quinta-feira, 20 de abril de 2017

Sobre os utensílios que se quebram



Hoje de manhã fui cortar o queijo e a faca se partiu. Não me feri. Não é a primeira vez. Era uma faca boa. Foi para o lixo. Fiquei pensando quantas vezes nos infelicitamos com utensílios que quebram. Gostaríamos muito que eles durassem para sempre, mas o dia deles sempre chega. O máximo que podemos almejar é a demora desse dia último. 

Tem que ser assim. 

Como o homem, mortal, pode gerar algo imortal? Como uma inteligência falível pode gerar algo infalível? O escape, no cálculo da criação humana, dos erros inapreensíveis, vão corroendo a natureza do objeto que criamos até o seu fim. Já nasce com promessa de morte. É o aço mais inoxidável do mundo? Não há como isolar 100% a liga metálica da atmosfera. E, vejam só, o mesmo oxigênio que nos dá vida é o que provoca subprotudos tóxicos no metabolismo orgânico a nos conduzir à morte. Produzir vida, conduzir à morte. Estamos mergulhados numa atmosfera de vida, de morte. 

Os únicos que escapam dessa lógica é Deus, pois transcende isso aqui, e o espírito, pois escapa disso aqui. Após a carne corroída, há liberdade para o espírito. Para Deus, Dele tudo descende, incluindo a possibilidade de morte. Portanto, a própria possibilidade descende de Deus, não pode Ele estar submetido à ela. Eis a definição de absoluto, o que não está submetido à possibilidades. O espírito escapa da morte, a morte escapa de Deus. A matéria: momentos de vida vicejada pelo espírito, morte após a passagem dele. 

Duas atitudes sábias para quando nossos utensílios quebrarem:

  1. Do que crê em Deus e na sobrevivência da alma: sentir a brisa da consciência da liberdade que um dia também chegará para você quando a carne quebrar por completo. 
  2. Do que não crê: tomar consciência que é um processo que abocanhará a todos. Por que a admiração? Por que a fúria? 


A faca quebrou. Enfurecer-se com isso é dar um murro na ponta dela.