Lemos hoje sobre a presença de Santo Agostinho como Espírito ajudando no nascimento do Espiritismo entre nós, humanidade. Em o Evangelho Segundo o Espiritismo, é o Espírito Erasto que evoca essa lembrança. Veio-me a dúvida sobre a teoria da graça ou da iluminação divina que Santo Agostinho construiu quando encarnado nos idos de quatrocentos depois de Cristo. Seria ela incompatível com o que pregamos? Concluímos que não.
A teoria da iluminação divina é bem simples de entender quando assumimos uma coisa: a corrupção que trazemos em nós como noção antropológica primeira. A observação da natureza humana que nos circunda torna isso bem evidente. Não somos santos. E os santos se destacam tanto mais quanto mais pecadores ao redor, quanto mais eles tem de se esforçar para se superpor às paixões que puxam o homem à selvageria.
Se o fim da salvação é a felicidade ao lado de Deus, algo tão supremo, como nossos atos, todos mesquinhos, por mais grandiosos que sejam, na nanica escala em que ocupamos no universo, como podem valer a salvação que Deus promete? Não valem nada - em comparação. Não quer dizer que não tenhamos que nos esforçar, mas aí está o nó da questão. Nó insolúvel para a modernidade: se Deus tem o poder de conceder a salvação, e apenas Ele, de que adianta o esforço?
Não é uma questão de o que adianta, não é uma questão de entender o propósito de Deus, tentação humana por excelência que nos faz se afastar Dele, já que extrapola o nosso limite essa pretensão, mas suportar conviver com o mistério. Confiar, ter fé, suportar o mistério, eis o que santifica o homem ao lado de amar. Se a equação da salvação fosse matemática, de que adiantaria a fé. Não passaria a vida de uma contabilidade de obras.
Nós espíritas caímos nesse erro quando não entendemos bem a psicologia da alma. Isso faz de Santo Agostinho um senhor muito atual. Queremos exigir de Deus que nos dê o céu porque merecemos. Quando Kardec conclui que fora da caridade não há salvação, essa caridade abarca tanta coisa, que mal cabe na nossa cabeça. Envolve os mais diversos tipos de ajuda material, as mais diversas dedicações para o desenvolvimento moral, mas, coisa esquecida!, a submissão do espírito à vontade de Deus, a tal ponto, virtude suprema!, de temer não ser um dos escolhidos. É aprender a conviver com o mistério.
O que é a teoria da iluminação, então? Não é rejeitar o livre-arbítrio, mas reconhecer que se ele é suficiente para nos fazer cair, nunca o será para nos salvar. Sempre haverá o hálito do Criador, insuflando boas resoluções a nos guiar para o bem. Saber surfar nessa onda é o que Ele espera de nós.
Meu amigo ainda comentou algo: que a reencarnação, coisa desconhecida ou rejeitada nos moldes em que ela era apresentada pelas heresias e pelos bárbaros da época de Agostinho, é a única forma de conciliar a bondade de Deus em querer salvar todos os seus filhos com o seu poder de verdadeiramente salvar no final dos tempos. Deus insufla o bem no coração humano, que hoje é pecador e amanhã será um santo, mais dia, menos dia, neste ou em outro milênio. Com a reencarnação reconciliamos os atributos de Deus, apartados, por exemplo, quando Diderot O acusava de negligente ou incoerente já que podia fazer o bem, queria fazer o bem e não o fazia. A teoria da transmigração evolutiva das almas não mais coloca a questão como um mero ato de Deus, mas devolve aos homens o sentido do esforço histórico. É preciso conquistar patamares de felicidade com ouvidos dóceis para os conselhos de Deus, através de seus mensageiros.
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domingo, 7 de abril de 2019
sexta-feira, 15 de março de 2019
Nova Era
Quase todas as semanas, as famílias nossas amigas se reúnem em torno de O Evangelho segundo o Espiritismo para discutir os temas suscitados por esse livro que nos é quase sagrado.
Ontem o encontro se iniciou com a exaltação das crianças alegres, pulando, inventando brincadeiras, que é a forma de umas dizerem às outras: que bom lhes rever.
Conversei um pouco com meu amigo relatando meus últimos esforços para entrar na vida saudável. Parabenizei-o pela entrevista que deu a respeito das precauções que a comunidade deve ter na época de chuvas com relâmpagos.
Ele tomou o violão que estava em seu carro, tocou uma música para nos elevar. O meu menor subiu à mesa e ficou olhando aqueles dedos darem vida às cordas do violão. Abrimos o Evangelho, que agora vínhamos lendo item por item, na sequência proposta por Kardec. Era a vez da "Nova Era":
"Deus é único e Moisés é o Espírito que Ele enviou em missão para torná-lo conhecido não só dos hebreus, como também dos povos pagãos..."
Ao final da leitura, tomou a palavra o violeiro:
- Me veio em mente, por algum motivo, que o problema da nossa era vem sendo os cristãos moralistas. Eles se esmeram ativa e bitoladamente para censurar comportamentos que eles consideram impróprios, mas cuja impropriedade pode ser apenas da cabeça deles. Eles se comportam como essa religião mosaica para a massa dos hebreus antigos, que eram tocados mais por sinais exteriores do que pelo espírito da mensagem.
- Entendo. Veja, por exemplo, aquele diálogo que tive com nosso amigo de orientação sexual homoafetiva. De certo modo, para ter aquele diálogo, que foi um de muito respeito, precisei sair do meu lugar para estar aberto àquela forma de amar um parceiro. É um diálogo que pede flexibilidade da sua forma própria de ver as relações, olhar com o espírito. E olhar o Espírito! Enxergar que aquele ser é um que vem passando por múltiplas experiências, das quais esta aqui não é senão a amostra de uma construção arquimilenar. A reencarnação é a salvação da intolerância!
- E apesar disso, desse alargamento de consciência que a reencarnação nos propõe, até mesmo espíritas renomados escorregam na intolerância.
- Por outro lado, fico pensando se podemos ser tão críticos assim com esses que defendem sua fé com fervor. Sempre me ressenti dos jovens ao meu redor que não tinham uma bandeira na vida, e seguiam pusilânimes, quase feito zumbis, preocupados com movimentos pequenos, quase imediatos na vida. O objetivo do agora é ir só até mais ali adiante, quando muito, quando não se desfaziam ensimesmados, sem brilho, sem causa para lutar.
- Mas, o que vejo é o contrário disso. Bandeiras e idolatrias de toda sorte foi o que (des)animou o Brasil nesses tempos. Há um ex-presidente preso, deus da esquerda. Há os que estão unidos, mãos dadas com força e desespero, através do ódio contra aquele que fazem questão de dizer ser um presidiário.
- De fato, hoje não é mais a frouxidão dos ideais que me preocupa, mas daqueles erroneamente abraçados. Então, a discussão toma outro rumo. Para não cair naquela frouxidão que, de certa forma caracteriza esses ecumenismos piegas, que, na gana de unir os diversos, reduz as singularidades das crenças a alguns dogmas possíveis de serem pacíficos, para não cair nisso, não deveríamos respeitar esses ativismos?
- O problema dos ativismos que evoco está em outra ordem. Ele se aprofunda e se torna abominável porque toca nos critérios de salvação da alma. Não se vê homens de times de futebol diferentes entendendo que o outro pode ir para o inferno em virtude de ser adversário. Mas, no caso por exemplo da homoafetividade, é essa a crença.
- De fato! Todavia, se eu tenho a ideia de que os gentios podem ser salvos, e que meu Deus é o único Deus possível, e que a partir dele uma única concepção do homem passível de salvação surge, estarei sendo um criminoso se não tentar a conversão. O próprio Bento XVI, em sua época, havia evocado que a questão da homoafetividade estava na concepção do homem segundo a Bíblia, segundo a natureza, que é aquela que Deus criou, na qual reside Sua vontade. Defendia ele, e é mesmo assim na teologia católica, que o homem possui uma natureza, uma essência, que Deus o criou com uma forma, e essa forma traz um propósito a ser maturado. O exercício ruim da liberdade afastou o homem de Deus e o conduziu à danação. A primeira consequência dessa visão de mundo é que o homem é livre até certo ponto, mas é um ponto que chega a poder desobedecer a vontade de Deus. O mal, em grande parte, vem dessa desobediência. A segunda conseqüência é a possibilidade de o homem ser convencido do contrário do que ele imagina ser o certo, isso deixa margem para seu retorno ao bem, caso ele esteja em pecado. Daí a possibilidade, e até mesmo a necessidade, do ativismo apostólico de espalhar a boa nova para a humanidade.
Minha esposa, que até então revezava a atenção entre nós e as crianças, argumentou:
- O problema é forçar essa salvação através de imposições exteriores que mais castigam do que elevam. A conversão verdadeira se faz através do próprio exemplo que ilumina os demais naturalmente.
Então, lembrei-me do romance "Crime e Castigo" de Dostoiéviski, onde a personagem Sônia era um símbolo dessa fala. A mulher mais fraca de todas, menos convincente, menos pura - se apenas olharmos o exterior. Ela era meretriz, mas para sustentar toda uma família. Era fraca, porque acreditava na força de todos os indivíduos. Não conseguia olhar ninguém no olho, porque considerava cada alma, por trás dos olhares, como um milagre maior do que sua própria vida. Ao final do romance, visitando presos na Sibéria, todos os presos a amavam. Quantas vezes ela pregou Cristo para aqueles criminosos? Nunca! E, ao mesmo tempo, a todo instante, através de cada célula de seu corpo, de cada movimento da sua alma.
Entendemos, então, que o que a Nova Era, inaugurada pelo Espiritismo, vinha passar era a assunção de Cristo em uma espiritualidade sutil que enfim nos faça ser sua imitação, sem ter que ficar alardeando nossa conversão e a necessidade de conversão dos outros com tanto mais vigor e rigor quanto menos nosso coração estivesse mergulhado naquilo.
Ontem o encontro se iniciou com a exaltação das crianças alegres, pulando, inventando brincadeiras, que é a forma de umas dizerem às outras: que bom lhes rever.
Conversei um pouco com meu amigo relatando meus últimos esforços para entrar na vida saudável. Parabenizei-o pela entrevista que deu a respeito das precauções que a comunidade deve ter na época de chuvas com relâmpagos.
Ele tomou o violão que estava em seu carro, tocou uma música para nos elevar. O meu menor subiu à mesa e ficou olhando aqueles dedos darem vida às cordas do violão. Abrimos o Evangelho, que agora vínhamos lendo item por item, na sequência proposta por Kardec. Era a vez da "Nova Era":
"Deus é único e Moisés é o Espírito que Ele enviou em missão para torná-lo conhecido não só dos hebreus, como também dos povos pagãos..."
Ao final da leitura, tomou a palavra o violeiro:
- Me veio em mente, por algum motivo, que o problema da nossa era vem sendo os cristãos moralistas. Eles se esmeram ativa e bitoladamente para censurar comportamentos que eles consideram impróprios, mas cuja impropriedade pode ser apenas da cabeça deles. Eles se comportam como essa religião mosaica para a massa dos hebreus antigos, que eram tocados mais por sinais exteriores do que pelo espírito da mensagem.
- Entendo. Veja, por exemplo, aquele diálogo que tive com nosso amigo de orientação sexual homoafetiva. De certo modo, para ter aquele diálogo, que foi um de muito respeito, precisei sair do meu lugar para estar aberto àquela forma de amar um parceiro. É um diálogo que pede flexibilidade da sua forma própria de ver as relações, olhar com o espírito. E olhar o Espírito! Enxergar que aquele ser é um que vem passando por múltiplas experiências, das quais esta aqui não é senão a amostra de uma construção arquimilenar. A reencarnação é a salvação da intolerância!
- E apesar disso, desse alargamento de consciência que a reencarnação nos propõe, até mesmo espíritas renomados escorregam na intolerância.
- Por outro lado, fico pensando se podemos ser tão críticos assim com esses que defendem sua fé com fervor. Sempre me ressenti dos jovens ao meu redor que não tinham uma bandeira na vida, e seguiam pusilânimes, quase feito zumbis, preocupados com movimentos pequenos, quase imediatos na vida. O objetivo do agora é ir só até mais ali adiante, quando muito, quando não se desfaziam ensimesmados, sem brilho, sem causa para lutar.
- Mas, o que vejo é o contrário disso. Bandeiras e idolatrias de toda sorte foi o que (des)animou o Brasil nesses tempos. Há um ex-presidente preso, deus da esquerda. Há os que estão unidos, mãos dadas com força e desespero, através do ódio contra aquele que fazem questão de dizer ser um presidiário.
- De fato, hoje não é mais a frouxidão dos ideais que me preocupa, mas daqueles erroneamente abraçados. Então, a discussão toma outro rumo. Para não cair naquela frouxidão que, de certa forma caracteriza esses ecumenismos piegas, que, na gana de unir os diversos, reduz as singularidades das crenças a alguns dogmas possíveis de serem pacíficos, para não cair nisso, não deveríamos respeitar esses ativismos?
- O problema dos ativismos que evoco está em outra ordem. Ele se aprofunda e se torna abominável porque toca nos critérios de salvação da alma. Não se vê homens de times de futebol diferentes entendendo que o outro pode ir para o inferno em virtude de ser adversário. Mas, no caso por exemplo da homoafetividade, é essa a crença.
- De fato! Todavia, se eu tenho a ideia de que os gentios podem ser salvos, e que meu Deus é o único Deus possível, e que a partir dele uma única concepção do homem passível de salvação surge, estarei sendo um criminoso se não tentar a conversão. O próprio Bento XVI, em sua época, havia evocado que a questão da homoafetividade estava na concepção do homem segundo a Bíblia, segundo a natureza, que é aquela que Deus criou, na qual reside Sua vontade. Defendia ele, e é mesmo assim na teologia católica, que o homem possui uma natureza, uma essência, que Deus o criou com uma forma, e essa forma traz um propósito a ser maturado. O exercício ruim da liberdade afastou o homem de Deus e o conduziu à danação. A primeira consequência dessa visão de mundo é que o homem é livre até certo ponto, mas é um ponto que chega a poder desobedecer a vontade de Deus. O mal, em grande parte, vem dessa desobediência. A segunda conseqüência é a possibilidade de o homem ser convencido do contrário do que ele imagina ser o certo, isso deixa margem para seu retorno ao bem, caso ele esteja em pecado. Daí a possibilidade, e até mesmo a necessidade, do ativismo apostólico de espalhar a boa nova para a humanidade.
Minha esposa, que até então revezava a atenção entre nós e as crianças, argumentou:
- O problema é forçar essa salvação através de imposições exteriores que mais castigam do que elevam. A conversão verdadeira se faz através do próprio exemplo que ilumina os demais naturalmente.
Então, lembrei-me do romance "Crime e Castigo" de Dostoiéviski, onde a personagem Sônia era um símbolo dessa fala. A mulher mais fraca de todas, menos convincente, menos pura - se apenas olharmos o exterior. Ela era meretriz, mas para sustentar toda uma família. Era fraca, porque acreditava na força de todos os indivíduos. Não conseguia olhar ninguém no olho, porque considerava cada alma, por trás dos olhares, como um milagre maior do que sua própria vida. Ao final do romance, visitando presos na Sibéria, todos os presos a amavam. Quantas vezes ela pregou Cristo para aqueles criminosos? Nunca! E, ao mesmo tempo, a todo instante, através de cada célula de seu corpo, de cada movimento da sua alma.
Entendemos, então, que o que a Nova Era, inaugurada pelo Espiritismo, vinha passar era a assunção de Cristo em uma espiritualidade sutil que enfim nos faça ser sua imitação, sem ter que ficar alardeando nossa conversão e a necessidade de conversão dos outros com tanto mais vigor e rigor quanto menos nosso coração estivesse mergulhado naquilo.
sexta-feira, 12 de janeiro de 2018
Conversando com amiga psiquiatra
Uma amiga psiquiatra, que anda rondando o Espiritismo, me disse assim: "o Evangelho segundo o Espiritismo é lindo. Gostei mais dele do que do Livro dos Espíritos. Ele traz mais esperança".
Desde a primeira vez que ela me abordou, não imaginava que ela iria mergulhar tanto. As pessoas vêm a mim, pedem dicas, passam de raspão e seguem. Mas, algumas param, leem, se encantam. O conhecimento passa por três grandes vias: o estranhamento, o encantamento e o encontro. Por elas, entendo ter passado essa moça.
Venho construindo um ambulatório de saúde mental na atenção primária, e já havia me esquecido o quanto os pacientes de lá são intrigantes. Abstração feita da ansiedade e depressão – mal do século, que nos conduzem à busca de uma escola de pensamento que dê mais alento do que apenas medicalização – as ditas alucinações de alguns pacientes nos intrigam sobremaneira, tamanha a “elaboração” e, em certos casos, a inocência. Por que medicalizar essas visões de convivência pacífica? Muito pano para manga para estranhar. Foi o que disse a ela:
“Por mais escolas de pensamento que a psiquiatria tenha engolido, sentimos que ainda falta explicação para a estranheza dos fenômenos mergulhados nas profundezas das pessoas.” A amiga aquiesceu.
Admirei, então, que ela, tão mergulhada em ciência, tenha se encantado mais com o Evangelho Segundo Espiritismo do que com o Livro dos Espíritos. Não que o Livro dos Espíritos seja científico, mas é mais a fim da produção de saber da ciência, pois são diálogos, argumentos, contra-argumentos e comentários, do que mensagens de consolo e direcionamentos morais, como o é aquele primeiro livro.
Quando entramos no universo da psiquiatria, um véu de explicações é posto sobre nossos olhos a fim de apaziguar a angústia de ver todas aquelas personalidades desestruturadas vagando nos corredores dos ainda manicômios. Algumas pessoas se apegam ao discurso estritamente racional para elevar a visão aos píncaros cerebrais, e afastar-se do coração. Todavia, o que vejo se espalhar por aí, como dizia Chico Xavier, é uma “saudade de Jesus”. Nesta personalidade, era menos ciência e mais acolhida, mais amparo, mais nortes, mais amor.
Como que uma projeção laica do que foi aquele encontro histórico da humanidade com o que demos de denominar salvador, parece ser isso que procuramos hoje em dia: menos ciência, mais acolhida, mais amparo, mais nortes, mais amor. Não que a ciência deva inexistir. Isso nos devolveria à selvageria. Por isso o Livro dos Espíritos, o Livro dos Médiuns e, de certa forma, a Gênese. Todavia, quando Kardec ousou atrelar, indelevelmente, o Espiritismo ao Cristianismo com a sua “Imitação do Evangelho”, acrescentou entre nós o (re)encontro com o Cristo, buscando tocar o sentimento que é grande parte de nós, sem prescindir da razão, essa ponta de iceberg. A isso ele chamou de “fé raciocinada”, o que, para os detratores da religião, parece um absurdo, mas que para mim, criado nesses moldes, é uma doce razão – aquilo que adoça a razão.
Sinto que, feito meu amigo ateu, terei muito o que falar sobre essa visita mansa de minha amiga.
quinta-feira, 28 de setembro de 2017
Mundo líquido segundo o Evangelho
(Reflexão engendrada por ocasião de palestra proferida ao dia 27 de setembro de 2017 acerca do tema "A coragem da fé", presente em O Evangelho Segundo o Espiritismo)
E o barco estava já no meio do mar, açoitado pelas ondas; porque o vento era contrário; Mas, à quarta vigília da noite, dirigiu-se Jesus para eles, andando por cima do mar. E os discípulos, vendo-o andando sobre o mar, assustaram-se, dizendo: É um fantasma. E gritaram com medo. Jesus, porém, lhes falou logo, dizendo: Tende bom ânimo, sou eu, não temais. E respondeu-lhe Pedro, e disse: Senhor, se és tu, manda-me ir ter contigo por cima das águas. E ele disse: Vem. E Pedro, descendo do barco, andou sobre as águas para ir ter com Jesus. Mas, sentindo o vento forte, teve medo; e, começando a ir para o fundo, clamou, dizendo: Senhor, salva-me! E logo Jesus, estendendo a mão, segurou-o, e disse-lhe: Homem de pouca fé, por que duvidaste? (Mateus 14:24-31)
O primeiro elemento que me chama a atenção nesta passagem são as águas em meio ao vento contrário e o açoite das ondas. Andar sobre elas é ainda mais assustador do que ver um fantasma. Todavia, Pedro se atreve.
Dizem os biólogos que o mundo nos acolhe líquido ao ventre materno e, por muito tempo, permanece líquido para nossa compreensão.
Quando finalmente o entendemos sólido, vêm os filósofos e sociólogos, e dizem que permanece líquido. É o apeiron de Anaximandro, mas também o mundo líquido de Bauman, por motivos diferentes. O primeiro entendia que nosso gueto de existência está circundado por um sem fim de caos inapreensível, de onde tudo deve ter se originado. O segundo entende que a concepção mais ou menos rochosa da realidade que a cosmologia dos antigos e a teologia dos medievais nos davam se liquefez nestes tempos pós-modernos. As amizades e os amores não possuem mais aquela eternidade de antes, mas se desfazem com qualquer vento contrário e açoite de uma onda qualquer.
Essa concepção é a visão da primeira metade da cena evangélica que expus. O temível mundo das águas. Mas, há algo além do vapor do mar. O que é? Jesus, seu convite e sua postura de acolhimento.
Sabe-se que Jesus era um homem de tal encanto e magnetismo que sua presença acalmava nossos mares revoltos. De outro modo, sua mesma presença tinha o poder de provocar morte nas pessoas: do que elas vinham sendo para, então, ressuscitarem no que elas estavam destinadas a ser. Isso é o que demos para chamar, na tradição cristã, de conversão.
De volta às águas, lembramos que na imagem veterotestamentária, tudo antes de ser criado por Deus era apenas água. E o Senhor pairava sobre elas.
A associação me parece clara. A cena em que Jesus paira sobre as águas reproduz solenemente o ato criador do mundo. Pedro teme e cai. O fundo das águas se mistura com sua morte iminente. Jesus toma-o pela mão e o salva, o que quer dizer uma nova criação para Pedro. Se antes ele ainda não existia em Cristo, desta vez pode se considerar batizado para a nova vida.
Isso não impede que Pedro venha a experimentar a morte do cristão em outras passagens, particularmente quando nega o rabi. Mas, o cristão não é reconhecido pela sua perfeição, mas pelo jeito de sua caminhada, buscando pairar sobre as sólidas palavras de Cristo, ainda que em passos vacilantes.
Ao mundo líquido de Bauman ou ao apeiron de Anaximandro, ou ainda, ao universo da termodinâmica que se derreterá em caos após toda a energia ter se dissipado em calor, sobreviverá o Espírito de cada pessoa que Deus criou. Tão logo qualquer corpo submergir nas águas primárias da criação, é a mão de Deus que resgatará o homem para continuar sua escalada em outros corpos, planetas, universos criados.
O mundo vem precisando de Cristo sobre as águas. E enxergá-lo perto de nós com sua mão estendida, acredito ser a grande resposta do mal-estar do milênio.
Figura: De Amédée Varin, Le Christ marchant sur la mer. Disponível em http://www.culture.gouv.fr/GOUPIL/IMAGES/101_Christ_sur_eau.jpg (Gravures et eaux fortes)
sábado, 3 de junho de 2017
O significado da tragédia para o Espiritismo
A maior parte da literatura erudita se curva para a tragédia. Raro é o romance ou a peça que promova um movimento tão grande de afetos na alma humana que não se valha de elementos trágicos. A comicidade, como irmã menor no mundo da estética, movimenta os humores do homem, mas não desce tão fundo (1). Como podemos conservar o estatuto da grandeza trágica, mantendo o otimismo espírita-cristão?
Alguns esclarecimentos preliminares. A tragédia não é a maldade, mas o irreconciliável. Não é a perdição ou a danação, mas a impossibilidade de salvação (2). Não porque o homem não mereça - pode até não merecer - mas antes disso, ele não foi feito para durar. Nada foi. Nada será a não ser Deus. Mesmo o Espírito, que até para mundividência da antiguidade clássica pode ser encarado como imortal, não dura, pois muda. E a mudança é a identidade do efêmero.
Se por um lado isso pode dar uma brisa de alento, saber que qualquer sofrimento passa, em verdade aterroriza bem mais, porque junto com o que passa vai a identidade atual de tudo o que nos cerca, inclusive nós mesmos, nosso caro eu. A morte é trágica e sempre fecha o livro que vimos escrevendo (3).
As forças que geram e movimentam as histórias trágicas se originam do sobre-humano. Quando falamos que deuses, ou Deus, está por trás dessa ou daquela ação, é apenas a uma questão que nos referimos: o homem não a controla, não a pode controlar.
Por vezes a causa da força trágica está mesmo em uma instância superior a dos deuses, o que deu motivo para falar em destino. A mitologia grega enxergava deusas, ainda mais superioras, que teciam as histórias das gentes e dos deuses menores. Elas são cegas e cheias de artrose nas mãos que tecem. Na tradição cristã, os desígnios impenetráveis ou estão na razão de Deus, que não é menos impenetrável para o homem, ou estão na própria Razão de tudo, a que Deus (blasfêmia spinozista) se submete (4).
Jó é a tragédia judaica por excelência. Deus deixa Satanás esvaziar Jó até a última gota da humanidade deste. Aqueles que enxergam o messianismo judaico-cristão sempre como o concessor de vitórias neste mundo perdem o exemplo de todas as tragédias pelas quais passaram os heróis do antigo e do novo testamento. Jesus no topo delas (5).
A tragédia grega não é a inimiga das histórias de redenção cristã. Pelo contrário, ela é responsável pela maior parte do enredo. Forças que se escondem na vontade de Deus, no pecado dos pais e, no caso do Espiritismo, no passado do Espírito reencarnante, vão empurrando o herói trágico para o fim. Repito, o fim.
É no herói trágico que devemos focar a atenção. Este, movido por não sei que força moral, a que os gregos chamavam coragem, e os cristãos denominaram amor, uma chama que resiste no peito apesar de tudo desmoronando, consegue chegar ao final da história, ainda que apenas com a última parte de seu corpo exangue no derradeiro momento. É como se o universo que tende a aniquilar tudo, a humilhar qualquer vida, a aplainar todos os seres, não fosse suficiente para derrotar o herói, pelo menos não até que o fim se faça presente em toda sua imponência (3).
Todos os elementos da tragédia grega estão presentes na cristã. Não é verdade que os heróis cristãos são menores por se pautarem em esperanças vãs. Tanto uns quanto os outros tem uma determinação que sorvem de um universo tão sobre-humano quanto as forças que os querem esmagados. Todavia, ouso dizer, essas forças rompem o círculo das Moiras (as tecelãs de destino), penetram no impenetrável do Deus cristão, fecundam o universo mortal e, apoteose!, provocam ressurreição. É essa palavra - ressurreição - que é o topo da arte cristã. As leis da implacável termodinâmica se estilhaçam, um mundo novo se ergue no horizonte.
Se as tragédias gregas levavam a platéia até o abismo da alma humana, provocando a tal da catarse que Aristóteles reconheceu (1;2), é a ressurreição cristã que, saltando o abismo, leva a alma humana até Deus. A catarse movimenta os humores mais podres que transformam vida em doença. A ressurreição, sublimando-os, redime a doença em vida. De forma muito incipiente algumas tragédias gregas davam essa noção, tentando finalizar as histórias com um deus que descia de uma máquina para solucionar o emaranhado trágico (Deus ex-machina). Na história do evangelho, o herói é o deus que se fez carne, viveu a tragédia humana, e salvou o homem - após o fim.
Quando, no Espiritismo, dizemos que todos os homens ressuscitam, pois após a morte ressurgem em um corpo imortal, é uma associação fraca com o que Jesus viveu. Sim, todos os homens são capazes de ressuscitar, mas para isso, no sentido que os evangelhos narram, devemos conseguir deixar passar em nós toda doença, traição e morte que representa a condição humana em que estamos afogados.
Ressuscitar, sim, mas a morte, antes.
segunda-feira, 29 de maio de 2017
Quando acontece o milagre?
Você já se sentiu submerso em um mar de forças contra as quais parecia inútil lutar? Forças que ou queriam esmagar sua cabeça ou a dos que você amava, magnanimamente superiores a qualquer um? Bem, um dos nomes delas é mundo.
Consideramos ridícula a tradição judaica-cristã por "inventar" um deus para salvar o homem. Um deus que se manifesta em imagens redutoras na matéria, mas cuja real natureza transcende qualquer noção deste mundo.
A verdade é que qualquer pensamento que queira apontar alguma solução para a aventura humana terá de recorrer a este artifício: inventar um deus. Aqui é a causa revolucionária, ali é a ciência, mais além é a pátria, acolá é a autonomia, bem mais acolá é a mãe-terra.
O mundo é tão vasto e tão incognoscível que temos de colocar marcos para qualquer horizonte fora de nós a fim de termos alguma noção para onde andar. Do contrário, paralisia.
O sentimento do homem no deserto, após dias vagando, sem água, sem comida, sem qualquer sinal de abrigo: parar e reconhecer a enormidade do mundo. Ajoelhar-se, quedar-se à areia. Submergir. Entregar-se à unidade com o solo. Parar de resistir.
É aí, quando as defesas do homem estão expostas, que o tema de Deus aparece com esplendor. Ao contrário do que imaginam os céticos, isso não demonstra as convulsões de um homem querendo viver. A verdade de Deus, Aquele que É, surge imponente quando a vida do homem já não é mais.
"Deus está morto!", berrava Zaratustra anunciando a vida do homem. O contrário ainda é mais verdadeiro: O homem está morto, vede Deus vivo! A sarça, símbolo da sequidão, arde e não se consome, símbolo da perpétua morte que não se consuma, mas vive para sempre.
Quando acontece o milagre, então? Quando o homem está pronto para recebê-lo? Não. Quando o homem está morto. Lázaro é o ápice do Evangelho.
domingo, 14 de maio de 2017
Obsessão: como escapar
[Após exposição sobre o tema "Obsessão, o que é e como escapar"]
PREMISSA: Obsessão é a influência maligna e insistente de um Espírito, costumeiramente desencarnado, sobre uma pessoa, seus pensamentos, podendo acontecer uma gradação de domínios sobre os atos do indivíduo.
PERGUNTA DA OUVINTE: "Como identificar que uma pessoa tem obsessão e como ajudar esta pessoa?"
RESPOSTA: Há vários graus de obsessão e podemos dividi-las em três tipos especiais.
- A obsessão simples: o indivíduo ainda tem aquela consciência de que os pensamentos sugeridos são intrusos.
- A obsessão de subjugação: há esse sentimento de intrusão, mas o controle sobre os atos se perde.
- A obsessão de fascinação: o sentimento de intrusão se perde, pois a sugestão do Espírito se imiscui em pensamentos mais íntimos, provocando como que uma subjugação hipnótica que faz com que você se torne fantoche dele sem se dar conta.
Antes de saber quando ajudar, é preciso saber se há necessidade de oferecer ajuda. Pois pode-se cair no problema maior da psiquiatria: estaria eu tratando uma pessoa normal? Como saber se esse comportamento não passa de uma singularidade do Espírito? Há a dica de um velho professor meu que pedia para nos atentar para os quatro Ds:
- Dor (para si ou para os outros)
- Disfunção (cotidiana, laboral, conjugal)
- Dissociação (desligamento da consciência ou assunção de outro estado de consciência reativo a evento traumático)
- Desrealização (sentimento de estranheza em relação ao mundo)
Esses Ds são os mais icônicos. Há uma infinidade de sintomas psicopatológicos, mas que findam por evidenciar algum grau destes Ds. Todos eles denotam algum grau de sofrimento psíquico. Claro que a cultura pode exacerbar ou amenizar estes sentimentos. O preconceito contra um médium pode causar dor para a família, para o médium, deixá-lo disfuncional, fazê-lo sentir-se dissociando e desrealizando, quando os fenômenos que experiencia não passam de alterações parapsíquicas. É essa brecha que o obsessor precisa para atacá-lo, reforçando todos os sentimentos negativos que vem cultivando no coração angustiado.
Às vezes é clara a obsessão espiritual, outras vezes pode não passar de um julgamento precipitado segundo os nossos preconceitos. Não raras vezes, aquele que quer ajudar os outros é o maior obsediado!
O maior antídoto para a obsessão é a abertura à crítica e... (merece uma pausa estratégica)... o Evangelho! Devemos nos submeter diariamente à sabedoria do Evangelho, para que ele nos critique e nos aponte os caminhos de crescimento.
Não há como negar: nossa civilização é cristã. Cada civilização foi gerada em cima de uma sabedoria. A nossa, é a de Cristo. Há outros luminares da história. Pode-se se apegar a eles. O que não dá é sair por aí tentando ser "o gostosão", "o sabichão", "o portador da verdade original" acima desses caras "desatualizados". As falas de cristos e budas não são itens da esteira de atualização das ciências modernas, são obras-primas do divino.
Visitei um templo budista em que os monges todas os dias acordavam para ir ao templo desatar um dos escritos de Buda e passar a manhã meditando sobre uma frase dele. Os espíritas deram por fazer isso com o Evangelho segundo o Espiritismo, e, em família, implementar o culto do Evangelho no Lar, momento singular de meditação grupal.
Quer ajudar? Primeiro veja, diariamente, se não é você que está precisando de ajuda. Permita que Jesus lave seus pés. Fortaleça-se com o estudo contínuo. Encha seus conhecimentos com práticas de caridade, para que, quando as palavras de conselho e consolo saiam de sua boca, venham recheadas de autoridade moral, sem pedantismo.
Você tem certeza que a pessoa que você quer bem está obsediada? Escute mais do que fale a princípio. Nenhuma obsessão se instala sobre o nada, mas sim sobre uma história. Todo obsessor quer ser ouvido através de seu obsediado. Lembre que o mal é um bem se partejando com grande sofrimento. Como todo bom parteiro, mais vale estar presente, prestes, à postos como amigo, do que ativamente interferindo no processo de entendimento dos implicados. Não há vítimas e carrascos nestes processos, porém aprendizes das lições do amor.
sexta-feira, 31 de março de 2017
Porta estreita
(Em razão da palestra concedida à Sociedade Espírita Irmãos do Caminho, ao dia 29 de março de 2017)
Eis a passagem evangélica a ser interpretada:
E disse-lhe um: Senhor, são poucos os que se salvam? E ele lhe respondeu:
Porfiai por entrar pela porta estreita; porque eu vos digo que muitos procurarão entrar, e não poderão.
Quando o pai de família se levantar e cerrar a porta, e começardes, de fora, a bater à porta, dizendo: Senhor, Senhor, abre-nos; e, respondendo ele, vos disser: Não sei de onde vós sois;
Então começareis a dizer: Temos comido e bebido na tua presença, e tu tens ensinado nas nossas ruas.
E ele vos responderá: Digo-vos que não vos conheço nem sei de onde vós sois; apartai-vos de mim, vós todos os que praticais a iniqüidade.
Ali haverá choro e ranger de dentes, quando virdes Abraão, e Isaque, e Jacó, e todos os profetas no reino de Deus, e vós lançados fora.
E virão do oriente, e do ocidente, e do norte, e do sul, e assentar-se-ão à mesa no reino de Deus.
E eis que derradeiros há que serão os primeiros; e primeiros há que serão os derradeiros.
Lucas 13:23-30
Porfiai por entrar pela porta estreita; porque eu vos digo que muitos procurarão entrar, e não poderão.
Quando o pai de família se levantar e cerrar a porta, e começardes, de fora, a bater à porta, dizendo: Senhor, Senhor, abre-nos; e, respondendo ele, vos disser: Não sei de onde vós sois;
Então começareis a dizer: Temos comido e bebido na tua presença, e tu tens ensinado nas nossas ruas.
E ele vos responderá: Digo-vos que não vos conheço nem sei de onde vós sois; apartai-vos de mim, vós todos os que praticais a iniqüidade.
Ali haverá choro e ranger de dentes, quando virdes Abraão, e Isaque, e Jacó, e todos os profetas no reino de Deus, e vós lançados fora.
E virão do oriente, e do ocidente, e do norte, e do sul, e assentar-se-ão à mesa no reino de Deus.
E eis que derradeiros há que serão os primeiros; e primeiros há que serão os derradeiros.
Lucas 13:23-30
E disse-lhe um: Senhor, são poucos os que se salvam? E ele lhe respondeu:
Porfiai por entrar pela porta estreita; porque eu vos digo que muitos procurarão entrar, e não poderão.
Quando o pai de família se levantar e cerrar a porta, e começardes, de fora, a bater à porta, dizendo: Senhor, Senhor, abre-nos; e, respondendo ele, vos disser: Não sei de onde vós sois;
Então começareis a dizer: Temos comido e bebido na tua presença, e tu tens ensinado nas nossas ruas.
E ele vos responderá: Digo-vos que não vos conheço nem sei de onde vós sois; apartai-vos de mim, vós todos os que praticais a iniqüidade.
Ali haverá choro e ranger de dentes, quando virdes Abraão, e Isaque, e Jacó, e todos os profetas no reino de Deus, e vós lançados fora.
E virão do oriente, e do ocidente, e do norte, e do sul, e assentar-se-ão à mesa no reino de Deus.
E eis que derradeiros há que serão os primeiros; e primeiros há que serão os derradeiros.
Lucas 13:23-30
Porfiai por entrar pela porta estreita; porque eu vos digo que muitos procurarão entrar, e não poderão.
Quando o pai de família se levantar e cerrar a porta, e começardes, de fora, a bater à porta, dizendo: Senhor, Senhor, abre-nos; e, respondendo ele, vos disser: Não sei de onde vós sois;
Então começareis a dizer: Temos comido e bebido na tua presença, e tu tens ensinado nas nossas ruas.
E ele vos responderá: Digo-vos que não vos conheço nem sei de onde vós sois; apartai-vos de mim, vós todos os que praticais a iniqüidade.
Ali haverá choro e ranger de dentes, quando virdes Abraão, e Isaque, e Jacó, e todos os profetas no reino de Deus, e vós lançados fora.
E virão do oriente, e do ocidente, e do norte, e do sul, e assentar-se-ão à mesa no reino de Deus.
E eis que derradeiros há que serão os primeiros; e primeiros há que serão os derradeiros.
Lucas 13:23-30
"Alguém lhe perguntou: Senhor, são poucos os homens que se salvam? Ele respondeu: Procurai entrar pela porta estreita; porque, digo-vos, muitos procurarão entrar e não o conseguirão. Quando o pai de família tiver entrado e fechado a porta, e vós, de fora, começardes a bater à porta, dizendo: Senhor, Senhor, abre-nos, ele responderá: Digo-vos que não sei de onde sois. Direis então: Comemos e bebemos contigo e tu ensinaste em nossas praças. Ele, porém, vos dirá: Não sei de onde sois; apartai-vos de mim todos vós que sois malfeitores. Ali haverá choro e ranger de dentes, quando virdes Abraão, Isaac, Jacó e todos os profetas no Reino de Deus, e vós serdes lançados para fora. Virão do oriente e do ocidente, do norte e do sul, e sentar-se-ão à mesa no Reino de Deus. Há últimos que serão os primeiros, e há primeiros que serão os últimos."
São Lucas, 13:23-30
Relendo essa passagem, há novidades que me saltaram aos olhos. A primeira é que em Mateus (7:14), Jesus fala que pequena é a porta ou o caminho que leva à vida. O que seria, então vida para Jesus?
Nessa passagem de Lucas, aparece a questão da salvação, do Reino dos Céus como um festim, e do pai de família que fechará a porta.
Vou falar, então, sobre essas imagens, para ver se conseguimos uma interpretação orgânica.
Vida
Para Jesus, vida é mais que simplesmente estar com o corpo em movimento, portando energia vital, tendo os órgãos pulsando. Uma passagem assaz significativa é em João (14:19) que Jesus diz viver, mas que os apóstolos viverão ainda. E fala isso perto do seu desenlace trágico. Isto é, iria morrer, mas diz: "eu vivo". E mesmo depois de morrer esse "eu vivo" ainda permanece válido. Perceba que não disse "viverei", como se fosse um viver após a morte de que seria vítima.É que a vida da Boa Nova é um despertar de consciência. Aquele que tem a palavra de Deus ou o reino de Deus já implementado em seu coração, este vive.
A meta do Espírito, pois, é despertar-se para a vida. Jesus já era desperto. Os apóstolos ainda iriam acordar. E veja mesmo que Pedro, a pedra fundamental da igreja, só veio passar pelo verdadeiro despertar quando submetido a contradição profunda de enfrentar o mundo escolhendo à Cristo. Enquanto Jesus aparecia sedutor e infalível entre o povo, não era difícil largar a rede de pesca para segui-Lo, porém ao mostrar-Se falido e mortificado entre os algozes, os sentimentos mudam de figura. A dúvida aparece pungente. Seria esse mesmo o Messias que haveria de vir? Curou tantas pessoas e não pode salvar a si mesmo?
Essa dor de Pedro repete-se, como uma maldição, em todo despertar do Espírito dos cristãos desde então. Porém, não vemos no Espiritismo como uma maldição, mas como um estímulo que no tempo oportuno irá gerar o movimento certo. Daí surge a questão do Reino.
Reino
Antes daquela passagem de Lucas, Jesus desafiava os olhos das pessoas com curas, e escandalizava a Lei profanando o dia de sábado em favor da salvação dos homens. Quando começa a falar do Reino, toma a figura de um grão de mostarda que cresce, torna-se frondoso, e aninha os pássaros do céu.Ora, o Reino dos céus só pode ser plantado por Deus, e é Deus mesmo que cria a semente. Por que a semente? Por que não surge um reino de súbito num fiat lux? É que a semente traz consigo um símbolo pedagógico. Ela contém, em-si, tudo o que ainda vai acontecer. Porém, ela é portadora de um tempo de acontecer. E de um tempo propício. É preciso condições e cuidados para que o que há nela vingue. O Reino, pois, pode não ser mesmo um lugar estanque no espaço, mas um crescimento para uma forma absoluta do Ser que, atualizado em nós, passa a ser abrigo e sombra para muitos.
Essa é a visão espírita. Estar no Reino de Deus é ser uma consciência desperta. Todavia, um despertar que custa vidas sucessivas para acontecer. Cada momento na existência do Espírito conta para esse desabrochar. Ao final, não é nós que atingimos o Reino, mas ele que está frondoso em nós. Passamos a ser abrigo e consolo para os transeuntes. É a figura do sábio, é a figura do santo, é Cristo como modelo.
Salvar-se, então, é estar salvo. E não ser resgatado para este ou aquele lugar paradisíaco. E quando a pessoa vive a salvação em si, o lugar não mais importa, já que Deus não habita um lugar senão todo o universo mergulhado nEle.
Pai
Contudo, depois de todas essa viagem exegética, algo soa estranho. O pai de família que segura a porta estreita fecha a porta para alguns filhos. Se há uma imagem de fato para "choro e ranger de dentes" é a de um filho chegar na casa de seu pai e não poder entrar. Pelejar, implorar até, e a porta, implacável, cerrar aos seus olhos. Não parece condizer com a figura amável do Pai que Jesus prega aqui e acolá. Contradiz-se com àquela do filho pródigo, que teve uma festa ao seu retorno. Pois bem, esta última parábola, considero a chave interpretativa maior para esse problema.Nós ou somos peregrinos ou somos moradores da casa. Eis a figura dos dois filhos. Quando não fazemos a vontade do Pai, é que o mundo nos chama, é que o mundo nos espera para nosso amadurecimento, frequentemente com dores, que são a tomada de consciência que a casca (o exoesqueleto) a nos envolver vem pequena demais.
O Espiritismo vem dizer que não há ranger de dentes perpétuo, não há inferno infindo. A reencarnação é a oportunidade que o Pai de todos dá para que consertemos o que deixamos quebrado, que continuemos os trabalhos incompletos. Temos todo o Reino em nós, e a casa do Pai aguarda com festa o dia do nosso retorno - quando estivermos preparados para receber a herança.
domingo, 26 de fevereiro de 2017
Ascendência da Pomada do Vovô Pedro
Havia uma passagem que sempre estranhei nas histórias sobre Jesus:
"(...) Enquanto eu estiver no mundo, eu sou a Luz do mundo. Depois de Jesus ter dito isto, ele cuspiu no chão e fez um pouco de lama com a saliva. Depois passou a lama nos olhos do cego (...)" (João 9:5-6)
E fez-se a luz para o cego!
A interpretação canônica vai fundo na simbologia e diz que Jesus aqui imitou o gesto primordial de seu Pai que pariu o mundo no fazimento da luz. Quando Adão foi gestado, ele nasceu do limo, do barro, da lama. Ele estava, portanto, submerso na escuridão da pré-criação, cego, inexistente, e da lama passa a enxergar.
Entre os espíritas brasileiros, e para os simpatizantes, algo que se afilia acontece. É uma pomada singela que promete servir para amenizar vários males. Ela tem cheiro de ervas e uma consistência mais viscosa do que as pomadas comuns. Conta-se que a receita é mediúnica e, se revelada, perderá o efeito*. É que o Espírito, o vovô Pedro, quis que ela fosse gratuita para todos, seja porque, em Espírito, já não precisa de dinheiro ou fama, seja porque o restabelecimento da saúde deveria ser um bem não capitalizável. O fato é que nacionalmente ela é reproduzida por voluntários que a fabricam em prece. A posologia é fácil: "passar na zona afetada como se desse um passe".
À época de Kardec, soube-se de uma pomada assim, mas de receita livre. Em novembro de 1862, a médium Ermance Dufaux permite a publicação dos ingredientes de um ungüento que um Espírito havia lhe passado. Prometia, assim, um efeito extraordinário de sanar vários males.
Eram grãos, tubérculos, raízes misturados em uma cera.
A minha hipótese para essa panacéia não se reduz ao efeito placebo. Como algo que cumpre o que promete, ao ponto de atrair novos voluntários e usuários, serve para tão grandes aplicações? A medicina ocidental oficial geralmente nos traz remédios com um espectro de ação muito obtuso. Penso que o efeito não está nos ingredientes em si, mas que servem como meio excelente de acumulação e propagação de fluidos de cura. Como uma pilha a acumular carga, a pasta absorve as preces dos voluntários e se potencializa com a prece do enfermo. Os componentes lançam ao organismo todo esse conjunto de fluidos curadores e, daí, provocam as alterações celulares necessárias para o restabelecimento do equilíbrio.
Antropologicamente é um fenômeno maravilhoso, como tantas outras formas de a comunidade tentar restabelecer a própria saúde por meios não oficiais. Imagine milhares de pessoas devotadas religiosamente a fabricar um bem gratuito para todos os enfermos. A simbologia desse gesto já dá o que pensar.
Como acontece na base da crença espírita sobre os milagres do Evangelho, vê-se que as ações de Jesus podem ser reproduzidas quando as pessoas, com fé, se irmanam a mover montanhas. É a herança que Deus nos deu de fazer brotar luz da lama.
sexta-feira, 8 de janeiro de 2016
Sobre solidão
Demos sempre para ver as grandes almas nos seus momentos áureos percorrendo as gentes e fazendo milagres. Habituamo-nos assim a pensar que o grande milagre mesmo é sair do lugar onde estamos e andar para o povo, mexer com ele, ressuscitar os aflitos e desanimados. Assim vimos Jesus fazendo. João, o evangelista, chega mesmo a dizer ao final de suas narrativas:
Há, porém, ainda muitas outras coisas que Jesus fez; e se cada uma das quais fosse escrita, cuido que nem ainda o mundo todo poderia conter os livros que se escrevessem. (João 21:25)
Fazer é o verbo que vive a castigar-nos a atenção. Mesmo aos não-crentes, o modelo que se instalou em nossa sociedade é exatamente este: produção. E talvez mesmo por isso, tendemos a ver Jesus assim: o fazedor.
Esquecemos que antes de convocar os apóstolos houve dois desertos: o da ausência de qualquer história - oficializada - que nos diga o que estava fazendo ele pela adolescência a fora e o da viagem que ele percorreu enfrentando o seu Oposto longe de todos. Nenhum cristão, em sã consciência interpretativa, diria que esses períodos seriam menos santos do que o capítulo de "fazedor de milagres" e "pregador do povo".
Cada um dessa forma, considerando a vida de Jesus como modelo, não deveria desperdiçar as oportunidades que temos de:
1. Ter uma história silenciosa de vida;
2. Ter uma viagem pelo próprio deserto a enfrentar o seu oposto longe de todos.
Entendendo que mais cedo ou mais tarde (meu amigo astrônomo diz que isso demora alguns milênios para ocorrer), a Terra desloca seus pólos e o deserto vira mar. É quando, então, somos incitados a nadar entre as gentes de novo e nos aquecer com o calor do povo, bem como nos queimar com as traições, arder com as paixões, amar sem medida.
A vida é um pêndulo, a solidão um dos fatos extremos. E isso é só. E isso é belo.
PS.: Amigo distante que vem enfrentando o deserto me diz que há um nome para solidão não-patológica: solitude. Qual não é minha surpresa quando encontro ao dicionário que o significado dela é "solidão poética".
quarta-feira, 23 de dezembro de 2015
O que temos a comemorar no natal de Jesus
O que nos incita alegria no natal de Jesus?
Estamos diante de uma família pobre, de uma cidade pequena, que teve de enfrentar peregrinação em plena gravidez e que só consegue guarida para dar à luz o menino, no escuro da noite, na imundície de uma estrebaria. Após o seu nascimento, quando a carne da criança ainda se ressente do frio, enfrenta a travessia de um deserto para se esconder de quem lhe queria morto. Enquanto seus pais fogem para lhe manter vivo, um rio de sangue escorre das terras em que acabara de nascer, alimentado pelas veias abertas de mil crianças de infância precoce. As lâminas almejavam que uma delas fosse Jesus.
Até aqui, nada a comemorar.
O que festejamos?
O anúncio de que um ser divino pousaria na carne já tanto sofrida desses achaques autorizados por governantes cruéis.
A surpresa de ver a esperança de salvação nascendo de onde menos se imaginava que viesse. Uma cidade marginal, uma família desconhecida, de um carpinteiro qualquer.
A resistência de não fenecer diante da voracidade do mundo dos homens que há muito mastigava os seres humanos com seus dentes ferinos.
A manifestação de anjos entre nós: anunciando a gravidez improvável de Isabel, calando Zacarias, dizendo o nome do menino à Maria, acalmando José, guiando os magos, enganando Herodes, não cansando de entrar nos sonhos destes personagens para dar nortes e providenciar a sobrevida de Jesus pequenino.
Festejamos, então, Deus conosco, anunciando a resposta das preces na figura de uma criança que traz libertação, surpreendendo-nos com a forma que responde aos nossos apelos, concedendo resistência para que sua promessa viva não feneça no mal, provocando mensagens que transpassam o abismo que separa os mundos - daqueles que ainda estão na matéria, daqueles que não estão.
Feliz Natal!
sábado, 5 de dezembro de 2015
Microcefalia segundo o espiritismo (parte 3 - mensagem de consolo)
“O que dizer para uma mãe que descobre que seu filho tem microcefalia e se pergunta o porquê de tudo isso?”
Antes de tudo, importa esclarecer para qual mãe eu diria o que diria. Uma mãe que se pergunta pode procurar as respostas em muitos lugares... Então, de princípio, eu jamais me dirigiria a uma ou várias mães para falar do Espiritismo a menos que elas se mostrassem dispostas a tal; seria uma ofensa, num momento de fragilidade, despejar crenças estranhas a elas. Portanto, apenas diria qualquer coisa diretamente ligada ao Espiritismo caso fosse uma vontade da mãe conhecer mais sobre o assunto, por respeito a ela e sua dor. Com um último adendo: incluo o pai também. Resquícios infelizes ainda nos prendem a uma responsabilidade diminuída do sexo masculino, a qual acho importante refutar e recolocar. O pai responsável ama e sofre como a mãe; junto com ela.
Nesse caso, antes de tudo eu lembraria Deus. Traço comum das religiões, a simples lembrança que temos um Pai amoroso que nunca se descuida de nós tem potencial altamente consolador. A certeza de que alguém olha por nós, velando por todos os nossos passos e cuidando de nossas dores mais ocultas oferece a promessa de uma tranquilidade segura. Não esquecer nem se distanciar de Deus é o primeiro passo.
Contudo, alguém que procura o Espiritismo sabe que isso não basta... Sua alma anseia por mais. Por uma fé com embasamento. Por que eu? Por que meu filho? A Justiça Divina, para ser efetiva, precisa abarcar mais que essa vida. Logo, recorremos a reencarnação. A ciência de que vivemos inúmeras vezes, colhendo e plantando, sucessivamente, abre caminho para novas reflexões. Não sabemos exatamente a razão, mas entendemos os mecanismos.
Mas ainda não é o suficiente saber da sucessão das vidas. Milênios da Lei de Talião impregnados em nossas sociedades dirigem imediatamente o pensamento à culpa do erro castigado. Sinônimo de punição? Não. Não é o que consolará uma mãe, um pai. Será necessário participa-los da grandeza Divina. Deus não é mero punidor, que nos faz “pagar” os erros em moeda de sofrimento. Reencarnação, provas e expiações são apenas os meios de um fim: o aprendizado, o alcance da perfeição, o conhecimento de si mesmo e a ação regida pelas Leis Naturais. Sob esse novo panorama, não sabemos se punição, se consequência, se missão; sabemos apenas que, seja o que tenha sido, o véu nos foi estendido para que nos concentremos no que há a fazer, em vez de estarmos atados improdutivamente ao que foi. É a melhor oportunidade que nos cabe, oferecida segundo a misericórdia do Pai. Novo recomeço. Chance renovada de se fazer melhor que o ontem. Redenção pelo amor. Eis a tarefa.
E... o que fazer, de fato, de posse desse novo olhar? Amar. As dificuldades que se apresentarem, que oferecerem resistência à ideia do amor são exatamente o que deve ser combatido em nós mesmos. Como todo véu, sob a luz adequada é possível ver vultos por trás do ocultamento; cada mancha que se revele contra a luz é sinal de luta passada ainda por vencer. Orgulho, vergonha da sociedade, medo de falhar, dificuldades materiais... Tudo aponta para o que já fomos e o que precisamos vir a ser.
Conscientes da verdade de que o Senhor da Vida olha por nós, que não nos desampara, que oferece a redenção pela justiça através das melhores oportunidades, segundo a nossa semeadura, o caminho está traçado. Não poupará levianamente das dores nem das lutas. Mas provará, diariamente, que o alcance da felicidade só depende de nós. Na perseverança por agir no bem e na sabedoria do olhar consciente que lançamos à nossa própria condição. Munidos da fé raciocinada, da esperança no futuro e tendo a caridade como força motriz, inevitavelmente venceremos, em paz.
Por Erick Machado
quinta-feira, 3 de dezembro de 2015
Microcefalia segundo o espiritismo
O momento para o Brasil é de pesar. Um surto de malformações fetais onde se predomina a microcefalia desespera a população e, para piorar a história, o Nordeste é vítima da maior parte dos casos, superpondo esse sofrimento ao da seca. As notícias sobre os agravos aumentam e vazam com a leviandade dos boatos.
Venho aqui para tentar pensar qual o motivo dessa tragédia entre nós. Vou elencar algumas correntes de pensamento espírita que provavelmente fundamentarão explicações daqui em diante nos relatos mediúnicos, esperando que algum me surpreenda e fortaleça-nos ainda mais.
A tese das expiações evolutivas ou das dores do parto
Um surto que acomete populações inteiras pode ter relação com uma leva de Espíritos reencarnantes, cujo tempo para a progressão moral se finda no avançar da hora da maturação do planeta. A humanidade, nestes últimos séculos, se ressente das dores de um parto que custa a acabar, cujos momentos de seu curso se refletem na eclosão de violências, no escancaramento de vícios e corrupções, e, agora, na materialização de meios propícios para a vivência de dores de resgate e aprendizado.
Parteja-se aqui um mundo melhor, entregue em breve às luzes de um descanso de regeneração para o corpo social sofrido.
Sobre o caráter dos Espíritos envolvidos
Quando carregados de escolhas ruins, estas fragilizam seu perispírito, órgão espiritual que plasma o corpo físico, fazendo com que as malformações emerjam. As limitações extremas do corpo conduzem o Espírito a um aprendizado de seus movimentos interiores, de suas emoções, e mesmo os pais e familiares passam a ler as lições trazidas pelas próprias vulnerabilidades.
Acontece de grandes almas escolherem reencarnar em um corpo débil. Almejam mais iluminação ao sofrerem com as ilusões da dor. Pensam também em se engajarem em contexto de aprendizado para os pais, sendo instrumentos para tanto.
Ocorre de igual modo que pais abnegados tenham escolhido receber Espíritos em situação de resgate expiatório, e, assim, acolhem aquele sofrimento com devotamento ímpar.
Sobre a "culpa" da natureza
O Espiritismo tenta mostrar que a natureza não é nossa inimiga. Uma superficial visão ecológica nos faria entender que os ciclos de vida e morte são inevitáveis, que as doenças são caminhos possíveis. A imortalidade da alma nos deixa estagiários destes processos.
É verdade, porém, que viemos, com nossa tecnologia, alargando vários limites da natureza. Algumas dessas nossas tentativas descambam em não menos naturais desequilíbrios que nos convidam a empreender melhores respostas.
Não se defende o crescimento zero, mas o crescimento bem guiado pela inteligência e pela ética a fim de tornar o desenvolvimento o mais democrático possível. Somos destinados a fazer imperar o cosmos sobre o caos, mas nunca em benefício de uma oligarquia olímpica. As tentativas que se direcionam para o privilégio são corrupções da nossa missão e sempre tendem a desandar.
De outro modo, assim como em pequena escala o Espírito é responsável pelo origami do corpo, em larga escala, nossas ações como humanidade se refletem em tudo que nos é considerado meio de existência. Está perfeitamente conforme à cosmovisão espírita pensar que as catástrofes naturais possam refletir o estado de espírito dos homens e mulheres, formando bolsões de miasmas que se precipitam sobre nós o que, aos tempos do Egito antigo, foram considerados como pragas, e que, todavia, tinha menos a ver com a ação direta de Deus do que com a repercussão dos nossos atos sobre o mundo.
A missão do Brasil
Certa corrente do pensamento espírita imagina ser o Brasil um grande acolhedor das práticas do Evangelho. E, como ele tivesse sido destinado por Jesus para acolher os aflitos do mundo, é provável que alguém nos fale que os Espíritos envolvidos em crimes de outras nações estejam sendo destinados para compor nossas novas crianças cujos corpos débeis servem de poderoso cadinho para as transformações viscerais do espírito imortal.
O que todas essas teses apontam é que não devemos vestir a túnica dos coitados do mundo, que o desespero deve ser convertido em trabalho, que o amor pelo próximo e o acolhimento dos debilitados deve ser, mais do que nunca, a tônica de nossos corações.
Leia também:
* O comentário que faço à contribuição de leitores desse assunto: link
** Uma mensagem de consolação escrita por um leitor endereçada à família vivendo com a situação da microcefalia: link
*** Outros diálogos que andei tendo com leitores deste blog: link
sexta-feira, 20 de novembro de 2015
Injúrias e Violências
Palestra concedida à Sociedade Espírita Irmãos do Caminho que coincidiu com a escandalização mundial dos atentados sobre a França, nos fazendo lembrar que ainda hoje o mundo está em contínua guerra.
Queria analisar a questão da violência do homem. Problematizei mostrando que, neste mundo, a forma como somos recebidos é eivada de violência. É violenta a natureza que nos circunda, e a dor parece uma constante. Fiz semelhante à Léon Denis quando principia a filosofar sobre o assunto em sua obra magna:
"O animal está sujeito à luta ardente pela vida. Entre as ervas do prado, as folhas e a ramaria dos bosques, nos ares, no seio das águas, por toda parte desenrolam-se dramas ignorados. Em nossas cidades prossegue sem cessar a hecatombe de pobres animais inofensivos, sacrificados às nossas necessidades ou entregues nos laboratórios ao suplício da vivisseção. Quanto à humanidade, sua história não é mais que um longo martirológio. Através dos tempos, por cima dos séculos, rola a triste melopéia dos sofrimentos humanos; o lamento dos desgraçados sobe com uma intensidade dilacerante, que tem a regularidade de uma vaga." (Léon Denis em O problema do Ser, do Destino e da Dor)
Parece dar razão à mitologia hebraica da queda do Paraíso. Se bem que não lembramos de que paraíso caímos, já que a infância abastada parece mais um esquecimento de que muitos sofrem, e adultícia completamente feliz é o ignorar que os outros penam. Ilustrei que foi nesse terreno de um planeta doloroso que Jesus veio nascer sob as mesmas condições e morrer em piores.
Evoquei, então, algumas escolas que quiseram explicar a violência do homem: 1. certa corrente da psicanálise que diz ser a violência não só um elemento inato, mas uma constante, que quando não pende para o homicídio o faz para o suicídio, nas várias formas, as mais chocantes ou as mais sutis. 2. certo discurso das ciências humanas, Foucault na vanguarda, quando fala sobre o encarceramento que a idade moderna (a que se diz "da razão") provoca sobre o que ela considera os anormais.
Sugeri que não é uma exclusividade dos modernos, mas desde muito tempo na Terra, mostram algumas pesquisas paleontológicas, viemos devorando uns aos outros, não aprendendo a conviver com o diferente. Aponto, então, como tese principal que o problema nem é o homem ser destinado à violência nem a razão ser propícia à exclusão, mas que nossa liberdade nos conduziu mal a enxergar no outro algo que é radicalmente diferente de nós.
Lembrei, então, dos budistas, cuja forma de ver o mundo animal, como um possível de reencarnação, os faz ver tudo com compaixão. Eles fazem caminhos para que as formigas passem e tratam o cachorro como um irmão! Não é mérito deles exclusivamente. Antes mesmo de o Ocidente conhecê-los, Francisco de Assis conversava com os pássaros, a Lua, o Sol, seus irmãos. Os grandes místicos sempre viram em tudo uma grande unidade, e o eu radicalmente diferente do outro como uma ilusão.
Minha tese principal, enfim, é que não enxergarmo-nos como semelhantes, filhos de um mesmo Pai, é o que nos conduz para o desespero de defender o eu, o meu, os meus. E a violência começa desde o momento em que me nego em enxergar na fala do outro um possível de verdade. Ter certeza demais do meu ponto de vista é o que ajuda a colocar um ponto final em várias vidas de outros. E mesmo que a razão nos ajude a compreender a verdade do que falo, é o amor, como insistia Jesus de Nazaré, que permitirá a prática dessa paz.
A palestra está disponível temporariamente neste link:
Eis os tópicos norteadores da palestra:
sexta-feira, 26 de dezembro de 2014
O Natal para o espírita
Em um ano desses, um grupo de estudante de medicina que empreendia uma atividade de promoção à saúde de idosos assistidos por um centro espírita decidiu realizar o natal deles. Um dos integrantes ponderou:
- Mas, tem que tomar cuidado sobre falar em Jesus, afinal, são espíritas, não é?
A ideia do garoto, imagino, é que somos completamente indiferentes à Jesus, até mesmo hostis. Dedução feita, talvez, do fato de o não considerarmos Deus encarnado.
Passava ao largo do conhecimento do graduando o quanto Jesus era a base da moral espírita, que a prática de suas palavras nos são o maior caminho de salvação possível. Não que as utilizemos para rebaixar outras doutrinas, mas que - é nossa crença - servindo às suas máximas ao máximo, poderíamos entrar, com maior certeza, no reino interior de nossa serenidade de espírito. A forma mais sublime de amor, o conceito mais elevado de Deus, o futuro médico não pensava que os tínhamos tomado totalmente de Cristo. Ignorava completamente o que Kardec enfrentou ao ter filiado a doutrina espírita à cristã: o anátema da igreja, o escárnio dos cientistas.
Não o considerar Deus, mas um modelo a seguir, o maior modelo, deve levar o espírita, neste dia, a agradecer ao Criador o parto dessa Divina Criatura que escolheu nascer em condições tão deprimentes entre nós para mostrar, a partir de baixo, como o humano pode se elevar às mais cristalinas alturas.
P.S.: Um leitor desse blog me fez perguntas sobre o natal para o espírita. Confira as respostas aqui.
sábado, 22 de novembro de 2014
Precisamos aprender a nos odiar melhor
Se alguém vem a mim, e não odeia o próprio pai, a mãe, a mulher, os filhos, os irmãos, as irmãs, e ainda a sua própria alma, não pode ser meu discípulo. (Lc 14:26)Fala pesada. Talvez tenha servido para justificar a vida monástica e as práticas de auto-flagelação que pretendiam uma ascese espiritual com isso. Hoje, vejo que podemos encará-la de uma forma completamente diferente. Kardec já nos dizia que "odiar" para a língua hebraica era "amar menos". Então, seria "amar menos ao próprio pai & cia" do que a Jesus.
Nestas sociedades pós-modernas em que vivemos, nos incitam todo instante a ser o que somos, nus e crus. Muitas vezes, os canalhas se valem disso para perpetuar sua desonestidade. Não podemos levar essa sinceridade até as últimas conseqüências, mas há um lado bom disso. Temos de convir que não dá para amar todas as pessoas da noite para o dia. Há quem nos pareça intragável.
Ser discípulo de Jesus é aprender a amar. Mas, não podemos negar que somos seres sujeitos ao ódio, sob pena de sermos discípulos pela metade. Se negamos o que somos hoje, o que teremos para oferecer a fim de ser trabalhado? Então, se temos motivos para odiar alguém, o que proponho é que aprendamos a odiar. Primeiro, que se atirarmos na face dessa pessoa nosso ódio, será um inimigo a mais que teremos na vida e isso é contra-producente. Por outro lado, esconder é se envenenar. Temos que conviver, e ainda que haja choques, ultrapassar as barreiras. As brigas são salutares. Saneiam relações. Precisamos controlar os ventos para não termos temporadas longas de tempestades.
Com o tempo, quem sabe, poderemos ter mais um parceiro na vida ou uma batidinha nas costas dada pelo próprio Deus. "Muito bem, filho!". Para quem não gosta muito dessa visão de recompensa, como eu, deve se contentar em ter diminuído o rancor da própria alma e ter conseguido aumentar a quantidade de alegria no mundo.
Sobre odiar "a sua própria alma", proponho que façamos as mesmas coisas que sugeri para com os inimigos, mas com os inimigos dentro de nós. Sem guerra, mas tentando conviver. Se surgir aqueles pensamentos e impulsos que nos fazem perder amigos, respire, tenha calma, converse com essa sua selvageria e bola pra frente, juntos. Lembre-se que não se pode matá-la sem que saiamos extremamente feridos, também. Controle sua relação com esse lado negro. A reconciliação sem derrotados é a maior vitória que poderíamos oferecer para a glória de nosso espírito.
segunda-feira, 28 de julho de 2014
E se o meu adversário estiver certo?
"Dá a quem te pedir, e não te desvies daquele que quiser que lhe emprestes." Mt 5:42
Essa é a última recomendação do Mestre na seqüência que nos faz mudar completamente a postura diante do "olho por olho, dente por dente". Três interpretações prevaleceram no nosso círculo. Ao contrário do que se costuma pensar, os discípulos do cordeiro não são arredios ao combate, mas são adeptos do bom combate. Quando o adversário nos pede a túnica, dar ainda o manto o desarma. Ele que estava preparado para o embate, recebe a solicitude da alma. Mas, tem que ser de coração. A segunda caiu sobre o significado do adversário. Na passagem, a tradução de Haroldo nos fala de "malvado" e não de "mau": não resistais ao malvado. E uma das conotações possíveis dessa palavra é "aquele que sofre". Portanto, é enxerga-lo como um ser digno de piedade e oferecer-lhe mais do que ele pede, já que precisa tanto. A terceira interpretação enxerga o malvado como sendo um igual, filho do mesmo Pai, portanto, merecedor da mesma credibilidade que qualquer outro irmão. Exercitamos enxergar as exigências dele não como uma ameaça, mas como uma proposta. Jesus, nesse sentido, estaria nos recomendando não só aceitar a sua proposta, mas ir a fundo nela. Por que não? Nesses tempos em que esteve próximo o combate entre o futebol de diferentes países e está presente o embate das mais diversas posições políticas no nosso Brasil, as recomendações do Nazareno vêm a calhar para que nos apeguemos menos aos nossos dogmas e ofereçamos a cara à tapa quando enxergarmos que alguém pareça ser mais razoável que nós. Há dois mil anos, seguir este conselho poderia ter evitado muitas guerras!
segunda-feira, 7 de julho de 2014
Sobre o adultério, as amputações da alma e a retidão das ações
Outrossim, ouvistes que foi dito aos antigos: Não perjurarás, mas cumprirás os teus juramentos ao SENHOR. Eu, porém, vos digo que de maneira nenhuma jureis (…) Seja, porém, o vosso falar: Sim, sim; Não, não; porque o que passa disto é de procedência maligna. (Mt 33-37)
Difícil conectar o imperativo de não jurar com o da retidão da atitude do “sim, sim; não, não”. A melhor aproximação que pudemos fazer é sobre a sabedoria de não vivermos nos excessos, nem de colocarmos em jogo aquilo que nos escapa, o que dá na mesma. Rousseau já dizia que o caminho mais curto para a felicidade é trabalhar o espírito para que o desejo não seja maior que a nossa força. Isso pode nos levar a um estado de apatia, não desejar nada para evitar a fadiga (Lei do Jaiminho do Chaves), ou de voracidade, querendo aumentar nossa força para podermos ter tudo que o desejo pode imaginar (Lei do Capitalismo). O caminho do “não jurar” e do “sim, sim; não, não” parece mais promissor. É, em resumo, abdicar daqueles momentos do espírito em que se diz “eu juro fazer tal ou tal coisa” ou “… ser de tal ou tal jeito” e, no presente momento, nem fazer nem ser. É, de outro modo, tentar estar preparado para o que Deus mandar. Se for a sua hora de fazer e ser, dizer sim para esta hora. Se não for, saber dizer não. Essenciais para essa atitude é saber nosso planejamento reencarnatório, nossas tendências e nossos limites, claro, sem nunca estacionar nestes últimos.
Portanto, se o teu olho direito te escandalizar, arranca-o e atira-o para longe de ti; pois te é melhor que se perca um dos teus membros do que seja todo o teu corpo lançado no inferno. E, se a tua mão direita te escandalizar, corta-a e atira-a para longe de ti, porque te é melhor que um dos teus membros se perca do que seja todo o teu corpo lançado no inferno. (Mt 5: 29;30)
O amigo que nos guia nos estudos evangélicos nos trouxe uma mensagem de Emmanuel, o mentor do nosso saudoso Chico Xavier, em que ele transformava poeticamente as nossas deficiências em oportunidades benditas de crescimento, isto é, em talentos:
Dividimos, então, nessa noite de estudo do evangelho algumas deficiências físicas que trazíamos conosco. Começamos a tentar enxergá-las não como castigo, mas como convite ao crescimento do Espírito. É o que nos esclarece Emmanuel: o corpo físico é o "templo de formação das nossas asas espirituais para a vida eterna". Eu diria fornalha, mas nesta se fazem espadas. Chega de espadas! O templo íntimo é uma excelente metáfora.
"Aqui é um cego que pediu a medicação da sombra para curar antigos desvarios da visão. Ali, é um surdo que solicitou o silêncio nos ouvidos, como bênção de reajuste da própria alma." (Corrijamos agora)
A sombra e o silêncio é o que, muitas vezes, nós precisamos para refletir melhor sobre o caminho que temos tomado a fim de escolher novos rumos.
Ouvistes que foi dito aos antigos: Não cometerás adultério. Eu, porém, vos digo, que qualquer que atentar numa mulher para a cobiçar, já em seu coração cometeu adultério com ela. (Mt 5:27;28)
Geralmente interpretamos as exortações pelo que elas têm de mais óbvio: seu caráter imperativo. É uma questão de dever, não de amor. Mas, por trás do dever, se quisermos mesmo que o dever triunfe, deve haver amor. Por isso, em certa altura do nosso estudo, deixamos de olhar essa passagem como sendo um ótimo conselho contra o adultério, o de nem pensar nele, e passamos a ver o que conservar-se na fidelidade nos traz de bom. É sair de uma virtude que se mantém por medo do pecado para uma que se constrói por amor a própria virtude.
Ora, ser casal nos tira da eterna evasão do amor. Dom Juan nunca amou, pois, sempre quando se aproximava disso, já estava longe com mais uma aventura no seio de outra mulher. Não é que, em se tornando casal, atinjamos o amor, mas adentramos dentro de uma escola que promete nos ensinar a cada dia essa difícil tarefa: de ser íntimo, cotidiano, sujeito a fracassos, mas ainda assim, surpreender com uma amorosidade que pode nascer de seu contrário, de uma briga, de uma discussão.
Quem nos pode conhecer melhor? Dividimos nossa sombra e o amor as atenua. Se fôssemos em busca de um rapaz ou de uma moça menos sombrios, a experiência de todo mundo mostra que apenas estaríamos trocando de abismo. Basta um toque da intimidade para que as lacunas apareçam.
Ser fiel em um relacionamento, enfim, é aceitar estar matriculado em uma escola bendita de crescimento do eu para além de mim. Sponville, pensando sobre isso, nos diz: "O casal é a civilização mínima - o contrário da guerra, o antídoto da morte. Alain, que foi solteiro durante muito tempo, compreendeu: 'Finalmente, é o casal que salvará o espírito.'"
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