segunda-feira, 17 de julho de 2017

Por que fazer a caridade em um mundo sem sentido?



Vamos começar pensando ao contrário do que uma página espírita pensaria. A vida não faz sentido, pois o futuro é incerto. Por que fazer, então, a caridade?

Se fosse aplicar o método da confusão hiperbólica utilizado por Descartes, eu não chegaria à conclusão de que existimos porque pensamos, mas que, simplesmente, não podemos ignorar a existência do outro. Ainda mais o outro que sofre. 

A semelhança entre nós seres humanos é uma realidade devastadora para a consciência. Ela se impõe com violência. É de tal forma penetrante que nem paramos para pensar nela. Está instalada em nossa consciência como que por presença. 

Às vezes queremos nos isolar, apenas para não ter que se deparar com o olhar do próximo, e ainda assim a sua ausência faz sombra. Pode ser que os astros não nos definam. E a astrologia caiu em desuso pela nossa descrença. Mas, nunca deixamos de nos importar com o que outro pensa ao nosso respeito. 

A primeira resposta desse sistema de alteridade é nos engolir. Nascemos nele. Seja nos rejeitando ou nos acolhendo, em um mundo estamos arremessados. O segundo movimento vem da gente: a busca da socialização. Investigamos os mil sinais que nos fazem queridos ou odiados, e as mil variantes do espectro dos gostos. O terceiro, poderia ser a revolta e o isolamento, depois de experienciar a agressividade do mundo. Esse é um movimento infeliz. O outro movimento, um alegre, ainda neste terceiro estágio, é a compaixão e a caridade. O mundo é agressivo - fato. Não apenas me agride, mas aos meus semelhantes. Ver o outro em sofrimento reflete a minha possibilidade de sofrer. A finitude do outro revela a minha, a lágrima ali faz lembrar que tenho a mesma brecha. Resposta ao mundo: caridade. 

Não seria, então, uma atitude de entrega, de abdicação, mas de pura defesa. Ainda seria uma atitude egoísta. E daí?! Seria o mais certo, no sentido de necessário a ser feito. Caridade em suas muitas facetas, não apenas a esmola. Não ceder a este impulso é não ter cuidado consigo mesmo, fechar os olhos para o desmoronamento do que me ladeia. 

Em um mundo sem sentido, o outro é a única rota de fuga.