quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

O paradoxo cristão da sabedoria do amor



O cristianismo é uma doutrina da imortalidade da alma. Acreditar que a vida não finda aqui é não ter tanto apego à ela. O que poderia levar a crer que não deveríamos nos apegar às pessoas também. O que seria evitar amar. E há filósofo cristão que endosse isso, entre eles, Pascal:

"É injusto que se apeguem a mim, embora o façam com prazer e voluntariamente. Eu iludiria aquele em quem eu despertasse desejo, pois não sou o fim de ninguém e não tenho com o que satisfazê-los. Não estou eu pronto a morrer? E assim, o objeto do apego dessas pessoas morrerá". (Pensamentos)

Mas, eis o que é tudo: apegar-se ao que morre. Todavia, apegar-se ao que é imortal é doutrina do Cristo em essência. Isso é o amor que ele pregou. Um ser divino que desce das suas alturas a fim de dar sua vida para a iluminação de todos e cada pessoa em particular, espalhando milagres e bênçãos  o que seria isso senão um amor apegado? 

A grande diferença é essa: apegar-se ao que não morre. Quando Jesus salvava uma pessoa, seja cobrindo-a com um milagre ou com uma palavra que abrisse o caminho dela para sempre, não estava ali por aquele corpo corruptível que vaga pela terra, por uma massa de células bestiais que em breve se humilharia de volta ao pó. Ele veio por estes Espíritos imortais, em busca de reconduzi-los ao Pai. O corpo ao pó, a alma, ao Pai. 

Acho que já disse isso outra vez, não custa repetir. A história da bíblia é uma história antropocêntrica. E isso não é um defeito. Ela é a história de Deus em busca de salvar o homem. Não gira em torno de Deus. Que espécie de relação é essa entre Deus e o homem senão a de um pai que nutre um amor apegado por essa espécie frágil da criação? Se olharmos a coisa com a visão da unicidade da existência, não parece assim como falei. Mas, se enxergarmos que todos os Espíritos personagens dessa história são almas reencarnantes, fica claro que são educandos transmigrando em infinitas oportunidades de redenção. Deus não desiste de nós. 

Por que eu digo que isso é um paradoxo? Ora, não percebe que são forças contrárias esgarçando nosso coração? O amor de Cristo que devemos ter como modelo é um que ama tanto a pessoa a ponto de a querer muito. Mas, ao mesmo tempo, é um amor que a reconhece um ser transcendente. Devemos amá-la com devoção, mas sabendo que ela nos escapa a todo instante. É para dedicar a vida à ela, mas preparar nossa alma para a morte. O que acontece ao final é a reconciliação do paradoxo. As almas se reencontram em um final feliz, mas isso se dá apenas ao seio do Pai. E daqui para lá é chão!

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Por que Deus nos dá vontade de viver na Terra se somos imortais?



A nossa vida dentro da carne traz consigo o cuidado sobre ela. Há um propósito de nossa passagem por aqui. A vontade que nos imanta a esse corpo é parte do pacote. Viver é ter algo a fazer por essas bandas. Grandemente inconscientes do que somos, também seguimos tateando a procura do nosso grande propósito. 

Deus nos sopra caminhos. Imaginamos, de costume, estar sendo esmagados por imposições sociais, quando estas nos fazem despertar para o motivo de nossa estadia. 

Hoje um velho amigo me revelou estar grávido, mas de uma moça por quem não nutria paixão tão intensa. Minha resposta:

- Ao contrário do que os revolucionários dizem: não somos os senhores de nossa história, mas mais um personagem dela. Cabe a nós dar seguimento ao que se desenha em planos muito superiores e invisíveis!

A nossa vontade de viver, que se intensifica quanto mais encontramos amores neste mundo de dor, é fruto também da assunção da oportunidade que nos é dada nessa fenestra da eternidade, isto é, nessa vida. 

O conhecimento da imortalidade sem essas imersões na carne, sem esse gostinho de finitude nos deixaria abstratos demais, sonhadores demais. Viver, ainda que para sempre, é uma urgência, pede intensidade e cuidado.

Vivemos na tensão entre esperar o momento certo e abraçar o instante desesperadamente. É nessa forja - água e fogo - em que nosso Espírito se talha. 

A melhor descrição para isso foi a que ouvi de um senhor com linfoma que me abordou ao Centro Espírita e contou-me sua história:

- A doença terminal te conduz à aceitação depois da negação, da revolta, da depressão, etc. Mas, aceitar a morte é ainda desejar a vida. Talvez seja isso que te prepara para continuar vivendo...

... mesmo depois da morte

domingo, 20 de novembro de 2016

Os avanços de Jesus na sociedade laica



Inspirei-me em escrever este post quando, participando de uma conversa com estudantes de medicina sobre saúde e espiritualidade, uma das participantes alegou que Deus privilegia os seus escolhidos nas vitórias da história. Algumas considerações muito importantes a respeito disso podemos fazer. 

O privilégio que Deus (o Deus judaico-cristão) concede não é tão agradável assim. Não na vida terrena. A história de boa parte dos heróis é de sofrimento, sacrifício, carregar um povo nas costas, esgotar-se, dedicar-se de corpo e alma, consumir-se por uma causa. O ápice disso é o exemplo de Jesus. 

Os hebreus viviam ansiando a vitória do próprio povo sobre os vizinhos, e, em vez de vitória perene, algumas diásporas se sucederam. Uma intervenção militar lhes devolveu algum Estado-Nação, não sem conflito. 

Mesmo com a chegada do filho de Deus, o chamado Unigênito, haja visto, o Cristo (para os cristãos), mesmo a promessa dele ficou por acontecer, caso estejamos olhando a concretização do prometido na instalação terrena de um, enfim, reino de amor. Pelo contrário, a busca da concretização do "ano aceitável do Senhor", libertando os cativos, gerou muito sangue. 

Depois de todos esses anos, ainda há quem espere, no Cristianismo, a vitória do próprio Deus em cima dos inimigos. Que Deus os esmague, os devore. E que, assim, só haja espaço para si, o escolhido, no reino terráqueo livre dos iníquos. É certa lógica desvendada pela sociologia de Max Weber, analisando a motivação dos yankees protestantes. É, de outro modo, a transposição do próprio ódio e da própria vontade de domínio para as divinas mãos. 

Acreditam que a morte foi inventada pelo pecado. Que o santo viverá rica e eternamente - na Terra. E que o juízo final acalenta um fogo eterno para onde serão lançados os reprovados. 

Bem, gostaria de dizer alguns sinais pelos quais vemos o Reino se instalando entre nós. Levo em consideração muito da sociologia contemporânea e quase nada do que essas esperanças aí de cima almejam:


  • As causas pelas quais viemos morrendo, todas em busca de um reino mundano, estão em falência: a igreja, a causa revolucionária, a pátria;
  • A família vem se tornando cada vez menor, e os pais se dedicando com mais afinco e amor aos poucos filhos. Eles passam a ser nosso motivo de sacrifício;
  • As barreiras das nações vem se pulverizando e tornando o encontro entre povos cada vez mais fácil (e difícil). O desafio, nos diz Zygmund Bauman, é construir, como nunca antes na história da humanidade, uma "comunidade da humanidade";
  • A nossa identidade de povo vem se tornando mais fluida, e cada vez mais tendo de aceitar o outro em nós, tentando entender qual o espaço que ele pode (deve?) ocupar aqui dentro;
  • A liquidez do mundo vem servindo para relativizar as crenças e destronar as castas;
  • O conhecimento vem se tornando de todos e cada vez mais sendo entregue para que todos descubramos juntos o que vale a pena;
  • A preocupação ética entrou nos imperativos da ciência e não tem mais como sair;
  • A filosofia, em toda parte, vem resgatando os sentidos das grandes espiritualidades de todos os tempos. O terceiro milênio será da espiritualidade (laica ou não) ou não será. Mesmo o materialismo, inimigo dos espiritualistas há tanto tempo, procura o espírito, a seu modo;  
  • Aumenta-se a busca das pessoas pelos valores do espírito, por isso que as reflexões morais e metafísicas (sobre o bem, sobre o mal, sobre a felicidade) voltam a chamar a atenção. No meio do século passado era a política. Já não mais;

Esse movimento não vem se instalando sob os cuidados de qualquer oligarquia. As inovações nascidas do espírito humano cavalgam sem rédeas, espaço perfeito para atuação de inteligências supremas. 

Os socialistas abominam o mercado, mas querem construir a própria ditadura, assumindo as rédeas da história (e da economia) com a própria concepção de "o que deve ser o mundo melhor", ignorando a grandeza de cada indivíduo singular. As pessoas vêem estarrecidas novos extrema-direita subir ao trono, mas tudo é fruto do medo da maioria de se deixar abrir.  E vêm a xenofobia e as leis de proteção e insulamento. Era o que Herculano Pires chamava de "os atalhos do Reino". Mas, o céu não se conquista de assalto. 

A história da humanidade pendula entre a genialidade de um povo (e o seu individualismo egoísta conseqüente) e o sentimento de pátria (e a massificação embrutecedora necessária para isso). É o desejo de liberdade de um lado e a busca de segurança de outro. Grosso modo, Atenas e Esparta. O Espiritismo aplaude o gênio e o esforço intelectual, o avanço da tecnologia, pois. Mas, espera o crescimento moral para o restabelecimento dos laços fraternos entre as pessoas. Nossa esperança e esforço, portanto, é a síntese desses dois extremos.

Não já há perfeição. Falta um tanto. Esclarecia Kardec, contudo, que "o que nos parece perturbações são os movimentos parciais e isolados que só nos parece irregulares porque nossa visão é circunscrita." Isso é um jogo de xadrez. Jesus e suas potestades contra os homens que sobem a própria ganância ao topo do mundo. Aos poucos, com tranquilidade, vai colocando os valores caducos em xeque. 

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Não culpe seus pais por isso



Os psicólogos tem do que se alimentar. Somos repletos de traumas, histórias mal resolvidas, entraves, dores sufocadas, frustrações. Isso está em nós, mas há um certo alívio em dizer que a culpa é de outrem. Na maior parte dos casos, de algum dos pais. Bem, a novidade é que isso não leva a lugar nenhum, vejamos porque. 

Eu entendo a fala de culpar os pais. Se levarmos as perguntas dos motivos de algo ter acontecido até a última conseqüência desta vida, paramos na nossa concepção: culpa dos pais. 

- Não pedi pra nascer!

A solução do mundo, então, seria não haver novas gerações, para que o legado da imundície humana não se perpetuasse. Brás Cubas estaria certo: "Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria."

Bem, nenhum amor acontece com essa visão pessimista.  

Tomemos os piores pais como exemplo. Não os que abandonaram o filho na sarjeta, mas os que criaram o filho como se ele fosse um abandonado. Acrescentemos violência e cenas impróprias dentro do lar. Coloque aí mais descrições tenebrosas que você poder imaginar. Poderíamos dizer que qualquer futuro criminoso que esta criança pudesse se tornar estaria justificado. Todavia, não falo aqui para justificar futuros inglórios, mas para estimular quem almeja superação. 

Se quisermos ultrapassar esse passado, cabe entender que somos dotados da capacidade de ser mais. É o que chamamos de perfectibilidade. O ser humano, desde que adquiriu na evolução certo grau de liberdade, desmantelou as lógicas deterministas. Isso significa que o passado pode ter gerado o que somos hoje, mas não impõe o futuro. Desde o momento que tomamos consciência de nós e assumimos nossa vida, com toda a matéria negra da nossa história, passamos a ser mais ou menos sujeitos dela, isto é, autores. 

O Espiritismo vem revelar outro ponto. Não estamos sós no processo de nos fazer melhor. O universo, dizia Henri Bergson, é uma máquina de fazer deuses. Deus é um foco de atração para nós. Assim como as plantas crescem por causa do Sol e em busca do Sol (fototropismo), os Espíritos evoluem por causa de Deus, porque Deus existe, em busca de Deus. Como intermediários dessa evolução, o Pai coloca emissários diversos, anjos-guardiões, espíritos amigos que nos incitam o bom proceder.

O nosso mal atual poderia parcialmente ser devido às más ações maternas ou paternas? Nem tudo está perdido. Mil fatores promotores podem nos fazer crescer. Cabe a nós ASSUMI-LOS.  

domingo, 13 de novembro de 2016

Ágape: o amor sublimado



Falar sobre ágape é dos mais difíceis temas que se pode falar, porque ele não nos pertence, não de forma fácil. Os imperativos cristãos de amar talvez sejam o que melhor apontam para o ágape. Tão distante de nós que precisa alguém nos mandar (imperativo) vivê-lo. Contudo, de fato ele existe como possibilidade do nosso peito. 


Comecemos por Deus 


Parto do absoluto para depois relativizá-lo. A melhor forma de pensar a ideia de ágape é a da criação do homem segundo a concepção judaico-cristã. Deus era tudo, porque precisava criar algo? Não precisava, mas criou. Primeiro ponto: ágape é um tipo de amor que ama sem motivo, sem necessidade. 

Deus cria do nada (ex nihilo). Sua palavra gera o universo, e o homem no centro dele. Importa lembrarmos que o homem, na tradição judaico-cristão, é a criatura a que Deus reservou o destino de viver conSigo. É o Grande Pai cuidando do filho: lhe concede terras, animais e até uma bela esposa. A visão do Gênese é de uma comunidade patriarcal, claro, mas depois entendemos que o destino de estar ao lado de Deus é para todos, homem e mulher. Então, Deus cria do nada. Segundo ponto tirado da palavra nada: ágape é um tipo de amor incondicional. Não há algo anterior ou um interesse prévio que justifique amar o outro. Terceiro ponto tirado da palavra criar: não é preciso mesmo que o outro exista para ser amado, ágape é um amor que concede existência ao outro. Se Deus era o único existente, e criar o homem foi um ato de amor, ágape é um amor que gera (concede existência) amando. 

Há uma visão judaica da criação de Deus que nos dá uma pista ainda mais preciosa sobre o ágape. Chama-se Tzin-tzum. Chama-nos a atenção que o Tudo não pode criar mais qualquer coisa, pois já é tudo. Portanto, para Deus (o Tudo) criar algo teve de se esvaziar (nadificar-se) um pouco para dar lugar à criação. Quarto ponto: ágape é um tipo de amor que está aberto ao sacrifício de si. O que vemos na tragédia de Jesus, o homem-Deus que desceu à Terra para dar sua vida para a redenção do homem adâmico, é a materialização do tzin-tzum


O que tudo isso tem a ver com nossa forma de amar?


Vamos para a relativização do absoluto, ou melhor, a secularização dele. Como podemos enxergar ágape entre nós?

Primeiro ponto: amar sem motivo. Eros tem motivo para amar, embora muitas vezes pareça imotivadamente visceral. Ou é a forma, ou o cheiro, ou o jeito, o andar, o sorriso, algo que afeta os sentidos. Amar sem motivo é algo gratuito. No nosso cotidiano pode aparecer a posteriori: amar o companheiro quando já não temos mais motivo para amá-lo. Amava-o porque era jovem, mas envelheceu; porque era forte, mas enfraqueceu; porque era sadio, mas adoeceu; porque era rico, mas empobreceu; porque era belo, mas tornou-se feio. E, provavelmente, o amor mais difícil: porque era amável, mas tornou-se um bruto. 

Segundo ponto: amor incondicional. Dialoga com o primeiro ponto. É a extensão do amor gratuito. Poderíamos nos ver dizendo: "Amo-o contanto que ele cuide de mim ou dos meus filhos". Dizer simplesmente "Amo-o" é o que esse segundo ponto nos convida a fazer. Veja este exemplo de minha vida. Quando meu primeiro filho nasceu, papai estava morto já iam cinco anos. Desejei por um minuto que o pequeno fosse papai de volta à carne. Minha esposa me chamou a atenção: "Você não pode colocar esse peso sobre ele. Deve amá-lo pelo que é agora, não pelo o que possa ter sido." Vê? "Amo-o contanto que seja meu pai". Não. "Amo-o". 

Terceiro ponto: amor que concede existência ao outro. Acontece quando amamos mesmo sem retorno, mesmo que no outro não haja possibilidade aparente de amar de volta. Quando o companheiro se acidenta e entra em demência grave. Quando, perde a sanidade mental e o olhar perde o brilho. Mas também, e talvez é a forma mais fácil de ver este amor, quando se ama o filho recém-nascido que pode morrer amanhã sem ter chegado na idade de demonstrar seu amor. 

Quarto ponto: o amor que está aberto ao sacrifício. Dialoga com o terceiro ponto, mas esclarece a natureza de amar um outro que não nos ama: é sacrifício. Todas as situações que citei são vivências dolorosas, caminho de espinhos, crucificação. O desafio está em conseguir viver esse amor sem perder a alegria. Cair na tristeza e na desesperança é o mais fácil, o mais lógico. Aliás, não amar dessa forma que expus aqui é o mais natural, o mais humano. Esse amor é de Deus, por isso comecei falando Dele. Todavia, é o desafio que Jesus nos propôs já vão dois milênios, assumindo a condição de sermos filhotes de Deus

No post anterior, eu disse que esse é um tipo de amor que pode salvar os outros dois quando tudo parecer perdido. Quando se vê que o outro está impossibilitado de dar algo de volta (quebra do eros), quando se vê que o outro te traiu (quebra da filia), ágape surge como possibilidade de o amor ainda dar certo. Para isso, ágape pede paciência, resignação, concede força, perseverança. 

Sobre o tempo dele. Lembram? Eros era instante que se dilatava. Filia, tempo que se contraía. Ágape vive na dimensão do eterno (o tempo anulado). É o tempo que Deus espera pelo nosso amor. 

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

O poder da amizade



Havia falado sobre eros, da última vez. Atenho-me agora sobre filia (amizade), que é considerado por alguns que pensam sobre o amor como sendo o desenvolvimento de eros. Pelo menos para quem gostaria de escapar da realidade movediça deste e experienciar algo mais fiel. 

Vamos começar falando sobre amizade. Certa feita um grande amigo meu encontrou uma jovem em uma viagem que estávamos fazendo. Ele disse que sentiu algo fantástico no diálogo com ela: o silêncio também era prazeroso. Ele não começou nenhum affaire. Entendeu que ali nascia uma grande amizade.

A amizade tem essa face do prazer no silêncio e da perpetuação da relação mesmo na ausência. Com esse mesmo amigo de que lhes falei ocorreu o seguinte: passamos, certa feita, meses sem nos falar (silêncio e ausência), quando nos encontramos conversamos como se a conversa houvesse terminado ontem, e prosseguiu por horas. Mesmo ausente nos fazíamos presentes um ao outro em nós. 

Cada amor tem o poder de mexer com o tempo, cada qual ao seu modo. No eros, os minutos parecem horas. Na filia, as horas parecem minutos. No ágape, veremos ainda...

Mas, desde já conseguimos perceber como filia pode salvar eros da sua fugacidade, coroando-o. Algumas amizades parecem não poder se misturar com o sexo, sob pena de se desencantarem. Todavia, nenhum casamento dura se os esposos não se tornarem amigos. O cotidiano, e os desafios da vida à dois, que tornaria o eros solitário estéril é o meio propício para o desenvolvimento da filia. Lá era um perdendo-se no outro, aqui são os dois encontrando a potência de cada um para, juntos, mover a vida. É o que venho experimentando com minha esposa com o novo filho nas noites de amamentação. Ela amamenta, eu coloco para arrotar e troco a fralda. Ela coloca o menor para dormir, eu, o maior. As noites que geraram os meninos na entrega de duas pessoas uma para outra testemunham o cuidado com os meninos na entrega de nós dois para eles. 

- Mas, isso é a morte do eros! - diria alguns. 

Não precisa ser. Devemos lembrar do caráter ígneo dele e fazer com que o encantamento e a surpresa quebre a rotina de vez em quando. De fato, os filhos e o sustento não permitem a consumação do prazer de eros a cada instante. 

De todo modo, esse é o maior desafio lembrado pelo amante: "nunca mais tivemos tempo um para o outro". Um velho adágio francês nos diz: "Não se pode ter a mulher bêbada e o tonel cheio". Conciliar os amores não é um desafio para o qual tenhamos a resposta final. 

O motivo pelo qual vários casamentos estão terminando é a superioridade da falta que eros provoca sobre o prazer doce de viver a amizade amorosa. 

No próximo post, falo sobre um amor bem diferente destes dois, mas que, creio, abre o homem e a mulher para uma dimensão que nos resgata quando imaginamos estar tudo perdido.