quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Je suis...

 

República*

Em meio às manifestações contra os atentados à Charlie Hebdo, as muitas faces de "Je Suis": Charlie (grande maioria), mas também Muçulmano, Judeu, República.

Uma manifestação como jamais vista na França sem partidarismo, sem particularismos. Embora todos alegassem o seu pertencimento, esse conjunto de particulares se reuniam em um coletivo que acabavam por se transcender em um objetivo comum, em uma identidade: o que não eram, não eram terroristas.

Dizer que se é a República dá o que pensar, pois esta, desde sempre, não se propunha ser uma instituição nem muito menos uma atividade em prol de uma maioria. Ela era, acima de tudo, um ideal regulador que queria o poder a serviço do interesse comum (leia-se: de todos), sem privilégios, corporativismos, Igreja, comunitarismos, partidos. Enxergar o indivíduo - cada um e todos - mas abstração feita de seus pertencimentos.

Os governos democráticos, contudo, mirando tal fim, se enchem de alianças, conflitos, relações de força, maiorias mais ou menos frágeis e cambiantes. Tudo em busca desse consenso universal que brilha pela sua ausência e dificuldade, o que nunca fez com que o espírito francês esmorecesse sua vontade de ser República. 

Voltaire

O fantasma de Voltaire também vagou pelas passeatas, pelos sentimentos. Em verdade, nunca desapareceu das penas daquela sociedade. Seus cartunistas sempre foram mais ou menos médiuns de Voltaire. A diferença, me parece, é que havia alguma coisa pelo que lutar à época do filósofo das Luzes: contra a Inquisição, contra o dízimo, contra os abades mundanos, contras as alianças obscenas entre o trono e o altar, o despotismo e a superstição. Mas, substituímos nosso ídolos pelo capitalismo triunfante, a indústria cultural, a comunicação universal e narcísica. 

A Igreja, àquela época era um inimigo, mas hoje? O catolicismo era nossa religião mais intrometida, mas o islamismo? Depois de enterrada a Igreja ocidental, o laicismo tinha de querer devorar as do Oriente? Estamos realmente de luto para com toda a violência que ainda há (sempre haverá?) no mundo. Charlie Hebdo: um epifenômeno. 

Je suis

Mais do que acordar contra a violência, seria de bom grado despertarmo-nos para o deus presente em cada outro de nós. Se antigamente a voz de Javé soava extremamente transcendente para captarmos, o Seu simples "Je suis" nos faz lembrar, hoje, porque devemos amar as pessoas: porque é ela, porque sou eu. 


* Sobre esse assunto, tomei as ideias de Sponville neste artigo: clique aqui