quinta-feira, 22 de maio de 2014

À prepotência

Aí estás, prepotência! Sabes que não te deixo velada por muito tempo sob pena de que cresças em mim. Quando vens com teu rebuliço me fazendo cócegas, me levando às náuseas, te vomito. É do que meu coração se encheu, não? Pra fora! Como poderei me reconciliar contigo diante do altar da criação se te largo escondida aqui dentro. Não! Mostro-te ao sol como quem eleva um filho. Não é um ritual de sacrifício, mas de integração. O mesmo contigo, orgulho, e contigo, vaidade, e contigo também, soberba. Não fique ninguém com ciúmes!

sábado, 10 de maio de 2014

Noé, o filme, e os eternos conflitos do dilúvio em nós - Parte III



Perdoem-me se não consigo terminar a análise deste filme apenas nas didáticas três partes. Há coisa demais para se dizer, e não quero lhes cansar em uma só postagem. Abordarei hoje sobre estes dois pontos: a obediência como signo de perfeição e os anjos decaídos que não são satânicos.


A obediência como signo de perfeição. Se começarmos percebendo que os animais e as plantas são mais obedientes que os homens, ou pior (melhor?), são completamente obedientes aos desígnios de Deus, o que os torna perfeitos no sentido grego, isto é, completos, acabados, estaremos automaticamente nos remetendo ao mito de Prometeu sobre a criação dos seres. Epimeteu, o titã certinho, fez com que os seres vivos não-humanos tivessem atributos que os deixassem em equilíbrio perfeito com o cosmos. Prometeu, o irmão espertinho de Epimeteu, vendo que o seres humanos foram os pobrezinhos que ficaram sem atributos, a bem dizer, nus, decidiu ir lá em cima do monte dos deuses e roubar o fogo da criação para dar de presente aos coitadinhos pelados. O que aconteceu? Os homens ficaram com poder em excesso, e como não tinham atributos pré-definidos por nenhuma divindade, começaram a ultrapassar todos os limites. Qual o signo de perfeição de um ser? A obediência aos limites do cosmo em que você se enquadra. Troque o cosmo, novamente, pela palavra Deus e você terá a visão hebraica, só que um pouco mais paternal, já que Deus é um paizão que quer, na verdade, ensinar aos filhos a ser assim.


Os anjos decaídos que não são satânicos. Dizem que o Satanás era um dos mais belos anjos que vivia ao lado de Deus, mas quis ser mais que o Criador. Este, então, lhe amputou a beleza e o expulsou para o quinto dos infernos. Aí, aquele fez seu quartel general e passou a ter um só propósito na vida: impedir que os homens alcançassem a graça de viver em harmonia com o Criador. Como fazer isso? Seduzindo-lhes à desobediência.


Todavia, o filme mostra um conjunto de anjos que caíram por outro motivo: quiseram ajudar os homens que estavam se desvrituando. Também desobedeceram a Deus - nada escapa dessa temática - mesmo que por uma causa nobre, aos olhos de nós humanos. O interessante é que essa história, aparentemente inventada pelo filme, não flutua no nada das mitologias. Vemos que ela é um eco das história gregas, talvez de outras mais com as quais não tenho tanta intimidade.


Lembram-se que eu havia falado de uma geracão de homens de ouro, harmonizados no princípio de tudo com a natureza cirunjacente? Pois estes homens, nos narram as lendas, depois de terem morrido da forma mais serena que se possa imaginar, se tornaram Espíritos tutelares dos homens de bronze, tentando os reconduzir para o caminho da sabedoria. Eram os famosos daimons, que deram origem à palavra demônios em latim. Entre os gregos, esse vocábulo não tinha conotação negativa a priori, mas depois nossa cristandade medieval quis entender que sim. Ficou na nossa mente que seres incorpóreos que vagam entre os homens só podem ser almas penadas pedindo reza ou servos de Satanás espalhando o mal.


A princípio, pode-se ter pena dos simpáticos anjos decaídos que ficaram enclausurados em corpos de pedras, eles que eram luzes livres voando em torno da terra, ao lado do Criador. Contudo, perceba que há uma reconciliação ao final. Da linhagem de Set, o que não desobedeceu o pai, sai um predestinado para salvar a humanidade, que se manteve em linha reta até o fim, com quem os anjos se uniram ao enxergar nele a marca original de Deus, sendo ele, através daquela conduta nobre de equilíbrio com a natureza, o caminho da libertação, ou o que trilha o caminho certo.


É como se o Criador ficasse agindo constantemente sobre a criação que se desvirtua, em seu comportamento indócil, sulcando caminhos que a devolva para os rumos certos. É a perfeita imagem de um agricultor que cuida da sua plantação. Lembre-se que estamos falando da visão de mundo, e, portanto, de Deus, de um povo agropastoril. O Pai lhes deu liberdade para escolher entre o certo e o errado. Eles escolhem frequentemente o errado. Deus age constantemente para fazê-los retornar ao certo.


Eis a grande diferença da relação entre as divindades gregas e o Deus hebraico. Aquelas estão pouco se importando se os homens chegam ou não à sabedoria. Se um ou outro alcança, bom para ele, terá a recompensa automática da serenidade, às vezes concedida por Zeus, como no caso de Ulisses e Penélope. O resto merecerá o reino das sombras pelo próprio curso natural de sua burrice. O Deus hebraico gerou seus filhos para que TODOS fossem sábios. Age constantemente entre eles para este fim. Se conseguem, há imensa festa no céu. Se não… parece que vão sofrer muito no inferno. Visão esta que não é compartilhada totalmente pelo Espiritismo.

É triste que se encontre essa desistência de Deus nessa mitologia que tinha tudo para ser uma das mais belas. Esse Deus que provoca dilúvios e se cansa de seus filhos maus que Ele mesmo gerou... tem alguma coisa que não bate aí! É essa incongruência que o Espiritismo vai sanar com a teoria da reencarnação. Mas isso, são águas que ainda estão para rolar.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Noé, o filme, e os eternos conflitos do dilúvio em nós - Parte II




Pai e filho estão sob as barbas brancas, alvas nuvens de Deus. O mais velho vai passar ao mais moço o legado de ser homem. O que é ser homem para você?

Essa pergunta caiu na minha primeira prova de psicologia médica na faculdade. Não me fui bem na resposta porque o professor perguntava “segundo os conceitos da psicodinâmica”. E eu respondi, brilhantemente, segundo os conceitos da minha vida. Antes que me chamem de pedante, me respondam: Quem pode falar mais brilhantemente sobre minha vida se não eu?

A pergunta, rigorosamente, era assim:

- Segundo a psicodinâmica, você é filho ou homem? Explique.

Esquecendo a psicodinâmica e as instâncias da mente, o que você responderia?

A definição de homem, isto é, de maturidade espiritual. Os hebreus, consequentemente, os judeus, dão um valor sobrenatural para a paternidade e a gestão da família, célula-máter da comunidade. Colocar em risco essas bases é fazer estremecer todo o povo. Muitos dizem que a novidade trazida por Jesus é a de tratar Deus como Pai (Abba). Não é verdade. Deus-Pai está em toda a tradição. A forma como se encara esse Pai é que difere. Freud, que era judeu, parece ter entendido bem isso, dando importância fundamental a relação edipiana - trágica! - de como acontece essa relação e sua influência na formação da personalidade do filho. Perceba que os grandes guias da comunidade hebraica surgem da ordem que o Deus-Pai dá ao seu filho mais velho, enviando-o aos irmãos mais moços. Entenda mais velho em um sentido espiritual, isto é, aquele que “cresceu" o suficiente para entender sua vontade.

Aí está a grande chave para entender porque Noé pode ser considerado um homem. Ora, porque obedece a vontade do Pai. Eis porque ele diz para o filho rebelde, na cena em que começa a chover para o dilúvio, que, por mais doloroso que pareça, ele está a lhe ensinar a ser homem, fazendo não o que o desejo pede, mas o que é necessário fazer: o dever. Aliás, isso é o que representa, no sentido negativo, o mito de Adão e Eva. Um filho que passa a sofrer as conseqüências de ter ouvido mais a voz da sedução (serpente e Eva) do que a de Deus.

Retrógrado? Se for, essa visão de mundo não está só. Ouvir a voz de Deus e obedecê-la, entre os filósofos estóicos da Grécia, era perfeitamente traduzível por aceitar o seu lugar no cosmos. Aqui, mais perto, entre os iluministas, seria ouvir a voz da razão. Perder o juízo é sinal de loucura, de deixar-se dominar pelas emoções, de ser infantil e não homem. A gente muda o nome de Deus por Cosmo, Razão, Verdade. E para cada um destes pensamentos, uma forma de maturidade espiritual se anuncia.

A grande diferença entre o Deus judaico-cristão e estas outras formas de Deus engendradas por estas outras culturas é a abertura para o amor. Nem o Cosmo, nem a Razão, muito menos a Verdade (no que ela tem de estritamente racional) são capazes de nos amar. Não faz parte de seus atributos. Mas, Deus, este que foi espalhado por Jesus, resgatando um tema levítico, este é pleno de amor, ou ainda, é pleno amor. É a superação do conflito "dever x amor” que dará nova vida para tudo na Terra redimida pós-diluviana. Ou melhor, como diria Jesus, foi o amor, e não a água, que cobriu todos os pecados.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Noé, o filme, e os eternos conflitos do dilúvio em nós - Parte I



Não vou me ater aqui à análise bíblica da história de Noé segundo o original. Vou escarafunchar a história do cinema e suas conexões com grandes temas filosóficos. Vamos dividi-la em alguns itens:

O dilúvio não é um privilégio dos hebreus. Você deve saber que as grandes civilizações do mundo antigo tendiam a se instalar e crescer próximo a um grande rio, dentro de um vale. Quando havia época de muita chuva, aquele transbordava e provacava dilúvios trágicos. A relação do homem com Deus era questionada e elaborada não só pelos sacerdotes, mas também pelos grandes contadores de história, que, frequentemente, se valiam dos recursos de consulta aos deuses (ou os deuses se revelavam espontaneamente para eles) para melhor narrar o fato, a fim de ficar claro o motivo de tanto sofrimento e a solução para o resgate, o que é uma espécie de prevenção para a tragédia não se repetir. 

É comum, entre os antigos, a visão de mundo que conecta os grandes males à relação do homem com as divindades, já que só elas poderiam provocar tão vultosas calamidades. Há grandes lendas diluvianas entre os Sumérios (Gilgamesh, o grande rei, em busca de imortalidade, procura Utanapishtim, aquele que sobreviveu ao dilúvio), entre os indianos (Brama se transforma em peixe e vai falar com o monarca Vaivaswata sobre o dilúvio próximo), entre os gregos (Deucalião e Pirra, únicos salvos por Zeus - nem mesmo os animais se safaram).  

No filme, vejo muitos traços gregos. Os homens da idade de bronze, segundo a mitologia desse povo, eram uma geração posterior aos da idade de ouro que, diferentemente destes últimos, viviam em conflitos entre si e com o cosmos. Tenderiam a se destruir sem precisar da ajuda divina se não houvessem atiçado Zeus contra si. Perceba que os homens da descendência de Caim são artesãos do ferro e muito belicosos. Adão e Eva, os seres que viviam em harmonia com o paraíso, são representados no filme por entidades de pele dourada!

A história do dilúvio fala sobre reconciliação: do sensível com o inteligível, do homem com Deus. A geração dos homens inicia em completa harmonia com o meio e com Deus, o Criador. A desobediência é o ato primeiro de ruptura. Este ato é o que perpetua e multiplica a separação entre o homem e a natureza. É exatamente o que não encontramos com a geração de Set, particularmente em Noé. Logo de início, encontramo-lo colhendo espécimes de vida que, bravamente, ainda sobrevivem na terra devastada, bem como se compadecendo da morte de um animal caçado pelos filhos de Caim.

Entre os gregos, Aristóteles representou uma das primeiras grandes escolas de pensamento que buscou reconciliar o inteligível com o sensível, as ciências da natureza com as ciências do espírito. Não à toa, suas lições de biologia buscavam enxergar a grandeza do cosmos na engenhosidade dos animais. Por onde chegar à identidade com o cosmos? Não é pela libertação das armadilhas do sensível, mas pela descoberta intelectual das maravilhas do sensível em sua forma. É na forma que está encarnada a ideia nobre, mais que isso, ideia e forma se misturam indistinguivelmente.

A solução dos gregos em seu período filosófico rumou para essa resposta. E a dos hebreus? Seguir a vontade do Criador. Se, desde o início dos tempos, a humanidade tivesse se mantido obediente ao Criador, mal algum teria caído sobre ela. Veja que a estrutura dessa resposta está em perfeita conformidade com a estrutura social dos hebreus, bem como a de Aristóteles com a democracia Ateniense. Na Grécia antiga, era importante que o homem atingisse a maioridade de se guiar e ajudar a guiar a Pólis através do exercício da própria razão em fazendo sua cidade ser um reflexo do Cosmos, ou, em Aristóteles, não um reflexo, mas uma identidade. Entre os hebreus, sociedade eminentemente patriarcal, a obediência à vontade do Pai era o valor por excelência.

O mito estrutura a tradição de aprendizados em cada sociedade. Quando fazemos algo errado à revelia das orientações de nossos pais, o que eles dizem? "Viu, menino, não te falei?". Seguir as orientações do mais velho e experiente elemento da família é o grande ideal de sabedoria. E a sabedoria, em muitas culturas, sempre foi uma espécie de reconciliação do homem com a estrutura que lhe transcende e lhe contém.

Já me estendi demais. Vou deixar para próximos posts as outras questões que encontrei nessa história: a definição de homem, isto é, de maturidade espiritual, a obediência perfeita das plantas e dos bichos em contraste com os excessos dos filhos de Caim, os anjos decaídos por razões (ao nosso ver) mais nobres, o caminho da libertação, a voz de Deus que fala segundo a capacidade de apreensão de cada homem, o Deus de fora e o Deus de dentro, e, por fim, o caminho do amor para a verdadeira salvação (ou, é preciso destruir para salvar?).

Aproveite para assistir ao filme, porque vou revelar o final nos próximos posts. E quem for querendo encontrar a bíblia intocável lá, acho melhor mudar de ideia, se não a decepção pode lhe afogar.

sexta-feira, 14 de março de 2014

Desculpem a ausência



Estou temporariamente ocupado estudando para abrir um canal no You Tube falando sobre os principais filósofos e um possível diálogo deles com o Espiritismo. Estou, também, em processo de aquisição de material e conhecimento sobre gravação e edição de vídeos para a internet a fim de disponibilizar um material de qualidade. 

Retorno em breve com novidades. 

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

O sacrifício mais agradável à Deus

"Portanto, se trouxeres a tua oferta ao altar, e aí te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, Deixa ali diante do altar a tua oferta, e vai reconciliar-te primeiro com teu irmão e, depois, vem e apresenta a tua oferta. Concilia-te depressa com o teu adversário, enquanto estás no caminho com ele, para que não aconteça que o adversário te entregue ao juiz, e o juiz te entregue ao oficial, e te encerrem na prisão. Em verdade te digo que de maneira nenhuma sairás dali enquanto não pagares o último ceitil." (Mt 5:23-26)

Levantamos alguns assuntos relacionados a oferendas entre os judeus. Uma das coisas era que o sacrifício era dado em ato de purificação para se aproximar de Deus. Quando nada se tinha para expiar, era um sacrifício pacífico; quando se tinha, era um sacrifício para desmanchar o pecado EM SI! Jesus está resgatando um ritual judaico que já havia. Está frisando algumas essências que se esquece com o tempo. Eis a função de profetas. Eis o que não perde tempo o Messias em fazer. Algumas coisas lindas de se enxergar por trás disso é 1. que a oferenda era dada para um Deus que estava constantemente presente, pelo menos em uma parte sua - a parte manifesta, junto ao povo que peregrinava no deserto, dentro de uma tenda; 2. que reconciliar-se com o irmão antes de se reconciliar com Deus vale dizer que Deus também está na tenda que é o seu irmão! A mensagem final pode ser dita assim: reconciliar-se com Deus, Aquele que está no céu e Aquele que está no outro.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Estudos do Evangelho no Domingo ao Lar Chico Xavier



Compartilho aqui alguns resumos do estudo que fazemos aos Domingos no Lar Chico Xavier, pegando o Novo Testamento e decifrando-o para a nossa vida versículo à versículo. Inicio esse tópico agora, mas irei ficar alimentando a partir de então com os próximos encontros que eu for participando.
"Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás; mas qualquer que matar será réu de juízo. Eu, porém, vos digo que qualquer que, sem motivo, se encolerizar contra seu irmão, será réu de juízo; e qualquer que disser a seu irmão: Raca, será réu do sinédrio; e qualquer que lhe disser: Louco, será réu do fogo do inferno." (Mt 5:21-22)

- De matar para se encolerizar e dizer um insulto há uma evidente e significativa distância. Quando Jesus confronta o que foi dito e o que ele diz, não se trata do descumprimento da antiga lei, mas uma potencialização. É algo que tende à vigilância íntima. A cólera simplesmente nasce. Não se encolerizar é um convite para vigiar a cidadela no interior da gente. Vá lá que Jesus utiliza expressões fortes: réu do juízo, réu do sinédrio, fogo do Inferno! Mas, tirando um pouco da força que essas palavras tinham daquele contexto e trazendo pro nosso espírita, não é exatamente o que acontece: o juízo de nossa consciência, o sinédrio de nosso espírito, o inferno dentro da gente? As obsessões são um exteriorização do que já está escuro dentro de nós. Importante: sair da lei que nos pune de fora, passando pelo próximo que nos vigia de perto, chegando a consciência de si que ilumina de dentro.


"Qualquer, pois, que violar um destes mandamentos, por menor que seja, e assim ensinar aos homens, será chamado o menor no reino dos céus; aquele, porém, que os cumprir e ensinar será chamado grande no reino dos céus." (Mt 5:19)

- Onde estão inscritos os mandamentos de Deus? Na consciência do homem. Somos a verdadeira pedra em que Deus cunhou as leis dele, as eternas. Sobre o cerne duro, formam-se leis humanas que se descascam mil vezes junto com as estações. Se eu vivo e passo adiante o que é da nossa essência, eu me multiplico, torno-me ainda maior do que sou. Faço família. Participo daquela que é a universal. Do contrário, me isolo. Sou menor.

O reino dos céus é a nossa consciência. Quanto mais nutrição eu dou à minha alma para que ela se desenvolva, tornando-se reflexo da Vontade de Deus, mais ela se empodera. Mais claro fica o reino dos céus para mim. Maior o reino dos céus em mim, maior sou no reino dos céus.

Compartilhei o quanto me senti fortalecido, maior no reino dos céus, quando mudei o caminho que estava seguindo com o cuidado da doença de minha mãe e fui relendo as leis que estavam contidas em mim, direcionando para a vida. E você, será que está conseguindo ler as leis que estão inscritas em você e que estão particularmente envolvidas no planejamento encarnatório desta existência? Por vezes não são claras! Aqui, no Lar Chico Xavier, estamos para nos ajudar a se encontrar no caminho que nos coloque de volta ao verdadeiro Lar, aquele lugar que Deus nos quer no Cosmos - pelo menos nesta vida e em cada vida por sua vez.


"Não cuideis que vim destruir a Lei e os profetas, não vim ab-rogar mas cumprir" (Mt 5:15). 

- Vou tentar resgatar alguma coisa do que foi discutido no nosso estudo, mas minha memória me trai. Houve a questão da expressão LEI E PROFETAS que é uma referência direta à Torá, compondo uma das partes da tradição de interpretação dela, a TaNaKh. Bem, quando reencarnamos, sempre reencarnamos em muito mais do que só o corpo biológico. Também o fazemos, por exemplo, dentro da LEI, da cultura, das emoções, expectativas, sonhos que nos acolhem. Querer fazer tábula rasa disso foi uma pretensão recente que, se por um lado no permitiu a liberdade de assumirmos nossa missão (nossos compromissos reencarnatórios) de forma autônoma, por outro nos deixou desconectados do caminho que escolhemos seguir, já trilhados pelos que nos antecederam, que bastas vezes formam nossas identidades anteriores.

"Não ab-rogar o que nos antecedeu, mas cumprir" é um exemplo de assumir nossa história - a nossa e a das pessoas no meio das quais decidimos reencarnar - não para reproduzi-la feito conservação inconsciente, mas para elaborá-la e amadurecê-la, como Jesus o fez relendo o que estava escrito com a chave da compaixão e do amor.


"Vós sois o sal da terra; e se o sal for insípido, com que se há de salgar? Para nada mais presta senão para se lançar fora, e ser pisado pelos homens." (Mt 5:13). 

- Nos aproximamos desse tema pela via de entender o ser das coisas, o nosso ser. Como pode não ser salgado o sal? Ju resgatou a imagem da figueira seca, isto é, uma árvore frutífera que não dava frutos. Jesus é enfático e é simbólico. Na sua visão de homem do campo entende que o conceito dos seres está relacionado com sua utilidade. "Para nada mais presta senão para se lançar fora". Alguém já se sentiu fora de contexto, pisado pelos homens. Provavelmente a situação expiatória em que nos encontramos é devido a termos negado nossa essência em dias passados. Mas, a doutrina de Jesus nunca é fatalmente condensadora - vem para o resgate dos ímpios. A Evangelização dos Espíritos nos esclarece que para voltarmos ao sentimento de pertença ao nosso lugar no mundo é necessário conhecermos o que nós verdadeiramente somos e para que estamos aqui. O sal é salgado e serve como adubo, a figueira foi feita para dar frutos, e você, e eu?

"Exultai e alegrai-vos, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram os profetas que foram antes de vós." Mt (5:12)

- De alguma forma começamos a falar sobre o orgulho. Demi ainda tentou defender alguma situação em que o orgulho poderia, na verdade, ser a imposição de uma boa vontade em busca de fundar a justiça contra os que fazem as coisas erradas, citando o exemplo dos vendilhões do templo e sua expulsão por Jesus. Entendemos que Jesus não fez aquilo por um "orgulho ferido", mas não perdeu a oportunidade de encenar uma lição. Encenar em um sentido sagrado - estes é um conceito difícil de apreender para nós pós-modernos que reduzimos o conceito de encenar a uma mera representação ou imitação ou "teatrinho". O Romário nos convidou a imitar, no sentido sagrado, os profetas e a alegrarmo-nos e exultarmo-nos quando ferirem nosso orgulho e nos injuriarem. Ele prometeu tentar fazer isso com a Letícia nas madrugadas em que ela teimar fazer manha. Outro amigo reviu seus conceitos. Uma companheira foi atrás de entender a difícil relação do enfrentamento pais-filhos na vida dela. Eu... eu agradeço por todas estas lições de vida.

"Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por minha causa".  (Mt 5:11)

- Acabou que as coisas giraram em torno desse "POR MINHA CAUSA" ou "POR MIM". Inquietante para um espírito racionalista entregar-se assim para um senhor que se diz AQUELE QUE HAVERIA DE VIR. Que é a concretização das promessas, que é o coroamento da dolorosa espera. Mas, é isso. A finalização dessa bem-aventurança dá a razão o que lhe falta de coração, de cuidado, de amparo, de amizade. "Vai que eu estarei contigo!". É o que enternece o chamado, é o que encarece a missão do cristão: saber que Cristo estará presente, a presença-homem da promessa-Deus. Deixa de ser os abstratos conceitos de Bem, Belo, Justo. É a carta viva em cuja carne se escreveu em Espírito e Fogo as leis de Deus. Alex deixou a seguinte indicação de leitura: João, capítulo 9. Um capítulo forte. Um Jesus decidido. Não há "não" na boca do Mestre aí. Vale a pena ler. 


"Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus." (Mt 5:10)

- A JUSTIÇA no Antigo Testamento é considerada a Lei de Deus, a Palavra de Deus. Então, os Espíritos me sopraram que fôssemos atrás da cena do Jovem Rico (Mt 19:16-30), o que ajudou significativamente nossa interpretação. Lá a grande discussão era o que fazer para conseguir a vida eterna, para ser perfeito, para ser salvo. Jesus principia exortando a seguir a Lei de Deus, o decálogo, a Justiça. Diante da aparente obediência do Jovem Rico aos mandamentos, o Rabi o desafia ("o persegue"), e convida o moço a doar tudo o que tem aos pobres e segui-Lo. Abordamos a questão da perseguição em um nível mais essencial, mais da atitude nossa diante de Cristo. Um indivíduo que realmente é perseguido por causa da justiça que professa e não esmorece é um Espírito que "persegue" Jesus. Se a nossa fortaleza não vai a tal ponto de "perseguir" Jesus, qualquer um que nos perseguir, nos colherá desprovidos de virtudes que nos sustentem na escassez. Se Deus, como Senhor da Vinha, quisesse nos colher desta vida, como que tirando um fruto do seu pé, estaríamos prontos para ser colhidos? Todos concordaram que não, longe disso! Deixei como dever de casa para todos nós pensar em três elementos que ainda nos faltam para darmos mais um passo rumo à perfeição, rumo ao amadurecimento, para, um dia, podermos ser colhidos pelo Pai, para merecermos o Reino dos Céus.

"Bem- aventurados os limpos de coração porque verão a Deus". (Mt 5:8)
- Eu quis retomar este versículo porque tem dois salmos que falam disso, e achei importante a agente dialogar com eles. Salmo 24 e 15. Neles o salmista fala que, sim, é a pureza de coração a condição para chegar lá. Mas, ele utiliza a linha de chegada na figura do tabernáculo de Deus ou do Senhor. Isto é, a pergunta que ele nos faz é: "Quem habitará no Teu tabernáculo, Senhor?" [quem será digno disso?] ou "Quem subirá ao monte do Senhor, ou quem estará no seu lugar santo?". Achamos por bem nos fazer esta pergunta hoje. Acordamos que para isso era preciso querer se esforçar (subir o monte) e deixar os supérfluos para trás. Alguns amigos nos lembraram que não bastava se livrar dos supérfluos, deveríamos fitar as Leis de Deus. Eu quis estimular um pouco o que cada um nesta existência tinha de supérfluo para abandonar, de forma particular. Estimulei a reflexão individual das particularidades do Espírito que cada um é, mas senti que os amigos se esquivavam do particular pendendo sempre para as reflexões mais gerais. Dei um exemplo do meu coração sobre como estou nessa encarnação tentando me livrar do desprezo jocoso ao ouvir a dor do outro em rumo da escuta amorosamente ativa desta dor. Deixo registrado aqui a falta que sinto da presteza com que o meu querido amigo João Romário conduz as reflexões que nos fazem expor as coisas daqui de dentro.   

- Querendo seguir a bem-aventurança de limpar o coração, fomos até o jardim do Lar Chico Xavier e fomos limpando aquele solo das outras plantas que por nós não foram plantadas e que promoviam competição prejudicial com as outras que fazem realmente parte do nosso jardim. Fomos analisando o quanto extirpá-las pela raiz, ter luz para exercer este ofício e forçar o corpo inexperiente nesse afazer são importantes para não desistir. Lembramos a parábola de Jesus frente a figueira improdutiva. Alguns matos vale tirar em feixes, são as grandes comoções sobre a terra. Outros, deve-se capinar com zelo - seriam os grandes desafios que carregamos na alma a cada reencarnação? Mãos sujas, coração se limpando! Muito embora o Rabi tenha defendido os discípulos que não lavaram as mãos, nós as lavamos ao final, entendendo que a mensagem era para glorificar mais a pureza d'alma do que a porcaria a que eu estou afeito. Felicito-me neste momento em encontrar colado à passagem das MÃOS NÃO LAVADAS o seguinte versículo que coroa nossa experiência: "Toda a planta, que meu Pai celestial não plantou, será arrancada." (Mt 15:13). É a arte espiritual da jardinagem moral!

- Um complemento à interpretação das outras bem-aventuranças, particularmente sobre os aflitos (ou enlutados ou os que choram) e os com fome e sede de justiça. Refletimos sobre a diferença do choro de Pedro após a negação tripla e o choro de João face a face com o Jesus crucificado. Sobre a justiça, refletimos em cima do fato de "justiça" estar extremamente conectado a "lei", isto é, a palavra de Deus no Antigo Testamento. Por fim, antecedemos um pouco o assunto do "por mim" de Jesus que coroa o final do canto das bem-aventuranças. Quem é ou o que é ou será a tal consolação prometida aos aflitos, chorosos ou enlutados? E, por mais que haja divergência entre espíritas e evangélicos quanto ao consolador prometido, entendemos juntos que Jesus não é só o Caminho, a Verdade e a Vida, mas também, e por isso mesmo, a Consolação. O que o Paracleto veio fazer foi só relembrar esse fato!

- Falamos: sobre as bem-aventuranças, Jesus como o novo Moisés no monte das revelações, sobre a graça do amor de Deus que não dispensa as obras da mão do homem, sobre os estados de Espírito bem-aventurado a que Jesus nos convida para evoluir, sobre a nossa visão de salvação como educação do Espírito, sobre o chamado de Jesus que nos faz encarar a morte com novos olhos, não mais de temor, mas de ressurreição. Ah! E sobre o fato de já podermos sentir a presença de Deus, desde já, via limpeza do coração e pobreza em espírito, não precisando esperar a perfeição para isso.