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segunda-feira, 16 de março de 2020

Abrindo estudo sobre Mitologia



INTRODUÇÃO: Estou iniciando aqui uma nova playlist que falará sobre mitologia e este é o vídeo introdutório. 

- A mitologia é a matriz da filosofia 
- As histórias mitológicas fundam civilizações e cotidianos 
- Elas chegam a apaziguar guerras e conferir sentidos 

- São um sistema de crenças e pensamentos que talvez tenham o mesmo nível ontológico (se não mais) que o sistema lógico-matemático ou científico-empírico. Talvez mais porque elas conseguem cobrir a descrição da realidade com uma riqueza maior de detalhes que escapa da sintaxe lógica ou científica. 

- Esse sistema teve seu ocaso porque os desafios enfrentados pelos homens já não eram respondidos a altura pelo símbolo dos mitos. Os mitos traziam símbolos de origem local, e a Grécia se "mundializava". O discurso filosófico acabou sendo uma via de enfrentar a "mundialização". 

- Para que uma história fincasse raízes e valesse a pena ser contada e ascendesse ao estatuto de mito era preciso ter fortes ligações com o belo e com a verdade. 

- Hoje vemos um retorno do respeito às mitologias porque conseguimos desenvolver um pensamento filosófico que, depois de muito tempo, consegue ver os mais diversos mitos como sementes férteis para fecundar o pensamento humano. Tiramos a couraça daquelas histórias que as obrigava de serem tal e qual a realidade, e entendemos a simbologia explosiva que elas representavam. Além de voltar a dar valor ao belo, e não apenas a esquelética lógica na busca de descrever o real. 

- Importa, finalmente, saber, que os valores que as mitologias carregam não evocam apenas condutas morais para o dia-a-dia, mas apontam sentido de vida. Revelam, por assim dizer, valores transcendentais que ajudam as pessoas a ter um modelo para encarar a angústia da finitude

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Mitologia e Morte

Convidado para palestrar acerca das concepções de morte nos diferentes contextos históricos, filosóficos, morais e religiosos, entendi que a melhor forma de abordar este tema seria falando sobre mitologia. 

Deixo ao final o link do áudio da palestra, que acabei tendo que complementar em um segundo momento, em casa, porque não consegui finalizar a contento o tema, cortando partes que considerava fundamental expor. 

Por que a mitologia para falar da morte?

A questão não é só por que a mitologia, mas sim por que o objetivo era que abordasse esses múltiplos contextos que praticamente tocam quase todas as dimensões da forma de nós humanos conhecermos o mundo. 

A mitologia, contrariamente do que se entende no senso comum, não é superstição, mas a matéria-prima simbólica da qual extraímos a nossa grade de compreensão do mundo. 

Se não tivéssemos nos aventurado em qualquer narrativa mitológica, embora seja inconcebível essa hipótese pela irrealidade histórica dela, não teríamos tido força cognitiva suficiente para formular qualquer outro discurso. 

As imagens que nascem da mitologia povoam nossa mente. As imagens que povoam nossa mente nos fazem reconhecer a mitologia. Mas, apenas o casamento entre a narração e as imagens da nossa mente que dá certo é que sobrevivem no tempo. Gilgamesh, mitologia babilônica, tem cinco mil anos!

Os mitos tem história. Vê-se que são retalhos ou superposições de histórias, com várias edições. Tratam de teologia, pois descrevem nossa relação com divindades; de filosofia, já que apontam ações organizadoras da nossa forma de ver o mundo; de moral, uma vez que norteiam condutas práticas de relação entre os seres humanos, e às vezes de povos, no cotidiano. 

Kardec decidiu não se aprofundar nestes assuntos, preferindo sempre as construções racionais dos modernos, embora tenha feito ensaios em O céu e o inferno e em A Gênese. Mas, hoje e cada vez mais, estamos vendo o quando precisamos reler as mitologias, as resistentes à corrosão do tempo, para nos entender. 

Assim, seguem minhas falas:




sábado, 3 de junho de 2017

O significado da tragédia para o Espiritismo



A maior parte da literatura erudita se curva para a tragédia. Raro é o romance ou a peça que promova um movimento tão grande de afetos na alma humana que não se valha de elementos trágicos. A comicidade, como irmã menor no mundo da estética, movimenta os humores do homem, mas não desce tão fundo (1). Como podemos conservar o estatuto da grandeza trágica, mantendo o otimismo espírita-cristão?

Alguns esclarecimentos preliminares. A tragédia não é a maldade, mas o irreconciliável. Não é a perdição ou a danação, mas a impossibilidade de salvação (2). Não porque o homem não mereça - pode até não merecer - mas antes disso, ele não foi feito para durar. Nada foi. Nada será a não ser Deus. Mesmo o Espírito, que até para mundividência da antiguidade clássica pode ser encarado como imortal, não dura, pois muda. E a mudança é a identidade do efêmero. 

Se por um lado isso pode dar uma brisa de alento, saber que qualquer sofrimento passa, em verdade aterroriza bem mais, porque junto com o que passa vai a identidade atual de tudo o que nos cerca, inclusive nós mesmos, nosso caro eu. A morte é trágica e sempre fecha o livro que vimos escrevendo (3). 

As forças que geram e movimentam as histórias trágicas se originam do sobre-humano. Quando falamos que deuses, ou Deus, está por trás dessa ou daquela ação, é apenas a uma questão que nos referimos: o homem não a controla, não a pode controlar.

Por vezes a causa da força trágica está mesmo em uma instância superior a dos deuses, o que deu motivo para falar em destino. A mitologia grega enxergava deusas, ainda mais superioras, que teciam as histórias das gentes e dos deuses menores. Elas são cegas e cheias de artrose nas mãos que tecem. Na tradição cristã, os desígnios impenetráveis ou estão na razão de Deus, que não é menos impenetrável para o homem, ou estão na própria Razão de tudo, a que Deus (blasfêmia spinozista) se submete (4). 

Jó é a tragédia judaica por excelência. Deus deixa Satanás esvaziar Jó até a última gota da humanidade deste. Aqueles que enxergam o messianismo judaico-cristão sempre como o concessor de vitórias neste mundo perdem o exemplo de todas as tragédias pelas quais passaram os heróis do antigo e do novo testamento. Jesus no topo delas (5). 

A tragédia grega não é a inimiga das histórias de redenção cristã. Pelo contrário, ela é responsável pela maior parte do enredo. Forças que se escondem na vontade de Deus, no pecado dos pais e, no caso do Espiritismo, no passado do Espírito reencarnante, vão empurrando o herói trágico para o fim. Repito, o fim. 

É no herói trágico que devemos focar a atenção. Este, movido por não sei que força moral, a que os gregos chamavam coragem, e os cristãos denominaram amor, uma chama que resiste no peito apesar de tudo desmoronando, consegue chegar ao final da história, ainda que apenas com a última parte de seu corpo exangue no derradeiro momento. É como se o universo que tende a aniquilar tudo, a humilhar qualquer vida, a aplainar todos os seres, não fosse suficiente para derrotar o herói, pelo menos não até que o fim se faça presente em toda sua imponência (3). 

Todos os elementos da tragédia grega estão presentes na cristã. Não é verdade que os heróis cristãos são menores por se pautarem em esperanças vãs. Tanto uns quanto os outros tem uma determinação que sorvem de um universo tão sobre-humano quanto as forças que os querem esmagados. Todavia, ouso dizer, essas forças rompem o círculo das Moiras (as tecelãs de destino), penetram no impenetrável do Deus cristão, fecundam o universo mortal e, apoteose!, provocam ressurreição. É essa palavra - ressurreição - que é o topo da arte cristã. As leis da implacável termodinâmica se estilhaçam, um mundo novo se ergue no horizonte. 

Se as tragédias gregas levavam a platéia até o abismo da alma humana, provocando a tal da catarse que Aristóteles reconheceu (1;2), é a ressurreição cristã que, saltando o abismo, leva a alma humana até Deus. A catarse movimenta os humores mais podres que transformam vida em doença. A ressurreição, sublimando-os, redime a doença em vida.  De forma muito incipiente algumas tragédias gregas davam essa noção, tentando finalizar as histórias com um deus que descia de uma máquina para solucionar o emaranhado trágico (Deus ex-machina). Na história do evangelho, o herói é o deus que se fez carne, viveu a tragédia humana, e salvou o homem - após o fim. 

Quando, no Espiritismo, dizemos que todos os homens ressuscitam, pois após a morte ressurgem em um corpo imortal, é uma associação fraca com o que Jesus viveu. Sim, todos os homens são capazes de ressuscitar, mas para isso, no sentido que os evangelhos narram, devemos conseguir deixar passar em nós toda doença, traição e morte que representa a condição humana em que estamos afogados. 

Ressuscitar, sim, mas a morte, antes. 


sábado, 26 de julho de 2014

Rico de tudo o que é mundano

Esclarecimento:

Algumas pessoas (senão todas!) estranharam porque eu disse serem Maria e José pobres de tudo o que é humano e ricos de tudo o que é mundano. A coisa é simples para essa mitologia que inventei. 

O mundo nasce de Deus e é moldado por Jesus. O homem, com seu livre-arbítrio, pode se afastar de Deus e, constantemente o faz, estragando o mundo com seus desatinos. Ser uma pessoa mundana está mais em conformidade com a Vontade Superior do que ser demasiadamente humano. Atentar que Maria e José são "humildes pessoas" o que, segundo minha tipologia, já superaram a condição humana e super-humana. Essa é a categoria dos Espíritos que conseguem enxergar Deus na natureza, entendendo ser o mundo um livro de grande sabedoria.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Mitologia espírita da Criação da Terra



No início era Deus e Ele dançava pelo espaço. Deu um espirro e tudo se encheu de estrelas. Pela sua saliva, todas as coisa estavam conectadas. Feito criança, começou a esfriar alguma bolotas incandescentes e brincar de argila. Surgiram os planetas. Achou que de pedra seria bom fazer os berços para Seus filhos. Deus, à essa época, era pedreiro. De pedra, então, fez os berços, colocou espíritos. E viu que era ótimo! Lá começariam a aprender a organizar os corpos. 

Deu um estalo nos dedos. Um estrondo! E tudo começou a se movimentar. Criou o tempo. Com o tempo, as pedras virariam plantas e aprenderiam a querer luz, depois animais e aprenderiam a querer o movimento, depois homens e aprenderiam a dizer não, depois super-homens e aprenderiam a ser firmes, depois humildes homens e aprenderiam a ser felizes, depois muitas coisas e, enfim, anjos e aprenderiam a amar à Deus acima de todas as coisas, mas depois, deuses e aprenderiam a amar ao próximo como a si. Da pedra ao deus o espírito cresceria, aprendendo uma grande lição por vez a cada mudança que acompanhasse a matéria que o revestia. Deus viu que isso estava maravilhoso! Riu-se gostoso na eternidade e o universo ficou pleno de graça. 


***

Em um planetinha perdido, parecido com uma singela Capela, havia uma humanidade. Já tinha passado pelos estágios mais diversos. Estavam super-homens. A maioria queria ser humilde, mas outros resistiam em querer ser super. Deus afaga os soberbos, dá um cheiro nesses pequeninos, suga-os dali e sopra-os para outro planeta, cheio de água, mas conhecido pela sua Terra.

Nessa época já não era obra do Grande Pai o cuidado com os planetinhas, porque já tinha Filhos com F maiúsculo a quem ele entregava os redondos entes. A Terra era obra do Hxdgfgne, espírito enorme, cheio de amor, devotado, olhos azuis por onde jorraram as águas dali, caráter rochoso de onde surgiu as terras daquele lugar. Fizera tudo como Seu Pai fizera. No princípio era o caos e o fogo. Com as argilas derretidas foi moldando os seres, passando por montanhas e cascalhos, algas e baobás, vaga-lumes e mastodontes, até chegar na sua última obra-prima, um templo sagrado chamado corpo humano. Nele passou a habitar espíritos que já o podiam animar, tendo passado pelas lições que outras ordens de existência havia lhes conferido. Foi nesse corpo que também veio habitar os super-homens de Capela. 

O pedido de Hxdgfgne era que eles o ajudassem a fazer a Terra crescer. Entenderam que isso significava a explorar, escravizar os antigos habitantes, impor impérios e fazer rituais de sacrifícios externos. Reclamavam de tudo. Do trabalho suado, do parto doído. Culpavam a própria ciência, aquela que os fazia distinguir o bem do mal, como tendo sido a responsável pela expulsão do antigo paraíso. Poucas vezes paravam para olhar a beleza da Terra que passaram a habitar, e a preciosidade do corpo que os revestia. Viviam olhando para o céu, morrendo de saudades do outro lugar. 

Como Hxdgfgne já era deus, o tempo para si passava segundo o movimento da respiração do Grande Pai. Assistiu tudo, com carinho, tentando sempre dar oportunidades para as redenções. Sem escolher ninguém, ia colocando e tirando obstáculos, com todo o cuidado para não ferir liberdades. Até o dia que, no comecinho de uma expiração que durou mil anos, o Grande Pai disse:

- Vai!

E Hxdgfgne voa na corrente de ar do paterno Vai! Entra no ventre de uma humilde mulher, esposa de um humilde homem, profundos amantes que eram um do outro, pobres de tudo o que era humano, ricos de tudo o que é mundano, cobertos pela noite das criações, rodeados pelo bafo de todos os seres, fora do alcance dos homens e super-homens, deitados no leito das emoções. 

- Estou grávida!
- Deus, que felicidade!
- Se for menina?
- Vai ser menino!
- Por que essa certeza?
- Um anjo me falou.
- Você e seus anjos... - dá-lhe um beijo doce na fronte. 
- Chamaremos de Jesus.
- Oi, Jesus! - toca na barriga dela. - É incrível, pequenininho, como já te amo tanto. Sinto que veio para mudar muita coisa. Não se preocupe, papai vai te protejer até que você cresça. 

Um chute, ela sente. Uma brisa enrosca o casal. 

sábado, 10 de maio de 2014

Noé, o filme, e os eternos conflitos do dilúvio em nós - Parte III



Perdoem-me se não consigo terminar a análise deste filme apenas nas didáticas três partes. Há coisa demais para se dizer, e não quero lhes cansar em uma só postagem. Abordarei hoje sobre estes dois pontos: a obediência como signo de perfeição e os anjos decaídos que não são satânicos.


A obediência como signo de perfeição. Se começarmos percebendo que os animais e as plantas são mais obedientes que os homens, ou pior (melhor?), são completamente obedientes aos desígnios de Deus, o que os torna perfeitos no sentido grego, isto é, completos, acabados, estaremos automaticamente nos remetendo ao mito de Prometeu sobre a criação dos seres. Epimeteu, o titã certinho, fez com que os seres vivos não-humanos tivessem atributos que os deixassem em equilíbrio perfeito com o cosmos. Prometeu, o irmão espertinho de Epimeteu, vendo que o seres humanos foram os pobrezinhos que ficaram sem atributos, a bem dizer, nus, decidiu ir lá em cima do monte dos deuses e roubar o fogo da criação para dar de presente aos coitadinhos pelados. O que aconteceu? Os homens ficaram com poder em excesso, e como não tinham atributos pré-definidos por nenhuma divindade, começaram a ultrapassar todos os limites. Qual o signo de perfeição de um ser? A obediência aos limites do cosmo em que você se enquadra. Troque o cosmo, novamente, pela palavra Deus e você terá a visão hebraica, só que um pouco mais paternal, já que Deus é um paizão que quer, na verdade, ensinar aos filhos a ser assim.


Os anjos decaídos que não são satânicos. Dizem que o Satanás era um dos mais belos anjos que vivia ao lado de Deus, mas quis ser mais que o Criador. Este, então, lhe amputou a beleza e o expulsou para o quinto dos infernos. Aí, aquele fez seu quartel general e passou a ter um só propósito na vida: impedir que os homens alcançassem a graça de viver em harmonia com o Criador. Como fazer isso? Seduzindo-lhes à desobediência.


Todavia, o filme mostra um conjunto de anjos que caíram por outro motivo: quiseram ajudar os homens que estavam se desvrituando. Também desobedeceram a Deus - nada escapa dessa temática - mesmo que por uma causa nobre, aos olhos de nós humanos. O interessante é que essa história, aparentemente inventada pelo filme, não flutua no nada das mitologias. Vemos que ela é um eco das história gregas, talvez de outras mais com as quais não tenho tanta intimidade.


Lembram-se que eu havia falado de uma geracão de homens de ouro, harmonizados no princípio de tudo com a natureza cirunjacente? Pois estes homens, nos narram as lendas, depois de terem morrido da forma mais serena que se possa imaginar, se tornaram Espíritos tutelares dos homens de bronze, tentando os reconduzir para o caminho da sabedoria. Eram os famosos daimons, que deram origem à palavra demônios em latim. Entre os gregos, esse vocábulo não tinha conotação negativa a priori, mas depois nossa cristandade medieval quis entender que sim. Ficou na nossa mente que seres incorpóreos que vagam entre os homens só podem ser almas penadas pedindo reza ou servos de Satanás espalhando o mal.


A princípio, pode-se ter pena dos simpáticos anjos decaídos que ficaram enclausurados em corpos de pedras, eles que eram luzes livres voando em torno da terra, ao lado do Criador. Contudo, perceba que há uma reconciliação ao final. Da linhagem de Set, o que não desobedeceu o pai, sai um predestinado para salvar a humanidade, que se manteve em linha reta até o fim, com quem os anjos se uniram ao enxergar nele a marca original de Deus, sendo ele, através daquela conduta nobre de equilíbrio com a natureza, o caminho da libertação, ou o que trilha o caminho certo.


É como se o Criador ficasse agindo constantemente sobre a criação que se desvirtua, em seu comportamento indócil, sulcando caminhos que a devolva para os rumos certos. É a perfeita imagem de um agricultor que cuida da sua plantação. Lembre-se que estamos falando da visão de mundo, e, portanto, de Deus, de um povo agropastoril. O Pai lhes deu liberdade para escolher entre o certo e o errado. Eles escolhem frequentemente o errado. Deus age constantemente para fazê-los retornar ao certo.


Eis a grande diferença da relação entre as divindades gregas e o Deus hebraico. Aquelas estão pouco se importando se os homens chegam ou não à sabedoria. Se um ou outro alcança, bom para ele, terá a recompensa automática da serenidade, às vezes concedida por Zeus, como no caso de Ulisses e Penélope. O resto merecerá o reino das sombras pelo próprio curso natural de sua burrice. O Deus hebraico gerou seus filhos para que TODOS fossem sábios. Age constantemente entre eles para este fim. Se conseguem, há imensa festa no céu. Se não… parece que vão sofrer muito no inferno. Visão esta que não é compartilhada totalmente pelo Espiritismo.

É triste que se encontre essa desistência de Deus nessa mitologia que tinha tudo para ser uma das mais belas. Esse Deus que provoca dilúvios e se cansa de seus filhos maus que Ele mesmo gerou... tem alguma coisa que não bate aí! É essa incongruência que o Espiritismo vai sanar com a teoria da reencarnação. Mas isso, são águas que ainda estão para rolar.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Noé, o filme, e os eternos conflitos do dilúvio em nós - Parte II




Pai e filho estão sob as barbas brancas, alvas nuvens de Deus. O mais velho vai passar ao mais moço o legado de ser homem. O que é ser homem para você?

Essa pergunta caiu na minha primeira prova de psicologia médica na faculdade. Não me fui bem na resposta porque o professor perguntava “segundo os conceitos da psicodinâmica”. E eu respondi, brilhantemente, segundo os conceitos da minha vida. Antes que me chamem de pedante, me respondam: Quem pode falar mais brilhantemente sobre minha vida se não eu?

A pergunta, rigorosamente, era assim:

- Segundo a psicodinâmica, você é filho ou homem? Explique.

Esquecendo a psicodinâmica e as instâncias da mente, o que você responderia?

A definição de homem, isto é, de maturidade espiritual. Os hebreus, consequentemente, os judeus, dão um valor sobrenatural para a paternidade e a gestão da família, célula-máter da comunidade. Colocar em risco essas bases é fazer estremecer todo o povo. Muitos dizem que a novidade trazida por Jesus é a de tratar Deus como Pai (Abba). Não é verdade. Deus-Pai está em toda a tradição. A forma como se encara esse Pai é que difere. Freud, que era judeu, parece ter entendido bem isso, dando importância fundamental a relação edipiana - trágica! - de como acontece essa relação e sua influência na formação da personalidade do filho. Perceba que os grandes guias da comunidade hebraica surgem da ordem que o Deus-Pai dá ao seu filho mais velho, enviando-o aos irmãos mais moços. Entenda mais velho em um sentido espiritual, isto é, aquele que “cresceu" o suficiente para entender sua vontade.

Aí está a grande chave para entender porque Noé pode ser considerado um homem. Ora, porque obedece a vontade do Pai. Eis porque ele diz para o filho rebelde, na cena em que começa a chover para o dilúvio, que, por mais doloroso que pareça, ele está a lhe ensinar a ser homem, fazendo não o que o desejo pede, mas o que é necessário fazer: o dever. Aliás, isso é o que representa, no sentido negativo, o mito de Adão e Eva. Um filho que passa a sofrer as conseqüências de ter ouvido mais a voz da sedução (serpente e Eva) do que a de Deus.

Retrógrado? Se for, essa visão de mundo não está só. Ouvir a voz de Deus e obedecê-la, entre os filósofos estóicos da Grécia, era perfeitamente traduzível por aceitar o seu lugar no cosmos. Aqui, mais perto, entre os iluministas, seria ouvir a voz da razão. Perder o juízo é sinal de loucura, de deixar-se dominar pelas emoções, de ser infantil e não homem. A gente muda o nome de Deus por Cosmo, Razão, Verdade. E para cada um destes pensamentos, uma forma de maturidade espiritual se anuncia.

A grande diferença entre o Deus judaico-cristão e estas outras formas de Deus engendradas por estas outras culturas é a abertura para o amor. Nem o Cosmo, nem a Razão, muito menos a Verdade (no que ela tem de estritamente racional) são capazes de nos amar. Não faz parte de seus atributos. Mas, Deus, este que foi espalhado por Jesus, resgatando um tema levítico, este é pleno de amor, ou ainda, é pleno amor. É a superação do conflito "dever x amor” que dará nova vida para tudo na Terra redimida pós-diluviana. Ou melhor, como diria Jesus, foi o amor, e não a água, que cobriu todos os pecados.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Noé, o filme, e os eternos conflitos do dilúvio em nós - Parte I



Não vou me ater aqui à análise bíblica da história de Noé segundo o original. Vou escarafunchar a história do cinema e suas conexões com grandes temas filosóficos. Vamos dividi-la em alguns itens:

O dilúvio não é um privilégio dos hebreus. Você deve saber que as grandes civilizações do mundo antigo tendiam a se instalar e crescer próximo a um grande rio, dentro de um vale. Quando havia época de muita chuva, aquele transbordava e provacava dilúvios trágicos. A relação do homem com Deus era questionada e elaborada não só pelos sacerdotes, mas também pelos grandes contadores de história, que, frequentemente, se valiam dos recursos de consulta aos deuses (ou os deuses se revelavam espontaneamente para eles) para melhor narrar o fato, a fim de ficar claro o motivo de tanto sofrimento e a solução para o resgate, o que é uma espécie de prevenção para a tragédia não se repetir. 

É comum, entre os antigos, a visão de mundo que conecta os grandes males à relação do homem com as divindades, já que só elas poderiam provocar tão vultosas calamidades. Há grandes lendas diluvianas entre os Sumérios (Gilgamesh, o grande rei, em busca de imortalidade, procura Utanapishtim, aquele que sobreviveu ao dilúvio), entre os indianos (Brama se transforma em peixe e vai falar com o monarca Vaivaswata sobre o dilúvio próximo), entre os gregos (Deucalião e Pirra, únicos salvos por Zeus - nem mesmo os animais se safaram).  

No filme, vejo muitos traços gregos. Os homens da idade de bronze, segundo a mitologia desse povo, eram uma geração posterior aos da idade de ouro que, diferentemente destes últimos, viviam em conflitos entre si e com o cosmos. Tenderiam a se destruir sem precisar da ajuda divina se não houvessem atiçado Zeus contra si. Perceba que os homens da descendência de Caim são artesãos do ferro e muito belicosos. Adão e Eva, os seres que viviam em harmonia com o paraíso, são representados no filme por entidades de pele dourada!

A história do dilúvio fala sobre reconciliação: do sensível com o inteligível, do homem com Deus. A geração dos homens inicia em completa harmonia com o meio e com Deus, o Criador. A desobediência é o ato primeiro de ruptura. Este ato é o que perpetua e multiplica a separação entre o homem e a natureza. É exatamente o que não encontramos com a geração de Set, particularmente em Noé. Logo de início, encontramo-lo colhendo espécimes de vida que, bravamente, ainda sobrevivem na terra devastada, bem como se compadecendo da morte de um animal caçado pelos filhos de Caim.

Entre os gregos, Aristóteles representou uma das primeiras grandes escolas de pensamento que buscou reconciliar o inteligível com o sensível, as ciências da natureza com as ciências do espírito. Não à toa, suas lições de biologia buscavam enxergar a grandeza do cosmos na engenhosidade dos animais. Por onde chegar à identidade com o cosmos? Não é pela libertação das armadilhas do sensível, mas pela descoberta intelectual das maravilhas do sensível em sua forma. É na forma que está encarnada a ideia nobre, mais que isso, ideia e forma se misturam indistinguivelmente.

A solução dos gregos em seu período filosófico rumou para essa resposta. E a dos hebreus? Seguir a vontade do Criador. Se, desde o início dos tempos, a humanidade tivesse se mantido obediente ao Criador, mal algum teria caído sobre ela. Veja que a estrutura dessa resposta está em perfeita conformidade com a estrutura social dos hebreus, bem como a de Aristóteles com a democracia Ateniense. Na Grécia antiga, era importante que o homem atingisse a maioridade de se guiar e ajudar a guiar a Pólis através do exercício da própria razão em fazendo sua cidade ser um reflexo do Cosmos, ou, em Aristóteles, não um reflexo, mas uma identidade. Entre os hebreus, sociedade eminentemente patriarcal, a obediência à vontade do Pai era o valor por excelência.

O mito estrutura a tradição de aprendizados em cada sociedade. Quando fazemos algo errado à revelia das orientações de nossos pais, o que eles dizem? "Viu, menino, não te falei?". Seguir as orientações do mais velho e experiente elemento da família é o grande ideal de sabedoria. E a sabedoria, em muitas culturas, sempre foi uma espécie de reconciliação do homem com a estrutura que lhe transcende e lhe contém.

Já me estendi demais. Vou deixar para próximos posts as outras questões que encontrei nessa história: a definição de homem, isto é, de maturidade espiritual, a obediência perfeita das plantas e dos bichos em contraste com os excessos dos filhos de Caim, os anjos decaídos por razões (ao nosso ver) mais nobres, o caminho da libertação, a voz de Deus que fala segundo a capacidade de apreensão de cada homem, o Deus de fora e o Deus de dentro, e, por fim, o caminho do amor para a verdadeira salvação (ou, é preciso destruir para salvar?).

Aproveite para assistir ao filme, porque vou revelar o final nos próximos posts. E quem for querendo encontrar a bíblia intocável lá, acho melhor mudar de ideia, se não a decepção pode lhe afogar.

domingo, 16 de junho de 2013

O Inimigo que Muito Ama


Vou fazer um comparativo das três formas de pensar o demônio: a mitologia grega, a teologia cristã e o ensino espírita. Essa abordagem é a mesma de Kardec. Quem quiser ter mais propriedade sobre o assunto é só consultar o livro O Céu e O Inferno.

Na mitologia grega, os demônios que conhecemos hoje, via mentalidade cristã, faziam parte dos descendentes do Caos, de Urano e de Gaia, que são os deuses originais. Desproporcionais, disformes, destruidores. Detalhe importante é que o amor Eros e a sensual Afrodite participam desse início. Bem se vê que os gregos tinham lá a perspicácia de ver o amor desejante como um promotor da desordem. As erínias eram filhas do sangue do Urano, jorrado a partir de seu sexo cortado pelo próprio filho, Cronos, sequioso de vida ao ar livre. Elas nasceram da traição e se tornaram perpétuas vigilantes contra esse tipo de pecado no seio das famílias. Criaturas terríveis, horrendas, com poderes dilacerantes.

Houve uma guerra entre os descendentes mais próximos do Caos e os filhos de Cronos, um pouco mais civilizados. Dessa guerra originou-se o Cosmos como o conhecemos hoje: hierarquizado, matematicamente organizado. A ordem era mantida pelos deuses vencedores, habitantes do Olimpo.

Havia um deus que mais se parecia com o diabo que nós conhecemos. Não era Hades, ao contrário do que muitos pensam, que cumpria bem a sua missão de reger o mundo dos mortos, independente se estes eram justos ou injustos. Mas era Dioniso, que vagava pelas cidades da Grécia com um conjunto de sedutoras mulheres, promovendo festas carnais, com tudo o que você poderia imaginar (talvez mesmo desejar!) para o corpo se excitar ao máximo, as dionisíacas. Chegava ao clímax de haver canibalismo entre os festejantes, tamanha a embriaguez que Dioniso provocava sobre as pessoas. Não é à toa. Dioniso nascera de um conflito enorme. Foi uma traição de Zeus, que engravidara uma humana. Para salvar o filho da morte de sua mãe, provocada por umas astúcia de sua esposa, arranca-o do ventre primitivo e o enterra na face interna da coxa. Dioniso é gestado muito próximo do sexo de seu Pai. E este realmente abusava do sexo, de vez em quando pulando a cerca do Olimpo para fecundar lindas mulheres mortais. O escudeiro fiel de Dioniso, o feio Pã, dará o molde para a pintura do futuro satanás.

O mais interessante é que os gregos não reservavam a Dioniso um lugar junto a Hades, embaixo da Terra, no Tártaro, onde se localizaria futuramente o Inferno cristão. Ele figurava como um dos deuses do Olimpo! Os mesmos deuses da ordem, da disciplina, da concórdia entre os mais diversos poderes. Eis a grande chave para a compreensão do pensamento grego: o equilíbrio entre os poderes. Era isso que permitia a vida. Não sacrificar o que é caótico completamente, pois isto também faz parte do universo. Ora fazemos sacrifícios a Apolo pela sua sabedoria e beleza, ora a Dioniso pela sua liberdade (libertinagem) e presteza (ainda que tenha de se valer de meios escusos para chegar ao intento, o que lhe confere a velocidade das resoluções). Dois poderes do Universo: o brilho do Sol que tudo deixa claro, a noite da Lua que esconde os atos mais sórdidos. Somos filhos do Cosmos, mas netos do Caos. 

Na próxima postagem, falarei um pouco sobre as revoluções que a mentalidade judaico-cristã promoveu sobre esse pensar. Antecipo que os mesmos dois polos de que lhe falei por último se perpetuarão. Claro! É sobre o que há em nós que estamos falando. A mudança de perspectiva é que um deles já não poderá merecer adoração, pelo contrário. E o Outro se elevará a mais alta potência, a princípio sendo a Ele dirigido o medo, isto é, o respeito temerário, o sacrifício e o sangue, e depois, o amor ágape (e não mais eros), quer dizer, a graça e o sorriso, o carinho e a boa vontade.

Peço que não se percam. A extensão desta análise é de extrema importância para a melhor compreensão do nosso posicionamento.

domingo, 13 de janeiro de 2013

O Espiritismo e a nossa Mortalidade


Os espíritas não se tornam alienados por viverem pensando sua imortalidade? 

Sobre essa pergunta mil pensadores se inclinaram. Não necessariamente analisando o Espiritismo, mas o duelo infindo entre mortalidade e imortalidade.

Eloqüentes e clássicos discursos existem nas obras de Kant, alertando para as ilusões da Metafísica, e nas obras de Nietzsche, reinventando o conceito de niilismo. 

E para começar diálogos com a filosofia, a que esse blog se propõe, devemos por o primeiro pé nas obras de Homero, ou atribuídas a ele, as tais Ilíada e Odisséia. Particularmente sobre a figura do sedutor Ulisses. 

Vindo da Guerra de Tróia, vitorioso e sujo de sangue - pois não contentes de vencer, os gregos decidem trucidar os troianos - Ulisses é castigado por Zeus, em virtude dessa desmesurada crueldade, com uma volta não pacífica a Ítaca, seu querido reino. Enfrenta mil desventuras, entre monstros e sereias. Mas, particularmente, a experiência de Calypso, é a que dá a maior ilustração ao tema que nos dispusemos enfrentar. 

A ninfa, apaixonada por Ulisses, se utilizando da sua potência divina, promete ao herói imortalidade e juventude se ao lado dela permanecer seu amante para todo o sempre. E o guerreiro aceita a proposta por um tempo até que o pranto de não estar em seu reino, no seu lugar, toma conta de seu peito.

Ulisses rejeita a imortalidade juvenil e as doçuras do acolhimento do corpo daquela divindade para ir em busca do seu reinado, mas também, da velhice (que traz a angústia da própria morte) e da reunião familiar (que traz a angústia da morte dos que estima). Por que tal escolha poderia ser considerada mais certa, louvada como mais sábia do que a outra? E, olhe, que definitivamente não era uma questão de fascínio e mentira de uma divindade traquinas. Calypso estava realmente disposta a ofertar ao seu amante o salvo-conduto para um idílio eterno. 

O que a sabedoria grega dos mitos antigos nos quer contar é que vale mais a assunção do nosso papel no seio do universo (reinar em Ítaca) do que o desfrute da miragem de uma vida que não nos pertence (amar Calypso). Mais vale morrer tentando cumprir a missão que nos cabe aqui e agora (voltar a Ítaca), do que viver a imortalidade que não tocamos lá e depois (permanecer para sempre na ilha da ninfa). Mil vezes viver o que vim para viver, do que já estar morto preso a uma certa imortalidade, perdida minha atual identidade, meu norte de hoje, meu trabalho desta vida.  

- Mas, como assim? Então, segundo a mais clássica fonte filosófica, é vã toda a pregação que os espíritas fazem sobre sermos imortais?

O tema promove um livro. E me basta, no momento, a façanha de apenas iluminá-lo. Peço para que o leitor amigo tenha apenas a graça de meditar sobre as seguintes passagens:



  1. "Jesus, porém, disse-lhe: Segue-me, e deixa os mortos sepultar os seus mortos"(Mt 8:22)
  1. "O anseio de morrer para ser feliz é enfermidade do próprio Espírito."(Emmanuel em Caminho, Verdade e Vida)
  1. "Não consiste a virtude em assumirdes severo e lúgubre aspecto, em repelirdes os prazeres que as vossas condições humanas vos permitem."(Um Espírito Protetor
  2. em Evangelho Segundo o Espiritismo)

Voltaremos ao tema, sob novos prismas.