segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Carregar o pai nos braços

A experiência de carregar o corpo desfalecente do pai nos braços queima a pele do espírito. Foi assim comigo.

Era uma manhã comum, em que madruguei estranhamente junto com ele e tomei seu café amargo. Fui pegar o carro na garagem quando minha irmã chega aflita anunciando o mal estar dele. Nunca nem lhe vi chorar uma lágrima sequer, sempre ativo e buscando resolver os problemas imediatos da existência. Raramente alguma conta se atrasava. Raramente nós nos atrasávamos em uma reunião. Parecia uma viga mestra entre nós. E, naquele dia, encontrei-o pálido sobre o sofá de espera do condomínio.

Carreguei-o, sofregamente, ao pronto-socorro; atordoadamente, ao velório; melancolicamente, à sua cidade amada. Ouvi as histórias de quem, como médico, ajudou. Segui a procissão que o enterrou no cemitério do lugar. Desde, então, seu Espírito me visita aqui e ali. Estou tendo menos consciência dessas visitas na medida em que venho me tornando ele: médico, pai, sem deixar atrasar os compromissos da casa.

Mas, aqui e acolá um sonho estranho vem, a guarda baixa, e a melancolia aperta. Diz o espiritismo, essa religião dele e minha, que a melancolia é uma saudade da liberdade que o Espírito gozava antes do nascimento na carne, uma vontade de voltar à liberdade, uma esperança que retornará. É sempre, portanto, uma ausência doce que acalentamos. Desse jeito que a sinto, também é a ausência dele.

Ontem, tive a sua imagem onírica bradicárdica sobre a cama em que assistia aos jornais. Eu prescrevia em seu consultório um soro para uma criança doente. O raciocínio pesava, a mão era lenta até que recebi a notícia de que passava mal. À época de sua verdadeira morte, não sabia as fases do morrer como sei hoje. Já conto algumas tantas pessoas que assisti o atravessar. Vivi o silenciamento de cada som do corpo, e dos monitores. Parece que estes sonhos que me devolvem para aquele dia no sofá fazem-me ter consciência dos sons que se calaram, e que não sabia existirem.

Outros sons são presentes. E como disse, parecem que vão se tornando menos conscientes na medida em que vão se reencarnando, em mim. O amigo que passar um pouco do dia em minha casa me verá assobiando para os filhos, roncando na sesta, 
com o lençol nos olhos, após ter lido algo, ou ainda, deixando que os meninos batuquem na minha barriga. É ele. 

Se há algo que me faz compreender a relatividade do conhecimento humano em relação à perspectiva em que se encontra, esse algo é a experiência que tive de pai. A partir do que vivi quando criança, só posso querer ser mais, e, no muito, venho conseguindo ser cada vez mais quase igual. Que posso julgar daquele que não teve essa presença? É um esforço inaudito de construir uma forma de existir através de palavrórios das escrivaninhas de especialistas. Que posso julgar daquele que, com essa ausência, não acredita em um Pai Maior? É a não conexão com algo que nunca existiu. Pai e Deus são experiências, no finito, de encontro. E o desejo, no infinito, de reencontrá-los.