domingo, 21 de junho de 2015

Sobre a carta psicografada de Cássia Eller

Suposta carta psicografada de Cássia Eller é divulgada na web. Leia a matéria aqui


Mexer com a atividade de Correio do Além é como mexer em uma casa de maribondo. Ainda mais quando se trata de um personagem famoso. Primeiro de tudo porque o médium terá que lidar com o luto das famílias, as fortes emoções que podem advir das revelações sobre a vida após esta vida. Depois, porque o quesito da identidade de uma comunicação é recheado de sutilezas que vão muito além de deixar transparecer particularidades da relação que unia o remetente e o destinatário.

Eu mesmo já tive um momento eufórico de intensa vontade de psicografia sobre a morte de um colega de trabalho. Assaltou-me a vontade de correr à sua família e contar minhas visões. Mas, como estava envolvido emocionalmente demais com o ocorrido, busquei ajudar de outra forma que não através dessa revelação intervencionista. Tão importante quanto deixar passar, é saber calar. Eis uma lição que Chico Xavier aprendeu em seu mediunato. Por que muitos médiuns, de todas as culturas, falam por parábolas, metáforas, provérbios? Porque a revelação sem intermediação do simbólico poderia chocar as mentes mais do que esclarecer, perturbar mais do que ajudar. As parábolas tem o mérito do exercício da interpretação que, quando bem conduzida, oferece lições para além do simples recado. 

É bem melhor que as comunicações mediúnicas não sejam enquadradas no binômio verdade-falsidade, mas de verossímeis ou não. Verossímel é aquilo que guarda relação de possibilidade com a realidade, já que não podemos firmemente afirmar que seja de fato. E, se pensarmos bem, toda história, qualquer que seja ela, que não está sendo presenciada e vivida pela própria pessoa, que está apenas sendo narrada, transcrita, só pode ser analisada nos termos da verossimilhança. Se quisermos ser rigorosos, mesmo a história narrada por alguém que acabou de chegar do evento, só pode ser no máximo verossímel, já que toda narração é intensamente construída pelo narrador, com seu ponto de vista bem particular. 

A relação mediúnica SEMPRE é uma interação entre o Espírito comunicante e o Espírito do médium. A mensagem SEMPRE tem participação das duas mentes. É um ajudando a contar a história do outro. Vede, então, a reserva que tem de se ter para com "a verdade" daquilo. 

No mais, acho a carta de Cássia Eller bem verossímel. As descrições do ambiente do "inferno" muito semelhante a de vários Espíritos que já se comunicaram em situações semelhantes, embora haja essa estranha presença destes "dragões" cuja descrição já se apresentou em psicografias de Chico Xavier pelo Espírito André Luís, salvo engano, no romance Libertação, mas que não configura princípio de doutrina. A existência de insetos e anfíbios como figuras asquerosas a piorar o ambiente das zonas de sofrimento também é de levantar estranhamento, mas também estão presentes em vários outros relatos. A cena do reencontro com Cazuza não surpreende, ligados que os dois deviam ser pelas afinidades artísticas e comportamentais. E, por fim, a transmutação do discurso de Cássia Eller para um que valoriza a misericórdia divina não tem nada de anormal, já que, vemos isso constantemente, os sofrimentos atrozes, e a o véu que se rasga na consciência após a morte, tem o poder de reconduzir as pessoas para o pensamento em Deus. 

O que Kardec sempre buscava fazer era se afastar dos detalhes e buscar a essência das mensagens: 

  1. Há zonas de sofrimentos enormes, mas nunca eles são perpétuos; 
  2. O abuso do próprio corpo, e não apenas o insulto contra o vizinho, é também motivo de sofrimento; 
  3. A não existência de um lugar para onde vamos, mas onde já estamos, reflexo de nossa consciência viciada ("Com o fenômeno da morte, nós não vamos para o umbral, nós já estamos no umbral...); 
  4. O resgate chega em momento oportuno, depois que o próprio Espírito está preparado para o mesmo; 
  5. A união dos seres afins em lugares que são o reflexo do seu estado de espírito; 
  6. O esclarecimento espiritual, objetivo de todos nós que labutamos nestes círculos de luz e sombra. 

Sobre alguma particularidade que revelasse, sem sombra de dúvidas, a identidade do Espírito, não as enxerguei, mas nem conheço a intimidade de Cássia Eller tanto assim. Contudo, já não é suficientemente reconfortante saber que não há sofrimento eterno e tudo se encaminha para desfechos de grandes aprendizados em uma ascese espiritual interior?  

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