domingo, 10 de maio de 2020
Do Pecado
Não é de se livrar do pecado que se faz a salvação. O pecado a espreita faz parte de nossa natureza. Ir contra ele com todas as forças só nos faz dele escravos. Viver, sabendo que ele está ali, nos faz humanos e preparados. A vigilância é o que devemos procurar e não a santidade.
quinta-feira, 7 de maio de 2020
A face não consoladora do Espiritismo
Depois de viver uma vida de trabalho e decepções entrecortadas por momentos de alegria sempre passageiros, não raro se pode desejar a morte como um fim para o mal que é a vida. Então, ao saber que ela continua quase igual, que nossas inclinações e paixões não mudam, mas apenas se faz uma passagem para outros tipos de vivências que são outras formas de nos aperfeiçoar, preferiria-se ir para o nada.
Espiritismo, assim, é consolador para quem tem outros desejos: o de alçar voo para as grandezas que relativizem os sofrimentos humanos, o de atingir conhecimentos que nos façam entender o mistério da dor e a justiça do Criador, e, por fim, de alcançar uma força moral que nos torne imunes à perfídia dos maus.
Para os que querem repouso eterno, as promessas espíritas são a visão do inferno.
quarta-feira, 6 de maio de 2020
Apenas o Redimido pode vencer o Mal
Há algumas sutilezas simbólicas na reflexão que vou construir aqui. Apenas o Redimido pode vencer o Mal. Redimido e Mal se encontram em iniciais maiúsculas. Isso significa que são dois arquétipos da natureza. Quem são?
O Redimido é aquele que passou pelo mal, experimentou-o, lambuzou-se dele, mas saiu do seu domínio. Deve-se ter em mente que no universo judaico-cristão não há bem um inferno como apenas um depositário das almas dos nossos mortos, como o é na Grécia antiga. Há, sem exceções, uma vida eterna de sofrimentos para aquele que se afastou de Deus. O inferno é o mal. Dizer que o Redimido é aquele que passou pelo mal é equivalente a dizer que ele entrou no inferno e dele saiu.
Todavia, semelhante a todos os que fazem essa passagem na mitologia grega, isto é, os que, vivos, entram no mundo dos mortos e conseguem sair, trazem consigo o segredo da eternidade, cultuado em torno de mistérios.
O Redimido, assim, é o que, vivo, experimentou o Mal em suas veias e conseguiu se purificar dele. Esse personagem carrega em si os mistérios da sobrevivência. Não a sobrevivência física, que nada é, mas a sobrevivência moral. Ele traz a marca do Bem imortal. Não é conhecer o Bem. É alcançar a pureza.
Sendo assim, pelo exposto no texto, minha tese de "apenas o Redimido pode vencer o Mal" se torna outra forma de conceituar o próprio Redimido.
O que separa católicos e espíritas é: a Redenção não é conquistada mas dada de graça pelo único que foi verdadeiramente capaz dela, assim acreditam os católicos. O espírita entende que cada um de nós pode ser tornar um Redimido.
Se colocarmos a crença católica em mente, o Redimido passou pelos infernos, mas nunca foi do inferno. Ele entrou na carne humana corrompida pela discórdia da serpente, mas venceu cada tentação do mundo. Ele foi a passagem de Deus iluminando as experiências humanas, redimindo-nos. Para o espiritismo, Jesus é um Espírito antiquíssimo que já passou por várias provações, chegando no ápice da escalada humana, sendo modelo e guia para todos nós.
O que nos convida à lucidez, dando o braço a torcer para a noção católica, é que ninguém em sã consciência pode conquistar a redenção nesta única vida. Somos de fato cheios de falhas e senões, seres lacunares, quando não vazios mesmo, e pequenos para mais não poder. Precisamos de Jesus como exemplo norteador. E, no momento em que nos encontramos, e por muito tempo além, precisaremos da figura do Rabi iluminando nossas consciências e nossos corações. Se focássemos apenas em uma vida, a única forma de sair daqui, concordo, é via Jesus, o Redimido por excelência.
O Redimido é aquele que passou pelo mal, experimentou-o, lambuzou-se dele, mas saiu do seu domínio. Deve-se ter em mente que no universo judaico-cristão não há bem um inferno como apenas um depositário das almas dos nossos mortos, como o é na Grécia antiga. Há, sem exceções, uma vida eterna de sofrimentos para aquele que se afastou de Deus. O inferno é o mal. Dizer que o Redimido é aquele que passou pelo mal é equivalente a dizer que ele entrou no inferno e dele saiu.
Todavia, semelhante a todos os que fazem essa passagem na mitologia grega, isto é, os que, vivos, entram no mundo dos mortos e conseguem sair, trazem consigo o segredo da eternidade, cultuado em torno de mistérios.
O Redimido, assim, é o que, vivo, experimentou o Mal em suas veias e conseguiu se purificar dele. Esse personagem carrega em si os mistérios da sobrevivência. Não a sobrevivência física, que nada é, mas a sobrevivência moral. Ele traz a marca do Bem imortal. Não é conhecer o Bem. É alcançar a pureza.
Sendo assim, pelo exposto no texto, minha tese de "apenas o Redimido pode vencer o Mal" se torna outra forma de conceituar o próprio Redimido.
O que separa católicos e espíritas é: a Redenção não é conquistada mas dada de graça pelo único que foi verdadeiramente capaz dela, assim acreditam os católicos. O espírita entende que cada um de nós pode ser tornar um Redimido.
Se colocarmos a crença católica em mente, o Redimido passou pelos infernos, mas nunca foi do inferno. Ele entrou na carne humana corrompida pela discórdia da serpente, mas venceu cada tentação do mundo. Ele foi a passagem de Deus iluminando as experiências humanas, redimindo-nos. Para o espiritismo, Jesus é um Espírito antiquíssimo que já passou por várias provações, chegando no ápice da escalada humana, sendo modelo e guia para todos nós.
O que nos convida à lucidez, dando o braço a torcer para a noção católica, é que ninguém em sã consciência pode conquistar a redenção nesta única vida. Somos de fato cheios de falhas e senões, seres lacunares, quando não vazios mesmo, e pequenos para mais não poder. Precisamos de Jesus como exemplo norteador. E, no momento em que nos encontramos, e por muito tempo além, precisaremos da figura do Rabi iluminando nossas consciências e nossos corações. Se focássemos apenas em uma vida, a única forma de sair daqui, concordo, é via Jesus, o Redimido por excelência.
terça-feira, 5 de maio de 2020
Eu importo
Eis o desafio do século entre as correntes espiritualistas: defender o Eu das pessoas.
O tema do Eu me apareceu com mais força quando um amigo me falou estar seguindo certo guru cuja crítica principal era sobre o apego às questões mundanas, que são passageiras. Essa temática é recorrente entre os gurus de linha oriental e pousaram sobre a filosofia pós-moderna criando raízes malignas. Veja em que ideias ela está assentada:
Qual a solução proposta pelo guru? Desapegue-se do eu, portanto, colocando em xeque a premissa 1. Em favor de que? De escapar do sofrimento, que é a conseqüência 6.
As pessoas se encantam demais com o murmúrio dessa sereia. Mas, temos de ir com calma. As premissas estão certas? O eu é nossa manifestação no mundo. Sim, mas é só isso? Não existe algo em nós que veio antes do mundo e sobreviverá a ele mantendo individualidade? O que haveria de se manifestar no mundo se não houvesse nada a priori? Se quiséssemos ser radicais na premissa destrutiva do eu, deveríamos dizer, o eu não é mais que a própria vida manifestando-se a si mesma no desenvolvimento de um movimento cego cujas origens estão guardadas no abismo da história. Mas, se o eu é a própria vida, por Deus!, o eu é tudo o que temos. Como escapar dele? Se o eu é algo mais que consegue inclusive enxergar o movimento cego da vida, este eu é alguma coisa a mais. Como poderíamos magnificar esse movimento de superação da mundanidade passageira sem recorrer ao próprio eu de onde o artifício de superação provém?
Colocam como demonstração a posteriori, então, a hipervalorização do eu provocada pela cultura do consumo de tudo, representada pela fala: eu quero ou eu desejo. A ânsia do consumo em um mundo onde nem tudo pode ser consumido geraria um paradoxo de insatisfação constante destruidora do próprio ser que deseja. Certo, a crítica procede. Estamos valorizando demais nossos desejos imediatos. Mas, todos os desejos seriam destruidores? Não haveria a busca sã que provocaria conquistas do eu fortalecendo-o verdadeiramente?
A crítica dessas espiritualidades de retiro e esvaziamento quer solapar a base de nossa cultura. Buscar desenvolver-se em um trabalho que nos dignifique é tudo o que fazemos desde os modernos, herdeiros do amor ao serviço cultivado nos mosteiros. O bonde desandou quando substituímos os objetivos últimos de nosso trabalho. Os monges oravam e trabalhavam para provocar uma ascese que os fizesse dignos de entrar no reino de Deus, com as vestes adequadas, para a grande festa de núpcias, em que Deus casaria com a igreja num apocalipse magnânimo. O homem moderno aos poucos substituiu esse fim último em Deus pelo de ser um cidadão útil para a Nação. A substituição culminou nos totalitarismos, uma vez que a Nação tomou as vezes de Deus, e o seu condutor o sumo-sacerdote.
Passada a Era dos Totalitarismos, o capitalismo devora o cotidiano e provoca nova subjugação do eu. É essa forma do eu de ser o consumista do imediato que merece crítica.
Mas, existe um eu imortal, que dá sentido a toda a nossa vida, para além e aquém da extenuação das células. Basta ver as coisas cotidianas. Você sonha algo ridículo, acorda e reconhece elementos seus nos sonhos. Consegue estranhar o que houve. Quando é tomado por ações equivocadas, compelido por pulsões intestinas, um quê de sobriedade te faz se reconhecer no meio do ato, às vezes te dando força para barrar o ato. Ou, quando o erro se consumou, o arrependimento existe em relação a você mesmo que sabe ter praticado aquilo. É o eu que se manifesta no confessionário falando de si.
Existe um eu que paira transcendente nesta vida, mas que ao mesmo tempo está mergulhado nela, como que costurando todos os lapsos. A falha daquele silogismo de seis pontos é tomar o eu fugidio, que se manifesta cristalizado em ações cotidianas mortais, pelo eu maior que dá sentido e identidade para tudo o que se fez, se faz e se fará. Um eu que se reconhece na história e entende suas projeções futuras. Aquele que olha o álbum e consegue dizer: sou eu. Aquele que olha um mapa astral e diz: faz sentido esse caminho das estrelas que foi reservado para mim.
Caso não se queira ceder aos argumentos que exponho em linhas gerais contra os esoterismos de aniquilação do eu, dou apenas mais um preventivo contra eles. Os gurus, em grande medida, são eus inchados loucos para tornar subservientes os eus ressequidos por falta de sentido no tumulto da vida.
- Esvazie sua mente e não se iluda nas pegadinhas do eu.
- Quem me fala isso?
- Sou o guru Shamabanpala.
- Mas você é você ou você sou eu?
- Já não sou mais.
- Então você fala de um lugar que não é?
- Nem sou, nem não são.
- É o nada?
- Nem nada, nem tudo.
- Então, não você não é da minha dimensão. Pode passar adiante. Não ser pra minha vida.
O tema do Eu me apareceu com mais força quando um amigo me falou estar seguindo certo guru cuja crítica principal era sobre o apego às questões mundanas, que são passageiras. Essa temática é recorrente entre os gurus de linha oriental e pousaram sobre a filosofia pós-moderna criando raízes malignas. Veja em que ideias ela está assentada:
- O eu é nossa manifestação no mundo
- Essa manifestação é uma de apego ao que o mundo é
- O mundo não é, pois não passa de passagem
- O eu, pelas premissas 1 e 2, se apega, necessariamente, ao que não é
- Esse apego ao que não é gera existência sem sentido
- Existência sem sentido gera sofrimento
Qual a solução proposta pelo guru? Desapegue-se do eu, portanto, colocando em xeque a premissa 1. Em favor de que? De escapar do sofrimento, que é a conseqüência 6.
As pessoas se encantam demais com o murmúrio dessa sereia. Mas, temos de ir com calma. As premissas estão certas? O eu é nossa manifestação no mundo. Sim, mas é só isso? Não existe algo em nós que veio antes do mundo e sobreviverá a ele mantendo individualidade? O que haveria de se manifestar no mundo se não houvesse nada a priori? Se quiséssemos ser radicais na premissa destrutiva do eu, deveríamos dizer, o eu não é mais que a própria vida manifestando-se a si mesma no desenvolvimento de um movimento cego cujas origens estão guardadas no abismo da história. Mas, se o eu é a própria vida, por Deus!, o eu é tudo o que temos. Como escapar dele? Se o eu é algo mais que consegue inclusive enxergar o movimento cego da vida, este eu é alguma coisa a mais. Como poderíamos magnificar esse movimento de superação da mundanidade passageira sem recorrer ao próprio eu de onde o artifício de superação provém?
Colocam como demonstração a posteriori, então, a hipervalorização do eu provocada pela cultura do consumo de tudo, representada pela fala: eu quero ou eu desejo. A ânsia do consumo em um mundo onde nem tudo pode ser consumido geraria um paradoxo de insatisfação constante destruidora do próprio ser que deseja. Certo, a crítica procede. Estamos valorizando demais nossos desejos imediatos. Mas, todos os desejos seriam destruidores? Não haveria a busca sã que provocaria conquistas do eu fortalecendo-o verdadeiramente?
A crítica dessas espiritualidades de retiro e esvaziamento quer solapar a base de nossa cultura. Buscar desenvolver-se em um trabalho que nos dignifique é tudo o que fazemos desde os modernos, herdeiros do amor ao serviço cultivado nos mosteiros. O bonde desandou quando substituímos os objetivos últimos de nosso trabalho. Os monges oravam e trabalhavam para provocar uma ascese que os fizesse dignos de entrar no reino de Deus, com as vestes adequadas, para a grande festa de núpcias, em que Deus casaria com a igreja num apocalipse magnânimo. O homem moderno aos poucos substituiu esse fim último em Deus pelo de ser um cidadão útil para a Nação. A substituição culminou nos totalitarismos, uma vez que a Nação tomou as vezes de Deus, e o seu condutor o sumo-sacerdote.
Passada a Era dos Totalitarismos, o capitalismo devora o cotidiano e provoca nova subjugação do eu. É essa forma do eu de ser o consumista do imediato que merece crítica.
Mas, existe um eu imortal, que dá sentido a toda a nossa vida, para além e aquém da extenuação das células. Basta ver as coisas cotidianas. Você sonha algo ridículo, acorda e reconhece elementos seus nos sonhos. Consegue estranhar o que houve. Quando é tomado por ações equivocadas, compelido por pulsões intestinas, um quê de sobriedade te faz se reconhecer no meio do ato, às vezes te dando força para barrar o ato. Ou, quando o erro se consumou, o arrependimento existe em relação a você mesmo que sabe ter praticado aquilo. É o eu que se manifesta no confessionário falando de si.
Existe um eu que paira transcendente nesta vida, mas que ao mesmo tempo está mergulhado nela, como que costurando todos os lapsos. A falha daquele silogismo de seis pontos é tomar o eu fugidio, que se manifesta cristalizado em ações cotidianas mortais, pelo eu maior que dá sentido e identidade para tudo o que se fez, se faz e se fará. Um eu que se reconhece na história e entende suas projeções futuras. Aquele que olha o álbum e consegue dizer: sou eu. Aquele que olha um mapa astral e diz: faz sentido esse caminho das estrelas que foi reservado para mim.
Caso não se queira ceder aos argumentos que exponho em linhas gerais contra os esoterismos de aniquilação do eu, dou apenas mais um preventivo contra eles. Os gurus, em grande medida, são eus inchados loucos para tornar subservientes os eus ressequidos por falta de sentido no tumulto da vida.
- Esvazie sua mente e não se iluda nas pegadinhas do eu.
- Quem me fala isso?
- Sou o guru Shamabanpala.
- Mas você é você ou você sou eu?
- Já não sou mais.
- Então você fala de um lugar que não é?
- Nem sou, nem não são.
- É o nada?
- Nem nada, nem tudo.
- Então, não você não é da minha dimensão. Pode passar adiante. Não ser pra minha vida.
Novidadeiros
Ontem um companheiro espírita nos expôs que o grupo do qual faz parte está com um projeto de disponibilizar as comunicações mediúnicas do grupo sobre temas evangélicos específicos ao público em geral, por meio de plataforma da internet, a fim de promover um diálogo dos encarnados com os desencarnados como no tempo de Kardec.
Não será como no tempo de Kardec.
Ele disse que não se abrirá à crítica, mas apenas a perguntas que serão respondidas pelos espíritas.
Como eu disse, não será como Kardec.
Kardec questionava às vezes até a encurralar o espírito manifestante em um diálogo de pé de orelha. Fazia isso porque sabia que o médium mais bem dotado poderia se mistificar e ser vítima de embusteiros do além que venderiam gato por lebre.
Mas, nós espíritas nunca aprendemos esse tipo de diálogo. Todos nós, carregando atavismos de quando éramos rebanho de sacerdotes e profetas, baixamos a cabeça para ouvir o indivíduo mediunizado.
Bezerra de Menezes se manifesta pelo palestrante. A fala do pretenso Dr. Bezerra não acrescenta em nada qualquer discussão, mas a platéia se comove, e aquilo é tido como que uma bula papal fechando pontos soltos.
Nos meados do século XIX, Kardec ainda teve que enfrentar a morosidade dos correios e a exiguidade de ajudantes. Nesta época agora de comunicação instantânea e inteligência artificial, o risco de encher nossas caixas de mensagens com textos desprezíveis cresceu exponencialmente. As novidades viralizam e adoecem.
Talvez nosso cérebro esteja passando por uma transição para conseguir suportar essa intoxicação de informações. Mas daqui que atinjamos novo patamar de equilíbrio, só os clássicos que sobreviveram ao tempo nos defendam dos novidadeiros.
Não será como no tempo de Kardec.
Ele disse que não se abrirá à crítica, mas apenas a perguntas que serão respondidas pelos espíritas.
Como eu disse, não será como Kardec.
Kardec questionava às vezes até a encurralar o espírito manifestante em um diálogo de pé de orelha. Fazia isso porque sabia que o médium mais bem dotado poderia se mistificar e ser vítima de embusteiros do além que venderiam gato por lebre.
Mas, nós espíritas nunca aprendemos esse tipo de diálogo. Todos nós, carregando atavismos de quando éramos rebanho de sacerdotes e profetas, baixamos a cabeça para ouvir o indivíduo mediunizado.
Bezerra de Menezes se manifesta pelo palestrante. A fala do pretenso Dr. Bezerra não acrescenta em nada qualquer discussão, mas a platéia se comove, e aquilo é tido como que uma bula papal fechando pontos soltos.
Nos meados do século XIX, Kardec ainda teve que enfrentar a morosidade dos correios e a exiguidade de ajudantes. Nesta época agora de comunicação instantânea e inteligência artificial, o risco de encher nossas caixas de mensagens com textos desprezíveis cresceu exponencialmente. As novidades viralizam e adoecem.
Talvez nosso cérebro esteja passando por uma transição para conseguir suportar essa intoxicação de informações. Mas daqui que atinjamos novo patamar de equilíbrio, só os clássicos que sobreviveram ao tempo nos defendam dos novidadeiros.
segunda-feira, 16 de março de 2020
Abrindo estudo sobre Mitologia
INTRODUÇÃO: Estou iniciando aqui uma nova playlist que falará sobre mitologia e este é o vídeo introdutório.
- A mitologia é a matriz da filosofia
- As histórias mitológicas fundam civilizações e cotidianos
- Elas chegam a apaziguar guerras e conferir sentidos
- São um sistema de crenças e pensamentos que talvez tenham o mesmo nível ontológico (se não mais) que o sistema lógico-matemático ou científico-empírico. Talvez mais porque elas conseguem cobrir a descrição da realidade com uma riqueza maior de detalhes que escapa da sintaxe lógica ou científica.
- Esse sistema teve seu ocaso porque os desafios enfrentados pelos homens já não eram respondidos a altura pelo símbolo dos mitos. Os mitos traziam símbolos de origem local, e a Grécia se "mundializava". O discurso filosófico acabou sendo uma via de enfrentar a "mundialização".
- Para que uma história fincasse raízes e valesse a pena ser contada e ascendesse ao estatuto de mito era preciso ter fortes ligações com o belo e com a verdade.
- Hoje vemos um retorno do respeito às mitologias porque conseguimos desenvolver um pensamento filosófico que, depois de muito tempo, consegue ver os mais diversos mitos como sementes férteis para fecundar o pensamento humano. Tiramos a couraça daquelas histórias que as obrigava de serem tal e qual a realidade, e entendemos a simbologia explosiva que elas representavam. Além de voltar a dar valor ao belo, e não apenas a esquelética lógica na busca de descrever o real.
- Importa, finalmente, saber, que os valores que as mitologias carregam não evocam apenas condutas morais para o dia-a-dia, mas apontam sentido de vida. Revelam, por assim dizer, valores transcendentais que ajudam as pessoas a ter um modelo para encarar a angústia da finitude
quarta-feira, 13 de novembro de 2019
Como foi a desencarnação de mamãe
Vitimada há quatorze anos por um Parkinson raro que provocava nela tremores, dores e muita rigidez que nunca havia permitido brincar com meus filhos, entra na emergência com pneumonia grave já com uma vontade previamente expressa que não queria UTI.
Rapidamente foi iniciado o antibiótico, mas por medida de conforto, tamanho foi o desespero do cansaço, sedaram-na. Supus que ela morreria no mesmo dia. Pedi para meu primo que não trouxesse a tia, não daria tempo. Só que ela não morreu. O coração batia forte apesar de uma respiração pouca e superficial. Sete médicos a rondavam e constatavam atônitos: ela resiste. Pensei: ela espera se despedir da tia. Convoquei com urgência nossa família do interior. Eles chegaram rápido. Juntamo-nos, choramos seu estado, afagamo-la, oramos, conseguimos um padre que conduzisse a unção dos enfermos. A cada instante da cerimônia eu imaginava: agora ela vai.
Vocês que não tem ideia de pacientes críticos nunca poderão entender o milagre de um coração resistir viver sob o peso de uma respiração dificultosa, borbulhosa, adicionado de dois sedativos-analgésicos endovenosos, em infusão contínua, extremamente necessários todavia para tirar sua dor. Ela resistia. E até mesmo deu sinal de melhora da oxigenação, da pressão. Por Deus: ela quer voltar!
Insone que eu estava, vigilante para que a equipe do hospital a tratasse com todo o desvelo e sem procedimentos desnecessários, madruguei no outro dia em busca de agilizar os exames que apontassem seu caminhar para a recuperação, o que justificaria tirar a sedação. Três médicos estavam de acordo com essa idéia. Descobri, ao contrário, que o corpo dela entrava em falência. Desesperei-me. Caí em prantos. Tive raiva dela: a senhora nunca fez o que os médicos queriam, sempre cuidou dos outros e esqueceu de si, e mesmo agora na morte, você é cabeça dura. Pare de sofrer!
Paralisei no ar. Vaguei perdido pelos corredores. Ia e voltava de casa tentando entender o que ela queria. Tive a ideia de uma reunião espírita de meus amigos para cantar e ler o evangelho. Preparamo-nos no outro dia para tal. A respiração dela do mesmo jeito, terrivelmente fraca, ruidosa, o coração pulsando forte. À noite, então, estávamos lá, dez pessoas no quarto cantando em coro músicas espíritas que falavam de Jesus, da libertação da alma, da renovação de tudo. O Espírito de meu pai se comunica falando estar preparado para recebê-la. A cada instante, olhava para o peito dela que resistia, resistia e resistia. O que fazer, Senhor?! O que fazer?!
Meus pés estavam inchados de tanto andar, meditar em pé buscando alguma resposta. Meus nervos também inchados de tanto remoer os dados médicos, tentando captar se algo da medicina havia sido equivocado. Passei e repassei a história daquela internação para seis médicos. Todos eram unânimes:
- Não se culpe, tudo que foi feito está nos conformes. A doença dela não cabia de fato procedimentos invasivos. Além do mais, era da vontade dela não ser intubada.
Gritei dentro de mim: "Se você morresse! Mas você não morre! Você é dura!". Comecei a delirar. Será mesmo se ela realmente não queria ser intubada? Eu tinha ouvido isso da boca dela. Saí perguntando para os mais próximos se também haviam ouvido isso. Minha irmã confirmou, minha esposa também ouvira. Todos os cuidadores ouviram a mesma coisa. Será se todos deliravam igualmente? Meu Deus, se todos deliram, e fui aquele que abriu a boca para dizer à equipe médica que a suposta vontade dela era aquela... eu... matei... minha mãe.
As enfermeiras já suspiravam aflitas quando eu repisava o corredor. Todas as vezes que chegava no posto de enfermagem eram os olhos vermelhos ou lágrimas grossas. Meu irmão não dormia. Meu primo não dormia. Minha irmã não dormia. Tive vontade de sair pela rua a fora. Em vez disso saí com um amigo, recontei para ele tudo. Ele novamente me mostrou que nada faltava.
No último sol dessa aflição, escorado ao leito do hospital, tive a ideia de, mesmo com todos os indícios de deterioração clínica, desligar todas as bombas de analgesia e sedação, deixá-la acordar ainda que em agonia brutal para que ela gritasse o que queria. Compartilhei a ideia com o médico do dia. Diante do meu sofrimento e da própria angústia dele sem entender aquele fenômeno de resistência, anuiu que fizéssemos um teste. Qualquer indício de sofrimento, seria necessário voltar a infusão de sedativos. Combinado. A bomba foi desligada. Enquanto esperava ao seu lado olhando fixamente seus olhos, sua boca, seu braço, se este voltava a tremer, eu que passei esses últimos quatorze anos pedindo aos céus que aquele braço não tremesse mais, estava ali esperando qualquer sinal de retorno de consciência e falando com amigos, entre eles uma paliativista que disse delicadamente para mim:
- Não faça isso. A morte é um momento muito especial de cada um. Cada qual faz do seu jeito. Este é o jeito dela. Ela deve estar com medo da passagem. Respeite-a. Não deixe que aconteça com dor, com desespero. É o tempo dela na vontade divina. Eu vou aí.
Então religamos a bomba, e pela primeira vez fui esclarecido que a audição e o tato são os últimos sentidos que a pessoa perde. Chamei meu irmão que chorava e chorava, mas ainda não tinha tido um momento a sós com ela. Pedi para que todos saíssem do quarto que aquele momento era dele e dela. Ele passou cerca de dez minutos falando para a mãe. A médica, então, mobilizou-a, tentou diminuir o desconforto respiratório dela. Tudo com muito cuidado. Falando com ela todo tempo, tocando-a com muito carinho. Minha alma estava se acalmando. Parecia que a médica fazia massagens no meu coração. Cada palavra, um alento. Respeitou minha dor e todos os meus movimentos de filho médico até agora. Mas, disse enfim:
- Não seja mais médico, seja só filho. Toda e qualquer decisão ligue para mim.
Sugeriu-me então uma enfermeira paliativista que combinou vir às 18h. Fui em casa tomado por uma paz que há dias não tinha. Revi minha esposa, meu filho mais novo, o mais velho havia saído com a outra avó. Deitei na cama e tive a ideia de fazer um áudio com a mensagem dele para a vovó Irami. Havia sido conselho da médica.
Às 18h em ponto estávamos lá no hospital, todos os cuidadores, minha irmã e minha esposa. A enfermeira massageava minha mãe e explicava como se deveria massagear. Os cuidadores seguiam suas orientações. Começaram a mobilizá-la, em busca de confortar sua respiração. Já se iam cerca de 90h de respiração ruidosa, que naquele dia havia sido amenizada pelas intervenções das paliativistas. Eu comecei a entender que aquele momento não era a resistência de mamãe mas a última fase de sua doença. Uma fase em que ela, livre das dores, dos tremores e da rigidez, tinha a oportunidade de passar os últimas dias com os que amava.
Nesses dias para mim sombrios, para ela havia sido os dias em que recebera orações como nunca, cânticos, declarações, cuidados a vontade. Os cuidadores se uniram entendendo que seria o último esforço. Ela ouvia todos dentro do quarto lembrando do quanto ela foi mãe de todos. Até dos cuidadores. Relembravam seus gostos, seus afetos, o quanto era feliz com todas as crianças que se aproximavam dela.
As massagens em seu corpo continuavam, quando de repente ela abre os olhos. A enfermeira percebe aquela oportunidade única e diz: Allan, conduza a todos para que falem com ela um a um. O último de nós, meu irmão, chega para visitá-la exatamente nessa hora. Olhos semi-serrados, cada um olhou naquele acastanhado bonito e falou: os cuidadores, que ela não se preocupasse que também cuidariam de nós, seus filhos, e nós, os filhos, que ela partisse em paz que cuidaríamos uns dos outros feito irmãos. Nunca havíamos dito isso para ela, separados que estávamos pelo trabalho de cada um. Por fim, coloquei o áudio do meu caçula no ouvido dela, olhando no fundo de sua alma. Terminado o áudio, a enfermeira toma a dianteira para melhorar a posição dela na cama, é quando eu e minha esposa percebemos o último suspiro. E a cor do lábio se esvaindo. Dou alguns passos a frente e tomo seu pulso carotídeo. "Ela morreu". Choramos.
Agradeço à enfermeira por ter proporcionado aquela despedida. Convido todos a se darem as mãos em um grande círculo ao redor do corpo de mamãe. Agradeço a Jesus por aquele momento com palavras de improviso nascidas do coração. Emendamos com um Pai Nosso e uma Ave Maria. Abraçamos-nos uns aos outros. Agradeço a cada um e a todos. Mamãe atravessara, enfim, o portal. Era aquilo. Tudo foi tão rápido. Ela só queria ter a certeza que não iríamos ficar desamparados.
Tenho outras tantas reflexões, e houve muito mais entre cada respiração do que posso contar agora. Mas, como sempre digo para meus meninos ao contar historinhas que se alongam: são cenas dos próximos capítulos.
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