sábado, 17 de janeiro de 2015

Para meu amigo ateu: A felicidade des-esperadamente



Uma das suas críticas contra aquele texto que te passei foi que aquela felicidade do momento presente era utópica, provavelmente mais metafísica do que a esperança.

O que dizia Sponville sobre a felicidade do momento presente (des-esperada)? Que a esperança era um engodo, pois era um tipo de desejo sem gozo, sem saber, sem poder. Sem gozo, porque só se espera aquilo que falta. Sem saber, porque só se espera aquilo que se ignora de fato. Sem poder, porque só se espera aquilo que não se pode conquistar, do contrário, já se teria feito. 

Tudo isso o conduzia para querer viver uma forma de existir mais em busca da fruição, da lucidez e da ação. Para isso, uma das virtudes essenciais seria a aceitação, que assim ele define em outro momento:


A.cei.ta.ção: Aceitar é fazer seu: é acolher, receber, consentir, é dizer sim ao que é, ao que acontece. É a única maneira de viver homologoúmenos, como se dizia em grego, isto é, em concordância, indissoluvelmente, com a natureza e com a razão. Recusar? Para quê, se isso não altera em nada o que é? É melhor aceitar e agir. (...) A aceitação verdadeira é alegre [senão seria tolerar, o que poderia até ser uma virtude, embora forçada, ou pior, suportar, que é uma paixão triste: "eu te suporto", sinta o peso dessa afirmação]. É nisso que ela é o conteúdo prinicipal da sabedoria. Assim, em Montaigne: "Aceito de bom grado, e reconhecido, o que a natureza fez por mim, e me satisfaço com isso, e me louvo por isso..." Ou em Prajnanpad: "O que tenho a lhes dizer é muito simples e pode se resumir numa palavra: sim. Sim a tudo o que vem, a tudo o que acontece... O caminho é saborear os frutos e a riqueza da vida..." O caminho é compreender que o caminho só há um, que é o mundo, e que ele é para pegar ou largar. Aceitar é pegar.
Claro, você pode me argumentar, como de fato o fez, que há mal demais no mundo para se acolher em si. A argumentação para defender o ponto de Sponville pode se tornar densa demais ao ponto de nos convencer que mais fácil seria não a aceitar. Antes disso, convido-o para perceber que, se não podemos dizer sim ao total da realidade, à parte dela é possível. 

Exemplos: Às vezes me pego olhando para meu filho perguntando quando ele vai dizer "papai". E enquanto me pergunto isso, perco todas as palavras que ele já balbucia. Se toda vez que a alma de minha esposa estiver aflita, eu for tentar forçá-la a se abrir e me falar, perderei a doce oportunidade do silêncio que aceita o silêncio e a acolhe nos braços, apenas, sem questionamento. 

As palavras presentes do filho. A realidade presente da esposa. A fruição do presente. Poderia falar ainda do efeito que as notas de uma flauta tem quando são tocadas com maestria. Ouvi-las: aceitá-las. Ou ainda das qualidades de uma boa amizade. O amor do encontro, o gozo das horas. Mais fundo, mais difícil: não confundir o amor que se tem pelo próprio pai, as boas lembranças (quando elas realmente existiram), com a finada paixão de seus pais. Esta sangra, mas aquele pulsa! 

Todavia, eu também amo a esperança, ao contrário do materialista. Sou fã das coisas que ainda não são, por causa do ainda de que são grávidas. Sponville diz: sem gozar porque falta - mas algumas faltas não são absolutas, são prenúncios, são profecias, são pancadas de chuva, é saber que por aí vem arco-íris; sem saber porque se ignora - mas é uma humildade saber-se ignorante, pequeno e menor do que tanta coisa que nos transcende, tantos mistérios, e há curiosidades que são gostosas de se ter no corpo; sem poder porque é impossível a conquista - de fato, não posso oferecer a lua ao meu amor, mas, aprenda essa, elas amam a intenção! 

Sobre os meninos de Ruanda, as guerras, as pestes, concordo: a esperança. E nesses casos não a vejo como tristeza, nem muito menos como a crença de ignorantes. É a essência dos sobreviventes e desejosos de mais vida. Sobre ela falo na próxima. E ainda sob uma perspectiva laica. 

P.S.: Resposta do meu amigo:


Aceitei cada nota.