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quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Como foi a desencarnação de mamãe

Vitimada há quatorze anos por um Parkinson raro que provocava nela tremores, dores e muita rigidez que nunca havia permitido brincar com meus filhos, entra na emergência com pneumonia grave já com uma vontade previamente expressa que não queria UTI. 

Rapidamente foi iniciado o antibiótico, mas por medida de conforto, tamanho foi o desespero do cansaço, sedaram-na. Supus que ela morreria no mesmo dia. Pedi para meu primo que não trouxesse a tia, não daria tempo. Só que ela não morreu. O coração batia forte apesar de uma respiração pouca e superficial. Sete médicos a rondavam e constatavam atônitos: ela resiste. Pensei: ela espera se despedir da tia. Convoquei com urgência nossa família do interior. Eles chegaram rápido. Juntamo-nos, choramos seu estado, afagamo-la, oramos, conseguimos um padre que conduzisse a unção dos enfermos. A cada instante da cerimônia eu imaginava: agora ela vai. 

Vocês que não tem ideia de pacientes críticos nunca poderão entender o milagre de um coração resistir viver sob o peso de uma respiração dificultosa, borbulhosa, adicionado de dois sedativos-analgésicos endovenosos, em infusão contínua, extremamente necessários todavia para tirar sua dor. Ela resistia. E até mesmo deu sinal de melhora da oxigenação, da pressão. Por Deus: ela quer voltar!

Insone que eu estava, vigilante para que a equipe do hospital a tratasse com todo o desvelo e sem procedimentos desnecessários, madruguei no outro dia em busca de agilizar os exames que apontassem seu caminhar para a recuperação, o que justificaria tirar a sedação. Três médicos estavam de acordo com essa idéia. Descobri, ao contrário, que o corpo dela entrava em falência. Desesperei-me. Caí em prantos. Tive raiva dela: a senhora nunca fez o que os médicos queriam, sempre cuidou dos outros e esqueceu de si, e mesmo agora na morte, você é cabeça dura. Pare de sofrer! 

Paralisei no ar. Vaguei perdido pelos corredores. Ia e voltava de casa tentando entender o que ela queria. Tive a ideia de uma reunião espírita de meus amigos para cantar e ler o evangelho. Preparamo-nos no outro dia para tal. A respiração dela do mesmo jeito, terrivelmente fraca, ruidosa, o coração pulsando forte. À noite, então, estávamos lá, dez pessoas no quarto cantando em coro músicas espíritas que falavam de Jesus, da libertação da alma, da renovação de tudo. O Espírito de meu pai se comunica falando estar preparado para recebê-la. A cada instante, olhava para o peito dela que resistia, resistia e resistia. O que fazer, Senhor?! O que fazer?! 

Meus pés estavam inchados de tanto andar, meditar em pé buscando alguma resposta. Meus nervos também inchados de tanto remoer os dados médicos, tentando captar se algo da medicina havia sido equivocado. Passei e repassei a história daquela internação para seis médicos. Todos eram unânimes: 

- Não se culpe, tudo que foi feito está nos conformes. A doença dela não cabia de fato procedimentos invasivos. Além do mais, era da vontade dela não ser intubada. 

Gritei dentro de mim: "Se você morresse! Mas você não morre! Você é dura!". Comecei a delirar. Será mesmo se ela realmente não queria ser intubada? Eu tinha ouvido isso da boca dela. Saí perguntando para os mais próximos se também haviam ouvido isso. Minha irmã confirmou, minha esposa também ouvira. Todos os cuidadores ouviram a mesma coisa. Será se todos deliravam igualmente? Meu Deus, se todos deliram, e fui aquele que abriu a boca para dizer à equipe médica que a suposta vontade dela era aquela... eu... matei... minha mãe. 

As enfermeiras já suspiravam aflitas quando eu repisava o corredor. Todas as vezes que chegava no posto de enfermagem eram os olhos vermelhos ou lágrimas grossas. Meu irmão não dormia. Meu primo não dormia. Minha irmã não dormia. Tive vontade de sair pela rua a fora. Em vez disso saí com um amigo, recontei para ele tudo. Ele novamente me mostrou que nada faltava. 

No último sol dessa aflição, escorado ao leito do hospital, tive a ideia de, mesmo com todos os indícios de deterioração clínica, desligar todas as bombas de analgesia e sedação, deixá-la acordar ainda que em agonia brutal para que ela gritasse o que queria. Compartilhei a ideia com o médico do dia. Diante do meu sofrimento e da própria angústia dele sem entender aquele fenômeno de resistência, anuiu que fizéssemos um teste. Qualquer indício de sofrimento, seria necessário voltar a infusão de sedativos. Combinado. A bomba foi desligada. Enquanto esperava ao seu lado olhando fixamente seus olhos, sua boca, seu braço, se este voltava a tremer, eu que passei esses últimos quatorze anos pedindo aos céus que aquele braço não tremesse mais, estava ali esperando qualquer sinal de retorno de consciência e falando com amigos, entre eles uma paliativista que disse delicadamente para mim: 

- Não faça isso. A morte é um momento muito especial de cada um. Cada qual faz do seu jeito. Este é o jeito dela. Ela deve estar com medo da passagem. Respeite-a. Não deixe que aconteça com dor, com desespero. É o tempo dela na vontade divina. Eu vou aí. 

Então religamos a bomba, e pela primeira vez fui esclarecido que a audição e o tato são os últimos sentidos que a pessoa perde. Chamei meu irmão que chorava e chorava, mas ainda não tinha tido um momento a sós com ela. Pedi para que todos saíssem do quarto que aquele momento era dele e dela. Ele passou cerca de dez minutos falando para a mãe. A médica, então, mobilizou-a, tentou diminuir o desconforto respiratório dela. Tudo com muito cuidado. Falando com ela todo tempo, tocando-a com muito carinho. Minha alma estava se acalmando. Parecia que a médica fazia massagens no meu coração. Cada palavra, um alento. Respeitou minha dor e todos os meus movimentos de filho médico até agora. Mas, disse enfim: 

- Não seja mais médico, seja só filho. Toda e qualquer decisão ligue para mim. 

Sugeriu-me então uma enfermeira paliativista que combinou vir às 18h. Fui em casa tomado por uma paz que há dias não tinha. Revi minha esposa, meu filho mais novo, o mais velho havia saído com a outra avó. Deitei na cama e tive a ideia de fazer um áudio com a mensagem dele para a vovó Irami. Havia sido conselho da médica. 

Às 18h em ponto estávamos lá no hospital, todos os cuidadores, minha irmã e minha esposa. A enfermeira massageava minha mãe e explicava como se deveria massagear. Os cuidadores seguiam suas orientações. Começaram a mobilizá-la, em busca de confortar sua respiração. Já se iam cerca de 90h de respiração ruidosa, que naquele dia havia sido amenizada pelas intervenções das paliativistas. Eu comecei a entender que aquele momento não era a resistência de mamãe mas a última fase de sua doença. Uma fase em que ela, livre das dores, dos tremores e da rigidez, tinha a oportunidade de passar os últimas dias com os que amava. 

Nesses dias para mim sombrios, para ela havia sido os dias em que recebera orações como nunca, cânticos, declarações, cuidados a vontade. Os cuidadores se uniram entendendo que seria o último esforço. Ela ouvia todos dentro do quarto lembrando do quanto ela foi mãe de todos. Até dos cuidadores. Relembravam seus gostos, seus afetos, o quanto era feliz com todas as crianças que se aproximavam dela. 

As massagens em seu corpo continuavam, quando de repente ela abre os olhos. A enfermeira percebe aquela oportunidade única e diz: Allan, conduza a todos para que falem com ela um a um. O último de nós, meu irmão, chega para visitá-la exatamente nessa hora. Olhos semi-serrados, cada um olhou naquele acastanhado bonito e falou: os cuidadores, que ela não se preocupasse que também cuidariam de nós, seus filhos, e nós, os filhos, que ela partisse em paz que cuidaríamos uns dos outros feito irmãos. Nunca havíamos dito isso para ela, separados que estávamos pelo trabalho de cada um. Por fim, coloquei o áudio do meu caçula no ouvido dela, olhando no fundo de sua alma. Terminado o áudio, a enfermeira toma a dianteira para melhorar a posição dela na cama, é quando eu e minha esposa percebemos o último suspiro. E a cor do lábio se esvaindo. Dou alguns passos a frente e tomo seu pulso carotídeo. "Ela morreu". Choramos. 

Agradeço à enfermeira por ter proporcionado aquela despedida. Convido todos a se darem as mãos em um grande círculo ao redor do corpo de mamãe. Agradeço a Jesus por aquele momento com palavras de improviso nascidas do coração. Emendamos com um Pai Nosso e uma Ave Maria. Abraçamos-nos uns aos outros. Agradeço a cada um e a todos. Mamãe atravessara, enfim, o portal. Era aquilo. Tudo foi tão rápido. Ela só queria ter a certeza que não iríamos ficar desamparados. 

Tenho outras tantas reflexões, e houve muito mais entre cada respiração do que posso contar agora. Mas, como sempre digo para meus meninos ao contar historinhas que se alongam: são cenas dos próximos capítulos.

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Diálogo com um Espírito enfrentando o medo da morte



Por que você não quer partir?

Por tudo que eu construí aqui e por tudo que eu ainda tenho para construir. 

Mas, do outro lado ainda há vida. 

Uma vida completamente nova. Eu queria ficar com os meus. 

Há seus também por lá. 

Pode ser consoladora a ideia de que há uma família que ultrapassa essas nossas vivências na carne, mas as experiências na carne nos marcam de uma forma que parece a ferro e fogo. Você já tentou fazer feliz uma mulher? É a coisa mais difícil que se pode tentar. Nunca se sabe ao certo o acerto. É um jogo de surpresas. Mas, quando se consegue, é prazeroso para os dois. Tanto mais quanto mais difícil. E criar uma criança? Querer o bem dela diuturnamente. Se enfurecer de tanto que ela não segue suas ordens, mas se felicitar por vê-la crescer exatamente nesse processo de te desobedecer, por estar encontrando o espaço dela no mundo. Pois bem, esses esforços que fazemos não dão apenas sentido a nossa vida, dão cor, sabor, textura, substância, nos fazem, necessariamente ter raízes. Depois de todo esse processo trabalhoso, oneroso, vem a morte e quer nos arrancar. 

Mas, você poderá continuar tendo contato com seus amores, mas de um outro modo. 

Que modo você fala? Com a invisibilidade e a intangibilidade próprias dos Espíritos errantes. Teve uma vez que fiquei afastado de meus filhos por causa de um exame que tive de fazer. Haviam me dado uma substância radioativa e orientado para se afastar deles.  Decidi mudar para a casa de minha mãe, para nem correr o risco desse irradiação os fazer qualquer mal. Olhava-os pela câmera do celular. Cheguei até a ir de carro lá, vê-los de longe. O menorzinho só ficava olhando o carro, sem entender porque não estacionava. O maior queria ir para o carro brincar. Para o menor, eu estava invisível, para o maior, intangível. Sabe o quanto isso me feriu?

Esse apego é o que mata!

Esse apego é o que salva, meu amigo. Se não fosse por ele, eu seria mais um perdido nesse mundão. Todo esse esforço por sair de mim, amando, me tornou um ser tão singular, com sentimentos tão próprios, na mesma medida em que ia vendo a singularidade daqueles seres amados para mim. Um dia fiquei com uma menina que se enamorou por certa beleza que enxergou em mim e admirava certa força que via em minha fala. Dias depois ela já estava com outra pessoa. O que eu fui para ela? Mais um com certa beleza e certa força. Todos os dias eu conheço cada vez mais a beleza da minha esposa e a força de meus filhos. Todos os dias eles se tornam cada vez mais especiais para mim, insubstituíveis. Sempre amei meus pequenos com toda a devoção, e se eles tivessem morrido recém-nascidos, eu teria sofrido, como sofri com o aborto espontâneo que sofremos na primeira tentativa. Mas, quando os temos nos braços, vemos saindo de nossos braços, andando, correndo, depois pulando, enfrentando as águas, cada conquista dessa vai tornando-os tão mais especiais que a possibilidade da perda só sinaliza a profundidade da dor que seria.

Melhor seria não os ter. 

Bobagem! Deixa que eu os tenha e que sofra a possibilidade de não mais os ter. Essa é a nossa sabedoria, irmão. 

Sabedoria da dor. 

Sabedoria da vida. A vida que vem com o que tem de bom e de finito. 

Voltando, então, para a tentativa de lhe esclarecer: não é finito. 

Voltando para a tentativa de lhe fazer enxergar: a noção de infinito tem gosto de teoria para quem ainda sente o peso da carne, não consola tanto quanto o cheiro das pessoas que amamos. Consola? Tem lá o seu consolo. E não repreendo você por estar me conduzindo nessa teoria. Devemos nos esforçar para amplificar o amor, mostrar o quanto o túmulo pode não ser o fim. Só a eternidade para dar um sentido para o finito. Só não devemos nos enganar e achar que esse sentimento poderá ser enfiado na consciência de quem vive intensamente a carne. E eu não estou falando de concupiscência ou luxúria, mas apenas de seres sencientes. Ah! Saborear o outro! Quem nunca teve isso no corpo, pouco poderá entender o que falo. Quem se escondeu no deserto para não sofrer me vê falando uma língua estranha. O peso dos corpos sobre o seu noites a fio, até o dia em que você está tão leve e quebradiço que o próprio filho pode te carregar. 

Sua tristeza lhe corrói. 

Deixe de ser criança. Isto é o próprio processo de morrer. Ser corroído até não sobrar mais nada, apenas este Espírito desencarnado que você prega. É doloroso? Sim. É angustiante? Sim. Mas, é também a vida. Todos esses sentimentos que lhe falei fazem parte do corpo do qual vou sendo expulso. Não me arrependo de nada, eis tudo o que é bom! Se as lembranças forem comigo, menos mal. Se eu puder voltar para vê-los, tanto melhor. Mas, faz parte do corpo o apego.  Corpo do pai nos braços do filho: que o pai voe enfim, e o filho o assimile. Eis nossa sina de ser adubo e horizonte, os dois, para os que ficam. 

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Quero falar com minha avó que já morreu



Uma leitora do blog me questiona se seria possível se comunicar com sua avó já falecida. Segue o diálogo:

Ela: Oi, Allan, queria tirar uma dúvida contigo. Minha avó faleceu há 8 anos. Eu era muito apegada à ela. De toda a família, a única que ainda sonha com ela sou eu. Recentemente faleceu um tio e anda tendo algumas confusões familiares sobre herança. Queria muito tentar uma comunicação com minha avó. Nem sei se seria possível. Queria saber como ela está, algo assim. Venho de uma formação bem católica e tudo isso é desconhecido para mim.


Allan: Primeiro, queria agradecer por você ter de alguma forma confiado em mim para um assunto tão pessoal.
Seguinte, imortalidade da alma é a base. Ninguém morre, né? Acho que isso você acredita. O que o catolicismo não acredita ou abomina é a possibilidade de se comunicar com o que eles chamam de almas do purgatório. Mas, o Espiritismo mostrou que toda e qualquer alma que  esteja no plano espiritual tem condições de se comunicar com os que estão "na carne" (encarnados). Basta pensar que quando morremos não mudamos em quase nada. Persistem os mesmos desejos, raivas, faltas, sonhos, saudades, etc. Então, pra sua pergunta se seria bom para sua avó se comunicar com você, pergunte se seria bom ela falar com você aqui. Se sim, seria.
Contudo, é muito importante, quando estamos do outro lado, deixar de se preocupar com as coisas daqui. Passamos a ter outras necessidades de crescimento. Todavia, nem todos conseguem se desprender. Ficam preocupados com o que foi deixado para trás e não conseguem focar nas novas tarefas.
Um conjunto de Espíritos amigos (entre eles o Anjo-da-guarda) estão ao redor da pessoa tentando lhe proporcionar uma ótima vida no plano espiritual. Não é proibido você querer se comunicar com sua avó. Talvez seus sonhos sejam ela se comunicando já com você. O que pode acontecer em uma mediúnica é: ela demorar pra se comunicar, pois não recebeu permissão ainda; se comunicar um espírito amigo dela, que pode estar querendo poupá-la, pois ela não sabe o que lhe falar para "resolver" o problema ou lhe consolar; ela se comunicar e propor nortes importantes para o que vocês estão vivendo; ela se mostrar aflita com a situação e demonstrar isso na própria comunicação. Entre outras várias possibilidades.
Me permita uma dica para um assunto tão delicado. Não espere muito de uma comunicação mediúnica em termos de ela lhe revelar uma solução para os problemas. Vá com o espírito de querer reencontrar sua avó e matar a saudade com algo mais palpável que um sonho. A mediunidade foi feita para que tenhamos fé renovada de que a vida não acaba, a pessoa não se dilui na eternidade, e o amor tem motivos de sobra para continuar existindo. Só isso*. Querer respostas para a vida presente, das preocupações da vida presente, pode ser uma grande frustração.


Ela: Aceitei bem a morte da vovó, apesar da saudade. Mas, ocorrem tantas coisas em sonhos que tenho com a vovó, que me deu vontade de ver melhor isso. Entendi tudo! O que mais queria era sentir que ela está bem, que está feliz, que recebeu meu tio lá, que ela viu meus gêmeos. Seria mais isso!
Outro dia, li uma carta mediúnica de alguém que uma amiga conhecia. O que me chamou a atenção foi o português tão rebuscado. Minha avó não falaria assim com tão pouco estudo. A comunicação seria, então, como ela fazia aqui? Um dia antes de morrer, ela me disse: "eu te amo tanto, você vai ser mais feliz do que pensa, por tudo que fez por mim!" Ela teve morte súbita no outro dia! Ou seja, não esperávamos e nem ela. Me pareceu muito um recado.

Allan: Sobre o português rebuscado, há algumas questões bem mais complexas sobre isso. Por exemplo, a mediunidade, que é o dom de ser intermediário para os desencarnados, não é algo igual para todos, existem graus. Existem aqueles médiuns que deixam passar a mensagem como se ele fosse apenas um gravador, e existem outros que misturam coisas da própria personalidade na comunicação. O médium sente a presença, às vezes chega a enxergar o Espírito, mas não permite que a mensagem seja passada com fidelidade absoluta. Nestes casos, você encontra as marcas do médium na mensagem que ele passa. É como se estivesse passando um recado de ter ouvido falar. Aí passa na linguagem dele, porém você reconhece que deve ter sido a pessoa que disse pois há informações muito particulares que ele não poderia saber.
E a respeito do recado que ela lhe deu, às vezes, perto do Espírito se libertar do corpo, ainda que este não esteja moribundo, abre-se uma lucidez não usual. É como se o peso dos sentidos da carne diminuísse, deixando acontecer um lapso de eternidade na consciência da pessoa. Daí, as profecias podem vir à tona, ainda que seja revestida de uma fala de carinho profundo. Aliás, tanto melhor quando vem assim.


Ela: Entendi. Bem interessante tudo isso! Deus existe!


segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Refutações filosóficas baseadas na vida familiar



Há algumas correntes filosóficas que imperam ao nosso redor, fazendo adeptos e provocando movimentos que acredito poderem receber séria refutação quando se pensa na simples convivência familiar. 

A filosofia moderna é inaugurada com a subjetivação da verdade. O pensador entende que o fundamento primeiro da verdade só pode residir no sujeito que pensa. E desse jeito encontra um abismo enorme para sair de si e conseguir a verdade que pode ser compartilhada com o outro.

Qualquer pessoa que tentou se relacionar com alguém, e buscou cultivar este relacionamento para que durasse, sabe o quanto é impossível fazê-lo se pensarmos em verdades que apenas nascem do nosso sujeito. O exercício do respeito pela verdade do outro é constante. A surpresa que o outro nos desperta em não conseguirmos ter atingido sua verdade é diária. É só pensar no desafio de presentear alguém, e nas frustrações que isso pode provocar.  

Quando pensamos nos idealistas, que entendem ser a realidade o reflexo de nossos pensamentos, ou no psicologismo, que pensa algo semelhante, reduzindo a verdade a imagens mentais, outro exercício que enfraquece esta ideia é acompanhar o crescimento dos filhos. Quase nada segue o que traçamos. O amadurecimento deles, muitas vezes, é o contrário de fazer o que queremos, pois é ser eles e não nós. 

Se formos olhar as filosofias que enxergam mais as categorias ou as classes de pessoas em detrimento do indivíduo singular, dá para desconfiar que os autores delas raramente se apaixonaram ou amaram alguém a tal ponto que a vida daquela pessoa fosse invendável ou insubstituível. É o que move os pais a velarem os filhos doentes nas madrugadas de febre. 

Cientificismos e historicismos, de uma forma geral, querendo reduzir as ações humanas a equações que geram predições acertadas ignoram a atitude de sabedoria diária que a família nos convida para baixar a guarda de nossas certezas a fim de deixar o outro viver em nós de forma mais livre. Você mal sabe o que se esconde no próprio peito, como poderia se erguer a uma onisciência tal que abarcasse as possibilidades da vida de qualquer um?

Para fechar o elenco das principais filosofias, pensemos naquelas que pregam que todos devem buscar a felicidade em todos os momentos, tentando viver cada instante como se fosse o último, e como se ele pudesse ser repetido pela eternidade. É insustentável pelo própria ritmo da existência. 

A única forma de não devotarmos amor por qualquer coisa é sermos cercados pelo nada. Qualquer amor que nos conecte a algo fora de nós, cedo ou tarde, fecunda a consciência da perda inadiável, que é o sonho da morte que nos visita de vez em quando. Esses momentos são sombrios, gelados, opressivos. A saudade é uma filha adorável deles. A falta é a carrasca. De uma forma ou de outra, ainda que a ausência se faça, flertando com a sombra da morte, qualquer esperança de reencontro faz o amor reacender como se fosse a primeira vez. 

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Por que fazer a caridade em um mundo sem sentido?



Vamos começar pensando ao contrário do que uma página espírita pensaria. A vida não faz sentido, pois o futuro é incerto. Por que fazer, então, a caridade?

Se fosse aplicar o método da confusão hiperbólica utilizado por Descartes, eu não chegaria à conclusão de que existimos porque pensamos, mas que, simplesmente, não podemos ignorar a existência do outro. Ainda mais o outro que sofre. 

A semelhança entre nós seres humanos é uma realidade devastadora para a consciência. Ela se impõe com violência. É de tal forma penetrante que nem paramos para pensar nela. Está instalada em nossa consciência como que por presença. 

Às vezes queremos nos isolar, apenas para não ter que se deparar com o olhar do próximo, e ainda assim a sua ausência faz sombra. Pode ser que os astros não nos definam. E a astrologia caiu em desuso pela nossa descrença. Mas, nunca deixamos de nos importar com o que outro pensa ao nosso respeito. 

A primeira resposta desse sistema de alteridade é nos engolir. Nascemos nele. Seja nos rejeitando ou nos acolhendo, em um mundo estamos arremessados. O segundo movimento vem da gente: a busca da socialização. Investigamos os mil sinais que nos fazem queridos ou odiados, e as mil variantes do espectro dos gostos. O terceiro, poderia ser a revolta e o isolamento, depois de experienciar a agressividade do mundo. Esse é um movimento infeliz. O outro movimento, um alegre, ainda neste terceiro estágio, é a compaixão e a caridade. O mundo é agressivo - fato. Não apenas me agride, mas aos meus semelhantes. Ver o outro em sofrimento reflete a minha possibilidade de sofrer. A finitude do outro revela a minha, a lágrima ali faz lembrar que tenho a mesma brecha. Resposta ao mundo: caridade. 

Não seria, então, uma atitude de entrega, de abdicação, mas de pura defesa. Ainda seria uma atitude egoísta. E daí?! Seria o mais certo, no sentido de necessário a ser feito. Caridade em suas muitas facetas, não apenas a esmola. Não ceder a este impulso é não ter cuidado consigo mesmo, fechar os olhos para o desmoronamento do que me ladeia. 

Em um mundo sem sentido, o outro é a única rota de fuga. 

domingo, 4 de junho de 2017

As crises do casal na família moderna




Então foram abertos os olhos de ambos, 
e conheceram que estavam nus


É sabido que a família percorre fases. As transições sempre são críticas. Percebi que a nudez cai bem como modelo de compreensão das crises da família moderna. Aqui vai um esboço didático, obviamente sujeito às variações das singularidades. 

A primeira crise de um casal é quando se vêem nus no cotidiano. Logo após o casamento, liberto dos pais, entregues a sua forma de gerir a casa que compartilham, tem que acordar os papéis de cada um no sistema que se inicia. 

A segunda crise é quando vêm os filhos pequenos, e o casal se reconhece nu de conhecimento para criá-los, e, no começo, os pequenos tremem nus em frente do ambiente agressivo. 

A terceira crise é quando os adolescentes desnudam as imperfeições dos pais. Descobrem que eles não são aquela autoridade toda que se tinha em mente quando criança. E os próprios pais, caindo em si, nus, questionam-se sobre a própria autoridade. Revêem radicalmente a forma de serem pais para os filhos. 

A quarta crise é quando chega a hora de os filhos voarem definitivamente. Criarem seu próprios ninhos. O mercado de trabalho cobra a presença, mas por vezes não dá oportunidade. As paixões cobram amores, por vezes cobram demais. Estariam os filhos com roupa suficiente para enfrentar o frio lá fora? O mundo é enorme, maior do que a casa. Os pais estão despidos do poder de fazer curvar o mundo aos pés dos filhos.

A quinta crise é quando todos os filhos saem de casa, os pais voltam a ficar nus no cotidiano. Toda uma consciência do envelhecimento corporal de repente assoma-se ao indivíduo. São os mesmos corpos nus do começo da história, à época, gozando de uma jovem beleza imortal, mas agora revelados na própria historicidade, desnudos sob o lençol do tempo.  

A sexta crise é quando a vida de um dos dois se desnuda por completo. O Espírito se despe. Quando se conseguiu percorrer todas estas fases até aqui, é a saudade que imita, com a leveza porosa da velhice, aquela ansiedade que se tem enquanto o amor se despia à sua frente no quarto jovem. Ansiedade que prenuncia o desnudamento final de quem ficou. 

- Eu espero o momento em que minha roupa se gaste, enfim, para me entregar de novo a ti. - fala do lado de cá. 
- Eu aguardo ansiosamente o último botão ceder. - responde do lado de lá. 

É assim que, às vezes, a morte não os separa. 

terça-feira, 11 de abril de 2017

"Você partiu meu coração": uma análise espírita



O refrão dessa música muito me chamou a atenção. O eu lírico escreve um poema para anunciar seu amor quebrado, o que deveria lhe fazer amputado, sem vida, mas induz-nos a pensar que está ainda melhor porque agora haverá amoreS. 

A primeira contradição, a mais evidente, é que ele se dedica ao anúncio de sua empreitada dom-juanica*. Essa revelação possui um destinatário bem claro: seu amor antigo, e antes único. Por que simplesmente não segue adiante? Por que tem de voltar para anunciar sua boa vida?

A segunda contradição, mais sutil, é que ele, quebrado, entrega seu coração a várias. O que significa - essa é a maior mensagem de amor que uma amante poderia ouvir - que o coração dele, o inteiro!, não será mais de ninguém. 

A particularidade do amor de Dom Juan é exatamente esta: amando a todas, ainda que intenso, ganha-se em extensão o que perde em profundidade. O ser humano, esse ser de camadas, em suas relações, permite o mergulho nelas. Eu me aprofundo em você, você, em mim. A tentativa de um Espírito mergulhar na densidade de vários tende a dois destinos possíveis: 1. raspar o amor na fugacidade do tempo; 2. dissolver-se em muitos amores antes de ultrapassar a resistência de qualquer tesouro mais íntimo. 

Talvez os dom juans vão me contra-argumentar e dizer que é só "pegação". Não há muito o que filosofar. Pode ser para você, não para o eu lírico dessa canção. O clipe deixa ainda mais explícito seus gemidos de vontade de retorno quando ela dá algum "pedacim" de possibilidade. 

Vocês vão me perdoar a insistência, mas de fato, se ascendermos do particularismo terreno dessa experiência malograda, e elevarmos a metáfora do coração partido para um nível metafísico, o amor despedaçado, multipartido, busca o retorno à sua inteireza na vivência de uma amor único que dê sentido para sua unidade de novo. Ele é um peregrino entre amores pequenos, que lhe façam sombra, que lhe dêem abrigo. Mas, é peregrino. Sua busca é pelo Amor que o acolhe, enfim, em que possa se deitar para sempre. 

Se o para-sempre dos amores humanos está sujeito ao tédio e, portanto, ao pêndulo dos relacionamentos que vão e voltam, nada impede de intuirmos um amor maior que é procurado como modelo que concede sentidos e desejos para nossa alma sedenta. É esse modelo de amor que vem conduzindo os amantes de todos os tempos a quererem sempre e cada vez mais amar. Ele é o motivo das nossas descrições de paraíso, ao menos no universo cristão. 

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

O paradoxo cristão da sabedoria do amor



O cristianismo é uma doutrina da imortalidade da alma. Acreditar que a vida não finda aqui é não ter tanto apego à ela. O que poderia levar a crer que não deveríamos nos apegar às pessoas também. O que seria evitar amar. E há filósofo cristão que endosse isso, entre eles, Pascal:

"É injusto que se apeguem a mim, embora o façam com prazer e voluntariamente. Eu iludiria aquele em quem eu despertasse desejo, pois não sou o fim de ninguém e não tenho com o que satisfazê-los. Não estou eu pronto a morrer? E assim, o objeto do apego dessas pessoas morrerá". (Pensamentos)

Mas, eis o que é tudo: apegar-se ao que morre. Todavia, apegar-se ao que é imortal é doutrina do Cristo em essência. Isso é o amor que ele pregou. Um ser divino que desce das suas alturas a fim de dar sua vida para a iluminação de todos e cada pessoa em particular, espalhando milagres e bênçãos  o que seria isso senão um amor apegado? 

A grande diferença é essa: apegar-se ao que não morre. Quando Jesus salvava uma pessoa, seja cobrindo-a com um milagre ou com uma palavra que abrisse o caminho dela para sempre, não estava ali por aquele corpo corruptível que vaga pela terra, por uma massa de células bestiais que em breve se humilharia de volta ao pó. Ele veio por estes Espíritos imortais, em busca de reconduzi-los ao Pai. O corpo ao pó, a alma, ao Pai. 

Acho que já disse isso outra vez, não custa repetir. A história da bíblia é uma história antropocêntrica. E isso não é um defeito. Ela é a história de Deus em busca de salvar o homem. Não gira em torno de Deus. Que espécie de relação é essa entre Deus e o homem senão a de um pai que nutre um amor apegado por essa espécie frágil da criação? Se olharmos a coisa com a visão da unicidade da existência, não parece assim como falei. Mas, se enxergarmos que todos os Espíritos personagens dessa história são almas reencarnantes, fica claro que são educandos transmigrando em infinitas oportunidades de redenção. Deus não desiste de nós. 

Por que eu digo que isso é um paradoxo? Ora, não percebe que são forças contrárias esgarçando nosso coração? O amor de Cristo que devemos ter como modelo é um que ama tanto a pessoa a ponto de a querer muito. Mas, ao mesmo tempo, é um amor que a reconhece um ser transcendente. Devemos amá-la com devoção, mas sabendo que ela nos escapa a todo instante. É para dedicar a vida à ela, mas preparar nossa alma para a morte. O que acontece ao final é a reconciliação do paradoxo. As almas se reencontram em um final feliz, mas isso se dá apenas ao seio do Pai. E daqui para lá é chão!

domingo, 13 de novembro de 2016

Ágape: o amor sublimado



Falar sobre ágape é dos mais difíceis temas que se pode falar, porque ele não nos pertence, não de forma fácil. Os imperativos cristãos de amar talvez sejam o que melhor apontam para o ágape. Tão distante de nós que precisa alguém nos mandar (imperativo) vivê-lo. Contudo, de fato ele existe como possibilidade do nosso peito. 


Comecemos por Deus 


Parto do absoluto para depois relativizá-lo. A melhor forma de pensar a ideia de ágape é a da criação do homem segundo a concepção judaico-cristã. Deus era tudo, porque precisava criar algo? Não precisava, mas criou. Primeiro ponto: ágape é um tipo de amor que ama sem motivo, sem necessidade. 

Deus cria do nada (ex nihilo). Sua palavra gera o universo, e o homem no centro dele. Importa lembrarmos que o homem, na tradição judaico-cristão, é a criatura a que Deus reservou o destino de viver conSigo. É o Grande Pai cuidando do filho: lhe concede terras, animais e até uma bela esposa. A visão do Gênese é de uma comunidade patriarcal, claro, mas depois entendemos que o destino de estar ao lado de Deus é para todos, homem e mulher. Então, Deus cria do nada. Segundo ponto tirado da palavra nada: ágape é um tipo de amor incondicional. Não há algo anterior ou um interesse prévio que justifique amar o outro. Terceiro ponto tirado da palavra criar: não é preciso mesmo que o outro exista para ser amado, ágape é um amor que concede existência ao outro. Se Deus era o único existente, e criar o homem foi um ato de amor, ágape é um amor que gera (concede existência) amando. 

Há uma visão judaica da criação de Deus que nos dá uma pista ainda mais preciosa sobre o ágape. Chama-se Tzin-tzum. Chama-nos a atenção que o Tudo não pode criar mais qualquer coisa, pois já é tudo. Portanto, para Deus (o Tudo) criar algo teve de se esvaziar (nadificar-se) um pouco para dar lugar à criação. Quarto ponto: ágape é um tipo de amor que está aberto ao sacrifício de si. O que vemos na tragédia de Jesus, o homem-Deus que desceu à Terra para dar sua vida para a redenção do homem adâmico, é a materialização do tzin-tzum. 


O que tudo isso tem a ver com nossa forma de amar?


Vamos para a relativização do absoluto, ou melhor, a secularização dele. Como podemos enxergar ágape entre nós?

Primeiro ponto: amar sem motivo. Eros tem motivo para amar, embora muitas vezes pareça imotivadamente visceral. Ou é a forma, ou o cheiro, ou o jeito, o andar, o sorriso, algo que afeta os sentidos. Amar sem motivo é algo gratuito. No nosso cotidiano pode aparecer a posteriori: amar o companheiro quando já não temos mais motivo para amá-lo. Amava-o porque era jovem, mas envelheceu; porque era forte, mas enfraqueceu; porque era sadio, mas adoeceu; porque era rico, mas empobreceu; porque era belo, mas tornou-se feio. E, provavelmente, o amor mais difícil: porque era amável, mas tornou-se um bruto. 

Segundo ponto: amor incondicional. Dialoga com o primeiro ponto. É a extensão do amor gratuito. Poderíamos nos ver dizendo: "Amo-o contanto que ele cuide de mim ou dos meus filhos". Dizer simplesmente "Amo-o" é o que esse segundo ponto nos convida a fazer. Veja este exemplo de minha vida. Quando meu primeiro filho nasceu, papai estava morto já iam cinco anos. Desejei por um minuto que o pequeno fosse papai de volta à carne. Minha esposa me chamou a atenção: "Você não pode colocar esse peso sobre ele. Deve amá-lo pelo que é agora, não pelo o que possa ter sido." Vê? "Amo-o contanto que seja meu pai". Não. "Amo-o". 

Terceiro ponto: amor que concede existência ao outro. Acontece quando amamos mesmo sem retorno, mesmo que no outro não haja possibilidade aparente de amar de volta. Quando o companheiro se acidenta e entra em demência grave. Quando, perde a sanidade mental e o olhar perde o brilho. Mas também, e talvez é a forma mais fácil de ver este amor, quando se ama o filho recém-nascido que pode morrer amanhã sem ter chegado na idade de demonstrar seu amor. 

Quarto ponto: o amor que está aberto ao sacrifício. Dialoga com o terceiro ponto, mas esclarece a natureza de amar um outro que não nos ama: é sacrifício. Todas as situações que citei são vivências dolorosas, caminho de espinhos, crucificação. O desafio está em conseguir viver esse amor sem perder a alegria. Cair na tristeza e na desesperança é o mais fácil, o mais lógico. Aliás, não amar dessa forma que expus aqui é o mais natural, o mais humano. Esse amor é de Deus, por isso comecei falando Dele. Todavia, é o desafio que Jesus nos propôs já vão dois milênios, assumindo a condição de sermos filhotes de Deus. 

No post anterior, eu disse que esse é um tipo de amor que pode salvar os outros dois quando tudo parecer perdido. Quando se vê que o outro está impossibilitado de dar algo de volta (quebra do eros), quando se vê que o outro te traiu (quebra da filia), ágape surge como possibilidade de o amor ainda dar certo. Para isso, ágape pede paciência, resignação, concede força, perseverança. 

Sobre o tempo dele. Lembram? Eros era instante que se dilatava. Filia, tempo que se contraía. Ágape vive na dimensão do eterno (o tempo anulado). É o tempo que Deus espera pelo nosso amor. 

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

O poder da amizade



Havia falado sobre eros, da última vez. Atenho-me agora sobre filia (amizade), que é considerado por alguns que pensam sobre o amor como sendo o desenvolvimento de eros. Pelo menos para quem gostaria de escapar da realidade movediça deste e experienciar algo mais fiel. 

Vamos começar falando sobre amizade. Certa feita um grande amigo meu encontrou uma jovem em uma viagem que estávamos fazendo. Ele disse que sentiu algo fantástico no diálogo com ela: o silêncio também era prazeroso. Ele não começou nenhum affaire. Entendeu que ali nascia uma grande amizade.

A amizade tem essa face do prazer no silêncio e da perpetuação da relação mesmo na ausência. Com esse mesmo amigo de que lhes falei ocorreu o seguinte: passamos, certa feita, meses sem nos falar (silêncio e ausência), quando nos encontramos conversamos como se a conversa houvesse terminado ontem, e prosseguiu por horas. Mesmo ausente nos fazíamos presentes um ao outro em nós. 

Cada amor tem o poder de mexer com o tempo, cada qual ao seu modo. No eros, os minutos parecem horas. Na filia, as horas parecem minutos. No ágape, veremos ainda...

Mas, desde já conseguimos perceber como filia pode salvar eros da sua fugacidade, coroando-o. Algumas amizades parecem não poder se misturar com o sexo, sob pena de se desencantarem. Todavia, nenhum casamento dura se os esposos não se tornarem amigos. O cotidiano, e os desafios da vida à dois, que tornaria o eros solitário estéril é o meio propício para o desenvolvimento da filia. Lá era um perdendo-se no outro, aqui são os dois encontrando a potência de cada um para, juntos, mover a vida. É o que venho experimentando com minha esposa com o novo filho nas noites de amamentação. Ela amamenta, eu coloco para arrotar e troco a fralda. Ela coloca o menor para dormir, eu, o maior. As noites que geraram os meninos na entrega de duas pessoas uma para outra testemunham o cuidado com os meninos na entrega de nós dois para eles. 

- Mas, isso é a morte do eros! - diria alguns. 

Não precisa ser. Devemos lembrar do caráter ígneo dele e fazer com que o encantamento e a surpresa quebre a rotina de vez em quando. De fato, os filhos e o sustento não permitem a consumação do prazer de eros a cada instante. 

De todo modo, esse é o maior desafio lembrado pelo amante: "nunca mais tivemos tempo um para o outro". Um velho adágio francês nos diz: "Não se pode ter a mulher bêbada e o tonel cheio". Conciliar os amores não é um desafio para o qual tenhamos a resposta final. 

O motivo pelo qual vários casamentos estão terminando é a superioridade da falta que eros provoca sobre o prazer doce de viver a amizade amorosa. 

No próximo post, falo sobre um amor bem diferente destes dois, mas que, creio, abre o homem e a mulher para uma dimensão que nos resgata quando imaginamos estar tudo perdido. 

domingo, 6 de novembro de 2016

No princípio era o Eros



Certa feita um amigo pediu que eu lhe indicasse um livro que falasse sobre o Amor. Lembrei-me do "Pesquisa sobre o Amor" de José Herculano Pires, que deixou para escrever algo exclusivamente sobre isso ao final da vida, para lhe conferir autoridade. Contudo, penso que não precisamos ir até o final da vida para pensar sobre. Vou começar a fazê-lo a partir de agora. 

Parto do debate grego sobre o assunto e divido didaticamente essa primeira tentativa explicativa em três partes: eros, filia e ágape. Neste, falarei sobre eros. 

Muito embora Platão tenha feito residir eros no desejo, que é o amor do que falta, vou falar também sobre o gozo, que é o amor do que flui. Daí terei de falar de sexo, e o conteúdo pode ser que fique impróprio para alguns. Se há três coisas que não se consegue olhar diretamente sem se ofuscar é o sol, a morte e o sexo. 

Falo do eros primeiro porque de fato ele é primordial, ao menos em nossa existência. Que tenhamos sido criados pelo ágape de Deus, não exclui que tenhamos nos desenvolvido e nos multiplicado via eros. 

Vamos começar pelo seu aspecto negativo: o da falta. Sentimos falta da pessoa que desejamos. O sexo nos coloca em um gozo tamanho que a ausência dele traz lembranças e vontades de retorno. É a lógica do prazer. Ela pendula do gozo à falta. A perpetuidade não é da sua natureza. Nenhum gozo é eterno, torna-se tédio. Depois do orgasmo, seja único ou múltiplo, o corpo pede repouso para em breve sentir falta. Esvaziar-se do prazer é a condição para sentir prazer de novo, uma outra vez. 

Eros também está atrelado às formas, ao belo que se esculpe na matéria. Podemos desejar o feio? Sim, quando o Espírito consegue esculpir (por um esforço da razão, por uma sublimação do coração ou por um milagre de confluências) o desejável na forma que parece desprezível. Outro diria que é uma questão de gosto e subjetividade. Deixemos essa polêmica de lado, por hora. 

Na nossa adolescência, sensíveis demais para enxergar qualquer essência, apaixonamo-nos pelas formas dos outros a acariciar nossos sentidos. Considerando forma como oposto à essência, não excluo aqui o cheiro e o jeito de o corpo estar no espaço e nele se mover: o rebolado da mulata, a ginga do malandro, a pose do sedutor, a coluna ereta do fisiculturista.

Muito embora o eros seja movente, o que o deixa um insatisfeito incorrigível, não podemos ignorar a grandeza do gozo. O bom sexo tem a condição de querer presença. Não conheço aquele que consiga um bom sexo pensando no que poderia ter sido ou no que poderá acontecer: frustração de um lado, ansiedade de outro. Eros requer entrega, baixar a guarda, respirar o instante e o parceiro. Desnudo o eu para se misturar no outro. Meu fluido no seu, e o inverso. Fluímo-nos uns nos outros, como que derretidos. 

Falei ao início que eros é primordial, sim, e nos devolve à nossa realidade primeira: de não sermos mais indivíduos, mas tudo. Defesas expostas, naquele recanto, sob quaisquer lençóis ou sem eles, eis a verdade selvagem do que somos. 

Há mesmo uma violência nessa fruição. Pode descambar em agressão. A civilidade pede que não o seja, mas desde que inventamos a intimidade, o controle do que ocorre entre quatro paredes só vira caso de polícia mediante a denúncia, e ainda assim se houver alguém que se reconheça vítima. De todo modo, há uma violência no ato sexual, como o há no encontro do rio com o mar, na perfuração da terra pelo broto, no flagelo que o mar faz nas pedras, no sulco que o corpo d'água escava na terra ao se deitar nela, e a terra embebida de rio, as placas tectônicas gerando maremoto em um beijo. O intercurso sexual sangra, provoca fissuras, e a dor por ele provocada, só não se fala dela, porque o prazer a encobre. 

O desafio que o casamento e a fidelidade impõem ao eros é como manter o desejo aceso, já que sua natureza é ígnea, portanto, instável? Como não perder o prazer e ainda amar duradouramente? É o que filia ajudará a responder. 

domingo, 13 de dezembro de 2015

Microcefalia segundo o espiritismo (parte 4 - outros diálogos)



1. Um leitor amigo dialoga sobre a teoria da reencarnação como um fenômeno coletivo

LEITOR: Uma coisa interessante que teve nesse teu texto e que considero um aprendizado novo pra mim é o reflexo das ações humanas como sociedade mais do que como pequeno núcleo. Sempre pensava em encarnação como evolução individual e ajudar na evolução dos próximos, mas é interessante pensar que Espíritos também podem reencarnar "em resposta" a um contexto mais global. Não sei se entendi direito essa parte. Tem alguma coisa muito errada com a interpretação?

EU: É isso mesmo! Tá certo! Uma malha muito fina conecta global e individual. Se os governantes entendessem que a geração futura que eles devem proteger são eles mesmos (todos os que eles amam e toda a nação que eles governam) reencarnados, acho que teria um pouco mais de esforço.

LEITOR: Fiquei em dúvida em uma parte do seu texto. Tô relendo aqui e lembrei de perguntar. Você fala que Espíritos carregados de escolhas ruins tem seu perispírito afetado e que isso afeta a formação do corpo físico. Um parágrafo depois, tu fala que grandes almas "escolhem" corpos frágeis. Não é confuso?

EU: São dois caminhos possíveis para que tenhamos em mente que aquele ser pode ser algum endividado ou uma grande alma. Não tem como saber. Quando é uma grande alma, ela escolhe moldar seu corpo com limitações. É uma liberdade. Quando é um ser endividado, ele não tem escolha, ele não tem elementos para fazer uma embriogênese melhor do que aquela. Por que um Dalai Lama escolheria vir em um corpo débil? Para crescer com o exercício que todos aqueles obstáculos tem a lhe proporcionar. Seria uma encarnação de grande meditação rumo a uma iluminação sem precedentes!

LEITOR: Entendi. A gente já tinha conversado sobre isso. Sobre essa opção por corpos mais frágeis.

EU: Às vezes você percebe isso assim: a grande alma é um bebê tranquilo com tudo apesar das malformações. O indivíduo que está preso nas próprias limitações se revolta demais.

LEITOR: É que ficou um pouco confuso no texto. E no fim tu terminou só com o lado de "castigo". Sei lá...

EU: Porque as grandes almas são as que nos acolhem. Acabamos sentindo-nos muito bem ao lado delas. As mensagens de força são importantes para aqueles que receberão as que estão em situação de "castigo". Mas vou tentar melhorar lá. Valeu pelas considerações!

* Em vez de tentar melhorar no texto original, decidi expor esse diálogo elucidativo para que vocês tirem suas próprias conclusões. 


2. Uma leitora amiga me questiona uma hora como médico, outra como espírita e pai

LEITORA compartilha um áudio de pediatras espelhando mensagens sobre a possível ligação entre a doença do Zica e a agressão ao sistema neurológico de crianças na primeira infância. 

Após procurar artigos e conversar com infectologistas amigos, respondo:

- Não se pode afirmar nada ainda sobre isso, pois não há coorte de pacientes acometidos para se estabelecer uma inferência causal forte o suficiente.

A LEITORA insiste e muda a perspectiva da pergunta: 


- Agora faço uma pergunta para o pai Allan: ainda que nāo se possa estabelecer uma inferência causal forte o suficiente, essa hipótese te faz modificar a conduta de cuidados com teu filhinho? Essa possibilidade te amedronta? 

Resposta do Allan pai e espírita:
- Me amedronta. Estou mais perto dele e amando-o mais. Para que nestes momentos em que ele não foi acomeitdo por essa onda fique bem forte nele gravado o quanto nós o amamos. Para que seja importante para ele enfrentar o que pode vir por aí em sua jornada encarnatória! Temos que ter mais do que nunca em mente que o mundo tem rédeas e estão mas mãos de Jesus.

sábado, 5 de dezembro de 2015

Microcefalia segundo o espiritismo (parte 3 - mensagem de consolo)



“O que dizer para uma mãe que descobre que seu filho tem microcefalia e se pergunta o porquê de tudo isso?”


Antes de tudo, importa esclarecer para qual mãe eu diria o que diria. Uma mãe que se pergunta pode procurar as respostas em muitos lugares... Então, de princípio, eu jamais me dirigiria a uma ou várias mães para falar do Espiritismo a menos que elas se mostrassem dispostas a tal; seria uma ofensa, num momento de fragilidade, despejar crenças estranhas a elas. Portanto, apenas diria qualquer coisa diretamente ligada ao Espiritismo caso fosse uma vontade da mãe conhecer mais sobre o assunto, por respeito a ela e sua dor. Com um último adendo: incluo o pai também. Resquícios infelizes ainda nos prendem a uma responsabilidade diminuída do sexo masculino, a qual acho importante refutar e recolocar. O pai responsável ama e sofre como a mãe; junto com ela.

Nesse caso, antes de tudo eu lembraria Deus. Traço comum das religiões, a simples lembrança que temos um Pai amoroso que nunca se descuida de nós tem potencial altamente consolador. A certeza de que alguém olha por nós, velando por todos os nossos passos e cuidando de nossas dores mais ocultas oferece a promessa de uma tranquilidade segura. Não esquecer nem se distanciar de Deus é o primeiro passo.

Contudo, alguém que procura o Espiritismo sabe que isso não basta... Sua alma anseia por mais. Por uma fé com embasamento. Por que eu? Por que meu filho? A Justiça Divina, para ser efetiva, precisa abarcar mais que essa vida. Logo, recorremos a reencarnação. A ciência de que vivemos inúmeras vezes, colhendo e plantando, sucessivamente, abre caminho para novas reflexões. Não sabemos exatamente a razão, mas entendemos os mecanismos.

Mas ainda não é o suficiente saber da sucessão das vidas. Milênios da Lei de Talião impregnados em nossas sociedades dirigem imediatamente o pensamento à culpa do erro castigado. Sinônimo de punição? Não. Não é o que consolará uma mãe, um pai. Será necessário participa-los da grandeza Divina. Deus não é mero punidor, que nos faz “pagar” os erros em moeda de sofrimento. Reencarnação, provas e expiações são apenas os meios de um fim: o aprendizado, o alcance da perfeição, o conhecimento de si mesmo e a ação regida pelas Leis Naturais. Sob esse novo panorama, não sabemos se punição, se consequência, se missão; sabemos apenas que, seja o que tenha sido, o véu nos foi estendido para que nos concentremos no que há a fazer, em vez de estarmos atados improdutivamente ao que foi. É a melhor oportunidade que nos cabe, oferecida segundo a misericórdia do Pai. Novo recomeço. Chance renovada de se fazer melhor que o ontem. Redenção pelo amor. Eis a tarefa.

E... o que fazer, de fato, de posse desse novo olhar? Amar. As dificuldades que se apresentarem, que oferecerem resistência à ideia do amor são exatamente o que deve ser combatido em nós mesmos. Como todo véu, sob a luz adequada é possível ver vultos por trás do ocultamento; cada mancha que se revele contra a luz é sinal de luta passada ainda por vencer. Orgulho, vergonha da sociedade, medo de falhar, dificuldades materiais... Tudo aponta para o que já fomos e o que precisamos vir a ser.

Conscientes da verdade de que o Senhor da Vida olha por nós, que não nos desampara, que oferece a redenção pela justiça através das melhores oportunidades, segundo a nossa semeadura, o caminho está traçado. Não poupará levianamente das dores nem das lutas. Mas provará, diariamente, que o alcance da felicidade só depende de nós. Na perseverança por agir no bem e na sabedoria do olhar consciente que lançamos à nossa própria condição. Munidos da fé raciocinada, da esperança no futuro e tendo a caridade como força motriz, inevitavelmente venceremos, em paz.

Por Erick Machado

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Microcefalia segundo o espiritismo



O momento para o Brasil é de pesar. Um surto de malformações fetais onde se predomina a microcefalia desespera a população e, para piorar a história, o Nordeste é vítima da maior parte dos casos, superpondo esse sofrimento ao da seca. As notícias sobre os agravos aumentam e vazam com a leviandade dos boatos. 

Venho aqui para tentar pensar qual o motivo dessa tragédia entre nós. Vou elencar algumas correntes de pensamento espírita que provavelmente fundamentarão explicações daqui em diante nos relatos mediúnicos, esperando que algum me surpreenda e fortaleça-nos ainda mais.


A tese das expiações evolutivas ou das dores do parto 


Um surto que acomete populações inteiras pode ter relação com uma leva de Espíritos reencarnantes, cujo tempo para a progressão moral se finda no avançar da hora da maturação do planeta. A humanidade, nestes últimos séculos, se ressente das dores de um parto que custa a acabar, cujos momentos de seu curso se refletem na eclosão de violências, no escancaramento de vícios e corrupções, e, agora, na materialização de meios propícios para a vivência de dores de resgate e aprendizado.

Parteja-se aqui um mundo melhor, entregue em breve às luzes de um descanso de regeneração para o corpo social sofrido. 


Sobre o caráter dos Espíritos envolvidos


Quando carregados de escolhas ruins, estas fragilizam seu perispírito, órgão espiritual que plasma o corpo físico, fazendo com que as malformações emerjam. As limitações extremas do corpo conduzem o Espírito a um aprendizado de seus movimentos interiores, de suas emoções, e mesmo os pais e familiares passam a ler as lições trazidas pelas próprias vulnerabilidades. 

Acontece de grandes almas escolherem reencarnar em um corpo débil. Almejam mais iluminação ao sofrerem com as ilusões da dor. Pensam também em se engajarem em contexto de aprendizado para os pais, sendo instrumentos para tanto. 

Ocorre de igual modo que pais abnegados tenham escolhido receber Espíritos em situação de resgate expiatório, e, assim, acolhem aquele sofrimento com devotamento ímpar.


Sobre a "culpa" da natureza 


O Espiritismo tenta mostrar que a natureza não é nossa inimiga. Uma superficial visão ecológica nos faria entender que os ciclos de vida e morte são inevitáveis, que as doenças são caminhos possíveis. A imortalidade da alma nos deixa estagiários destes processos. 

É verdade, porém, que viemos, com nossa tecnologia, alargando vários limites da natureza. Algumas dessas nossas tentativas descambam em não menos naturais desequilíbrios que nos convidam a empreender melhores respostas. 

Não se defende o crescimento zero, mas o crescimento bem guiado pela inteligência e pela ética a fim de tornar o desenvolvimento o mais democrático possível. Somos destinados a fazer imperar o cosmos sobre o caos, mas nunca em benefício de uma oligarquia olímpica. As tentativas que se direcionam para o privilégio são corrupções da nossa missão e sempre tendem a desandar. 

De outro modo, assim como em pequena escala o Espírito é responsável pelo origami do corpo, em larga escala, nossas ações como humanidade se refletem em tudo que nos é considerado meio de existência. Está perfeitamente conforme à cosmovisão espírita pensar que as catástrofes naturais possam refletir o estado de espírito dos homens e mulheres, formando bolsões de miasmas que se precipitam sobre nós o que, aos tempos do Egito antigo, foram considerados como pragas, e que, todavia, tinha menos a ver com a ação direta de Deus do que com a repercussão dos nossos atos sobre o mundo. 


A missão do Brasil


Certa corrente do pensamento espírita imagina ser o Brasil um grande acolhedor das práticas do Evangelho. E, como ele tivesse sido destinado por Jesus para acolher os aflitos do mundo, é provável que alguém nos fale que os Espíritos envolvidos em crimes de outras nações estejam sendo destinados para compor nossas novas crianças cujos corpos débeis servem de poderoso cadinho para as transformações viscerais do espírito imortal. 

O que todas essas teses apontam é que não devemos vestir a túnica dos coitados do mundo, que o desespero deve ser convertido em trabalho, que o amor pelo próximo e o acolhimento dos debilitados deve ser, mais do que nunca, a tônica de nossos corações. 


Leia também:

* O comentário que faço à contribuição de leitores desse assunto: link
** Uma mensagem de consolação escrita por um leitor endereçada à família vivendo com  a situação da microcefalia: link
*** Outros diálogos que andei tendo com leitores deste blog: link


sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Injúrias e Violências



Palestra concedida à Sociedade Espírita Irmãos do Caminho que coincidiu com a escandalização mundial dos atentados sobre a França, nos fazendo lembrar que ainda hoje o mundo está em contínua guerra. 

Queria analisar a questão da violência do homem. Problematizei mostrando que, neste mundo, a forma como somos recebidos é eivada de violência. É violenta a natureza que nos circunda, e a dor parece uma constante. Fiz semelhante à Léon Denis quando principia a filosofar sobre o assunto em sua obra magna:


"O animal está sujeito à luta ardente pela vida. Entre as ervas do prado, as folhas e a ramaria dos bosques, nos ares, no seio das águas, por toda parte desenrolam-se dramas ignorados. Em nossas cidades prossegue sem cessar a hecatombe de pobres animais inofensivos, sacrificados às nossas necessidades ou entregues nos laboratórios ao suplício da vivisseção. Quanto à humanidade, sua história não é mais que um longo martirológio. Através dos tempos, por cima dos séculos, rola a triste melopéia dos sofrimentos humanos; o lamento dos desgraçados sobe com uma intensidade dilacerante, que tem a regularidade de uma vaga." (Léon Denis em O problema do Ser, do Destino e da Dor)

Parece dar razão à mitologia hebraica da queda do Paraíso. Se bem que não lembramos de que paraíso caímos, já que a infância abastada parece mais um esquecimento de que muitos sofrem, e adultícia completamente feliz é o ignorar que os outros penam. Ilustrei que foi nesse terreno de um planeta doloroso que Jesus veio nascer sob as mesmas condições e morrer em piores.

Evoquei, então, algumas escolas que quiseram explicar a violência do homem: 1. certa corrente da psicanálise que diz ser a violência não só um elemento inato, mas uma constante, que quando não pende para o homicídio o faz para o suicídio, nas várias formas, as mais chocantes ou as mais sutis. 2. certo discurso das ciências humanas, Foucault na vanguarda, quando fala sobre o encarceramento que a idade moderna (a que se diz "da razão") provoca sobre o que ela considera os anormais. 

Sugeri que não é uma exclusividade dos modernos, mas desde muito tempo na Terra, mostram algumas pesquisas paleontológicas, viemos devorando uns aos outros, não aprendendo a conviver com o diferente. Aponto, então, como tese principal que o problema nem é o homem ser destinado à violência nem a razão ser propícia à exclusão, mas que nossa liberdade nos conduziu mal a enxergar no outro algo que é radicalmente diferente de nós. 

Lembrei, então, dos budistas, cuja forma de ver o mundo animal, como um possível de reencarnação, os faz ver tudo com compaixão. Eles fazem caminhos para que as formigas passem e tratam o cachorro como um irmão! Não é mérito deles exclusivamente. Antes mesmo de o Ocidente conhecê-los, Francisco de Assis conversava com os pássaros, a Lua, o Sol, seus irmãos. Os grandes místicos sempre viram em tudo uma grande unidade, e o eu radicalmente diferente do outro como uma ilusão. 

Minha tese principal, enfim, é que não enxergarmo-nos como semelhantes, filhos de um mesmo Pai, é o que nos conduz para o desespero de defender o eu, o meu, os meus. E a violência começa desde o momento em que me nego em enxergar na fala do outro um possível de verdade. Ter certeza demais do meu ponto de vista é o que ajuda a colocar um ponto final em várias vidas de outros. E mesmo que a razão nos ajude a compreender a verdade do que falo, é o amor, como insistia Jesus de Nazaré, que permitirá a prática dessa paz.


A palestra está disponível temporariamente neste link:

Eis os tópicos norteadores da palestra:

sábado, 17 de outubro de 2015

O amor nos é natural?


Welson Barbado, psicólogo e psicanalista, nos diz que a psicanálise considera o ódio e não o amor o sentimento primordial no homem. O que o espiritismo diz sobre este assunto?

A argumentação de Barbado é que o amor não nos é natural. O ódio não se instala no ser, mas se manifesta quando não está reprimido. O amor seria uma criação de fora que em nós é introjetado. Somos convencidos a amar. Isso contraria o pensamento religioso predominante. 

O Espiritismo não considera o amor estrito senso como nos sendo natural, mas tão pouco o ódio. Não natural no sentido de ser um dom, algo já dado em nós. O que seria primordial em nós seria o egoísmo. Nascemos simples e ignorantes. As primeiras fases de nossa existência é em busca da sedimentação de nosso eu, portanto, vivemos em um egocentrismo que nos é muito útil nesses tempos primeiros, mas que se torna um fardo quando já estamos aptos a nos transcender em uma relação em que o outro deve ser também dignificado. 

Nessa relação que pressiona a nos transcender, o amor é o grande aprendizado. De fato, partimos do egoísmo para o amor. Saber dessa cosmologia ajuda a nos abdicar da concepção de pecado e culpa presente no discurso religioso da queda. Não saímos de qualquer paraíso. Não voltaremos para paraíso qualquer. Por isso que, a rigor, na filosofia espírita, é falho o conceito de reforma íntima. Não se reforma o que não está deformado. Estamos em formação constante, é completamente diferente. 

sábado, 1 de agosto de 2015

Naruto e o Espiritismo: Sobre as ovelhas negras



Bem que me alertaram para não demonizar tanto assim o Gaara.

Esse menino, inimigo quase de todos, que tinha como lema "amar apenas a si mesmo" e "preciso matar para me sentir vivo", ao final de uma grande batalha contra Naruto, revela que assumiu aquele comportamento destrutivo, reagindo ao seu próprio povo que o queria destruir. Assim como Naruto, ele escondia dentro de si um demônio que, nas situações de perigo, o protegia para lhe manter vivo, seu hospedeiro.

Abstração feita de todo o contexto de lutas sangrentas, bem no estilo das histórias de samurai, podemos ver o mesmo desfecho de todos os grandes casos de pessoas na nossa família que demos para chamar de obsediados em Gaara. A sua história era marcada pela perseguição daqueles que queriam vê-lo extinto da existência, por considerá-lo perigoso. O amor que poderia curar a sua ferida no coração nunca lhe foi endereçado por mais ninguém depois da morte de sua mãe.

Gaara era mau? Não foi essa a questão que dominou Naruto ao se deparar na batalha final com ele. Mas sim, eu poderia ter virado Gaara se não tivesse tido amigos que se sacrificaram por mim em vez de quererem me sacrificar? Foi assim que Naruto encontrou mais força na motivação do amor que Gaara conseguiu encontrar na do ódio. 

Pode prestar atenção: em qualquer romance espírita, a solução não é a punição do mal, mas a conversão de nosso olhar em compreensão de todo o mal que se passou, bem como o acolhimento dele dentro de nós. O amor cobre a multidão de pecados. 

sábado, 20 de junho de 2015

O Amor precede a Existência



Sartre disse que o cristianismo diz: "A essência precede a existência". Fundando sua teoria de liberdade, Sartre replica: "Não. A existência precede a essência." Sem imaginar que pudesse estar me inscrevendo nessa disputa, eu disse: "O amor precede a existência". E o que essas coisas verdadeiramente significam?

A primeira nos fala que quando Deus nos criou, semeou-nos um propósito no coração. Para a consecução dessa vontade heterônima nossa existência é guiada. A segunda quer nos libertar desse fado e proclama que a nossa essência será aquilo que fizermos existir em nós, ou ainda, a forma como nossa vontade moldará nossa existência, e não estes mandamentos externos que vivem a nos ditar. 

Veja, essas duas frases geralmente tomam a perspectiva do sujeito que está em jogo, a primeira pessoa, o eu. Uma filosofia construída sobre as palavras francesas: je e moi. Para libertar o je, Sartre quer que tomemos consciência do quanto os outros - este inferno - nos fazem ser moi. Quando a sociedade, por exemplo, nos faz dizer: Eu (je) sou médico (moi). Então, é um filosofia de adolescente. Um sujeito que peleja para se construir em meio a uma sociedade que não lhe enxerga autônomo. 

Quando eu disse: "o amor precede a existência". Essa é um filosofia que fala sobre o outro, como o outro se encaixa no meu mundo. Não é a minha representação do outro na consciência, mas a radicalidade de sua diferença em mim. É o que faria com que eu saísse da prisão cartesiana do "je pense, (donc) je suis" [Eu penso, (logo) eu existo]. 

Apenas posso considerar existente aquilo que percebo no meu pensamento? Os idealistas foram longe demais e quiseram nos convencer, então, que tudo fora de nós são ideias nossas exteriorizadas. Mas, não. A experiência do amor nos faz explodir esse ensimesmamento. Os namorados sabem o quanto custa fazer durar uma relação. A todo instante colidimos com o que o outro espera de nós, e ele, com o que nós esperamos. E, para surpresa de ambos, vivemos a nos estranhar: somos radicalmente diferentes. Escapamos constantemente da ideia, da representação do outro. 

Então, quando digo "o amor precede a existência" não quero dizer que, como um deus, o meu sentimento cria a pessoa, senão que, como um ser humano, eu permito que ela aconteça em mim. Acontecer é um verbo da língua portuguesa magnífico. As pessoas o utilizam muito mal. Algo só acontece verdadeiramente se ninguém esperava que acontecesse. "Haverá uma morte..." é completamente diferente de "Acontecerá uma morte...". A primeira frase se enche de certeza, a segunda, de mistério. 

O mistério pelo o qual o outro acontece em mim, passando a existir de fato, só é possível quando eu abro as portas para ele, amorosamente. Acontece de o amor ser um acontecimento. Isso não exime de nós a responsabilidade de a partir de seu fiat lux ele ser uma construção da casa em que agora habitamos, juntos - existência.