domingo, 10 de dezembro de 2017

Apenas a revelação pode nos dar a verdade vital



E pela manhã cedo tornou para o templo, e todo o povo vinha ter com ele, e, assentando-se, os ensinava.
João 8:2
"E pela manhã cedo tornou para o templo, 
e todo o povo vinha ter com ele, 
e, assentando-se, 
os ensinava." 
(João 8:2)

Para começar, tenho que elucidar alguns pontos do título:

  • Por revelação quero dizer todo conhecimento que se manifesta fora da construção que a razão individual pode engendrar. 
  •  Por verdade vital quero dizer toda verdade que é essencial para conseguirmos viver diariamente. 
 
 A mediunidade é um exemplo de revelação, bem como o simples diálogo com alguém. Deus fala ao ser humano: diálogo e revelação. 

Cotidianamente não buscamos a verdade das coisas. Vivemos sem essa busca consciente. O que nos faz tomar as rédeas dessa busca é o estranhamento, o espanto, o assombro. Desde que mamãe me ensinou a escovar os dentes, nunca precisei parar para entender pormenorizadamente o mecanismo dessa ação, e a tenho como primeiro imperativo assim que acordo. Caso um acidente vascular venha danificar minha motricidade, se meu juízo crítico não for junto com a falha cerebral, a busca pela verdade da escovação dentária se impõe. 

Mesmo esse problema banal, o da escovação da primeira hora da manhã, se evidencia: uma verdade vital que necessita de uma revelação para ocorrer. Mamãe me revelou que a manutenção da saúde bucal passava pela escovação. Sem ela, ou qualquer contato social que tivesse me apontado esse dever, teria de ter reinventado essa arte. Aqui se apresenta uma das faces da revelação: ela poupa esforços quando se encarna na história humana.

Há, contudo, verdades vitais, de ordem cada vez mais superior, cujo alcance gradativamente escapa do sujeito isolado. São elas as de ordem ética e da beatitude. Entendendo a ordem ética a que nos permite viver em sociedade e as da ordem beatífica a que nos permite viver para Deus. Ser solidário às necessidades da civilização participa da primeira ordem e anuncia a segunda. Ser sincero e coerente com os próprios ideais, ainda que eles sejam ignorados pela sociedade, participa da segunda ordem, coroando a primeira. Saber ajoelhar-se diante do infinito e praticar as lições escondidas do amor está imerso na segunda ordem, permitindo a primeira ter sua parte nesta. Mas, como ascender ao conhecimento necessário para praticar estas duas ordens se fôssemos solitários? Impossível. 

Para termos acesso aos conhecimentos da ordem ética e da beatífica necessariamente é preciso de alheios que firam nossa consciência cotidiana, que cobrem respostas retas, que exijam posicionamentos oportunos. Estes outros são os reveladores dos desafios e, não raro, os doadores de respostas. Novamente, se fôssemos esperar sempre ter de construir as respostas apenas por nós mesmos, cada vida terminaria em projetos inacabados sem nenhum avanço global. Restaria ao maior ou menor grau de genialidade de cada um ser mais ou menos probo, mais ou menos santo que o vizinho radicalmente separado da minha aventura existencial.

Mesmo que tivéssemos vida o suficiente para tanto, para ter possibilidade de finalizar a questão da ética e da beatitude, há um limite da nossa consciência que impede a resposta final. Aqui é onde entra a metafísica. Apenas um ente que pertence ao além do lugar onde estamos é que pode nos iluminar o caminho a seguir. Sem esse estranho nada podemos fazer senão circular em torno de nossa idiotia. É o mesmo que um povo de uma ilha querer conhecer o mundo sem jamais sair dali. Trocam figurinhas do mesmo. Diante dessa limitação, há apenas dois movimentos: (1) desistir de procurar e imaginar que o futuro é construção pessoal de cada amanhecer, (2) abrir o ego para o novo que o alheio traz, não como uma possibilidade radicalmente diferente que inauguraria uma outra forma de existir na qual perderíamos tudo o que vimos sendo, mas como revelação de possibilidades ulteriores que iriam se somar aos nossos esforços na construção de um homem integral.  

As experiências de peregrinação, de rebanho, de plateia de pregadores, na segunda hipótese recebem novos ares de validade, e talvez mesmo de necessidade ontológica da condição humana. 

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Eficácia da prece



Referente a palestra dado ao dia 06 de dezembro de 2017 à Sociedade Espírita Irmãos do Caminho

É um tema difícil de ser trabalhado para mim, haja vista os grandes místicos que venho tendo acesso dizerem que é a atitude mais importante que um ser humano pode realizar a cada dia, e menos procurada, e a menos conquistada. Todavia, há algumas questões cotidianas que precisam de um pouco de esclarecimento. 

Quando uma mãe cristã pede a Deus que não deixe a chuva cair sobre a festa de sua filha, tão amorosamente preparada, essa prece é legítima ou seria uma mera expressão de um egoísmo impróprio para ser dirigido a Deus? 

Diante de Deus, me parece claro, para a concepção cristã, que importa menos a falta de horizonte com que essa mãe encara um fenômeno meteorológico de proporções regionais do que a atitude de conversa com o Pai pensando no amor pela filha. 

Os filósofos spinozistas diriam que Deus não privilegia ninguém. O que tem de acontecer acontece pela necessidade do Todo, e não para satisfazer tal ou tal ação. 

A chuva não cair sobre a festa seria apenas um fato, não uma concessão para uma prece eficaz. 

Se pensássemos assim para as doenças - que elas são necessidade - como explicar as curas milagrosas que Jesus operou nos indivíduos quando passou pela história humana? 

Muito embora nós espíritas tenhamos elaborado uma resposta que casa com a necessidade do momento de libertação daquela alma que recebeu a cura, não deixa de parecer evidente aos olhos do povo que Jesus era um deus (ou o Deus) saneando a matéria dos corpos corrompidos pelo pecado. 

A cura que Jesus provocava era uma já necessária consequência da história daquela alma ou uma graça do Mestre? Para entender os diversos ramos em que se dividiram os discípulos no tempo futuro, é preciso enxergar a profunda discrepância destes dois olhares. 

Se a cura já fizesse parte de um processo necessário, seria um fato,  não uma concessão para uma prece eficaz.

Poderíamos tentar enxergar da seguinte forma, conciliando as visões:

1. De fato temos processos que se desenrolam na natureza material e humana que são apenas consequências de um movimento cujo motivo fundamental, muitas vezes, é invisível para nossa consciência. Exemplo: a chuva, o saneamento de uma doença aguda simples. 

2. Deus, ou seu mais dileto representante, tem o poder de agilizar o processo sem interferir na harmonia do Todo. Exemplo: fazer parar a chuva, provocar uma cura. 

3. Essas atitudes que aparentemente perturbam a ordem cósmica, em verdade, provocam movimentos que reorganizam o Todo em uma conformação mais propícia para a salvação de muitos. Toda intervenção divina, embora dirigida para um filho em particular, parece ter um efeito ecológico. É como quando uma cura provoca a calma de uma família, a volta ou o reforço da fé de outros tantos, a motivação evangélica de mais alguns. 

A prece é eficaz? Sim ou não?!

Para responder de forma peremptória essa pergunta tem que se olhar não para as curas de Jesus, mas para o seu sofrimento final. 

Jesus, que parecia a encarnação da resposta de Deus frente aos clamores de Israel, não consegue livrar a si mesmo do sofrimento. Içado ao madeiro em cruz, começa a cantar baixinho o salmo dos antigos: "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?" - e desfalece.

Isto era uma prece. Não era um pedido de benesses materiais, não era um agradecimento pela concessão de qualquer benesse, nem mesmo uma adoração. Era a constatação de uma solidão, de um vazio, de uma ausência de Deus ao seu lado. Esta canção que começa nestes termos - Jesus não a cantou por inteiro - ela se aprofunda na descrição das desgraças que o cercam, mas sobe de tom profetizando que o sofrimento do justo se converterá na salvação de muitos. O salmo previa o movimento de salvação das almas mediante a ressurreição do justo ferido.

E apesar disso, Jesus morre, não sem antes perdoar os carrascos. Para, então, ressuscitar ao terceiro dia. 

Que significado tem estas imagens? Que a verdadeira prece não espera a modificação do entorno, mas a ressurreição da própria alma para que o entorno pungente não mais nos alcance. 

Se a chuva cai e a festa ensopa, dancemos na chuva. Se a doença chega aos ossos, e o coração feito cera derrete-se pelas entranhas, exultemos, o Espírito se libertará dançando em chuvas de bênçãos, acolhidos por um Pai no infinito. 

Tentar modificar a natureza ao nosso redor na busca de um paraíso terrestre é uma tarefa bem mais fácil do que provocar a santificação da vida em nós. 

A que resultado gostaríamos que a eficácia da prece fosse dirigida?

Eis o áudio da palestra:


 




 

domingo, 3 de dezembro de 2017

Pesquisas espíritas no contexto acadêmico cearense



Dei esta palestra falando sobre o que aprendi com um grupo do qual me desliguei porque a vida me forçava prioridades familiares, e também porque minha linha de estudo flutuava para outra direção. 

Contudo, para não ser tão ingrato, deixei bem claro o quanto o que  iria falar se devia à professora Ângela Linhares. Não sei se ela concordaria com esta minha sistematização de seu pensamento, até porque ela não se sente dona de um pensamento para ser sistematizado. Todavia, as conversas que tínhamos por horas na busca de me iluminar formas de pensar espiritamente a vida gerou essa busca de síntese que vocês poderão ouvir no áudio que compartilho mais adiante. 

O que aprendi?

Quando pensamos em pesquisa, estamos acostumados com estatísticas e estudos de caso-controle. Temos de provar a relação causal de um fenômeno sobre outro, ou a eficiência disso e daquilo. 

Ângela Linhares me ensinou que nada disso pode acontecer sem antes nos reconhecermos como sujeitos apaixonados, movidos por ânsias e encantamentos. Só na medida que nos situamos na própria vida, fazendo encarnar o eu-pesquisador, é que podemos passar a tentar a objetivar algum olhar. 

Os números são importantes, mas apenas como início. O grosso do que podemos captar no campo do estudo está nas falas das pessoas, cujo peso tem uma singularidade sem par. Tanto melhor se pudermos fazer com que elas vivam o que pesquisamos, participem conosco do movimento de construção de todo o castelo teórico. 

Não sei se podemos voltar a fazer ciência nos moldes da física clássica, objeto de estudo separado de um sujeito-observador inerte, depois que descobrimos na história da epistemologia como verdadeiramente podemos estudar culturas. 

Os sociólogos e os antropólogos clássicos ainda quiseram objetivar a cultura das pessoas reduzindo-as a estruturas. Mas, Allan Kardec se abriu de tal modo que deixou os próprios Espíritos guiarem seus trabalhos. É esse comportamento que buscávamos ao fazer estudos com a Ângela.  

Outra questão era não cindir a realidade. Sempre se esforçar por enxergar as coisas em sua complexidade. Era como se tivéssemos que ver espírito e matéria ocupando o mesmo espaço. Nunca dicotomizar. Sempre era isso e aquilo, nada de isso ou aquilo, isso e não aquilo. Como este isso e aquele aquilo podem dialogar e serem enxergados como parte de um mesmo todo. 

Nossos olhos tinham de estar preparados para ver o grande no pequeno. Tudo em qualquer bagatela. Por que haveria de ser diferente? Cada átomo foi criado por Deus, e nele poderia o Criador se revelar. Do átomo ao arcanjo, no mesmo átimo! Não era um exercício de enxergar o que viria depois, mas o que estava ali, agora, por inteiro. 

Essa visão, eu digo, é a dor amor. Quem disse que os apaixonados se enganam a todo momento participa do paradigma antigo. Aqui, o amor é a condição primeira e o coroamento. Começamos apaixonados pelo estudo, perdemo-nos no mar revolto da realidade, peregrinamos para o retorno do amor. O final do trabalho é uma visão redimida, serena, pacífica. Não da paz do mar morto, mas da inteireza. 

Este não é outro método que não o que Allan Kardec usou para codificar a doutrina. Um pouco mais poético depois de Chico Xavier, um pouco mais trabalhado no que tange a conscienciologia depois de Husserl. 

Poucos são os espíritas que enxergam a construção da doutrina assim. Tive o prazer de vislumbrar. Venho percorrendo estudos que vão tentando assimilar mais e melhor tudo o que vivenciei. Quem sabe um dia não lanço uma pesquisa mais robusta e madura com isso tudo.  




terça-feira, 28 de novembro de 2017

Reflexão espírita em "O Justiceiro" da Marvel



(Contém spoiler)

O Justiceiro conta a história de um fuzileiro naval, Frank Castle, que vê sua família morta em um ataque terrorista no parque. Com o tempo ele descobre que o ataque fora direcionado para ele. Como não acredita na justiça dos homens, em questão de julgamento e prisão, decide, ele mesmo, sair punindo - com morte - todos os criminosos envolvidos com a chacina. 

Ao final da primeira temporada que leva o seu nome, parceria com Netflix, Castle está sendo torturado pelo maior responsável pela morte dos seus. Quanto mais seu corpo é surrado mais ele delira vendo sua amada em pensamentos eróticos. Escapa da dor pelo prazer. 

Em Odisséia, de Homero, o épico grego que originou boa parte da mentalidade dos antigos, a grande escolha que reflete o espírito filosófico maior é a de Odisseu entre o amor da ninfa Calipso, com sua promessa de juventude eterna, e a volta para seu reino de Ítaca, onde iria, necessariamente, envelhecer e morrer ao lado da rainha Penélope e do filho Telêmaco. 

A escolha de Odisseu foi envelhecer e morrer. Ao contrário do que interpretam os românticos, não foi por causa do amor-paixão para com Penélope, mas porque é da sabedoria grega assumir o seu lugar no cosmos: o de mortal, o de senescente, o de membro de uma polis. Assim se alegra a Zeus.

Frank Castle, acariciado em sua alma pela amada já morta e vendo-a chamá-lo para se unir à ela no reino das sombras, decide por permanecer entre os vivos e terminar seu projeto de justiça. Recobra suas forças (com a ajuda de alguns artifícios da história, assim como Odisseu fora ajudado por Atenas) e devolve suas raízes para sua história de homem mortal, senescente e sedento de justiça. 

O Justiceiro é um seriado violento? Em demasia! Mas, se olharmos pelo lado simbólico das imagens, o convite heróico dessa história é o de não esmorecermos na busca da justiça (quase toda tragédia faz este convite, vide Antígona, Macbeth), o de não trairmos o movimento justo pelo qual bate o nosso coração, independente do quão sedutora seja a oferta que nos tente fazer desistir. 

Veja que o Justiceiro guarda o mesmo senso de honra e o mesmo peso de certo destino nas costas que os heróis trágicos. Se substituirmos a necessidade de matar os maus pelo imperativo de não ceder ao mal, ambas estas lutas se mostram cruentas e requerem uma força trágico-grandiloquente para vencê-las. Resistir até o fim contra o que for de maligno sempre foi a principal mensagem cristã. A ressurreição, o coroamento.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Para falar com Deus: símbolos e ritos



Venho repensando os ritos e a linguagem simbólica que se usa todo o tempo na religião. Fui criado em um racionalismo que rejeitava esses artifícios como superstição. Descubro que não são.

A única forma de falarmos sobre (ou com) a realidade é através de intermediários. A mínima realidade que nos transcenda precisa já de um intermediário (leia-se médium). Tudo, em verdade, está mais ou menos revestido por um instrumento de manifestação que possibilita a comunicação de outro, comunicação com outro. 

Nós espíritas estamos acostumados com a mediunidade que intermedeia a comunicação do Espírito desencarnado através de um corpo carnal dotado de recursos especiais. No indivíduo, o próprio Espírito manipula o corpo por intermédio do perispírito. Por fim, dialogamos por intermédio da linguagem verbal e não-verbal.

Recapitulemos as tríades:

Espírito desencarnado - médium - Espírito encarnado
Espírito - perispírito - corpo
Eu - linguagem - Outro

Da mesma forma:

Sagrado - símbolos e ritos - profano

Todos seguem mais ou menos esse padrão:

Transcendência - intermediário - Imanência.

Nas elaborações poéticas, tanto da Grécia antiga quanto dos Hebreus, entendia-se que não se poderia ver qualquer deus, ou o Deus, em seu esplendor, em sua totalidade. Qualquer manifestação divina se dava por uma imagem: um touro, por exemplo, para Zeus, a sarça ardente, para Deus.

Daí, entender, agora, que símbolos e ritos não serem mais do que a condição necessária para ultrapassarmos, ainda que na insuficiência intransponível, nossa limitação de lidar com o divino. A realidade absoluta é incomunicável ou inapreensível para nós relativos*. Daí constantemente chegarmos à esta tríade que os místicos vivenciam:

Verdade - silêncio - Sensciência

É assim que consigo entender a Santíssima Trindade:

Deus-Pai - Sua ação no mundo - Jesus.

É assim que venho sentindo Deus:

Eu de joelhos para Ele.

domingo, 22 de outubro de 2017

De quem?

"De quem é esta efígie e esta inscrição?". Assim se expressa Jesus para orientar que se dê a César o que é de César. Mas, ele deixa implícito outra pergunta: onde está a efígie e a inscrição de Deus?

Onde?

sábado, 21 de outubro de 2017

Jesus menino sobre as águas

-Venha, José, venha ver!
- O que foi, Maria? Estou um pouco ocupado. 
- É Jesus. 
- O que ele fez?
- O menino foi ao rio e está nele. 
- Por Deus! Mas, ainda não o ensinei a nadar. 
- É isso que quero que veja, homem. Venha logo!

(José se assusta. Esfrega os olhos, foca a visão, aproxima o rosto. Esfrega os olhos de novo).

- Mulher - fala em tom baixo - chame logo o menino para dentro. Peça para que não faça isso na frente de ninguém. 
- Por que, José? 
- Guarda silêncio destas coisas, Maria. É pela vida dele que peço. Vá, chame a criança.