sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Dons do Espírito Santo e Mediunidade




Adoro quando encontro fora do Espiritismo o que Allan Kardec encontrou para codificar o mesmo. Afinal, os fenômenos espíritas são de toda a história da humanidade, mas a doutrina tem data de nascimento, haja vista, 18 de abril de 1857, com a publicação de O Livro dos Espíritos. Inaugurava-se, assim, no vocabulário mundial, as palavras Espiritismo, para designar a doutrina, e Espírita, para seus seguidores-estudiosos, entre outras tantas que completam nosso jargão. Nascia, junto com elas, uma forma completamente diferente de encarar o fenômeno.

Minha esposa me apresentou a entrevista de Pedro Siqueira, médium católico que prefere dizer ser agraciado com os “dons do Espírito Santo” ou, no máximo, paranormal, termo “mais neutro”. Seu discurso endossa em vários pontos o que o Espiritismo fala sobre o fenômeno mediúnico. Citei algumas ideias, transcrevi algumas falas e tomei a liberdade com algumas respostas para esclarecer vários pontos sobre o assunto. 

Claro que estamos lidando aqui com um exemplo isolado, mas Kardec estudou vários casos no intuito de tentar chegar a conclusões gerais, ou melhor, universais, que pudessem ser extrapoladas para todos os casos, como pretende todo exercício científico. 

Então, vejamos:

1. “Pedro conta isso com uma enorme simplicidade”, diz Gabi. “Pra mim era normal, era uma coisa que acontecia todo dia...”, ratifica Pedro. 
  • A mediunidade é algo natural. Como um relâmpago que cai ou como o Sol que nasce e morre dia após dia. Algumas pessoas tem o contato com o mundo espiritual de forma mais intensa, outras menos, mas todos temos uma ligação com este mundo que nos circunda. A concepção espírita do homem é que ele é um ser interexistencial, isto é, nossa consciência navega entre as percepções extra-sensoriais, próprias do corpo espiritual, e as sensoriais, próprias do corpo físico, como um marinheiro que ora está atento ao leme do barco, ora às ondas do mar. Demos, por convenção, para chamar médium apenas aqueles que tem a percepção mais intensa do mundo espiritual. 
2. Pedro via seres angelicais que o protegiam e seres demoníacos que o faziam chorar desde a infância. Um deles, um homem de traços finos e rosto angulado, vestido de túnica verde, face iluminada, era o seu anjo da guarda. 

  • O mundo espiritual e o material são um só e o mesmo mundo. Não são dimensões paralelas, mas imbricadas. É como reconhecer que a Terra e a Via-Láctea fazem parte do mesmo espaço. Nesse mundo único há milhares de habitantes, entre encarnados (que residem na carne) e desencarnados (que dela estão livres, ainda que temporariamente). Alguns bons, angelicais até, outros nem tanto, demoníacos, se muito cruéis. Nada muito diferente do que vemos por aqui.


3. A mãe do Pedrinho o proibia de ficar revelando os dons para as pessoas, porque começou a ver um aproveitamento constrangedor por parte delas.
  • Moisés, o primeiro libertador dos hebreus, também proibiu seu povo de lidar prosaicamente com a mediunidade. Não era uma condenação perpétua, era uma prudência justificável. Não é pecado o fenômeno em si, mas o uso que se faz dele. 


4. No início ia para médicos para se tratar das visões, dos terrores noturnos, nada encontrando. 
  • Não há nada, até hoje, que culpe o fenômeno mediúnico com evidência científica. Os portadores de transtorno mental médiuns são tão numerosos quanto os que não são. Dizia certa anedota inscrita em um hospício à antiga: “Nem todos os que são aqui estão!”. E, nos alerta o movimento anti-manicomial, nem todos os que estão aqui são.


5. Deus é pai de todos e Nossa Senhora é mãe da humanidade, independente da crença. “Se a pessoa tem uma vida que tem essa adoração por Deus (...), que tem atos de amor e caridade, é uma pessoa correta, é uma pessoa que se esforça pelo próximo, que se esforça em evoluir espiritualmente, eu acredito que essa pessoa vá para o céu, independente da religião dela.”
  • A opinião de Pedro Siqueira é lei para o Espiritismo. Nem a igreja, essa ou aquela, nem a ciência são caminhos exclusivos de salvação, só a caridade! Salvar-se de que? Essa é uma pergunta ótima e que não dá para falar aqui em rápidas palavras. Ainda abordarei esse assunto (ver o marcado Soteriologia).


6. “Minha missão é difundir essa amizade com Deus.” 
  • Sempre buscando deixar acessível a quem não crê em Deus essas ideias, eu reforço que a “amizade com Deus” está ligada a questão da espiritualidade. Ao contrário do que muitos pensam, espiritualidade não é igual a religião, mas a religião é uma das formas de espiritualidade. Particularmente na espiritualidade católica, segundo Pedro Siqueira, e também na espiritualidade espírita, a intimidade com Deus, ou com a ideia de Deus, nos faz ter menos pressa, menos apego ao que passa, mais paciência, mais sapiência de esperar, isto é, mais confiança na providência divina, que se manifesta com uma visão sempre otimista da história, sem, contudo, deixar de buscar, de tentar resolver, de trabalhar.
Não é preciso ver, ouvir, sentir a pressão na pele para se dizer médium. Praticamente toda intuição é mediúnica. A oração é um ato mediúnico. Falo aqui de uma mediunidade natural, que é aquela que nos permite entrar em conexão a qualquer momento com o que nos eleva acima da matéria. 

Estes indivíduos de mediunidade mais aguçada têm a divina missão de nos mostrar aquilo que deixamos passar despercebido pelo embotamento diário da correria infinda das coisas que nos tocam o sentido de forma mais imediata. Isso é revelação. Se parássemos para prestar atenção nas forças ocultas que movimentam nossa vida, dentro e fora de nós, teríamos mais consciência dessa realidade que transcende o óbvio cotidiano.

Comento os outros blocos da entrevista aqui e aqui. Por ora é só.