sábado, 20 de janeiro de 2018

Psiquiatria e Espiritismo



Fui convidado para falar sobre esse tema. Decidi partir das minhas experiências pessoais de encontro com a psiquiatria. 

Antes disso é preciso deixar explícito o que acho que devemos ter em mente ao tentar o diálogo com estes assuntos. 


  1.  Não julgar; 
  2.  Amparar sempre;
  3.  Não querer ser o salvador das pessoas; 
  4.  Respeitar o momento de cura de cada um; 
  5.  Os remédios são importantes, mas não suficientes; 
  6.  A cultura influencia, mas não devemos culpá-la de todo; 
  7.  Somos seres imortais e responsáveis pelos nossos movimentos de cura e adoecimento
  8.  Uma vida não basta para pensarmos sobre estas questões;
  9.  Jesus está bem ali para o milagre, mas espera nosso despertar.

Dito isto, minha fala se constrói em torno de três momentos, que são minhas próprias aproximações com os transtornos psíquicos. 

No primeiro narro as imagens que guardo de certo homem com retardo mental motivo de chacota e insultos das crianças da cidade pequena onde me criei. Dele surgiram minhas dúvidas sobre "como é possível doenças da mente que nascem com as pessoas?". A reencarnação me ajudou a formular repostas. Essa aproximação teve um caráter apenas intelectual, e distante.  

A segunda aproximação refere-se ao meu encontro com certa menina que foi do meu círculo de colegas na escola e que, então, estava devastada pelo sofrimento psíquico, internada em um hospital. Pela proximidade e semelhança, ela me fez pensar que poderia ser eu em seu lugar. A pergunta que nasce então é "o que aconteceu para que não fosse?". A reencarnação surge ajudando a explicar a questão em termos espirituais, mas também expliquei as companhias que podemos trazer de outras vidas, vingadores de outrora. Não que eu tenha um passado ilibado ou isento de desafetos, mas aparentemente meus desvios não incidiram no império da mente, não mais, não por ora. Essa aproximação teve um caráter um pouco mais emocional, tocou algo de mim, mas ainda não o que me é central. 

A terceira é quando definitivamente o transtorno psíquico me bate à porta, tomando pessoas que amo de assalto. Assim, passo a testemunhar a luta, a angústia, o desespero de quem vive com as doenças contra as quais os psiquiatras se esforçam. Ainda mais quando os remédios são vãos, e a escuta terapêutica, impotente. Essa última aproximação toca no íntimo, permitindo que eu tenha uma noção mais justa do que é o sofrimento mental. 

Essa espiral de aproximações entendo ser mais fiel do que simplesmente tentar a pureza do conceito e a adequação das palavras: do int-electo ao ínt-imo. 

Da última aproximação, conduzo a reflexão cristã de tentar fazer ressuscitar a esperança apesar de qualquer escuridão, já que esse foi o caminho do próprio Cristo. Talvez essa seja, na verdade, a condição humana de aquisição de sabedoria, ou do Reino dos Céus. Ninguém que almeje a cura, que é outro modo de dizer a salvação da alma, pode se eximir de enfrentar seus próprios abismos. 


   

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

As palavras de Jesus: nosso critério de verdade


"Singulares parecem algumas palavras de Jesus, por contrastarem com a sua bondade e a sua inalterável benevolência para com todos. Os incrédulos não deixaram de tirar daí uma arma, pretendendo que Ele se contradizia. Fato, porém, irrecusável é que sua doutrina tem por base principal, por pedra angular, a lei de amor e de caridade. Ora, não é possível que Ele destruísse de um lado o que do outro estabelecia, donde esta consequência rigorosa: se certas proposições suas se acham em contradição com aquele princípio básico, é que as palavras que se lhe atribuem foram ou mal reproduzidas, ou mal compreendidas, ou não são suas." (Allan kardec: Evangelho s. Espiritismo, cap. 14, item 6)

Na postagem passada mostrei como Kardec em A Gênese reveste o Espiritismo de um caráter muito dinâmico. A princípio pensaríamos que ele, então, seria isento de âncoras, flutuando no espaço das verdades, leviano, escolhendo a que mais brilhasse. Não é bem assim. 

Mesmo a ciência moderna não pode se dizer completamente isenta de fundamentos metafísicos que possibilitem sua forma de existir. Ela tem como pano de fundo que a realidade é cognoscível e que o homem possui estruturas mentais para conhecê-la. 

O Espiritismo, além do mesmo pressuposto da ciência moderna, apresenta um fundamento que Kardec deixa claro nesse excerto: Jesus diz a verdade e não se contradiz. O Evangelho segundo o Espiritismo todo é fundado nessa premissa, e o resto do Espiritismo por consequência. 

De fato, não poderia sermos uma doutrina consoladora se tivéssemos deixado a fé das pessoas à deriva nas descobertas científicas. O tempo mostrou o quanto a ciência moderna é volúvel. Hoje anatematiza o que amanhã idolatrará. 

O método rigoroso, o crivo racional, a seleção criteriosa das comunicações mediúnicas, tudo o que Kardec usou, pretendendo-se científico, acabou não sendo o carro-chefe do Espiritismo, mas Jesus. Foi o Cristo que tornou sólida nossa perspectiva. Todo o movimento de Kardec foi para deixar, novamente, o ressurgido do Calvário palpável para os homens. 

O Espiritismo se tornou, assim, nossa eucaristia. Abriram-se as lápides não apenas do túmulo de Jesus mas de toda a humanidade, revelando nossa imortalidade, apesar das chagas. Não apenas o corpo de Jesus se mostrava redivivo, mas os de todos os entes que amamos, com quem compartilhamos o pão e o vinho diários. 

Outro aspecto importante dessa perspectiva kardeciana de considerar o verbo de Jesus uma necessária verdade não-contraditória é de esta ser a definição cartesiana, por excelência, da ação de Deus no mundo. Como nos vai revelar postumamente, Kardec entendia Jesus como o médium de Deus, cuja fala, pois, estava em sintonia perfeita com o Autor de todas as coisas. 

A ciência oficial menospreza o Espiritismo, entre outras coisas, por esse deslize, por essa adesão despudorada. Mas, como diz Kardec, a ciência espírita prossegue a partir do ponto em que a materialista estaciona. 

O que significa a ausência de dogmas no Espiritismo?



"O Espiritismo, pois, estabelece como princípio absoluto somente  o que se acha evidentemente demonstrado, ou o que ressalta logicamente da observação. Entendendo-se com todos os ramos da economia social,  aos quais dá o apoio das suas próprias descobertas, assimilará sempre  todas as doutrinas progressivas, de qualquer ordem que sejam, desde que  hajam assumido o estado de  verdades práticas e abandonado o domínio da utopia, sem o que o Espiritismo se suicidaria. Deixando de ser o que é mentiria à sua origem e ao seu fim providencial. Caminhando de par com o progresso, o Espiritismo jamais será ultrapassado, porque, se novas descobertas lhe demonstrassem estar em erro acerca de um ponto qualquer, ele se modificaria nesse ponto. Se uma verdade nova se revelar, ele a aceitará." (A Gênese, cap. 1, item 55, parágrafo 2)

Considero esse excerto o mais intrigante, angustiante, assombroso de todas as obras básicas escritas por Allan Kardec. 

Quem me fez enxergá-lo assim foi minha esposa. Vinda de uma cultura católica que tinha a missa dominical como a única forma de se entrar no reino dos Céus, quando ela se encantou com o Espiritismo, achou estranho uma religião ser tão flexível a este ponto. 

Esse excerto deixa claro nosso desapego a dogmas, ritos, símbolos. O Espiritismo é o que for certo ser, o que se verificar certo. Pelo menos é o que Kardec sugere. 

Para uma religião isso é deveras problemático. Nunca uma religião se comportou assim. Não é culpa delas. Toda religião flerta com a eternidade. Seus fundadores sempre foram considerados emissários de Deus ou de algum grande deus, quando não o próprio Deus ou deus encarnado. Como sua fala poderia estar errada? A tradição primordial do Hindu, Krishna, Buda, Lao-Tsé, Moisés, Cristo, Maomé, todos tiveram suas palavras e gestos sacralizados.

Por que a missa dominical (ou a de qualquer outro dia da semana) do catolicismo é o caminho da salvação? Porque nela o adepto atualiza sua comunhão com Cristo através da eucaristia. Qualquer coisa pode mudar no mundo, mas enquanto a eucaristia estiver sendo realizada, ainda há a ligação com a eternidade, isto é, salvação. 

Nesse excerto Kardec diz que a eternidade do Espiritismo está na sua capacidade de mudar. Devemos entender que não é uma questão de tudo ser impermanência e, portanto, quem se adaptar melhor à passagem de tudo sobreviverá. Mas sim, que a verdade é revelada progressivamente. 

Kardec acreditava e defendia uma verdade última em vários outros momentos. Contudo, esclarece que ela nunca foi revelada em todo seu esplendor sob pena de cegar os homens. O que ele quer dizer, dessa forma, é que o Espiritismo deve estar disposto a caminhar com a progressão da revelação da verdade. 

O espírita assim carrega essa angústia no peito: não se apegar muito a qualquer certeza, porque ela pode passar. Todavia, ter como pano de fundo que a realidade é boa, justa, bela, que há uma Inteligência Suprema a nos governar, e que as mudanças rumam para Ela. Seria esta tríade a nossa pedra angular. 


Não é mais um dogma ou um gesto primordial que sustenta nossa fé, mas uma busca dialética.

Importa enfatizar, todavia, que Kardec nunca deixou de acreditar que Jesus era um norte seguro, cujo discurso real não deveria apresentar contradições, sendo o mestre perfeito da humanidade. A revelação progressiva da verdade, então, seria a compreensão perfeita do verbo de Jesus. Falo melhor sobre isso na próxima postagem. 

Conversando com amiga psiquiatra



Uma amiga psiquiatra, que anda rondando o Espiritismo, me disse assim: "o Evangelho segundo o Espiritismo é lindo. Gostei mais dele do que do Livro dos Espíritos. Ele traz mais esperança".


Desde a primeira vez que ela me abordou, não imaginava que ela iria mergulhar tanto. As pessoas vêm a mim, pedem dicas, passam de raspão e seguem. Mas, algumas param, leem, se encantam. O conhecimento passa por três grandes vias: o estranhamento, o encantamento e o encontro. Por elas, entendo ter passado essa moça.

Venho construindo um ambulatório de saúde mental na atenção primária, e já havia me esquecido o quanto os pacientes de lá são intrigantes. Abstração feita da ansiedade e depressão – mal do século, que nos conduzem à busca de uma escola de pensamento que dê mais alento do que apenas medicalização – as ditas alucinações de alguns pacientes nos intrigam sobremaneira, tamanha a “elaboração” e, em certos casos, a inocência. Por que medicalizar essas visões de convivência pacífica? Muito pano para manga para estranhar. Foi o que disse a ela: 

“Por mais escolas de pensamento que a psiquiatria tenha engolido, sentimos que ainda falta explicação para a estranheza dos fenômenos mergulhados nas profundezas das pessoas.” A amiga aquiesceu.

Admirei, então, que ela, tão mergulhada em ciência, tenha se encantado mais com o Evangelho Segundo Espiritismo do que com o Livro dos Espíritos. Não que o Livro dos Espíritos seja científico, mas é mais a fim da produção de saber da ciência, pois são diálogos, argumentos, contra-argumentos e comentários, do que mensagens de consolo e direcionamentos morais, como o é aquele primeiro livro.

Quando entramos no universo da psiquiatria, um véu de explicações é posto sobre nossos olhos a fim de apaziguar a angústia de ver todas aquelas personalidades desestruturadas vagando nos corredores dos ainda manicômios. Algumas pessoas se apegam ao discurso estritamente racional para elevar a visão aos píncaros cerebrais, e afastar-se do coração. Todavia, o que vejo se espalhar por aí, como dizia Chico Xavier, é uma “saudade de Jesus”. Nesta personalidade, era menos ciência e mais acolhida, mais amparo, mais nortes, mais amor.

Como que uma projeção laica do que foi aquele encontro histórico da humanidade com o que demos de denominar salvador, parece ser isso que procuramos hoje em dia: menos ciência, mais acolhida, mais amparo, mais nortes, mais amor. Não que a ciência deva inexistir. Isso nos devolveria à selvageria. Por isso o Livro dos Espíritos, o Livro dos Médiuns e, de certa forma, a Gênese. Todavia, quando Kardec ousou atrelar, indelevelmente, o Espiritismo ao Cristianismo com a sua “Imitação do Evangelho”, acrescentou entre nós o (re)encontro com o Cristo, buscando tocar o sentimento que é grande parte de nós, sem prescindir da razão, essa ponta de iceberg. A isso ele chamou de “fé raciocinada”, o que, para os detratores da religião, parece um absurdo, mas que para mim, criado nesses moldes, é uma doce razão – aquilo que adoça a razão.

Sinto que, feito meu amigo ateu, terei muito o que falar sobre essa visita mansa de minha amiga.

Demolidor e Espiritismo



Demolidor é a face heróica de um advogado nova-iorquino que, querendo fazer cumprir a lei obsessivamente, assume o papel da polícia para além da lei. O advogado, obediente à Deus sobretudo em sua profissão, assume o papel de perseguidor do crime sob a fantasia de um demônio. A história faz questão de por em evidência todo o paradoxo que é assumir estas duas funções: a de Deus e a do Diabo na mesma carne.

Da idade moderna para cá, o papel que Deus exercia de fora, sendo vigilante de nossos atos, fosse para nos premiar ou para nos castigar, foi deixando de ser transcendente, passando a ser democrático e, perto dos dias de hoje, com a tendência de ser íntimo.

Cada uma dessas “formas de Deus” se manifesta perfeitamente em uma política. Quando entendíamos Deus como absolutamente transcendente, nos dominava um rei eleito pela própria natureza que comungava com a divina. Ao termos pendido para a democracia, derrubado a bastilha, destronado o rei, Deus se encarna no povo. Dá-se início a um processo de secularização sem precedentes na história da humanidade. Ao contrário do que muitos advogam, secularizar não é matar Deus, mas interiorizá-lo de tal forma que Ele não precise existir fora de nós, a nos dar ordens como se fosse uma terceira voz. Na democracia que temos, a vigilância se dá por cada vizinho, respaldado pelas instituições que fazem cumprir as leis. Esse processo, pela lógica do movimento, tende a um Deus que habita perfeitamente o interior da cada um, sem necessidade de instituições ou vizinhança para nos disciplinar.

Neste ponto, não se precisaria de constituições, pois a lei estaria impressa no nosso próprio código genético, exteriorizada sem falhas, já que o espírito teria se harmonizado, enfim, com a Lei que rege tudo.

Demolidor é um híbrido dessas fases. Ele tanto necessita de um Deus absolutamente exterior a si que mantém contato permanente com o seu padre confessor, responsável por guiar aquele coração católico nos impasses de sua luta contra o crime. Como advogado, ele é o elemento do povo consciente da lei, o representante da instituição que trabalha para que ela seja seguida. Como Demolidor, ele também é um vigilante das regras, mas fazendo-as cumpridas para além das instituições. Ele se faz uma nova instituição de justiça, uma que parte do próprio indivíduo, elevado a categoria de herói.

Para o Espiritismo, Deus não é um ser distante da criação. Não a criou e se afastou, mas pulsa em seu íntimo, fazendo-a vicejar. Contudo, para os seres humanos, deixou uma ilusão de separação que lhes permitisse um desenvolvimento consciente.

A Lei que emana de Si, quer Ele que ela brote espontaneamente do coração de cada um. Para isso, o que menos importa é o castigo do inferno e as recompensas do céu, mas a construção do seu Reino de Justiça, Amor e Caridade, como ensinado por Jesus, dentro da consciência individual.

A sociedade perfeita – ouso elaborar o conceito dela agora – seria aquela em que cada indivíduo pudesse agir escutando a voz da própria consciência, então, burilada por “n” milhões de anos, esculpida que foi pela dor e pela alegria de cada vida por onde passou. Essa voz amansada pelo esforço próprio de crescer, enfim, coincidiria com a de Deus, aquela mesma que ressoa no âmago de tudo. Na maioria das vezes ignorada porque a ansiedade da vida nos provoca distrações demais para não conseguirmos ouvir nem mesmo a nossa própria voz.

***

P.S.: Ah! esqueci de dizer que esse advogado faz tudo isso sem enxergar um palmo à sua frente, ouvindo apenas os sons de toda essa agitação que é o mundo. Minha metáfora, portanto, com a audição não desliza nesse último parágrafo por acaso. Nem tão pouco a cegueira das coisas do mundo está por acaso estampada em um herói católico que vive a vida em busca de escutar o chamado divino de justiça.

Prece para abençoar os caminhos de uma criança em seu batizado

Senhor,

Que o Teus caminhos se cumpram nesta vida, é o que preciso desejar. E que se houver algo mais, seja a lucidez para que esta criança consiga enxergar a nobreza de cada palmo que trilhar. Afasta-a da cegueira, pois das ilusões não é possível afastar. Que o seu propósito, homem entre homens, não seja perdido da lembrança. Sempre que perdida, que seus olhos sejam sedentos da luz que alumia em toda parte conduzindo-a para a casa, que é tudo, que somos todos. Enxergar no mundo e nos homens a própria morada. E que esse amor que sobre ela já se derrama vindo dos pais, se a morte vier lhe usurpar, possa ela compreender que maior amor não há senão o de existir, e isso já é ser amado - por Ti.

(De inspiração spinozista)

As razões da fala "Ele deve pagar pelo que fez"



Estamos sempre sujeitos à traição do que esperávamos acontecer. Porque a vida não segue nossa cartilha. Mas, como o nosso eu sangra, vem a revolta. Daí podem partir dois caminhos: o perdão ou a vingança. É a esse último campo que pertence a fala “ele deve pagar pelo que fez”. 

Esse pagamento que desejamos de quem acreditamos estar em dívida conosco pode seguir basicamente dois caminhos: um ativo, em que sujamos nossas próprias mãos; um passivo, em que almejamos que os outros sujem as mãos por nós. A essa última ordem pertence nossa satisfação com o castigo que cai, a distância, sobre o nosso, assim considerado, agressor.

Se elevarmos esse desejo passivo até as últimas consequências metafísicas, é o nosso mais íntimo – e vil – consolo que Deus desça Sua pesada mão esmagando nossos inimigos. No cristianismo, é esse o mesmo Deus que acreditamos ser todo bom. Então, nossa literatura religiosa se esmera em criar cenas dantescas e imaginar (revelar?) os sofrimentos mais atrozes para os que foram contrários a nossa forma de pensar a moral sã.

Não é preciso que alguém faça algo diretamente contra nós. Basta que a pessoa tome a liberdade de se desviar do caminho que consideramos justo. Como esse caminho, seguido religiosamente, é a nossa mais nobre verdade, o sustentáculo de nossa identidade, o nosso caráter, que almejamos ser rocha, também os desviados devem ser punidos pela sua má escolha. É o que nos mantém caminhando na trilha certa.

Esse comportamento que descrevi em poucas linhas é um dos mais primitivos da consciência religiosa. Tão primitivo quanto, mas menos abstrato, é o da vingança pelas próprias mãos. Alguns dizem, com razão, que é covardia o desejo de um deus exercer a vingança por nós. Projetamos a ideia de um deus que encarna a força que gostaríamos de ter para colocar em prática nosso ódio.

Existe, contudo, outro tipo de consciência religiosa infinitamente superior a essa: não se importar com o que vai acontecer com quem nos fez mal ou praticou o mal. Acreditar mesmo que eles possam se dar bem ao final. E que outro tipo de felicidade os espera. Ou, de forma ativa, desejar-lhes o bem. Como, então, sustentar nossa vontade de virtude se os que consideramos maus, devemos vê-los com olhos felizes?

Eis a virtude inquebrantável: a que não precisa se erguer sobre o sofrimento dos maus. Ela é independente. Basta por si mesma. Não precisa do contraste para existir. Repousa em olhos de criança. É a serenidade por excelência. Um universo construído sobre esse olhar não tem inferno. Nem céu. Essa é a imagem do eu em paz consigo.