perceba que, mesmo diante de tantos possíveis que explodem aos olhos de Stephen Strange, um imperativo ético acaba guiando sua conduta. Nem tudo é possível, pois. Ainda sobre-existe uma transcendência robusta, a qual ele aceita em sabedoria.
Alguns podem interpretar que a fonte desse imperativo é a própria pessoa (seria uma imanência). Defendo que a própria pessoa só chega a ter esse poder todo se ela houver, enfim, encontrado a fonte de tudo, que é Deus (é uma transcendência na imanência). Não é que no fundo de nós sejamos o Deus, mas sim que as marcas de Deus em nós nos levam a Ele.
Deus, portanto - e esta já era uma hipótese latente no Espiritismo, elucidada pelo professor José Herculano Pires(1) - é, não apenas o que cria a realidade, mas o que incessantemente dá coerência a ela. Todo grande herói deste mundo há de imitar esse trabalho cósmico em escala menor, entre nós. Protegendo a vida, espalhando o bem (que é a vida em abundância[2]) e lutando contra o mal (que é a morte de tudo - Dormammu).
Por que Deus precisaria de heróis? Como a coerência da realidade cósmica pode ser profanada por ações más? Por que Deus simplesmente não pulveriza aqueles que querem manchar sua criação? Estes são assuntos intrigantes para outras postagens.
terça-feira, 28 de julho de 2015
Naruto e o Espiritismo
Pela influência da raposa, ou não, sua personalidade é muito impulsiva e irritadiça. É aluno de uma escola ninja e tem o sonho de ocupar, um dia, o mais alto posto da aldeia, relacionado a essa arte marcial. Para isso, precisa seguir uma ascese espiritual que tem como uma das lições aprender a controlar o "chakra" da raposa dentro de si.
Segundo o desenho, chakra seria a energia espiritual que mantém o corpo vivo e batalhador. Geralmente temos essa energia fluindo em nós de forma inconsciente, mas quando aprendemos a dominá-la podemos realizar grandes feitos.
Aqui começa a profanação, digo, a comparação. Para o espiritismo somos dotados de uma força vital que nos mantém vivos. E essa força pode ser instrumentalizada para muitos prodígios. Ela descende do universo e é utilizada pelo Espírito reencarnante para dirigir a embriogênese e o metabolismo do corpo. O seu desequilíbrio é a causa da maior parte das doenças. Sua harmonia, da saúde. Contudo, podemos nos valer dela para curar outras pessoas, fazer os ditos milagres.
Por exemplo, uma das explicações possíveis para as curas que acontecem nos cultos das igrejas cristãs reformadas é o grande influxo de energia vital que é trocado entre os sãos e os doentes mediatizado pela fé.
Assim como em Naruto, a utilização dessa energia requer um aprendizado árduo, diria mesmo, ninja! A facilidade está diretamente relacionada com (1) a quantidade de energia disponível, o que pode ser em virtude de uma multidão com pensamento devotado a isso; (2) ao esforço próprio de uma vida disciplinada, o que explica, em parte, o milagre dos santos; (3) à influência de uma entidade infinitamente superior que nos utiliza como meio, é o caso da raposa de nove caudas presa em Naruto, é o caso de Jesus que liberta o ego de Paulo de Tarso a tal ponto de um dia - após muito exercício ninja-apostólico - o convertido de Damasco dizer "não sou eu quem vivo, mas o Cristo que vive em mim."
A questão é que Naruto nos dá uma excelente ideia de como deve ser a coisa para aquele que enxerga o mundo como o espiritismo ensina: nós podemos atuar energeticamente sobre os outros, ou Grandes Espíritos através de nós, contanto que nos dediquemos ao exercício do nosso próprio controle.
É assim que um passe meu vale menos que de uma pedra (fui correndo hoje de madrugada pegar o ibuprofeno pra baixar a febre do meu filho porque já chegava aos quarenta e nada de ceder com meu "chakra"), mas o de Chico Xavier, Francisco de Assis, Madre Tereza, etc...
sexta-feira, 15 de maio de 2015
Sobre doutores palhaços
Convidaram-me para falar sobre o filme do médico Patch Adams, produção cinematográfica que vulgarizou a figura do doutor palhaço pelo mundo.
Ficava complicado falar coisas muito formais depois de um filme daquele tão transgressor das tradições. Portanto, fui atrás de fazer uma ciranda e, a partir dela, tecer considerações.
A nossa evolução espiritual é feito uma ciranda que cresce para o alto. De vez em quando nos tomamos fazendo parte de situações muito semelhantes, mas estamos com uma cabeça diferente. Com o Patch aconteceu isso. Sua irreverência para com aquele médico empavonado, reitor de sua faculdade, se dava em virtude de sua já experiência do sofrimento.
A idade pesa no enfrentamento das situações difíceis. Algumas pessoas podem olhar pelo lado ruim e se cansar com o peso da repetição dos problemas. Outras podem olhar pelo lado bom e ver que, com a idade, se está mais forte para enfrentar aqueles males que, hoje, parecem nada de tão risíveis. O tempo redimensiona as grandezas.
Conheço uma psicóloga que, com mais de quarenta anos, decidiu entrar na faculdade de medicina para continuar sua história agora como médica. Nunca vi uma pessoa tão apaixonada, engajada, diplomática e revolucionária. Está fazendo tudo o que dá na telha para ser o que quer ser, e está indo bem.
Esses Espíritos nos ensinam que não podemos desistir de nossos sonhos. Pra falar a verdade, somos feitos mais da matéria dos sonhos do que das células. É o que nos move, o que nos alimenta, o que nos diferencia do que já não somos, o que nos assemelha ao que seremos.
Depois falei sobre minha experiência como palhaço de hospital, o quanto entrei em áreas que nunca imaginei entrar antes, como por exemplo, dentro do abraço e das lembranças eternas de uma senhora que cuidava da limpeza de lá, dentro de seu sorriso a me acolher quando me via, dentro do seu carinho.
Convidei um integrante atual deste grupo de palhaçoterapia que participei para falar sobre a experiência "escrota" de ainda ver médicos "escrotos" na faculdade de medicina. Mas, então, ele falou de seus sonhos: de como gostaria de ser um médico que olharia sempre o paciente de forma integral, buscando não esquecer suas múltiplas dimensões. Falou ainda sobre o seu amor por um certo personagem de um conto de fadas, um leão rei que acolhia as pessoas sempre com carinho, acreditava nelas e chegou a dar a própria vida dele para que elas vencessem o mal e tornassem o mundo melhor.
Lembrei-me de Jesus, o quanto ele foi médico de almas, brincou com crianças, revolucionou a história e parece ainda nos guiar lá do alto da ciranda que dança junto com muitos outros grandes Espíritos. Esse leão que nos acolhe com o olhar e mergulhou em nossa história para nos fazer mais senhores de nós mesmos e responsáveis pela restauração do equilíbrio do mundo.
domingo, 7 de dezembro de 2014
Nossa homenagem ao Sr. Bolaños (Chaves, Chapolin, Dr. Chapatin, Soldado Chispirito, etc.)
Vejo mães dizendo que Chaves não era um desenho para crianças, pois as deseducavam. Mas, porque aquelas crianças se tornaram tão queridas para gente?
Elas brigavam umas contra as outras, os mais ricos esnobando os mais pobres, os donos dos meios de produção humilhando os inquilinos, os mais velhos sendo insultados pelos pequenos, a falta de polidez, a violência entre os vizinhos, a malandragem, a mentira, a sinceridade que agride. Todos estes recursos que reconhecemos tão nossos que rimos de nossa própria humanidade espelhada nos personagens de Bolaños.
Todavia, quando estávamos no ápice dessa identidade ao ponto de reforçá-la em nosso dia-a-dia, vinha aquela vila nos falar sobre a juventude do coração, a reconciliação dos díspares, o nivelamento das classes, a grandeza da amizade, a beleza do amor, a divindade de acolher um menino de rua como protagonista de nossas melhores lembranças, sem nem sabermos direito sua história ou a glória de seu sobrenome, mas pela ingenuidade e leveza com que vivia sua vida de barril.
E quem já não se sentiu tão herói quanto o anti-herói Chapolin? As pessoas em suas aventuras se salvam menos pelas habilidades deste do que pelo acaso delas. Ele é quase um fator confundidor que, por desnortear o mal, acaba o desmantelando.
Isso é uma lição para todos que quiserem "educar o ser humano". Não adianta tanto nos contar histórias de grandes heróis e deuses. Não o somos. Poderemos até nutrir admiração por eles, mas porque os imitar? Não são da nossa leva. Se quiserem fazer vibrar nosso íntimo ao ponto de nos guiar para transformações verdadeiras, tem que começar a partir do que verdadeiramente estamos, hoje. Para, então, mostrar como poderemos ser a partir dessa massa confusa de que somos feito.
terça-feira, 18 de novembro de 2014
As lições espirituais de MEN IN BLACK
Ao final de cada filme da trilogia Men in Black, o autor nos convida a uma reflexão sobre nossa pequenez. Mais precisamente, ele nos propõe uma conscientização.
No primeiro filme, nos lembra que, em verdade, fomos as espécies que dominaram a Terra, e a Terra apenas, porque em outros planetas, portadores de outras condições históricas, quem se tornou a espécie hegemônica, por exemplo, foram as baratas. Sem contar da principal revelação do filme que é a existência de extra-terrestres camuflados entre nós, induzindo, portanto, uma extremamente sofisticada "exopolítica".
O final: cada galáxia não passaria de bolas de gude nas mãos de um grande deus brincalhão. Nem mesmo temos a dádiva de termos as feições de deus gravitando ao redor da nossa própria semelhança.
No segundo filme, nossa galáxia não apenas está em uma bola de gude nas mãos de um grande deus, como nós mesmos temos galáxias infinitamente pequenas entre nós. Mundos inteiros dentro de armários, e o nosso mundo, ele mesmo apenas um dos muitos engavetados em um conjunto de armários vizinhos.
No terceiro filme, nos deparamos com um ser que tem sua consciência acessando a quarta dimensão, podendo perceber dimensões do tempo que nos escapam, antevendo infinitas possibilidades de acontecimentos a um só tempo, cuja determinação variam conforme nossas atitudes.
Seu final, contudo, é de uma sensibilidade sem precedentes. Depois de os protagonistas terem revirado o mundo e até mesmo atravessado a linha do tempo para salvar o dia, o nosso habitante da quarta dimensão nos mostra que o ato ultra-heróico de salvar o dia, com todas as peripécias associadas, tem o mesmo peso de manter a paz que o hábito de deixar a gorjeta na pequena lanchonete da esquina. Esse simples ato pode provocar uma revolução sistêmica da mesma magnitude de qualquer malabarismo de super-homem.
As lições que Men in Black nos deixa são simples e grandiosas:
1. Nada é tão grande que não caiba nas menores coisas;
2. A sua grandeza é um ponto de vista singular no universo - um ponto de vista;
3. Cada agente do universo, por mais mínimo que seja, agindo no universo conforme sua própria vida pede, é responsável por cada máxima felicidade que se instala ou se perpetua.
São as mesmas dicas que o Espiritismo teria para dar à você, chegando até elas por caminhos diferentes, mas nem tanto!
sábado, 10 de maio de 2014
Noé, o filme, e os eternos conflitos do dilúvio em nós - Parte III
Perdoem-me se não consigo terminar a análise deste filme apenas nas didáticas três partes. Há coisa demais para se dizer, e não quero lhes cansar em uma só postagem. Abordarei hoje sobre estes dois pontos: a obediência como signo de perfeição e os anjos decaídos que não são satânicos.
A obediência como signo de perfeição. Se começarmos percebendo que os animais e as plantas são mais obedientes que os homens, ou pior (melhor?), são completamente obedientes aos desígnios de Deus, o que os torna perfeitos no sentido grego, isto é, completos, acabados, estaremos automaticamente nos remetendo ao mito de Prometeu sobre a criação dos seres. Epimeteu, o titã certinho, fez com que os seres vivos não-humanos tivessem atributos que os deixassem em equilíbrio perfeito com o cosmos. Prometeu, o irmão espertinho de Epimeteu, vendo que o seres humanos foram os pobrezinhos que ficaram sem atributos, a bem dizer, nus, decidiu ir lá em cima do monte dos deuses e roubar o fogo da criação para dar de presente aos coitadinhos pelados. O que aconteceu? Os homens ficaram com poder em excesso, e como não tinham atributos pré-definidos por nenhuma divindade, começaram a ultrapassar todos os limites. Qual o signo de perfeição de um ser? A obediência aos limites do cosmo em que você se enquadra. Troque o cosmo, novamente, pela palavra Deus e você terá a visão hebraica, só que um pouco mais paternal, já que Deus é um paizão que quer, na verdade, ensinar aos filhos a ser assim.
Os anjos decaídos que não são satânicos. Dizem que o Satanás era um dos mais belos anjos que vivia ao lado de Deus, mas quis ser mais que o Criador. Este, então, lhe amputou a beleza e o expulsou para o quinto dos infernos. Aí, aquele fez seu quartel general e passou a ter um só propósito na vida: impedir que os homens alcançassem a graça de viver em harmonia com o Criador. Como fazer isso? Seduzindo-lhes à desobediência.
Todavia, o filme mostra um conjunto de anjos que caíram por outro motivo: quiseram ajudar os homens que estavam se desvrituando. Também desobedeceram a Deus - nada escapa dessa temática - mesmo que por uma causa nobre, aos olhos de nós humanos. O interessante é que essa história, aparentemente inventada pelo filme, não flutua no nada das mitologias. Vemos que ela é um eco das história gregas, talvez de outras mais com as quais não tenho tanta intimidade.
Lembram-se que eu havia falado de uma geracão de homens de ouro, harmonizados no princípio de tudo com a natureza cirunjacente? Pois estes homens, nos narram as lendas, depois de terem morrido da forma mais serena que se possa imaginar, se tornaram Espíritos tutelares dos homens de bronze, tentando os reconduzir para o caminho da sabedoria. Eram os famosos daimons, que deram origem à palavra demônios em latim. Entre os gregos, esse vocábulo não tinha conotação negativa a priori, mas depois nossa cristandade medieval quis entender que sim. Ficou na nossa mente que seres incorpóreos que vagam entre os homens só podem ser almas penadas pedindo reza ou servos de Satanás espalhando o mal.
A princípio, pode-se ter pena dos simpáticos anjos decaídos que ficaram enclausurados em corpos de pedras, eles que eram luzes livres voando em torno da terra, ao lado do Criador. Contudo, perceba que há uma reconciliação ao final. Da linhagem de Set, o que não desobedeceu o pai, sai um predestinado para salvar a humanidade, que se manteve em linha reta até o fim, com quem os anjos se uniram ao enxergar nele a marca original de Deus, sendo ele, através daquela conduta nobre de equilíbrio com a natureza, o caminho da libertação, ou o que trilha o caminho certo.
É como se o Criador ficasse agindo constantemente sobre a criação que se desvirtua, em seu comportamento indócil, sulcando caminhos que a devolva para os rumos certos. É a perfeita imagem de um agricultor que cuida da sua plantação. Lembre-se que estamos falando da visão de mundo, e, portanto, de Deus, de um povo agropastoril. O Pai lhes deu liberdade para escolher entre o certo e o errado. Eles escolhem frequentemente o errado. Deus age constantemente para fazê-los retornar ao certo.
Eis a grande diferença da relação entre as divindades gregas e o Deus hebraico. Aquelas estão pouco se importando se os homens chegam ou não à sabedoria. Se um ou outro alcança, bom para ele, terá a recompensa automática da serenidade, às vezes concedida por Zeus, como no caso de Ulisses e Penélope. O resto merecerá o reino das sombras pelo próprio curso natural de sua burrice. O Deus hebraico gerou seus filhos para que TODOS fossem sábios. Age constantemente entre eles para este fim. Se conseguem, há imensa festa no céu. Se não… parece que vão sofrer muito no inferno. Visão esta que não é compartilhada totalmente pelo Espiritismo.
É triste que se encontre essa desistência de Deus nessa mitologia que tinha tudo para ser uma das mais belas. Esse Deus que provoca dilúvios e se cansa de seus filhos maus que Ele mesmo gerou... tem alguma coisa que não bate aí! É essa incongruência que o Espiritismo vai sanar com a teoria da reencarnação. Mas isso, são águas que ainda estão para rolar.
quarta-feira, 7 de maio de 2014
Noé, o filme, e os eternos conflitos do dilúvio em nós - Parte II
Pai e filho estão sob as barbas brancas, alvas nuvens de Deus. O mais velho vai passar ao mais moço o legado de ser homem. O que é ser homem para você?
Essa pergunta caiu na minha primeira prova de psicologia médica na faculdade. Não me fui bem na resposta porque o professor perguntava “segundo os conceitos da psicodinâmica”. E eu respondi, brilhantemente, segundo os conceitos da minha vida. Antes que me chamem de pedante, me respondam: Quem pode falar mais brilhantemente sobre minha vida se não eu?
A pergunta, rigorosamente, era assim:
- Segundo a psicodinâmica, você é filho ou homem? Explique.
Esquecendo a psicodinâmica e as instâncias da mente, o que você responderia?
A definição de homem, isto é, de maturidade espiritual. Os hebreus, consequentemente, os judeus, dão um valor sobrenatural para a paternidade e a gestão da família, célula-máter da comunidade. Colocar em risco essas bases é fazer estremecer todo o povo. Muitos dizem que a novidade trazida por Jesus é a de tratar Deus como Pai (Abba). Não é verdade. Deus-Pai está em toda a tradição. A forma como se encara esse Pai é que difere. Freud, que era judeu, parece ter entendido bem isso, dando importância fundamental a relação edipiana - trágica! - de como acontece essa relação e sua influência na formação da personalidade do filho. Perceba que os grandes guias da comunidade hebraica surgem da ordem que o Deus-Pai dá ao seu filho mais velho, enviando-o aos irmãos mais moços. Entenda mais velho em um sentido espiritual, isto é, aquele que “cresceu" o suficiente para entender sua vontade.
Aí está a grande chave para entender porque Noé pode ser considerado um homem. Ora, porque obedece a vontade do Pai. Eis porque ele diz para o filho rebelde, na cena em que começa a chover para o dilúvio, que, por mais doloroso que pareça, ele está a lhe ensinar a ser homem, fazendo não o que o desejo pede, mas o que é necessário fazer: o dever. Aliás, isso é o que representa, no sentido negativo, o mito de Adão e Eva. Um filho que passa a sofrer as conseqüências de ter ouvido mais a voz da sedução (serpente e Eva) do que a de Deus.
Retrógrado? Se for, essa visão de mundo não está só. Ouvir a voz de Deus e obedecê-la, entre os filósofos estóicos da Grécia, era perfeitamente traduzível por aceitar o seu lugar no cosmos. Aqui, mais perto, entre os iluministas, seria ouvir a voz da razão. Perder o juízo é sinal de loucura, de deixar-se dominar pelas emoções, de ser infantil e não homem. A gente muda o nome de Deus por Cosmo, Razão, Verdade. E para cada um destes pensamentos, uma forma de maturidade espiritual se anuncia.
A grande diferença entre o Deus judaico-cristão e estas outras formas de Deus engendradas por estas outras culturas é a abertura para o amor. Nem o Cosmo, nem a Razão, muito menos a Verdade (no que ela tem de estritamente racional) são capazes de nos amar. Não faz parte de seus atributos. Mas, Deus, este que foi espalhado por Jesus, resgatando um tema levítico, este é pleno de amor, ou ainda, é pleno amor. É a superação do conflito "dever x amor” que dará nova vida para tudo na Terra redimida pós-diluviana. Ou melhor, como diria Jesus, foi o amor, e não a água, que cobriu todos os pecados.
quinta-feira, 1 de maio de 2014
Noé, o filme, e os eternos conflitos do dilúvio em nós - Parte I
Não vou me ater aqui à análise bíblica da história de Noé segundo o original. Vou escarafunchar a história do cinema e suas conexões com grandes temas filosóficos. Vamos dividi-la em alguns itens:
O dilúvio não é um privilégio dos hebreus. Você deve saber que as grandes civilizações do mundo antigo tendiam a se instalar e crescer próximo a um grande rio, dentro de um vale. Quando havia época de muita chuva, aquele transbordava e provacava dilúvios trágicos. A relação do homem com Deus era questionada e elaborada não só pelos sacerdotes, mas também pelos grandes contadores de história, que, frequentemente, se valiam dos recursos de consulta aos deuses (ou os deuses se revelavam espontaneamente para eles) para melhor narrar o fato, a fim de ficar claro o motivo de tanto sofrimento e a solução para o resgate, o que é uma espécie de prevenção para a tragédia não se repetir.
É comum, entre os antigos, a visão de mundo que conecta os grandes males à relação do homem com as divindades, já que só elas poderiam provocar tão vultosas calamidades. Há grandes lendas diluvianas entre os Sumérios (Gilgamesh, o grande rei, em busca de imortalidade, procura Utanapishtim, aquele que sobreviveu ao dilúvio), entre os indianos (Brama se transforma em peixe e vai falar com o monarca Vaivaswata sobre o dilúvio próximo), entre os gregos (Deucalião e Pirra, únicos salvos por Zeus - nem mesmo os animais se safaram).
No filme, vejo muitos traços gregos. Os homens da idade de bronze, segundo a mitologia desse povo, eram uma geração posterior aos da idade de ouro que, diferentemente destes últimos, viviam em conflitos entre si e com o cosmos. Tenderiam a se destruir sem precisar da ajuda divina se não houvessem atiçado Zeus contra si. Perceba que os homens da descendência de Caim são artesãos do ferro e muito belicosos. Adão e Eva, os seres que viviam em harmonia com o paraíso, são representados no filme por entidades de pele dourada!
A história do dilúvio fala sobre reconciliação: do sensível com o inteligível, do homem com Deus. A geração dos homens inicia em completa harmonia com o meio e com Deus, o Criador. A desobediência é o ato primeiro de ruptura. Este ato é o que perpetua e multiplica a separação entre o homem e a natureza. É exatamente o que não encontramos com a geração de Set, particularmente em Noé. Logo de início, encontramo-lo colhendo espécimes de vida que, bravamente, ainda sobrevivem na terra devastada, bem como se compadecendo da morte de um animal caçado pelos filhos de Caim.
Entre os gregos, Aristóteles representou uma das primeiras grandes escolas de pensamento que buscou reconciliar o inteligível com o sensível, as ciências da natureza com as ciências do espírito. Não à toa, suas lições de biologia buscavam enxergar a grandeza do cosmos na engenhosidade dos animais. Por onde chegar à identidade com o cosmos? Não é pela libertação das armadilhas do sensível, mas pela descoberta intelectual das maravilhas do sensível em sua forma. É na forma que está encarnada a ideia nobre, mais que isso, ideia e forma se misturam indistinguivelmente.
A solução dos gregos em seu período filosófico rumou para essa resposta. E a dos hebreus? Seguir a vontade do Criador. Se, desde o início dos tempos, a humanidade tivesse se mantido obediente ao Criador, mal algum teria caído sobre ela. Veja que a estrutura dessa resposta está em perfeita conformidade com a estrutura social dos hebreus, bem como a de Aristóteles com a democracia Ateniense. Na Grécia antiga, era importante que o homem atingisse a maioridade de se guiar e ajudar a guiar a Pólis através do exercício da própria razão em fazendo sua cidade ser um reflexo do Cosmos, ou, em Aristóteles, não um reflexo, mas uma identidade. Entre os hebreus, sociedade eminentemente patriarcal, a obediência à vontade do Pai era o valor por excelência.
O mito estrutura a tradição de aprendizados em cada sociedade. Quando fazemos algo errado à revelia das orientações de nossos pais, o que eles dizem? "Viu, menino, não te falei?". Seguir as orientações do mais velho e experiente elemento da família é o grande ideal de sabedoria. E a sabedoria, em muitas culturas, sempre foi uma espécie de reconciliação do homem com a estrutura que lhe transcende e lhe contém.
Já me estendi demais. Vou deixar para próximos posts as outras questões que encontrei nessa história: a definição de homem, isto é, de maturidade espiritual, a obediência perfeita das plantas e dos bichos em contraste com os excessos dos filhos de Caim, os anjos decaídos por razões (ao nosso ver) mais nobres, o caminho da libertação, a voz de Deus que fala segundo a capacidade de apreensão de cada homem, o Deus de fora e o Deus de dentro, e, por fim, o caminho do amor para a verdadeira salvação (ou, é preciso destruir para salvar?).
Aproveite para assistir ao filme, porque vou revelar o final nos próximos posts. E quem for querendo encontrar a bíblia intocável lá, acho melhor mudar de ideia, se não a decepção pode lhe afogar.
domingo, 10 de fevereiro de 2013
Os Miseráveis
Ao falar de Os
Miseráveis todos devem suspirar pelo mocinho Jean Valjean ou torcer pela
Cosette e seu destino. Na nossa mentalidade bipartida Deus e Demônio, Javert é
o réprobo. Mas, sempre o olhei com inquietação. Que final!
No filme, é extremamente simbólico sua canção sobre as
estrelas que determinam a hierarquia do mundo. E ao final, perto do seu final, Javert
escurece as estrelas. Já não servem mais de norte algum. O que fazer se tudo
pode mudar? Como suportar a derrocada de seus valores mais caros que eram o
esteio de todo a sua vida?
Peço que olhem Javert com mais cuidado, e mais carinho. Ele
reside em todo indivíduo apaixonado.
Me perguntou certo dia minha esposa:
- E se tudo o que você acredita for mentira? Se os Espíritos
não podem se comunicar? Se não podem reencarnar? Se mesmo não existirem, isto
é, se a imortalidade for um engodo?
Resposta mais óbvia de todo apaixonado:
- Mas não é mentira!
- E se for...
Submetido, então, a ditadura do “e se”, o meu coração bate
como as últimas batidas do coração de Javert.
Não é que não possamos mudar nossas crenças, mas é que o
extremo oposto nos torna pusilânimes. O que seria de toda e qualquer convicção
se os seus adeptos cedessem à primeira dúvida? A dúvida deve ser acolhida, mas
a busca pela certeza deve ser o próximo passo. E se um conjunto de evidências
(nossas estrelas) apontarem para um norte, esse caminho deve ser seguido com
coragem e dedicação a partir do mesmo instante que se alcança a fé.
Todos têm fé. É impossível viver neste mundo sem a possuir. Fé
em algo, qualquer coisa. Ainda que seja fé no que muda. Estes brigam contra
aqueles que dizem que há uma ordem no fundo das coisas. Não importa. Fé, por
todos os lados. Não fanatismo, por Deus, não!
Fico com o materialista Sponville, quando tenta definir
religião: “Conheci alguns crentes de verdade, cuja evidente superioridade, pelo
menos em relação a mim, devia muito à sua fé para que eu me permitisse
condená-la. A religião só é odiosa quando desemboca no ódio ou na violência. Nesse
caso, já não é religião, e sim fanatismo.”
E tentando responder ao jogo infindo dos “e se” que vão
minando o que me mantém vivo:
Se não o Espiritismo
Apenas Deus
Ainda que iracundo
Se não Deus
Pelo menos minha esposa
Ainda que distante
Se a separação
Sobram-me amigos
Quiçá os inimigos!
Se a indiferença
Volto à família
Pois sempre há o sangue
Mas se já exangue
Só me resta o abismo.
Javert!
sábado, 19 de janeiro de 2013
A Doutrina Espírita e o filme A Viagem (Parte II)
Olhando apenas dois ângulos sobre os quais me ative a falar na postagem anterior, sobre a concepção de reencarnação e a de liberdade, em que se aproxima e em que se afasta o filme da doutrina?
Realmente acredito que no conceito de reencarnação do filme a alma mantém sua individualidade, embora não o corpo. As reminiscências e as marcas de nascença (que o Espírito leva em seu perispírito) sinalizam isso. O herói de uma vida, mantém seu heroísmo em outra, embora em situação diferente.
O que parece estanque, e que no Espiritismo é mais dinâmico, é a condição dos maus. Que os Espíritos bons continuem bons, é o que acreditamos, e mais, que progridem ao ótimo e assim por diante. Mas, que os maus se perpetuem no vício, é o que negamos. Todos os Espíritos se movimentam rumo a reconciliação com o bem universal. A maldade de um indivíduo também é prisão da qual ele é incitado a se libertar. O ator Hugo Weaving assume o papel de vilão repetidas vezes sem uma nesga de arrependimento que para o Espiritismo é o primeiro passo da iluminação a fim de escapar do círculo de vício moral e da dor por ele provocada.
Os irmãos Wachowski investem no tema da liberdade como atributo maior do ser humano. É o que o define. Tanto é que mesmo "não nascendo de útero", concebida por máquinas, o que fez o espectador entender como humana a garçonete japonesinha foi exatamente ela conseguir se libertar do condicionamento da “ordem natural” a que foi submetida desde sua fabricação e questionar os valores que a circundavam.
Para o Espiritismo a liberdade e a libertação são definitivamente importantes, mas não ilimitadas. Por exemplo, o que poderia levar a um espírita estranhar o suicídio de um dos “heróis da libertação” é o fato de em outra vida ele não ter vindo com seqüelas em seu corpo, mas ainda perfeitamente livre e apto a lutar por mais liberdade.
A dor cerceia a liberdade de quem não a soube utilizar em qualquer outro momento da existência, proporcionando ao Espírito a lição não de como ser infinitamente livre, mas de como ter uma boa liberdade.
Filosoficamente coerente é essa posição. Não digo verdadeira, pois isso é ponto de discussão litigioso, mas coerente. Se Deus existe (e o dogma da existência de Deus abre afirmativamente a filosofia espírita), diz Sartre, não há como o homem ser completamente livre, pois desde o princípio seus atos se destinam a cumprir a vontade de Deus em sua vida. Como a existência da tesoura se destina a cumprir a vontade de quem a fabricou: cortar.
Não é por não sermos totalmente livres que não somos completamente livres. A liberdade completa do Espírito a que se destinará todas as criaturas está condicionada a limitação do ser criado. Este não pode acessar a essência do Criador que sempre lhe será maior. Mas, as múltiplas existências, infinitas ao nosso ver, apontam um futuro cuja liberdade não é menor do que a maior liberdade que possamos conceber.
quarta-feira, 16 de janeiro de 2013
Decifrando o filme A VIAGEM
Acredito que possuo algumas chaves para compartilhar rumo a decifração do filme A Viagem dos irmãos Wachowski.
A primeira delas é a concepção de reencarnação nela passada. É uma que, definitivamente, mantém a individualidade e a aspiração dos Espíritos entre uma vida e outra, bem como seus medos, seus entraves, suas necessidades de superação.
A segunda é uma dica aos espíritas que forem assistir. Favor, não ir esperando que os erros de uma vida passada devem ser "pagos" na outra vida, como uma Lei de Talião universal. O que parece se desenrolar em todos aqueles tempos, e que podemos concluir que deve ser assim para todos os tempos sucessivos, são grandes dramas da condição humana, isto é, vontade de liberdade, vontade de saber, vontade de amar, vontade de ser feliz. Todos temas que conduzem a transcendência da "ordem natural". Existe a repetição do padrão aprisionamento-libertação em todas as épocas. Uma mensagem que corre os mares e os ares, saindo de um tempo a outro.
Não me surpreenderia se houvesse uma simbologia importante presente na água do mar que acolhe o navio que inicia o filme, na água que quase afoga a repórter investigativa fazendo perder certos documentos importantes, e no fluido cósmico que transmite a "verdadeira verdade"para o espaço infinito. De qualquer forma, o tempo é um imenso mar composto por mil gotas. Não é a toa que os fluxos daquelas vidas se misturam como ondas revoltas desrespeitando o tempo e o espaço convencionais. Não é no tempo que devemos nos concentrar muito, mas nos dramas, os mesmos dramas humanos de libertação.
Existe uma clássica metáfora filosófica de como seria a visão de Deus. Claro que é algo pretensioso querer explicar "a visão de Deus", mas houve quem ousou fazer. E, de forma simples, é como se fosse uma partitura. Na folha de papel está toda a música em um só instante. Quando eu a entrego a um músico, entrego-a de forma integral, pronta, fechada. E os dedos do instrumentista a vai deslindar no instrumento que quiser tocar. Mas, ela, no papel, está toda, inteira, incólume. Em certo momento do filme, quando um dos ciclos está se fechando, a partitura é terminada. A grande metáfora do filme está na partitura! Não é a toa que, em inglês, seu nome é Cloud Atlas, assim como o do concerto escrito pelo jovem músico. Eis o motivo de a estética do filme se passar misturando, como em um grande concerto, o tempo, o espaço, as pessoas. Tudo é uma coisa só.
Por fim, veja que coisa!, há uma revolução sem precedentes na forma de encarar as profecias expelidas pela boca da sacerdotisa. Em uma das histórias, a que finaliza, o personagem do Tom Hanks, que até então vem seguindo direitinho todo o combinado pelo vaticínio, desobedece em prol da vida de uma criança. Ele se utiliza da sua liberdade, quebrando a ordem pretensamente divina, a fim de dar lugar ao que o seu coração diz sobre como melhor salvar a pessoa que ele ama. Ele já tinha feito isso antes com o Espírito maligno que o acompanhava. Repete o feito. E não se arrepende. Por que revolucionário? Porque não é mais seguindo a mensagem do Deus (ou do Diabo) exterior que o homem constrói sua vida, mas seguindo a que vem do seu peito. É como se deixássemos de acreditar que é o Sol que gira em torno da Terra. Isso contrasta completamente com a mentalidade do povo primitivo a que pertencia. Isso o entrega a uma nova forma de transcendência. Uma transcendência que nasce dentro de si, da sua imanência. Isso lhe coloca no controle da sua própria vida. É assustador, e apaixonante.
Eu tinha falado sobre o fim, mas o fim mesmo é quando tudo acaba. Quando sua vida acabar, para onde você pensa ir? Para o paraíso, para o inferno? Assistam ao filme e vocês verão que a resposta que ele propõe não se distancia muito da que Ulisses de Homero daria. E há quanto tempo Odisséia foi escrita? Não parece, certamente, ser o tempo que importa!
O que o Espiritismo tem a falar sobre tudo isso, falo depois. Haverá tempos...
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