terça-feira, 11 de novembro de 2014

O que é Salvação?



Jesus está bem aqui ao meu lado. Está crucificado, tanto quanto eu. Meu Deus, eu roubei, mas esse justo, o que ele fez? Roubou coração de mulheres, homens e crianças, não foi? Foi. Ainda lembro quando ele passou pelo meu povoado e cochos andaram para o seguir, cegos viram como ele flutuava, surdos ouviram os seus passos. Me crucificaram, sou ladrão. Te crucificaram, mas és rei:

- Jesus, lembra-te de mim, quando entrares no teu reino.
- Em verdade...


***

Não sei o que há comigo. Estas palavras me penetram feito encanto. A culpa se dissolve. O arrependimento de qualquer mal não mais pesa, liberta. O sangue que escorre dos buracos que pregaram em mim esfria. O corpo gela. Não o consigo mais sustentar. Não estou mais na cruz. Onde estou? Que lugar é esse? Uma longa estrada se delineia a frente. Meu Deus! Não estou morto, ando! Minhas feridas saram. Outra força move as entranhas. Nunca vi a Torá tão reluzente em meu peito. Os versos de amor me acolhem, me impulsionam. Enxergo irmãos em tudo quando antes era solidão. O que acontecerá comigo a partir de agora? Que sei eu? Me sinto bem...

A verdadeira fé é uma questão de desespero



Contra-censo total o que falei nesse título. Mas, espero que o leitor me entenda. 

Sempre nos falaram que a fé é um ato de espera, esperar, esperançar. O desespero é o oposto disso. É querer agora o que há para querer, imediatamente, pois não se aceita esperar. Porém, a bem da verdade, venho achando desde há muito este tipo de fé uma insolência para com Deus. 

O que podemos esperar de Deus? Muitos ostentam adesivos nos carros dizendo que aquela propriedade foi Ele (o Todo Poderoso) quem deu. E se o carro for roubado? Ora, foi Deus que permitiu, portanto, vale dizer: "Foi Deus que me tirou!". 

Isso vale para todo o resto. Se estamos doentes, não cansam os Espíritos de nos dizer que a doença chega como uma professora. Se vem a cura, é conquista e graça. Se morre uma pessoa amada, é porque estava na hora. Se sobrevive, é porque não era o tempo. Se nasce alguém, é uma concessão divina. Se, logo depois de nascer, ela morre, foi uma necessidade do Espírito e uma provação para os pais. 

Não podemos prever a vontade de Deus! Portanto, não deveríamos esperar nada. 

Viver desesperadamente seria aceitar a realidade como ela se nos apresenta: em sua radicalidade. 

Isso não deve nos impedir de tentar agir segundo a vontade de Deus - causaria menos sofrimento. Não é o que espero de Deus, mas o que Ele espera de mim. Por outro lado, dizem-nos os Espíritos que não devemos nos abster de pedir o que esperamos que aconteça. Pedir pela cura do filho doente, por exemplo. Mas, ainda assim, deve-se pedir, antes de tudo, que nossa vontade coincida com os desígnios superiores. 

Esta fala do Cristo ilustra bem esse conflito profundo:
"Meu Pai, se é possível, passe de mim este cálice; todavia, não seja como eu quero, mas como tu queres." (Mt 26:39)
Em pleno desespero, uma esperança e a fidelidade. 

E, nesse mundo em que estamos, eu diria que o que mais nos define é essa tensão entre querer intensamente algo que talvez não seja o que nos espera de fato. 

domingo, 9 de novembro de 2014

Acabei de participar de uma cirurgia espiritual



O joelho doía há mais de um ano e fui procurar ajuda que não a do tensor, quando me veio uma dor excruciante ao descer uma rampa. A ressonância me apresentou uma fissura de patela. 

Esse post não quer falar se fui ou não curado à cirurgia espiritual, mas das belezas que vi por lá com olhos não-mediúnicos. 

Um terço dos presentes estava ali para se submeter às luzes terapêuticas prescritas pelos médicos do além a fim de consolidar o ato cirúrgico. Profissionais da técnica Reiki dedicavam seu sábado pela manhã para harmonizar o corpo das pessoas em ato de graça. A maioria vinha com suas dores para se valer dos Espíritos que, através de médiuns, tocavam as pessoas em suas inflamações, aqueciam as feridas com as mãos impostas, acolhiam as morbidades para quem a medicina oficial foi negligente ou assustadora. 

Não há cortes. Há uma fé em que a proximidade cura, o cuidado, a dedicação, a devoção. A "médica" não falou nada sobre a fisiopatologia da patela. Apenas:

- Você deve estar muito limitado, não é? - olho no olho. 

Atrás do povo que esperava pela cirurgia, voluntários preparavam o sopão para os menores e os moradores de rua. Crianças se agitavam alegres ao redor. E um pequeno Marcos saiu brincando de dar bom dia para todos os expectantes, chacoalhando as mãos. 

Há o setor das águas. Acreditam todos que elas são imantizadas por propriedades terapêuticas que, quando bebidas, se misturam ao seu corpo doente para restaurá-lo. E há o setor dos fitoterápicos, as preparações de cura de várias gerações que nos antecederam são aceitas em sua verdade. 

Dentro do salão onde aconteciam as intervenções, baixinhas, músicas evangélicas e de padres brasileiros nos convidavam a lembrar da força de Deus. Alguns espíritas abastados talvez sentissem falta de suas músicas clássicas. Eu não. Há músicas evangélicas que marejam meus olhos e as dos padres que acalmam as dores de minha mãe. Elas me evocam a simplicidade e a intensidade de uma religiosidade brasileira. Simples, tudo. Intenso. 

Ao final, nos entregavam um receituário em que estava escrito para não abandonar os tratamentos da medicina material. Das duas uma: A) Ou se deve ter muito receio que nada disso dê certo; B) Ou se deve ter muita confiança no poder de tudo o que lhes falei, defesas que estão essas práticas de qualquer perturbação que lhes sejam estranhas. 

Deixam claro, todavia: Nada sem a fé.   

sábado, 1 de novembro de 2014

Pena de Morte segundo o Espiritismo



Palestra proferida junto aos companheiros do Centro Espírita Camille Flammarion.*

A defesa espírita é que não deve haver pena de morte. Antes de chegar no argumento espírita capital, extremamente simples, decidi passear por outras razões dessa negativa:


1. Sobre os inocentes


Dei o exemplo de inocentes memoráveis, como Sócrates, que preferiu a morte à fuga, falecendo com a consciência do homem justo, e Janusz Korczak, médico e educador polonês que, tendo vivido à época das guerras mundiais, foi condenado, juntamente com as duzentas crianças do orfanato que dirigia ao extermínio na câmara de gás. Sim, o extermínio dos judeus era um tipo de pena de morte. Eles foram considerados culpados por muitos insucessos político-sociais do mundo, segundo a cartilha nazista. 


2. Sobre a verdade


O caso dos judeus chama uma polêmica que ficou memorável à época. Estariam os nazistas errados? Se eles tivessem vencido a guerra, provavelmente teríamos a visão de mundo deles, pois os que pensavam diferente eram também exterminados, selecionando, assim, os melhores - segundo a cartilha nazista. 

Essa foi uma teoria levantada nada mais, nada menos do que por Levi-Sträuss, grande sociólogo da época. De fato, é preciso que a verdade de um valor ou de um julgamento cresça mais do que o da vida humana para que haja razão suficiente para exterminá-la. Qual o valor é o mais certo? Depende da cultura. 


3. Sobre o semelhante


Boris Cyrulnik, psiquiatra francês, nos diz que basta não considerar o outro semelhante para que se dê a liberdade de cometer violência para com ele. Está explicado assim porque matamos tranqüilamente os animais que comemos, ao passo que somos cheios de escrúpulos (tabu) de matar um ser humano. Quem o faz, um dos motivos é, segundo o psiquiatra, porque já não o considera semelhante. É uma outra espécie, é uma outra raça. 


4. Sobre a imortalidade


Aqui é o argumento espírita capital. A pena de morte não deve ser levada a cabo porque... não se morre. A morte de um criminoso gera, bastas vezes, um espírito vingativo, loucura nas famílias, doenças nos implicados, todos eventos funestos que gravitam em torno do tema da obsessão espiritual. 


5. Sobre a igualdade


Melhor do que todos estes argumentos que citei, o que mais me encanta é o de Jesus, mesmo. Por que não devemos matar um criminoso? Porque somos igual à ele. Ou atire a primeira pedra. Vá lá! Confesse! No fundo, no fundo, queremos matá-lo para ver se matamos ele em nós. Mas, não mata. É preciso que aprendamos a nos reconciliar com os inimigos externos a fim de apaziguar nossos próprios demônios.  

*Se você quiser ouvir a palestra por inteiro, ela está temporariamente disponível clicando aqui.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Se o espiritismo tivesse uma missa...



O ápice da missa católica é quando o padre tem a hóstia e o vinho transformados (leia-se: transubstanciados) em carne e sangue de Jesus. Conclui-se que, para o Cristianismo oficial, a atitude mais importante de Jesus foi o sacrifício de sua existência corpórea, o "dar a própria vida" em favor de muitos. Sobre isso se constrói toda a teoria do cordeiro de Deus, sacrificado para santificar o povo, ter seus pecados perdoados. 

Bem, no espiritismo, se tivesse uma missa, não teríamos vinho. Seria água. A água subiria ao altar para saciar a sede de quem trabalhou. E, no momento mais sagrado, ela seria transubstanciada em suor do Cristo. É porque, para nós, não é a singularidade da morte (e ressurreição) de Jesus que mais importa. Importa! Claro que importa! Todavia, importa muito mais todas as horas que passou aqui servindo ao próximo, suportando perseguições de governadores, intrigas de sacerdotes, incompreensões de apóstolos, traições. 

Isso demonstra bem a diferença capital entre nossos cristianismos. Define nossa heresia. 

A primeira concepção te oferece uma visão da salvação que passa necessariamente pela aceitação daquela morte do inocente para que, a partir dela, você renasça santificado. A nossa concepção nos oferece uma visão da salvação que percorre a luta diária para o despojo de nossas imperfeições rumo ao modelo maior de trabalhador, o suor mais puro, a imitação de Cristo. O renascimento se fará tantas vezes quantas forem necessárias para se chegar a uma perfeita imitação, contando, para isso, cada gota de suor (olhos também suam) derramada nesse caminhar.

Quando se pode colocar a hóstia na boca? Ao aceitar a divindade de Cristo e seu sacrifício. Sendo um bom cristão. Contudo, a verdadeira aceitação incita a bondade. 

Quando se poderia beber a água? Depois de muito trabalhar, dia e noite, sacrificando, por vezes, horas de lazer, a fim de construir o Reino de Deus na Terra, em nós. O esforço da bondade constrói a verdadeira aceitação. 


quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Carta para Luc Ferry sobre o Espiritismo

Clique aqui para ler a carta



O motivo da destinação desta carta para o filósofo francês Luc Ferry veio da simpatia crescente que sua filosofia despertou em mim, manchada, todavia, pelo descrédito que ele deu em relação ao espiritismo em passagem rápida de sua autobiografia intelectual. Considerou um ultraje a comparação de seu pensamento com “coisas de espiritismo”.

Não é de se admirar que em todo o resgate do cristianismo quase nenhum estudioso não-espírita dedique qualquer página sobre o espiritismo como um desdobramento notável. Essa carta, portanto, vem com o objetivo de colocar o espiritismo, não só no quadro das doutrinas cristãs, mas também de promover essa explicação se valendo do esquema didático de Luc Ferry. Este afirma que toda grande escola de pensamento passa por três grandes vias de questionamentos: os teóricos (sobre aquilo que existe), os éticos (sobre como devemos nos portar diante daquilo que existe), os salvíficos (sobre o sentido último de tudo o que existe).

Os trabalhos que mostram o que verdadeiramente é o Espiritismo são muitos, mas ainda insuficientes para fazer cair por terra todo o preconceito de que somos alvo. Essa carta, assim, não está em excesso. 


Como essa defesa se embasa no pensamento de Ferry, vale como uma introdução ao mesmo, e as indicações de leitura estão espalhadas pela carta. Não se importem muito com os rodapés, a princípio, eles são para uma segunda leitura.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Enciclopédia Britânica Escola Online foi a que melhor definiu o Espiritismo para o leigo

Adorei o verbete que a Britânica Escola Online dedicou ao Espiritismo:



"O espiritismo é uma religião que acredita que a alma, ou o espírito, continua viva após a morte. O espiritismo surgiu na França em 1857, com a publicação de O livro dos espíritos, de Allan Kardec.

Crenças

A doutrina espírita baseia-se em cinco pontos principais: a existência de Deus; a imortalidade da alma, ou espírito; a reencarnação, pela qual as pessoas voltam a nascer depois da morte, para se aprimorar; a existência de outros mundos habitados; e a lei do carma, pela qual o destino de cada pessoa está relacionado aos atos que pratica.

Seus ensinamentos principais são o amor ao próximo e o amor a Deus, a caridade e a evolução do ser humano.

Não existe culto, ritual nem sacerdote na doutrina espírita. Segundo ela, todos serão salvos — alguns antes, outros, depois, de acordo com o progresso de cada um. O espiritismo não combate nenhuma religião.

O surgimento do espiritismo está ligado a diversos acontecimentos, mas o que se tornou mais conhecido ocorreu em 1848, nos Estados Unidos. Na casa de uma família com duas filhas pequenas, ouviam-se fortes pancadas no teto e nas paredes do quarto das crianças. Uma delas resolveu responder, batendo também; em seguida, obteve resposta. Essas batidas teriam sido dadas pelo espírito de um homem que teria sido morto naquela casa, muitos anos antes.

Diversos estudiosos avaliaram esses fenômenos, considerando-os verdadeiros. Entre os mais importantes estão Kardec e Flammarion, na França; Frederick Myers (que fundou a Sociedade para a Pesquisa Psíquica), Lodge e Wallace, na Inglaterra; Lombroso e Schiaparelli, na Itália; e Zöllner, na Alemanha.

Os espíritas acreditam na mediunidade, pela qual uma pessoa com percepção extrassensorial (acima do normal) — denominada médium — pode ver pessoas mortas e ouvir o que dizem, entre outras coisas."


Alguns termos mereceriam maior problematização: Espírito difere conceitualmente de Alma. Carma não é uma palavra espírita. Destino é uma palavra forte demais, cheia de história e peso, temos uma discussão pormenorizada sobre isso. "Ser salvo" é outra expressão que mereceria ser melhor explicada, mas, grosso modo, está excelente!

espiritismo. In Britannica Escola Online. Enciclopédia Escolar Britannica, 2014. Web,
2014. Disponível em: <http://escola.britannica.com.br/article/487834/espiritismo>. Acesso em:
07 de outubro de 2014.