sexta-feira, 26 de junho de 2015

Diálogo com mães que abortaram



Certa feita, há não muito tempo, uma mãe chegou para mim sabendo da minha mística espírita. Bêbada, aparentemente alegre, fumava. Decidiu puxar assunto comigo sobre sua própria história. 

Eu havia acabado de sair da piscina do sítio em que estávamos. Era noite. Com uma simples toalha cobria o tórax para diminuir o ensopado do corpo, mas o frio ainda me gelava. E a história também era fria. A lágrima dela no meio da história era gélida, e seu coração sangrava. Ao contrário do que acontecia comigo, não havia toalha para o agasalhar. Nenhuma palavra para lhe aquecer e, para falar a verdade, guardava aquilo consigo feito uma penitência, uma tatuagem de cruz no ventre. Falava não se arrepender, porque o que tinha de acontecer havia acontecido, mas paradoxalmente buscava um consolo em um qualquer, hoje, em um espírita. 

Não pude contemporizar. De fato o Espiritismo enxerga no arrependimento um primeiro passo da reconciliação com o que for: consigo, com Deus. Mas, também entendi que aquilo não era hora de catequese conceitual. Um pouco de bom-senso conseguia perceber que o sofrimento que cultivava a impedia de prosseguir mulher mais inteira. Então, me vali da verdade espírita mais robusta que conheço: 

- Veja bem, não há sofrimento perpétuo, nem história que fica sem fechamento. Tudo volta na natureza para continuar seu ciclo de construção. Cada fenda que se abre numa rocha é prenúncio de algum nascimento. A bolota que morre um dia é para dar espaço para o carvalho gigante que será depois. 

Até, então, ela sugava o cigarro com a ansiedade de quem se desnuda para um completo estranho. Nesse momento, parou. Fixou os olhos molhados em minha face e entendi que havia tocado em algum ponto essencial. 

- Não importa o mal que tenhamos feito no passado. Não há, absolutamente, aquele que não tenha conseguido se desviar do caminho certo por muito tempo. Deus criou esse universo com infinitas direções para Ele e nenhuma vereda que nos fizesse se afastar por completo. De uma forma ou de outra você é de Deus e está indo para Ele. Que caminho é esse e quais os próximos passos, só você pode dizer. 

Um dos arrepios que senti àquela noite entendi que não representava o frio, mas o Espírito protetor dela que se aproximara. Ela me chamou de iluminado. Nestes momentos importa demais saber o conceito da física para iluminado. É aquele corpo que não tem luz própria, pois seu brilho descende de outro que é, este sim, um corpo luminoso.

Iluminados nós dois estávamos sendo ali. Definitivamente por uma luz bem maior do que aquela que se atiçava na ponta do cigarro.