quarta-feira, 18 de março de 2015

Meu filho quer ser evangélico




- Pai, quero ser evangélico!

Isso me faz lembrar de vários amigos queridos que tenho, particularmente dois. Desculpem-me os outros. Mas, há pessoas que nos marcam mais profundamente. Inevitável. 

À adolescência, próximo de mim morava um amigo de escola a quem dei para brincar de chamar irmão, tamanha era nossa parecença, mas também porque compartilhávamos um sobrenome. Muito espirituoso. 

Quando estava estressado, corria para sua casa para desopilar. Chegava a passar horas conversando. Vez ou outra caíamos em assunto de religião, onde eu buscava mais conhecer seu ponto de vista do que o dissuadir. Em sua fala vi, pela primeira vez, longe dos preconceitos de antes, preparados meus ouvidos pela amizade, a intensidade com que alguém poderia viver a crença em Deus. 

Falávamos sobre a prece, e ele me perguntou como meu corpo ficava ao orar. Eu disse que dependia. De noite, antes de dormir, deitado. No meio do dia, indiferente era a posição, apenas elevava o pensamento e começava um diálogo com o Pai de todas as coisas. Ele me disse que não conseguia falar com Deus sem dobrar os joelhos. 

Foi com esse rapaz que aprendi a orar antes de comer. Baixar a fronte por alguns segundos, agradecer, em silêncio, por aquele alimento ter conseguido chegar à mesa. Com ele vi a alegria de ser cristão. Não olhar dolorosamente a cruz onde Jesus se foi, mas os dias felizes de tê-lo ao lado. Acredito que tenham sido eles que, seguindo as monções franciscanas, espalharam no cristianismo os cultos mais joviais, longe dos gregorianos, misturados com os ritmos da terra. Foi quem me estimulou também a ler a bíblia, a conhecê-la mais intimamente, retirar o pó do Antigo Testamento, enxergar Jesus como um descendente do povo da Escritura. 

Outro amigo, ajudou-me a fundar um projeto de palhaços no meio da batalha da faculdade de medicina. Enquanto eu me desnorteava, abandonando tudo que não dizia respeito à ciência médica, pela incapacidade em que me via de conciliar os mundos, ele me mostrou de novo a forma despojada de ser cristão, ou mesmo, como se diz aqui no Ceará, a frescura e a gaiatice de ser humano sem perder a identidade de ser de Deus: esse frescor do Espírito. 

Embora construíssemos um projeto de caridade, nunca falávamos de que crenças partíamos. Um dia, ousei perguntar:

- Cara, sei que nunca tivemos qualquer atrito sobre isso, o que me admira muito. A maioria dos evangélicos nos olham, os espíritas, com desprezo, porque praticamos ações que eles consideram abomináveis aos olhos de Deus: falar com espíritos, etc. Mas, você nunca demonstrou isso, pelo contrário. A amizade mais sincera foi sempre a nossa marca. 

Ele fez algum gracejo e depois obtemperou (queria falar tal e qual disse, mas aqui vão os resquícios da memória):

- Eu não sou Deus para julgar ninguém. 
- Mas, existe aquela polêmica clássica de se o que nos salva é a fé ou as obras. Fizemos juntos este projeto, nossa obra. A fé nos diverge.
- Olha! Sou alguém bem objetivo, não fico me perdendo muito nessas discussões, não. A gente tem que fazer boas coisas no mundo, não podemos deixar que ele fique como está. É verdade que a fé me sustenta, minha família, meus amigos, mas a fé muito e muito. Isso é verdade para mim, e é importante para mim. Não sei bem como isso vai ser para você mais na frente, na frente de Deus. Acho que ele te ama mesmo assim. O julgamento Dele, filhão, é Dele! 

Os evangélicos, filho, são um povo que não concordou com o catolicismo - à época uma religião séria e com graves problemas de julgamento das coisas do mundo - e ganharam espaço para poder existir com alegria a sua adesão a Cristo. Mais leitores da bíblia, mais afeitos para sentir o que chamam de Encontro. Graças a Deus, as guerras entre um e outro aqui no Brasil se dissiparam no nosso grande caldo cultural. Muitos choques fizeram com que os dois credos aprendessem mais um com o outro. E mesmo, no mundo, vemos falas como essa do Papa emérito dos católicos que poderia perfeitamente ser dita por mim falando sobre esses dois amigos:


"Outro motivo de alegria para mim é o fato de nesse ínterim o livro [Jesus de Nazaré] ter ganhado, na volumosa obra Jesus (2008), do teólogo protestante Joachim Ringleben, por assim dizer um "irmão" ecumênico. Quem ler os dois livros notará, por um lado, a grande diferença no modo de pensar e nas orientações teológicas determinantes, em que se exprime concretamente a diversa proveniência confessional dos dois autores; mas, por outro lado e ao mesmo tempo, manifesta-se a profunda unidade na compreensão essencial da pessoa de Jesus e da sua mensagem." (Ratzinger in Jesus de Nazaré: da entrada em Jerusalém até a Ressurreição)

Minha paródia:


- Um motivo de alegria para mim é o fato de minha vida ter ganhado, nestes volumosos dias que se sucederam, irmãos ecumênicos (sem "por assim dizer" e sem aspas). Quem ler as três vidas notará, por um lado, a grande diferença no modo de pensar e nas orientações teológicas determinantes, em que se exprime concretamente a diversa proveniência confessional dos três viventes; mas, por outro lado e ao mesmo tempo, manifesta-se a profunda unidade na compreensão essencial da pessoa de Jesus e da sua mensagem. Irmãos.