terça-feira, 12 de setembro de 2017

Por que escolhi um herege como padrinho de meu filho?



Antes de mais nada, também sou um herege. O caçula vai se batizar na igreja católica, conforme o tronco materno. 

Não me desagrada em nada o rito. É uma igreja que descendeu de Jesus, dirigida por uma sucessão de pedros, que ainda contribui de forma importante para a fermentação da palavra de Cristo na Terra. Só que divirjo em pontos fundamentais que me apartam totalmente dela. Meus filhos deverão se aperceber da dimensão císmica disso em torno da primeira comunhão ou na adolescência. 

Conforme a doutrina católica, o padrinho deve ser alguém que preze pela condução espiritual (católica!) do afilhado até a idade da razão. Retirando o parênteses que coloquei, o padrinho que escolhi, acredito ter ele força para fazer este tentame. 

Quando anunciei à ele minha vontade, abraçou-me com tal alegria e surpresa que quase me afoga. Estávamos nadando em alto mar. Sua admiração é que sou rodeado por amigos tão santos que ele, pecador, não poderia ser uma primeira escolha. 

Esse amigo foi um dos primeiros a me apresentar o mundo como um lugar alegre e vivo, para além de qualquer igreja. Minha visão quase católica anterior me fazia ver isto aqui como uma contínua tentação para se afastar de Deus. Atava-me aos domingos a um serviço de evangelização que tomava o dia inteiro, como que me lavasse da poluição infernal da semana. 

Portador de uma liderança tranqüila, amigos gravitam em seu redor serenos. É capaz de engatar uma conversa boa, mas também de desaparecer do mundo ao tocar seu violão, seu teclado, sua guitarra, seu baixo. Seu laconismo esporádico engana. É que ele costuma se revelar apenas para o que adora. Preocupa-se com a ética, e já se esforçou muito para ajudar os pacientes de um grande hospital destas bandas. Hoje tem mais sede de filosofia do que de medicina, mas ainda, e muito, de medicina, de poker, de futebol, de surf.  

Ele me apresentou as músicas profanas mais lindas que hoje tenho no repertório. E passou por tudo isso sem um vício químico qualquer. Seu gosto pela vida nunca foi entorpecido por qualquer substância. Sempre a quis viver sóbrio. 

Certa vez ficou bêbado por uma paixão, talvez ainda como reflexo da sua pulsão de vida. A embriaguez consumia-lhe a razão, e quase incinera sua família. Em um laivo de lucidez, esforça-se para retirar das veias o álcool do perfume que o inebriava, toma todos os amigos queridos nos braços de um barco, sua esposa e os filhos no centro de tudo, canta um hino de reconciliação, pula ao mar, pia batismal de um serafim, e ressurge das águas novo. 

Até hoje, não tive nenhum amigo que submergiu tão fundo na sua própria fragilidade e voltou. 

Não espero que o padrinho de meu filho seja santo, e sei que ainda é falível demais. Mas, por tudo que já viveu e sobreviveu, não vi pessoa melhor para compadre.