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sábado, 20 de janeiro de 2018

Psiquiatria e Espiritismo



Fui convidado para falar sobre esse tema. Decidi partir das minhas experiências pessoais de encontro com a psiquiatria. 

Antes disso é preciso deixar explícito o que acho que devemos ter em mente ao tentar o diálogo com estes assuntos. 


  1.  Não julgar; 
  2.  Amparar sempre;
  3.  Não querer ser o salvador das pessoas; 
  4.  Respeitar o momento de cura de cada um; 
  5.  Os remédios são importantes, mas não suficientes; 
  6.  A cultura influencia, mas não devemos culpá-la de todo; 
  7.  Somos seres imortais e responsáveis pelos nossos movimentos de cura e adoecimento
  8.  Uma vida não basta para pensarmos sobre estas questões;
  9.  Jesus está bem ali para o milagre, mas espera nosso despertar.

Dito isto, minha fala se constrói em torno de três momentos, que são minhas próprias aproximações com os transtornos psíquicos. 

No primeiro narro as imagens que guardo de certo homem com retardo mental motivo de chacota e insultos das crianças da cidade pequena onde me criei. Dele surgiram minhas dúvidas sobre "como é possível doenças da mente que nascem com as pessoas?". A reencarnação me ajudou a formular repostas. Essa aproximação teve um caráter apenas intelectual, e distante.  

A segunda aproximação refere-se ao meu encontro com certa menina que foi do meu círculo de colegas na escola e que, então, estava devastada pelo sofrimento psíquico, internada em um hospital. Pela proximidade e semelhança, ela me fez pensar que poderia ser eu em seu lugar. A pergunta que nasce então é "o que aconteceu para que não fosse?". A reencarnação surge ajudando a explicar a questão em termos espirituais, mas também expliquei as companhias que podemos trazer de outras vidas, vingadores de outrora. Não que eu tenha um passado ilibado ou isento de desafetos, mas aparentemente meus desvios não incidiram no império da mente, não mais, não por ora. Essa aproximação teve um caráter um pouco mais emocional, tocou algo de mim, mas ainda não o que me é central. 

A terceira é quando definitivamente o transtorno psíquico me bate à porta, tomando pessoas que amo de assalto. Assim, passo a testemunhar a luta, a angústia, o desespero de quem vive com as doenças contra as quais os psiquiatras se esforçam. Ainda mais quando os remédios são vãos, e a escuta terapêutica, impotente. Essa última aproximação toca no íntimo, permitindo que eu tenha uma noção mais justa do que é o sofrimento mental. 

Essa espiral de aproximações entendo ser mais fiel do que simplesmente tentar a pureza do conceito e a adequação das palavras: do int-electo ao ínt-imo. 

Da última aproximação, conduzo a reflexão cristã de tentar fazer ressuscitar a esperança apesar de qualquer escuridão, já que esse foi o caminho do próprio Cristo. Talvez essa seja, na verdade, a condição humana de aquisição de sabedoria, ou do Reino dos Céus. Ninguém que almeje a cura, que é outro modo de dizer a salvação da alma, pode se eximir de enfrentar seus próprios abismos. 


   

sábado, 5 de dezembro de 2015

Microcefalia segundo o espiritismo (parte 3 - mensagem de consolo)



“O que dizer para uma mãe que descobre que seu filho tem microcefalia e se pergunta o porquê de tudo isso?”


Antes de tudo, importa esclarecer para qual mãe eu diria o que diria. Uma mãe que se pergunta pode procurar as respostas em muitos lugares... Então, de princípio, eu jamais me dirigiria a uma ou várias mães para falar do Espiritismo a menos que elas se mostrassem dispostas a tal; seria uma ofensa, num momento de fragilidade, despejar crenças estranhas a elas. Portanto, apenas diria qualquer coisa diretamente ligada ao Espiritismo caso fosse uma vontade da mãe conhecer mais sobre o assunto, por respeito a ela e sua dor. Com um último adendo: incluo o pai também. Resquícios infelizes ainda nos prendem a uma responsabilidade diminuída do sexo masculino, a qual acho importante refutar e recolocar. O pai responsável ama e sofre como a mãe; junto com ela.

Nesse caso, antes de tudo eu lembraria Deus. Traço comum das religiões, a simples lembrança que temos um Pai amoroso que nunca se descuida de nós tem potencial altamente consolador. A certeza de que alguém olha por nós, velando por todos os nossos passos e cuidando de nossas dores mais ocultas oferece a promessa de uma tranquilidade segura. Não esquecer nem se distanciar de Deus é o primeiro passo.

Contudo, alguém que procura o Espiritismo sabe que isso não basta... Sua alma anseia por mais. Por uma fé com embasamento. Por que eu? Por que meu filho? A Justiça Divina, para ser efetiva, precisa abarcar mais que essa vida. Logo, recorremos a reencarnação. A ciência de que vivemos inúmeras vezes, colhendo e plantando, sucessivamente, abre caminho para novas reflexões. Não sabemos exatamente a razão, mas entendemos os mecanismos.

Mas ainda não é o suficiente saber da sucessão das vidas. Milênios da Lei de Talião impregnados em nossas sociedades dirigem imediatamente o pensamento à culpa do erro castigado. Sinônimo de punição? Não. Não é o que consolará uma mãe, um pai. Será necessário participa-los da grandeza Divina. Deus não é mero punidor, que nos faz “pagar” os erros em moeda de sofrimento. Reencarnação, provas e expiações são apenas os meios de um fim: o aprendizado, o alcance da perfeição, o conhecimento de si mesmo e a ação regida pelas Leis Naturais. Sob esse novo panorama, não sabemos se punição, se consequência, se missão; sabemos apenas que, seja o que tenha sido, o véu nos foi estendido para que nos concentremos no que há a fazer, em vez de estarmos atados improdutivamente ao que foi. É a melhor oportunidade que nos cabe, oferecida segundo a misericórdia do Pai. Novo recomeço. Chance renovada de se fazer melhor que o ontem. Redenção pelo amor. Eis a tarefa.

E... o que fazer, de fato, de posse desse novo olhar? Amar. As dificuldades que se apresentarem, que oferecerem resistência à ideia do amor são exatamente o que deve ser combatido em nós mesmos. Como todo véu, sob a luz adequada é possível ver vultos por trás do ocultamento; cada mancha que se revele contra a luz é sinal de luta passada ainda por vencer. Orgulho, vergonha da sociedade, medo de falhar, dificuldades materiais... Tudo aponta para o que já fomos e o que precisamos vir a ser.

Conscientes da verdade de que o Senhor da Vida olha por nós, que não nos desampara, que oferece a redenção pela justiça através das melhores oportunidades, segundo a nossa semeadura, o caminho está traçado. Não poupará levianamente das dores nem das lutas. Mas provará, diariamente, que o alcance da felicidade só depende de nós. Na perseverança por agir no bem e na sabedoria do olhar consciente que lançamos à nossa própria condição. Munidos da fé raciocinada, da esperança no futuro e tendo a caridade como força motriz, inevitavelmente venceremos, em paz.

Por Erick Machado

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Microcefalia segundo o espiritismo



O momento para o Brasil é de pesar. Um surto de malformações fetais onde se predomina a microcefalia desespera a população e, para piorar a história, o Nordeste é vítima da maior parte dos casos, superpondo esse sofrimento ao da seca. As notícias sobre os agravos aumentam e vazam com a leviandade dos boatos. 

Venho aqui para tentar pensar qual o motivo dessa tragédia entre nós. Vou elencar algumas correntes de pensamento espírita que provavelmente fundamentarão explicações daqui em diante nos relatos mediúnicos, esperando que algum me surpreenda e fortaleça-nos ainda mais.


A tese das expiações evolutivas ou das dores do parto 


Um surto que acomete populações inteiras pode ter relação com uma leva de Espíritos reencarnantes, cujo tempo para a progressão moral se finda no avançar da hora da maturação do planeta. A humanidade, nestes últimos séculos, se ressente das dores de um parto que custa a acabar, cujos momentos de seu curso se refletem na eclosão de violências, no escancaramento de vícios e corrupções, e, agora, na materialização de meios propícios para a vivência de dores de resgate e aprendizado.

Parteja-se aqui um mundo melhor, entregue em breve às luzes de um descanso de regeneração para o corpo social sofrido. 


Sobre o caráter dos Espíritos envolvidos


Quando carregados de escolhas ruins, estas fragilizam seu perispírito, órgão espiritual que plasma o corpo físico, fazendo com que as malformações emerjam. As limitações extremas do corpo conduzem o Espírito a um aprendizado de seus movimentos interiores, de suas emoções, e mesmo os pais e familiares passam a ler as lições trazidas pelas próprias vulnerabilidades. 

Acontece de grandes almas escolherem reencarnar em um corpo débil. Almejam mais iluminação ao sofrerem com as ilusões da dor. Pensam também em se engajarem em contexto de aprendizado para os pais, sendo instrumentos para tanto. 

Ocorre de igual modo que pais abnegados tenham escolhido receber Espíritos em situação de resgate expiatório, e, assim, acolhem aquele sofrimento com devotamento ímpar.


Sobre a "culpa" da natureza 


O Espiritismo tenta mostrar que a natureza não é nossa inimiga. Uma superficial visão ecológica nos faria entender que os ciclos de vida e morte são inevitáveis, que as doenças são caminhos possíveis. A imortalidade da alma nos deixa estagiários destes processos. 

É verdade, porém, que viemos, com nossa tecnologia, alargando vários limites da natureza. Algumas dessas nossas tentativas descambam em não menos naturais desequilíbrios que nos convidam a empreender melhores respostas. 

Não se defende o crescimento zero, mas o crescimento bem guiado pela inteligência e pela ética a fim de tornar o desenvolvimento o mais democrático possível. Somos destinados a fazer imperar o cosmos sobre o caos, mas nunca em benefício de uma oligarquia olímpica. As tentativas que se direcionam para o privilégio são corrupções da nossa missão e sempre tendem a desandar. 

De outro modo, assim como em pequena escala o Espírito é responsável pelo origami do corpo, em larga escala, nossas ações como humanidade se refletem em tudo que nos é considerado meio de existência. Está perfeitamente conforme à cosmovisão espírita pensar que as catástrofes naturais possam refletir o estado de espírito dos homens e mulheres, formando bolsões de miasmas que se precipitam sobre nós o que, aos tempos do Egito antigo, foram considerados como pragas, e que, todavia, tinha menos a ver com a ação direta de Deus do que com a repercussão dos nossos atos sobre o mundo. 


A missão do Brasil


Certa corrente do pensamento espírita imagina ser o Brasil um grande acolhedor das práticas do Evangelho. E, como ele tivesse sido destinado por Jesus para acolher os aflitos do mundo, é provável que alguém nos fale que os Espíritos envolvidos em crimes de outras nações estejam sendo destinados para compor nossas novas crianças cujos corpos débeis servem de poderoso cadinho para as transformações viscerais do espírito imortal. 

O que todas essas teses apontam é que não devemos vestir a túnica dos coitados do mundo, que o desespero deve ser convertido em trabalho, que o amor pelo próximo e o acolhimento dos debilitados deve ser, mais do que nunca, a tônica de nossos corações. 


Leia também:

* O comentário que faço à contribuição de leitores desse assunto: link
** Uma mensagem de consolação escrita por um leitor endereçada à família vivendo com  a situação da microcefalia: link
*** Outros diálogos que andei tendo com leitores deste blog: link


terça-feira, 8 de setembro de 2015

Sobre a importância da igreja como fundamento



Feito palavra ao vento, apenas para amenizar conversas de corredor, falo sobre meus problemas respiratórios de repetição à uma colega de plantão: são coisas que trago de outras vidas. Ela responde de imediato. 

- Isso não existe, Allan!

Quando a incitei a falar os motivos que a levavam a afirmar tão categoricamente sobre a inexistência das reencarnações de todos, pensando que ela ia começar os mesmos argumentos de sempre - porque não nos lembramos, porque a população cresce, etc. - ela me veio com essa:

- Como é lá no Espiritismo? Você freqüenta? Qual o fundamento?

Falei do meu afastamento destes últimos tempos, desde que aumentamos, eu e minha esposa, nossas atividades médicas e de pais de um menino novo. No que ela replica:

- Você nem freqüenta direito!

Foi assim que me dei conta que, de certo modo, para ela, é fundamental não apenas conhecer a doutrina, mas participar da igreja para falar com propriedade. Igreja não no sentido institucional, estrutural, mas no sentido de eclésia, assembléia, conjunto de pessoas que fazem a coisa ser humana e, de tão irmãos, divina. 

De fato, essa colega é uma moça devota. Antes de dormir, uma prece e um terço. Durante o plantão, a calma e a serenidade de quem tem o apoio de toda uma irmandade em si. 

Levo isso para casa. O reaquecimento da saudade que tenho dos meus, daqueles que são meus fundamentos. Difícil viver sem uma igreja de amigos que se religam por assuntos comuns que nos ascendem a muito mais do que essa esfera de afazeres cotidianos. Nesse sentido, de fato, fora da igreja não há salvação, mas é que o coração fica menor longe deles.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Sobre os traumas nas mentes infantis



Para onde quer que olhemos, estas teorias psicológicas dos sofrimentos humanos vivem a nos falar, no final das contas, de uma psicologia infantil tão frágil que qualquer abalo pode ocasionar o maior dos traumas no futuro, a mudança da rota, a diferença capital. Não é bem assim. 

De fato, cada ação importa para uma criança. E não tenho dúvida que quanto mais proteção e amor ela tiver, mais isto irá influir beneficamente em seu psiquismo. Mas, as lágrimas grossas das pessoas escorrem sentimentos que foram arrastados de vivências muito mais antigas do que a própria vida. Não somos tão frágeis assim. A pele de nosso Espírito possui camadas que o mais trabalhador arqueólogo está longe de revelar, quiçá interpretar. 

Não é uma vida anterior, nem duas. É todo um continuum de existência cuja origem se perde na escuridão da história de tudo, não só da humanidade. 

Leio e releio com gosto um médico polonês, o Sr. Janusz Korczak, que escreveu um dos livros mais sensíveis que já li sobre a criança: Como amar uma criança. Quase ao final, depois de ter nos revelado o imenso esforço humano de tentar desvendar os pequenos, na medida que os cobria do frio e os alimentava na privação, partindo de uma mão que já havia labutado muito a favor da sobrevivência deles em uma Polônia judaica perseguida no mundo entreguerras, nos diz isto:


Raras são as crianças que não são mais velhas que a sua idade real: trazem consigo as taras de muitas gerações. Nas circunvoluções do seu cérebro sangra a dor acumulada durante muitos séculos de sofrimento [...]. Não é a criança que chora, são o cansaço e a dor centenários que se lamentam: não foi por ter sido posto no canto, mas porque foi sempre oprimido, banido, desprezado, amaldiçoado. Estou fazendo poesia? Não, é apenas uma maneira de fazer uma pergunta para a qual não encontro resposta.

Eis a clarividência! "Nas circunvoluções do seu cérebro sangra a dor acumulada durante muitos séculos de sofrimento." E, muitas vezes, nos inquietamos porque não os conseguimos consolar de todo ou mudar seu caráter de forma inabalável em alguns parcos anos de convivência intermitente. É, então, que um árabe, Khalil Gibran, nos fala:

Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas.
O arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a sua força
Para que suas flechas se projetem, rápidas e para longe.
Que vosso encurvamento na mão do arqueiro seja vossa alegria.

Pais e mães que amam mais que tudo a vossos filhos, sejamos bons arcos, é o bastante. Os ventos de Deus cuidarão do resto. 

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Sobre família espiritual



Pediram-me para falar sobre família espiritual e família material. 

Entendemos que há dois tipos de famílias: a de Espíritos que se unem por afinidade e a de que se unem por obrigação. 

Então, na palestra que elaborei decidi falar sobre as provas lógicas da existência da reencarnação que fazem com que ela seja a melhor resposta para as incoerências que existem na vida humana, justificando, assim, os sofrimentos que vemos como inexplicáveis. A ignorância das vidas sucessivas faz-nos ceder à hipótese do acaso, da imperfeita bondade de Deus ou do ateísmo ("Deus é desculpável na condição de não existir"). 

Contudo, provar a lógica não prova a existência, daí que Kardec entra na questão - o que faz a base científica do Espiritismo - da autoridade da revelação dos Espíritos. Grande parte deles se manifestavam no círculo de estudos de Kardec (o que já é uma prova da imortalidade da alma, já que se comunica após a morte), falando sobre seu breve retorno à carne. Depois, começaram a explicar sobre a grandeza desse princípio universal: o retorno do Espírito à matéria com o fim de evolução. 

O que isso tem a ver com famílias espirituais?

Decidi comentar a seguinte passagem do livro "Pesquisa sobre o Amor" do Prof. J. Herculano Pires:


Repete-se em cada nascimento, em cada penetração de um ser na existência, o episódio do Cavalo de Tróia. Ante a muralha do existencial os seres inexistentes vigiam como os guerreiros gregos, protegidos por seus deuses. Um não-ser ingênuo e puro, impotente e abandonado, é deixado ante a porta-fortaleza. Os troianos, os que vivem e existem na realidade plena, por trás da muralha, encantam-se com a doçura e a fragilidade daquela criança exposta aos perigos, abrem a porta e a recolhem, embalando-a em seus braços poderosos, sem dar ouvidos às profecias de Cassandra. Mas no interior da criança estão ocultos os conquistadores experientes. A existência, essa Tróia cercada de muralhas no planalto da vida, vai ser conquistada ferozmente pelos instintos de conquista e domínio que explodirão no anoitecer. Cada não-ser busca a sua Helena raptada, a sua contrafação que o completará no plano existencial. Não há guerra gratuita, batalha sem objetivo. Cada ser lançado na existência é, ao mesmo tempo, um vetor energético e uma busca emocional de realização humana. Muito antes de o primeiro eclodir da virilidade na puberdade a marca do amor definia o não-ser como o conquistador da existência. [grifo meu]

"... no interior da criança estão ocultos os conquistadores experientes." Que comparação fantástica! Infelizmente, ela traz a imagem da guerra para dentro do lar. Todavia, é o que referenda toda a história da humanidade. Somos uma civilização de guerra. Nossa história é uma de matar a tribo que mora ao lado, entendendo que o ambiente é pouco para a sustentação de todos. 

É verdade que há pais e filhos que se amam sinceramente, mas não podemos negar a realidade dos múltiplos conflitos trágicos que mancham a história da família. Os que se amam sinceramente são os que possuem o parentesco espiritual, os que não se amam, estão temporariamente unidos por laços biológicos. 

Como tudo na natureza criada por Deus, há providência. Os laços biológicos, o enfrentamento dos conflitos diários, a busca por conseguir dialogar, a consciência filial que pressiona o filho a cuidar do pai doente, tudo isso são vetores direcionados para a dissolução de outros laços: os do ódio. O indivíduo que matou outro em existência pretérita, hoje lhe recebe como filho no ventre, aprendendo a lição de quanto vale gerar e fazer crescer uma vida. 

Faço um convite ao final: para que deixemos de aprender as lições do amor através das dores. O nosso planeta escapará da pecha de provas e expiações quando aprender a fazer o bem por amor à virtude, e não mais por medo do castigo. 

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Memórias de Vidas Passadas: esquecimento?



Um JOVEM me interpela da seguinte forma sobre o ESQUECIMENTO DE VIDAS PASSADAS:


"Macho, o conhecimento dos espíritos é uma coisa muito bugada, pqp! Pq dá reset toda vez que nasce de novo e mesmo assim acumula."

No que respondo:

Você tem que abandonar essa concepção de aquisição de conhecimento que lhe inculcaram na primeira séria do fundamental. Só é válido o conhecimento para passar nas provas se for o decorado tal e qual o livro?

Conhecimento é muito mais amplo que isso. Quando renascemos, o que fica é o essencial. Não há um esquecimento total. Estamos imersos em uma rede de lembranças que muitas vezes nos impulsiona sem atentarmos exatamente o porquê. Ao sentir o carinho gratuito por uma pessoa, não é gratuito. A repulsa imotivada por outra que você mal conhece, não é sem motivos. Até mesmo a forma singular com que as crianças se portam desde o berço, não é idiossincrasia pura e simples. Já existe todo um caminho prévio percorrido que nos fez (leia-se: nos fazemos) como somos hoje. 

Agora, quer lembrar de data, hora e local? Pode até ser, a isso damos o nome de déjavu. Quer ter lembranças específicas de cenas? São os lapsos. Quer descortinar toda uma vivência anterior? Estes são os caminhos percorridos pelas Terapias de Vidas Passadas. 

A briga é grande. Cada ramo da ciência, hoje, toma para si a interpretação que lhe agrada dessas palavras que acabei de citar. Mas, a interpretação espírita, se quisermos ser honestos com essa cosmovisão, não prega que ficamos completamente zerados. Obnubilados seria uma melhor palavra. 

Por falar nisso, tenho quase certeza que não nos encontramos por acaso nesta encarnação, e o fato de eu estar conversando com você, fazendo questão de responder à essa pergunta em plena duas horas da madrugada, não tem nada a ver com caridade, mas com continuidade de um diálogo muito antigo. 

Vai dormir, agora! 

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

As pessoas que vivem em mim

Um amigo me pegou falando sobre o que acredito ter sido minhas encarnações passadas. Uma delas é sobre a que papai acreditava: ser eu seu próprio pai. 

Embora querendo respeitar minha crença, o amigo perguntava se eu não estava de má-fé,  deixando-me levar pelos condicionamentos que os outros colocaram sobre mim. Tipo, não assumir a vida com a autenticidade de tudo o que sou hoje, mas carregando o peso de tudo o que o passado diz que devo ser. Até mesmo justificando as atitudes pelas tais "encarnações passadas". 

Respondi carinhosamente:

- As minhas encarnações não me soam mais como justificativas, mas como álbuns cheios de fotos queridas. Aqui e acolá vou entendendo o animal que fui, o anjo que estou longe de ser. E vou reencontrando todas as pessoas que amei, que amo. Porque uma das mais fortes razões para eu acreditar em encarnação não é apenas não conseguir encontrar justiça para as aflições atuais apenas nessa vida, sem ceder à hipótese do acaso, mas, principalmente, de não conseguir encontrar razão suficiente de amar tanto e tão profundamente certas pessoas e não outras. 

Sobre meu pai achar que fui o pai dele, não me pesa de forma alguma. Fiquei sabendo disso depois que ele morreu. Ficou como a lembrança mais doce que guardo. Eu e ele, se revezando nos dramas da vida, tentando deixar crescer cada um por sua vez. 

A cena em que revelou isso para mamãe:

Entrei no quarto deles para pegar um dinheiro e sair com a namorada. Entrei e saí. Pedi quase sem pedir. Ela reclamou que eu gastava demais. Ele a silenciou, sussurrando: "Deixe! Ele trabalhou muito na roça para que eu conseguisse chegar onde eu cheguei..."

sábado, 23 de novembro de 2013

As utopias na criação de nossos filhos



Nesse 1 mês de pai, tive, pelo menos dez crescimentos, vou compartilhando alguns. 

O primeiro foi quando meu filho deixou de mamar. Aqui não cabe, definitivamente, esmiuçar as causas. A todo instante há especialistas que se aproximam e sugerem uma explicação, lançam sua hipótese como a última brilhante. E mesmo no banco de leite em que fomos atrás de receber ajuda ao vigésimo dia de insistência, quando não só desciam gotas de leite, mas de lágrimas da minha amada esposa, somos recepcionados com um:

- Está dando suplemento?
- Tive que começar algum.
- Está explicado!



Simples como mágica. Vinte dias de esforço ininterrupto da mulher mais querida e guerreira que tenho hoje em minha vida destroçados por um saber vultoso de uma pergunta qualquer. Sem contar da ditadura da mama que faz com que todas as pessoas olhem torto para aquela-que-não-conseguiu-amamentar-o-filho. 

O fato é que não conseguimos. E fiquei preocupado se esta já não seria nossa primeira falha de pais, o primeiro trauma, o primeiro nó e, portanto, a já derrocada de nosso projeto de fazer desenvolver um ser humano perfeito. 

Dei-me conta da eugenia dessa decepção quando percebi este último ponto. Se nós morrermos aos setenta anos, na pior das hipóteses, serão mais quarenta anos de uma vida que estamos tentando fazer vingar. Ainda não temos nem tudo isso de vida e já me preocupo com o que não consegui fazer neste dia, como se fosse irremediável para sempre. 

Relembrei meu pai, que santifiquei após a morte, mas que voltei a enxergar suas falhas e os ruídos do nosso relacionamento em me vendo, agora, pai. O quanto nós aprendemos nos dias em que fomos cometendo erros juntos durante sua permanência no corpo! E minha mãe que, viva e doente, me lança desafios semanais para ajudar o crescimento do espírito.

Que perfeição esperar de nós? Ainda temos menos compaixão do que o mundo precisa. Ainda mais egoísmo. Ainda a raiva, o menosprezo e a indisciplina. Ali, não aqui, o amor sem medidas. 

O pequeno veio com desafios. Eis o que é verdade. Não preciso entrar nos exemplos dos dons inatos daquela garota bailarina, deste menino pianista, daquele outro matemático. Já começam as diferenças no peito da mãe. Uns aceitam tranquilos o que a natureza lhes preparou como alimento durante nove meses. Outros, nem tanto. E outros ainda, de forma alguma. Vidas escondidas em um corpo perfeito que deixa aflorar os incômodos da volta a carne. 

Estamos tentando um equilíbrio sobre o fio da vida, bêbados de amor. Desatar os nós em pleno espaço, enquanto esse grande cometa Terra segue seu curso errático pelo universo das explosões, no escuro de tudo. 


Por que seu choro é tão sofrido no momento das cólicas, meu filho, enquanto o filho do vizinho só geme um pouquinho? Quem saberá por onde sangrou os teus pés até chegar aqui? Deixemos o passado de lado, pois o amor há de cobrir todos os nossos pecados. 

sábado, 21 de setembro de 2013

A vida é a única coisa que vale




Recentemente, desencarnou um ente muito querido da família de minha esposa. O corpo ainda está quente de tanto que os que a amavam se debruçam sobre ele, de tanto que as lágrimas, quentes, molham seu rosto. Em um desespero, uma filha disse:

- Essa vida não vale nada! Pra que tanta luta? Essa vida não vale nada...

Fiquei calado. Não é momento para sermão. O padre se encarregou disso na missa de corpo presente. Mas, por aqui, solto o verbo.

A vida é a única coisa que vale. Não só a vida quando ela se manifesta como vida, particularmente a vida dos nossos mais amados, mas a Vida inteira, até mesmo daqueles que não tem vida, mas são alguma coisa no universo, nem que seja um chão para se desfilar. 

O corpo é muito valioso. Abriga o Espírito na sua jornada planetária e, ao ser desvencilhado, é recomposto ao resto da terra que borbulha de pequenas vidas subterrâneas, anônimas. 

O que seria de nós se não fosse o Sr. Sol, a Sra. Água? Deveríamos prestar reverência a estas duas entidades todos os dias. As Srtas. Estrelas e os vagabundos cometas. O Sr. Verde e o Sr. Azul. As multicores de tudo. O Sr. Negro Sideral que esconde outras galáxias. O Sr. Negro Abismal que encobre outras tantas, ignoradas todas, vidas. 

Eu sei que a dor é grande. Carreguei meu pai nos braços no momento em que seu coração anunciava o silêncio. Chorei o que pude chorar. O que os olhos haviam estocado por anos. Ainda choro alguns restos daquelas lágrimas que - penso - se renovarão quando voltar a vê-lo vivo. Algumas noites já o encontro. Então, me curvo aos Srs. Sonhos e a Sra. Lua que os trazem no colo. Não me canso de olhar as crianças que desabrocham na vizinhança e ouvir um sussurro me perguntando: será ele, de novo? 

A gente, que acredita na imortalidade da alma, chora porque até Jesus chorou na morte de Lázaro. Mas, o que não podemos deixar de fazer é esperar a vida que surge logo depois, ressurrecta, e um pouco mais a frente, recomposta, e mais lá adiante, reencarnante. 

Esses ciclos que nos circundam de vida e morte nos fazem querer dizer que tudo é morte e, portanto, que de nada vale a vida. Mas, se enxergarmos o ciclo na sua outra face:

- Tudo é vida e, portanto, de nada vale a morte!

domingo, 1 de setembro de 2013

Ressurreição e Reencarnação




Decidi me aproximar deste tema me valendo do significado significativo e significante que a palavra ressurreição tem para o catolicismo (e provavelmente para o movimento de igrejas reformadas, mas tenho mais propriedade naquele). E achei por bem localizá-la na história bíblica de Jesus, mostrando o quanto ela se reveste de um significado todo especial para a doutrina da salvação. 

De forma simplificada, assumindo o risco de ser superficial, mas se afastando da prolixidade, Jesus é, como por assim dizer, um broto de Deus-Pai. Se Este cria tudo no momento em que fala, Jesus é o Verbo e, como o Pai, estava desde o início da criação. Antes, portanto, de Adão. Mas, Adão deu início à raça humana, que se perverteu por desobediência às leis divinas e teceu um novelo de pecados que se acumulavam geração após geração sobre os ombros de seus filhos. Era uma linhagem de maculados essa de Adão e Eva, os expulsos do paraíso.

Jesus nasce espiritualmente fora dessa linhagem, com sua brancura original, mas conectado tradicionalmente (pelo menos segundo a genealogia de Mateus) à família de onde deveria provir o Messias prometido pelos profetas de Israel, que iria libertar o povo do jugo dos dominadores, enfim e para sempre. Espiritualmente continua um estranho, pois imaculada é a concepção de Maria, já que virginal, e fecundada diretamente pelo próprio Deus. Demonstra-se esse fato - o de Jesus ser o unigênito de Deus (só Adão o havia sido antes, mas depois todos os homens descendiam de homens) - os milagres que este moço empreendia, entendidos como quebras da realidade que apenas poderiam ser promovidas pelo Senhor dos senhores. Conclusão óbvia: Jesus era Deus ou partícipe de uma Trindade Unitária em que as diferentes faces de Deus se confundiam. Jesus era o Deus-Filho, com todos os poderes de Deus-Pai, inclusive o de resgatar a humanidade de seus pecados, no caso, com o Seu próprio sacrifício e, pelo Seu sangue derramado, redimir os culpados e gerar uma nova descendência que, por Ele, em Lhe aceitando, tudo estaria renovado. 

A renovação de tudo, isto é, a revivificação dos homens que morrem pela corrupção que lhes é herdada desde Adão pecador é provada pela ressurreição que apenas Jesus viveu. Há quem fale em pessoas importantes na bíblia que não morreram, mas subiram aos céus, ou mesmo Lázaro que foi ressuscitado, mas degringolou na morte normal de qualquer humano. Todavia, ninguém houve que morreu, ressurgiu da morte e se perpetuou vivo - na história hebraica.   

Bem, essa não é a visão espírita. É difícil de encaixar no Espiritismo um Jesus de concepção virginal. Muito embora, Kardec conceba a possibilidade de que Deus possa derrogar suas leis ao seu sabor, torna-se mais clara a ideia de um Deus de Leis perfeitas, portanto, imutáveis. Jesus, portanto, entra na carne pelas vias da encarnação biológica da união dos sexos como todo humano. É possível que ele esteja contido em uma cultura e na linhagem para onde apontavam as profecias, mas o verdadeiro messianato está nas atualizações que ele faz das tradições, possivelmente não para as quebrar de todo, mas para as fazer mais resplandecentes. Os milagres, nada de miraculosos, mas tudo ao seu tempo. Como uma flor que, no tempo certo, desabrocha, ou uma nuvem que, no momento necessário, deixa cair suas águas, as pessoas doentes são conduzidas por Cristo à cura em um caminho que já estava aberto, isto é, já era da Vontade do Pai que daquele jeito fosse, faltava só a sua sábia e amorosa condução. Ao final, nada de ressurreição em carne e Espírito, mas em Espírito e Verdade. E nada de extraordinário, as pessoas "ressurgem" todos os dias, o que é constatado pelas experiências espíritas. 

As rupturas que essas sinalizações espíritas têm com a história do Jesus dos Evangelhos é de uma profundeza abissal, na sua forma e nas suas consequências. Mostra-nos, basicamente, como o espírita deve seguir seu caminho:

  1. Não acreditar que sua história é uma de pecados inamovíveis que o antecede e que não lhes pertence. Jesus não se eximiu de encarnar na humana condição para mostrar como, mesmo sujeito às nossas injunções, poderíamos nos libertar de nossas dores. E, sim!, nossas dores nos pertencem porque fomos nós que as cultivamos em outras eras. Pertence-nos ainda mais sua solução;
  2. Não esperar milagres no sentido de um momento mágico que converta martírio em glória. Tudo se transforma pelo trabalho. E todo trabalho no bem traz boas obras. O momento do término do sofrimento é o momento certo, nem mais, nem menos. Trabalhar, orar e esperar. Bom é guiar-se por Jesus, seus exemplos, suas palavras e suas inspirações, ou as de seus mensageiros, porque, chegado o momento da libertação, frequentemente precisamos de condução no caminho para a luz, já que sua prolongada ausência nos desacostuma os olhos. 
  3. Não acreditar em salvação proveniente de uma pessoa outra que não nós mesmos. Ninguém nos salva de nada. Salvamo-nos a nós mesmos, instruídos e acolhidos aqui e acolá por mestres espirituais. Nem tão pouco acreditar que a tal salvação seja da noite para o dia. As múltiplas reencarnações estão aí para mostrar o quanto o caminho é longo, e necessário é nascermos de novo, e de novo, e de novo, e de novo... até a aquisição autêntica do último aprendizado.

Há quem se esmere em interpretar a bíblia de tal forma que o Jesus dos Evangelhos fique claramente espírita. Não tenho estudo para esse mergulho. Deixo aos hermeneutas espíritas de plantão o aprofundamento no tema. Fico, inicialmente, satisfeito em deformar a interpretação católica, reformando Jesus Cristo e devolvendo um Mestre que, para mim, é mais aceitável. Orgulho de alguém que não quer aceitar a verdade da Escritura? Não, isso é fisiológico. Todos nós mastigamos a realidade com os nossos próprios sucos digestivos e só assimilamos aquilo que podemos, segundo o organismo cognitivo que temos no momento. 

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Reencontrando a Verdade





(Toca vinheta)

Allan Denizard: Estamos aqui com mais um caso em “Reencontros com...”. Já nos aproximamos do assunto das reencarnações nas famílias pela ciência e pela psicologia, sempre abordando seus conflitos. Hoje, receberemos a visita de mais um pai que tem memórias que circundam o vínculo com seu filho, bem como a de um padre que haverá de expor o posicionamento da igreja hoje [em 4015] sobre o assunto. Como é o nome do senhor?

Pai: Allan Denizard. 

AD: Ora, vejam só! Meu xará! Conte-nos um pouco, Allan, sobre o relacionamento com o seu filho, desde quando as memórias de outras vidas lhes perseguem?

Pai: Pra falar a verdade, Allan, elas nunca deixaram de existir. Eu não diria perseguir, é forte, é assustador. Não é uma caça. São lembranças.

AD: Mas, lembranças todos nós temos.

Pai: Isso! Todos nós. Acho que ao contrário das memórias, lembranças são mais vagas, são mais doces. 

AD: Então as lembranças do seu filho não te perturbam?

Pai: Por que perturbariam? São elas que vão me manter vivo dentro dele quando eu não estiver presente. Não podemos viver só do presente, sabe?! A vida é pra ser vivida, claro! Mas temos de viver também a saudade. Temos de viver também a esperança. Não acredito só em um Homo sapiens, acredito em um Homo amorosus. E para amar precisamos lembrar de quem amamos. Precisamos esperar a pessoa amada. Esperar mesmo ser amado. Ter saudade de quando o fomos. Sentir falta se hoje não somos. Esperar ainda ser. O que seria de nós sem as lembranças?

AD: O que o senhor tem a dizer disso, padre?

Padre: Continue, Allan...

Pai: Então, seríamos um desenho em um papel. Só um. Não mais, nem menos. As lembranças nos dão dimensões. 

AD: Tudo bem. Mas, você fala isso desta vida. O que estamos abordando no programa são as muitas...

Pai: Lembranças! A vida é uma só. Ou talvez, Allan, as mortes são muitas e não só a do corpo. A palavra que acabou de sair da minha boca foi, nesse instante, sepultada no vento. Por que você continua seguindo o fluxo da minha fala? Por que você ainda entende o que digo? É que você se lembra da vida do meu verbo antes da vida deste que agora vem em contínuo devir da minha boca. 

AD: Isso você diz porque, ao contrário de muitos pais que estiveram aqui, seu filho ainda não te renega. Se ele vier a fazer isso, como você vai se portar?

Pai: Peço a Deus que eu me porte com sabedoria. A negação dos filhos contra os pais não é de 4015, é desde que o primeiro homem percebeu não ser igual ao outro. Eu preciso, mais dia ou menos dia, dizer: eu não sou você, você não é eu. Vai doer? Não duvido. Vou crescer? Duvido menos ainda. 

AD: Gostaria de falar alguma coisa, padre?

Padre: Gostaria de pedir para o Allan continuar. 

Pai: Pois é, obrigado padre. Acho a maior das bobagens esse seu programa, Allan Denizard. Queria muito que os pais que estivessem assistindo a ele, preocupados com as memórias dos filhos que lhes escapam, estivessem dedicados a brincar com seus moleques. O pior da brincadeira é brincar sozinho. Já pensou se o seu parceiro ou oponente sempre fizesse o que você esperasse? Seria o fim dos tempos! E uma das coisas que as lembranças nos ensinam é que a vida passa e se torna tempo - o tempo que passou. A gente tem que aprender a se importar menos com o que vem decorado pelos nossos filhos e se importar mais em decorar nossa relação com eles. Decorar de decoração e não de decoreba. O que vai permanecer no Espírito dele para sempre não vai ser o que eu fiz ele repetir, mas o que ajudei ele a inovar, renovar. E essa aventura do novo é uma que só se dá nas navegações do amor. 

AD: Obrigado pela sua participação, Allan. Eu realmente gostaria de ouvir alguma coisa que o senhor, padre, tem para falar. 

Padre: Eu não. 

sábado, 11 de maio de 2013

Casos de outras famílias




(Toca vinheta)

Allan Denizard: Estamos aqui novamente com “Reencontros”. No programa passado, tivemos aqui um pai que sofria ao lado do filho com memórias bem vivas da última encarnação. Contamos com a fala esclarecedora de um cientista da USP, cujo laboratório se consagrou na pesquisa das memórias genéticas de outras vidas. Hoje, temos mais uma história de conflitos familiares com as reencarnações, contudo, não com a presença viva delas, mas com a sua possibilidade. Bom dia, Sr. Jocicleudo! Conte-nos um pouco a respeito da sua angústia. 

Jocicleudo: Você falou bem, Allan, é uma angústia! Não que meu filho esteja manifestando ter pertencido já a outras famílias, mas é que hoje se fala tanto disso [lembrando que estamos no ano de 4015] que eu não consigo mais olhar para ele e não ver um estranho em minha casa. Ele me sorri afetuosamente, me pede carinho. Não que eu não ofereça, mas é que o faço com asco. Penso naquela pelugem que ele carrega ainda no rosto, e sinto uma barba grossa. Ouço seus gemidos infantis, e escuto um vozeirão enorme. Vejo-o calmo nos braços da mãe, e muitas vezes tenho vontade de arrancá-lo dali porque ela é minha mulher e não dele. Não sei mais o que fazer. Ele é frágil, pequeno, inocente, mas eu o vigio, como se a qualquer momento pudesse se rasgar a pele e se revelar um monstro. 

AD: Para tecer algumas considerações sobre isso, temos o prazer de ter aqui conosco o psicólogo Dr. Jungudo Ibirapuera, especialista em psicologia transvital, professor da faculdade de psicologia da Universidade de Ribeirão Preto. É um caso ainda mais complexo do que se a criança já revelasse seu passado, não acha, professor? 

Jungudo: Enquanto o Sr. Jocicleudo falava sobre o drama com o passado do seu filho, fiquei recordando o drama nosso com o passado da psicologia no que diz respeito às encarnações passadas. Hoje, que a ciência chegou junto de forma quase inquestionável (pois há quem questione, sempre haverá!), que até mesmo grandes ramos das ciências humanas acreditam na hipótese de outras vidas, havendo exceções que só servem para confirmar a regra, fiquei pensando que os devaneios que tínhamos no passado sobre vivências pré-uterinas, como que participantes de um imaginário elaborado pelo inconsciente do indivíduo, não têm mais a mínima razão de ser. Fiquei imaginando como nós do ocidente pudemos ter ficado tanto tempo cegos para essas memórias extra-corpóreas quando mais de três quartos do mundo acreditava ou tinha abertura para acreditar nisso. Chamávamos de superstição. Mesmo a história da humanidade nos resgatando constantemente esta crença presente nos livros sagrados das grandes civilizações, chamávamos de infantilidade do homem místico. A genialidade de um certo Sigmund Freud havia tentado conectar esses sentimentos de hostilidade pai-filho com a mitologia grega, com os vaticínios agourentos de adivinhas, com um destino urdido por deuses que determinavam as vidas das pessoas antes mesmo de elas nascerem. Para Freud, não era uma questão de deuses exteriores, mas de forças íntimas em conflito. Atualmente entendemos que, embora as forças íntimas não sejam desprezíveis, as agonias de outras encarnações não o são menos. Por que o Sr. Jocicleudo ao invés de estranhar repulsivamente seu filho, como que a um inimigo, não o acolhe amorosamente, como que a um irmão? Duas respostas: porque seu filho realmente pode ter sido um inimigo e/ou porque a forma da relação pai-filho que existe em seu inconsciente é conflituosa. O inimigo dele reencarna já em uma forma de se relacionar patológica. Se assim não fosse, aquele que vivenciou uma relação com o pai tranquila teria como que um casulo afetivo que poderia acolher amorosamente o rebento que se apresenta, ainda que descendente de uma inimizade prévia. Seria uma sublimação. Aprendam isso pais: quanto mais se foi amado, mais se é aberto para amar!

AD: E como a psicologia pode tentar resolver isso, professor?

Jungudo: Trabalhando o indivíduo nos dois caminhos que evidenciei. Encontrar os nós que entravam ambas as relações pai-filho. Ajudar o analisando a desatá-los. 

AD: É preciso regressão de memória para isso, não é?

Jungudo: Não, percebemos que não. Na maioria dos casos as memórias já estão presentes até demais nos discursos, só que codificadas. É preciso um intenso trabalho de conscientização na memória atual. O que acho imprescindível é o perdão. 

AD: Não perca no próximo programa, aqui, o que a religião tem a dizer sobre isso. 

domingo, 5 de maio de 2013

Lembranças vivas de vidas passadas



Entrevista em programa televisivo com especialistas sobre o assunto Reencarnação e Criação dos filhos. Gravado em 4015, levado ao ar às oito horas da manhã, de nome Reencontros com Allan Denizard. 

(A população assiste sem consternamento, mas com sincero interesse, ao assunto enquanto toma seu café-da-manhã porque, a essa altura, reencarnação foi provada até em laboratório). 

AD: Estamos aqui com um pai de família cujo filho se lembra de quem foi em uma encarnação passada. Senhor Sigismundo, como é viver com um filho que não passou pelo processo de esquecimento ao reingressar na matéria?

Sigmundo: É meio complicado sabe, Allan. A gente fica sonhando com tudo o que ele viria a ser, aí quando ele começa a falar, já se mostra cheio de vontades e com uma identidade que eu não ajudei a formar. Desde o início ele já me diz não para tudo o que eu ofereço, como se ele reagisse à minha influência. Sem falar nas comidas. Qualquer bebê normal, na medida que a gente vai insistindo, vai cedendo aos pratos que a gente tenta colocar na alimentação dele. Esse não! Era como se o que ele gosta e o que ele não gosta já estivesse bem vivo na língua. 

AD: Imagino o quanto deve ser sofrido para o senhor querer ser pai de alguém que, mesmo sendo seu filho biológico, não é seu filho de verdade. Mas, vamos ouvir o que o cientista do laboratório de Genética e Reencarnação da Universidade Federal de São Paulo tem a dizer. E, então, Dr. Estevesonildo, como a ciência explica essa anormalidade congênita dessa criança?

Estevesonildo: Então, Allan, boa tarde a todos de casa, eu faço parte de um laboratório que trabalha com pesquisa do comportamento das pessoas na sua manifestação desde as células. Esse nosso laboratório vai completar um século desde que descobrimos que existe uma sequência de genes específicas que é responsável por inibir ao máximo a manifestação das informações cognitivo-comportamentais que descendem de alguma vivência pré-concepção. Todos nós sabemos desde o ensino básico que os genes são a estrutura material que carreia informações para tudo o que acontece no corpo. Pares de bases são o alfabeto da vida. Então, foi uma revolução quando descobrimos que, nos meninos e meninas que se lembravam do que chamamos de "vidas passadas", encontramos pares de bases idênticos, na sequência responsável pela memória, aos que se encontram nos indivíduos de quem elas diziam ser a reencarnação.

AD: Mas, os pares de bases do DNA desses indivíduos já não haviam se decompostos?

Estevesonildo: Alguns sim. Mas, outros, aqueles cujo período entre a morte e o renascimento foi muito curto, conseguimos ainda, com técnicas de recuperação genética à base de silício1919, reaver a sequência que precisávamos. Com isso, conseguimos esse achado. Percebemos, então, analisando as informações genéticas de zigotos de laboratório que, no setor das memórias, diferente do que alguns antepassados nos diziam, não somos uma tábula rasa. Se fôssemos, nesse setor não haveria expressão gênica ainda, cabendo ao desenvolvimento pessoal o despertar da fabricação proteica das lembranças. Nesse lugar, mesmo nos zigotos, já havia intensa elaboração de lembranças.  Não falo pensamentos, porque estes são produzidos em outros setores genéticos, falo mesmo de lembranças. O mais extraordinário, é que essas proteínas, a que demos o nome de mnemosines, são inativadas automaticamente, após produzidas por uma enzima que denominamos de mnemosinases, responsáveis pela, por assim dizer, amnésia dessas lembranças. 

AD: E o que isso tem a ver com esse caso?

Estevesonildo: Tudo! O que acontece com essa criança e com muitas outras com essa mesma patologia é que lhes faltam a enzima mnemosinase. Estamos trabalhando para a criação de um remédio que possa devolver a amnésia das lembranças de vidas passadas para elas. Os primeiros resultados foram desastrosos. A enzima era forte demais e acabou provocando um esquecimento não reversível para o resto da vida. As crianças não conseguiam se lembrar nem dos segundos imediatamente anteriores. É um efeito colateral possível, mas estamos levando adiante, com toda a ética que temos em mão, para a consagração desse feito. 

AD: Obrigado pela sua participação, Dr. Estevesonildo, pela do Sr. Sigismundo. Não percam no próximo bloco: o que os psicólogos e a religião tem a dizer sobre essa situação? E para você, que está nos assistindo, se o seu filho tem alguma lembrança de vida passada que lhe incomoda, ainda que não tenha assumido completamente a identidade da outra vida, entre no nosso chat, converse com nossos convidados. As discussões continuam nos intervalos. E, em instantes, voltaremos com mais “Reencontros com Allan Denizard” (toca vinheta).