quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

Jesus é Deus? (Parte I)

     A questão que mais me intriga nos últimos meses é se Jesus é Deus. Sempre tive por certo, por ter sido criado ouvindo isso, que não. Não é. E a lógica e a obviedade estavam ali nessa negativa. Porque em um universo nem mais heliocêntrico, mas sem qualquer centro, em que a Terra não passa de um pálido ponto azul, um Jesus, por maior e mais milagreiro que tenha sido, ainda que tenha fendido a história ao meio, é apenas um personagem histórico deste planeta. Como pode ele ser Aquele que criou tudo, e permanece criando, expandindo os limites do universo, e até mesmo, fazendo proliferar multiversos?

    Contudo, a crença dos cristãos ortodoxos - coloco nessa conta tanto os católicos quanto os protestantes, mas tenho me aproximado mais dos católicos - é tão forte, certa, inabalável, persistente e resistente, e vindo de pessoas, muitas!, de inteligência tão superior a minha, que aquela obviedade e lógica da minha infância fazem água. Falo de um Agostinho de Hipona, de um Tomás de Aquino, de um Dostoiévski, e mais recentemente, de um Chesterton. Vejam só, dizem que Tomás de Aquino teve com Jesus, e disse:

    - Senhor, pode queimar todos os meus escritos onde acalantei os mais robustos raciocínios. Tudo foi querendo Te encontrar. Só quero a Ti.

    Dostoiévski, por sua vez, teria deixado claro: "prefiro o Cristo à verdade". É a mesma fala de São Tomás, só que mais concisa e explosiva. 

    Como conciliar a eterna onipresença criadora de multiversos com a presença única de um homem que provocou tantas paixões em gente tão nobre, mas sendo isso mesmo: uma presença única e historicamente limitada? Os católicos, fiquemos neles, criaram a explicação da Trindade. Dividiram Deus em três, mas disseram que cada parte vale o mesmo tanto, isto é, trabalharam na ordem do infinito. Entretanto, lá nessa ordem é tudo igual, infinitos indiscerníveis. Jesus claramente foi alguém aqui, inigualável. 

    Trabalho hoje visitando lares de pessoas doentes. Quase todas as casas tem santuários e quadros religiosos. Jesus está lá, quando não os seus anjos, ou então os seus santos. Sua mãe, também. Todos os personagens que acercam Jesus ganham ar de eternidade. Não daquela eternidade matemática de infinitos, num caldo de números cuja borda do conjunto se perde no horizonte, mas de uma eternidade que ama a tal ponto de abandonar a própria imperturbabilidade dos éteres e vir interceder pelos seres desprezíveis (no sentido moral e no sentido matemático).

    Minha esposa acredita na Trindade, do jeito que ela é, do jeito que eles são, que eles são um. Não há problema para ela. Foi amamentada com uma obviedade trinitária, e questioná-la nunca lhe passou pela cabeça, ou não deixou que a dúvida se aninhasse. Nunca fui de sequer tentar desfazer essa crença. Não a acho nociva, pelo contrário. 

    Ela não acredita em um homem que se quis Deus, mas um Deus que se multiplicou em se dividindo, não comprometendo, assim, a sua própria identidade, e se fez homem. Sendo Pai, se fez filho; sem perder o ar de Pai, foi amigo; sem deixar de ser um Mestre, esteve aprendiz de carpintaria com seu pai terreno, para então talhar novas imagens de Deus no coração dos homens. Como? Revelando-se a Si mesmo no cotidiano das gentes. 

    Daí, nasceu uma religião que busca resgatar cada ser humano, um por um, de volta a um paraíso há muito tempo perdido. Na conversão deles, o amor vai se fazendo a tônica das relações, e o perdão das ofensas, junto com a abertura para o pecador, na esperança que ele seja santo um dia. 

    Muitas outras crenças que querem salvar os homens, desprezam-nos como indivíduos, e voltam sua lógica para a matemática dos infinitos indiscerníveis. Como o socialismo, que não se importando em sacrificar inimigos no altar da história, e até mesmo amigos, faz desaparecer o homem em conjuntos amorfos que devem ser conduzidos ao final perfeito. Ou mesmo o liberalismo, que nos promete a equação certa da riqueza e a herança de um mundo menos desigual, embora sempre desigual, só que menos. E para os que não tem forças para esses empreendimentos, o da conquista do final da história ou do fim da pobreza, não há muito para lhes falar. A história e o seu fim, a riqueza e sua receita, infinito, infinitos.

    A religião de Jesus promete a eternidade. Jesus não precisava prometer. Ele era a eternidade andando entre nós. E as pessoas quedavam-se prosternadas com este absurdo: a eternidade invadindo o passageiro. Os que lêem suas palavras, trazem-nas como se elas tivessem o poder de iluminar cada momento de suas vidas, pelos séculos e séculos. Na hipótese mais redutora, com Jesus inaugura-se a possibilidade de interagir, olho no olho, com o eterno.

sábado, 25 de novembro de 2023

Confissão

    O meu filho mais velho, atualmente com dez anos, por tradição materna, fará o ritual católico da primeira comunhão. Hoje foi o dia de se confessar para, limpo de pecados, poder comungar em breve. Na semana que passou, ele quebrou o pé e teve que o engessar. Eu que estive com ele no hospital, levando-o nos braços, um garoto de 36 quilos. 

    Uma das coisas que mais me dá raiva nesta vida é não entender a razão de algo. Isso me deixa inseguro, exposto, como que desnudo. A minha vida está cheia de âncoras para não me sentir à deriva, são os meus vários papéis: de médico, de marido, de pai, de irmão. A religião, particularmente a espírita, acalma o terror da incógnita do que há depois da morte, o que houve, o que haverá. Mas vá qualquer coisa do cotidiano sair da ordem que consigo prever, e já me dá um desespero. 

    A perna quebrada do João foi uma dessas coisas. Eu me certifiquei bem, pela descrição dele, pela do professor de educação física, ele estava apenas correndo, e uma corrida leve, apenas para se esconder como pedia o jogo. Então, torceu o pé e fraturou a base do 5º metatarso. Que raios! Isso lá é mecânica de trauma para fraturar nada! Daí me vem a busca pela razão suficiente, e fico remoendo cenários possíveis que me justifiquem o ocorrido. Nada me consola. Porque a alternativa possível é ter sido uma fratura em um osso fraco. E o osso fraco, na idade dele, é uma doença mais grave. Só que até hoje, nunca teve indícios de doença grave em seu corpo. E as divagações seguem seu curso catastrófico. 

    Conseguimos muletas para ele se equilibrar, já que não pode colocar os pés no chão. Todavia, ele não sabe usá-las, não tem destreza. E a carência de explicação misturada com o ter de ficar ajudando-o como a um aleijado, a possibilidade de ser algo mais grave que o deixe dependente por muito mais tempo e o seu desleixo com a muleta vão me dando uma fúria e uma impaciência que me fazem ser bruto com os cuidados com ele. 

    Parte disso é uma ferida que ainda habita em mim da época de mamãe. A dependência dela colocava em perigo a minha independência para seguir em frente a formação do homem que deveria ser. Do contrário, estagnaria como o filho perpétuo, sem casa, sem casar.

    Hoje, esse sentimento não faz mais sentido. Estou de casa e casamento, sou pai, tenho três filhos. Sou médico com os pacientes certos. Por que a insatisfação? É que a possibilidade da doença que deixa o outro dependente de mim traz de volta a quebra da cadeia lógica da vida que gostaria como fosse, o padrão. João deverá crescer e ser independente, ter a própria profissão e me deixar para trás, ganhando o mundo. Isso acontecerá se ele tiver uma doença de ossos frágeis? É uma ameaça à minha vida certinha.

    Daí vem não mais a razão, mas a sabedoria. A vida é certa, mas não para nós. É segundo uma visão da eternidade que o seu arrazoado se faz. Querer encontrar o gabarito antes da morte é uma pretensão diabólica. A verdadeira fé não é a que tem a resposta nas mãos, mas a que aceita o texto que vamos conseguindo ler na medida que caminhos pelas linhas traçadas.

    Ele estava tão feliz hoje entre seus colegas de primeira comunhão. 

    - Você viu, pai! Eles estavam me abraçando!

    Fechava os olhos ao abraçar cada amigo como quem morde o primeiro pedaço de chocolate que há tempos não provava. Passou a manhã sendo cuidado por eles. Sem mais insistir nas certezas, pelo menos no que toca esse incidente, deixo em aberto as hipóteses, acolhendo uma delas como a mais importante: quem sabe Deus não deu à João o sofrimento de um pé quebrado para que ele sentisse o prazer de ser cuidado, para que ele sentisse nos ossos o quanto somos frágeis, necessitados frequentemente de perdão.

    - Perdão, Senhor! Por ser bruto com meu filho quando ele mais precisava, por colocar a segurança da minha razão a frente do consolo de minha criança. 

segunda-feira, 23 de maio de 2022

Da Eutanásia


 

Estive palestrando ontem sobre eutanásia, enfoque espírita. Nesta época em que a intimidade é rasgada ao público, em meio à grande ágora sem nenhum pudor, decidi expor a intimidade de minhas duas perdas onde a eutanásia poderia ter sido pensada: vovó e mamãe. 

Descrevi cada vivência com as cores fortes do que vivemos, em família. E aí mora meu medo. Terei colorido demais a dor? Agora, olhando para trás, sem coragem de voltar a ver o que falei, mas que ficou gravado, penso que expus o sentimento de perda com muito mais vigor do que o de consolação. 

O Espiritismo é o Consolador prometido. Nosso objetivo como orador não é entregar às pessoas ainda mais desespero. Devem elas quase palpar o futuro e quase ter certeza do motivo de suas aflições atuais. Assim, o sentido da vida se ilumina sem se apagar jamais. Cada palestra, cada livro, cada texto realimenta essa chama sagrada. Eis nossa missão. 

Mas, dei de falar do que vivi. E a verdade é que aquelas perdas ainda estão cicatrizando em mim. Eu tenho a realidade da partida delas gravada a ferro e fogo nas memórias. Contra o luto, uma teoria da eternidade. Ainda não me entreguei suficientemente ao espiritismo prático para receber do além notícias. Aqui e acolá, o sentido mais aguçado se arrepia com um possível beijo, um abraço. Vem a saudade doce e a vontade de revê-las. Serão elas do meu lado? Sigo vivendo com alegria, sem choro, nem me ater ao passado. As funções sociais vem sendo bem cumpridas. E por esses meses, retorno ao diálogo com meus mentores como há tempos não o fazia. 

No final, o que eu queria deixar é que antecipar a partida de uma pessoa tira dela a oportunidade de fechar assuntos inacabados. Esses assuntos sobrevivem com ela na nova vida que lhe acolhe, cujas preocupações deveriam ser outras que não as daqui. Se Jesus bem aconselhou que deixássemos "os mortos enterrar os seus mortos", do lado de lá bem que Ele poderia falar aos mortos, em relação à carne, "deixai os vivos partejar os seus vivos". Essas advertências não são de fechar as portas da mediunidade como nos dizem aqueles que nos repreendem. São apenas lições de sabedoria para aqueles que vivos passam a vida a enterrar seus mortos, e mortos passam a erraticidade querendo dar vida aos seus vivos. Se cada um estiver vivendo o que tem de viver na dimensão que lhe é própria, dialogar entre si é um prazer natural. Isso vale para cada um também em qualquer lugar existencial que esteja. Não há diálogo frutífero entre duas pessoas que estão despossuídas do seu próprio lugar no mundo. Estarão elas com a mente sempre deslocada e ausente, por assim dizer, sem vida. Sem a vida que lhe é própria viver naquele instante. De outro modo, que engrandecedor é o diálogo entre duas pessoas que estão inteiras! 

Resolver nossas pendências para vivermos inteiros, morrermos inteiros, ultrapassarmos inteiros o grande portal da morte. Para que as preocupações do inacabado não se transformem em obsessões que nos impeçam de viver o presente, mordiscando o passado. Não é tarefa fácil, mas Deus planeja o tempo de aprendizado de cada um. O tempo de fazer o que temos de fazer, construir, destruir, renovar. Os daqueles meus dois amores aconteceu. O meu, bem, estou por aqui. Em breve, inteiros, nos reencontraremos.  

domingo, 10 de maio de 2020

Do medo

O mundo mergulha numa nuvem de medo. As pessoas morrem aos magotes. Corpos são amontoados em valas comuns. Os ritos fúnebres são silenciados. 

Se após a morte há algo, e se esse algo é uma continuidade promissora, ainda que com passageiro ranger de dentes, devemos mais temer entregar o mundo ao medo do que a alma à imortalidade. 

Viver lutando, sabendo que à esquina pode estar a morte foi o normal da humanidade. Estes últimos séculos foram bem atípicos. 

Do Pecado

Não é de se livrar do pecado que se faz a salvação. O pecado a espreita faz parte de nossa natureza. Ir contra ele com todas as forças só nos faz dele escravos. Viver, sabendo que ele está ali, nos faz humanos e preparados. A vigilância é o que devemos procurar e não a santidade. 

quinta-feira, 7 de maio de 2020

A face não consoladora do Espiritismo

Depois de viver uma vida de trabalho e decepções entrecortadas por momentos de alegria sempre passageiros, não raro se pode desejar a morte como um fim para o mal que é a vida. Então, ao saber que ela continua quase igual, que nossas inclinações e paixões não mudam, mas apenas se faz uma passagem para outros tipos de vivências que são outras formas de nos aperfeiçoar, preferiria-se ir para o nada. 

Espiritismo, assim, é consolador para quem tem outros desejos: o de alçar voo para as grandezas que relativizem os sofrimentos humanos, o de atingir conhecimentos que nos façam entender o mistério da dor e a justiça do Criador, e, por fim, de alcançar uma força moral que nos torne imunes à perfídia dos maus. 

Para os que querem repouso eterno, as promessas espíritas são a visão do inferno. 

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Apenas o Redimido pode vencer o Mal

Há algumas sutilezas simbólicas na reflexão que vou construir aqui. Apenas o Redimido pode vencer o Mal. Redimido e Mal se encontram em iniciais maiúsculas. Isso significa que são dois arquétipos da natureza. Quem são?

O Redimido é aquele que passou pelo mal, experimentou-o, lambuzou-se dele, mas saiu do seu domínio. Deve-se ter em mente que no universo judaico-cristão não há bem um inferno como apenas um depositário das almas dos nossos mortos, como o é na Grécia antiga. Há, sem exceções, uma vida eterna de sofrimentos para aquele que se afastou de Deus. O inferno é o mal. Dizer que o Redimido é aquele que passou pelo mal é equivalente a dizer que ele entrou no inferno e dele saiu. 

Todavia, semelhante a todos os que fazem essa passagem na mitologia grega, isto é, os que, vivos, entram no mundo dos mortos e conseguem sair, trazem consigo o segredo da eternidade, cultuado em torno de mistérios. 

O Redimido, assim, é o que, vivo, experimentou o Mal em suas veias e conseguiu se purificar dele. Esse personagem carrega em si os mistérios da sobrevivência. Não a sobrevivência física, que nada é, mas a sobrevivência moral. Ele traz a marca do Bem imortal. Não é conhecer o Bem. É alcançar a pureza. 

Sendo assim, pelo exposto no texto, minha tese de "apenas o Redimido pode vencer o Mal" se torna outra forma de conceituar o próprio Redimido. 

O que separa católicos e espíritas é: a Redenção não é conquistada mas dada de graça pelo único que foi verdadeiramente capaz dela, assim acreditam os católicos. O espírita entende que cada um de nós pode ser tornar um Redimido. 

Se colocarmos a crença católica em mente, o Redimido passou pelos infernos, mas nunca foi do inferno. Ele entrou na carne humana corrompida pela discórdia da serpente, mas venceu cada tentação do mundo. Ele foi a passagem de Deus iluminando as experiências humanas, redimindo-nos. Para o espiritismo, Jesus é um Espírito antiquíssimo que já passou por várias provações, chegando no ápice da escalada humana, sendo modelo e guia para todos nós. 

O que nos convida à lucidez, dando o braço a torcer para a noção católica, é que ninguém em sã consciência pode conquistar a redenção nesta única vida. Somos de fato cheios de falhas e senões, seres lacunares, quando não vazios mesmo, e pequenos para mais não poder. Precisamos de Jesus como exemplo norteador. E, no momento em que nos encontramos, e por muito tempo além, precisaremos da figura do Rabi iluminando nossas consciências e nossos corações. Se focássemos apenas em uma vida, a única forma de sair daqui, concordo, é via Jesus, o Redimido por excelência.