sábado, 23 de setembro de 2017

Médium João de Deus, Lair Ribeiro e a morte de Marcelo Rezende



"Médium João de Deus e médico sofrem acusações após morte de Marcelo Rezende" diz a notícia que pode ser conferida clicando aqui

Os repórteres registram que o médium João de Deus teria revelado (mediunicamente?) Lair Ribeiro como a cura para o câncer que matava Marcelo Rezende, famoso apresentador de um programa de TV. 

Por que se deve tomar cuidado com revelações bombásticas de médiuns?

Qualquer espírita que leu qualquer livro introdutório de Allan Kardec responde isso brincando.

Médiuns não tem acesso a verdades absolutas. O mundo dos Espíritos a que os médiuns têm acesso é composto por um sem fim de habitantes que podem emitir revelações. Estes Espíritos são de todas as classes, desde os mais sábios aos mais embusteiros. Kardec havia pedido cautela com qualquer revelação. "Rejeitar nove verdades a aceitar uma mentira", aconselhava. 

Nenhum médium pode se gabar de ser imune a espíritos enganadores. Ninguém é blindado contra a sugestão de mentirosos. Não há pessoa completamente transparente a si mesma. A quantidade de fragilidades presentes em nossa alma que podem ser utilizadas contra nós por qualquer um não tem conta. Não se pode receber dos médiuns qualquer informação que, pretensamente, venha do mundo espiritual sem análise. 

Isso não quer dizer que a mediunidade não exista. Falhas de um fenômeno não provam a total inexistência do mesmo. Provam apenas que o fenômeno tem falhas. No caso aqui, a verdade que cai por terra é: "é confiável qualquer informação quem venha de um médium confiável?". Resposta: não. Um médium de boa índole e que se vigie muito acaba por se tornar um excelente intermediário de Espíritos bons, mas nada impede que Espíritos dissimulados também se comuniquem. 

O que acontece com as pessoas, particularmente as fragilizadas pela doença e sedentas de esperança, é que se apegam, como a uma tábua em alto mar, aos que trazem nos olhos certezas de salvação. É uma situação complicada, porque o milagre depende dessa entrega, o que implica certa anulação do espírito crítico. Porém, há outros fatores que geralmente desconsideramos: o tempo de Deus e o que para Deus é vida.  

O sofrimento tem um tempo de acontecer no ser humano que é o da sua redenção. Sempre está de mãos dadas com um processo de amadurecimento do Espírito. Seu fim é a aquisição do aprendizado. Os espíritas, acreditamos que as curas de Jesus aconteciam na clarividência do momento certo de fazê-las nascer. Como um parteiro respeita o momento de tirar a criança.  

E o fato de viver mais um pouco ou morrer são dois caminhos indiferentes para Deus, já que para Ele tudo é vida. Sendo o tempo uma ilusão para a eternidade, viver mais um pouco ou morrer, e portanto continuar vivendo de outro modo, com a busca de uma consciência em outro nível, são apenas vivências diferentes aos olhos de Deus. 

Pense nisso, se você estiver diante de um médium, e um Espírito "de luz" disser a este que não se preocupe pois você vai viver ou sobreviver ou se curar do mal que te aflige, não será uma mentira, será apenas uma outra verdade que você não estava preparado para ouvir. Falta o complemento da revelação, pois mesmo morto, estará vivo, redivivo, e em algum tempo liberto

Em outras palavras: se você é uma pessoa apegada no aqui e agora, não confie em pessoas que tem o ponto de vista da eternidade, a frustração é certa. 





quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Quem sou eu verdadeiramente?



Por que o eu descrito nas Confissões de Santo Agostinho (~400 d.C) é mais verdadeiro do que o eu pensado por Descartes em seu Discurso sobre o método (1637)? De outro modo, por que o eu que se confessa é mais real do que o eu que se pensa?

O eu descrito por Santo Agostinho vai se mostrando na própria biografia, reconhecendo a impossibilidade de ser fundamento de si mesmo, aceitando a primazia do entorno em relação a si, entendo-se projeto e imperfeição caminhante. Este eu reconhece seus afetos, suas relações, suas derrocadas, e seus pontos de virada, em uma palavra, sua navegação na vida, ou, em uma palavra mesmo, a vida. 

A partir desta reflexão, dois respeitos surgem de forma irredutível: a Deus, como necessidade primeira da existência; ao outro, como impossibilidade de ser extinguido. O sagrado e a ética dão-se as mãos na abertura fundamental do eu para o mundo. 

O eu cartesiano é provado a partir de um conjunto de refutações que vão deixando de lado tudo o que dá suporte a ele. Um eu assim, hipoteticamente cogitado, é um fantasma na pior acepção do termo. É vaporoso, impalpável, imaterial. Não há possibilidade de atuação na vida. Desconsiderando os outros, mas também suas possibilidades de falha, tão pouco tem carne para acertar qualquer coisa. Tamanho foi o labirinto em que Descartes se meteu, que após todo o esforço da dúvida hiperbólica, o eu a que chegou como fundamento da existência era um incapaz de se comunicar com tudo o mais, necessitando aceitar dogmaticamente a necessidade de Deus para lhe salvar deste isolamento total (ontológico). 

Conseqüências funestas se originaram a partir deste eu cogitado: o outro só pode existir quando for possível se reduzir (leia-se: se curvar) ao meu pensamento; Deus (isto é, qualquer realidade que me transcenda) é uma hipótese inapreensível, não evidente. A ética e o sagrado são expulsas do exercício científico, pois este, com seu séquito de eus inchados, não pode reconhecer sua insuficiência total (ontológica).  

Se há uma coisa que nos faz mais conhecedores de nós mesmos, e até mesmo mais livres, esta coisa é se confessar, entrar na própria alma e apontar suas falhas. O reconhecimento de nossa insuficiência é a abertura primeira para nos reconciliarmos com a vida. 

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Refutações filosóficas baseadas na vida familiar



Há algumas correntes filosóficas que imperam ao nosso redor, fazendo adeptos e provocando movimentos que acredito poderem receber séria refutação quando se pensa na simples convivência familiar. 

A filosofia moderna é inaugurada com a subjetivação da verdade. O pensador entende que o fundamento primeiro da verdade só pode residir no sujeito que pensa. E desse jeito encontra um abismo enorme para sair de si e conseguir a verdade que pode ser compartilhada com o outro.

Qualquer pessoa que tentou se relacionar com alguém, e buscou cultivar este relacionamento para que durasse, sabe o quanto é impossível fazê-lo se pensarmos em verdades que apenas nascem do nosso sujeito. O exercício do respeito pela verdade do outro é constante. A surpresa que o outro nos desperta em não conseguirmos ter atingido sua verdade é diária. É só pensar no desafio de presentear alguém, e nas frustrações que isso pode provocar.  

Quando pensamos nos idealistas, que entendem ser a realidade o reflexo de nossos pensamentos, ou no psicologismo, que pensa algo semelhante, reduzindo a verdade a imagens mentais, outro exercício que enfraquece esta ideia é acompanhar o crescimento dos filhos. Quase nada segue o que traçamos. O amadurecimento deles, muitas vezes, é o contrário de fazer o que queremos, pois é ser eles e não nós. 

Se formos olhar as filosofias que enxergam mais as categorias ou as classes de pessoas em detrimento do indivíduo singular, dá para desconfiar que os autores delas raramente se apaixonaram ou amaram alguém a tal ponto que a vida daquela pessoa fosse invendável ou insubstituível. É o que move os pais a velarem os filhos doentes nas madrugadas de febre. 

Cientificismos e historicismos, de uma forma geral, querendo reduzir as ações humanas a equações que geram predições acertadas ignoram a atitude de sabedoria diária que a família nos convida para baixar a guarda de nossas certezas a fim de deixar o outro viver em nós de forma mais livre. Você mal sabe o que se esconde no próprio peito, como poderia se erguer a uma onisciência tal que abarcasse as possibilidades da vida de qualquer um?

Para fechar o elenco das principais filosofias, pensemos naquelas que pregam que todos devem buscar a felicidade em todos os momentos, tentando viver cada instante como se fosse o último, e como se ele pudesse ser repetido pela eternidade. É insustentável pelo própria ritmo da existência. 

A única forma de não devotarmos amor por qualquer coisa é sermos cercados pelo nada. Qualquer amor que nos conecte a algo fora de nós, cedo ou tarde, fecunda a consciência da perda inadiável, que é o sonho da morte que nos visita de vez em quando. Esses momentos são sombrios, gelados, opressivos. A saudade é uma filha adorável deles. A falta é a carrasca. De uma forma ou de outra, ainda que a ausência se faça, flertando com a sombra da morte, qualquer esperança de reencontro faz o amor reacender como se fosse a primeira vez. 

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Por que escolhi um herege como padrinho de meu filho?



Antes de mais nada, também sou um herege. O caçula vai se batizar na igreja católica, conforme o tronco materno. 

Não me desagrada em nada o rito. É uma igreja que descendeu de Jesus, dirigida por uma sucessão de pedros, que ainda contribui de forma importante para a fermentação da palavra de Cristo na Terra. Só que divirjo em pontos fundamentais que me apartam totalmente dela. Meus filhos deverão se aperceber da dimensão císmica disso em torno da primeira comunhão ou na adolescência. 

Conforme a doutrina católica, o padrinho deve ser alguém que preze pela condução espiritual (católica!) do afilhado até a idade da razão. Retirando o parênteses que coloquei, o padrinho que escolhi, acredito ter ele força para fazer este tentame. 

Quando anunciei à ele minha vontade, abraçou-me com tal alegria e surpresa que quase me afoga. Estávamos nadando em alto mar. Sua admiração é que sou rodeado por amigos tão santos que ele, pecador, não poderia ser uma primeira escolha. 

Esse amigo foi um dos primeiros a me apresentar o mundo como um lugar alegre e vivo, para além de qualquer igreja. Minha visão quase católica anterior me fazia ver isto aqui como uma contínua tentação para se afastar de Deus. Atava-me aos domingos a um serviço de evangelização que tomava o dia inteiro, como que me lavasse da poluição infernal da semana. 

Portador de uma liderança tranqüila, amigos gravitam em seu redor serenos. É capaz de engatar uma conversa boa, mas também de desaparecer do mundo ao tocar seu violão, seu teclado, sua guitarra, seu baixo. Seu laconismo esporádico engana. É que ele costuma se revelar apenas para o que adora. Preocupa-se com a ética, e já se esforçou muito para ajudar os pacientes de um grande hospital destas bandas. Hoje tem mais sede de filosofia do que de medicina, mas ainda, e muito, de medicina, de poker, de futebol, de surf.  

Ele me apresentou as músicas profanas mais lindas que hoje tenho no repertório. E passou por tudo isso sem um vício químico qualquer. Seu gosto pela vida nunca foi entorpecido por qualquer substância. Sempre a quis viver sóbrio. 

Certa vez ficou bêbado por uma paixão, talvez ainda como reflexo da sua pulsão de vida. A embriaguez consumia-lhe a razão, e quase incinera sua família. Em um laivo de lucidez, esforça-se para retirar das veias o álcool do perfume que o inebriava, toma todos os amigos queridos nos braços de um barco, sua esposa e os filhos no centro de tudo, canta um hino de reconciliação, pula ao mar, pia batismal de um serafim, e ressurge das águas novo. 

Até hoje, não tive nenhum amigo que submergiu tão fundo na sua própria fragilidade e voltou. 

Não espero que o padrinho de meu filho seja santo, e sei que ainda é falível demais. Mas, por tudo que já viveu e sobreviveu, não vi pessoa melhor para compadre. 

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

De uma pai velando o filho especial

Anjo do meu filho, protege-o da sinceridade das crianças. Faz dele surdo para não ouvir a chacota ou, por alguns instantes burro, para a não entender. 

Anjos dos filhos alheios, sei que já trabalham demais tentando manter estes meninos vivos até que venha a idade da lucidez, mas se Deus permitir alguma sensatez precoce, que seja feita a vontade Dele. 

Nossa Senhora de todos os anjos, vê, aquele é o menino que Tu me entregastes. Toma pela orelha todos os outros para que a ele não façam mal. Perdoa minha exigência. É que é a primeira vez que me afasto para que se sinta entre iguais. Mas, eu e a Senhora sabemos que não são. Claro, ninguém é. Só que ele ainda o é menos. 

- Que é isso! Uma queda! Como foi? Deixa eu ver. Pronto, não foi nada. 

Quer saber?! Deixem senhores e Senhora que ele se arranhe, que eles briguem, que alegria! Criança é isso mesmo.

De uma mulher ferida

Não me toques! Dói. Agora vens querer me tocar. Não. Chorei por algumas noites até que a noite permaneceu. Não vi Tua luz. 

Por que permites a sombra? Nunca deveríamos ter saído de Teu seio. Era tudo bom, dizem os padres, já que eras tudo. Inventaste de nos criar, e a criação desandou. 

Algumas pessoas deveriam não existir. Sejas sincero: até elas tu amas? Mesmo após as atrocidades que perpetram? Não deverias. Amar criminosos deveria ser crime. 

Não entendo Tua lógica. Falam do inferno. É a única criação plausível. 

Droga! Essa maquiagem não ficou suficiente. Um milagre para me recompor. 

Queria dormir, mas temo que o dia nasça. Queria que o dia nascesse, mas temo em acompanhá-lo insone... 

... queria o Senhor aqui comigo, então seria dia, e meu sono seria bom.  

Ao anjo da guarda, com reverência

Que posso dizer? Acho que as palavras seriam tóxicas para os ouvidos. Sangramos delas todos os dias. 

Recebe meu corpo em abraço. Só que a carne pesaria em tua túnica. Nossos passos fazem tremer os arredores.

E um beijo? A acidez e os germes da boca te machucariam. Cuspimos o mundo, nosso alagadiço. 

Que posso eu sem palavras, sem corpo, sem beijo? Eu, apenas eu. É o que queres? Este eu desnudo pelo sopro de Deus. Um vento cálido que tira as roupas, a carne, os ossos, o sangue, as vaidades. Exposto, me ajoelho. Porém, sinto que me tomas pela mão, e enfim, sou teu.  

De quem sofre ao seu anjo da guarda

Sei que estás aqui. Por que não me falas? Se tenho os ouvidos surdos, antes um estrondo do que sussurros. Derruba todas as louças desta casa e estilhaça os vidros nas paredes, por Deus! Preciso te ver. 

Não é justo. Os seus olhos me desnudam, e eu mal diviso qualquer vulto. Sei que estás aqui. A mudez desta casa te denuncia. Por que me acordastes às três horas? Tudo dorme, mas não meus pensamentos. 

Será se é difícil te escutar porque falo demais? Queres que me transporte para esse vácuo celeste onde tu moras? Como posso viver sem estas angústias. São o que sobrou dos amores tristes, dos únicos amores. 

Pensando bem, não quero que apareças. Deixa-me envolta pelo frio, e a escuridão me basta. Tudo isso é Deus! (talvez estas palavras valham um tapa... mas me acaricias, e na tua túnica, uma lágrima, como seria bom vê-la!)

O que mais posso pedir a ti? Que apareça! Sei que estás aqui.

sábado, 26 de agosto de 2017

Diálogo sobre um jovem pensando em suicídio à mesa mediúnica

[Nas duas mediúnicas anteriores, falei diretamente com o obsessor. Esta sessão ele não veio. A mão do médium ficou inerte por um tempo até vir dois ou três abalos, então alguém se manifesta.]

- O Espírito com que você se comunicava não veio. Estou em nome da família espiritual do jovem que você assiste a fim de lhe fornecer esclarecimentos.

- Queria primeiro agradecer pela disponibilidade. Eu entendo que todo indivíduo encarnado possui uma família que o acompanha. Mas, poderia me falar um pouco mais sobre a magnitude dessa família. 

- Você deve entender da mesma forma que nenhum indivíduo surgiu ao nascimento que vocês presenciam. Desta família que ladeia o rapaz, não sou nem o mais novo, nem o mais velho. Há os mais novos que se uniram à nós, que são os que mais sofrem com as dores de nossos irmãos. Há os mais velhos, cuja experiência nos passa uma serenidade de saber que o bem sempre ganha ao final. Situado entre os extremos, já tive meus momentos de chorar e me desesperar em demasia pelos meus amores. Venho enxugando as lágrimas e perguntando mais aos nossos superiores. 

- Você fala como se houvesse toda uma hierarquia e de fato uma família quase como que consangüínea no plano espiritual. Nunca pensei ter esta força tangível estes laços. 

- Na matéria, o sangue nos aglutina, mas muitas vezes é um força odiosa e pouco querida que nos amarra. Alguns desafetos estão sob o mesmo teto, e isso é uma infelicidade constante. Todavia, há o dedo de Deus, que sendo Pai de todos, quer que todos se entendam. No espaço, por outro lado, soltos do peso da carne, desobrigados das exigências sociais que nos unem para a sobrevivência, os laços dos Espíritos são feitos de afeto, e, por isso, ainda mais tenazes. O amor que parteja cada membro dentro do nosso círculo nos faz ter uma devoção por vezes doce, outras vezes angustiante de seguir suas aventuras na carne. Por ora, estamos constritos pelo destino do nosso amado. 

- Perdoe-me evocar esta possibilidade, mas o que acontece quando algum de vocês falham, digo, por exemplo, nestes casos de morte por suicídio. 

- Ah! Amigo, são tantos os motivos que conduzem uma pessoa a desertar da existência como a forma de elas chegarem a nós. No geral, um desespero horrendo acompanha a mente que, aflita, rasgou suas promessas e planos de antes de ingressar na carne. Alguns descrevem agressores que pululam ao seu redor, outras vezes é apenas um em particular. Todavia, o que mais me compadece nas cenas que vejo dos que se enveredam no abismo do suicídio é o trauma íntimo da experiência. Toda a lógica do universo parece se estilhaçar na mente, nada faz mais sentido. Todas as potências do espírito estão nele presentes, mas sangrando. Se levantar é um suplício, pior é voltar a se sentar porque já não se vislumbra a possibilidade de andar. E quando se anda, marcha trôpega, cada passo evoca uma experiência de dor. Que importa quem berra ao lado impropérios, insultos? A perda do sentido é a violência mais assassina que existe! Se pensava não existir sentido em vida, tão pouco a morte revelará qualquer luz.

- O que é feito para ajudar estes irmãos?

- Tudo o que podemos, e não é pouco. Mas, nenhuma força pode superar a vontade do Espírito. 

- Nossa ciência anda falando da força da química cerebral. 

- Com a visão fixa apenas na vida atual, a química cerebral e a genética parecem dois monstros indomáveis a determinar a ação do indivíduo. Quando nos afastamos do momento atual e enxergamos a solidariedade entre as vidas, chega o instante de termos a visão clara dos motivos que costuraram os desfechos atuais. Se o universo é obra de Deus, a vida de cada Espírito é obra própria. De forma nenhuma quero desmerecer os avanços que o Grande Pai permitiu que a ciência tivesse para ajudar os cambaleantes. O que devemos é exaltar a força de cada filho de Deus de alcançar a iluminação. Se você pensar bem, não faz o menor sentido culpabilizar a química ou a genética. Quanto mais o homem se aproxima destes temas, mais eles escorrem pelas próprias mãos. Esquecem, então, que é no próprio homem que se encontra a chave de seus males. Nele e em Deus. Nestes dois pontos juntos. Homem e Deus, religados. 

- Você pode me descrever algum resgate de uma alma querida que chegou à vocês nesta situação em que falamos?

- Eu chorava em meio ao escuro de tudo. Depois de anos que meu amado esteve perdido em si mesmo, olhos opacos para qualquer coisa, uma faísca se acende em seus olhos. Era Deus que germinava em sua lembrança. O amor que rompia seu encastelamento. Já não falava, já não fitava qualquer semblante há tempos. Sei, porque frequentemente me permitiam ir a ele. Encontrava-o, tomava-o nos braços, derramava lágrimas sobre seu corpo, e ele não me via, não me sentia, não me retornava. Naquele dia, sua mão encrespou na minha. Eu me assustei. Uma lágrima escorria de um olho. Refletia a luz distante que vinha da zona de socorro onde eu estava hospedado. Uma oração sincera nasce de meu peito. Faço-me luz envolvendo-o por completo. Eu e ele éramos um, indiscernível naquele momento. Pela primeira vez sinto atravessar de novo seus sentimentos, como cavando os escombros que o asfixiava. O calor do seu corpo é retomado, e algumas palavras emergem de sua boca: "a-ju-de-me... D-e-u-s". Seu corpo se faz leve como vento, o meu volita junto ao dele e, em um pensamento, chego ao hospital do acampamento de socorro. Evoco vários amigos. Deito-o sobre uma maca. Os médicos e enfermeiros cercam-no e assumem os cuidados. Aproximo-me de alguns da nossa família e choro convulsivamente todo o agradecimento ao Pai que estava no peito. Damo-nos as mãos e passamos a orar pela sua recuperação. Em breve estaria entre nós. 

- Nem sei o que dizer. Essa cena me emocionou muito. Você é o mesmo daquela outra comunicação?

- Não. Sou mais um. 

- Quantos são, esta família?

- Quantos ela precisar. Somos. 

- Posso divulgar esta conversa?

- Não se esconde a luz sob um alqueire, mas põe-na ao velador, para que ilumine a todos. 

- Grato.

- Eu que o sou. 


segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Carregar o pai nos braços

A experiência de carregar o corpo desfalecente do pai nos braços queima a pele do espírito. Foi assim comigo.

Era uma manhã comum, em que madruguei estranhamente junto com ele e tomei seu café amargo. Fui pegar o carro na garagem quando minha irmã chega aflita anunciando o mal estar dele. Nunca nem lhe vi chorar uma lágrima sequer, sempre ativo e buscando resolver os problemas imediatos da existência. Raramente alguma conta se atrasava. Raramente nós nos atrasávamos em uma reunião. Parecia uma viga mestra entre nós. E, naquele dia, encontrei-o pálido sobre o sofá de espera do condomínio.

Carreguei-o, sofregamente, ao pronto-socorro; atordoadamente, ao velório; melancolicamente, à sua cidade amada. Ouvi as histórias de quem, como médico, ajudou. Segui a procissão que o enterrou no cemitério do lugar. Desde, então, seu Espírito me visita aqui e ali. Estou tendo menos consciência dessas visitas na medida em que venho me tornando ele: médico, pai, sem deixar atrasar os compromissos da casa.

Mas, aqui e acolá um sonho estranho vem, a guarda baixa, e a melancolia aperta. Diz o espiritismo, essa religião dele e minha, que a melancolia é uma saudade da liberdade que o Espírito gozava antes do nascimento na carne, uma vontade de voltar à liberdade, uma esperança que retornará. É sempre, portanto, uma ausência doce que acalentamos. Desse jeito que a sinto, também é a ausência dele.

Ontem, tive a sua imagem onírica bradicárdica sobre a cama em que assistia aos jornais. Eu prescrevia em seu consultório um soro para uma criança doente. O raciocínio pesava, a mão era lenta até que recebi a notícia de que passava mal. À época de sua verdadeira morte, não sabia as fases do morrer como sei hoje. Já conto algumas tantas pessoas que assisti o atravessar. Vivi o silenciamento de cada som do corpo, e dos monitores. Parece que estes sonhos que me devolvem para aquele dia no sofá fazem-me ter consciência dos sons que se calaram, e que não sabia existirem.

Outros sons são presentes. E como disse, parecem que vão se tornando menos conscientes na medida em que vão se reencarnando, em mim. O amigo que passar um pouco do dia em minha casa me verá assobiando para os filhos, roncando na sesta, 
com o lençol nos olhos, após ter lido algo, ou ainda, deixando que os meninos batuquem na minha barriga. É ele. 

Se há algo que me faz compreender a relatividade do conhecimento humano em relação à perspectiva em que se encontra, esse algo é a experiência que tive de pai. A partir do que vivi quando criança, só posso querer ser mais, e, no muito, venho conseguindo ser cada vez mais quase igual. Que posso julgar daquele que não teve essa presença? É um esforço inaudito de construir uma forma de existir através de palavrórios das escrivaninhas de especialistas. Que posso julgar daquele que, com essa ausência, não acredita em um Pai Maior? É a não conexão com algo que nunca existiu. Pai e Deus são experiências, no finito, de encontro. E o desejo, no infinito, de reencontrá-los.

domingo, 20 de agosto de 2017

O amor comeu o meu nome e deixou nele pai

É a primeira vez que venho ao meu blog para falar deste assunto. Meu filho mais velho, mas ainda muito pequeno, tem esta condição neurológica a que chamam de autismo. É leve. Algumas singularidades muito especiais apontam para o diagnóstico. De todo modo, as duas questões que mais deve pesar sobre os pais destas crianças já nos tomam: o esforço de estimulá-lo ao máximo e o medo de ele ser rejeitado pela diferença. 

Revezamos-nos, eu e minha amada, de tal forma que sempre há um de nós presente, e à noite, os dois. Diverti-lo com qualidade terapêutica é uma busca diuturna nem sempre bem sucedida. Algumas vezes é o cansaço que bate, outras é o desejo de ser casal, e outras poucas é a necessidade de estar sozinho. 

Alegria é o que ele não nos cansa de dar. E, sentido pra vida. Sossego, nem tanto. Lembro que quase tudo que fiz até antes dele foi regido por muitos sonhos, excitação e pouca consecução. Do que venho mantendo até agora como os projetos sobre os quais posso falar em paz com Deus, há um de palhaçoterapia, há a medicina, e há a família. 

O de palhaçoterapia, nem sou tão assíduo na contribuição, mas já dediquei boa parte da filosofia que estudo para o engrandecer. A medicina é minha relação de amor e ódio. Na verdade, não gosto muito dela, mas, justiça seja feita, é a atividade que me permite estar diante do sofrimento humano, semanalmente, com alguma ferramenta útil para diminuí-lo. Todavia, a família é um caso à parte.

A família primária sempre foi esse misto de "não escolhi nascer aqui" e "que bom que vocês existem". É onde já pude gritar e ser amado, brigar e ser querido, fugir e ser aguardado.  E olhe que nem sou tão rebelde. Inimizades de berço foram desfeitas, admirações foram plantadas, saudades cresceram. O que já passei é o que quase todos passaram. E, por tudo, sou grato. 

A outra família, o núcleo que venho construindo, não foge desta intensidade de poder se revelar em carne viva, nas próprias contradições, em meio ao amor. São experiências que não se pode viver em qualquer lugar. Contudo, penso que a família possui um elemento especial de proteção divina para suportar os choques de egos. Se não, deveria ter. Só Deus para fazer sobreviver ao encontro de pessoas despidas pelo cotidiano. É, de fato, para mim, o projeto mais meritório que poderei entregar a Deus, após selada esta vida. 

Neste, meu filho trouxe um capítulo bem especial. Imagine o que é inclinar-se sobre o útero que acolhe corpo'ealma, ver este Espírito nascer para a Matéria, acompanhar suas conquistas diárias, tê-lo nos braços, levantá-lo do chão, sacrificar o sono nas febres e nas asmas, e estimulá-lo a ganhar o mundo. 

O projeto de ser pai é um que abraçamos em uma noite amada, antes mesmo da noite da paixão. No escuro da nossa consciência, dorme a lembrança de quando recebemos de Deus a incumbência de cuidar de alguém que não é nosso e nunca será. Sabendo que a vida dele corre risco se não estivermos por perto. E que, quando não mais o podermos proteger, é que será o dia de ele ir para longe.

A família, eu dizia, é esse misto de "te quero" e "não te quero". Sinto que ser pai é esse misto de "é meu" e "nunca será". O símbolo de São José se repete em cada paternidade. Que deus cada menino guarda? Sentar no silêncio da marcenaria do dia e olhar que é preciso protegê-lo do mundo. A porta de grades, um dia ele saberá abri-la, cada cadeado. O mundo será pequeno para sua ânsia. 

- Mas, menino, volte aqui e venha tomar café! Ainda sou seu pai.  

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Um caso de sonho mediúnico no interior do Ceará



 O envolvido nos narra da seguinte forma: 

"Uma senhora morreu e deixou um filho aos cuidados da amiga. Esta engravida e o Espírito da falecida aparece para minha esposa em sonho temendo pelos cuidados do seu filho, pois poderia passar necessidade já que poderia ser colocado de lado. Minha esposa acorda sabendo da existência de uma mulher que não tem intimidade, da gravidez dessa mulher, de que ela cuidava do filho de uma falecida, e, até mesmo - detalhe estranho - da data de nascimento dela. Vai falar com esta mulher. Ela nem sabia que estava grávida. Depois disso foi atrás do exame, deu positivo."

Casos como este se repetem aos milhares. Nada do que se admirar aos olhos espíritas. Todavia, é preciso todas estas chaves de compreensão para elucidar o caso:

1. As pessoas não morrem. Perpetuam-se para além do corpo, geralmente levando as mesmas preocupações do que quando vivas, mantendo pois a sua individualidade. Nenhuma identidade se dissolve no nada. 

2. As pessoas que morrem, e se mantém vivas, podem se comunicar com quem está ainda no corpo carnal. Mas, não com qualquer um. É preciso ter uma abertura natural para que a comunicação se processe. Chamamos essa abertura de mediunidade, pois são pessoas que servem, de algum modo, de meio ou estão no meio dos dois mundos. 

3. Os Espíritos, desvencilhados da carne, experimentam um alargamento de seus sentidos, podendo perceber detalhes que passam ao largo dos nossos canais de captação. Ninguém consegue ver uma gravidez em estágio inicial, mas um Espírito percebe as mudanças do corpo espiritual e mesmo do ambiente da pessoa, no que tange a vizinhança espírita(1) dela. 

Por outro lado, existem chaves que bloqueariam a compreensão, as quais, por isso, devem ser questionadas criticamente:

1. Se o que vem aos nossos sonhos for produto apenas da nossa atividade de vigília, resíduos de cenas não elaboradas, como se explicaria a adivinhação do que nunca esteve ao nosso alcance?

2. Se os mortos não podem voltar para se comunicar ou se uma borracha divina for passada na consciência da alma ao fazer a derradeira passagem, por que tantas "visagens" tentando resolver assuntos inacabados?

3. Se as pessoas são pedras intransponíveis, onde apenas o que é muito tangível consegue chegar à consciência pelas portas dos sentidos que conhecemos dos livros de biologia, como explicar as intuições e as comunicações à distância que unem indivíduos cujos laços afetivos os fazem um só? As mães que sentem a dor do filho sem ver o ferimento, ou os amigos que antecipam o desejo do outro? Ou, por fim, as adivinhações? Não falo das adivinhações tolas, dos contos que tentam ridicularizar as cartomantes, mas das verdadeiras, que confundem nossa razão, que perturbam o que acreditamos ser a realidade, este tecido de conexões lógicas cujos elos só podem existir neste plano material. As adivinhações verdadeiras, as profecias, os vaticínios, arrebatam o Espírito do médium e o faz ter acesso a informações que estão para além de qualquer dado cotidianamente apreensível.

Dito isto, eis como fica a explicação:

- Sua esposa é médium. O Espírito dela encontrou com o da falecida ao sair do corpo no momento que este dormia. Dialogaram no plano espiritual. Ela retornou com informações novas, que eram fato já no mundo dos espíritos, mas ainda prenúncio no plano material. Foi ao encontro dos envolvidos no caso, e acabou sendo anunciante de coisas que estavam por vir. 

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Por que fazer a caridade em um mundo sem sentido?



Vamos começar pensando ao contrário do que uma página espírita pensaria. A vida não faz sentido, pois o futuro é incerto. Por que fazer, então, a caridade?

Se fosse aplicar o método da confusão hiperbólica utilizado por Descartes, eu não chegaria à conclusão de que existimos porque pensamos, mas que, simplesmente, não podemos ignorar a existência do outro. Ainda mais o outro que sofre. 

A semelhança entre nós seres humanos é uma realidade devastadora para a consciência. Ela se impõe com violência. É de tal forma penetrante que nem paramos para pensar nela. Está instalada em nossa consciência como que por presença. 

Às vezes queremos nos isolar, apenas para não ter que se deparar com o olhar do próximo, e ainda assim a sua ausência faz sombra. Pode ser que os astros não nos definam. E a astrologia caiu em desuso pela nossa descrença. Mas, nunca deixamos de nos importar com o que outro pensa ao nosso respeito. 

A primeira resposta desse sistema de alteridade é nos engolir. Nascemos nele. Seja nos rejeitando ou nos acolhendo, em um mundo estamos arremessados. O segundo movimento vem da gente: a busca da socialização. Investigamos os mil sinais que nos fazem queridos ou odiados, e as mil variantes do espectro dos gostos. O terceiro, poderia ser a revolta e o isolamento, depois de experienciar a agressividade do mundo. Esse é um movimento infeliz. O outro movimento, um alegre, ainda neste terceiro estágio, é a compaixão e a caridade. O mundo é agressivo - fato. Não apenas me agride, mas aos meus semelhantes. Ver o outro em sofrimento reflete a minha possibilidade de sofrer. A finitude do outro revela a minha, a lágrima ali faz lembrar que tenho a mesma brecha. Resposta ao mundo: caridade. 

Não seria, então, uma atitude de entrega, de abdicação, mas de pura defesa. Ainda seria uma atitude egoísta. E daí?! Seria o mais certo, no sentido de necessário a ser feito. Caridade em suas muitas facetas, não apenas a esmola. Não ceder a este impulso é não ter cuidado consigo mesmo, fechar os olhos para o desmoronamento do que me ladeia. 

Em um mundo sem sentido, o outro é a única rota de fuga. 

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Retira-me de mim

Ó, Pai! Retira de mim esta resistência em ser bom. Com ela, leva os pensamentos que não são meus, mas que acolho como se fossem. Com eles, leva os gestos invasores, que deixo que encarnem com naturalidade. 

Clareia, ó, Pai, os pensamentos, onde a sombra é quase tudo. Dissipa a névoa que me impede de ver a vida com alegria, já que a tristeza parece imperatriz. Destrói este meu mundo que se ergueu ao redor da ilusão. Esclarece, de uma vez por todas, se há alguma coisa além dos fantasmas dos sentidos.

Quebra, se preciso for, o copo que bebo, sangue derramado à terra, estilhaços pelo mundo. Da água me faz novo, de novo, e que o sangue, refeito em vinho, possa purificar-me as veias. Amém!  

A violência

Vês que, vez ou outra, explodo. Bem menos do que ainda tenho pólvora em mim. A busca de santidade carrega essa sombra. Dizem que é por causa dela que a santidade é um conceito vazio, e ela seria a realidade. A santidade seria o esforço de escapar. Mas, se é assim, por que o remorso? Se a violência me puxa para baixo, o remorso parece me identificar com o alto. Ele é  ressentimento da queda. Re-sentimento... como se eu já tivesse algum dia experimentado os círculos santos, e me apaixonei, e deles sinto saudade. Não acredito na queda primeva. O que posso conceber é que Deus me habita, ainda que violento. Deus habita, por vezes, de forma violenta, não é? Chega o dia em que Se cansa e arrasta o filho adiante, golpeia-lhe no chão, e diz: "Fica aí! Cala-te! Aprende!". A serenidade: a obediência da Ordem. Antes, de bom grado.

domingo, 9 de julho de 2017

Uma jovem me pergunta sobre seus pesadelos monstruosos



Ela diz: "Desde pequena tenho pesadelos. Raramente, sonhos bons. Antes não sonhar, porque se sonho, quase certeza ter sangue, corpos esfolados, perseguição, quando não são monstros. O último sonho foi em uma casa à beira do mar. Meu filho estava dentro. Fui contemplar o oceano. Havia monstros terríveis e enormes nadando nele. Minha única preocupação era a segurança de meu filho. Em certo momento, o procuro e não acho. Vou desesperada atrás dele. Acordo."

Ela me falou imaginando que eu pudesse dar uma explicação espírita. E a mais óbvia falaria sobre obsessão. Alguma que a acompanhasse desde a infância. Considerando essa hipótese, vale dizer que é menos provável que seu espírito, desdobrado do corpo que dorme, vá até estas fantasmagorias do que a seu espírito sejam sugeridas estas imagens, como em um transe hipnótico. 

Todavia, acho que há algo mais profundo e essencial nessa experiência: ela é sensível para o desmoronamento do sentido do mundo. Dia desses compartilhei um breve diálogo com meu amigo astrônomo. Por Deus, como somos nada! Como toda a aventura humana é menos do que um macaqueado para a escala cósmica! E, no ínfimo, como a morte, a putrefação faz parte do nosso chão de forma onipresente. Quantos microorganismos a se engalfinharem! 

Não precisa sair do lugar. Nosso próprio corpo é palco das maiores batalhas. Logo ali fermenta a decomposição. E a vida só é possível porque o seu contrário fervilha. 

Essa jovem mãe, portanto, sonha com uma face da realidade. O que me admira nela é, diante de monstros colossais, ela pensar no filho. O nome disso é maternidade. 

Apenas Jesus para nos proteger destes ataques, seja porque sua existência deu sentido para todo esse caos, seja porque ele venceu todo esse caos (1). Na sua sombra, nos salvamos. 

Mas, essa moça é cristã. Longe de mim questionar sua fé em Jesus. Acredito que, nela, a fé não a protege dos ataques, mas sim dá coragem para enfrentá-los. "Minha única preocupação era a segurança do meu filho."


sábado, 8 de julho de 2017

Mensagem mediúnica para uma jovem pensando em suicídio




[Esta mensagem mediúnica parece ser direcionada para uma pessoa em particular. Deve mesmo ter algumas questões que calam fundo na pessoa para quem foi dirigida. Mas, como encontro nela uma amor universal, o da amizade, o do carinho, o do cuidado, divulgo para que sirva de consolo para quem se reconhecer nesse amor. Deixo em anonimato o médium, pois é a mensagem que importa.]

Moça, 

Queria poder te mostrar as coisas que vi aqui. Então, acreditarias na grandeza de Deus. As mais simples venceriam o argumento mais elegante dos homens. Quando vemos, então, o que se esconde por trás, é como se pudéssemos contemplar um sinal do Criador.

Não queria te mostrar de forma precipitada. E sei que o mundo onde está já te cansou. Ninguém pode te tirar daí. E venho para te inspirar ânimo. O bom, é que o que há de belo aqui, nessa terra em que choras, também há. Mas, teus olhos, ocupados em chorar, não vêem. 

O tempo se faz padrasto. Os ponteiros pesam como a cruz, eu sei. Já estive em tua situação. Não vale a pena escapar da vida. O sofrimento restaura. Algumas lamas que cristalizamos na alma precisam da carne para se dissolver. 

De vez em quando tu me permites uma brecha no pensamento, e falo sobre Jesus, o quanto aqui Ele se manifesta em todo Seu esplendor. Do que tento passar chega ao teu peito: Jesus é bom. Isso é pouco! Falo Dele para ti, porque compreendemos ao atravessar o grande portal, que, neste mundo, sem Ele, somos nada. Só o Bom Pastor pode nos proteger do pior inimigo cósmico que nos ameaça: nossa sombra. 

Tu és uma amiga querida de muitas jornadas. Queria tanto te receber aqui nos braços, eu e mais outros tantos, sem que precisássemos te resgatar do precipício em que os desesperados choram. Nos esforçamos por te fazer vitoriosa. Então, findo o corpo, tua alma sairia resplandecente, esta mulher linda que você é. Todas estas verdades que parecem areia, se revelariam rocha à tua frente. E nós, sorrindo, te acolhendo.

Fica em paz, minha irmã! 
Deus é conosco. 


Um Espírito Amigo   


domingo, 4 de junho de 2017

As crises do casal na família moderna




Então foram abertos os olhos de ambos, 
e conheceram que estavam nus


É sabido que a família percorre fases. As transições sempre são críticas. Percebi que a nudez cai bem como modelo de compreensão das crises da família moderna. Aqui vai um esboço didático, obviamente sujeito às variações das singularidades. 

A primeira crise de um casal é quando se vêem nus no cotidiano. Logo após o casamento, liberto dos pais, entregues a sua forma de gerir a casa que compartilham, tem que acordar os papéis de cada um no sistema que se inicia. 

A segunda crise é quando vêm os filhos pequenos, e o casal se reconhece nu de conhecimento para criá-los, e, no começo, os pequenos tremem nus em frente do ambiente agressivo. 

A terceira crise é quando os adolescentes desnudam as imperfeições dos pais. Descobrem que eles não são aquela autoridade toda que se tinha em mente quando criança. E os próprios pais, caindo em si, nus, questionam-se sobre a própria autoridade. Revêem radicalmente a forma de serem pais para os filhos. 

A quarta crise é quando chega a hora de os filhos voarem definitivamente. Criarem seu próprios ninhos. O mercado de trabalho cobra a presença, mas por vezes não dá oportunidade. As paixões cobram amores, por vezes cobram demais. Estariam os filhos com roupa suficiente para enfrentar o frio lá fora? O mundo é enorme, maior do que a casa. Os pais estão despidos do poder de fazer curvar o mundo aos pés dos filhos.

A quinta crise é quando todos os filhos saem de casa, os pais voltam a ficar nus no cotidiano. Toda uma consciência do envelhecimento corporal de repente assoma-se ao indivíduo. São os mesmos corpos nus do começo da história, à época, gozando de uma jovem beleza imortal, mas agora revelados na própria historicidade, desnudos sob o lençol do tempo.  

A sexta crise é quando a vida de um dos dois se desnuda por completo. O Espírito se despe. Quando se conseguiu percorrer todas estas fases até aqui, é a saudade que imita, com a leveza porosa da velhice, aquela ansiedade que se tem enquanto o amor se despia à sua frente no quarto jovem. Ansiedade que prenuncia o desnudamento final de quem ficou. 

- Eu espero o momento em que minha roupa se gaste, enfim, para me entregar de novo a ti. - fala do lado de cá. 
- Eu aguardo ansiosamente o último botão ceder. - responde do lado de lá. 

É assim que, às vezes, a morte não os separa. 

sábado, 3 de junho de 2017

O significado da tragédia para o Espiritismo



A maior parte da literatura erudita se curva para a tragédia. Raro é o romance ou a peça que promova um movimento tão grande de afetos na alma humana que não se valha de elementos trágicos. A comicidade, como irmã menor no mundo da estética, movimenta os humores do homem, mas não desce tão fundo (1). Como podemos conservar o estatuto da grandeza trágica, mantendo o otimismo espírita-cristão?

Alguns esclarecimentos preliminares. A tragédia não é a maldade, mas o irreconciliável. Não é a perdição ou a danação, mas a impossibilidade de salvação (2). Não porque o homem não mereça - pode até não merecer - mas antes disso, ele não foi feito para durar. Nada foi. Nada será a não ser Deus. Mesmo o Espírito, que até para mundividência da antiguidade clássica pode ser encarado como imortal, não dura, pois muda. E a mudança é a identidade do efêmero. 

Se por um lado isso pode dar uma brisa de alento, saber que qualquer sofrimento passa, em verdade aterroriza bem mais, porque junto com o que passa vai a identidade atual de tudo o que nos cerca, inclusive nós mesmos, nosso caro eu. A morte é trágica e sempre fecha o livro que vimos escrevendo (3)

As forças que geram e movimentam as histórias trágicas se originam do sobre-humano. Quando falamos que deuses, ou Deus, está por trás dessa ou daquela ação, é apenas a uma questão que nos referimos: o homem não a controla, não a pode controlar.

Por vezes a causa da força trágica está mesmo em uma instância superior a dos deuses, o que deu motivo para falar em destino. A mitologia grega enxergava deusas, ainda mais superioras, que teciam as histórias das gentes e dos deuses menores. Elas são cegas e cheias de artrose nas mãos que tecem. Na tradição cristã, os desígnios impenetráveis ou estão na razão de Deus, que não é menos impenetrável para o homem, ou estão na própria Razão de tudo, a que Deus (blasfêmia spinozista) se submete (4)

Jó é a tragédia judaica por excelência. Deus deixa Satanás esvaziar Jó até a última gota da humanidade deste. Aqueles que enxergam o messianismo judaico-cristão sempre como o concessor de vitórias neste mundo perdem o exemplo de todas as tragédias pelas quais passaram os heróis do antigo e do novo testamento. Jesus no topo delas (5)

A tragédia grega não é a inimiga das histórias de redenção cristã. Pelo contrário, ela é responsável pela maior parte do enredo. Forças que se escondem na vontade de Deus, no pecado dos pais e, no caso do Espiritismo, no passado do Espírito reencarnante, vão empurrando o herói trágico para o fim. Repito, o fim. 

É no herói trágico que devemos focar a atenção. Este, movido por não sei que força moral, a que os gregos chamavam coragem, e os cristãos denominaram amor, uma chama que resiste no peito apesar de tudo desmoronando, consegue chegar ao final da história, ainda que apenas com a última parte de seu corpo exangue no derradeiro momento. É como se o universo que tende a aniquilar tudo, a humilhar qualquer vida, a aplainar todos os seres, não fosse suficiente para derrotar o herói, pelo menos não até que o fim se faça presente em toda sua imponência (3)

Todos os elementos da tragédia grega estão presentes na cristã. Não é verdade que os heróis cristãos são menores por se pautarem em esperanças vãs. Tanto uns quanto os outros tem uma determinação que sorvem de um universo tão sobre-humano quanto as forças que os querem esmagados. Todavia, ouso dizer, essas forças rompem o círculo das Moiras (as tecelãs de destino), penetram no impenetrável do Deus cristão, fecundam o universo mortal e, apoteose!, provocam ressurreição. É essa palavra - ressurreição - que é o topo da arte cristã. As leis da implacável termodinâmica se estilhaçam, um mundo novo se ergue no horizonte. 

Se as tragédias gregas levavam a platéia até o abismo da alma humana, provocando a tal da catarse que Aristóteles reconheceu (1;2), é a ressurreição cristã que, saltando o abismo, leva a alma humana até Deus. A catarse movimenta os humores mais podres que transformam vida em doença. A ressurreição, sublimando-os, redime a doença em vida.  De forma muito incipiente algumas tragédias gregas davam essa noção, tentando finalizar as histórias com um deus que descia de uma máquina para solucionar o emaranhado trágico (Deus ex-machina). Na história do evangelho, o herói é o deus que se fez carne, viveu a tragédia humana, e salvou o homem - após o fim. 

Quando, no Espiritismo, dizemos que todos os homens ressuscitam, pois após a morte ressurgem em um corpo imortal, é uma associação fraca com o que Jesus viveu. Sim, todos os homens são capazes de ressuscitar, mas para isso, no sentido que os evangelhos narram, devemos conseguir deixar passar em nós toda doença, traição e morte que representa a condição humana em que estamos afogados. 

Ressuscitar, sim, mas a morte, antes. 


quarta-feira, 31 de maio de 2017

Dica de dinâmica para explicar a virtude política dos gregos antigos



Continuando a explicar a civilização grega no que tange sua mentalidade e o espírito do povo, elegia como a missão de hoje entrar no mérito da polis. Como explicar a virtude política que animava o espírito grego sem ser enfadonho? Tive a ideia de uma dinâmica!

Nível 1: As pessoas se movimentariam aleatoriamente no salão e eu, munido com uma bolinha de plástico, atiraria nelas. Em quem a pessoa pegasse morreria. 

Cena 1: Um senhor tomou a mocinha que passava na sua frente e colocou-a como escudo a fim de se proteger da bolinha mortal. 

Nível 2: Se a pessoa conseguisse agarrar a bola com a mão sobreviveria.

Cena 2: Uma moça tentou pegar a bola que não era direcionada para ela a fim de salvar o companheiro que andava ao lado. 

Nível 3: Palavra de ordem: "Escolham pessoas que você gostaria de proteger. Esta é sua família. Desta família escolham um para ser herói. O herói será imune à bola. Não morrerá se for tocado por ela."

Cena 3: Cada herói tentou defender a sua família. Tínhamos, ao todo, cerca de cinco heróis. Em nenhum momento falei que não poderiam se unir. Aliás, desde o começo não mencionei que ninguém poderia se ajudar, formar alianças, engendrar estratégias. Pelo contrário, deixei bem claro: "Vocês fazem parte de uma mesma civilização, a dos gregos. Estamos em guerra e sou seu inimigo." Eu, sozinho, derrotei, ao final, toda a civilização grega, malgrado o esforço dos heróis que, separadamente, cada um a sua maneira, tentavam salvar suas famílias e apenas suas famílias. 

Uma heroína depois revelou que teve vontade de unir forças com outros heróis, mas desistiu da ideia. 

Pois bem, ninguém teve sentimento de polis. A polis era isso. Somos muitos (poli). Mas somos um (polis). Eu sou minha polis. Minha identidade está nela. O pior castigo que alguém poderia sofrer era ser expulso da polis (ostracismo). Era pior do que a morte. Ajudar a polis a crescer, seja participando das deliberações, seja cultivando sua terra e gerando filhos, era o ideal de uma vida cidadã bem sucedida. 

Essa é a chave de compreensão para o motivo de o lendário herói Odisseu ter rejeitado a sedutora proposta da imortalidade regada a amores da ninfa Calips. Pois a felicidade para ele era retornar ao seu reinado, onde envelheceria junto a Penélope, a rainha, e Telêmaco, seu filho, e morreria. Seu lugar era na polis!

Da mesma forma vamos compreender a fala de Aquiles, ao ser encontrado no mundo das sombras, onde vagam os fantasmas dos que viveram: "Não elogie a morte, Odisseu. Antes vivo, ainda que escravo." Pois estaria vivendo na polis

Por fim, Sólon, um dos sete sábios da Grécia, é questionado pelo poderoso rei Creso sobre quem seria o mais venturoso homem do mundo. Resposta improvável para Creso: "Telo de Atenas". Este era um senhor que gerou filhos e viu os netos crescerem. Já tendo a riqueza do suficiente, entrega-se a uma batalha para proteger Atenas, morre nela, e é velado com grande honra pelos seus. Qual a virtude de Telos? A vida na polis, pela polis

Foi o que quase ninguém, ao salão, teve na dinâmica. Cada um querendo se salvar, ninguém teve a virtude política de agir por todos, buscando a todos salvar, a quem fosse possível, estratégias de união em punho. Imagino que se, ao final, os heróis tivessem se postado como na figura que coloquei no começo deste texto, representando a formação de guerra dos hopilitas, soldados gregos, ninguém teria se ferido. Virtude política!

***

As reflexões que se seguiram falaram sobre o quanto de fato sentimos falta da nossa polis. O quanto nossas raízes são importantes, nos definem. O quanto, portanto, deveríamos dedicarmo-nos uns aos outros, proteger-nos. O quanto não fazer isso nos enfraquece, nos deixa pobres. 

É uma mensagem que, tranquilamente, poderíamos tirar das sabedorias judaico-cristãs, embora com fundamentos diferentes. Segundo o livro "A caminho da Luz", de Emmanuel, que estamos estudando, essa admirável concordância sobre virtudes entre diferentes povos não tem nada a surpreender, já que mostra apenas as mensagens que Jesus espalha para fazer florescer os homens na grandeza de cada civilização. O motivo da derrocada de cada povo é a invigilância para com estas virtudes. Foi o que aconteceu com a Grécia ao matar Sócrates, um dos homens mais virtuosamente políticos que já tiveram. Um assassinato que demonstrava a decrepitude da percepção sobre seus valores. 



segunda-feira, 29 de maio de 2017

Quando acontece o milagre?



Você já se sentiu submerso em um mar de forças contra as quais parecia inútil lutar? Forças que ou queriam esmagar sua cabeça ou a dos que você amava, magnanimamente superiores a qualquer um? Bem, um dos nomes delas é mundo.

Consideramos ridícula a tradição judaica-cristã por "inventar" um deus para salvar o homem. Um deus que se manifesta em imagens redutoras na matéria, mas cuja real natureza transcende qualquer noção deste mundo. 

A verdade é que qualquer pensamento que queira apontar alguma solução para a aventura humana terá de recorrer a este artifício: inventar um deus. Aqui é a causa revolucionária, ali é a ciência, mais além é a pátria, acolá é a autonomia, bem mais acolá é a mãe-terra. 

O mundo é tão vasto e tão incognoscível que temos de colocar marcos para qualquer horizonte fora de nós a fim de termos alguma noção para onde andar. Do contrário, paralisia. 

O sentimento do homem no deserto, após dias vagando, sem água, sem comida,  sem qualquer sinal de abrigo: parar e reconhecer a enormidade do mundo. Ajoelhar-se, quedar-se à areia. Submergir. Entregar-se à unidade com o solo. Parar de resistir.

É aí, quando as defesas do homem estão expostas, que o tema de Deus aparece com esplendor. Ao contrário do que imaginam os céticos, isso não demonstra as convulsões de um homem querendo viver. A verdade de Deus, Aquele que É, surge imponente quando a vida do homem já não é mais. 

"Deus está morto!", berrava Zaratustra anunciando a vida do homem. O contrário ainda é mais verdadeiro: O homem está morto, vede Deus vivo! A sarça, símbolo da sequidão, arde e não se consome, símbolo da perpétua morte que não se consuma, mas vive para sempre. 

Quando acontece o milagre, então? Quando o homem está pronto para recebê-lo? Não. Quando o homem está morto. Lázaro é o ápice do Evangelho. 

domingo, 28 de maio de 2017

Os 10 posts mais acessados do Blog



Há quatro anos eu lançava este blog sob o nome de "Por uma filosofia espírita". Espírita que sou e amante da filosofia como venho sendo, entendi que pudesse contribuir de algum modo para o engrandecimento de quem lesse.

O nome é "Por uma..." e não "A...", porque bem entendendo que o que escrevo é <<um>> tipo de pensamento. Tenho alguns propósitos particulares.

O maior deles, de onde busquei não me afastar, é tornar a coisa palpável, palatável, próxima do cotidiano das pessoas. Se exagerei em figuras de linguagem é que sempre caio na pobreza do meu verbo para expressar coisas do céu, coisas da terra que sobem ao céu, do céu que beijam a terra.

Tanto acertei em apostar no cotidiano, que aqui trago a prova. Os temas que mais foram acessados, mais palpáveis não poderiam ser: o consolo as mães e pais com crianças microcefálicas (+10.000 acessos), algumas relações levianas entre Nietzche e Espiritismo (+1000), algumas relações curiosas entre o anime Naruto e o Espiritismo (+1000). Dois outros temas me foram muito caros escrever: o do possível diálogo com um jovem pensando em suicídio, uma síntese de falas dispersas reais (+400), e um diálogo que tive com um amigo homossexual (+400). 


Dessa forma entrego a você o que nunca deixou de ser meu pensamento:

- Filosofia não é apenas um aprendizado seco de noções lógicas sobre conceitos abstratos. Ela prima por nos trazer serenidade, uma vida boa, o bom combate contras as angústias que a morte nos traz e uma maior paixão pela vida no que ela tem de apaixonante, uma maior piedade no que ela tem de miserável, uma maior vontade de mudar no que ela traz de liberdade.

"Por uma filosofia espírita" é um blog por um mundo melhor, acreditando em pessoas mais conscientes porque mais amorosas, e mais amorosas porque conscientes - do amor.

Ao final deste livretinho apresento-lhe o que venho sendo. Por ora, meus pensamentos.
Para começar a ler, acesse
 aqui.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Estudos sobre Grécia Antiga no Centro Espírita



Estamos estudando, ao Lar Espírita Chico Xavier, o livro A caminho da luz, idealizado pelo Espírito Emmanuel. Cada mês dialogamos em roda sobre um determinado povo, conduzido por alguém que tenha mais afinidade de falar sobre ele. Neste mês, fiquei com gregos e romanos. 

Buscando alguma forma de abordar os gregos sem resvalar em uma narração monótona da história, decidi tentar fazer analogias entre a mentalidade daquele povo e a nossa. 

A primeira questão é sobre a importância das histórias para a formação do imaginário das pessoas. Toquei na era das mitologias. Todos nós temos alguma história que marcou nossa vida. Não precisa ter sido contada por pai e mãe. Pode ter sido por amiguinhos da escola, do bairro, primos, contos de assombração. Nelas podemos perceber lições de moral por trás, características dos heróis, da mocinha, do bandido que devem servir de exemplo. Era mais ou menos assim nas mitologias, com mais densidade e fervorosa crença. 

A história da "Ilíada e Odisséia" era contada nas casas, nas ruas, comentadas nas mesas de bar. Servia de norte para condutas cotidianas e até mesmo, reza a lenda, serviu para apaziguar a guerra entre duas cidades-estados. O que Odisseu (Ulisses) faria no meu lugar? 

Neste nosso primeiro encontro evoquei a característica de Odisseu de ser um herói cheio de peripécias, estratégias de combate e de se esquivar do perigo (polytropos). Pude assim relacionar esse tipo de personagem com vários outros heróis conhecidos por nós em histórias que nos são familiares, como a do João Grilo (Auto da Compadecida), Zé Carioca (Walt Disney), Calabar (Chico Buarque - aliás na obra de Chico Buarque os malandros ocupam lugar especial). 

Também falei sobre o quanto o sentimento de "um por todos e todos por um" era presente entre os reis. Os troianos raptaram Helena, então era como se tivessem raptado as rainhas de cada um. Por isso foram para guerra. 

Por fim, evocamos o costume da Zenia, que era a hospitalidade sagrada com que os habitantes das mais diversas ilhas gregas recebiam os desconhecidos que nela aportavam. Não por um sentimento de caridade, estrito senso, isso seria um raciocínio cristão, mas porque, na cultura politeísta e antropomórfica, não era de se admirar que um deus pudesse se vestir de homem para colocar os mortais à prova. É o que é demonstrado na solicitude com que o ilustre desconhecido Odisseu é recebido à ilha dos Feácios. 

Análise espírita-cristã


Perceba que respeitar alguém por ele poder ser um deus é algo que esconde uma verdade. É como se a mitologia tocasse de leve em um ponto profundo da ética humana maior. Em várias culturas parecemos encontrar formas míticas de justificar a hospitalidade a um estranho. 

Entre os judeus, cada um era considerado uma Torá viva, isto é, portador de uma mensagem de Deus no coração. Aquele que se fazia peregrino no deserto, merecia ser recebido nas casas por ter percorrido uma experiência que se tornara sagrada na história hebraica. 

Sobre homens esconderem alguma divindade em si, não seria a mesma imagem que sugere Jesus ao dizer aos seus discípulos que se a caridade fosse feita aos vulneráveis, a ele é que estariam fazendo?

Numa primeira instância, onde predomina no homem mais o medo da punição, a hospitalidade (zenia) pode ficar na superfície dos gestos. Aprofundando-se a sensibilidade moral, é de se esperar que realmente ascendamos a essa mística em que vemos em todos os seres, de fato, Deus.  

domingo, 21 de maio de 2017

Genética, Neurobioquímica e Reencarnação



A primeira vez que vi a notícia que um gene poderia estar relacionado com o vício da nicotina foi um baque para meus fundamentos reencarnacionistas. Desde então, fui em busca de entender como isso seria possível, se somos hoje o que fizemos de nós ontem. 

Deixe explicar melhor minha perplexidade. A reencarnação é uma doutrina que devolve para nós, definitivamente, a responsabilidade pela nossa salvação e pela construção do Reino de Deus na Terra. Revelando que nosso corpo é aqui o que forjamos nele ontem, também nos abre a perspectiva que este artesanato pode e deve se continuar ao infinito. Quando descubro que um gene, codificador de uma proteína, protagonista de algum mecanismo comportamental, é a causa primária de algum distúrbio, retiro do Espírito a responsabilidade do ato. Não posso ser culpado pelo que não fiz livremente. E é essa a grande tentação da doutrina das causas genéticas: o desaparecimento da culpa, causa de tantos remorsos, paralisantes da alma. 

Todavia - efeito colateral - se a culpa (que é o remorso do passado) desaparece, assim também a possibilidade de auto-cura. O reino dos genes, que parecia surgir como algo libertador, revela toda a sua fatalidade. As terapias, prevê-se, funcionarão pouco. Os medicamentos são o armamentário que resta. E ainda assim, a genética pode se revelar de tal modo determinante que os circuitos cerebrais se realinham para o formato que aquela ordena. É o que acontece na depressão, cujos medicamentos tem de quando em quando sofrer novo ajuste de dose para enfrentar a reacomodação das sinapses cerebrais que rumam para o retorno ao cérebro depressivo.  

É senso comum na psiquiatria que é melhor encarar a depressão, por exemplo, como uma realidade bioquímica do que ficar culpando o indivíduo pelo seu humor. Defendo, contudo, que podemos assumir a abominação da culpa sem tirar do indivíduo a esperança de ele mesmo se livrar do mal, ainda que com a ajuda dos medicamentos. Como?

Vamos começar por enxergar como funciona a interação corpo-espírito. Por que os genes, e o fluido neurobioquímico que ele codifica, são tão decisivos? O corpo é o reflexo de todas as experiências passadas do Espírito. Ligando-se este, célula a célula com o corpo, desde o momento da concepção, os genes funcionam como fulcros canalizadores do que se tornou identidade do ser que transmigra entre vidas. Veja, identidade

Para que algo seja tido como identidade, isto é, o que define a pessoa, é que experiências marcantes ou repetidas se imiscuíram em tal magnitude em sua forma de existir que passaram a ser tidas como atributo essencial. 

A concepção espírita enxerga o Espírito apenas com uma essência: a imagem de Deus. Tudo o que convergir para ela permanecerá. Todo o resto que contrariar esta essência é passageiro e cairá. Porém, por vezes o atributo dissonante está de tal forma incrustado na identidade espiritual que segue adiante pelas vidas afora. É dessa forma que poderemos encontrar no genoma de alguém os genes para quase tudo o que ele pode manifestar nesta vida. Desde as doenças mais materiais até as mais mentais. 

Temos de encarar os medicamentos como amparos bioquímicos que anulam temporariamente e de forma parcial a força do determinismo bioquímico patológico, mas nunca desconsiderando que a vontade do Espírito é a única que pode conduzir o mesmo para a cura. A cura, então, por esse ponto de vista, é o restabelecimento da essência espiritual no caminho do aprendizado evolutivo. É a superação de atributos disfuncionais rumo a assunção de outros que aproximem a imagem da criatura ao modelo do Criador. 

Não precisa ter culpa nesse processo. Não é da nossa alçada apontar dedos. Cada um tem sua labuta particular. Ajudar uns aos outros, se com amor, ainda melhor, disse Jesus. 

sábado, 20 de maio de 2017

Sobre neuroses: de onde vêm e como sair delas



Victor Frankl, psiquiatra criador da logoterapia e análise existencial, nos esclarece o seguinte ponto sobre a causa das psicoses: 

Assim como a maré vazante não é causada pelo recife que surge, a psicose também não é causada por um trauma psíquico, um complexo ou um conflito. 1 

E isso é válido desde a infância. É o que o psiquiatra vai denunciar no que concerne a racionalizações secundárias, isto é, uma racionalização forçada. O profissional imputa a causa à um evento que, na verdade, foi apenas um desencadeante, por vezes, nem suficiente nem necessário. 

Por exemplo, quem CAUSOU a psicose de alguém? O noivo que destruiu o relacionamento de anos? Se ele não tivesse destruído a psicose não teria surgido? O desinteresse dos pais pela criança? Se eles fossem interessados como deveria ser, o adolescente não teria desenvolvido a psicose? Em muitos casos a resposta para a associação causal é "não existe essa associação na magnitude de uma causa". Fala-se, então, de fatores de risco ou desencadeantes em uma personalidade pré-mórbida. E quem originou esse terreno mórbido?  

Atônitos os terapeutas buscam respostas. Resvalam frequentemente na imputação causal indevida. Onde estaria a causa primária do sofrimento psíquico nestes casos incertos? Todos querem encontrar o evento zero na história de vida, mas a verdade é que muitas vezes encontra-se perdido na própria constituição da pessoa. Tomando a imagem do barro de que foi feito o homem, alguma parte dele estava podre. Tomando a imagem da maré vazante acima citada, o problema está na fonte do rio, não no recife do meio do caminho. 

A ciência entende que pode ser assim: uma causa constitucional. Uma mutação, um gene defeituoso gerando uma vulnerabilidade: o barro podre. Os eventos traumáticos são estopins. A logoterapia revela uma instância superior às neuroses psicogêncicas, que são as noogênicas, relacionadas ao sentido da vida, a forma como o espírito se enxerga no contexto da existência. Neste caso, todos somos mais ou menos vulneráveis a esse desequilíbrio insuperável: o que sou (segundo o que concebo aqui e agora) e o que deveria ser (segundo certo sentido cósmico que vislumbro no horizonte). Quem consegue enfrentar essa angústia e sair ileso é um iluminado, por favor divulgue as dicas!

Tanto o Espiritismo quanto a concepção bíblica entendem que a causa verdadeiramente primária de nossas doenças da alma estão anteriores a qualquer ato desta vida.  A culpa não é do barro, que é perfeito, nem da forma humana, que é perfeita também, mas são produtos da ação humana no manuseio do próprio barro na busca de se auto-modelar. Quanto mais o homem se molda, tomando por modelo os vasos quebrados (vícios de toda ordem) que encontra ao seu redor, mais se deforma. Para a Bíblia, a origem do mal está na desobediência original, o que vale dizer, na vontade do homem de ter moldado sua vontade segundo os silvos da cobra e não segundo o canto do Criador. Para o Espiritismo, de fato a responsabilidade está em nossos atos que conduzem a formação de nosso corpo por vidas sucessivas, e, no fundo, tudo guarda um parentesco com a desobediência à vontade do Pai, pois quis que fôssemos luz, e várias vezes escolhemos trevas que passaram a nublar vastas extensões do caminho adiante.  

A perspectiva espíritico-bíblica é menos pesada que a genética. Até que consigamos desenvolver uma tecnologia que modifique os genes causadores do mal, devemos nos valer das medicações, das quais vez ou outra escapam os casos graves gerando histórias de sofrimento inenarráveis, contando com o desespero da inutilidade da própria vontade sobre os determinismos orgânicos. Para a Bíblia cristã, a cura está em Jesus, o modelo redimido da humanidade, em cujo seio, entregando-se a ele, pode acontecer a salvação do homem. Para o Espiritismo, a cura está no próprio homem, todavia seguindo religiosamente as orientações do Cristo, modelo perfeito de homem. Mirando-se nEle poderemos enfim nos auto-moldar rumo à saúde espiritual. 

É necessário, todavia, e nisso concordam logoterapia, Bíblia e espiritismo, que o homem se entenda portador da capacidade de se auto-transcender, rejeitando a mentira da fatalidade, alcançando o distanciamento necessário dos seus círculos de neurose em que se vê agrilhoado, a fim de ascender para atos mais livre e sãos que o permitam se reengajar no sentido da vida.  

domingo, 14 de maio de 2017

Obsessão: como escapar



[Após exposição sobre o tema "Obsessão, o que é e como escapar"]

PREMISSA: Obsessão é a influência maligna e insistente de um Espírito, costumeiramente desencarnado, sobre uma pessoa, seus pensamentos, podendo acontecer uma gradação de domínios sobre os atos do indivíduo.

PERGUNTA DA OUVINTE: "Como identificar que uma pessoa tem obsessão e como ajudar esta pessoa?"

RESPOSTA: Há vários graus de obsessão e podemos dividi-las em três tipos especiais.

  • A obsessão simples: o indivíduo ainda tem aquela consciência de que os pensamentos sugeridos são intrusos. 
  • A obsessão de subjugação: há esse sentimento de intrusão, mas o controle sobre os atos se perde. 
  • A obsessão de fascinação: o sentimento de intrusão se perde, pois a sugestão do Espírito se imiscui em pensamentos mais íntimos, provocando como que uma subjugação hipnótica que faz com que você se torne fantoche dele sem se dar conta. 


Os sintomas mais patentes da obsessão são estes sentimentos de intrusão. Em médiuns, aparecem vozes persistentes, visões perturbadoras e repetitivas, o domínio dos motivos de fala e escrita por um só enredo. 

Antes de saber quando ajudar, é preciso saber se há necessidade de oferecer ajuda. Pois pode-se cair no problema maior da psiquiatria: estaria eu tratando uma pessoa normal? Como saber se esse comportamento não passa de uma singularidade do Espírito? Há a dica de um velho professor meu que pedia para nos atentar para os quatro Ds:

  • Dor (para si ou para os outros)
  • Disfunção (cotidiana, laboral, conjugal) 
  • Dissociação (desligamento da consciência ou assunção de outro estado de consciência reativo a evento traumático)
  • Desrealização (sentimento de estranheza em relação ao mundo)

Esses Ds são os mais icônicos. Há uma infinidade de sintomas psicopatológicos, mas que findam por evidenciar algum grau destes Ds. Todos eles denotam algum grau de sofrimento psíquico. Claro que a cultura pode exacerbar ou amenizar estes sentimentos. O preconceito contra um médium pode causar dor para a família, para o médium, deixá-lo disfuncional, fazê-lo sentir-se dissociando e desrealizando, quando os fenômenos que experiencia não passam de alterações parapsíquicas. É essa brecha que o obsessor precisa para atacá-lo, reforçando todos os sentimentos negativos que vem cultivando no coração angustiado. 

Às vezes é clara a obsessão espiritual, outras vezes pode não passar de um julgamento precipitado segundo os nossos preconceitos. Não raras vezes, aquele que quer ajudar os outros é o maior obsediado!

O maior antídoto para a obsessão é a abertura à crítica e... (merece uma pausa estratégica)... o Evangelho! Devemos nos submeter diariamente à sabedoria do Evangelho, para que ele nos critique e nos aponte os caminhos de crescimento. 

Não há como negar: nossa civilização é cristã. Cada civilização foi gerada em cima de uma sabedoria. A nossa, é a de Cristo. Há outros luminares da história. Pode-se se apegar a eles. O que não dá é sair por aí tentando ser "o gostosão", "o sabichão", "o portador da verdade original" acima desses caras "desatualizados". As falas de cristos e budas não são itens da esteira de atualização das ciências modernas, são obras-primas do divino.  

Visitei um templo budista em que os monges todas os dias acordavam para ir ao templo desatar um dos escritos de Buda e passar a manhã meditando sobre uma frase dele. Os espíritas deram por fazer isso com o Evangelho segundo o Espiritismo, e, em família, implementar o culto do Evangelho no Lar, momento singular de meditação grupal. 

Quer ajudar? Primeiro veja, diariamente, se não é você que está precisando de ajuda. Permita que Jesus lave seus pés. Fortaleça-se com o estudo contínuo. Encha seus conhecimentos com práticas de caridade, para que, quando as palavras de conselho e consolo saiam de sua boca, venham recheadas de autoridade moral, sem pedantismo. 

Você tem certeza que a pessoa que você quer bem está obsediada? Escute mais do que fale a princípio. Nenhuma obsessão se instala sobre o nada, mas sim sobre uma história. Todo obsessor quer ser ouvido através de seu obsediado. Lembre que o mal é um bem se partejando com grande sofrimento. Como todo bom parteiro, mais vale estar presente, prestes, à postos como amigo, do que ativamente interferindo no processo de entendimento dos implicados. Não há vítimas e carrascos nestes processos, porém aprendizes das lições do amor.