quinta-feira, 4 de julho de 2024

O mundo que vem por aí e minha conversão

 Estive testando as inteligências artificiais no modo avançado. Ainda que na versão mais simples do que elas serão, porque estamos no começo de tudo, já são assustadoras. Em segundos, entregaram-me análises de textos que há tempos venho ruminando, discutiram comigo sobre casos clínicos de pacientes dando respostas coerentes, interpretaram minhas poesias com a profundidade de um graduando da faculdade de letras de primeiro ou segundo semestre e, por último, musicaram minha poesia, com voz e melodia, com uma maestria de deixar meu coração inquieto e o meu amigo, grande compositor, boquiaberto. Até o verso que ele achava que não se encaixaria, elas o acomodaram da forma sublime.

"Ela não faz isso só, precisa de um comando", diz o especialista. Mas, com o comando de uma pessoa ela faz sozinha o trabalho de vinte. E essa proporção há de crescer assombrosamente: 1/20, 1/400, 1/160.000. Você entendeu a matemática.

As relações ficarão cada vez mais virtuais. E se antes já estavam se virtualizando, com todos os pescoços curvados ao celular, imagine com o corpo imerso em uma realidade alternativa, transmutado em bits, joelhos dobrados ao artificial.

Meu amigo compositor, um dos mais inteligentes que conheço, fez uma piada: "caberá a nós apenas sentir e adorar". 

Piada?

Eu que vinha lendo tanto, estudando tanto, buscando encontrar uma resposta que enfim devolvesse a fé às pessoas, como se fosse a solução final da maior equação de todos os tempos, vejo-me com a minha abalada. 

Não. Não adorarei uma IA. Adorarei a Cristo. Nossa! Soa tão estranho isso saindo de mim. Sou tão racional. Só que a razão já não parece ser o nosso diferencial. 

"...sentir e adorar..." 

Tenho chorado pelo que venho a enterrar, o Allan espírita.  

Não vejo como o espiritismo poderá trazer consolo às pessoas de fato. As comunicações mediúnicas estão comprometidas na sua capacidade de impactar o intelecto e guiar os corações. Outro dia, uma colega me chega emocionada porque recriaram a imagem da cantora morta de sua banda favorita em pleno palco, imagem, som, voz, jeito de falar, jeito de se portar, de se expor ao público. Agora entendo aquelas pessoas que falavam contra o espiritismo que devolvia à vista espectros rematerializados em névoas ectoplásmicas. 

E a tradição da minha família? Era ela que vinha me sustentando por um tempo. Trair meu pai?! Nunca! Então, eis que me vejo fragilizado por uma autobiografia dele, narrada até antes de se casar com mamãe. Essas páginas estavam ali criando mofo, e só agora tive coragem de ler. Quanta coisa das sombras de uma vida! O espiritismo salvou sua alma materialista bem no final. Não era uma tradição, mas um bote salva-vidas. 

Pois bem, gratidão ao espiritismo que me salvou do materialismo até então e me deu a capacidade de raciocinar sem me distanciar de Deus. O bote que papai me repassou me ajudou a chegar até a ilha do mundo. Daqui para frente, procurarei não mais uma doutrina, mas a Cristo. E, enquanto o procuro, quero tê-lo aqui comigo, fazendo parte de mim, com as migalhas sagradas que ele faz multiplicar a cada domingo pelas igrejas afora, de forma bem palpável.

Se você ainda quiser acompanhar a minha peregrinação, este blog termina aqui, Por uma Filosofia Espírita, e outro começa em seguida que se chamará doravante "Encontrando Você". Os motivos desse nome são óbvios, mas o iniciarei explicando-os.

Até lá.

PS.: Dêem-me licença, estou indo na igreja providenciar meu batizado.

domingo, 28 de abril de 2024

Meu primeiro livro

 


    Há tempos que me pediam para escrever um livro. O tanto de postagens que já publiquei aqui daria um ou dois. Tive ideias de uns tantos. Mas esse aí é o que nasceu. E que parto!

    Vou confessar aqui uma coisa. Minha esposa não gostou do título. Já meu amigo jornalista, que não apenas o leu como o prefaciou, disse que sintetiza bem o conteúdo e cria um vínculo com o público-alvo. 

- Quem é o público alvo?

    Você que me lê! Mas, antes de ser você, eram os estudantes de medicina que debutavam na faculdade. Por dez anos fui convidado a palestrar para eles em uma ideia que tinha sido minha. Queria trazer um aluno de semestres avançados ou um médico recém-formado para lhes contar como ele havia sobrevivido. Ninguém quis protagonizar a ideia, embora tivessem gostado. Quando me formei, o Centro Acadêmico perguntou se eu não gostaria de ser esse médico. Aceitei.

    Dez anos! Todo semestre me chamavam de novo. Alunos vinham assistir minha palestra mais uma e outra vez. Deram-lhe um nome: "Palestra do Allan". Minha esposa sugeriu mudar pelo menos o subtítulo por achar esnobe e apelativo. Sugeriu: "De palhaço a médico", "Reflexões de um médico sobrevivente", "a trajetória de um jovem médico sobrevivente", "a trajetória de um jovem médico em busca de sentido", ou simplesmente "uma autobiografia de um jovem médico, pai, artista, palhaço...". 

    Se fosse para poetizar mesmo teria colocado o nome do livro de "Allan". Claro que ele é bem menos do que eu sou. Mas caberia perfeitamente na capa. Acho que tanto quem norteou minha escrita, a editora e meu amigo tiveram a mesma ideia: preciso chamar a atenção da pessoa a quem se destina. Marketing, quem vive sem ele? 

    Mas, até que no final das contas ficou um nome filosófico. O verbo passar remete a passagem. E eu amo passagens, pontes, travessias. O livro começa com a minha passagem para a faculdade. E, logo após, meu desespero, portanto, "e agora?". Mostro meu despreparo, minhas desilusões. Costuro meu doloroso amadurecimento entre aulas e amores. Por isso que é "como sobrevivi". O "como" aí não vem para apontar técnicas, só para descrever mesmo as aventuras de um odisseu cearense. Se fosse grego, então, assim como Odisseu gerou Odisséia, meu livro poderia se chamar "Allanéia". Viu como seria horrível! Terrível sina de escolher um título. 

    Bem, se der tempo de você ler isso a tempo, amanhã, 29/04/24, às 20h, horário de Brasília, estarei fazendo uma live no Instagram @profallandenizard. Contarei como foi a ideia desse livro e algumas reflexões em torno dele. Vou manter essas lives sempre no mesmo horário das segundas-feiras gravitando em torno de assuntos relevantes para tornar o meu livro desejável. Não pretendo dar uma chave do sucesso, como quem tira um provérbio chinês de um biscoitinho. Ora, vejam só! Eu não tenho a chave da vida. Apenas tenho consciência que desde há muito os nossos nortes sempre foram a partir das escutas, em conversas de pé de fogueira, das aventuras uns dos outros. Vou contar o que vivi, sobre-vivendo.


***


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sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

Jesus é Deus? (Parte II)

     Que Deus existe, por argumentos ontológicos e silogismos metafísicos, não há como negar. No máximo, nada poderíamos falar por não ser de nosso alcance. Mas, na metafísica da cadeia das causas, claro que tudo se origina de uma causa primeira, os movimentos, de um primeiro motor imóvel. O salto da fé está em que a causa primeira também tenha se tornado homem, sendo ela e ele um só e a mesma pessoa sem desfigurar a ideia da unidade.

    Há outros desenrolamentos da fé católica que poderíamos resumir assim: 

    - Se a Verdade é criadora, é Deus. Se Ela se importa com você, é o Deus dos judeus. Se se importa com você a tal ponto de ter se tornado homem para te salvar, é Jesus, o Deus dos católicos.

    Em sendo verdade, torna-se um imperativo apascentar as pessoas para esse Jesus, com todos os sacramentos perpetuados pela igreja nos últimos dois milênios. E que se deixe de lado as noções de energia cósmica, chakras, reencarnação, diálogo com os desencarnados, astrologia, pois basta ao cristão os sacramentos de conexão com Deus. 

    Se você for católico, e não tiver o corpo de Cristo em suas veias toda semana, não lhe entendo. Isso é o máximo da comunicação com Deus: Ele se dividir ao infinito, não mais se fazendo homem, mas se fazendo hóstia, para ter com você no seu corpo.

    Todavia, não o sou. E, apesar da minha crença infantil da obviedade da negativa ser abalada com tamanha fé de tantos luminares, o máximo que consigo alcançar é isto:

  1. O Espírito ascende por vias multimilenares até um ponto que se distingue qualitativamente da humanidade como a vemos hoje, simiesca.
  2. Aos poucos, como o bebê que enxerga a mãe, divisa seus contornos, a vê de fato e por inteiro. 
  3. O momento de visão integral de Deus e de submissão absoluta à Sua vontade lhe torna um Cristo. 
  4. Houve apenas um Cristo na história da humanidade: Jesus. 
  5. Pela teoria da mediunidade, o melhor dos médiuns para a manifestação de um Espírito é aquele que tem bagagem suficiente para deixar o Espírito livre para ser através dele, permitindo uma comunicação bem fluida, em palavras e atos.
  6. Jesus foi o médium de Deus na Terra.
    Isso não desmerece ou descarta outras crenças, a não ser aquelas que são contra Deus, na Sua ação amorosa e salvífica para com as criaturas. Creio que permita todos os bons movimentos de busca da alma florescerem e frutificarem, do contorcionismo iogue, subjugando as resistências do corpo, à mendicância franciscana, subjugando as paixões da alma.
    Só que o Espiritismo tem se afastado de Jesus, por achá-lo um grande personagem histórico, mas apenas um personagem histórico, e por ter vários outros homens hoje vivos no mundo que parecem ser tão pertos de Deus quanto ele. Aí é que mora o perigo, onde estão os gurus, onde se espreitam os falsos cristos e profetas. 
    As teses espíritas que expus tiram Jesus da definição de Deus, mas coloca-o lado a lado, ou até mesmo misturado só que em dimensões diferentes. O sentimento de veneração deveria ser o mesmo, e claro que nunca será. É diferente eu venerar o Espírito comunicante e o médium, por melhor que o médium seja. É assim que entendo, sob a perspectiva do apocalipse, ser historicamente melhor deixar Jesus como Deus, e permitir a sua governança no coração dos homens, do que rebaixá-lo a um médium de Deus. 
    É só até aí onde consigo chegar hoje, ao dia 2 de fevereiro de 2024. Uma conclusão pragmática, que não me permite nem mais amor ao Cristo nem ser uma melhor pessoa. Apenas ter uma visão mais sóbria do mundo e de seus fluxos de transformações.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

Jesus é Deus? (Parte I)

     A questão que mais me intriga nos últimos meses é se Jesus é Deus. Sempre tive por certo, por ter sido criado ouvindo isso, que não. Não é. E a lógica e a obviedade estavam ali nessa negativa. Porque em um universo nem mais heliocêntrico, mas sem qualquer centro, em que a Terra não passa de um pálido ponto azul, um Jesus, por maior e mais milagreiro que tenha sido, ainda que tenha fendido a história ao meio, é apenas um personagem histórico deste planeta. Como pode ele ser Aquele que criou tudo, e permanece criando, expandindo os limites do universo, e até mesmo, fazendo proliferar multiversos?

    Contudo, a crença dos cristãos ortodoxos - coloco nessa conta tanto os católicos quanto os protestantes, mas tenho me aproximado mais dos católicos - é tão forte, certa, inabalável, persistente e resistente, e vindo de pessoas, muitas!, de inteligência tão superior a minha, que aquela obviedade e lógica da minha infância fazem água. Falo de um Agostinho de Hipona, de um Tomás de Aquino, de um Dostoiévski, e mais recentemente, de um Chesterton. Vejam só, dizem que Tomás de Aquino teve com Jesus, e disse:

    - Senhor, pode queimar todos os meus escritos onde acalantei os mais robustos raciocínios. Tudo foi querendo Te encontrar. Só quero a Ti.

    Dostoiévski, por sua vez, teria deixado claro: "prefiro o Cristo à verdade". É a mesma fala de São Tomás, só que mais concisa e explosiva. 

    Como conciliar a eterna onipresença criadora de multiversos com a presença única de um homem que provocou tantas paixões em gente tão nobre, mas sendo isso mesmo: uma presença única e historicamente limitada? Os católicos, fiquemos neles, criaram a explicação da Trindade. Dividiram Deus em três, mas disseram que cada parte vale o mesmo tanto, isto é, trabalharam na ordem do infinito. Entretanto, lá nessa ordem é tudo igual, infinitos indiscerníveis. Jesus claramente foi alguém aqui, inigualável. 

    Trabalho hoje visitando lares de pessoas doentes. Quase todas as casas tem santuários e quadros religiosos. Jesus está lá, quando não os seus anjos, ou então os seus santos. Sua mãe, também. Todos os personagens que acercam Jesus ganham ar de eternidade. Não daquela eternidade matemática de infinitos, num caldo de números cuja borda do conjunto se perde no horizonte, mas de uma eternidade que ama a tal ponto de abandonar a própria imperturbabilidade dos éteres e vir interceder pelos seres desprezíveis (no sentido moral e no sentido matemático).

    Minha esposa acredita na Trindade, do jeito que ela é, do jeito que eles são, que eles são um. Não há problema para ela. Foi amamentada com uma obviedade trinitária, e questioná-la nunca lhe passou pela cabeça, ou não deixou que a dúvida se aninhasse. Nunca fui de sequer tentar desfazer essa crença. Não a acho nociva, pelo contrário. 

    Ela não acredita em um homem que se quis Deus, mas um Deus que se multiplicou em se dividindo, não comprometendo, assim, a sua própria identidade, e se fez homem. Sendo Pai, se fez filho; sem perder o ar de Pai, foi amigo; sem deixar de ser um Mestre, esteve aprendiz de carpintaria com seu pai terreno, para então talhar novas imagens de Deus no coração dos homens. Como? Revelando-se a Si mesmo no cotidiano das gentes. 

    Daí, nasceu uma religião que busca resgatar cada ser humano, um por um, de volta a um paraíso há muito tempo perdido. Na conversão deles, o amor vai se fazendo a tônica das relações, e o perdão das ofensas, junto com a abertura para o pecador, na esperança que ele seja santo um dia. 

    Muitas outras crenças que querem salvar os homens, desprezam-nos como indivíduos, e voltam sua lógica para a matemática dos infinitos indiscerníveis. Como o socialismo, que não se importando em sacrificar inimigos no altar da história, e até mesmo amigos, faz desaparecer o homem em conjuntos amorfos que devem ser conduzidos ao final perfeito. Ou mesmo o liberalismo, que nos promete a equação certa da riqueza e a herança de um mundo menos desigual, embora sempre desigual, só que menos. E para os que não tem forças para esses empreendimentos, o da conquista do final da história ou do fim da pobreza, não há muito para lhes falar. A história e o seu fim, a riqueza e sua receita, infinito, infinitos.

    A religião de Jesus promete a eternidade. Jesus não precisava prometer. Ele era a eternidade andando entre nós. E as pessoas quedavam-se prosternadas com este absurdo: a eternidade invadindo o passageiro. Os que lêem suas palavras, trazem-nas como se elas tivessem o poder de iluminar cada momento de suas vidas, pelos séculos e séculos. Na hipótese mais redutora, com Jesus inaugura-se a possibilidade de interagir, olho no olho, com o eterno.

sábado, 25 de novembro de 2023

Confissão

    O meu filho mais velho, atualmente com dez anos, por tradição materna, fará o ritual católico da primeira comunhão. Hoje foi o dia de se confessar para, limpo de pecados, poder comungar em breve. Na semana que passou, ele quebrou o pé e teve que o engessar. Eu que estive com ele no hospital, levando-o nos braços, um garoto de 36 quilos. 

    Uma das coisas que mais me dá raiva nesta vida é não entender a razão de algo. Isso me deixa inseguro, exposto, como que desnudo. A minha vida está cheia de âncoras para não me sentir à deriva, são os meus vários papéis: de médico, de marido, de pai, de irmão. A religião, particularmente a espírita, acalma o terror da incógnita do que há depois da morte, o que houve, o que haverá. Mas vá qualquer coisa do cotidiano sair da ordem que consigo prever, e já me dá um desespero. 

    A perna quebrada do João foi uma dessas coisas. Eu me certifiquei bem, pela descrição dele, pela do professor de educação física, ele estava apenas correndo, e uma corrida leve, apenas para se esconder como pedia o jogo. Então, torceu o pé e fraturou a base do 5º metatarso. Que raios! Isso lá é mecânica de trauma para fraturar nada! Daí me vem a busca pela razão suficiente, e fico remoendo cenários possíveis que me justifiquem o ocorrido. Nada me consola. Porque a alternativa possível é ter sido uma fratura em um osso fraco. E o osso fraco, na idade dele, é uma doença mais grave. Só que até hoje, nunca teve indícios de doença grave em seu corpo. E as divagações seguem seu curso catastrófico. 

    Conseguimos muletas para ele se equilibrar, já que não pode colocar os pés no chão. Todavia, ele não sabe usá-las, não tem destreza. E a carência de explicação misturada com o ter de ficar ajudando-o como a um aleijado, a possibilidade de ser algo mais grave que o deixe dependente por muito mais tempo e o seu desleixo com a muleta vão me dando uma fúria e uma impaciência que me fazem ser bruto com os cuidados com ele. 

    Parte disso é uma ferida que ainda habita em mim da época de mamãe. A dependência dela colocava em perigo a minha independência para seguir em frente a formação do homem que deveria ser. Do contrário, estagnaria como o filho perpétuo, sem casa, sem casar.

    Hoje, esse sentimento não faz mais sentido. Estou de casa e casamento, sou pai, tenho três filhos. Sou médico com os pacientes certos. Por que a insatisfação? É que a possibilidade da doença que deixa o outro dependente de mim traz de volta a quebra da cadeia lógica da vida que gostaria como fosse, o padrão. João deverá crescer e ser independente, ter a própria profissão e me deixar para trás, ganhando o mundo. Isso acontecerá se ele tiver uma doença de ossos frágeis? É uma ameaça à minha vida certinha.

    Daí vem não mais a razão, mas a sabedoria. A vida é certa, mas não para nós. É segundo uma visão da eternidade que o seu arrazoado se faz. Querer encontrar o gabarito antes da morte é uma pretensão diabólica. A verdadeira fé não é a que tem a resposta nas mãos, mas a que aceita o texto que vamos conseguindo ler na medida que caminhos pelas linhas traçadas.

    Ele estava tão feliz hoje entre seus colegas de primeira comunhão. 

    - Você viu, pai! Eles estavam me abraçando!

    Fechava os olhos ao abraçar cada amigo como quem morde o primeiro pedaço de chocolate que há tempos não provava. Passou a manhã sendo cuidado por eles. Sem mais insistir nas certezas, pelo menos no que toca esse incidente, deixo em aberto as hipóteses, acolhendo uma delas como a mais importante: quem sabe Deus não deu à João o sofrimento de um pé quebrado para que ele sentisse o prazer de ser cuidado, para que ele sentisse nos ossos o quanto somos frágeis, necessitados frequentemente de perdão.

    - Perdão, Senhor! Por ser bruto com meu filho quando ele mais precisava, por colocar a segurança da minha razão a frente do consolo de minha criança. 

segunda-feira, 23 de maio de 2022

Da Eutanásia


 

Estive palestrando ontem sobre eutanásia, enfoque espírita. Nesta época em que a intimidade é rasgada ao público, em meio à grande ágora sem nenhum pudor, decidi expor a intimidade de minhas duas perdas onde a eutanásia poderia ter sido pensada: vovó e mamãe. 

Descrevi cada vivência com as cores fortes do que vivemos, em família. E aí mora meu medo. Terei colorido demais a dor? Agora, olhando para trás, sem coragem de voltar a ver o que falei, mas que ficou gravado, penso que expus o sentimento de perda com muito mais vigor do que o de consolação. 

O Espiritismo é o Consolador prometido. Nosso objetivo como orador não é entregar às pessoas ainda mais desespero. Devem elas quase palpar o futuro e quase ter certeza do motivo de suas aflições atuais. Assim, o sentido da vida se ilumina sem se apagar jamais. Cada palestra, cada livro, cada texto realimenta essa chama sagrada. Eis nossa missão. 

Mas, dei de falar do que vivi. E a verdade é que aquelas perdas ainda estão cicatrizando em mim. Eu tenho a realidade da partida delas gravada a ferro e fogo nas memórias. Contra o luto, uma teoria da eternidade. Ainda não me entreguei suficientemente ao espiritismo prático para receber do além notícias. Aqui e acolá, o sentido mais aguçado se arrepia com um possível beijo, um abraço. Vem a saudade doce e a vontade de revê-las. Serão elas do meu lado? Sigo vivendo com alegria, sem choro, nem me ater ao passado. As funções sociais vem sendo bem cumpridas. E por esses meses, retorno ao diálogo com meus mentores como há tempos não o fazia. 

No final, o que eu queria deixar é que antecipar a partida de uma pessoa tira dela a oportunidade de fechar assuntos inacabados. Esses assuntos sobrevivem com ela na nova vida que lhe acolhe, cujas preocupações deveriam ser outras que não as daqui. Se Jesus bem aconselhou que deixássemos "os mortos enterrar os seus mortos", do lado de lá bem que Ele poderia falar aos mortos, em relação à carne, "deixai os vivos partejar os seus vivos". Essas advertências não são de fechar as portas da mediunidade como nos dizem aqueles que nos repreendem. São apenas lições de sabedoria para aqueles que vivos passam a vida a enterrar seus mortos, e mortos passam a erraticidade querendo dar vida aos seus vivos. Se cada um estiver vivendo o que tem de viver na dimensão que lhe é própria, dialogar entre si é um prazer natural. Isso vale para cada um também em qualquer lugar existencial que esteja. Não há diálogo frutífero entre duas pessoas que estão despossuídas do seu próprio lugar no mundo. Estarão elas com a mente sempre deslocada e ausente, por assim dizer, sem vida. Sem a vida que lhe é própria viver naquele instante. De outro modo, que engrandecedor é o diálogo entre duas pessoas que estão inteiras! 

Resolver nossas pendências para vivermos inteiros, morrermos inteiros, ultrapassarmos inteiros o grande portal da morte. Para que as preocupações do inacabado não se transformem em obsessões que nos impeçam de viver o presente, mordiscando o passado. Não é tarefa fácil, mas Deus planeja o tempo de aprendizado de cada um. O tempo de fazer o que temos de fazer, construir, destruir, renovar. Os daqueles meus dois amores aconteceu. O meu, bem, estou por aqui. Em breve, inteiros, nos reencontraremos.  

domingo, 10 de maio de 2020

Do medo

O mundo mergulha numa nuvem de medo. As pessoas morrem aos magotes. Corpos são amontoados em valas comuns. Os ritos fúnebres são silenciados. 

Se após a morte há algo, e se esse algo é uma continuidade promissora, ainda que com passageiro ranger de dentes, devemos mais temer entregar o mundo ao medo do que a alma à imortalidade. 

Viver lutando, sabendo que à esquina pode estar a morte foi o normal da humanidade. Estes últimos séculos foram bem atípicos. 

Do Pecado

Não é de se livrar do pecado que se faz a salvação. O pecado a espreita faz parte de nossa natureza. Ir contra ele com todas as forças só nos faz dele escravos. Viver, sabendo que ele está ali, nos faz humanos e preparados. A vigilância é o que devemos procurar e não a santidade. 

quinta-feira, 7 de maio de 2020

A face não consoladora do Espiritismo

Depois de viver uma vida de trabalho e decepções entrecortadas por momentos de alegria sempre passageiros, não raro se pode desejar a morte como um fim para o mal que é a vida. Então, ao saber que ela continua quase igual, que nossas inclinações e paixões não mudam, mas apenas se faz uma passagem para outros tipos de vivências que são outras formas de nos aperfeiçoar, preferiria-se ir para o nada. 

Espiritismo, assim, é consolador para quem tem outros desejos: o de alçar voo para as grandezas que relativizem os sofrimentos humanos, o de atingir conhecimentos que nos façam entender o mistério da dor e a justiça do Criador, e, por fim, de alcançar uma força moral que nos torne imunes à perfídia dos maus. 

Para os que querem repouso eterno, as promessas espíritas são a visão do inferno. 

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Apenas o Redimido pode vencer o Mal

Há algumas sutilezas simbólicas na reflexão que vou construir aqui. Apenas o Redimido pode vencer o Mal. Redimido e Mal se encontram em iniciais maiúsculas. Isso significa que são dois arquétipos da natureza. Quem são?

O Redimido é aquele que passou pelo mal, experimentou-o, lambuzou-se dele, mas saiu do seu domínio. Deve-se ter em mente que no universo judaico-cristão não há bem um inferno como apenas um depositário das almas dos nossos mortos, como o é na Grécia antiga. Há, sem exceções, uma vida eterna de sofrimentos para aquele que se afastou de Deus. O inferno é o mal. Dizer que o Redimido é aquele que passou pelo mal é equivalente a dizer que ele entrou no inferno e dele saiu. 

Todavia, semelhante a todos os que fazem essa passagem na mitologia grega, isto é, os que, vivos, entram no mundo dos mortos e conseguem sair, trazem consigo o segredo da eternidade, cultuado em torno de mistérios. 

O Redimido, assim, é o que, vivo, experimentou o Mal em suas veias e conseguiu se purificar dele. Esse personagem carrega em si os mistérios da sobrevivência. Não a sobrevivência física, que nada é, mas a sobrevivência moral. Ele traz a marca do Bem imortal. Não é conhecer o Bem. É alcançar a pureza. 

Sendo assim, pelo exposto no texto, minha tese de "apenas o Redimido pode vencer o Mal" se torna outra forma de conceituar o próprio Redimido. 

O que separa católicos e espíritas é: a Redenção não é conquistada mas dada de graça pelo único que foi verdadeiramente capaz dela, assim acreditam os católicos. O espírita entende que cada um de nós pode ser tornar um Redimido. 

Se colocarmos a crença católica em mente, o Redimido passou pelos infernos, mas nunca foi do inferno. Ele entrou na carne humana corrompida pela discórdia da serpente, mas venceu cada tentação do mundo. Ele foi a passagem de Deus iluminando as experiências humanas, redimindo-nos. Para o espiritismo, Jesus é um Espírito antiquíssimo que já passou por várias provações, chegando no ápice da escalada humana, sendo modelo e guia para todos nós. 

O que nos convida à lucidez, dando o braço a torcer para a noção católica, é que ninguém em sã consciência pode conquistar a redenção nesta única vida. Somos de fato cheios de falhas e senões, seres lacunares, quando não vazios mesmo, e pequenos para mais não poder. Precisamos de Jesus como exemplo norteador. E, no momento em que nos encontramos, e por muito tempo além, precisaremos da figura do Rabi iluminando nossas consciências e nossos corações. Se focássemos apenas em uma vida, a única forma de sair daqui, concordo, é via Jesus, o Redimido por excelência. 

terça-feira, 5 de maio de 2020

Eu importo

Eis o desafio do século entre as correntes espiritualistas: defender o Eu das pessoas.

O tema do Eu me apareceu com mais força quando um amigo me falou estar seguindo certo guru cuja crítica principal era sobre o apego às questões mundanas, que são passageiras. Essa temática é recorrente entre os gurus de linha oriental e pousaram sobre a filosofia pós-moderna criando raízes malignas. Veja em que ideias ela está assentada:



  1. O eu é nossa manifestação no mundo
  2. Essa manifestação é uma de apego ao que o mundo é
  3. O mundo não é, pois não passa de passagem
  4. O eu, pelas premissas 1 e 2, se apega, necessariamente, ao que não é
  5. Esse apego ao que não é gera existência sem sentido
  6. Existência sem sentido gera sofrimento

Qual a solução proposta pelo guru? Desapegue-se do eu, portanto, colocando em xeque a premissa 1. Em favor de que? De escapar do sofrimento, que é a conseqüência 6.

As pessoas se encantam demais com o murmúrio dessa sereia. Mas, temos de ir com calma. As premissas estão certas? O eu é nossa manifestação no mundo. Sim, mas é só isso? Não existe algo em nós que veio antes do mundo e sobreviverá a ele mantendo individualidade? O que haveria de se manifestar no mundo se não houvesse nada a priori? Se quiséssemos ser radicais na premissa destrutiva do eu, deveríamos dizer, o eu não é mais que a própria vida manifestando-se a si mesma no desenvolvimento de um movimento cego cujas origens estão guardadas no abismo da história. Mas, se o eu é a própria vida, por Deus!, o eu é tudo o que temos. Como escapar dele? Se o eu é algo mais que consegue inclusive enxergar o movimento cego da vida, este eu é alguma coisa a mais. Como poderíamos magnificar esse movimento de superação da mundanidade passageira sem recorrer ao próprio eu de onde o artifício de superação provém?

Colocam como demonstração a posteriori, então, a hipervalorização do eu provocada pela cultura do consumo de tudo, representada pela fala: eu quero ou eu desejo. A ânsia do consumo em um mundo onde nem tudo pode ser consumido geraria um paradoxo de insatisfação constante destruidora do próprio ser que deseja. Certo, a crítica procede. Estamos valorizando demais nossos desejos imediatos. Mas, todos os desejos seriam destruidores? Não haveria a busca sã que provocaria conquistas do eu fortalecendo-o verdadeiramente?

A crítica dessas espiritualidades de retiro e esvaziamento quer solapar a base de nossa cultura. Buscar desenvolver-se em um trabalho que nos dignifique é tudo o que fazemos desde os modernos, herdeiros do amor ao serviço cultivado nos mosteiros. O bonde desandou quando substituímos os objetivos últimos de nosso trabalho. Os monges oravam e trabalhavam para provocar uma ascese que os fizesse dignos de entrar no reino de Deus, com as vestes adequadas, para a grande festa de núpcias, em que Deus casaria com a igreja num apocalipse magnânimo. O homem moderno aos poucos substituiu esse fim último em Deus pelo de ser um cidadão útil para a Nação. A substituição culminou nos totalitarismos, uma vez que a Nação tomou as vezes de Deus, e o seu condutor o sumo-sacerdote.

Passada a Era dos Totalitarismos, o capitalismo devora o cotidiano e provoca nova subjugação do eu. É essa forma do eu de ser o consumista do imediato que merece crítica. 

Mas, existe um eu imortal, que dá sentido a toda a nossa vida, para além e aquém da extenuação das células. Basta ver as coisas cotidianas. Você sonha algo ridículo, acorda e reconhece elementos seus nos sonhos. Consegue estranhar o que houve. Quando é tomado por ações equivocadas, compelido por pulsões intestinas, um quê de sobriedade te faz se reconhecer no meio do ato, às vezes te dando força para barrar o ato. Ou, quando o erro se consumou, o arrependimento existe em relação a você mesmo que sabe ter praticado aquilo. É o eu que se manifesta no confessionário falando de si. 

Existe um eu que paira transcendente nesta vida, mas que ao mesmo tempo está mergulhado nela, como que costurando todos os lapsos. A falha daquele silogismo de seis pontos é tomar o eu fugidio, que se manifesta cristalizado em ações cotidianas mortais, pelo eu maior que dá sentido e identidade para tudo o que se fez, se faz e se fará. Um eu que se reconhece na história e entende suas projeções futuras. Aquele que olha o álbum e consegue dizer: sou eu. Aquele que olha um mapa astral e diz: faz sentido esse caminho das estrelas que foi reservado para mim. 

Caso não se queira ceder aos argumentos que exponho em linhas gerais contra os esoterismos de aniquilação do eu, dou apenas mais um preventivo contra eles. Os gurus, em grande medida, são eus inchados loucos para tornar subservientes os eus ressequidos por falta de sentido no tumulto da vida.

- Esvazie sua mente e não se iluda nas pegadinhas do eu. 
- Quem me fala isso?
- Sou o guru Shamabanpala. 
- Mas você é você ou você sou eu?
- Já não sou mais. 
- Então você fala de um lugar que não é?
- Nem sou, nem não são. 
- É o nada?
- Nem nada, nem tudo. 
- Então, não você não é da minha dimensão. Pode passar adiante. Não ser pra minha vida.  

Novidadeiros

Ontem um companheiro espírita nos expôs que o grupo do qual faz parte está com um projeto de disponibilizar as comunicações mediúnicas do grupo sobre temas evangélicos específicos ao público em geral, por meio de plataforma da internet, a fim de promover um diálogo dos encarnados com os desencarnados como no tempo de Kardec. 

Não será como no tempo de Kardec. 

Ele disse que não se abrirá à crítica, mas apenas a perguntas que serão respondidas pelos espíritas. 

Como eu disse, não será como Kardec. 

Kardec questionava às vezes até a encurralar o espírito manifestante em um diálogo de pé de orelha. Fazia isso porque sabia que o médium mais bem dotado poderia se mistificar e ser vítima de embusteiros do além que venderiam gato por lebre. 

Mas, nós espíritas nunca aprendemos esse tipo de diálogo. Todos nós, carregando atavismos de quando éramos rebanho de sacerdotes e profetas, baixamos a cabeça para ouvir o indivíduo mediunizado. 

Bezerra de Menezes se manifesta pelo palestrante. A fala do pretenso Dr. Bezerra não acrescenta em nada qualquer discussão, mas a platéia se comove, e aquilo é tido como que uma bula papal fechando pontos soltos.

Nos meados do século XIX, Kardec ainda teve que enfrentar a morosidade dos correios e a exiguidade de ajudantes. Nesta época agora de comunicação instantânea e inteligência artificial, o risco de encher nossas caixas de mensagens com textos desprezíveis cresceu exponencialmente. As novidades viralizam e adoecem. 

Talvez nosso cérebro esteja passando por uma transição para conseguir suportar essa intoxicação de informações. Mas daqui que atinjamos novo patamar de equilíbrio, só os clássicos que sobreviveram ao tempo nos defendam dos novidadeiros.   

segunda-feira, 16 de março de 2020

Abrindo estudo sobre Mitologia



INTRODUÇÃO: Estou iniciando aqui uma nova playlist que falará sobre mitologia e este é o vídeo introdutório. 

- A mitologia é a matriz da filosofia 
- As histórias mitológicas fundam civilizações e cotidianos 
- Elas chegam a apaziguar guerras e conferir sentidos 

- São um sistema de crenças e pensamentos que talvez tenham o mesmo nível ontológico (se não mais) que o sistema lógico-matemático ou científico-empírico. Talvez mais porque elas conseguem cobrir a descrição da realidade com uma riqueza maior de detalhes que escapa da sintaxe lógica ou científica. 

- Esse sistema teve seu ocaso porque os desafios enfrentados pelos homens já não eram respondidos a altura pelo símbolo dos mitos. Os mitos traziam símbolos de origem local, e a Grécia se "mundializava". O discurso filosófico acabou sendo uma via de enfrentar a "mundialização". 

- Para que uma história fincasse raízes e valesse a pena ser contada e ascendesse ao estatuto de mito era preciso ter fortes ligações com o belo e com a verdade. 

- Hoje vemos um retorno do respeito às mitologias porque conseguimos desenvolver um pensamento filosófico que, depois de muito tempo, consegue ver os mais diversos mitos como sementes férteis para fecundar o pensamento humano. Tiramos a couraça daquelas histórias que as obrigava de serem tal e qual a realidade, e entendemos a simbologia explosiva que elas representavam. Além de voltar a dar valor ao belo, e não apenas a esquelética lógica na busca de descrever o real. 

- Importa, finalmente, saber, que os valores que as mitologias carregam não evocam apenas condutas morais para o dia-a-dia, mas apontam sentido de vida. Revelam, por assim dizer, valores transcendentais que ajudam as pessoas a ter um modelo para encarar a angústia da finitude

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Como foi a desencarnação de mamãe

Vitimada há quatorze anos por um Parkinson raro que provocava nela tremores, dores e muita rigidez que nunca havia permitido brincar com meus filhos, entra na emergência com pneumonia grave já com uma vontade previamente expressa que não queria UTI. 

Rapidamente foi iniciado o antibiótico, mas por medida de conforto, tamanho foi o desespero do cansaço, sedaram-na. Supus que ela morreria no mesmo dia. Pedi para meu primo que não trouxesse a tia, não daria tempo. Só que ela não morreu. O coração batia forte apesar de uma respiração pouca e superficial. Sete médicos a rondavam e constatavam atônitos: ela resiste. Pensei: ela espera se despedir da tia. Convoquei com urgência nossa família do interior. Eles chegaram rápido. Juntamo-nos, choramos seu estado, afagamo-la, oramos, conseguimos um padre que conduzisse a unção dos enfermos. A cada instante da cerimônia eu imaginava: agora ela vai. 

Vocês que não tem ideia de pacientes críticos nunca poderão entender o milagre de um coração resistir viver sob o peso de uma respiração dificultosa, borbulhosa, adicionado de dois sedativos-analgésicos endovenosos, em infusão contínua, extremamente necessários todavia para tirar sua dor. Ela resistia. E até mesmo deu sinal de melhora da oxigenação, da pressão. Por Deus: ela quer voltar!

Insone que eu estava, vigilante para que a equipe do hospital a tratasse com todo o desvelo e sem procedimentos desnecessários, madruguei no outro dia em busca de agilizar os exames que apontassem seu caminhar para a recuperação, o que justificaria tirar a sedação. Três médicos estavam de acordo com essa idéia. Descobri, ao contrário, que o corpo dela entrava em falência. Desesperei-me. Caí em prantos. Tive raiva dela: a senhora nunca fez o que os médicos queriam, sempre cuidou dos outros e esqueceu de si, e mesmo agora na morte, você é cabeça dura. Pare de sofrer! 

Paralisei no ar. Vaguei perdido pelos corredores. Ia e voltava de casa tentando entender o que ela queria. Tive a ideia de uma reunião espírita de meus amigos para cantar e ler o evangelho. Preparamo-nos no outro dia para tal. A respiração dela do mesmo jeito, terrivelmente fraca, ruidosa, o coração pulsando forte. À noite, então, estávamos lá, dez pessoas no quarto cantando em coro músicas espíritas que falavam de Jesus, da libertação da alma, da renovação de tudo. O Espírito de meu pai se comunica falando estar preparado para recebê-la. A cada instante, olhava para o peito dela que resistia, resistia e resistia. O que fazer, Senhor?! O que fazer?! 

Meus pés estavam inchados de tanto andar, meditar em pé buscando alguma resposta. Meus nervos também inchados de tanto remoer os dados médicos, tentando captar se algo da medicina havia sido equivocado. Passei e repassei a história daquela internação para seis médicos. Todos eram unânimes: 

- Não se culpe, tudo que foi feito está nos conformes. A doença dela não cabia de fato procedimentos invasivos. Além do mais, era da vontade dela não ser intubada. 

Gritei dentro de mim: "Se você morresse! Mas você não morre! Você é dura!". Comecei a delirar. Será mesmo se ela realmente não queria ser intubada? Eu tinha ouvido isso da boca dela. Saí perguntando para os mais próximos se também haviam ouvido isso. Minha irmã confirmou, minha esposa também ouvira. Todos os cuidadores ouviram a mesma coisa. Será se todos deliravam igualmente? Meu Deus, se todos deliram, e fui aquele que abriu a boca para dizer à equipe médica que a suposta vontade dela era aquela... eu... matei... minha mãe. 

As enfermeiras já suspiravam aflitas quando eu repisava o corredor. Todas as vezes que chegava no posto de enfermagem eram os olhos vermelhos ou lágrimas grossas. Meu irmão não dormia. Meu primo não dormia. Minha irmã não dormia. Tive vontade de sair pela rua a fora. Em vez disso saí com um amigo, recontei para ele tudo. Ele novamente me mostrou que nada faltava. 

No último sol dessa aflição, escorado ao leito do hospital, tive a ideia de, mesmo com todos os indícios de deterioração clínica, desligar todas as bombas de analgesia e sedação, deixá-la acordar ainda que em agonia brutal para que ela gritasse o que queria. Compartilhei a ideia com o médico do dia. Diante do meu sofrimento e da própria angústia dele sem entender aquele fenômeno de resistência, anuiu que fizéssemos um teste. Qualquer indício de sofrimento, seria necessário voltar a infusão de sedativos. Combinado. A bomba foi desligada. Enquanto esperava ao seu lado olhando fixamente seus olhos, sua boca, seu braço, se este voltava a tremer, eu que passei esses últimos quatorze anos pedindo aos céus que aquele braço não tremesse mais, estava ali esperando qualquer sinal de retorno de consciência e falando com amigos, entre eles uma paliativista que disse delicadamente para mim: 

- Não faça isso. A morte é um momento muito especial de cada um. Cada qual faz do seu jeito. Este é o jeito dela. Ela deve estar com medo da passagem. Respeite-a. Não deixe que aconteça com dor, com desespero. É o tempo dela na vontade divina. Eu vou aí. 

Então religamos a bomba, e pela primeira vez fui esclarecido que a audição e o tato são os últimos sentidos que a pessoa perde. Chamei meu irmão que chorava e chorava, mas ainda não tinha tido um momento a sós com ela. Pedi para que todos saíssem do quarto que aquele momento era dele e dela. Ele passou cerca de dez minutos falando para a mãe. A médica, então, mobilizou-a, tentou diminuir o desconforto respiratório dela. Tudo com muito cuidado. Falando com ela todo tempo, tocando-a com muito carinho. Minha alma estava se acalmando. Parecia que a médica fazia massagens no meu coração. Cada palavra, um alento. Respeitou minha dor e todos os meus movimentos de filho médico até agora. Mas, disse enfim: 

- Não seja mais médico, seja só filho. Toda e qualquer decisão ligue para mim. 

Sugeriu-me então uma enfermeira paliativista que combinou vir às 18h. Fui em casa tomado por uma paz que há dias não tinha. Revi minha esposa, meu filho mais novo, o mais velho havia saído com a outra avó. Deitei na cama e tive a ideia de fazer um áudio com a mensagem dele para a vovó Irami. Havia sido conselho da médica. 

Às 18h em ponto estávamos lá no hospital, todos os cuidadores, minha irmã e minha esposa. A enfermeira massageava minha mãe e explicava como se deveria massagear. Os cuidadores seguiam suas orientações. Começaram a mobilizá-la, em busca de confortar sua respiração. Já se iam cerca de 90h de respiração ruidosa, que naquele dia havia sido amenizada pelas intervenções das paliativistas. Eu comecei a entender que aquele momento não era a resistência de mamãe mas a última fase de sua doença. Uma fase em que ela, livre das dores, dos tremores e da rigidez, tinha a oportunidade de passar os últimas dias com os que amava. 

Nesses dias para mim sombrios, para ela havia sido os dias em que recebera orações como nunca, cânticos, declarações, cuidados a vontade. Os cuidadores se uniram entendendo que seria o último esforço. Ela ouvia todos dentro do quarto lembrando do quanto ela foi mãe de todos. Até dos cuidadores. Relembravam seus gostos, seus afetos, o quanto era feliz com todas as crianças que se aproximavam dela. 

As massagens em seu corpo continuavam, quando de repente ela abre os olhos. A enfermeira percebe aquela oportunidade única e diz: Allan, conduza a todos para que falem com ela um a um. O último de nós, meu irmão, chega para visitá-la exatamente nessa hora. Olhos semi-serrados, cada um olhou naquele acastanhado bonito e falou: os cuidadores, que ela não se preocupasse que também cuidariam de nós, seus filhos, e nós, os filhos, que ela partisse em paz que cuidaríamos uns dos outros feito irmãos. Nunca havíamos dito isso para ela, separados que estávamos pelo trabalho de cada um. Por fim, coloquei o áudio do meu caçula no ouvido dela, olhando no fundo de sua alma. Terminado o áudio, a enfermeira toma a dianteira para melhorar a posição dela na cama, é quando eu e minha esposa percebemos o último suspiro. E a cor do lábio se esvaindo. Dou alguns passos a frente e tomo seu pulso carotídeo. "Ela morreu". Choramos. 

Agradeço à enfermeira por ter proporcionado aquela despedida. Convido todos a se darem as mãos em um grande círculo ao redor do corpo de mamãe. Agradeço a Jesus por aquele momento com palavras de improviso nascidas do coração. Emendamos com um Pai Nosso e uma Ave Maria. Abraçamos-nos uns aos outros. Agradeço a cada um e a todos. Mamãe atravessara, enfim, o portal. Era aquilo. Tudo foi tão rápido. Ela só queria ter a certeza que não iríamos ficar desamparados. 

Tenho outras tantas reflexões, e houve muito mais entre cada respiração do que posso contar agora. Mas, como sempre digo para meus meninos ao contar historinhas que se alongam: são cenas dos próximos capítulos.

domingo, 3 de novembro de 2019

Sonho sobre a vida póstuma

Sonhei que havia morrido. Era muito estranho. Não fui para o umbral. Não vi espíritos sofredores, nem vociferadores. Também não vi ninguém que me convidasse para qualquer cidade espiritual. 

Acordei e levantei-me do corpo, andei alguns passos, olhei para trás. Era ele, o meu corpo. Aquele que tinha animado há pouco. Já havia passado os choros e as homenagens. Tive vontade de ver a esposa e os filhos. Pronto! Foi o suficiente para já estar ao lado deles. Os rapazes enxugavam o rosto da mãe. O mais velho a beijava. O mais novo não sabia o que dizer. Beijei o rosto do caçula que tomou um susto, olhou para os lados. Vi o peito do primogênito apertado. Eu podia ver a angústia. Isso não é metáfora. Eu podia ver mesmo! Cheguei para ele e pus a mão em seu coração. Seu músculo cardíaco deu um salto descompassado. A angústia diminuíra. Ele achara estranho aquele fugaz descompasso. Beijei a boca da minha esposa, que saboreia o beijo em seus lábios com leve movimento da língua.

Só, então, percebo presenças ali em casa estranhas a minha família. Mas todos eles me olhavam. Como, se eu havia morrido? Senhor! Eram outros tantos Espíritos! Saudavam a minha chegada. Papai, vovó, todos estavam ali. Papai, veterano naquele lugar apenas me fala:

- Vá conhecer o mundo, não há mais barreiras para você. 

Quis experimentar. Saí a esmo, correndo. Eu não me cansava. Aumentei o passo, ultrapassei minha velocidade comum. Voei! Que liberdade! Não havia mais dores, nem a asma me constrangia. O ar frio do alto céu me era inofensivo. Chego à Lua, onde vejo outros tantos Espíritos dialogando festivamente, outros apenas a mirar o espaço, pensativos. Lembro de meu amigo astrônomo. Subitamente estou ao seu lado. Ele toma um livro que havia dado de presente para ele há tempos. Lembra de nosso cumprimento. O pensamento dele para mim era fala! Eu o respondo. Ele acha engraçado aquele diálogo que acontece na sua mente. Continua a brincadeira e pergunta para mim como estou agora, morto. "Mais vivo que nunca!". Ele ri. Sua esposa pergunta do que ri. "Do Allan." Ela estranha ele estar rindo de um homem que acabara de morrer. Que macabro!

O sol parece querer nascer. Olho para o relógio. Não é possível. Eram apenas duas horas da manhã. Vou ao encontro desse adiantado sol. Um moço enorme me espera fora daquela casa. Dá-me a mão. Tenho a perfeita intuição quando o toco: era o meu anjo. Ele me aponta o céu para que veja o tal sol. Os raios me ofuscam. Aos poucos diviso uma forma no centro da irradiação, logo mais, um rosto. Meu Deus! Não era o sol, mas Jesus. 

O Espírito sopra onde quer

Andei tentando resolver problemas da família. Perturbações de ordem mental me empurraram de volta às mediúnicas. Mas, dessa vez, uma forma nova de se comunicar com os Espíritos me foi apresentada. 

É nova, mas é antiga. É antiga, mas não é decrépita. É a velha forma como Kardec fazia. Quer falar com um Espírito? Evoque-o. Chame-o. Tome-o pelo nome. É assim que sempre foi. Simples assim. Há de aparecer embusteiros. Ora, reconhecê-los e se livrar deles é toda a ciência espírita. Pode ser conteúdo do médium? Outro capítulo, então, da ciência espírita. 

Parece-me que deixamos essa ciência de lado. Os atendimentos em massa de espíritos sofredores anônimos, sempre tive essa suspeita, acabam por acalmar mais os médiuns do que ajudar as pessoas que precisam. 

Então, eis que seu pai morre. Você deve esperar a gentileza de permitirem que ele se comunique por um médium enclausurado numa sala, acessível apenas para o grupo seleto, sequioso para que de lá saia alguma carta que pareça dedicada a você. Como acontecia na época de Kardec? Sente em sua casa e evoque-o. Profanação? Mas o Espiritismo sempre foi profanação. Essa era a graça dele. Tornamo-nos bons mocinhos.  Acolhemos as críticas que todos nos faziam para bem passar na avenida. Hierarquizamos os centros, colocamos vários intermediários entre o familiar aflito e a alma querida que, viva mais do que nunca, vibrava para se comunicar. 

- Ei, você! Está com saudades dos seus que já se foram? Eles não se foram. Enxugue essas lágrimas! Tome de um papel e uma caneta. Pode ser no seu computador mesmo, ou no seu tablet, smartphone, e dedique-se a tentar o diálogo. Vem a hora que o sinal pega e sai o fenômeno. 

Não me admira que perdemos o fogo da consolação. Conseguiram nos esfriar. 

domingo, 7 de abril de 2019

Santo Agostinho e o Espiritismo

Lemos hoje sobre a presença de Santo Agostinho como Espírito ajudando no nascimento do Espiritismo entre nós, humanidade. Em o Evangelho Segundo o Espiritismo, é o Espírito Erasto que evoca essa lembrança. Veio-me a dúvida sobre a teoria da graça ou da iluminação divina que Santo Agostinho construiu quando encarnado nos idos de quatrocentos depois de Cristo. Seria ela incompatível com o que pregamos? Concluímos que não. 

A teoria da iluminação divina é bem simples de entender quando assumimos uma coisa: a corrupção que trazemos em nós como noção antropológica primeira. A observação da natureza humana que nos circunda torna isso bem evidente. Não somos santos. E os santos se destacam tanto mais quanto mais pecadores ao redor, quanto mais eles tem de se esforçar para se superpor às paixões que puxam o homem à selvageria. 

Se o fim da salvação é a felicidade ao lado de Deus, algo tão supremo, como nossos atos, todos mesquinhos, por mais grandiosos que sejam, na nanica escala em que ocupamos no universo, como podem valer a salvação que Deus promete? Não valem nada - em comparação. Não quer dizer que não tenhamos que nos esforçar, mas aí está o nó da questão. Nó insolúvel para a modernidade: se Deus tem o poder de conceder a salvação, e apenas Ele, de que adianta o esforço?

Não é uma questão de o que adianta, não é uma questão de entender o propósito de Deus, tentação humana por excelência que nos faz se afastar Dele, já que extrapola o nosso limite essa pretensão, mas suportar conviver com o mistério. Confiar, ter fé, suportar o mistério, eis o que santifica o homem ao lado de amar. Se a equação da salvação fosse matemática, de que adiantaria a fé. Não passaria a vida de uma contabilidade de obras. 

Nós espíritas caímos nesse erro quando não entendemos bem a psicologia da alma. Isso faz de Santo Agostinho um senhor muito atual. Queremos exigir de Deus que nos dê o céu porque merecemos. Quando Kardec conclui que fora da caridade não há salvação, essa caridade abarca tanta coisa, que mal cabe na nossa cabeça. Envolve os mais diversos tipos de ajuda material, as mais diversas dedicações para o desenvolvimento moral, mas, coisa esquecida!, a submissão do espírito à vontade de Deus, a tal ponto, virtude suprema!, de temer não ser um dos escolhidos. É aprender a conviver com o mistério.

O que é a teoria da iluminação, então? Não é rejeitar o livre-arbítrio, mas reconhecer que se ele é suficiente para nos fazer cair, nunca o será para nos salvar. Sempre haverá o hálito do Criador, insuflando boas resoluções a nos guiar para o bem. Saber surfar nessa onda é o que Ele espera de nós. 

Meu amigo ainda comentou algo: que a reencarnação, coisa desconhecida ou rejeitada nos moldes em que ela era apresentada pelas heresias e pelos bárbaros da época de Agostinho, é a única forma de conciliar a bondade de Deus em querer salvar todos os seus filhos com o seu poder de verdadeiramente salvar no final dos tempos. Deus insufla o bem no coração humano, que hoje é pecador e amanhã será um santo, mais dia, menos dia, neste ou em outro milênio. Com a reencarnação reconciliamos os atributos de Deus, apartados, por exemplo, quando Diderot O acusava de negligente ou incoerente já que podia fazer o bem, queria fazer o bem e não o fazia. A teoria da transmigração evolutiva das almas não mais coloca a questão como um mero ato de Deus, mas devolve aos homens o sentido do esforço histórico. É preciso conquistar patamares de felicidade com ouvidos dóceis para os conselhos de Deus, através de seus mensageiros. 
 

quarta-feira, 20 de março de 2019

Somos totalmente diferentes!

"Somos totalmente diferentes". - Disse a colega de trabalho a respeito de uma opinião que tentei expressar a respeito do falecimento de uma paciente. 

Era acerca de uma idosa que já não tinha mais como investirmos com terapia com fins curativos. Estávamos tentando conduzir sua passagem em uma boa morte, o que na medicina se intitula ortotanásia. Eu falei de forma inocente: "Como ela resistiu!". E a colega, evangélica, replicou: "Não, ela foi na hora certa, a que Deus determinou. O senhor diz isso porque somos de posições bem diferentes. Eu sou cristã e o senhor é espírita." Nunca havia conversado com ela sobre minha crença, mas ela deve ter visto nas redes sociais. 

Como sempre, os adeptos das igrejas reformadas nos consideram não-cristãos. Pouco importa a discussão que originou aquela frase, haja vista, se uma pessoa pode resistir ao seu desenlace ou se é uma determinação absoluta de Deus. Vou desconsiderar também a disputa de conceitos e falar mais o que me vem ao peito quanto escuto essa acusação. Parece apenas uma lucidez de predicado: existem as denominações cristãs e as não-cristãs. Mas, para o espírita sincero, velador da moral fundamental da doutrina, soa como acusação. Acredito que muitos que despejam essa negativa é como se nos impedissem de entrar no templo. 

Calo-me, a discussão não me agrada, nem é frutífera. Ainda mais com pessoas de fé gritante. Gosto de discutir com amigos, mais por brincadeira do que por vontade de conversão. Contudo, sempre, no fundo, quando me impedem de entrar no templo, sinto como se eles pudessem ter razão. Quem respeita mais o Cristo, aquele que o considera o Deus encarnado, ou o que o entende apenas como um Irmão Maior (pouco importam as maiúsculas)? Sei que a resposta que sai na ponta da língua dos ecumênicos é: aquele que o segue, que o imita dia-a-dia, que se esforça para se aprimorar. Seria suficiente mesmo? Não seriam igualmente necessárias as pompas, os ritos, as prostrações? Não por ele, mas por nós mesmos. O corpo entende mais a linguagem do corpo do que das construções do intelecto. Ajoelhar-se, louvar com fervor, deixar o corpo tremer com o seu nome talvez fizesse chegar nosso coração mais forte ao seu lado, porque taquicárdico, porque suados, porque ciosos de olhar em seu rosto. 

O fato é que minha crença é esta. Jesus é o Irmão Maior, com maiúsculas, mas irmão, e não Pai. Dá vontade de chamá-lo de Deus, mas não é preciso. Seria precioso, mas não exato. Temos uma ideia de que é manso, e que teve seus momentos de fúria e de lágrima, das de sofrer por um amigo, e das de verter sangue de medo. Nossa forma de pensar Jesus o fez descer do símbolo sofrido e colocá-lo entre nós, conduzindo o destino da Terra, mas não do universo, nem mesmo do Sistema Solar. Mas, a Terra já é tanto! Falamos com ele a qualquer momento, de qualquer jeito. Falamos, nem rezamos, nem oramos. É quase conversa de pé de orelha. Profanação suprema! Tiramos quase toda a divindade dele, tornamo-lo humano, um humano divino, mas, por Deus, um humano. Daqueles que nos faz ter esperança na humanidade, porque se ele conseguiu, quem sabe, uma vida dessas, conseguiremos. 

sábado, 16 de março de 2019

Raskolnikov: o assassino ordinário



Falo, neste vídeo, sobre o protagonista do romance "Crime e Castigo" de Dostoiévski. Como era sua personalidade, o que o levou a cometer o crime, como ele entendia a sociedade, o que seria sua teoria dos homens extraordinários, como é a estrutura do romance que conta o calvário desse jovem pedante e perdido. Esse vídeo faz parte de uma coletânea de exposições que busca dissecar o universo dostoievskiano. 

sexta-feira, 15 de março de 2019

Nova Era

Quase todas as semanas, as famílias nossas amigas se reúnem em torno de O Evangelho segundo o Espiritismo  para discutir os temas suscitados por esse livro que nos é quase sagrado.

Ontem o encontro se iniciou com a exaltação das crianças alegres, pulando, inventando brincadeiras, que é a forma de umas dizerem às outras: que bom lhes rever. 

Conversei um pouco com meu amigo relatando meus últimos esforços para entrar na vida saudável. Parabenizei-o pela entrevista que deu a respeito das precauções que a comunidade deve ter na época de chuvas com relâmpagos.

Ele tomou o violão que estava em seu carro, tocou uma música para nos elevar. O meu menor subiu à mesa e ficou olhando aqueles dedos darem vida às cordas do violão. Abrimos o Evangelho, que agora vínhamos lendo item por item, na sequência proposta por Kardec. Era a vez da "Nova Era": 

"Deus é único e Moisés é o Espírito que Ele enviou em missão para torná-lo conhecido não só dos hebreus, como também dos povos pagãos..."

Ao final da leitura, tomou a palavra o violeiro:

- Me veio em mente, por algum motivo, que o problema da nossa era vem sendo os cristãos moralistas. Eles se esmeram ativa e bitoladamente para censurar comportamentos que eles consideram impróprios, mas cuja impropriedade pode ser apenas da cabeça deles. Eles se comportam como essa religião mosaica para a massa dos hebreus antigos, que eram tocados mais por sinais exteriores do que pelo espírito da mensagem. 

- Entendo. Veja, por exemplo, aquele diálogo que tive com nosso amigo de orientação sexual homoafetiva. De certo modo, para ter aquele diálogo, que foi um de muito respeito, precisei sair do meu lugar para estar aberto àquela forma de amar um parceiro. É um diálogo que pede flexibilidade da sua forma própria de ver as relações, olhar com o espírito. E olhar o Espírito! Enxergar que aquele ser é um que vem passando por múltiplas experiências, das quais esta aqui não é senão a amostra de uma construção arquimilenar. A reencarnação é a salvação da intolerância!  

- E apesar disso, desse alargamento de consciência que a reencarnação nos propõe, até mesmo espíritas renomados escorregam na intolerância. 

- Por outro lado, fico pensando se podemos ser tão críticos assim com esses que defendem sua fé com fervor. Sempre me ressenti dos jovens ao meu redor que não tinham uma bandeira na vida, e seguiam pusilânimes, quase feito zumbis, preocupados com movimentos pequenos, quase imediatos na vida. O objetivo do agora é ir só até mais ali adiante, quando muito, quando não se desfaziam ensimesmados, sem brilho, sem causa para lutar. 

- Mas, o que vejo é o contrário disso. Bandeiras e idolatrias de toda sorte foi o que (des)animou o Brasil nesses tempos. Há um ex-presidente preso, deus da esquerda. Há os que estão unidos, mãos dadas com força e desespero, através do ódio contra aquele que fazem questão de dizer ser um presidiário.

- De fato, hoje não é mais a frouxidão dos ideais que me preocupa, mas daqueles erroneamente abraçados. Então, a discussão toma outro rumo. Para não cair naquela frouxidão que, de certa forma caracteriza esses ecumenismos piegas, que, na gana de unir os diversos, reduz as singularidades das crenças a alguns dogmas possíveis de serem pacíficos, para não cair nisso, não deveríamos respeitar esses ativismos?

- O problema dos ativismos que evoco está em outra ordem. Ele se aprofunda e se torna abominável porque toca nos critérios de salvação da alma. Não se vê homens de times de futebol diferentes entendendo que o outro pode ir para o inferno em virtude de ser adversário. Mas, no caso por exemplo da homoafetividade, é essa a crença. 

- De fato! Todavia, se eu tenho a ideia de que os gentios podem ser salvos, e que meu Deus é o único Deus possível, e que a partir dele uma única concepção do homem passível de salvação surge, estarei sendo um criminoso se não tentar a conversão. O próprio Bento XVI, em sua época, havia evocado que a questão da homoafetividade estava na concepção do homem segundo a Bíblia, segundo a natureza, que é aquela que Deus criou, na qual reside Sua vontade. Defendia ele, e é mesmo assim na teologia católica, que o homem possui uma natureza, uma essência, que Deus o criou com uma forma, e essa forma traz um propósito a ser maturado. O exercício ruim da liberdade afastou o homem de Deus e o conduziu à danação. A primeira consequência dessa visão de mundo é que o homem é livre até certo ponto, mas é um ponto que chega a poder desobedecer a vontade de Deus. O mal, em grande parte, vem dessa desobediência. A segunda conseqüência é a possibilidade de o homem ser convencido do contrário do que ele imagina ser o certo, isso deixa margem para seu retorno ao bem, caso ele esteja em pecado. Daí a possibilidade, e até mesmo a necessidade, do ativismo apostólico de espalhar a boa nova para a humanidade.

Minha esposa, que até então revezava a atenção entre nós e as crianças, argumentou:

- O problema é forçar essa salvação através de imposições exteriores que mais castigam do que elevam. A conversão verdadeira se faz através do próprio exemplo que ilumina os demais naturalmente. 

Então, lembrei-me do romance "Crime e Castigo" de Dostoiéviski, onde a personagem Sônia era um símbolo dessa fala. A mulher mais fraca de todas, menos convincente, menos pura - se apenas olharmos o exterior. Ela era meretriz, mas para sustentar toda uma família. Era fraca, porque acreditava na força de todos os indivíduos. Não conseguia olhar ninguém no olho, porque considerava cada alma, por trás dos olhares, como um milagre maior do que sua própria vida. Ao final do romance, visitando presos na Sibéria, todos os presos a amavam. Quantas vezes ela pregou Cristo para aqueles criminosos? Nunca! E, ao mesmo tempo, a todo instante, através de cada célula de seu corpo, de cada movimento da sua alma. 

Entendemos, então, que o que a Nova Era, inaugurada pelo Espiritismo, vinha passar era a assunção de Cristo em uma espiritualidade sutil que enfim nos faça ser sua imitação, sem ter que ficar alardeando nossa conversão e a necessidade de conversão dos outros com tanto mais vigor e rigor quanto menos nosso coração estivesse mergulhado naquilo.