terça-feira, 30 de julho de 2013

Influência dos bons Espíritos




O objetivo da palestra era ultrapassar um pouco a imagem que temos de que influência espiritual é só uma questão de anjinho versus diabinho no ouvido. Há vários caminhos para engrandecer essa reflexão, por exemplo, esclarecendo as influências que nós, Espíritos encarnados, exercemos uns sobre os outros. Todavia, focarei nesse post o caminho de retirar o pessimismo das influências satânicas, alargar o horizonte da vida espiritual com a população invisível que compartilha espaços semelhantes do cotidiano e, por fim, deixar uma mensagem de otimismo sobre a dedicada missão de nossos (de todos nós!) anjos guardiões.  

Comecei, então, tentando destruir a ideia de Satanás na cabeça do público. Como o Espiritismo faz isso? 

Não nos valemos de um arcanjo poderoso para, com uma espada incandescente, matar o anjo decaído. Simplesmente, submetemos o Diabo às leis da natureza e o fazemos reencarnar. Em condições tais que ele não poderá ter poder na vida, devendo elevar seu Espírito com as dores da humana condição terrena e cultivando as virtudes com o suor do rosto. Para conduzir essa educação é mister pai e mãe exemplares que aceitem essa missão com sincero amor ao próprio filho e à Deus. Pronto! Nenhuma violência foi necessária, a não ser a de submeter compulsoriamente um Espírito obstinado no mal ao manto de sangue, ao arcabouço de ossos, às vestes de carne e às lágrimas de um coração que já pode ter piedade. 

A segunda parte é a descrição de um mundo repleto de habitantes para além dos nossos olhos. Seriam eles mais neutros que bons ou maus. Perambulam pelas ruas, assistem aos cinemas e aos teatros, se valem de ônibus para se transportar, porque completamente ignorantes da própria condição de imortalidade e, ainda pior, do sentido de toda essa vida errante. Visitam parentes, amigos, pessoas caras. Dialogam com elas através do pensamento. Rejeitam a ajuda de pessoas estranhas, mas cândidas, que lhes querem resgatar dessa vida alienada. Quase conseguimos enxergar todos os habitantes da Terra nessa situação. De fato, é mais ou menos assim, a morte não nos muda, só nos atrapalha por um instante, depois retomamos uma forma de viver que nos era muito peculiar. A espiritualidade nos faz enxergar o sentido das coisas, o rumo dos passos. Todavia, sem ela, sem direção. Ficamos a mercê dos atos ordinários de cada dia. 

Na terceira, tentei evidenciar nossa condição de “interexistentes”, como frisava o prof. Herculano Pires. Somos como que navegantes em um barco a deriva, ora fixando no leme e na rota do barco, ora em todo o oceano e sua beleza, no horizonte e sua imensidão, nos pássaros e sua liberdade. O barco e o leme são o corpo, a rota, essa vida, as outras coisas são tudo o mais que transcende isso aqui. Por menos médiuns que sejamos, somo mais médiuns do que imaginamos. Os momentos de ausência e fuga são a percepção da presença de tudo o que escapa aos nossos costumeiros sentidos e o mergulho em todo esse universo que nos embala para além da matéria. Não podemos nos esquecer que a carne é porosa, e isso diz tudo sobre a mediunidade de todos nós.

Temos, até agora, um mundo sem anjos perpetuamente devotados ao mal, com milhares de Espíritos nem bons nem maus ao nosso redor e um corpo esponjoso que está receptível às mais variadas influências. É nesse cenário que introduzo a teoria dos Anjos Guardiões a que Kardec dedica trinta e três itens de O Livro dos Espíritos:

“É uma doutrina, esta, dos anjos guardiães, que, pelo seu encanto e doçura, deverá converter os mais incrédulos. Não vos parece grandemente consoladora a ideia de terdes sempre junto de vós seres que vos são superiores, prontos sempre a vos aconselhar e amparar, a vos ajudar na ascensão da abrupta montanha do bem; mais sinceros e dedicados amigos do que todos os que mais intimamente se vos liguem na Terra? Eles se acham ao vosso lado por ordem de Deus. Foi Deus quem aí os colocou e, aí permanecendo por amor de Deus, desempenham bela, porém penosa missão. Sim, onde quer que estejais, estarão convosco. Nem nos cárceres, nem nos hospitais, nem nos lugares de devassidão, nem na solidão, estais separados desses amigos a quem não podeis ver, mas cujo brando influxo vossa alma sente, ao mesmo tempo que lhes ouve os ponderados conselhos.” (L.E. 495)

Há, depois, uma pergunta intrigante sobre a necessidade de se ter sempre um protetor. O Espírito responde que, quando a pessoa atinge certo nível de maturidade espiritual, a tal ponto de poder “guiar-se a si mesmo”, o “momento chega em que não mais precisa de mestre”. Acrescenta, contudo, que isso não se dá na Terra. Mas, já presenciamos um Espírito nesse estágio...

Era Jesus. Diz-nos Emmanuel que os planetas por onde esse Espírito cresceu, seus sóis já se esfacelaram no espaço. Não mais sendo possível o seu tropeço, segue senhor de si, o que significa completamente em harmonia com a Vontade do Senhor das Estrelas. Veja, portanto, que não é possível deixar de receber influência de alguém. O almejado é que essa influência seja a todo tempo ainda mais nobre, a tal ponto de chegarmos a entender Deus. Poder-se-ia dizer que se a vontade do filho é igual a Vontade do Pai, não há mais influência, senão trabalho em conjunto. Que seja! Os jogos de palavras importam menos que a beleza desse fim. 

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Desigualdades e Conflitos sociais




Com este texto inauguro uma sessão que deixará arquivados os eixos condutores de minhas palestras que aqui e acolá ouso proferir em alguns centros espíritas desta cidade.

O desafio era atualizar o público quanto ao que estava acontecendo no Brasil, numa visão espírita, óbvio. Então, me sopraram aos ouvidos a metáfora da Torre de Babel. Veja bem que considero uma metáfora e não uma realidade tal qual “A Palavra” diz.  E ela diz assim: 

“E era toda a terra de uma mesma língua e de uma mesma fala. (...) Eia, façamos tijolos e queimemo-los bem. E foi-lhes o tijolo por pedra, e o betume por cal. E disseram: Eia, edifiquemos nós uma cidade e uma torre cujo cume toque nos céus, e façamo-nos um nome, para que não sejamos espalhados pela face de toda a terra. Então, desceu o SENHOR para ver a cidade e a torre que os filhos dos homens edificavam; e o SENHOR disse: Eis que o povo é um, e todos têm a mesma língua; e isto é o que começam a fazer; e agora, não haverá restrição para tudo o que eles intentarem fazer. Eia, desçamos e confundamos ali a sua língua, para que não entenda um a língua do outro. Assim, o SENHOR os espalhou dali sobre a face de toda a terra; e cessaram de edificar a cidade.” (Gênese 11: 1-8)

Um povo que fala uma só língua. Parece ser esse povo o que descende de uma linhagem específica dos homens, a adâmica. Essa história é uma sequência que se desenrola imediatamente após a descrição de uma árvore genealógica, cujo tronco é Noé, o que sobreviveu ao dilúvio. O Espiritismo defende que a “raça adâmica” é apenas mais uma das muitas culturas que havia na Terra. A Bíblia conta a história dela, de sua miscegenação, disseminação e busca pela salvação. 

Um nome para que não sejamos espalhados pela face de toda a terra.  É a língua uma das ferramentas que nos faz reconhecer os irmãos. Se identificados sob o mesmo nome, ainda melhor. Para os hebreus, a palavra tem ainda mais significado. E, verdadeiramente, parece que na história da humanidade houve uma melhor agregação dos indivíduos após o desenvolvimento da linguagem. 

Uma torre cujo cume toque nos céus. Todo um povo unido para construir uma torre que os eleve até o céu nos faz lembrar muito o projeto humano rumo à trascendência, seja sob que aspecto ela se apresentar, isto é, Deus, céus, Reino dos Céus, perfeição. Pensar uma história que cresça rumo ao melhor, lutar por uma história que parteje um mundo mais justo, menos desigual, é trabalhar em uma torre que finde no céu. 

Até aí, tudo bem. Não há nada de mau ser um povo unificado por uma língua que se dedique a alcançar o céu através da construção coletiva de uma torre. Por que o SENHOR decidiu acabar com essa festa? Porque não haveria restrição para tudo o que eles intentarem fazer. Aqui coincide com a mitologia grega dos homens de ferro que receberam do titã Prometeu o fogo olímpico para, por exemplo, "queimar os tijolos", mas que poderia incendiar toda a Terra. Os homens com todo o poder e sem normas que os limitassem (“não haverá restrição”) tinham nas mãos a possibilidade da desordem. Zeus, em sua mitologia, espalha males e a esperança, para que os homens fiquem insaciáveis em busca da reconciliação com o cosmos. Iavé, espalha os homens, pra quê?

Em analogia com a mitologia grega, o espalhar dos homens pode ter um significado salvífico ou de sabedoria, qual seja, retomar mais adiante a construção da torre, após ter se reconciliado com os homens de toda a Terra. Ou melhor, essa é a única torre que nos levará aos céus:  aquela construída sobre a reconciliação dos irmãos. Pelo menos no Espiritismo, a reconciliação com os homens - o amor ao próximo - nos faz assumir a identidade de filhos de Deus, voltando a falar a língua única que nos torna um com o Pai. O céu é uma aquisição consciencial, a torre é a nossa história. 


  • Esclarecimentos para além da Bíblia


A história acima nos serve para encontrar um sentido muito especial para os conflitos humanos, mas sua gênese fica a desejar, pelo menos para mim que não sou especialista em texto hebraico. Cabe deixar claro o que para o Espiritismo é válido.

Os conflitos, em certa medida, vêm das desigualdades, que, por sua vez, originam-se da liberdade dos homens em querer ser maior do que os outros. 

No início, pode parecer uma luta egoísta de dominação e competição, e de fato o é. Mas, o tempo mostra que a solidariedade é mais útil que a luta entre irmãos. E tanto mais útil quanto mais universal. 

Os conflitos sempre aparecem nas grandes transições de consciência. É como a ruptura de um corpo de ideias que já não servem mais ao crescimento do Espírito. 

Embora seja duvidoso que conseguiremos retomar alguma igualdade essencial, o prêmio ao final da jornada será o mesmo para todos os vitoriosos: a felicidade eterna ao lado do Pai. Com um detalhe, o Pai quer que todos sejam vitoriosos, e trabalha constantemente para que assim seja. E será!

sábado, 20 de julho de 2013

As potestades de Deus




Alguns posts atrás esbocei uma posição política a favor de uma “teologia democrática” que se caracterizava pela manifestação de Deus “por todos os seus filhos”. Encontrava-me incendiário à época. O Brasil ainda pega fogo, mas já posso pensar com frieza. 

Em quem e em que Deus se manifesta? É a pergunta.

A rigor, em tudo e em todos. É a resposta primeira. Segue a sequência das interrogações:


  • Se Deus é todo perfeição em bondade, beleza e sabedoria, por que discrepância entre os humanos manifestantes?
- Para deixar a divindade se expressar em nós em toda a sua potência, necessário é suportarmos essa manifestação.


  • Como fazer para suportar a manifestação divina?
- Desenvolver ao máximo (até a perfeição) a bondade, a beleza e a sabedoria.

É o que Aristóteles chamava de levar a potência ao ato. Atualizar o que em nós é potência. 

Kardec era favorável a um tipo de governo muito particular: a aristocracia intelecto-moral. Críticas caem sobre ele a partir dos republicanos que vêem nessa ideologia um retorno ao absolutismo. Mas, enganam-se. Não é da ordem do sangue essa aristocracia, é da ordem do espírito. Tão pouco é por ocasião de uma escolha gratuita e, portanto, imposta a assunção do poder, é por mérito. Exerce um império natural aqueles que se elevarem intelecto-moralmente a tal ponto de fazer valer a divindade em si. 


  • O que difere da aristocracia dos dons, os chamados bem dotados?
- Todos, sem exceção, possuem dons de Deus. Não há escolhidos. Todavia, estão em potência. Depende de si a atualização desses dons. A vontade própria os desenvolve em maior ou menor velocidade. 

Acontece de o poder ser distribuído aos inaptos, de forma mais comum do que gostaríamos. É um estímulo para desenvolver suas aptidões. De modo bem diverso, os aptos exercem uma liderança tão espontânea e humilde que os povos deixam-se guiar por suas estratégias quase sem consciência. 

Ao arrastamento inconsciente dos povos nos mandatos dos inaptos dá-se o nome de alienação atrelado quase todo tempo à exploração. Uma inconsciência forçada por manipulação ideológica, por silenciamento das críticas. Ao fluxo, também inconsciente, o que nos leva a dizer também "natural", conduzido pelos aptos é o que entendo por trabalho, constantemente associado à evolução. Uma inconsciência que entra em harmonia com as aspirações mais íntimas de melhoramento da humanidade.  Aquele torna o homem um escravo, este o torna digno. Aquele, uma coisa, este, um deus. Reificação e divinização. 

Sobre nós há a condução silenciosa de um conjunto de Espíritos luminares que, em última instância, revertem qualquer mal momentâneo em bem eterno. Seremos, um dia, dessa categoria de Espíritos. Cabe a nós se aproveitar desses estágios conflituosos nos cueiros do Universo da melhor forma possível. 

sábado, 22 de junho de 2013

Política do que sinto



A luta política me dá náuseas. Tendo a me afastar dela por uma herança maldita que nos fez desacreditar do poder nos últimos decênios. Aos poucos me reaproprio do que seja lutar, do objeto da luta, do desejo.

Não sigo nenhum mestre nesse ponto. Ou sigo deles a parte que me convém. Escondo a face para não ver o punho cerrado. Mas, feito fantasmas, reaparecem repetida e insistentemente.

O início do Bhagavad Gita mostra Krishna se aproveitando da guerra, enquanto luta, para desenrolar toda uma filosofia que, com algum sacrifício, se consegue distinguir do Espiritismo. Sócrates não deixava de participar das guerras com seus compatriotas. Jesus, olho no olho dos fariseus, manchava o sábado, erguia a Torá em punho como a um cetro ao proclamar seu messianato, se sujava com o toque e as essências das pessoas de má vida, jogava ao chão as moedas falsas de vendedores da oposição.

Mas, Kardec... ajudou a educar as crianças da França, tentou dar crédito a uma medicina onde o bom pensamento dirigido ao semelhante valeria mais que pílulas industrializadas, gastou a saúde corporal dando corpo a uma doutrina esfumaçada (luminosa para mim), nebulosa (eu digo clara), um engodo de espíritos (cujas vozes deslindam os meus nós mais íntimos). Onde a política? Vivendo ao lado de Napoleão III, qualquer reunião da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas corria o perigo de ser considerada conchavo. Morreu como um cidadão comum, de derrame cerebral, em casa.

Há quem diga que Allan Kardec havia sido o mesmo Jan Huss. Onde, então, a sua desobediência civil contra o Estado totalitário que foi Roma, que era o Segundo Império Napoleônico?  Dissipou-se do espírito com as cinzas de seu antigo corpo?

Se por um lado tudo é política, como queria Aristóteles, a política não é tudo. Nenhum destes sábios que citei – Jesus no topo da minha admiração – reduziram a luta ao embate de poderes. Tanto é assim, que ninguém lembra deles pela ascensão a um trono qualquer, mas pela realeza imperecível, mais que vitalícia.

Inúmeras são as rejeições de Jesus à coroa dos romanos com quem os fariseus, de bom ou de mau grado, barganhavam. Sócrates lutava, sim, mas conseguia a façanha de abster-se de toda a guerra, estando no centro dela, para se entregar a um estado de contemplação que era a fonte de seu fazer filosófico de emancipação. Isso nos sinaliza, talvez, que deve haver uma política de verdade, com valores inabaláveis, pelos quais se possa lutar e, até mesmo, se deixar morrer. Não concordo com Krishna que se possa matar. Meus votos a Arjuna, que foi tomado de compaixão pelos irmãos da linha inimiga. Voto ainda mais em Cristo, que perdoa os acusadores e se deixa crucificar, espalhando sua mensagem feito dente-de-leão, tão logo aberta a gruta sem mais corpo que justificasse a paixão pelas terras daqui.

Essa era de globalização, isto é, da confusão entre as inúmeras terras, nos traz uma perspectiva da necessidade de uma política universal, de outro modelo de desenvolvimento, para além da esquerda ou da direita, que faça valer os direitos humanos em qualquer lugar ou tempo. Parece a paz ser uma das armas. Não parece ser a inação outra delas. O amor, sim. Mas, não sem lutar pelo ser amado. É uma paixão, que é violenta por natureza, que nos violenta a tal ponto de não nos deixar quietos enquanto não possuímos o que desejamos ardentemente, mas que não vejo sentido gerar mais dor física do que a que é causada pela existência desse amor em nós. Ela nos faz andar, marchar, ocupar a ágora e convidar ao grito e à reflexão, subir ao madeiro infame e abrir os braços (pode ser com a bandeira de seu país entre eles) aos irmãos, mas, por favor, já não mais com o sangue de Abel em nossas mãos.

- Espíritas de todo o Brasil, uni-vos! (mas antes dêem uma lida no último capítulo de A Gênese de Allan Kardec)

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Por acaso nessa atual revolução


 
 
O acaso não é a indeterminação, nem a ausência de causas. Mas, o conjunto de sequências causais que nos escapa.

Ontem vi um exército de brasileiros na Esplanada dos Ministérios bradando em uníssono os próximos passos da legítima reivindicação. Como eles faziam para ter uma única voz, deslizava completamente da minha compreensão. Mas, entendi que de um ponto tudo partiu: do café amargo da necessidade histórica misturado ao leite quente da liberdade própria.

Minha esposa ficou aflita ao imaginar as possibilidades de confronto violento aqui em nossa cidade contra os familiares que estarão nessa luta.

Peguei o livro Pão Nosso de Emmanuel, psicografado por Chico Xavier, e lancei o dedo sobre uma página qualquer:

O Senhor dá sempre


“Pois se vós, sendo maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais dará o Pai Celestial o Espírito Santo aqueles que lho pedirem?” – Jesus. (Lucas, 11:13.)

Um pai terrestre, não obstante o carinho cego com que muitas vezes envolve o coração, sempre sabe cercar o filho de dádivas proveitosas.

Por que motivo o Pai Celestial, cheio de sabedoria e amor, permaneceria surdo e imóvel perante as nossas súplicas?

O devotamento paternal do Supremo Senhor nos rodeia em toda parte. Importa, contudo, não viciarmos o entendimento.

Lembremo-nos de que a Providência Divina opera invariavelmente para o bem infinito.

Liberta a atmosfera asfixiante com os recursos da tempestade.

Defende a flor com espinhos.

Protege a plantação útil com adubos desagradáveis.

Sustenta a verdura dos vales com a dureza das rochas.

Assim também, nos círculos de lutas planetárias, acontecimentos que nos parecem desastrosos, à atividade particular, representam escoras ao nosso equilíbrio e ao nosso êxito, enquanto que fenômenos interpretados como calamidades na ordem coletiva constituem enormes benefícios públicos.

Roga, pois, ao Senhor a bênção da Luz Divina para o teu coração e para a tua inteligência, a fim de que te não percas no labirinto dos problemas; contudo, não te esqueças de que, na maioria das ocasiões, o socorro inicial do Céu nos vem ao caminho comum, através de angústias e desenganos. Aguarda, porém, confiante, a passagem dos dias. O tempo é o nosso explicador silencioso e te revelará ao coração a bondade infinita do Pai que nos restaura a saúde da alma, por intermédio do espinho da desilusão ou do amargoso elixir do sofrimento.

 

A minha direita um país convulsionante, a minha esquerda uma internet ululante, atrás de mim a mulher grávida de um menino destinado a que país, sob os meus olhos, então, a mensagem de Emmanuel teve o efeito exato de uma calma, mas nunca de um desprezo pelos irmãos que marcham.

- Defender com espinhos, proteger com adubos fétidos, sustentar com a dureza. O desastre e o equilíbrio. As calamidades e os benefícios.

Fechei a página alegremente surpreso e dedicamos o resto das nossas forças noturnas a uma prece para que tudo se passe no coração das pessoas com a pacificidade possível que se pode ter em qualquer guerra.  

terça-feira, 18 de junho de 2013

Por ocasião da atual revolução




Não posso deixar passar em branco essa onda de contestações que se espraia pelo Brasil. 
 
São, pelo menos e didaticamente três tipos de poder que temos segundo os critérios da participação humana: monárquico, oligárquico, democrático. O primeiro se funda em uma pessoa, o segundo, em um grupo seleto, o último, na vontade de todo um povo.
 
Há uma correspondência intrigante da forma de encararmos Deus em cada uma destas visões. Um deus de quem tudo depende, um outro representado por um grupo de eleitos ou, enfim, um que se manifesta por todos os seus filhos. 
 
Existem formas de se apropriar do poder divino que, também por didática, exponho em três pontos: proclamar Deus em mim, e apenas em mim, proclamar Deus nos meus, e quase a mesma coisa que “apenas em mim”, proclamar Deus em tudo, que é a explosão do eu.
 
Para que a onipotência de Deus não se manifeste juntamente com sua onipresença, isto é, para que o poder não jorre por todos os lados, imperioso é saber calar as vozes: pela ignorância, pelo medo, pelo sono.
 
Tentaram fazer isso com os Espíritos, incinerando seus manifestantes, mas: o pensamento é imortal, é incessante, é indomável. 
 
O que não se mostra, se esconde, mas não se cala: se fala por dentro da terra, por sobre os ares, por entre a carne.
 
Há um túnel que se cava de lá para cá e de cá para lá. O encontro desses buracos é o que entendo por luz.

domingo, 16 de junho de 2013

O Inimigo que Muito Ama


Vou fazer um comparativo das três formas de pensar o demônio: a mitologia grega, a teologia cristã e o ensino espírita. Essa abordagem é a mesma de Kardec. Quem quiser ter mais propriedade sobre o assunto é só consultar o livro O Céu e O Inferno.

Na mitologia grega, os demônios que conhecemos hoje, via mentalidade cristã, faziam parte dos descendentes do Caos, de Urano e de Gaia, que são os deuses originais. Desproporcionais, disformes, destruidores. Detalhe importante é que o amor Eros e a sensual Afrodite participam desse início. Bem se vê que os gregos tinham lá a perspicácia de ver o amor desejante como um promotor da desordem. As erínias eram filhas do sangue do Urano, jorrado a partir de seu sexo cortado pelo próprio filho, Cronos, sequioso de vida ao ar livre. Elas nasceram da traição e se tornaram perpétuas vigilantes contra esse tipo de pecado no seio das famílias. Criaturas terríveis, horrendas, com poderes dilacerantes.

Houve uma guerra entre os descendentes mais próximos do Caos e os filhos de Cronos, um pouco mais civilizados. Dessa guerra originou-se o Cosmos como o conhecemos hoje: hierarquizado, matematicamente organizado. A ordem era mantida pelos deuses vencedores, habitantes do Olimpo.

Havia um deus que mais se parecia com o diabo que nós conhecemos. Não era Hades, ao contrário do que muitos pensam, que cumpria bem a sua missão de reger o mundo dos mortos, independente se estes eram justos ou injustos. Mas era Dioniso, que vagava pelas cidades da Grécia com um conjunto de sedutoras mulheres, promovendo festas carnais, com tudo o que você poderia imaginar (talvez mesmo desejar!) para o corpo se excitar ao máximo, as dionisíacas. Chegava ao clímax de haver canibalismo entre os festejantes, tamanha a embriaguez que Dioniso provocava sobre as pessoas. Não é à toa. Dioniso nascera de um conflito enorme. Foi uma traição de Zeus, que engravidara uma humana. Para salvar o filho da morte de sua mãe, provocada por umas astúcia de sua esposa, arranca-o do ventre primitivo e o enterra na face interna da coxa. Dioniso é gestado muito próximo do sexo de seu Pai. E este realmente abusava do sexo, de vez em quando pulando a cerca do Olimpo para fecundar lindas mulheres mortais. O escudeiro fiel de Dioniso, o feio Pã, dará o molde para a pintura do futuro satanás.

O mais interessante é que os gregos não reservavam a Dioniso um lugar junto a Hades, embaixo da Terra, no Tártaro, onde se localizaria futuramente o Inferno cristão. Ele figurava como um dos deuses do Olimpo! Os mesmos deuses da ordem, da disciplina, da concórdia entre os mais diversos poderes. Eis a grande chave para a compreensão do pensamento grego: o equilíbrio entre os poderes. Era isso que permitia a vida. Não sacrificar o que é caótico completamente, pois isto também faz parte do universo. Ora fazemos sacrifícios a Apolo pela sua sabedoria e beleza, ora a Dioniso pela sua liberdade (libertinagem) e presteza (ainda que tenha de se valer de meios escusos para chegar ao intento, o que lhe confere a velocidade das resoluções). Dois poderes do Universo: o brilho do Sol que tudo deixa claro, a noite da Lua que esconde os atos mais sórdidos. Somos filhos do Cosmos, mas netos do Caos. 

Na próxima postagem, falarei um pouco sobre as revoluções que a mentalidade judaico-cristã promoveu sobre esse pensar. Antecipo que os mesmos dois polos de que lhe falei por último se perpetuarão. Claro! É sobre o que há em nós que estamos falando. A mudança de perspectiva é que um deles já não poderá merecer adoração, pelo contrário. E o Outro se elevará a mais alta potência, a princípio sendo a Ele dirigido o medo, isto é, o respeito temerário, o sacrifício e o sangue, e depois, o amor ágape (e não mais eros), quer dizer, a graça e o sorriso, o carinho e a boa vontade.

Peço que não se percam. A extensão desta análise é de extrema importância para a melhor compreensão do nosso posicionamento.