domingo, 19 de março de 2017

Meu corpo é um erro


 Aos trinta anos, um desvio patelar e uma má inserção do tendão da patela junto ao fêmur provoca um desgaste da cartilagem da mesma. O pé plano de sempre provocou uma curvatura nos joelhos que pioraram o desgaste. A tireóide há dez anos se mostrou insuficiente, e há dois deu pra manifestar um tumor em que a cirurgia de extração do órgão inteiro foi a melhor solução. As paratiróides poderiam ter sobrevivo incólumes à cirurgia, mas por outros tantos motivos obscuros pararam de funcionar com o trauma iatrogênico. O cálcio vem em níveis subfisiológicos, e a letargia presente, bem como os formigamentos, a hiperexcitabilidade dos neurônios e as cãibras são alguns sintomas tristes desse mal. 

Sem nunca ter fumado nem tocado em álcool, apresentando apenas uma obesidade pouca que esteve ausente de mim apenas na adolescência, e um mau sono em dias de plantões ruins nos últimos cinco anos, não mais que duas vezes ao mês, não entendo que tenha, assim, acumulado hábitos nocivos o suficiente para justificar todos esses agravos, quando outras pessoas mergulham bem mais em vidas desregradas e seguem ilesas. 

A primeira explicação que viria em mente seria: "meu corpo é um erro". Que recentemente ouvi, de forma diferente, de um rapaz em depressão: "sou um erro".

Essa forma de ver é perfeitamente endossada pela teoria da evolução abraçada pela ciência dominante. O meu corpo é a seleção casual de um conjunto de virtudes que, junto com à proteção social, me permitiram chegar até aqui, porém, também não o é menos, um conjunto de erros acumulados, ou de defeitos que escaparam da seleção natural dos mais aptos, na mesma lógica aleatória. 

O que o Espiritismo nos diz não é bem assim. Há Providência em todas as coisas. Toda e qualquer matéria só recebe um influxo de progresso porque há uma realidade espiritual subjacente que a movimenta. O espírito movimenta a matéria, tanto no plano cotidiano quanto no planejamento cósmico. As virtudes e os defeitos dessa caminhada se dá pela própria natureza do sujeito do movimento. Não é Deus que está provocando sua perfeição na matéria, mas um espírito em aprendizado. A matéria não é nada mais do que o conjunto de realizações deste espírito ou dos espíritos. Podemos reconhecer a excelência e a decadência de um povo pela sua arte tanto quanto podemos reconhecer a excelência e a decadência de um Espírito pelo seu corpo. 

Se a crença reencarnacionista fosse aceita pela comunidade acadêmica uma ciência muito interessante deveria emergir: a arqueologia dos corpos. Assim como, na medicina, o estudo dos sinais remete-nos ao conhecimento da doença que os esculpiu, nessa arqueologia, o estudo da morfologia de cada ser remontaria às ações que plasmaram o corpo atual desta ou daquela forma. 

A teoria reecarnacionista aponta, então, que o meu corpo não é um erro anônimo de uma natureza aleatória, mas é o acúmulo de erros (e também de acertos!) do próprio Espírito que vem experimentando a matéria no correr dos milênios. É uma teoria mais apropriada que a do evolucionismo materialista porque não desconsidera o poder do protagonismo do Espírito na transformação da natureza, e nos devolve uma visão de conjunto que casa com a harmonia cósmica, sem desmerecer o criacionismo divino. Deus continua sendo o Pai criador que vela pelos seus filhos disseminados pelo universo em infinitas viagens de maturação. Ele nos criou simples e ignorantes, e a matéria, resistente, porém moldável. É moldável para permitir ser trabalhada pelo Espírito. E resistente para oferecer desafios que o façam crescer. 

Revisitando os defeitos do meu corpo, o espírito é de compreender que tudo o que está acontecendo me pertence, bem como o futuro de refazer novas possibilidades materiais mais saudáveis que esta. Isso não acontece do dia para noite, por vezes leva vidas, o que torna imperioso começar já. 

De outro modo, seguir ileso mesmo sob o império de vícios pode advir de pelo menos dois motivos: 
  1. é um Espírito que ainda não acumulou tantos desgastes em seu perispírito a fim de materializar a doença no corpo físico; 
  2. faz parte do planejamento encarnatório dele em que os mentores espirituais responsáveis por este processo entendem que conferir-lhe fatores de proteção adicionais pode ser mais proveitoso ao seu aprendizado do que o deixar colhendo as conseqüências cruas de seus atos.  

Para bem entender o Espiritismo basta que se tenha em mente que o aprendizado a fim de permitir a evolução do Espírito é o primordial.