sábado, 21 de outubro de 2017

Jesus menino sobre as águas

-Venha, José, venha ver!
- O que foi, Maria? Estou um pouco ocupado. 
- É Jesus. 
- O que ele fez?
- O menino foi ao rio e está nele. 
- Por Deus! Mas, ainda não o ensinei a nadar. 
- É isso que quero que veja, homem. Venha logo!

(José se assusta. Esfrega os olhos, foca a visão, aproxima o rosto. Esfrega os olhos de novo).

- Mulher - fala em tom baixo - chame logo o menino para dentro. Peça para que não faça isso para na frente de ninguém. 
- Por que, José? 
- Guarda silêncio destas coisas, Maria. É pela vida dele que peço. Vá, chame a criança. 

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Um abismo entre nós e vós

MAS NA BÍBLIA DIZ, contra as comunicações mediúnicas, que "há um abismo entre nós e vós" (Lc 16:26). 

- Não. Nessa parábola, o abismo está entre o lugar de consolo em que Abraão e Lázaro estão e o de tormento do homem rico. Mas, quando o rico pediu para que Lázaro orientasse os seus familiares, Abraão, muito sabiamente, disse que o que eles precisavam não era de uma mediúnica, mas do estudo das muitas mediúnicas que já haviam se canonizado entre o povo hebreu.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Quero falar com minha avó que já morreu



Uma leitora do blog me questiona se seria possível se comunicar com sua avó já falecida. Segue o diálogo:

Ela: Oi, Allan, queria tirar uma dúvida contigo. Minha avó faleceu há 8 anos. Eu era muito apegada à ela. De toda a família, a única que ainda sonha com ela sou eu. Recentemente faleceu um tio e anda tendo algumas confusões familiares sobre herança. Queria muito tentar uma comunicação com minha avó. Nem sei se seria possível. Queria saber como ela está, algo assim. Venho de uma formação bem católica e tudo isso é desconhecido para mim.


Allan: Primeiro, queria agradecer por você ter de alguma forma confiado em mim para um assunto tão pessoal.
Seguinte, imortalidade da alma é a base. Ninguém morre, né? Acho que isso você acredita. O que o catolicismo não acredita ou abomina é a possibilidade de se comunicar com o que eles chamam de almas do purgatório. Mas, o Espiritismo mostrou que toda e qualquer alma que  esteja no plano espiritual tem condições de se comunicar com os que estão "na carne" (encarnados). Basta pensar que quando morremos não mudamos em quase nada. Persistem os mesmos desejos, raivas, faltas, sonhos, saudades, etc. Então, pra sua pergunta se seria bom para sua avó se comunicar com você, pergunte se seria bom ela falar com você aqui. Se sim, seria.
Contudo, é muito importante, quando estamos do outro lado, deixar de se preocupar com as coisas daqui. Passamos a ter outras necessidades de crescimento. Todavia, nem todos conseguem se desprender. Ficam preocupados com o que foi deixado para trás e não conseguem focar nas novas tarefas.
Um conjunto de Espíritos amigos (entre eles o Anjo-da-guarda) estão ao redor da pessoa tentando lhe proporcionar uma ótima vida no plano espiritual. Não é proibido você querer se comunicar com sua avó. Talvez seus sonhos sejam ela se comunicando já com você. O que pode acontecer em uma mediúnica é: ela demorar pra se comunicar, pois não recebeu permissão ainda; se comunicar um espírito amigo dela, que pode estar querendo poupá-la, pois ela não sabe o que lhe falar para "resolver" o problema ou lhe consolar; ela se comunicar e propor nortes importantes para o que vocês estão vivendo; ela se mostrar aflita com a situação e demonstrar isso na própria comunicação. Entre outras várias possibilidades.
Me permita uma dica para um assunto tão delicado. Não espere muito de uma comunicação mediúnica em termos de ela lhe revelar uma solução para os problemas. Vá com o espírito de querer reencontrar sua avó e matar a saudade com algo mais palpável que um sonho. A mediunidade foi feita para que tenhamos fé renovada de que a vida não acaba, a pessoa não se dilui na eternidade, e o amor tem motivos de sobra para continuar existindo. Só isso*. Querer respostas para a vida presente, das preocupações da vida presente, pode ser uma grande frustração.


Ela: Aceitei bem a morte da vovó, apesar da saudade. Mas, ocorrem tantas coisas em sonhos que tenho com a vovó, que me deu vontade de ver melhor isso. Entendi tudo! O que mais queria era sentir que ela está bem, que está feliz, que recebeu meu tio lá, que ela viu meus gêmeos. Seria mais isso!
Outra dia, li uma carta mediúnica de alguém que uma amiga conhecia. O que me chamou a atenção foi o português tão rebuscado. Minha avó não falaria assim com tão pouco estudo. A comunicação seria, então, como ela fazia aqui? Um dia antes de morrer, ela me disse: "eu te amo tanto, você vai ser mais feliz do que pensa, por tudo que fez por mim!" Ela teve morte súbita no outro dia! Ou seja, não esperávamos e nem ela. Me pareceu muito um recado.

Allan: Sobre o português rebuscado, há algumas questões bem mais complexas sobre isso. Por exemplo, a mediunidade, que é o dom de ser intermediário para os desencarnados, não é algo igual para todos, existem graus. Existem aqueles médiuns que deixam passar a mensagem como se ele fosse apenas um gravador, e existem outros que misturam coisas da própria personalidade na comunicação. O médium sente a presença, às vezes chega a enxergar o Espírito, mas não permite que a mensagem seja passada com fidelidade absoluta. Nestes casos, você encontra as marcas do médium na mensagem que ele passa. É como se estivesse passando um recado de ter ouvido falar. Aí passa na linguagem dele, porém você reconhece que deve ter sido a pessoa que disse pois há informações muito particulares que ele não poderia saber.
E a respeito do recado que ela lhe deu, às vezes, perto do Espírito se libertar do corpo, ainda que este não esteja moribundo, abre-se uma lucidez não usual. É como se o peso dos sentidos da carne diminuísse, deixando acontecer um lapso de eternidade na consciência da pessoa. Daí, as profecias podem vir à tona, ainda que seja revestida de uma fala de carinho profundo. Aliás, tanto melhor quando vem assim.


Ela: Entendi. Bem interessante tudo isso! Deus existe!


Dançando com os mortos ou Vovó em mim


Um amigo dado ao estudo de muitas culturas para além da nossa se encantou pelo butoh


... é uma dança que surgiu no Japão pós-guerra e ganhou o mundo na década de 1970. Criada por Tatsumi Hijikata na década de 1950

Ela é a filha de um passado de respeito religioso aos antepassados com um presente (o pós-guerra) cheio de mortos. A técnica da dança pede para que o ator se deixe assumir por toda a morte que nos circunda. É como se cada movimento fosse guiado por um passo das sombras. 

Quando você vê a coisa acontecendo, parece de fato bem sombrio. Não era para menos, a carnificina foi incomensurável. Há um luto profundo encarnado na dança. Parece que pega nosso coração atravessando o esterno e o acocha. 

Como o princípio desta dança é universal - a vida está cercada por morte, animada uma pela outra - fiquei pensando o quanto estamos dançando no nosso cotidiano, e percebi particularmente vovó ao acordar. 

Quase todos os dias, tomo um remédio, acendo o fogo, coloco água na chaleira, preparo o filtro do café, coo o café para a garrafa. Preparo o leite do filho mais velho, e acolho o mais novo nos braços descendo com a mãe dele pelas escadas. 

Todos os dias, vovó deixava o sol entrar em casa, acendia a lareira, colocava uma pequena panela velha no fogo, e o cheiro de café inundava a casa. As tapiocas esperavam os netos à mesa, e nós, pouco tempo depois, invadíamos seu lar envolvidos pelo seu sol, pelo seu café e pelo seu abraço. 

Parem um pouco e vejam o quanto o butoh, com mais saudade ou mais luto, está em nós.


sexta-feira, 29 de setembro de 2017

A insuportável transparência dos outros



Estive pensando sobre a opacidade das pessoas depois de ter vivido uma experiência grupal hoje em que uns choraram aos outros suas dores íntimas. Foi um momento catártico que teve sua razão de existir. Mas, seria universalizável? Seria desejável absoluta e infinitamente?

Acredito que não. A bíblia nos adverte que a visão de Deus cega o homem, talvez mais do que isso, fulmina-o. A mitologia grega não dizia diferente a respeito de um deus menor que Javé como era o caso de Zeus. Menor porque Zeus não representava a onisciência e a onipotência na mesma unidade. 

Pensar em Deus se manifestando completamente a nós é pensar em a Onisciência e a Onipotência se revelando de súbito, sem máscaras, sem intermediários. Ver a Onisciência sem máscaras seria o meu saber inteligir a Onisciência. Ver a Onipotência sem máscaras seria a minha vontade se confrontar com a Onipotência. A loucura e a humilhação seriam as conseqüências imediatas no primeiro átimo de contato com qualquer átomo desta experiência. 

Não creio que fosse diferente entre os seres humanos. Se tivéssemos a oportunidade de contemplar por um instante cada indivíduo em toda a sua nudez, cada curva e cada cicatriz deveria se me apresentar com a sua história no mesmo tempo. Tudo seria revelado: o que ele foi, o que vem sendo, suas descontinuidades, projetos soltos, tudo isso em sua simples presença.

Nem nós mesmos suportaríamos esta visão no espelho. Deformidade, aberração, protuberâncias e cavidades. Tudo o que deixa o outro substancialmente diferente de mim exposto em um estalo. O mais natural seria ficar cego à tudo. O outro, assim como Deus, carrega um assombroso infinito incógnito. Deus, no perfeito. O outro, na diferença radical. 

Quando escutei, então, no círculo de desabafo que experienciei hoje, que o mundo poderia ser bem melhor se nos revelássemos mais no que temos de bom, me perguntei por que não no que temos de ruim. No mesmo caminho, por que não nos despirmos por completo? E veio, por fim, esta reflexão dantesca que ora se apresenta nesta página. 

Leibniz tinha razão em sua monadologia. A única forma que temos de chegar ao outro é através de um outro que consiga atravessar a todos, sem se ferir. Apenas o Absoluto e o Fundamento de tudo tem o poder de fazer com que nos comuniquemos em paz. Ele nos protege uns das imagens nuas vizinhas. 

O tempo, nossa condição, faz cair as roupas aos poucos, graças à Deus! Dá tempo de segurar a peça que se desmonta a fim de não ferir o próximo. Revelar nem sempre é a boa opção. Esconder é tão sábio quanto. O antídoto de tudo isso se chama tempo oportuno até o dia em que tivermos sentidos robustos o suficiente para mirar a realidade inteira face-a-face. 

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Mundo líquido segundo o Evangelho



(Reflexão engendrada por ocasião de palestra proferida ao dia 27 de setembro de 2017 acerca do tema "A coragem da fé", presente em O Evangelho Segundo o Espiritismo)

E o barco estava já no meio do mar, açoitado pelas ondas; porque o vento era contrário; Mas, à quarta vigília da noite, dirigiu-se Jesus para eles, andando por cima do mar. E os discípulos, vendo-o andando sobre o mar, assustaram-se, dizendo: É um fantasma. E gritaram com medo. Jesus, porém, lhes falou logo, dizendo: Tende bom ânimo, sou eu, não temais. E respondeu-lhe Pedro, e disse: Senhor, se és tu, manda-me ir ter contigo por cima das águas. E ele disse: Vem. E Pedro, descendo do barco, andou sobre as águas para ir ter com Jesus. Mas, sentindo o vento forte, teve medo; e, começando a ir para o fundo, clamou, dizendo: Senhor, salva-me! E logo Jesus, estendendo a mão, segurou-o, e disse-lhe: Homem de pouca fé, por que duvidaste? (Mateus 14:24-31)

 O primeiro elemento que me chama a atenção nesta passagem são as águas em meio ao vento contrário e o açoite das ondas. Andar sobre elas é ainda mais assustador do que ver um fantasma. Todavia, Pedro se atreve. 

Dizem os biólogos que o mundo nos acolhe líquido ao ventre materno e, por muito tempo, permanece líquido para nossa compreensão. 

Quando finalmente o entendemos sólido, vêm os filósofos e sociólogos, e dizem que permanece líquido. É o apeiron de Anaximandro, mas também o mundo líquido de Bauman, por motivos diferentes. O primeiro entendia que nosso gueto de existência está circundado por um sem fim de caos inapreensível, de onde tudo deve ter se originado. O segundo entende que a concepção mais ou menos rochosa da realidade que a cosmologia dos antigos e a teologia dos medievais nos davam se liquefez nestes tempos pós-modernos. As amizades e os amores não possuem mais aquela eternidade de antes, mas se desfazem com qualquer vento contrário e açoite de uma onda qualquer. 

Essa concepção é a visão da primeira metade da cena evangélica que expus. O temível mundo das águas. Mas, há algo além do vapor do mar. O que é? Jesus, seu convite e sua postura de acolhimento. 

Sabe-se que Jesus era um homem de tal encanto e magnetismo que sua presença acalmava nossos mares revoltos. De outro modo, sua mesma presença tinha o poder de provocar morte nas pessoas: do que elas vinham sendo para, então, ressuscitarem no que elas estavam destinadas a ser. Isso é o que demos para chamar, na tradição cristã, de conversão

De volta às águas, lembramos que na imagem veterotestamentária, tudo antes de ser criado por Deus era apenas água. E o Senhor pairava sobre elas.

A associação me parece clara. A cena em que Jesus paira sobre as águas reproduz solenemente o ato criador do mundo. Pedro teme e cai. O fundo das águas se mistura com sua morte iminente. Jesus toma-o pela mão e o salva, o que quer dizer uma nova criação para Pedro. Se antes ele ainda não existia em Cristo, desta vez pode se considerar batizado para a nova vida. 

Isso não impede que Pedro venha a experimentar a morte do cristão em outras passagens, particularmente quando nega o rabi. Mas, o cristão não é reconhecido pela sua perfeição, mas pelo jeito de sua caminhada, buscando pairar sobre as sólidas palavras de Cristo, ainda que em passos vacilantes. 

Ao mundo líquido de Bauman ou ao apeiron de Anaximandro, ou ainda, ao universo da termodinâmica que se derreterá em caos após toda a energia ter se dissipado em calor, sobreviverá o Espírito de cada pessoa que Deus criou. Tão logo qualquer corpo submergir nas águas primárias da criação, é a mão de Deus que resgatará o homem para continuar sua escalada em outros corpos, planetas, universos criados. 

O mundo vem precisando de Cristo sobre as águas. E enxergá-lo perto de nós com sua mão estendida, acredito ser a grande resposta do mal-estar do milênio. 




Figura: De Amédée VarinLe Christ marchant sur la mer. Disponível em http://www.culture.gouv.fr/GOUPIL/IMAGES/101_Christ_sur_eau.jpg (Gravures et eaux fortes)

terça-feira, 26 de setembro de 2017

O método do discurso demoníaco



A primeira questão que se levanta é se existe um discurso demoníaco. Sim. Ainda que não se acredite em demônio na acepção que se toma no senso comum do termo, o discurso demoníaco é algo vastamente estudado por várias tradições, particularmente a cristã.

O discurso demoníaco consiste naquele que quer lhe afastar de Deus. 

Se acreditamos que Deus não é único e que depende da religião que o enxerga, o discurso demoníaco é aquele que contradiz a forma de enxergar o seu deus. Sendo Deus único, e as religiões apenas O enxergam por diferentes ângulos, o discurso demoníaco absoluto seria o que apresenta uma mentira fundamental sobre o caminho que Deus nos prepara. 

De todo modo, há um certo método do discurso demoníaco se apresentar. Dos mais efetivos, podemos resumir em alguns passos:

1. Descrever a realidade na verdade dela, muitas vezes evidenciando uma sobriedade a que nossa visão cotidiana não está acostumada; 
2. Apontar nesta realidade as lacunas, as falhas, as faltas que de fato existem.

Essa é a etapa de sedução do ouvinte. É quando o discurso aponta o que há de verdade e que reconhecemos como tal, mas aprofundando análises que nos levam a aderir ao discurso. 

3. Tendo conseguido levar o ouvinte ao aprofundamento da análise, começar a desvirtuá-la, semeando mentiras que passam despercebidas pelo incauto;

O nível superficial da realidade é fácil de ser descrito com certa precisão por uma mente inteligente, fazendo-se facilmente compreendida pelo interlocutor. Contudo, quando se guia o outro para as profundezas de qualquer análise, as ligações entre os fatos tornam-se vaporosas, quebradiças, frágeis, e apenas alguém seduzido no discurso para comprar o que está sendo vendido. 

4. A partir destas profundezas, agigantar as falhas da realidade em que se está inserido até o ponto de fazer o ouvinte sentir-se desapegado, por desprezo, da sua vizinhança. 

Esse é o momento crucial para este discurso, pois tem como que sua presa isolada, tanto melhor se todos os fatores de proteção e os amigos que poderiam lhe devolver a sobriedade tiverem sido desacreditados. 

5. Propor, a partir de então, uma nova realidade que se apresenta como revolucionária, fazendo com que o ouvinte seja, por assim dizer, iniciado nas novidades deste mundo recém-descoberto. Cercá-lo de outras relações generosas que apaziguem o desconforto da ruptura com a sua antiga forma de ver. 

Envolvido por esta teia astuciosamente urdida, a pessoa passa a se permitir ações que fogem completamente da sua forma de ser, podendo sacrificar a própria vida. A consciência e o senso moral se anestesiam, lançando-a para um cipoal que há muito custo, com bastante intervenção externa, poderá se desvencilhar. 

É desse modo, por causa dos múltiplos discursos demoníacos que sussurram em todos os lugares, que surge a necessidade do espírito crítico e da busca escolástica de entender qual a vontade de Deus, que verdade pode haver no mundo, que tesouros primordiais se escondem na consciência, que certezas para o senso moral. Deus, verdade, consciência e senso moral são os principais alvos de qualquer discurso demoníaco. Relativizá-los é o trunfo.