quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Dançando com os mortos ou Vovó em mim


Um amigo dado ao estudo de muitas culturas para além da nossa se encantou pelo butoh


... é uma dança que surgiu no Japão pós-guerra e ganhou o mundo na década de 1970. Criada por Tatsumi Hijikata na década de 1950

Ela é a filha de um passado de respeito religioso aos antepassados com um presente (o pós-guerra) cheio de mortos. A técnica da dança pede para que o ator se deixe assumir por toda a morte que nos circunda. É como se cada movimento fosse guiado por um passo das sombras. 

Quando você vê a coisa acontecendo, parece de fato bem sombrio. Não era para menos, a carnificina foi incomensurável. Há um luto profundo encarnado na dança. Parece que pega nosso coração atravessando o esterno e o acocha. 

Como o princípio desta dança é universal - a vida está cercada por morte, animada uma pela outra - fiquei pensando o quanto estamos dançando no nosso cotidiano, e percebi particularmente vovó ao acordar. 

Quase todos os dias, tomo um remédio, acendo o fogo, coloco água na chaleira, preparo o filtro do café, coo o café para a garrafa. Preparo o leite do filho mais velho, e acolho o mais novo nos braços descendo com a mãe dele pelas escadas. 

Todos os dias, vovó deixava o sol entrar em casa, acendia a lareira, colocava uma pequena panela velha no fogo, e o cheiro de café inundava a casa. As tapiocas esperavam os netos à mesa, e nós, pouco tempo depois, invadíamos seu lar envolvidos pelo seu sol, pelo seu café e pelo seu abraço. 

Parem um pouco e vejam o quanto o butoh, com mais saudade ou mais luto, está em nós.



Imagem: Ono Kazuo em "Je danse la lumière". Crédits : Peter Stockhaus Filmproduktion GmbH Sunmusicfilm.com. 
Agnès IZRINE, « BUTŌ », Encyclopædia Universalis [en ligne], consulté le 04 octobre 2017. URL : http://www.universalis.fr/encyclopedie/buto/