terça-feira, 5 de maio de 2020

Eu importo

Eis o desafio do século entre as correntes espiritualistas: defender o Eu das pessoas.

O tema do Eu me apareceu com mais força quando um amigo me falou estar seguindo certo guru cuja crítica principal era sobre o apego às questões mundanas, que são passageiras. Essa temática é recorrente entre os gurus de linha oriental e pousaram sobre a filosofia pós-moderna criando raízes malignas. Veja em que ideias ela está assentada:



  1. O eu é nossa manifestação no mundo
  2. Essa manifestação é uma de apego ao que o mundo é
  3. O mundo não é, pois não passa de passagem
  4. O eu, pelas premissas 1 e 2, se apega, necessariamente, ao que não é
  5. Esse apego ao que não é gera existência sem sentido
  6. Existência sem sentido gera sofrimento

Qual a solução proposta pelo guru? Desapegue-se do eu, portanto, colocando em xeque a premissa 1. Em favor de que? De escapar do sofrimento, que é a conseqüência 6.

As pessoas se encantam demais com o murmúrio dessa sereia. Mas, temos de ir com calma. As premissas estão certas? O eu é nossa manifestação no mundo. Sim, mas é só isso? Não existe algo em nós que veio antes do mundo e sobreviverá a ele mantendo individualidade? O que haveria de se manifestar no mundo se não houvesse nada a priori? Se quiséssemos ser radicais na premissa destrutiva do eu, deveríamos dizer, o eu não é mais que a própria vida manifestando-se a si mesma no desenvolvimento de um movimento cego cujas origens estão guardadas no abismo da história. Mas, se o eu é a própria vida, por Deus!, o eu é tudo o que temos. Como escapar dele? Se o eu é algo mais que consegue inclusive enxergar o movimento cego da vida, este eu é alguma coisa a mais. Como poderíamos magnificar esse movimento de superação da mundanidade passageira sem recorrer ao próprio eu de onde o artifício de superação provém?

Colocam como demonstração a posteriori, então, a hipervalorização do eu provocada pela cultura do consumo de tudo, representada pela fala: eu quero ou eu desejo. A ânsia do consumo em um mundo onde nem tudo pode ser consumido geraria um paradoxo de insatisfação constante destruidora do próprio ser que deseja. Certo, a crítica procede. Estamos valorizando demais nossos desejos imediatos. Mas, todos os desejos seriam destruidores? Não haveria a busca sã que provocaria conquistas do eu fortalecendo-o verdadeiramente?

A crítica dessas espiritualidades de retiro e esvaziamento quer solapar a base de nossa cultura. Buscar desenvolver-se em um trabalho que nos dignifique é tudo o que fazemos desde os modernos, herdeiros do amor ao serviço cultivado nos mosteiros. O bonde desandou quando substituímos os objetivos últimos de nosso trabalho. Os monges oravam e trabalhavam para provocar uma ascese que os fizesse dignos de entrar no reino de Deus, com as vestes adequadas, para a grande festa de núpcias, em que Deus casaria com a igreja num apocalipse magnânimo. O homem moderno aos poucos substituiu esse fim último em Deus pelo de ser um cidadão útil para a Nação. A substituição culminou nos totalitarismos, uma vez que a Nação tomou as vezes de Deus, e o seu condutor o sumo-sacerdote.

Passada a Era dos Totalitarismos, o capitalismo devora o cotidiano e provoca nova subjugação do eu. É essa forma do eu de ser o consumista do imediato que merece crítica. 

Mas, existe um eu imortal, que dá sentido a toda a nossa vida, para além e aquém da extenuação das células. Basta ver as coisas cotidianas. Você sonha algo ridículo, acorda e reconhece elementos seus nos sonhos. Consegue estranhar o que houve. Quando é tomado por ações equivocadas, compelido por pulsões intestinas, um quê de sobriedade te faz se reconhecer no meio do ato, às vezes te dando força para barrar o ato. Ou, quando o erro se consumou, o arrependimento existe em relação a você mesmo que sabe ter praticado aquilo. É o eu que se manifesta no confessionário falando de si. 

Existe um eu que paira transcendente nesta vida, mas que ao mesmo tempo está mergulhado nela, como que costurando todos os lapsos. A falha daquele silogismo de seis pontos é tomar o eu fugidio, que se manifesta cristalizado em ações cotidianas mortais, pelo eu maior que dá sentido e identidade para tudo o que se fez, se faz e se fará. Um eu que se reconhece na história e entende suas projeções futuras. Aquele que olha o álbum e consegue dizer: sou eu. Aquele que olha um mapa astral e diz: faz sentido esse caminho das estrelas que foi reservado para mim. 

Caso não se queira ceder aos argumentos que exponho em linhas gerais contra os esoterismos de aniquilação do eu, dou apenas mais um preventivo contra eles. Os gurus, em grande medida, são eus inchados loucos para tornar subservientes os eus ressequidos por falta de sentido no tumulto da vida.

- Esvazie sua mente e não se iluda nas pegadinhas do eu. 
- Quem me fala isso?
- Sou o guru Shamabanpala. 
- Mas você é você ou você sou eu?
- Já não sou mais. 
- Então você fala de um lugar que não é?
- Nem sou, nem não são. 
- É o nada?
- Nem nada, nem tudo. 
- Então, não você não é da minha dimensão. Pode passar adiante. Não ser pra minha vida.  

Novidadeiros

Ontem um companheiro espírita nos expôs que o grupo do qual faz parte está com um projeto de disponibilizar as comunicações mediúnicas do grupo sobre temas evangélicos específicos ao público em geral, por meio de plataforma da internet, a fim de promover um diálogo dos encarnados com os desencarnados como no tempo de Kardec. 

Não será como no tempo de Kardec. 

Ele disse que não se abrirá à crítica, mas apenas a perguntas que serão respondidas pelos espíritas. 

Como eu disse, não será como Kardec. 

Kardec questionava às vezes até a encurralar o espírito manifestante em um diálogo de pé de orelha. Fazia isso porque sabia que o médium mais bem dotado poderia se mistificar e ser vítima de embusteiros do além que venderiam gato por lebre. 

Mas, nós espíritas nunca aprendemos esse tipo de diálogo. Todos nós, carregando atavismos de quando éramos rebanho de sacerdotes e profetas, baixamos a cabeça para ouvir o indivíduo mediunizado. 

Bezerra de Menezes se manifesta pelo palestrante. A fala do pretenso Dr. Bezerra não acrescenta em nada qualquer discussão, mas a platéia se comove, e aquilo é tido como que uma bula papal fechando pontos soltos.

Nos meados do século XIX, Kardec ainda teve que enfrentar a morosidade dos correios e a exiguidade de ajudantes. Nesta época agora de comunicação instantânea e inteligência artificial, o risco de encher nossas caixas de mensagens com textos desprezíveis cresceu exponencialmente. As novidades viralizam e adoecem. 

Talvez nosso cérebro esteja passando por uma transição para conseguir suportar essa intoxicação de informações. Mas daqui que atinjamos novo patamar de equilíbrio, só os clássicos que sobreviveram ao tempo nos defendam dos novidadeiros.   

segunda-feira, 16 de março de 2020

Abrindo estudo sobre Mitologia



INTRODUÇÃO: Estou iniciando aqui uma nova playlist que falará sobre mitologia e este é o vídeo introdutório. 

- A mitologia é a matriz da filosofia 
- As histórias mitológicas fundam civilizações e cotidianos 
- Elas chegam a apaziguar guerras e conferir sentidos 

- São um sistema de crenças e pensamentos que talvez tenham o mesmo nível ontológico (se não mais) que o sistema lógico-matemático ou científico-empírico. Talvez mais porque elas conseguem cobrir a descrição da realidade com uma riqueza maior de detalhes que escapa da sintaxe lógica ou científica. 

- Esse sistema teve seu ocaso porque os desafios enfrentados pelos homens já não eram respondidos a altura pelo símbolo dos mitos. Os mitos traziam símbolos de origem local, e a Grécia se "mundializava". O discurso filosófico acabou sendo uma via de enfrentar a "mundialização". 

- Para que uma história fincasse raízes e valesse a pena ser contada e ascendesse ao estatuto de mito era preciso ter fortes ligações com o belo e com a verdade. 

- Hoje vemos um retorno do respeito às mitologias porque conseguimos desenvolver um pensamento filosófico que, depois de muito tempo, consegue ver os mais diversos mitos como sementes férteis para fecundar o pensamento humano. Tiramos a couraça daquelas histórias que as obrigava de serem tal e qual a realidade, e entendemos a simbologia explosiva que elas representavam. Além de voltar a dar valor ao belo, e não apenas a esquelética lógica na busca de descrever o real. 

- Importa, finalmente, saber, que os valores que as mitologias carregam não evocam apenas condutas morais para o dia-a-dia, mas apontam sentido de vida. Revelam, por assim dizer, valores transcendentais que ajudam as pessoas a ter um modelo para encarar a angústia da finitude

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Como foi a desencarnação de mamãe

Vitimada há quatorze anos por um Parkinson raro que provocava nela tremores, dores e muita rigidez que nunca havia permitido brincar com meus filhos, entra na emergência com pneumonia grave já com uma vontade previamente expressa que não queria UTI. 

Rapidamente foi iniciado o antibiótico, mas por medida de conforto, tamanho foi o desespero do cansaço, sedaram-na. Supus que ela morreria no mesmo dia. Pedi para meu primo que não trouxesse a tia, não daria tempo. Só que ela não morreu. O coração batia forte apesar de uma respiração pouca e superficial. Sete médicos a rondavam e constatavam atônitos: ela resiste. Pensei: ela espera se despedir da tia. Convoquei com urgência nossa família do interior. Eles chegaram rápido. Juntamo-nos, choramos seu estado, afagamo-la, oramos, conseguimos um padre que conduzisse a unção dos enfermos. A cada instante da cerimônia eu imaginava: agora ela vai. 

Vocês que não tem ideia de pacientes críticos nunca poderão entender o milagre de um coração resistir viver sob o peso de uma respiração dificultosa, borbulhosa, adicionado de dois sedativos-analgésicos endovenosos, em infusão contínua, extremamente necessários todavia para tirar sua dor. Ela resistia. E até mesmo deu sinal de melhora da oxigenação, da pressão. Por Deus: ela quer voltar!

Insone que eu estava, vigilante para que a equipe do hospital a tratasse com todo o desvelo e sem procedimentos desnecessários, madruguei no outro dia em busca de agilizar os exames que apontassem seu caminhar para a recuperação, o que justificaria tirar a sedação. Três médicos estavam de acordo com essa idéia. Descobri, ao contrário, que o corpo dela entrava em falência. Desesperei-me. Caí em prantos. Tive raiva dela: a senhora nunca fez o que os médicos queriam, sempre cuidou dos outros e esqueceu de si, e mesmo agora na morte, você é cabeça dura. Pare de sofrer! 

Paralisei no ar. Vaguei perdido pelos corredores. Ia e voltava de casa tentando entender o que ela queria. Tive a ideia de uma reunião espírita de meus amigos para cantar e ler o evangelho. Preparamo-nos no outro dia para tal. A respiração dela do mesmo jeito, terrivelmente fraca, ruidosa, o coração pulsando forte. À noite, então, estávamos lá, dez pessoas no quarto cantando em coro músicas espíritas que falavam de Jesus, da libertação da alma, da renovação de tudo. O Espírito de meu pai se comunica falando estar preparado para recebê-la. A cada instante, olhava para o peito dela que resistia, resistia e resistia. O que fazer, Senhor?! O que fazer?! 

Meus pés estavam inchados de tanto andar, meditar em pé buscando alguma resposta. Meus nervos também inchados de tanto remoer os dados médicos, tentando captar se algo da medicina havia sido equivocado. Passei e repassei a história daquela internação para seis médicos. Todos eram unânimes: 

- Não se culpe, tudo que foi feito está nos conformes. A doença dela não cabia de fato procedimentos invasivos. Além do mais, era da vontade dela não ser intubada. 

Gritei dentro de mim: "Se você morresse! Mas você não morre! Você é dura!". Comecei a delirar. Será mesmo se ela realmente não queria ser intubada? Eu tinha ouvido isso da boca dela. Saí perguntando para os mais próximos se também haviam ouvido isso. Minha irmã confirmou, minha esposa também ouvira. Todos os cuidadores ouviram a mesma coisa. Será se todos deliravam igualmente? Meu Deus, se todos deliram, e fui aquele que abriu a boca para dizer à equipe médica que a suposta vontade dela era aquela... eu... matei... minha mãe. 

As enfermeiras já suspiravam aflitas quando eu repisava o corredor. Todas as vezes que chegava no posto de enfermagem eram os olhos vermelhos ou lágrimas grossas. Meu irmão não dormia. Meu primo não dormia. Minha irmã não dormia. Tive vontade de sair pela rua a fora. Em vez disso saí com um amigo, recontei para ele tudo. Ele novamente me mostrou que nada faltava. 

No último sol dessa aflição, escorado ao leito do hospital, tive a ideia de, mesmo com todos os indícios de deterioração clínica, desligar todas as bombas de analgesia e sedação, deixá-la acordar ainda que em agonia brutal para que ela gritasse o que queria. Compartilhei a ideia com o médico do dia. Diante do meu sofrimento e da própria angústia dele sem entender aquele fenômeno de resistência, anuiu que fizéssemos um teste. Qualquer indício de sofrimento, seria necessário voltar a infusão de sedativos. Combinado. A bomba foi desligada. Enquanto esperava ao seu lado olhando fixamente seus olhos, sua boca, seu braço, se este voltava a tremer, eu que passei esses últimos quatorze anos pedindo aos céus que aquele braço não tremesse mais, estava ali esperando qualquer sinal de retorno de consciência e falando com amigos, entre eles uma paliativista que disse delicadamente para mim: 

- Não faça isso. A morte é um momento muito especial de cada um. Cada qual faz do seu jeito. Este é o jeito dela. Ela deve estar com medo da passagem. Respeite-a. Não deixe que aconteça com dor, com desespero. É o tempo dela na vontade divina. Eu vou aí. 

Então religamos a bomba, e pela primeira vez fui esclarecido que a audição e o tato são os últimos sentidos que a pessoa perde. Chamei meu irmão que chorava e chorava, mas ainda não tinha tido um momento a sós com ela. Pedi para que todos saíssem do quarto que aquele momento era dele e dela. Ele passou cerca de dez minutos falando para a mãe. A médica, então, mobilizou-a, tentou diminuir o desconforto respiratório dela. Tudo com muito cuidado. Falando com ela todo tempo, tocando-a com muito carinho. Minha alma estava se acalmando. Parecia que a médica fazia massagens no meu coração. Cada palavra, um alento. Respeitou minha dor e todos os meus movimentos de filho médico até agora. Mas, disse enfim: 

- Não seja mais médico, seja só filho. Toda e qualquer decisão ligue para mim. 

Sugeriu-me então uma enfermeira paliativista que combinou vir às 18h. Fui em casa tomado por uma paz que há dias não tinha. Revi minha esposa, meu filho mais novo, o mais velho havia saído com a outra avó. Deitei na cama e tive a ideia de fazer um áudio com a mensagem dele para a vovó Irami. Havia sido conselho da médica. 

Às 18h em ponto estávamos lá no hospital, todos os cuidadores, minha irmã e minha esposa. A enfermeira massageava minha mãe e explicava como se deveria massagear. Os cuidadores seguiam suas orientações. Começaram a mobilizá-la, em busca de confortar sua respiração. Já se iam cerca de 90h de respiração ruidosa, que naquele dia havia sido amenizada pelas intervenções das paliativistas. Eu comecei a entender que aquele momento não era a resistência de mamãe mas a última fase de sua doença. Uma fase em que ela, livre das dores, dos tremores e da rigidez, tinha a oportunidade de passar os últimas dias com os que amava. 

Nesses dias para mim sombrios, para ela havia sido os dias em que recebera orações como nunca, cânticos, declarações, cuidados a vontade. Os cuidadores se uniram entendendo que seria o último esforço. Ela ouvia todos dentro do quarto lembrando do quanto ela foi mãe de todos. Até dos cuidadores. Relembravam seus gostos, seus afetos, o quanto era feliz com todas as crianças que se aproximavam dela. 

As massagens em seu corpo continuavam, quando de repente ela abre os olhos. A enfermeira percebe aquela oportunidade única e diz: Allan, conduza a todos para que falem com ela um a um. O último de nós, meu irmão, chega para visitá-la exatamente nessa hora. Olhos semi-serrados, cada um olhou naquele acastanhado bonito e falou: os cuidadores, que ela não se preocupasse que também cuidariam de nós, seus filhos, e nós, os filhos, que ela partisse em paz que cuidaríamos uns dos outros feito irmãos. Nunca havíamos dito isso para ela, separados que estávamos pelo trabalho de cada um. Por fim, coloquei o áudio do meu caçula no ouvido dela, olhando no fundo de sua alma. Terminado o áudio, a enfermeira toma a dianteira para melhorar a posição dela na cama, é quando eu e minha esposa percebemos o último suspiro. E a cor do lábio se esvaindo. Dou alguns passos a frente e tomo seu pulso carotídeo. "Ela morreu". Choramos. 

Agradeço à enfermeira por ter proporcionado aquela despedida. Convido todos a se darem as mãos em um grande círculo ao redor do corpo de mamãe. Agradeço a Jesus por aquele momento com palavras de improviso nascidas do coração. Emendamos com um Pai Nosso e uma Ave Maria. Abraçamos-nos uns aos outros. Agradeço a cada um e a todos. Mamãe atravessara, enfim, o portal. Era aquilo. Tudo foi tão rápido. Ela só queria ter a certeza que não iríamos ficar desamparados. 

Tenho outras tantas reflexões, e houve muito mais entre cada respiração do que posso contar agora. Mas, como sempre digo para meus meninos ao contar historinhas que se alongam: são cenas dos próximos capítulos.

domingo, 3 de novembro de 2019

Sonho sobre a vida póstuma

Sonhei que havia morrido. Era muito estranho. Não fui para o umbral. Não vi espíritos sofredores, nem vociferadores. Também não vi ninguém que me convidasse para qualquer cidade espiritual. 

Acordei e levantei-me do corpo, andei alguns passos, olhei para trás. Era ele, o meu corpo. Aquele que tinha animado há pouco. Já havia passado os choros e as homenagens. Tive vontade de ver a esposa e os filhos. Pronto! Foi o suficiente para já estar ao lado deles. Os rapazes enxugavam o rosto da mãe. O mais velho a beijava. O mais novo não sabia o que dizer. Beijei o rosto do caçula que tomou um susto, olhou para os lados. Vi o peito do primogênito apertado. Eu podia ver a angústia. Isso não é metáfora. Eu podia ver mesmo! Cheguei para ele e pus a mão em seu coração. Seu músculo cardíaco deu um salto descompassado. A angústia diminuíra. Ele achara estranho aquele fugaz descompasso. Beijei a boca da minha esposa, que saboreia o beijo em seus lábios com leve movimento da língua.

Só, então, percebo presenças ali em casa estranhas a minha família. Mas todos eles me olhavam. Como, se eu havia morrido? Senhor! Eram outros tantos Espíritos! Saudavam a minha chegada. Papai, vovó, todos estavam ali. Papai, veterano naquele lugar apenas me fala:

- Vá conhecer o mundo, não há mais barreiras para você. 

Quis experimentar. Saí a esmo, correndo. Eu não me cansava. Aumentei o passo, ultrapassei minha velocidade comum. Voei! Que liberdade! Não havia mais dores, nem a asma me constrangia. O ar frio do alto céu me era inofensivo. Chego à Lua, onde vejo outros tantos Espíritos dialogando festivamente, outros apenas a mirar o espaço, pensativos. Lembro de meu amigo astrônomo. Subitamente estou ao seu lado. Ele toma um livro que havia dado de presente para ele há tempos. Lembra de nosso cumprimento. O pensamento dele para mim era fala! Eu o respondo. Ele acha engraçado aquele diálogo que acontece na sua mente. Continua a brincadeira e pergunta para mim como estou agora, morto. "Mais vivo que nunca!". Ele ri. Sua esposa pergunta do que ri. "Do Allan." Ela estranha ele estar rindo de um homem que acabara de morrer. Que macabro!

O sol parece querer nascer. Olho para o relógio. Não é possível. Eram apenas duas horas da manhã. Vou ao encontro desse adiantado sol. Um moço enorme me espera fora daquela casa. Dá-me a mão. Tenho a perfeita intuição quando o toco: era o meu anjo. Ele me aponta o céu para que veja o tal sol. Os raios me ofuscam. Aos poucos diviso uma forma no centro da irradiação, logo mais, um rosto. Meu Deus! Não era o sol, mas Jesus. 

O Espírito sopra onde quer

Andei tentando resolver problemas da família. Perturbações de ordem mental me empurraram de volta às mediúnicas. Mas, dessa vez, uma forma nova de se comunicar com os Espíritos me foi apresentada. 

É nova, mas é antiga. É antiga, mas não é decrépita. É a velha forma como Kardec fazia. Quer falar com um Espírito? Evoque-o. Chame-o. Tome-o pelo nome. É assim que sempre foi. Simples assim. Há de aparecer embusteiros. Ora, reconhecê-los e se livrar deles é toda a ciência espírita. Pode ser conteúdo do médium? Outro capítulo, então, da ciência espírita. 

Parece-me que deixamos essa ciência de lado. Os atendimentos em massa de espíritos sofredores anônimos, sempre tive essa suspeita, acabam por acalmar mais os médiuns do que ajudar as pessoas que precisam. 

Então, eis que seu pai morre. Você deve esperar a gentileza de permitirem que ele se comunique por um médium enclausurado numa sala, acessível apenas para o grupo seleto, sequioso para que de lá saia alguma carta que pareça dedicada a você. Como acontecia na época de Kardec? Sente em sua casa e evoque-o. Profanação? Mas o Espiritismo sempre foi profanação. Essa era a graça dele. Tornamo-nos bons mocinhos.  Acolhemos as críticas que todos nos faziam para bem passar na avenida. Hierarquizamos os centros, colocamos vários intermediários entre o familiar aflito e a alma querida que, viva mais do que nunca, vibrava para se comunicar. 

- Ei, você! Está com saudades dos seus que já se foram? Eles não se foram. Enxugue essas lágrimas! Tome de um papel e uma caneta. Pode ser no seu computador mesmo, ou no seu tablet, smartphone, e dedique-se a tentar o diálogo. Vem a hora que o sinal pega e sai o fenômeno. 

Não me admira que perdemos o fogo da consolação. Conseguiram nos esfriar. 

domingo, 7 de abril de 2019

Santo Agostinho e o Espiritismo

Lemos hoje sobre a presença de Santo Agostinho como Espírito ajudando no nascimento do Espiritismo entre nós, humanidade. Em o Evangelho Segundo o Espiritismo, é o Espírito Erasto que evoca essa lembrança. Veio-me a dúvida sobre a teoria da graça ou da iluminação divina que Santo Agostinho construiu quando encarnado nos idos de quatrocentos depois de Cristo. Seria ela incompatível com o que pregamos? Concluímos que não. 

A teoria da iluminação divina é bem simples de entender quando assumimos uma coisa: a corrupção que trazemos em nós como noção antropológica primeira. A observação da natureza humana que nos circunda torna isso bem evidente. Não somos santos. E os santos se destacam tanto mais quanto mais pecadores ao redor, quanto mais eles tem de se esforçar para se superpor às paixões que puxam o homem à selvageria. 

Se o fim da salvação é a felicidade ao lado de Deus, algo tão supremo, como nossos atos, todos mesquinhos, por mais grandiosos que sejam, na nanica escala em que ocupamos no universo, como podem valer a salvação que Deus promete? Não valem nada - em comparação. Não quer dizer que não tenhamos que nos esforçar, mas aí está o nó da questão. Nó insolúvel para a modernidade: se Deus tem o poder de conceder a salvação, e apenas Ele, de que adianta o esforço?

Não é uma questão de o que adianta, não é uma questão de entender o propósito de Deus, tentação humana por excelência que nos faz se afastar Dele, já que extrapola o nosso limite essa pretensão, mas suportar conviver com o mistério. Confiar, ter fé, suportar o mistério, eis o que santifica o homem ao lado de amar. Se a equação da salvação fosse matemática, de que adiantaria a fé. Não passaria a vida de uma contabilidade de obras. 

Nós espíritas caímos nesse erro quando não entendemos bem a psicologia da alma. Isso faz de Santo Agostinho um senhor muito atual. Queremos exigir de Deus que nos dê o céu porque merecemos. Quando Kardec conclui que fora da caridade não há salvação, essa caridade abarca tanta coisa, que mal cabe na nossa cabeça. Envolve os mais diversos tipos de ajuda material, as mais diversas dedicações para o desenvolvimento moral, mas, coisa esquecida!, a submissão do espírito à vontade de Deus, a tal ponto, virtude suprema!, de temer não ser um dos escolhidos. É aprender a conviver com o mistério.

O que é a teoria da iluminação, então? Não é rejeitar o livre-arbítrio, mas reconhecer que se ele é suficiente para nos fazer cair, nunca o será para nos salvar. Sempre haverá o hálito do Criador, insuflando boas resoluções a nos guiar para o bem. Saber surfar nessa onda é o que Ele espera de nós. 

Meu amigo ainda comentou algo: que a reencarnação, coisa desconhecida ou rejeitada nos moldes em que ela era apresentada pelas heresias e pelos bárbaros da época de Agostinho, é a única forma de conciliar a bondade de Deus em querer salvar todos os seus filhos com o seu poder de verdadeiramente salvar no final dos tempos. Deus insufla o bem no coração humano, que hoje é pecador e amanhã será um santo, mais dia, menos dia, neste ou em outro milênio. Com a reencarnação reconciliamos os atributos de Deus, apartados, por exemplo, quando Diderot O acusava de negligente ou incoerente já que podia fazer o bem, queria fazer o bem e não o fazia. A teoria da transmigração evolutiva das almas não mais coloca a questão como um mero ato de Deus, mas devolve aos homens o sentido do esforço histórico. É preciso conquistar patamares de felicidade com ouvidos dóceis para os conselhos de Deus, através de seus mensageiros.