sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Orar sem culpa



Constantemente me pego falando com Deus reforçando minha pequenez. Antes fosse só pequenez. Falo dos meus crimes. E olhe que nem sou o fora da lei mais procurado que existe por aí. É porque os crentes tem essa tendência de se humilhar diante do Absoluto. É o que nos conduz a humildade e, de certa forma, nos permite enxergar um pouco fora de nós, já que a exaltação do ego nos coloca como ídolo. 

Poderíamos dizer que os espíritas tem uma maior tendência de enveredar por esse tipo de confissão dos pecados em oração, uma vez que não temos por ritual a confissão de nossas faltas para qualquer sacerdote e que estas se multiplicam sobre nossos ombros com a adoção da crença em vidas passadas. 

Em verdade, a vontade de confissão e de perdão pelo que fazemos é do estado de espírito daqueles que crêem em algo maior. Se tudo o que nos circunda é quase nada em relação ao infinito, a pequenez de nossa vida nos leva a pensar que equivale a mesquinharia e a vileza quase qualquer coisa que fazemos. 

Esse post é para convidar para um outro tipo de comunicação com Deus: o da comunhão. 

Não é de nossa pequenez que nasce a culpa, mas de nossa tristeza. O mesmo sentimento de humildade diante do mais-alto-que-nós pode nos conduzir a alegria. Eis uma outra conversa possível:

- Senhor, que sol maravilhoso esta manhã, espantou meu frio. E que brisa leve, afagou meus cabelos. Os alimentos que me sustentam, que gosto, que gozo poder comê-los! As águas desse rio, o corpo deslizando nessa fluidez. Serpenteia, ó corpo! As pessoas ao redor, há semelhantes por todo o lugar. E as árvores, e o ar, e a terra. Que cores, que sopro, que bom poder andar! O sorriso do menino, o samba da moça, o batuque das gentes. Ó planeta Terra, que a vida nos seja leve nesse teu infindo girar! 

Eu sei. Essa prece é demais minha para qualquer um poder recitar. Privilégios se somam em cada linha que não são compartilhados por muitas pessoas. O convite, contudo, não é para que eu seja invejado, mas para perceber que a alegria está na gratidão por cada coisa que positivamente se nos avizinha. 

Não é a posse da verdade que difere o pessimista do otimista, mas o viés de percepção.