quarta-feira, 15 de maio de 2013

Reencontrando a Verdade





(Toca vinheta)

Allan Denizard: Estamos aqui com mais um caso em “Reencontros com...”. Já nos aproximamos do assunto das reencarnações nas famílias pela ciência e pela psicologia, sempre abordando seus conflitos. Hoje, receberemos a visita de mais um pai que tem memórias que circundam o vínculo com seu filho, bem como a de um padre que haverá de expor o posicionamento da igreja hoje [em 4015] sobre o assunto. Como é o nome do senhor?

Pai: Allan Denizard. 

AD: Ora, vejam só! Meu xará! Conte-nos um pouco, Allan, sobre o relacionamento com o seu filho, desde quando as memórias de outras vidas lhes perseguem?

Pai: Pra falar a verdade, Allan, elas nunca deixaram de existir. Eu não diria perseguir, é forte, é assustador. Não é uma caça. São lembranças.

AD: Mas, lembranças todos nós temos.

Pai: Isso! Todos nós. Acho que ao contrário das memórias, lembranças são mais vagas, são mais doces. 

AD: Então as lembranças do seu filho não te perturbam?

Pai: Por que perturbariam? São elas que vão me manter vivo dentro dele quando eu não estiver presente. Não podemos viver só do presente, sabe?! A vida é pra ser vivida, claro! Mas temos de viver também a saudade. Temos de viver também a esperança. Não acredito só em um Homo sapiens, acredito em um Homo amorosus. E para amar precisamos lembrar de quem amamos. Precisamos esperar a pessoa amada. Esperar mesmo ser amado. Ter saudade de quando o fomos. Sentir falta se hoje não somos. Esperar ainda ser. O que seria de nós sem as lembranças?

AD: O que o senhor tem a dizer disso, padre?

Padre: Continue, Allan...

Pai: Então, seríamos um desenho em um papel. Só um. Não mais, nem menos. As lembranças nos dão dimensões. 

AD: Tudo bem. Mas, você fala isso desta vida. O que estamos abordando no programa são as muitas...

Pai: Lembranças! A vida é uma só. Ou talvez, Allan, as mortes são muitas e não só a do corpo. A palavra que acabou de sair da minha boca foi, nesse instante, sepultada no vento. Por que você continua seguindo o fluxo da minha fala? Por que você ainda entende o que digo? É que você se lembra da vida do meu verbo antes da vida deste que agora vem em contínuo devir da minha boca. 

AD: Isso você diz porque, ao contrário de muitos pais que estiveram aqui, seu filho ainda não te renega. Se ele vier a fazer isso, como você vai se portar?

Pai: Peço a Deus que eu me porte com sabedoria. A negação dos filhos contra os pais não é de 4015, é desde que o primeiro homem percebeu não ser igual ao outro. Eu preciso, mais dia ou menos dia, dizer: eu não sou você, você não é eu. Vai doer? Não duvido. Vou crescer? Duvido menos ainda. 

AD: Gostaria de falar alguma coisa, padre?

Padre: Gostaria de pedir para o Allan continuar. 

Pai: Pois é, obrigado padre. Acho a maior das bobagens esse seu programa, Allan Denizard. Queria muito que os pais que estivessem assistindo a ele, preocupados com as memórias dos filhos que lhes escapam, estivessem dedicados a brincar com seus moleques. O pior da brincadeira é brincar sozinho. Já pensou se o seu parceiro ou oponente sempre fizesse o que você esperasse? Seria o fim dos tempos! E uma das coisas que as lembranças nos ensinam é que a vida passa e se torna tempo - o tempo que passou. A gente tem que aprender a se importar menos com o que vem decorado pelos nossos filhos e se importar mais em decorar nossa relação com eles. Decorar de decoração e não de decoreba. O que vai permanecer no Espírito dele para sempre não vai ser o que eu fiz ele repetir, mas o que ajudei ele a inovar, renovar. E essa aventura do novo é uma que só se dá nas navegações do amor. 

AD: Obrigado pela sua participação, Allan. Eu realmente gostaria de ouvir alguma coisa que o senhor, padre, tem para falar. 

Padre: Eu não. 

sábado, 11 de maio de 2013

Casos de outras famílias




(Toca vinheta)

Allan Denizard: Estamos aqui novamente com “Reencontros”. No programa passado, tivemos aqui um pai que sofria ao lado do filho com memórias bem vivas da última encarnação. Contamos com a fala esclarecedora de um cientista da USP, cujo laboratório se consagrou na pesquisa das memórias genéticas de outras vidas. Hoje, temos mais uma história de conflitos familiares com as reencarnações, contudo, não com a presença viva delas, mas com a sua possibilidade. Bom dia, Sr. Jocicleudo! Conte-nos um pouco a respeito da sua angústia. 

Jocicleudo: Você falou bem, Allan, é uma angústia! Não que meu filho esteja manifestando ter pertencido já a outras famílias, mas é que hoje se fala tanto disso [lembrando que estamos no ano de 4015] que eu não consigo mais olhar para ele e não ver um estranho em minha casa. Ele me sorri afetuosamente, me pede carinho. Não que eu não ofereça, mas é que o faço com asco. Penso naquela pelugem que ele carrega ainda no rosto, e sinto uma barba grossa. Ouço seus gemidos infantis, e escuto um vozeirão enorme. Vejo-o calmo nos braços da mãe, e muitas vezes tenho vontade de arrancá-lo dali porque ela é minha mulher e não dele. Não sei mais o que fazer. Ele é frágil, pequeno, inocente, mas eu o vigio, como se a qualquer momento pudesse se rasgar a pele e se revelar um monstro. 

AD: Para tecer algumas considerações sobre isso, temos o prazer de ter aqui conosco o psicólogo Dr. Jungudo Ibirapuera, especialista em psicologia transvital, professor da faculdade de psicologia da Universidade de Ribeirão Preto. É um caso ainda mais complexo do que se a criança já revelasse seu passado, não acha, professor? 

Jungudo: Enquanto o Sr. Jocicleudo falava sobre o drama com o passado do seu filho, fiquei recordando o drama nosso com o passado da psicologia no que diz respeito às encarnações passadas. Hoje, que a ciência chegou junto de forma quase inquestionável (pois há quem questione, sempre haverá!), que até mesmo grandes ramos das ciências humanas acreditam na hipótese de outras vidas, havendo exceções que só servem para confirmar a regra, fiquei pensando que os devaneios que tínhamos no passado sobre vivências pré-uterinas, como que participantes de um imaginário elaborado pelo inconsciente do indivíduo, não têm mais a mínima razão de ser. Fiquei imaginando como nós do ocidente pudemos ter ficado tanto tempo cegos para essas memórias extra-corpóreas quando mais de três quartos do mundo acreditava ou tinha abertura para acreditar nisso. Chamávamos de superstição. Mesmo a história da humanidade nos resgatando constantemente esta crença presente nos livros sagrados das grandes civilizações, chamávamos de infantilidade do homem místico. A genialidade de um certo Sigmund Freud havia tentado conectar esses sentimentos de hostilidade pai-filho com a mitologia grega, com os vaticínios agourentos de adivinhas, com um destino urdido por deuses que determinavam as vidas das pessoas antes mesmo de elas nascerem. Para Freud, não era uma questão de deuses exteriores, mas de forças íntimas em conflito. Atualmente entendemos que, embora as forças íntimas não sejam desprezíveis, as agonias de outras encarnações não o são menos. Por que o Sr. Jocicleudo ao invés de estranhar repulsivamente seu filho, como que a um inimigo, não o acolhe amorosamente, como que a um irmão? Duas respostas: porque seu filho realmente pode ter sido um inimigo e/ou porque a forma da relação pai-filho que existe em seu inconsciente é conflituosa. O inimigo dele reencarna já em uma forma de se relacionar patológica. Se assim não fosse, aquele que vivenciou uma relação com o pai tranquila teria como que um casulo afetivo que poderia acolher amorosamente o rebento que se apresenta, ainda que descendente de uma inimizade prévia. Seria uma sublimação. Aprendam isso pais: quanto mais se foi amado, mais se é aberto para amar!

AD: E como a psicologia pode tentar resolver isso, professor?

Jungudo: Trabalhando o indivíduo nos dois caminhos que evidenciei. Encontrar os nós que entravam ambas as relações pai-filho. Ajudar o analisando a desatá-los. 

AD: É preciso regressão de memória para isso, não é?

Jungudo: Não, percebemos que não. Na maioria dos casos as memórias já estão presentes até demais nos discursos, só que codificadas. É preciso um intenso trabalho de conscientização na memória atual. O que acho imprescindível é o perdão. 

AD: Não perca no próximo programa, aqui, o que a religião tem a dizer sobre isso. 

domingo, 5 de maio de 2013

Lembranças vivas de vidas passadas



Entrevista em programa televisivo com especialistas sobre o assunto Reencarnação e Criação dos filhos. Gravado em 4015, levado ao ar às oito horas da manhã, de nome Reencontros com Allan Denizard

(A população assiste sem consternamento, mas com sincero interesse, ao assunto enquanto toma seu café-da-manhã porque, a essa altura, reencarnação foi provada até em laboratório). 

AD: Estamos aqui com um pai de família cujo filho se lembra de quem foi em uma encarnação passada. Senhor Sigismundo, como é viver com um filho que não passou pelo processo de esquecimento ao reingressar na matéria?

Sigmundo: É meio complicado sabe, Allan. A gente fica sonhando com tudo o que ele viria a ser, aí quando ele começa a falar, já se mostra cheio de vontades e com uma identidade que eu não ajudei a formar. Desde o início ele já me diz não para tudo o que eu ofereço, como se ele reagisse à minha influência. Sem falar nas comidas. Qualquer bebê normal, na medida que a gente vai insistindo, vai cedendo aos pratos que a gente tenta colocar na alimentação dele. Esse não! Era como se o que ele gosta e o que ele não gosta já estivesse bem vivo na língua. 

AD: Imagino o quanto deve ser sofrido para o senhor querer ser pai de alguém que, mesmo sendo seu filho biológico, não é seu filho de verdade. Mas, vamos ouvir o que o cientista do laboratório de Genética e Reencarnação da Universidade Federal de São Paulo tem a dizer. E, então, Dr. Estevesonildo, como a ciência explica essa anormalidade congênita dessa criança?

Estevesonildo: Então, Allan, boa tarde a todos de casa, eu faço parte de um laboratório que trabalha com pesquisa do comportamento das pessoas na sua manifestação desde as células. Esse nosso laboratório vai completar um século desde que descobrimos que existe uma sequência de genes específicas que é responsável por inibir ao máximo a manifestação das informações cognitivo-comportamentais que descendem de alguma vivência pré-concepção. Todos nós sabemos desde o ensino básico que os genes são a estrutura material que carreia informações para tudo o que acontece no corpo. Pares de bases são o alfabeto da vida. Então, foi uma revolução quando descobrimos que, nos meninos e meninas que se lembravam do que chamamos de "vidas passadas", encontramos pares de bases idênticos, na sequência responsável pela memória, aos que se encontram nos indivíduos de quem elas diziam ser a reencarnação.

AD: Mas, os pares de bases do DNA desses indivíduos já não haviam se decompostos?

Estevesonildo: Alguns sim. Mas, outros, aqueles cujo período entre a morte e o renascimento foi muito curto, conseguimos ainda, com técnicas de recuperação genética à base de silício1919, reaver a sequência que precisávamos. Com isso, conseguimos esse achado. Percebemos, então, analisando as informações genéticas de zigotos de laboratório que, no setor das memórias, diferente do que alguns antepassados nos diziam, não somos uma tábula rasa. Se fôssemos, nesse setor não haveria expressão gênica ainda, cabendo ao desenvolvimento pessoal o despertar da fabricação proteica das lembranças. Nesse lugar, mesmo nos zigotos, já havia intensa elaboração de lembranças.  Não falo pensamentos, porque estes são produzidos em outros setores genéticos, falo mesmo de lembranças. O mais extraordinário, é que essas proteínas, a que demos o nome de mnemosines, são inativadas automaticamente, após produzidas por uma enzima que denominamos de mnemosinases, responsáveis pela, por assim dizer, amnésia dessas lembranças. 

AD: E o que isso tem a ver com esse caso?

Estevesonildo: Tudo! O que acontece com essa criança e com muitas outras com essa mesma patologia é que lhes faltam a enzima mnemosinase. Estamos trabalhando para a criação de um remédio que possa devolver a amnésia das lembranças de vidas passadas para elas. Os primeiros resultados foram desastrosos. A enzima era forte demais e acabou provocando um esquecimento não reversível para o resto da vida. As crianças não conseguiam se lembrar nem dos segundos imediatamente anteriores. É um efeito colateral possível, mas estamos levando adiante, com toda a ética que temos em mão, para a consagração desse feito. 

AD: Obrigado pela sua participação, Dr. Estevesonildo, pela do Sr. Sigismundo. Não percam no próximo bloco: o que os psicólogos e a religião tem a dizer sobre essa situação? E para você, que está nos assistindo, se o seu filho tem alguma lembrança de vida passada que lhe incomoda, ainda que não tenha assumido completamente a identidade da outra vida, entre no nosso chat, converse com nossos convidados. As discussões continuam nos intervalos. E, em instantes, voltaremos com mais “Reencontros com Allan Denizard” (toca vinheta).  

segunda-feira, 29 de abril de 2013

A Obscenidade da Reencarnação




Os espíritas, nós acreditamos em um princípio que tudo o que ocorre no universo tem uma razão justa e boa por trás. 

Perdemos completamente a credibilidade na filosofia pós-guerra. Entenderam as mentes feridas que tudo o que ocorreu ali foi inexplicável. Nada pode conciliar as atrocidades, nada pode fechar as chagas. Nada, enfim, pode ressuscitar a ideia desse Deus Cristão que tinha tudo em suas mãos, pois, sendo todo bom, deixou que aquilo acontecesse, portanto, não pode ser todo bom, isto é, não pode ser mais o Deus Cristão. Pode ser outro Deus, não mais onipotente (uma divindade qualquer) ou, se onipotente, deve ser mau (o Maligno), ou indiferente (os deuses de Epicuro), ou, hipótese econômica, não deve existir Deus, não mais (foi morto com a bomba atômica) ou nunca houve (delírio do homem amedrontado). 

As guerras mundiais são situações macro, mas, em nosso mundo particular, de quando em quando somos atacados por carnificinas. Um pai enterrar um filho: anti-natural, caótico, obsceno querer cuspir uma razão para isso. 

Não é! Tudo tem uma explicação. Querer que as nossas vitórias do bem sejam racionais e que o mal nos escape completamente é dar força demais a ele. Não acreditar que possamos ter lucidez na vida é negar toda a história humana de esforço para ultrapassar a ignorância. E quantas coisas já conseguimos!

Dizer para uma mãe que sofre a perda de um filho que ele teve de morrer no momento exato, nem mais, nem menos, eis a obscenidade! Fere o pudor, é nauseabundo, expõe o que não pode ser olhado pelas civilizadas gentes.  

Claro que ninguém há de consolar qualquer enlutado, nos dias de hoje, na sociedade em que vivemos, falando da necessidade daquela morte, de todas as mortes. Consolar a vítima de um estupro com a providência do mal. Tentar impedir o aborto do filho dessa violência com a necessidade da continuidade da vida. Qualquer indivíduo são e misericordioso sente um aperto no peito e uma costura na boca diante dessas cenas. Apenas um racionalista frio, que tem todos os filhos vivos e o seu sexo inviolado, apenas ele pode tentar dizer algo a respeito. Tentar...

Perdemos, eu e minha mulher, a nossa primeira gravidez. Por Deus, como ela foi desejada! A médica disse que tentássemos pensar que na primeira vez o corpo de minha esposa ainda estava em processo de se acostumar com o meu, afinal, metade do nosso filho descendia de mim. Se Deus existe e a natureza é perfeita, pois criatura dele, então tudo deveria funcionar sem expulsão, sem violência, sem aborto. Sem liberdade?

Não. Porque temos liberdade e porque temos muitas vidas é que temos certas escolhas ruins a nos manchar. Porque somos imortais e porque somos educandos é que temos algumas vidas dolorosas para nos lavar a alma. Algumas nódoas não largam fácil. Quem cometeu o primeiro assassinato do irmão em uma atitude livre e desimpedida não pertence a nossa geração. Hoje somos filhos e pais de tudo o que viemos fazendo no correr dos milênios de humanidade. O que cai sobre nossa cabeça nos pertenceu. O que sobra para nos reconstruir pertence agora. Dizer isso, digo apenas para mim. Alivia minha dor, acalma o espírito. 

Tento, contudo, espalhar essa verdade para o maior número de pessoas que possam ouvir, quando a dor já não é desespero, nem revolta. Quando o grito consumiu todo o ar e esbugalhou a garganta, restando o silêncio. Mas, digo assim, como se fosse uma lei e não como se fosse uma culpa, pessoal, intransferível. Mais do que isso. Tento deixar clara, acima de tudo, a lei do amor perpétuo. Pois é por causa dele que choramos tanto de alegria e de tristeza.

As dívidas são sanadas com o vento e com o tempo. As águas passam, balsamizam a dor, cicatrizam os cortes. O amor permanece. 

Então, é assim a verdade com que explico as atrocidades: 

 - Foi falta de amor para o mal que ocorreu. É excesso de amor o que corrói o seu peito. É amor de Deus o que corre em todas as veias e nos deixa imperecíveis. Asserena! Todos os que se amam voltarão a se encontrar, em outra cena, fora dessa, ob-scena... 

terça-feira, 23 de abril de 2013

Contra Nietzsche





O texto pode ser longo, porque aqui vou estirar meu repúdio. 

Ontem, de madrugada, estava exultante ao ouvir uma palestra sobre Nietzsche da filósofa  sua fã Viviane Mosé no You Tube. Uma fala que meus colegas haviam dito que todos deveriam assistir independente da posição filosófica. E entre as coisas do que ela disse que me encantaram foi o seguinte, bem no estilo da genealogia do seu ídolo (aos 37min e 09s):

Se você quer respirar ar puro, precisa parar de frequentar as igrejas [citação de Nietzsche]”, ao que ela comenta que “a construção dos valores niilistas é, antes de tudo, produção do judaico-cristianismo. A ideia de culpa é fundamentalmente judaica. Obviamente passou para o cristianismo. Essa combinação judaico-cristianismo produziu uma coisa impressionante que é ‘dos fracos e oprimidos é o reino dos céus, dos aleijados, dos pobres de espírito é o reino dos céus’. Se é mais fácil um camelo passar por um buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus, nós devemos ser pobres, fracos, tristes e aleijados. (...) Se eu sei fazer uma palestra, eu não posso dizer para vocês... [ela começa a falar clichês de falsa modéstia], isso é lindo, não é? Agora se eu disser, eu faço isso, adoro fazer isso, faço da melhor forma que eu posso e sinto que faço bem, sinto que vocês reagem, isso é prepotente, é arrogante, é feio. Se o valor-alvo que nos move é a fraqueza - eu posso até ser forte, mas Deus não vai gostar de mim - isso é extremamente nefasto. A nossa coisa é ‘bom ser fraco’: - Ah! Eu tô tão arrasada!, dizer isso parece que Deus tá ouvindo e Ele vai lá de cima te dar uma solução. Então, nós temos o hábito da reclamação e da autocomiseração, porque parece que alguém vai tá ouvindo.” 

Saí, então, feliz daquele encontro. Entendendo o quanto eu deveria me amar como sou em meus dons. Sem querer escondê-los por parecer soberba, mas os querendo exibir, como se mostra um corpo musculoso. 

Falava ao amanhecer, então, junto a minha esposa, do resgate da felicidade da arte na cultura grega antiga e da cena maravilhosa de uma senhora idosa - eis o que narra o mito - que mostra a bunda para Deméter (a deusa que dá origem às estações), no intuito de tirá-la do inconsolável estado de espírito em que caíra pelo rapto da sua filha por Hades. Deméter faz sorri as flores junto consigo, por breve instante. 

Foi quando passei, no trânsito, ao lado de uma senhora estendida no chão, talvez bêbada ao extremo e talvez, por isso mesmo, com grave risco de morte. Marília me chamou a atenção, ficando com peso na consciência por termos passado direto. Eu havia murmurado apenas alguma coisa sobre o estado de embriaguez deplorável e nada sobre o imperativo da ajuda. Dois médicos em um carro. Duas negligências: a minha tanto pior quanto mais calada. O silêncio nos apoderou até eu chegar no centro de saúde destino dela. As casas passaram, os outros carros correram, as muitas pessoas ficaram para trás, mas aquela mulher não saiu do espírito. 

- Maldita! Tirou todo o brilho dos meus olhos para um mundo que florescia junto ao sorriso dos deuses. Anátema! Ocupou todo o espaço do meu peito onde só deveria haver amor por quem ao meu lado estava e pelos meus familiares que logo me esperavam em casa ao voltar. Idiota! Uma chuva aconchegante para nela se agasalhar e preferiu se queimar com aguardente vomitando em minha consciência até há pouco límpida. Eu quero viver a vida! E não sofrê-la...

- Quem perder a vida por amor a mim, ganha-la-á.
- Quem é você?
- Sou a bêbada lá atrás!

As estações de Deméter foram acontecendo no meu peito. Esse sol foi me queimando as folhas e não deu muito para tornar gelada a alma. Novas flores despontavam enquanto eu seguia o caminho de volta para encontrar a enferma. Pensava em todos os atrasos que ela me daria, que me tiraria do fluxo normal, me arrancaria do cotidiano. Fui ficando feliz. Alegrando-me em pensar que poderia carregá-la nos braços, desacordada, e entregá-la ao hospital para lhe devolver a vida. Fui ficando ainda mais feliz ao imaginar que quando ela acordasse, sem saber a identidade do benfeitor, bendiziria aos céus e poderia querer se regenerar. O contrário, e o mais provável, deveria acontecer, isto é, ela se maldizer porque preferia ter morrido. Mas, pelo menos, meu coração bateria mais calmo por ter diminuído a desgraça do mundo.

Ela já não estava mais lá. Nenhum sinal. Vi uma ambulância se escondendo ao longe. Vi uma ânsia grudada em mim de contra-argumentar Viviane Mosé:

- Não devemos ser pobres, fracos, tristes e aleijados para o Reino dos Céus. Devemos ser ricos, fortes, felizes e cheios de braços para conseguir entrar na festa (Mt 22:11-13). São outras riquezas, fortalezas, felicidades. São outros dons. Amar a vida, sim! E como há pobres na vida, amar os pobres, não a pobreza, os aleijados, não a doença. Amar o próximo, não a proximidade, pois mesmo distantes, não deixam de ser irmãos. Sorver o gosto amargo da negligência, não para se perder na escuridão da culpa, mas para sentir a exuberância da luz quando a ela se entregar no arrependimento e na reparação. É uma alegria mais de ação que de esperança. Pois é querer, inadiavelmente, fazer do hoje um lugar melhor para mim e para você. 

Pobre, fraco, triste e amputado fui quando não ajudei quem precisava. A festa está no oposto. Como querer dançar nela sem ouvidos para ouvir o seu ritmo? A música deste mundo aqui, cheio de injustiças, ainda toca os tons da caridade material. Uma festa excludente? Não! É preciso chamar a todos. 

No Evangelho há mensagens para todos os estados da alma. Por que privilegiar apenas os que estão de bem consigo? Estar longe dos sãos! Eis o que nubla as falas do mestre, e o que as torna sol.  

sábado, 20 de abril de 2013

Deus? Que Deus?!



Mais uma do Porta dos Fundos. 

Agora sobre Deus. Ótima oportunidade para discutir sobre Ele. Mas, com a consciência humilde que a discussão do divino tem um cercado. Somos limitados no tempo e no espaço. O tempo nos limita não por sermos mortais (falo segundo o Espiritismo, claro!), mas por nossa consciência estar submetida ao esquecimento e a falta de clarividência.

É exatamente essa preliminar, que não é nada mais do que uma constatação óbvia da nossa pequenez, da nossa terrena humanidade, que funda os parâmetros da compreensão de Deus contra os devaneios assassinos de qualquer tribo, casta, seita, etc. 

O homem é relativizado pelo conceito de Deus. Nada mais justo de acontecer quando se colocam vizinhos no pensamento o relativo e o absoluto. Um se vale do outro para se engrandecer ou se apequenar. Mas, se começássemos pensando Deus segundo as nossas limitações, chegaríamos em algumas pontuações pertinentes:

  1. Que Ele é impensável no todo, portanto, participa do mistério que nos escapa (como pode o oceano em uma concha?);
  2. Que não faz o menor sentido uma Ciência que busca a Verdade se ela não existe, e que, se ela existe, deve ter um fundamento que a nutra;
  3. Que faz menos sentido ainda o concílio entre as mais diferentes tribos da humanidade se não há Moral que seja universal, mas que, se há, deve haver algo que a endosse;
  4. Que se as obras de arte são questão de gosto e, portanto, aparentemente indiscutíveis, é espantoso que uma obra forjada em certo tempo e espaço consiga se perenizar levando verdades e morais compartilháveis entre povos distintos.  

Se Deus fosse uma verdade a priori, todos estes pontos estariam resolvidos. Deus é impensável, mas sua existência seria um imperativo, se imporia por ela mesma. Não há o que pensar. O sentimento de óbvio tomaria a todos. A Verdade existe, pois Nele se funda. A Moral, idem. O gosto pela Beleza (ou pelo risível) é compartilhável para além de tempo, espaço, morais e verdades, pelo mesmo motivo. O Belo da arte seria a manifestação na matéria da grandeza divina (o risível, a discrepância da matéria no que pretende ser espírito - Bergson). Mas, o simples fato de nem todos entenderem assim, já nos traz a dúvida do universal. Como pode haver discordâncias entres esses temas se todos somos irmãos, filhos do mesmo Pai?

Foram a partir destas questões que se promoveu uma revolução copernicana e se começou a pensar o universal na perspectiva do humano. O que pode ser assumido por todos como verdade, moral e beleza não se impõe por um Deus da tribo da Polinésia cuja palavra um dia deverá açambarcar o mundo, mas pelo que vemos na humanidade, com nossos olhos de carne, e o que experimentamos, com nosso corpo de ossos e sangue. 

É por isso que nos é tão natural o estranhamento da encenação acima. O nosso referencial de paraíso não está exatamente fundado mais em uma Pessoa Divina que tem o poder de me salvar, mas em seres humanos que pareceram ter praticado um bem universal (Gandhi, Madre Tereza) ou terem devassado uma verdade universal (Einstein), ou ainda, terem criado um belo universal (León Tolstói poderia perfeitamente estar queimando no infinito! E Chaplin rindo ao seu lado). 

A contribuição espírita para esse assunto é a de nos ter esclarecido outros elementos do humano que podem participar dessa busca: os sentidos mediúnicos. Assim como os sentidos de carne, eles são limitados, mas não menos preciosos. Sobre eles, falarei um pouco mais em outros posts.  

A revolução é não mais estarmos a espera de uma exterioridade que nos salve, ou melhor do que isso, nos una enquanto a adoramos, mas de buscar essa unidade no que podemos encontrar de exterioridade em nós. Em outras palavras, não mais esperar que o Pai nos una, mas buscar o que há do Pai em nós para nos unir, a humanidade inteira. Ainda mais claro: tentar enxergar no outro o meu irmão não por causa que eu acredito no mesmo Deus que você, mas porque eu vejo em você o meu Deus. Por que eu não canso de tentar melhorar essa frase?! Mais uma tentativa, mas com uma frase que não é minha: “É assim que aquela mãe verdadeiramente cristã prepara a filha para a prática das virtudes que o Cristo ensinou. É espírita ela? Que importa!”*


* Excerto da mensagem “Infortúnios Ocultos” de O Evangelho Segundo o Espiritismo. Cap. 13, item 4. Essa mensagem sempre me encantou. 

domingo, 14 de abril de 2013

O outro lado do convite ou O máximo do ato desinteressado



Na postagem passada, terminei falando sobre o convite feito por Jesus para que amássemos o nosso próximo como se ama a Deus. E brinquei com esse chamado, pois não precisaria ter sido dito. 

Contudo, e quem estuda a Bíblia deve ter me contrargumentado na mesma hora, o amor ao próximo de Jesus era menos leve do que aparenta pela primeira vista, porque o próximo, em verdade, não está tão ao nosso lado assim. É a parte do convite que ninguém lê, porque dói. 


O ápice do amor cristão é o ágape. A forma mais prática, e praticamente inconcebível, de se amar de forma ágape é o amar o inimigo. Porque amar quem o seu corpo deseja (eros) ou amar a quem lhe faz feliz espontaneamente (filia) é quase como se amar. Para amar o inimigo tem que se esvaziar (do ódio), tem que se limpar (de tanto rancor), tem que se livrar (do desprezo), e se abrir ao outro, definitivamente outro, que, aparentemente, não tem nada a ver comigo. Mas, aquele que consegue, ou pelo menos tenta, se torna algo mais do que ele mesmo. Algo mais? Muitos mais! É uma violência de alteridade. Só não é, porque é amor, porque é convite, porque se aceitou. 

É possível? Em uma só vida, acredito que não. Por isso Kardec relativiza para que se torne mais concreta a ação nesse intervalo que temos para seguir esse conselho. É suportar, ao menos. É trocar o mal com o bem. O escárnio com a prece de coração. Contudo, em várias vidas, o amor se torna não só possível, mas evidente. 

Nos relatos dos Espíritos, enche-se a Terra de histórias de inimigos que reencarnaram como próximos, no sentido estrito. Compartilhando o mesmo útero, no caso de irmãos, ou o mesmo corpo, no caso de mãe e filho. Dividindo o sangue e a compatibilidade, a casa, a mesa e o pão. E, por uma divina lei de esquecimento, o ódio, o rancor e o desprezo são relativizados pelo estranhamento da ausência de motivos suficientes para isso, pela presença de razões viscerais para ser o contrário.

Nessa minha curta existência, encontrei casos de filhos que odiavam seus pais na adolescência, borbulhando reminiscências dos desafetos passados, mas que dariam sua própria vida para salvá-los. E de pais, cujo carinho por este ou aquele filho era visivelmente menor do que por aquele outro, mas que não se sacrificava menos para manter a vida dos dois. 

Então, um bom exemplo de amor ágape, ou talvez, um bom exemplo de escola para o ágape se chama círculo familiar. Nele, as pessoas tendem a se ajudar e falam até mesmo de amor, mesmo não sentindo a mesma alegria que um amigo desperta. Há uma obrigação que corre nas veias gritando para amar. Às vezes fugimos dessas determinações e percorremos tudo ao redor para um dia voltar  - sempre há volta, nessa vida ou em outra - mais dispostos. Outras vezes enfrentamos o desafio do convite pulsante até o dia em que, sem querer, nos vemos abraçando e chorando juntos. Não é mais a mistura de sangue que importa, a partir de então, mas a de lágrima e a dos suores. É a do espírito. 

Eis que o amor ao inimigo se mostra na sua impossibilidade última. Buscávamos, seguindo essa máxima, amar ao que não se ama. E o máximo que conseguimos foi tornar o que não se ama amável. Tornamo-lo um irmão. Pouco importava a vitória da lógica e dos conceitos para Jesus, bastava que aprendêssemos a amar.