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segunda-feira, 26 de março de 2018

O poder magnético da prece



Fui convidado para falar sobre o poder magnético da prece. Quando, em meio espírita, assim nos solicitam, um nome não pode deixar de ser mencionado: Mesmer.

Allan Kardec, embora tenha nascido para o círculo intelectual francês com os dotes de professor de crianças ao estilo pestalozziano, enveredou por vários campos do saber, culminando em ser um dos mais eminentes estudiosos do magnetismo animal ou mesmerismo.

Conhecemos as práticas magnéticas popularmente sob a alcunha de hipnotismo. O que diferencia a sugestão hipnótica moderna da exercida à época de Kardec é a explicação do fenômeno.

O cotidiano nos apresenta o magnetismo pelo comportamento ferromagnético de alguns metais, são as experiências de imantação. O que elas nos dizem é que alguns corpos na natureza podem influenciar outros corpos sem forças de contato. O médico Franz Anton Mesmer (1734-1815) verificou que essa propriedade era extrapolável para a natureza humana, chamando a isso de magnetismo animal. Essa influência pode ser tanto benéfica quanto maléfica. Podemos, portanto, modificar o moral de outros corpos auxiliando-os ou prejudicando-os. O Dr. Mesmer empregou isso de forma médica e desenvolveu uma teoria explicativa.

Para que um corpo exerça influência sobre outro a distância era preciso que algo os conectasse de algum modo, fazendo com que a substância de um estivesse em relação direta com a do outro. Se não havia matéria palpável e visível para tanto, deveria haver uma matéria sutil entre ambos, passível de ser afetada pelo impulso que um deles emitia, transmitindo este impulso para o outro, que sofreria suas consequências. A esta matéria sutil deu o nome de fluido cósmico. Aproveitava assim uma crença anterior de que todos os corpos estavam imersos em uma grande massa quintessencial chamada éter. No éter nos movemos, afetamo-lo e por ele somos afetados. Eis uma explicação quase nunca abordada de onde o filósofo Baruch Spinoza (1632-1677) tirou sua ideia de uma substância divina causa primária de todos os seres como afetos de seu grande corpo cósmico.

Dessa forma a explicação fica fácil tanto para o magnetismo mineral quanto para o animal. A afetação recíproca dos corpos é possível porque estamos mergulhados nessa substância sutil capaz de se deformar e propagar a deformação característica imprimida sobre ela.

O mesmerismo, febre que foi por um tempo, passou a ficar à margem das ciências médicas, escanteado como charlatanismo, superstição. Recentemente, os estudos de antropologia cultural voltaram a analisar os fenômenos de influência não tangível que alguns humanos poderiam exercer sobre outros, particularmente em culturas xamânicas. O mais notável antropólogo que divulgou estes estudos foi Claude Levi-Strauss (1908-2009). Em seu trabalho "o Feiticeiro e sua Magia” ele descreve a morte provocada por rituais e palavras de encantamento. Contudo, a explicação que agora era dada para a questão passava ao largo de qualquer concepção de massa etérica, referindo-se, então, a certa estrutura simbólica compartilhada entre os indivíduos partícipes do ritual. Por esse modelo explicativo, apenas pessoas mergulhadas na mesma estrutura simbólica eram passíveis de serem afetadas pelas palavras e gestos do xamã. 


O que dizer, no entanto, das curas que Jesus provocava à distância, como aquele do servo do centurião romano?

"Entrou Jesus em Cafarnaum. Um centurião veio a ele e lhe fez esta súplica: Senhor, meu servo está em casa, de cama, paralítico, e sofre muito. Disse-lhe Jesus: Eu irei e o curarei. Respondeu o centurião: Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha casa. Dizei uma só palavra e meu servo será curado. (…) Dirigindo-se ao centurião, disse: Vai, seja-te feito conforme a tua fé. Na mesma hora o servo ficou curado." (Mateus 8:5-8; 13)

O centurião, que era romano, não participava da mesma estrutura simbólica de Jesus, que era judeu. O servo estava distante e, embora talvez tivesse fé, não previa o momento das palavras e gestos de Jesus para “na mesma hora” ser curado. A explicação, pois, estruturalista do Prof. Strauss não cabe nesse contexto, sendo mais coerente retornarmos a noção do fluido cósmico afetado por Jesus para propagar a energia de cura.

O que essa discussão deve provocar é o aumento de nossa convicção a respeito da força de nossos gestos e dizeres a favor ou contra as pessoas. Toda vez que abençoar um filho ou um amigo saiba que essa bênção é mais do que um símbolo que hoje, nessa sociedade cada vez mais dispersa, tem cada vez menos valor. A bênção, ou a maldição - que seja sempre a bênção! -, tem força de contato (afago ou punhal) sobre as pessoas, quer elas queiram ou não. E quando alimentado por um grupo inteiro geram aquele clima benfazejo ou funesto, leve ou pesado, de certos lugares.

De outro modo, sobre as preces de caráter petitório direcionadas a Deus, além do chamado da ação direta de Deus em nossa vida, utilizando o modelo explicativo mesmeriano, atuam modificando o fluido cósmico ao nosso redor tornando-nos mais favoráveis de receber influências e promover ações que facilitem a consecução de nosso desejo.

Mais cuidado com nossas preces!

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Mitologia e Morte

Convidado para palestrar acerca das concepções de morte nos diferentes contextos históricos, filosóficos, morais e religiosos, entendi que a melhor forma de abordar este tema seria falando sobre mitologia. 

Deixo ao final o link do áudio da palestra, que acabei tendo que complementar em um segundo momento, em casa, porque não consegui finalizar a contento o tema, cortando partes que considerava fundamental expor. 

Por que a mitologia para falar da morte?

A questão não é só por que a mitologia, mas sim por que o objetivo era que abordasse esses múltiplos contextos que praticamente tocam quase todas as dimensões da forma de nós humanos conhecermos o mundo. 

A mitologia, contrariamente do que se entende no senso comum, não é superstição, mas a matéria-prima simbólica da qual extraímos a nossa grade de compreensão do mundo. 

Se não tivéssemos nos aventurado em qualquer narrativa mitológica, embora seja inconcebível essa hipótese pela irrealidade histórica dela, não teríamos tido força cognitiva suficiente para formular qualquer outro discurso. 

As imagens que nascem da mitologia povoam nossa mente. As imagens que povoam nossa mente nos fazem reconhecer a mitologia. Mas, apenas o casamento entre a narração e as imagens da nossa mente que dá certo é que sobrevivem no tempo. Gilgamesh, mitologia babilônica, tem cinco mil anos!

Os mitos tem história. Vê-se que são retalhos ou superposições de histórias, com várias edições. Tratam de teologia, pois descrevem nossa relação com divindades; de filosofia, já que apontam ações organizadoras da nossa forma de ver o mundo; de moral, uma vez que norteiam condutas práticas de relação entre os seres humanos, e às vezes de povos, no cotidiano. 

Kardec decidiu não se aprofundar nestes assuntos, preferindo sempre as construções racionais dos modernos, embora tenha feito ensaios em O céu e o inferno e em A Gênese. Mas, hoje e cada vez mais, estamos vendo o quando precisamos reler as mitologias, as resistentes à corrosão do tempo, para nos entender. 

Assim, seguem minhas falas:




sábado, 20 de janeiro de 2018

Psiquiatria e Espiritismo



Fui convidado para falar sobre esse tema. Decidi partir das minhas experiências pessoais de encontro com a psiquiatria. 

Antes disso é preciso deixar explícito o que acho que devemos ter em mente ao tentar o diálogo com estes assuntos. 


  1.  Não julgar; 
  2.  Amparar sempre;
  3.  Não querer ser o salvador das pessoas; 
  4.  Respeitar o momento de cura de cada um; 
  5.  Os remédios são importantes, mas não suficientes; 
  6.  A cultura influencia, mas não devemos culpá-la de todo; 
  7.  Somos seres imortais e responsáveis pelos nossos movimentos de cura e adoecimento
  8.  Uma vida não basta para pensarmos sobre estas questões;
  9.  Jesus está bem ali para o milagre, mas espera nosso despertar.

Dito isto, minha fala se constrói em torno de três momentos, que são minhas próprias aproximações com os transtornos psíquicos. 

No primeiro narro as imagens que guardo de certo homem com retardo mental motivo de chacota e insultos das crianças da cidade pequena onde me criei. Dele surgiram minhas dúvidas sobre "como é possível doenças da mente que nascem com as pessoas?". A reencarnação me ajudou a formular repostas. Essa aproximação teve um caráter apenas intelectual, e distante.  

A segunda aproximação refere-se ao meu encontro com certa menina que foi do meu círculo de colegas na escola e que, então, estava devastada pelo sofrimento psíquico, internada em um hospital. Pela proximidade e semelhança, ela me fez pensar que poderia ser eu em seu lugar. A pergunta que nasce então é "o que aconteceu para que não fosse?". A reencarnação surge ajudando a explicar a questão em termos espirituais, mas também expliquei as companhias que podemos trazer de outras vidas, vingadores de outrora. Não que eu tenha um passado ilibado ou isento de desafetos, mas aparentemente meus desvios não incidiram no império da mente, não mais, não por ora. Essa aproximação teve um caráter um pouco mais emocional, tocou algo de mim, mas ainda não o que me é central. 

A terceira é quando definitivamente o transtorno psíquico me bate à porta, tomando pessoas que amo de assalto. Assim, passo a testemunhar a luta, a angústia, o desespero de quem vive com as doenças contra as quais os psiquiatras se esforçam. Ainda mais quando os remédios são vãos, e a escuta terapêutica, impotente. Essa última aproximação toca no íntimo, permitindo que eu tenha uma noção mais justa do que é o sofrimento mental. 

Essa espiral de aproximações entendo ser mais fiel do que simplesmente tentar a pureza do conceito e a adequação das palavras: do int-electo ao ínt-imo. 

Da última aproximação, conduzo a reflexão cristã de tentar fazer ressuscitar a esperança apesar de qualquer escuridão, já que esse foi o caminho do próprio Cristo. Talvez essa seja, na verdade, a condição humana de aquisição de sabedoria, ou do Reino dos Céus. Ninguém que almeje a cura, que é outro modo de dizer a salvação da alma, pode se eximir de enfrentar seus próprios abismos. 


   

domingo, 3 de dezembro de 2017

Pesquisas espíritas no contexto acadêmico cearense



Dei esta palestra falando sobre o que aprendi com um grupo do qual me desliguei porque a vida me forçava prioridades familiares, e também porque minha linha de estudo flutuava para outra direção. 

Contudo, para não ser tão ingrato, deixei bem claro o quanto o que  iria falar se devia à professora Ângela Linhares. Não sei se ela concordaria com esta minha sistematização de seu pensamento, até porque ela não se sente dona de um pensamento para ser sistematizado. Todavia, as conversas que tínhamos por horas na busca de me iluminar formas de pensar espiritamente a vida gerou essa busca de síntese que vocês poderão ouvir no áudio que compartilho mais adiante. 

O que aprendi?

Quando pensamos em pesquisa, estamos acostumados com estatísticas e estudos de caso-controle. Temos de provar a relação causal de um fenômeno sobre outro, ou a eficiência disso e daquilo. 

Ângela Linhares me ensinou que nada disso pode acontecer sem antes nos reconhecermos como sujeitos apaixonados, movidos por ânsias e encantamentos. Só na medida que nos situamos na própria vida, fazendo encarnar o eu-pesquisador, é que podemos passar a tentar a objetivar algum olhar. 

Os números são importantes, mas apenas como início. O grosso do que podemos captar no campo do estudo está nas falas das pessoas, cujo peso tem uma singularidade sem par. Tanto melhor se pudermos fazer com que elas vivam o que pesquisamos, participem conosco do movimento de construção de todo o castelo teórico. 

Não sei se podemos voltar a fazer ciência nos moldes da física clássica, objeto de estudo separado de um sujeito-observador inerte, depois que descobrimos na história da epistemologia como verdadeiramente podemos estudar culturas. 

Os sociólogos e os antropólogos clássicos ainda quiseram objetivar a cultura das pessoas reduzindo-as a estruturas. Mas, Allan Kardec se abriu de tal modo que deixou os próprios Espíritos guiarem seus trabalhos. É esse comportamento que buscávamos ao fazer estudos com a Ângela.  

Outra questão era não cindir a realidade. Sempre se esforçar por enxergar as coisas em sua complexidade. Era como se tivéssemos que ver espírito e matéria ocupando o mesmo espaço. Nunca dicotomizar. Sempre era isso e aquilo, nada de isso ou aquilo, isso e não aquilo. Como este isso e aquele aquilo podem dialogar e serem enxergados como parte de um mesmo todo. 

Nossos olhos tinham de estar preparados para ver o grande no pequeno. Tudo em qualquer bagatela. Por que haveria de ser diferente? Cada átomo foi criado por Deus, e nele poderia o Criador se revelar. Do átomo ao arcanjo, no mesmo átimo! Não era um exercício de enxergar o que viria depois, mas o que estava ali, agora, por inteiro. 

Essa visão, eu digo, é a dor amor. Quem disse que os apaixonados se enganam a todo momento participa do paradigma antigo. Aqui, o amor é a condição primeira e o coroamento. Começamos apaixonados pelo estudo, perdemo-nos no mar revolto da realidade, peregrinamos para o retorno do amor. O final do trabalho é uma visão redimida, serena, pacífica. Não da paz do mar morto, mas da inteireza. 

Este não é outro método que não o que Allan Kardec usou para codificar a doutrina. Um pouco mais poético depois de Chico Xavier, um pouco mais trabalhado no que tange a conscienciologia depois de Husserl. 

Poucos são os espíritas que enxergam a construção da doutrina assim. Tive o prazer de vislumbrar. Venho percorrendo estudos que vão tentando assimilar mais e melhor tudo o que vivenciei. Quem sabe um dia não lanço uma pesquisa mais robusta e madura com isso tudo.  




quinta-feira, 25 de maio de 2017

Estudos sobre Grécia Antiga no Centro Espírita



Estamos estudando, ao Lar Espírita Chico Xavier, o livro A caminho da luz, idealizado pelo Espírito Emmanuel. Cada mês dialogamos em roda sobre um determinado povo, conduzido por alguém que tenha mais afinidade de falar sobre ele. Neste mês, fiquei com gregos e romanos. 

Buscando alguma forma de abordar os gregos sem resvalar em uma narração monótona da história, decidi tentar fazer analogias entre a mentalidade daquele povo e a nossa. 

A primeira questão é sobre a importância das histórias para a formação do imaginário das pessoas. Toquei na era das mitologias. Todos nós temos alguma história que marcou nossa vida. Não precisa ter sido contada por pai e mãe. Pode ter sido por amiguinhos da escola, do bairro, primos, contos de assombração. Nelas podemos perceber lições de moral por trás, características dos heróis, da mocinha, do bandido que devem servir de exemplo. Era mais ou menos assim nas mitologias, com mais densidade e fervorosa crença. 

A história da "Ilíada e Odisséia" era contada nas casas, nas ruas, comentadas nas mesas de bar. Servia de norte para condutas cotidianas e até mesmo, reza a lenda, serviu para apaziguar a guerra entre duas cidades-estados. O que Odisseu (Ulisses) faria no meu lugar? 

Neste nosso primeiro encontro evoquei a característica de Odisseu de ser um herói cheio de peripécias, estratégias de combate e de se esquivar do perigo (polytropos). Pude assim relacionar esse tipo de personagem com vários outros heróis conhecidos por nós em histórias que nos são familiares, como a do João Grilo (Auto da Compadecida), Zé Carioca (Walt Disney), Calabar (Chico Buarque - aliás na obra de Chico Buarque os malandros ocupam lugar especial). 

Também falei sobre o quanto o sentimento de "um por todos e todos por um" era presente entre os reis. Os troianos raptaram Helena, então era como se tivessem raptado as rainhas de cada um. Por isso foram para guerra. 

Por fim, evocamos o costume da Zenia, que era a hospitalidade sagrada com que os habitantes das mais diversas ilhas gregas recebiam os desconhecidos que nela aportavam. Não por um sentimento de caridade, estrito senso, isso seria um raciocínio cristão, mas porque, na cultura politeísta e antropomórfica, não era de se admirar que um deus pudesse se vestir de homem para colocar os mortais à prova. É o que é demonstrado na solicitude com que o ilustre desconhecido Odisseu é recebido à ilha dos Feácios. 

Análise espírita-cristã


Perceba que respeitar alguém por ele poder ser um deus é algo que esconde uma verdade. É como se a mitologia tocasse de leve em um ponto profundo da ética humana maior. Em várias culturas parecemos encontrar formas míticas de justificar a hospitalidade a um estranho. 

Entre os judeus, cada um era considerado uma Torá viva, isto é, portador de uma mensagem de Deus no coração. Aquele que se fazia peregrino no deserto, merecia ser recebido nas casas por ter percorrido uma experiência que se tornara sagrada na história hebraica. 

Sobre homens esconderem alguma divindade em si, não seria a mesma imagem que sugere Jesus ao dizer aos seus discípulos que se a caridade fosse feita aos vulneráveis, a ele é que estariam fazendo?

Numa primeira instância, onde predomina no homem mais o medo da punição, a hospitalidade (zenia) pode ficar na superfície dos gestos. Aprofundando-se a sensibilidade moral, é de se esperar que realmente ascendamos a essa mística em que vemos em todos os seres, de fato, Deus.  

sexta-feira, 31 de março de 2017

Sobre o sinal do tempo e as convulsões (da minha mãe)



(Por ocasião da palestra concedida à Sociedade Espírita de Fortaleza ao dia 31/03/17)

Eu havia ficado de falar sobre o sinal dos tempos e as convulsões sociais. Acabei por falar sobre o sinal do tempo e as convulsões de minha mãe, não bem as convulsões, mas os tremores paralisantes, como são os da síndrome de Parkinson. É que, cá entre nós, a gente fala do que o coração está cheio, e as convulsões sociais, como estas que vem acontecendo pelo Brasil, não enchem meu coração (encheria o de alguém?).

Confesso que pensei em tanta coisa para fazer os ouvintes entenderem que cada movimento do universo obedece a uma ordem temporal bem orquestrada no concerto cósmico, que a prolixidade foi o meu tropeço. Escrevo estas linhas para me fazer melhor entender.

Como, ao final, ficou claro a quem verdadeiramente me dirigia, isto é, para mamãe que sofre de uma doença que desafia a bondade divina, acredito que me expresso com mais clareza se aqui falar para ela:

- Mamãe, sei que as probabilidades de essa doença ter lhe acometido são poucas. Sei que parece não haver consolo na solidão que enfrenta. Nem adianta falar que o todo, olhado de forma integral, é bom. É abstração demais para que compreenda. Então, queria, por um instante, que tomasse a minha mão e voasse para além desse planeta. Deixe seu corpo aí. Venha em Espírito.

Vou pedir um pouco a graça de Deus para que Ele passe a vida da Terra por nossos olhos. Vê como há ciclos em tudo? Vendo o tempo correr assim de bicicleta, parece até uma brincadeira toda a formação da Terra. Pois cada era geológica dessas foi um tempo suado de construção. Porém, cada coisa ao seu tempo foi se estruturando. Vê, a semente de cada ser vivo desabrochando, e o caldeirão da criação cedendo lugar às formas de tudo?

Calma, não se desespera. É um sonho bom esse que estamos vivendo. Tira um pouco a atenção das dores que aquele corpo sofre. Presta atenção em mim.

Vamos se aproximar um pouco da Terra de hoje em que a senhora vive. Vê as grandes árvores? Já testemunharam tantas gerações fenecerem! Desde as vidas mais simples e rupestres até as tragédias mais sanguinolentas shakesperianas. Olha ali! Um tronco perdido. Percebe que ele guarda em si os ciclos de mil crescimentos, aposições de experiências que o fez robusto como ele só?! Vem mais para cá. Voemos para as altas montanhas. Quero que saiba que elas contam as histórias milenares de uma Terra que já não é mais.

Não se preocupa, seu corpo dorme. Os tremores também. Permita-se esse vôo comigo. Precisamos olhar além daquelas dores.

Veja a humanidade. Deus agora vai permitir que o tempo corra outra vez aos nossos olhos. A terra gira, e os corpos humanos, feito areias de dunas, erguem-se e se vão com o vento. Percebe o erigir e o dispersar dos impérios? De repente, um dilúvio parece tomar conta de toda a Terra. Nós dois nos vemos no espelho dessa cheia infinda. A água desce, as terras habitadas surgem. Um arco-íris nos dá boas-vindas. A humanidade se renova junto com a transformação da casa em que habita. A Terra cicla, as estações passam. Há verão e inverno para todos. Podemos nos enganar o quanto quiser, mas é bem verdade que ciclamos junto com a Terra.

Respira. Respira fundo. Esteja presente neste momento. Eu sei que é descomunal um passeio desse. Todavia, eu preciso fazê-lo com você.

Sabe aquela faculdade que me deu cabelos brancos? Nunca contei a verdade toda dela para você. Foi repleta de fracassos. Mas, deu certo. O que isso tem a ver com o que lhe mostrei? É que, como eu, havia vários estudantes, e ainda há. Ela é meio um microcosmo da vida inteira. Nela me desconstruí, dela saí novo, sem contudo perder as camadas de história, luta, resistência, que ficaram superpostas no corpo. Sempre ouvi papai falar das história de Odisseu, o rei grego. Foram precisos dez anos para destruir a vida dele, e dez anos para reconstruí-la. Em seis anos a faculdade quase destruiu minha autoestima. Já vão seis anos e estou de pé, com dois filhos, e quase encontrado na profissão. Quero te mostrar, que tudo cicla. 

Só mais um pouco, mais um pouquinho. No tempo cotidiano onde dorme seu corpo, o sol se prepara vagarosamente para despertar. Por que a pressa em voltar? Talvez seja a primeira vez, depois de anos, que consigo fazê-la dormir por mais tempo.

Olha para trás, agora. Mil sóis se nos avizinham. Enquanto olhávamos o movimento da Terra, todos eles giravam. Um dia, uma estação, um ano, um século, um milênio. A própria humanidade atravessou eras, e estes sóis pareciam marcar certa cadência de uma lógica cósmica. Nada aconteceu por acaso. Cada movimento veio no tempo oportuno.

A última imagem que eu quero te mostrar: volta para a árvore que lhe apontei logo no início. Sabia que Jesus falava ser o Reino dos céus um grão de mostarda, que se transforma em árvore frondosa a aninhar passarinhos? Lembra que, como tudo na natureza, a árvore tem seus ciclos, um crescimento após o outro? Camadas e camadas de vidas que ela presenciou somadas a si? Não é a toa que Jesus fala de semente. A semente é o símbolo maior do tempo que desabrocha. Há dor em cada ruptura, em cada busca de novos patamares, na busca do sol. A semente da mostarda é o sinal do próprio tempo. Não tem como olhar para ela e não pensar que ali dorme uma árvore. Contudo, cada conquista ao seu tempo. Nossos sofrimentos passam, nossos corpos antigos passam, os sóis gravitam marcando ciclos do Espírito, testemunhando nossos passos de imortalidade.

Seus olhos estão abrindo agora, mamãe. O braço volta a tremer, o corpo a se agitar. A doença parece imperatriz. Não se engane. Mostrei-te tanto infinito. Isso que acontece agora, vai passar. Tanta coisa já passou. Vai chegar o tempo, em que teu corpo será templo do Reino de Deus maduro, e, então, dará sombra a transeuntes sedentos, aninhará passarinhos famintos. A doença de hoje, será um ciclo esquecido que te fez forte, e, então, frondosa. Ainda voaremos juntos de novo, e livres, pelo espaço sideral. O Reino dos céus não se toma de assalto, ele se ergue milenarmente em nossos corações, ciclo após ciclo.

Porta estreita



(Em razão da palestra concedida à Sociedade Espírita Irmãos do Caminho, ao dia 29 de março de 2017)

Eis a passagem evangélica a ser interpretada:

E disse-lhe um: Senhor, são poucos os que se salvam? E ele lhe respondeu:
Porfiai por entrar pela porta estreita; porque eu vos digo que muitos procurarão entrar, e não poderão.
Quando o pai de família se levantar e cerrar a porta, e começardes, de fora, a bater à porta, dizendo: Senhor, Senhor, abre-nos; e, respondendo ele, vos disser: Não sei de onde vós sois;
Então começareis a dizer: Temos comido e bebido na tua presença, e tu tens ensinado nas nossas ruas.
E ele vos responderá: Digo-vos que não vos conheço nem sei de onde vós sois; apartai-vos de mim, vós todos os que praticais a iniqüidade.
Ali haverá choro e ranger de dentes, quando virdes Abraão, e Isaque, e Jacó, e todos os profetas no reino de Deus, e vós lançados fora.
E virão do oriente, e do ocidente, e do norte, e do sul, e assentar-se-ão à mesa no reino de Deus.
E eis que derradeiros há que serão os primeiros; e primeiros há que serão os derradeiros.
Lucas 13:23-30
E disse-lhe um: Senhor, são poucos os que se salvam? E ele lhe respondeu:
Porfiai por entrar pela porta estreita; porque eu vos digo que muitos procurarão entrar, e não poderão.
Quando o pai de família se levantar e cerrar a porta, e começardes, de fora, a bater à porta, dizendo: Senhor, Senhor, abre-nos; e, respondendo ele, vos disser: Não sei de onde vós sois;
Então começareis a dizer: Temos comido e bebido na tua presença, e tu tens ensinado nas nossas ruas.
E ele vos responderá: Digo-vos que não vos conheço nem sei de onde vós sois; apartai-vos de mim, vós todos os que praticais a iniqüidade.
Ali haverá choro e ranger de dentes, quando virdes Abraão, e Isaque, e Jacó, e todos os profetas no reino de Deus, e vós lançados fora.
E virão do oriente, e do ocidente, e do norte, e do sul, e assentar-se-ão à mesa no reino de Deus.
E eis que derradeiros há que serão os primeiros; e primeiros há que serão os derradeiros.
Lucas 13:23-30
"Alguém lhe perguntou: Senhor, são poucos os homens que se salvam? Ele respondeu: Procurai entrar pela porta estreita; porque, digo-vos, muitos procurarão entrar e não o conseguirão. Quando o pai de família tiver entrado e fechado a porta, e vós, de fora, começardes a bater à porta, dizendo: Senhor, Senhor, abre-nos, ele responderá: Digo-vos que não sei de onde sois. Direis então: Comemos e bebemos contigo e tu ensinaste em nossas praças. Ele, porém, vos dirá: Não sei de onde sois; apartai-vos de mim todos vós que sois malfeitores. Ali haverá choro e ranger de dentes, quando virdes Abraão, Isaac, Jacó e todos os profetas no Reino de Deus, e vós serdes lançados para fora. Virão do oriente e do ocidente, do norte e do sul, e sentar-se-ão à mesa no Reino de Deus. Há últimos que serão os primeiros, e há primeiros que serão os últimos."
São Lucas, 13:23-30

Relendo essa passagem, há novidades que me saltaram aos olhos. A primeira é que em Mateus (7:14), Jesus fala que pequena é a porta  ou o caminho que leva à vida. O que seria, então vida para Jesus?

Nessa passagem de Lucas, aparece a questão da salvação, do Reino dos Céus como um festim, e do pai de família que fechará a porta. 

Vou falar, então, sobre essas imagens, para ver se conseguimos uma interpretação orgânica.

Vida

Para Jesus, vida é mais que simplesmente estar com o corpo em movimento, portando energia vital, tendo os órgãos pulsando. Uma passagem assaz significativa é em João (14:19) que Jesus diz viver, mas que os apóstolos viverão ainda. E fala isso perto do seu desenlace trágico. Isto é, iria morrer, mas diz: "eu vivo".  E mesmo depois de morrer esse "eu vivo" ainda permanece válido. Perceba que não disse "viverei", como se fosse um viver após a morte de que seria vítima.

É que a vida da Boa Nova é um despertar de consciência. Aquele que tem a palavra de Deus ou o reino de Deus já implementado em seu coração, este vive. 

A meta do Espírito, pois, é despertar-se para a vida. Jesus já era desperto. Os apóstolos ainda iriam acordar. E veja mesmo que Pedro, a pedra fundamental da igreja, só veio passar pelo verdadeiro despertar quando submetido a contradição profunda de enfrentar o mundo escolhendo à Cristo. Enquanto Jesus aparecia sedutor e infalível entre o povo, não era difícil largar a rede de pesca para segui-Lo, porém ao mostrar-Se falido e mortificado entre os algozes, os sentimentos mudam de figura. A dúvida aparece pungente. Seria esse mesmo o Messias que haveria de vir? Curou tantas pessoas e não pode salvar a si mesmo?

Essa dor de Pedro repete-se, como uma maldição, em todo despertar do Espírito dos cristãos desde então. Porém, não vemos no Espiritismo como uma maldição, mas como um estímulo que no tempo oportuno irá gerar o movimento certo. Daí surge a questão do Reino.

Reino

Antes daquela passagem de Lucas, Jesus desafiava os olhos das pessoas com curas, e escandalizava a Lei profanando o dia de sábado em favor da salvação dos homens. Quando começa a falar do Reino, toma a figura de um grão de mostarda que cresce, torna-se frondoso, e aninha os pássaros do céu. 

Ora, o Reino dos céus só pode ser plantado por Deus, e é Deus mesmo que cria a semente. Por que a semente? Por que não surge um reino de súbito num fiat lux? É que a semente traz consigo um símbolo pedagógico. Ela contém, em-si, tudo o que ainda vai acontecer. Porém, ela é portadora de um tempo de acontecer. E de um tempo propício. É preciso condições e cuidados para que o que há nela vingue. O Reino, pois, pode não ser mesmo um lugar estanque no espaço, mas um crescimento para uma forma absoluta do Ser que, atualizado em nós, passa a ser abrigo e sombra para muitos. 

Essa é a visão espírita. Estar no Reino de Deus é ser uma consciência desperta. Todavia, um despertar que custa vidas sucessivas para acontecer. Cada momento na existência do Espírito conta para esse desabrochar. Ao final, não é nós que atingimos o Reino, mas ele que está frondoso em nós. Passamos a ser abrigo e consolo para os transeuntes. É a figura do sábio, é a figura do santo, é Cristo como modelo. 

Salvar-se, então, é estar salvo. E não ser resgatado para este ou aquele lugar paradisíaco. E quando a pessoa vive a salvação em si, o lugar não mais importa, já que Deus não habita um lugar senão todo o universo mergulhado nEle. 

Pai

Contudo, depois de todas essa viagem exegética, algo soa estranho. O pai de família que segura a porta estreita fecha a porta para alguns filhos. Se há uma imagem de fato para "choro e ranger de dentes" é a de um filho chegar na casa de seu pai e não poder entrar. Pelejar, implorar até, e a porta, implacável, cerrar aos seus olhos. Não parece condizer com a figura amável do Pai que Jesus prega aqui e acolá. Contradiz-se com àquela do filho pródigo, que teve uma festa ao seu retorno. Pois bem, esta última parábola, considero a chave interpretativa maior para esse problema. 

Nós ou somos peregrinos ou somos moradores da casa. Eis a figura dos dois filhos. Quando não fazemos a vontade do Pai, é que o mundo nos chama, é que o mundo nos espera para nosso amadurecimento, frequentemente com dores, que são a tomada de consciência que a casca (o exoesqueleto) a nos envolver vem pequena demais.

O Espiritismo vem dizer que não há ranger de dentes perpétuo, não há inferno infindo. A reencarnação é a oportunidade que o Pai de todos dá para que consertemos o que deixamos quebrado, que continuemos os trabalhos incompletos. Temos todo o Reino em nós, e a casa do Pai aguarda com festa o dia do nosso retorno - quando estivermos preparados para receber a herança. 

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Injúrias e Violências



Palestra concedida à Sociedade Espírita Irmãos do Caminho que coincidiu com a escandalização mundial dos atentados sobre a França, nos fazendo lembrar que ainda hoje o mundo está em contínua guerra. 

Queria analisar a questão da violência do homem. Problematizei mostrando que, neste mundo, a forma como somos recebidos é eivada de violência. É violenta a natureza que nos circunda, e a dor parece uma constante. Fiz semelhante à Léon Denis quando principia a filosofar sobre o assunto em sua obra magna:


"O animal está sujeito à luta ardente pela vida. Entre as ervas do prado, as folhas e a ramaria dos bosques, nos ares, no seio das águas, por toda parte desenrolam-se dramas ignorados. Em nossas cidades prossegue sem cessar a hecatombe de pobres animais inofensivos, sacrificados às nossas necessidades ou entregues nos laboratórios ao suplício da vivisseção. Quanto à humanidade, sua história não é mais que um longo martirológio. Através dos tempos, por cima dos séculos, rola a triste melopéia dos sofrimentos humanos; o lamento dos desgraçados sobe com uma intensidade dilacerante, que tem a regularidade de uma vaga." (Léon Denis em O problema do Ser, do Destino e da Dor)

Parece dar razão à mitologia hebraica da queda do Paraíso. Se bem que não lembramos de que paraíso caímos, já que a infância abastada parece mais um esquecimento de que muitos sofrem, e adultícia completamente feliz é o ignorar que os outros penam. Ilustrei que foi nesse terreno de um planeta doloroso que Jesus veio nascer sob as mesmas condições e morrer em piores.

Evoquei, então, algumas escolas que quiseram explicar a violência do homem: 1. certa corrente da psicanálise que diz ser a violência não só um elemento inato, mas uma constante, que quando não pende para o homicídio o faz para o suicídio, nas várias formas, as mais chocantes ou as mais sutis. 2. certo discurso das ciências humanas, Foucault na vanguarda, quando fala sobre o encarceramento que a idade moderna (a que se diz "da razão") provoca sobre o que ela considera os anormais. 

Sugeri que não é uma exclusividade dos modernos, mas desde muito tempo na Terra, mostram algumas pesquisas paleontológicas, viemos devorando uns aos outros, não aprendendo a conviver com o diferente. Aponto, então, como tese principal que o problema nem é o homem ser destinado à violência nem a razão ser propícia à exclusão, mas que nossa liberdade nos conduziu mal a enxergar no outro algo que é radicalmente diferente de nós. 

Lembrei, então, dos budistas, cuja forma de ver o mundo animal, como um possível de reencarnação, os faz ver tudo com compaixão. Eles fazem caminhos para que as formigas passem e tratam o cachorro como um irmão! Não é mérito deles exclusivamente. Antes mesmo de o Ocidente conhecê-los, Francisco de Assis conversava com os pássaros, a Lua, o Sol, seus irmãos. Os grandes místicos sempre viram em tudo uma grande unidade, e o eu radicalmente diferente do outro como uma ilusão. 

Minha tese principal, enfim, é que não enxergarmo-nos como semelhantes, filhos de um mesmo Pai, é o que nos conduz para o desespero de defender o eu, o meu, os meus. E a violência começa desde o momento em que me nego em enxergar na fala do outro um possível de verdade. Ter certeza demais do meu ponto de vista é o que ajuda a colocar um ponto final em várias vidas de outros. E mesmo que a razão nos ajude a compreender a verdade do que falo, é o amor, como insistia Jesus de Nazaré, que permitirá a prática dessa paz.


A palestra está disponível temporariamente neste link:

Eis os tópicos norteadores da palestra:

Depressão segundo o espiritismo



Palestra proferida ao Lar Espírita Chico Xavier de Paracuru que carinhosamente me recebeu para me ajudar a pensar sobre esse tema tão presente em nossos dias. 

Introduzi situando-nos em uma era em que a medicina vem entrando em nossas vidas acautelando-nos sobre as doenças invisíveis. Até, então, a maior parte das moléstias que ceifavam nossos entes saltavam aos olhos, quando não matavam rapidamente. Com o advento das cidades bem urbanizadas e dos antibióticos, passamos a presenciar, por conseqüência da longevidade, as doenças que matam aos poucos, e cujos remédios servem, no pior dos cenários, para prolongar o sofrimento cotidiano. O médico se deparou mesmo com a trágica questão de "quando parar de investir em alguma vida". A tecnologia médica colocou sob nossos olhos o "indivíduo sustentado por aparelhos", o questionamento sobre se aquela vida não estaria em excesso. 

Uma das doenças invisíveis que mais vem consumindo a alegria das gentes é a depressão. Associado a esse quadro em que estamos prestando mais atenção ao que nos desgasta lentamente mais do que o que nos mata de súbito, há uma mudança radical no que entendíamos ser o "sentido da vida". Os últimos três séculos testemunharam um esvaziamento das grandes narrativas (religiões, filosofias, sabedorias dos povos) sem precedentes na história da humanidade. O sentimento de comunidade se esfacela. Entregues ao mundo globalizado, pelo menos duas grandes mudanças nos fazem ver a última geração como já caduca: 1. a verdade de qualquer coisa se desintegra no fluxo da internet; 2. a casa das pessoas se torna o mundo, e, se por um lado o corpo adquire amplitude tecnológica suficiente para explorá-lo, o espírito não acompanha esse processo. São esses fatores que, grosso modo, sugeri darem razão para aqueles que dizem ser a depressão nossa "doença do século". Seus sintomas são quase que uma revolta contra tudo isso: querer ficar mais em casa, se perturbar com o nada que nos circunda, com a ausência de raízes, e, por vezes, sentir tudo isso sem saber porque se sente, pois, onde a verdade?

Entre as tecnologias médicas, semelhante aos antibióticos que quiseram por fim às infecções, drogas antidepressivas mais sofisticadas surgiram prometendo devolver a alegria: um messias farmacológico. E, muito embora, tenha havido resultados formidáveis, havendo mesmo aqueles que defenderam e defendem a universalização do antidepressivo, há uma parcela considerável da população que sofre com depressão que se frustra com seus resultados. São esses indivíduos para quem a mensagem das religiões, filosofias, sabedorias de todos os tempos, do espiritismo, enfim, ainda é válida. 

O espiritismo vem revelar que as nossas doenças não são desta vida, nem são do acaso. São construções milenares. A experiência do Espírito na carne é uma terapia per si, onde as emoções que dinamizamos no contato com o outro podem ser trabalhadas intensamente. O remédio é uma ajuda, não a cura. E a cura pode não vir nesta vida. A salvação não é uma dádiva, mas um caminho. E o imediatismo apenas complica nossas perspectivas. O futuro, sendo certo, não deve ser rechaçado, e a esperança, juntamente ao trabalho no bem, devem ser nossos companheiros inseparáveis. 

Para aqueles que não apresentam qualquer quadro depressivo, todavia, partícipes de outros processos expiatórios, devem ter uma atitude de acolhimento paciente e amoroso para com os que sofrem na depressão, não exigindo que tenham o brilho dos olhos na mesma velocidade em que estes piscam, mas tendo abertura para caminhar lado a lado nesse processo de harmonização da própria vontade com a Vontade do Criador, que nos quer felizes, todos felizes, juntos. 





domingo, 4 de outubro de 2015

Espiritismo segundo Allan Kardec



Fui convidado para falar sobre o que seria o Espiritismo segundo o próprio Allan Kardec, isto é, aquele que é considerado o fundador ou codificador do Espiritismo. 

Geralmente quando nos dão esse tema, querem que mostremos o quanto estamos distante do que Kardec praticava como Espiritismo. Mas, é uma maldade comparar aqueles tempos de plantação de vigas mestras com esses tempos em que tudo está andando, bem ou mal. 

Constantemente, vemos o que os mais criteriosos entendem ser a deturpação da vontade de Kardec, mas é preciso olhar com olhos menos rigorosos, eu entendo, para que não findemos por afundar todos juntos em um grande cisma que, a bem da verdade, vive acontecendo no movimento espírita. Todos, citando o codificador, puxam a corda para o seu lado. Estes acham que deveria ser mais científico, aqueles querem fazer evoluir a proposta e harmonizar-se com as temáticas sociológicas mais atuais, aqueles outros querem que a religião impere. 

Resgatar o Espiritismo de Kardec nos faz ver que ele mesmo passou por fases de enxergar a doutrina com um óculos de cada vez. No início era o homem do critério científico. Depois foi adocicando a fala e aproximando-nos da religião cristã. Ainda assim, dizia que era necessário se abster de dogmas. Os ensinamentos morais eram tudo. Mas, eis que, lá pelas tantas, Kardec já vai confessando que deve haver algum ato de fé espírita e, com pesar, percebe que a doutrina não poderia, naquele momento, fazer irmanarem-se todas as religiões sob a égide da imortalidade da alma. Haviam dogmas duros demais para ceder a tal ponto. 

O que tentei resgatar, por fim, era o quanto o lado religioso do Espiritismo de agora não estava longe do horizonte de Kardec. Em 1865, explicando sobre o que fazia com o dinheiro que conseguia arrecadar com a divulgação da doutrina, prova de forma cabal o quanto não havia dinheiro suficiente, e que ele tinha, sempre, de prover do próprio bolso, por exemplo, emprestando a mobília de sua casa para preencher os espaços da Sociedade Espírita Parisiense que fundara, centro aglutinador de toda a produção do saber espírita da época. Por fim, responde a pergunta: "O que o senhor faria com 1 milhão, se realmente o tivesse?". Eis a resposta:


"Hoje, que o horizonte se ampliou, sobretudo que o futuro se desdobrou, fazem-se sentir necessidades de ordem completamente diversa. Um capital como o que supondes receberia um emprego mais útil. Sem entrar em detalhes, que seriam prematuros, direi simplesmente que uma parte serviria para converter minha propriedade numa casa especial de retiro espírita, cujos habitantes recolheriam os benefícios de nossa doutrina moral; a outra constituiria uma renda inalienável, destinada: 1o – a manter o estabelecimento; 2o – a assegurar uma existência a quem me suceder e aos que o ajudarem em sua missão; 3o – a prover às necessidades correntes do Espiritismo, sem recorrer aos produtos eventuais, como sou obrigado a fazer, já que a maior parte dos recursos assenta-se em meu trabalho, que terá um termo." [Revista Espírita, junho de 1865, grifo meu] (Clique aqui para ler o texto na íntegra) 

Eis ali uma passagem perdida nas mais de 4.800 páginas que Kardec escreveu só de revistas para divulgação da doutrina. Uma passagem que fala sobre o quanto tinha vontade de transformar sua casa em um abrigo acolhedor para o consolo de muitos que procurassem o lugar. Bem, acredito que foi esse o caminho que o Brasil escolheu como modelo. É isso que nossos centros espíritas tentam seguir, o maior ou o menor sucesso não desmerece a tentativa. 


O áudio da palestra encontra-se temporariamente disponível para download neste link:


sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Suicídio em outra visão espírita



Digo suicídio em outra visão espírita, porque acho que impera em nosso meio um discurso muito pouco consolador sobre esse tema. 

Dei uma palestra cujo motivo da fala foi uma pesquisa feita no público geral dos Estados Unidos, veiculada pelo psiquiatra Stephen M. Stahl em seu livro sobre "Psicofarmacologia: Depressão e Transtornos bipolares". Ela mostrava que a grande maioria da população achava que a doença mental era devida à fraqueza emocional, culpa da vítima ou conseqüência de um comportamento pecaminoso. Isto é, a grande maioria absoluta, culpabilizava a pessoa que estava sob o domínio de alguma doença mental, como se ela fosse completamente senhora de seus sentimentos a fim de poder saná-los a qualquer momento com alguma força de vontade ou um retorno para o que consideram caminho virtuoso. 

No meio espírita essa opinião é representada, por exemplo, pela crença de que, se a pessoa está doente, é conseqüência direta de suas ações nesta ou em outra vida. 

Tentei explicar, então, que a coisa não era tão simples. Se a questão fosse de mera força de vontade ou de um comportamento santo, a nobre Madre Teresa de Calcutá, no livro póstumo que revela sua escuridão de alma, "Madre Teresa, venha, seja minha luz", não teria sentido isto:

"Estou simplesmente cheia. Não sabia que o amor podia fazer alguém sofrer tanto. [...] Meu coração está tão vazio. Tenho medo de que o retiro seja um prolongado sofrimento, mas é melhor não pensarmos nisso. Quero fazer um retiro fervoroso."

E outras revelações bombásticas que mostravam uma santa realmente da escuridão, como se ela tivesse se misturado com as dores do mundo.

Poderia ter falado ainda da dor que Jesus sentiu antes de ser crucificado, que o evangelista diz ter ele porejado sangue de seu corpo, tamanha era sua aflição (Lc 22:44). Jesus, aquele que, para os cristãos, é considerado o mais puro homem, ou melhor, o deus-homem. 

Nossa sociedade precisa, ainda hoje, mudar seu olhar para com os portadores de sofrimentos mentais,  deixar de vê-los como fracassados ou birrentos, mas como pessoas cujos motivos mais íntimos de dor estão enterrados em séculos de existência e que, portanto, a solução não deve vir do dia para noite, de imediato. 

A iluminação interior súbita pode ser uma crença budista ou católica, mas não é a espírita. Acreditamos que o processo de cura de um indivíduo, isso sim, não salta na natureza, mas é um construto tão milenar quanto a gênese da dor. Não cabe a nós julgar ninguém ou, como se fôssemos milagreiros, exigir que a pessoa levante e ande, mas sim apoiar, acolher, e facilitar a caminhada daqueles que doem ao nosso lado. 


O áudio da palestra encontra-se temporariamente disponível aqui:

terça-feira, 16 de junho de 2015

Há Espíritos?




Com essa pergunta Kardec inicia O Livro dos Médiuns, e sobre ela comento um pouco junto aos queridos amigos do Centro Espírita Irmão Leite.

Tento mostrar a importância dessa pergunta como alicerce da doutrina Espírita e no contexto da revolução científica em que se estava imerso àquela época. Por cima, mostro a evolução da análise de Kardec da fenomenologia espírita e sua formação de hipóteses com a conseqüente construção das teorias que hoje abraçamos. Quase no final, cito alguns episódios bíblicos que apontam mediunidade entre os hebreus e a vivenciada por Jesus.

Ao final - eis onde quero chegar - bem ao final, eu começo a formular pela primeira vez uma teoria minha sobre COMO O AMOR FAZ COM QUE SE RECONHEÇA A EXISTÊNCIA DAS PESSOAS, E COMO O CONTRÁRIO AS TORNA VERDADEIRAMENTE INVISÍVEIS. Contudo, como era uma elaboração inédita de uma tese difícil de explicar, acho que me embaralhei um pouco, e o cérebro cansado de tanto raciocínio me traiu. 

A tese é a seguinte: independente de vivos ou mortos, seres humanos ou de diferentes espécies,  o outro só se torna um existente para mim quando eu passo a amá-lo. Só assumimos, de fato, a radical verdade de sua existência quando se ama o outro. Mil vezes minha esposa passou por mim na vida, e pouco reservei no espírito um espaço para que ela o ocupasse, mas quando passei a amá-la... não sei como hoje posso viver sem ela. Falo de minha esposa, com quem tenho um filho lindo, mas vale também para outros amores: o amigo que ontem era apenas um cabeludo qualquer. Quando amarmos verdadeiramente, por exemplo, de forma franciscana, tudo ao nosso redor importará e existirá com muito mais intensidade.

Bem, fica o começo da tese, sem tanta elaboração para ser pensada. Deixo vocês com o áudio da palestra gentil e carinhosamente escutada pelos freqüentadores do Centro Espírita Irmão Leite e, espero, por você.   



segunda-feira, 25 de maio de 2015

Sobre família espiritual



Pediram-me para falar sobre família espiritual e família material. 

Entendemos que há dois tipos de famílias: a de Espíritos que se unem por afinidade e a de que se unem por obrigação. 

Então, na palestra que elaborei decidi falar sobre as provas lógicas da existência da reencarnação que fazem com que ela seja a melhor resposta para as incoerências que existem na vida humana, justificando, assim, os sofrimentos que vemos como inexplicáveis. A ignorância das vidas sucessivas faz-nos ceder à hipótese do acaso, da imperfeita bondade de Deus ou do ateísmo ("Deus é desculpável na condição de não existir"). 

Contudo, provar a lógica não prova a existência, daí que Kardec entra na questão - o que faz a base científica do Espiritismo - da autoridade da revelação dos Espíritos. Grande parte deles se manifestavam no círculo de estudos de Kardec (o que já é uma prova da imortalidade da alma, já que se comunica após a morte), falando sobre seu breve retorno à carne. Depois, começaram a explicar sobre a grandeza desse princípio universal: o retorno do Espírito à matéria com o fim de evolução. 

O que isso tem a ver com famílias espirituais?

Decidi comentar a seguinte passagem do livro "Pesquisa sobre o Amor" do Prof. J. Herculano Pires:


Repete-se em cada nascimento, em cada penetração de um ser na existência, o episódio do Cavalo de Tróia. Ante a muralha do existencial os seres inexistentes vigiam como os guerreiros gregos, protegidos por seus deuses. Um não-ser ingênuo e puro, impotente e abandonado, é deixado ante a porta-fortaleza. Os troianos, os que vivem e existem na realidade plena, por trás da muralha, encantam-se com a doçura e a fragilidade daquela criança exposta aos perigos, abrem a porta e a recolhem, embalando-a em seus braços poderosos, sem dar ouvidos às profecias de Cassandra. Mas no interior da criança estão ocultos os conquistadores experientes. A existência, essa Tróia cercada de muralhas no planalto da vida, vai ser conquistada ferozmente pelos instintos de conquista e domínio que explodirão no anoitecer. Cada não-ser busca a sua Helena raptada, a sua contrafação que o completará no plano existencial. Não há guerra gratuita, batalha sem objetivo. Cada ser lançado na existência é, ao mesmo tempo, um vetor energético e uma busca emocional de realização humana. Muito antes de o primeiro eclodir da virilidade na puberdade a marca do amor definia o não-ser como o conquistador da existência. [grifo meu]

"... no interior da criança estão ocultos os conquistadores experientes." Que comparação fantástica! Infelizmente, ela traz a imagem da guerra para dentro do lar. Todavia, é o que referenda toda a história da humanidade. Somos uma civilização de guerra. Nossa história é uma de matar a tribo que mora ao lado, entendendo que o ambiente é pouco para a sustentação de todos. 

É verdade que há pais e filhos que se amam sinceramente, mas não podemos negar a realidade dos múltiplos conflitos trágicos que mancham a história da família. Os que se amam sinceramente são os que possuem o parentesco espiritual, os que não se amam, estão temporariamente unidos por laços biológicos. 

Como tudo na natureza criada por Deus, há providência. Os laços biológicos, o enfrentamento dos conflitos diários, a busca por conseguir dialogar, a consciência filial que pressiona o filho a cuidar do pai doente, tudo isso são vetores direcionados para a dissolução de outros laços: os do ódio. O indivíduo que matou outro em existência pretérita, hoje lhe recebe como filho no ventre, aprendendo a lição de quanto vale gerar e fazer crescer uma vida. 

Faço um convite ao final: para que deixemos de aprender as lições do amor através das dores. O nosso planeta escapará da pecha de provas e expiações quando aprender a fazer o bem por amor à virtude, e não mais por medo do castigo. 

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Sobre doutores palhaços



Convidaram-me para falar sobre o filme do médico Patch Adams, produção cinematográfica que vulgarizou a figura do doutor palhaço pelo mundo. 

Ficava complicado falar coisas muito formais depois de um filme daquele tão transgressor das tradições. Portanto, fui atrás de fazer uma ciranda e, a partir dela, tecer considerações. 

A nossa evolução espiritual é feito uma ciranda que cresce para o alto. De vez em quando nos tomamos fazendo parte de situações muito semelhantes, mas estamos com uma cabeça diferente. Com o Patch aconteceu isso. Sua irreverência para com aquele médico empavonado, reitor de sua faculdade, se dava em virtude de sua já experiência do sofrimento. 

A idade pesa no enfrentamento das situações difíceis. Algumas pessoas podem olhar pelo lado ruim e se cansar com o peso da repetição dos problemas. Outras podem olhar pelo lado bom e ver que, com a idade, se está mais forte para enfrentar aqueles males que, hoje, parecem nada de tão risíveis. O tempo redimensiona as grandezas.

Conheço uma psicóloga que, com mais de quarenta anos, decidiu entrar na faculdade de medicina para continuar sua história agora como médica. Nunca vi uma pessoa tão apaixonada, engajada, diplomática e revolucionária. Está fazendo tudo o que dá na telha para ser o que quer ser, e está indo bem. 

Esses Espíritos nos ensinam que não podemos desistir de nossos sonhos. Pra falar a verdade, somos feitos mais da matéria dos sonhos do que das células. É o que nos move, o que nos alimenta, o que nos diferencia do que já não somos, o que nos assemelha ao que seremos. 

Depois falei sobre minha experiência como palhaço de hospital, o quanto entrei em áreas que nunca imaginei entrar antes, como por exemplo, dentro do abraço e das lembranças eternas de uma senhora que cuidava da limpeza de lá, dentro de seu sorriso a me acolher quando me via, dentro do seu carinho. 

Convidei um integrante atual deste grupo de palhaçoterapia que participei para falar sobre a experiência "escrota" de ainda ver médicos "escrotos" na faculdade de medicina. Mas, então, ele falou de seus sonhos: de como gostaria de ser um médico que olharia sempre o paciente de forma integral, buscando não esquecer suas múltiplas dimensões. Falou ainda sobre o seu amor por um certo personagem de um conto de fadas, um leão rei que acolhia as pessoas sempre com carinho, acreditava nelas e chegou a dar a própria vida dele para que elas vencessem o mal e tornassem o mundo melhor. 

Lembrei-me de Jesus, o quanto ele foi médico de almas, brincou com crianças, revolucionou a história e parece ainda nos guiar lá do alto da ciranda que dança junto com muitos outros grandes Espíritos. Esse leão que nos acolhe com o olhar e mergulhou em nossa história para nos fazer mais senhores de nós mesmos e responsáveis pela restauração do equilíbrio do mundo. 


domingo, 12 de abril de 2015

Coração do mundo, Pátria do evangelho

Fui convidado para recitar uma poesia na abertura de um evento. Deram-me liberdade para criar. O tema era esse aí do livro psicografado por Chico Xavier.

Então, tive a ideia de ser um dos anjos que trabalha para o Grande Arcanjo Ismael. Quem leu o livro vai entender o que significa ser um anjo da falange de Ismael. Mas, eu era um anjo desastrado, meio arredio, indisciplinado, inquieto. Ismael me mandou para o evento para ver se interagindo com os encarnados e fazendo algo de útil amadurecia mais um pouco. 

Saí de uma sala lá de dentro logo depois da prece, todo sujo de pó. Dizia ser ectoplasma e espirrava muito. Um anjo com rinite alérgica por causa do ectoplasma! Contava para a platéia sobre a minha resistência em descer. Contudo, Ismael é persuasivo. A missão era ser um mensageiro, como todo bom anjo é, de uma poesia sobre o Brasil. Depois de muito tergiversar, declamo:



A hora já não tarda
Pois, então, vista a sua farda
E arda no trabalho

Árdua é a labuta
Tá doido?! Não escuta
A batuta do Grande Mestre
No concerto universal?

É chegada a hora
Sem demora,
Meu senhor e minha senhora,
De o Brasil assumir o leme
Sem mais creme (cuidado com o diabetes!)
Com confetes (a festa vai ser grande)

E o gigante há de se acordar
Com a aurora da caridade
Não a morna, mas a que arde
E há de triunfar
Ser coração do mundo
E, lá no fundo,
Pátria do Evangelho
Para moços e para velhos
Para todos. 

domingo, 22 de março de 2015

Mundos Superiores e Inferiores


Palestra sobre a temática de vida em outros planetas baseada no item Mundos Superiores e Inferiores de O Evangelho Segundo o Espiritismo. Como recurso didático narro um dia meu, fictício, corriqueiro no planeta Terra como se eu fosse um Espírito de outro planeta bem mais evoluído que me dei conta, neste dia, que vim de outro planeta.

***

Como me levanto da cama: tenho que contrair o abdomen para levantar a cabeça pesada sobre os ombros, por vezes me valer dos braços para agarrar em algo que ajude. O que há? Por que não consigo voar?

Acordar e ver o sol: não consigo, nem ver as múltiplas cores, nem o ultra-violeta nem o infra-vermelho. O sol me cega.

A casa é vazia, onde estão os muitos seres que a habitam? Os invisíveis e os minúsculos? Em meu planeta de origem era uma visão corriqueira.

A boca é ácida e fétida. Bactérias pelejam por destruir meus dentes, preciso matá-las todos os dias.

Encontro o primeiro ser humano: minha esposa. Não me lembro quem ela foi, apenas quem ela está agora. Por que é a ela que amo tanto e não outra pessoa? Outrossim, como entender o móvel profundo de suas ações quando me ferirem sem razão aparente? Às vezes, tragédias relacionais acontecem que passa ao largo da nossa consciência explicar. Fixo em seu olhar para ver se me lembro. Nada, nenhuma lembrança sequer do que fomos em outras vidas.

Segundo ser humano: meu filho. Tem um ano e quatro meses, fala várias palavras incompreensíveis, ainda tenho que trocar sua fralda. Como assim? De onde venho, uma criança nessa idade já estaria bem mais independente.

Terceiro ser humano: A babá. Chama-me de senhor. Que fiz eu para ser seu senhor? Há uma vontade de tecer relações de amizade, mas há choque entre as individualidades, nossos campos fluídicos emanados de nossos pensamentos não se afinam. Eu tenho apenas conhecimento teórico desses fluidos, não os enxergo, estes meus olhos de proteína. E um amigo me diz que nunca se pode ser amigo dos empregados, eles sempre estarão a espera de lhe passar uma rasteira. Minha esposa me mostra uma postagem no facebook e percebo o clima violento que divide o país entre elite e proletários. Que saudade do planeta em que as relações humanas são mais horizontais, não opressivas! Onde reina o carinho e a confiança.

Chego ao trabalho. "Bom dia!" Poucos respondem com a mesma empolgação. Uma pessoa fecha o cenho. Comentários de amigos dizem que certa pessoa é ressentida porque trabalha tanto quanto o médico, fez quase o mesmo tanto de horas na faculdade, mas ganha três vezes menos. Por que ela realmente ganha menos que eu? Um outro amigo me explica a teoria conspiracionista que sou o braço armado da indústria farmacêutica. Braço aramado?! A Terra está em guerra e eu sou um soldado inconsciente?

Um colega me adverte para tomar cuidado porque estão querendo me passar a perna e me tirar o cargo de chefe que ganhei com suor e dedicação: por que homens querem ultrapassar homens e não a si mesmos? Não havia inveja no meu planeta, mas admiração pelos espíritos superiores que nos estimulava a crescer.

Saio do calor de Fortaleza, entro na gélida sala do consultório. Lá fora estava incomodado com o calor, aqui me incomoda o frio. Mas, lá no meu planeta tudo me agradava. Em que estou me transformando? Um ser eternamente insatisfeito.

Começo a atender pessoas doentes: são muitas doenças! O que houve com essas pessoas? Lá todos possuíam corpos em equilíbrio com a natureza.

Volto cansado para casa. O corpo tem o peso triplicado. Adquiri a dor de garganta dos doentes que atendi. Não consigo nem brincar com meu filho, até mesmo porque temo contaminá-lo. Durmo, o Espírito se desprende do corpo e começa a ver as coisa mais claras: os sentidos se espalham por todo o corpo. Percorro o sistema solar conduzido pelo meu anjo da guarda.

Agora é a hora de ver todos os planetas em contemplação espiritual! E entender a grande escola que é o sistema solar: o grande encadeamento evolutivo universal.

sábado, 1 de novembro de 2014

Pena de Morte segundo o Espiritismo



Palestra proferida junto aos companheiros do Centro Espírita Camille Flammarion.*

A defesa espírita é que não deve haver pena de morte. Antes de chegar no argumento espírita capital, extremamente simples, decidi passear por outras razões dessa negativa:


1. Sobre os inocentes


Dei o exemplo de inocentes memoráveis, como Sócrates, que preferiu a morte à fuga, falecendo com a consciência do homem justo, e Janusz Korczak, médico e educador polonês que, tendo vivido à época das guerras mundiais, foi condenado, juntamente com as duzentas crianças do orfanato que dirigia ao extermínio na câmara de gás. Sim, o extermínio dos judeus era um tipo de pena de morte. Eles foram considerados culpados por muitos insucessos político-sociais do mundo, segundo a cartilha nazista. 


2. Sobre a verdade


O caso dos judeus chama uma polêmica que ficou memorável à época. Estariam os nazistas errados? Se eles tivessem vencido a guerra, provavelmente teríamos a visão de mundo deles, pois os que pensavam diferente eram também exterminados, selecionando, assim, os melhores - segundo a cartilha nazista. 

Essa foi uma teoria levantada nada mais, nada menos do que por Levi-Sträuss, grande sociólogo da época. De fato, é preciso que a verdade de um valor ou de um julgamento cresça mais do que o da vida humana para que haja razão suficiente para exterminá-la. Qual o valor é o mais certo? Depende da cultura. 


3. Sobre o semelhante


Boris Cyrulnik, psiquiatra francês, nos diz que basta não considerar o outro semelhante para que se dê a liberdade de cometer violência para com ele. Está explicado assim porque matamos tranqüilamente os animais que comemos, ao passo que somos cheios de escrúpulos (tabu) de matar um ser humano. Quem o faz, um dos motivos é, segundo o psiquiatra, porque já não o considera semelhante. É uma outra espécie, é uma outra raça. 


4. Sobre a imortalidade


Aqui é o argumento espírita capital. A pena de morte não deve ser levada a cabo porque... não se morre. A morte de um criminoso gera, bastas vezes, um espírito vingativo, loucura nas famílias, doenças nos implicados, todos eventos funestos que gravitam em torno do tema da obsessão espiritual. 


5. Sobre a igualdade


Melhor do que todos estes argumentos que citei, o que mais me encanta é o de Jesus, mesmo. Por que não devemos matar um criminoso? Porque somos igual à ele. Ou atire a primeira pedra. Vá lá! Confesse! No fundo, no fundo, queremos matá-lo para ver se matamos ele em nós. Mas, não mata. É preciso que aprendamos a nos reconciliar com os inimigos externos a fim de apaziguar nossos próprios demônios.  

*Se você quiser ouvir a palestra por inteiro, ela está temporariamente disponível clicando aqui.

domingo, 1 de setembro de 2013

Ressurreição e Reencarnação




Decidi me aproximar deste tema me valendo do significado significativo e significante que a palavra ressurreição tem para o catolicismo (e provavelmente para o movimento de igrejas reformadas, mas tenho mais propriedade naquele). E achei por bem localizá-la na história bíblica de Jesus, mostrando o quanto ela se reveste de um significado todo especial para a doutrina da salvação. 

De forma simplificada, assumindo o risco de ser superficial, mas se afastando da prolixidade, Jesus é, como por assim dizer, um broto de Deus-Pai. Se Este cria tudo no momento em que fala, Jesus é o Verbo e, como o Pai, estava desde o início da criação. Antes, portanto, de Adão. Mas, Adão deu início à raça humana, que se perverteu por desobediência às leis divinas e teceu um novelo de pecados que se acumulavam geração após geração sobre os ombros de seus filhos. Era uma linhagem de maculados essa de Adão e Eva, os expulsos do paraíso.

Jesus nasce espiritualmente fora dessa linhagem, com sua brancura original, mas conectado tradicionalmente (pelo menos segundo a genealogia de Mateus) à família de onde deveria provir o Messias prometido pelos profetas de Israel, que iria libertar o povo do jugo dos dominadores, enfim e para sempre. Espiritualmente continua um estranho, pois imaculada é a concepção de Maria, já que virginal, e fecundada diretamente pelo próprio Deus. Demonstra-se esse fato - o de Jesus ser o unigênito de Deus (só Adão o havia sido antes, mas depois todos os homens descendiam de homens) - os milagres que este moço empreendia, entendidos como quebras da realidade que apenas poderiam ser promovidas pelo Senhor dos senhores. Conclusão óbvia: Jesus era Deus ou partícipe de uma Trindade Unitária em que as diferentes faces de Deus se confundiam. Jesus era o Deus-Filho, com todos os poderes de Deus-Pai, inclusive o de resgatar a humanidade de seus pecados, no caso, com o Seu próprio sacrifício e, pelo Seu sangue derramado, redimir os culpados e gerar uma nova descendência que, por Ele, em Lhe aceitando, tudo estaria renovado. 

A renovação de tudo, isto é, a revivificação dos homens que morrem pela corrupção que lhes é herdada desde Adão pecador é provada pela ressurreição que apenas Jesus viveu. Há quem fale em pessoas importantes na bíblia que não morreram, mas subiram aos céus, ou mesmo Lázaro que foi ressuscitado, mas degringolou na morte normal de qualquer humano. Todavia, ninguém houve que morreu, ressurgiu da morte e se perpetuou vivo - na história hebraica.   

Bem, essa não é a visão espírita. É difícil de encaixar no Espiritismo um Jesus de concepção virginal. Muito embora, Kardec conceba a possibilidade de que Deus possa derrogar suas leis ao seu sabor, torna-se mais clara a ideia de um Deus de Leis perfeitas, portanto, imutáveis. Jesus, portanto, entra na carne pelas vias da encarnação biológica da união dos sexos como todo humano. É possível que ele esteja contido em uma cultura e na linhagem para onde apontavam as profecias, mas o verdadeiro messianato está nas atualizações que ele faz das tradições, possivelmente não para as quebrar de todo, mas para as fazer mais resplandecentes. Os milagres, nada de miraculosos, mas tudo ao seu tempo. Como uma flor que, no tempo certo, desabrocha, ou uma nuvem que, no momento necessário, deixa cair suas águas, as pessoas doentes são conduzidas por Cristo à cura em um caminho que já estava aberto, isto é, já era da Vontade do Pai que daquele jeito fosse, faltava só a sua sábia e amorosa condução. Ao final, nada de ressurreição em carne e Espírito, mas em Espírito e Verdade. E nada de extraordinário, as pessoas "ressurgem" todos os dias, o que é constatado pelas experiências espíritas. 

As rupturas que essas sinalizações espíritas têm com a história do Jesus dos Evangelhos é de uma profundeza abissal, na sua forma e nas suas consequências. Mostra-nos, basicamente, como o espírita deve seguir seu caminho:

  1. Não acreditar que sua história é uma de pecados inamovíveis que o antecede e que não lhes pertence. Jesus não se eximiu de encarnar na humana condição para mostrar como, mesmo sujeito às nossas injunções, poderíamos nos libertar de nossas dores. E, sim!, nossas dores nos pertencem porque fomos nós que as cultivamos em outras eras. Pertence-nos ainda mais sua solução;
  2. Não esperar milagres no sentido de um momento mágico que converta martírio em glória. Tudo se transforma pelo trabalho. E todo trabalho no bem traz boas obras. O momento do término do sofrimento é o momento certo, nem mais, nem menos. Trabalhar, orar e esperar. Bom é guiar-se por Jesus, seus exemplos, suas palavras e suas inspirações, ou as de seus mensageiros, porque, chegado o momento da libertação, frequentemente precisamos de condução no caminho para a luz, já que sua prolongada ausência nos desacostuma os olhos. 
  3. Não acreditar em salvação proveniente de uma pessoa outra que não nós mesmos. Ninguém nos salva de nada. Salvamo-nos a nós mesmos, instruídos e acolhidos aqui e acolá por mestres espirituais. Nem tão pouco acreditar que a tal salvação seja da noite para o dia. As múltiplas reencarnações estão aí para mostrar o quanto o caminho é longo, e necessário é nascermos de novo, e de novo, e de novo, e de novo... até a aquisição autêntica do último aprendizado.

Há quem se esmere em interpretar a bíblia de tal forma que o Jesus dos Evangelhos fique claramente espírita. Não tenho estudo para esse mergulho. Deixo aos hermeneutas espíritas de plantão o aprofundamento no tema. Fico, inicialmente, satisfeito em deformar a interpretação católica, reformando Jesus Cristo e devolvendo um Mestre que, para mim, é mais aceitável. Orgulho de alguém que não quer aceitar a verdade da Escritura? Não, isso é fisiológico. Todos nós mastigamos a realidade com os nossos próprios sucos digestivos e só assimilamos aquilo que podemos, segundo o organismo cognitivo que temos no momento.