sexta-feira, 14 de abril de 2017

Punho de Ferro e seus dilemas espirituais



Um super-herói que não foi treinado, nem escolhido, para salvar a humanidade, mas apenas um pequeno povoado mágico dos confins do Himalaia. Esse seria o Punho de Ferro

Anunciado por uma lenda de que cairia do céu, como que sendo o elefante branco da mensagem onírica que antecede a vinda de Buda, Daniel Rand, um garoto americano vítima de um acidente de avião, por assim dizer, rouba a vez dos meninos de K'un-Lun. 

Passando por um rigorosíssimo treinamento marcial, é coroado com o dom do Punho de Ferro, uma linhagem de guerreiros com poderes especiais destinados a impedir que a passagem da cidade sagrada fosse violada pela invasão de uma grande organização criminosa chamada Tentáculo.

O seriado veiculado pela Netflix inicia com o herói buscando o reencontro com seu passado. Ingênuo, vai tentando entrar nos lugares familiares, mas que hoje se revelam hostis. A princípio a hostilidade é porque o mundo o esqueceu. Depois descobre que o mundo não apenas o esqueceu, como forjou sua morte.  

Rand utiliza o poder do Punho de Ferro (propriedade espiritual do povoado de K'un-Lun) para, em vez de salvar aquele povo, reconstituir a paz com o que sobrou de sua família. Sua escolha é de tal modo comprometedora que, ao final descobrimos, sua ausência no povoado significou a morte deste. Imaginava estar exercendo a verdadeira função do Punho de Ferro, destruindo os planos do Tentáculo, justificando o que na verdade consistia a busca de preencher seu próprio vazio. Contudo, não esperava que o Tentáculo tivesse ubiqüidade tão grande no mundo, ao ponto de uma mão estar aqui - ele a combatê-la - e outra estar, lá distante, esmagando K'un-Lun. 

O principal conflito do herói resgata o dilema maior das mentes ocidentais: (1) esforçar-se por dar paz à família ou (2) sacrificar tudo em nome da vida de uma tradição espiritual. Mais do que isso, há o choque de duas visões de salvação aqui: uma que prega ser a família o caminho que conduz o homem a sua inteireza e ao seu exercício da vontade de Deus (o judaísmo, o cristianismo para os leigos); outra que diz ser o apego o pior dos males, e que mais válido é buscar sua luz na prática de exercícios espirituais junto ao isolamento sagrado de uma comunidade que partilha a mesma busca (o cristianismo e o budismo de monastério). 

O que deixa uma brecha para a reconciliação destas duas visões de salvação na história é que o menino branco fora profetizado. As profecias não se enganam. Quando muito, elas fazem cumprir o prometido de forma incompreensível para as mentes cotidianas. K'un-Lun foi destruída? Como se pode destruir uma cidade espiritual? Mais fácil ela ter encontrado seu verdadeiro lugar no cosmos multidimensional. Daniel Rand derrotará o Tentáculo? Estamos torcendo. Nada impede que se dedicar ao amor apego pelos seres humanos particulares possa acontecer conjuntamente à busca de concretizar nossos maiores deveres espirituais para com as tradições que nos dão nortes. Pelo contrário, a missão fica mais difícil, mais grandiosa, mais arrebatadora. É o símbolo de Cristo crucificado por muito ter amado os que o crucificaram.