segunda-feira, 29 de junho de 2015

Não há pessoa que não mereça redenção



Crio um novo marcador: Exegese bíblica. Dedico esta discussão-esclarecimento a todas aquelas pessoas que se afastam do Espiritismo porque entendem ser ele condenável pela bíblia. Espero que se convençam de vez ou do contrário.

No meio do plantão, nos minutos de repouso, um colega evangélico me mostra uma cena de crueldade humana. Sua indignação era tamanha que fala:

- A humanidade não tem jeito! Estamos perto do fim. Jesus está voltando. 

Então, começamos um diálogo, eu em seguida:

- Não, cara. A humanidade tem jeito.
- Você não acredita que Jesus esteja voltando?
- O que ele faria a mais do que quando esteve por aqui? Àquela época já tinha poder divino e, no entanto, por respeitar o livre-arbítrio das pessoas, deixou-se crucificar. A palavra e o exemplo foram seus principais feitos. 
- Mas, agora ele retorna com todo o poder, se valendo de sua prerrogativa divina mais do que da humana, provocando o juízo final. Você não acredita que haverá um juízo final?
- Acredito que haja um juízo ao final de cada vida. Não muito em um grande e singular juízo final para todas as raças. E outra, ainda que haja, a humanidade ainda tem jeito. 
- As coisas só pioram!
- Isso é uma perspectiva. 
- É um fato!
- É uma forma de ver. Acho que não há piora efetiva. Tem-se tantos exemplos bons quanto ruins. 
- Veja o que lhe mostrei!
- Acontecia isso a rodo tempos atrás. Agora, com a globalização e a tecnologia superior dos meios de comunicação temos acesso mais rápido a isso. E atos vis chocam mais que os pequenos amores cotidianos. 

Então me jogou esse versículo: "Porque, assim como o relâmpago sai do oriente e se mostra até ao ocidente, assim será também a vinda do Filho do homem." (Mt 24:27)

Entendia que a vinda do Filho do homem feito um relâmpago seria manifestação de seu divino poder em nova manifestação histórica de Jesus que, da próxima vez, viria com força total. 

Filho do homem é uma das expressões mais enigmáticas que conheço do Evangelho. Por que Filho do homem e não Filho de Deus? Por que Filho do homem se, segundo a literalidade das escrituras, Jesus era apenas filho de mulher? Se fôssemos levar ao pé-da-letra Filho do homem, não poderíamos dar crédito algum aos poderes divinos de Jesus, pois não é, em verdade, um Filho do Deus, mas do homem. No mais, encerro com essa dúvida aqui desta passagem: 


"Em verdade vos digo que alguns há, dos que aqui estão, que não provarão a morte até que vejam vir o Filho do homem no seu reino." (Mt 16:28)

Bem, se Jesus é de fato Filho do homem, a coisa não aconteceu. Todos os apóstolos morreram e o reino do Filho do homem não apareceu, pelo menos não nessa materialidade que advoga meu amigo. Ele diz ainda que a bíblia não tem margens para interpretação. Há passagens contundentes  demais para ficar à deriva da inteligência argumentativa humana. 

Receio que não. 

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Diálogo com mães que abortaram



Certa feita, há não muito tempo, uma mãe chegou para mim sabendo da minha mística espírita. Bêbada, aparentemente alegre, fumava. Decidiu puxar assunto comigo sobre sua própria história. 

Eu havia acabado de sair da piscina do sítio em que estávamos. Era noite. Com uma simples toalha cobria o tórax para diminuir o ensopado do corpo, mas o frio ainda me gelava. E a história também era fria. A lágrima dela no meio da história era gélida, e seu coração sangrava. Ao contrário do que acontecia comigo, não havia toalha para o agasalhar. Nenhuma palavra para lhe aquecer e, para falar a verdade, guardava aquilo consigo feito uma penitência, uma tatuagem de cruz no ventre. Falava não se arrepender, porque o que tinha de acontecer havia acontecido, mas paradoxalmente buscava um consolo em um qualquer, hoje, em um espírita. 

Não pude contemporizar. De fato o Espiritismo enxerga no arrependimento um primeiro passo da reconciliação com o que for: consigo, com Deus. Mas, também entendi que aquilo não era hora de catequese conceitual. Um pouco de bom-senso conseguia perceber que o sofrimento que cultivava a impedia de prosseguir mulher mais inteira. Então, me vali da verdade espírita mais robusta que conheço: 

- Veja bem, não há sofrimento perpétuo, nem história que fica sem fechamento. Tudo volta na natureza para continuar seu ciclo de construção. Cada fenda que se abre numa rocha é prenúncio de algum nascimento. A bolota que morre um dia é para dar espaço para o carvalho gigante que será depois. 

Até, então, ela sugava o cigarro com a ansiedade de quem se desnuda para um completo estranho. Nesse momento, parou. Fixou os olhos molhados em minha face e entendi que havia tocado em algum ponto essencial. 

- Não importa o mal que tenhamos feito no passado. Não há, absolutamente, aquele que não tenha conseguido se desviar do caminho certo por muito tempo. Deus criou esse universo com infinitas direções para Ele e nenhuma vereda que nos fizesse se afastar por completo. De uma forma ou de outra você é de Deus e está indo para Ele. Que caminho é esse e quais os próximos passos, só você pode dizer. 

Um dos arrepios que senti àquela noite entendi que não representava o frio, mas o Espírito protetor dela que se aproximara. Ela me chamou de iluminado. Nestes momentos importa demais saber o conceito da física para iluminado. É aquele corpo que não tem luz própria, pois seu brilho descende de outro que é, este sim, um corpo luminoso.

Iluminados nós dois estávamos sendo ali. Definitivamente por uma luz bem maior do que aquela que se atiçava na ponta do cigarro. 

domingo, 21 de junho de 2015

Sobre a carta psicografada de Cássia Eller

Suposta carta psicografada de Cássia Eller é divulgada na web. Leia a matéria aqui


Mexer com a atividade de Correio do Além é como mexer em uma casa de maribondo. Ainda mais quando se trata de um personagem famoso. Primeiro de tudo porque o médium terá que lidar com o luto das famílias, as fortes emoções que podem advir das revelações sobre a vida após esta vida. Depois, porque o quesito da identidade de uma comunicação é recheado de sutilezas que vão muito além de deixar transparecer particularidades da relação que unia o remetente e o destinatário.

Eu mesmo já tive um momento eufórico de intensa vontade de psicografia sobre a morte de um colega de trabalho. Assaltou-me a vontade de correr à sua família e contar minhas visões. Mas, como estava envolvido emocionalmente demais com o ocorrido, busquei ajudar de outra forma que não através dessa revelação intervencionista. Tão importante quanto deixar passar, é saber calar. Eis uma lição que Chico Xavier aprendeu em seu mediunato. Por que muitos médiuns, de todas as culturas, falam por parábolas, metáforas, provérbios? Porque a revelação sem intermediação do simbólico poderia chocar as mentes mais do que esclarecer, perturbar mais do que ajudar. As parábolas tem o mérito do exercício da interpretação que, quando bem conduzida, oferece lições para além do simples recado. 

É bem melhor que as comunicações mediúnicas não sejam enquadradas no binômio verdade-falsidade, mas de verossímeis ou não. Verossímel é aquilo que guarda relação de possibilidade com a realidade, já que não podemos firmemente afirmar que seja de fato. E, se pensarmos bem, toda história, qualquer que seja ela, que não está sendo presenciada e vivida pela própria pessoa, que está apenas sendo narrada, transcrita, só pode ser analisada nos termos da verossimilhança. Se quisermos ser rigorosos, mesmo a história narrada por alguém que acabou de chegar do evento, só pode ser no máximo verossímel, já que toda narração é intensamente construída pelo narrador, com seu ponto de vista bem particular. 

A relação mediúnica SEMPRE é uma interação entre o Espírito comunicante e o Espírito do médium. A mensagem SEMPRE tem participação das duas mentes. É um ajudando a contar a história do outro. Vede, então, a reserva que tem de se ter para com "a verdade" daquilo. 

No mais, acho a carta de Cássia Eller bem verossímel. As descrições do ambiente do "inferno" muito semelhante a de vários Espíritos que já se comunicaram em situações semelhantes, embora haja essa estranha presença destes "dragões" cuja descrição já se apresentou em psicografias de Chico Xavier pelo Espírito André Luís, salvo engano, no romance Libertação, mas que não configura princípio de doutrina. A existência de insetos e anfíbios como figuras asquerosas a piorar o ambiente das zonas de sofrimento também é de levantar estranhamento, mas também estão presentes em vários outros relatos. A cena do reencontro com Cazuza não surpreende, ligados que os dois deviam ser pelas afinidades artísticas e comportamentais. E, por fim, a transmutação do discurso de Cássia Eller para um que valoriza a misericórdia divina não tem nada de anormal, já que, vemos isso constantemente, os sofrimentos atrozes, e a o véu que se rasga na consciência após a morte, tem o poder de reconduzir as pessoas para o pensamento em Deus. 

O que Kardec sempre buscava fazer era se afastar dos detalhes e buscar a essência das mensagens: 

  1. Há zonas de sofrimentos enormes, mas nunca eles são perpétuos; 
  2. O abuso do próprio corpo, e não apenas o insulto contra o vizinho, é também motivo de sofrimento; 
  3. A não existência de um lugar para onde vamos, mas onde já estamos, reflexo de nossa consciência viciada ("Com o fenômeno da morte, nós não vamos para o umbral, nós já estamos no umbral...); 
  4. O resgate chega em momento oportuno, depois que o próprio Espírito está preparado para o mesmo; 
  5. A união dos seres afins em lugares que são o reflexo do seu estado de espírito; 
  6. O esclarecimento espiritual, objetivo de todos nós que labutamos nestes círculos de luz e sombra. 

Sobre alguma particularidade que revelasse, sem sombra de dúvidas, a identidade do Espírito, não as enxerguei, mas nem conheço a intimidade de Cássia Eller tanto assim. Contudo, já não é suficientemente reconfortante saber que não há sofrimento eterno e tudo se encaminha para desfechos de grandes aprendizados em uma ascese espiritual interior?  

Aconselho a leitura desta matéria aqui também.


sábado, 20 de junho de 2015

O Amor precede a Existência



Sartre disse que o cristianismo diz: "A essência precede a existência". Fundando sua teoria de liberdade, Sartre replica: "Não. A existência precede a essência." Sem imaginar que pudesse estar me inscrevendo nessa disputa, eu disse: "O amor precede a existência". E o que essas coisas verdadeiramente significam?

A primeira nos fala que quando Deus nos criou, semeou-nos um propósito no coração. Para a consecução dessa vontade heterônima nossa existência é guiada. A segunda quer nos libertar desse fado e proclama que a nossa essência será aquilo que fizermos existir em nós, ou ainda, a forma como nossa vontade moldará nossa existência, e não estes mandamentos externos que vivem a nos ditar. 

Veja, essas duas frases geralmente tomam a perspectiva do sujeito que está em jogo, a primeira pessoa, o eu. Uma filosofia construída sobre as palavras francesas: je e moi. Para libertar o je, Sartre quer que tomemos consciência do quanto os outros - este inferno - nos fazem ser moi. Quando a sociedade, por exemplo, nos faz dizer: Eu (je) sou médico (moi). Então, é um filosofia de adolescente. Um sujeito que peleja para se construir em meio a uma sociedade que não lhe enxerga autônomo. 

Quando eu disse: "o amor precede a existência". Essa é um filosofia que fala sobre o outro, como o outro se encaixa no meu mundo. Não é a minha representação do outro na consciência, mas a radicalidade de sua diferença em mim. É o que faria com que eu saísse da prisão cartesiana do "je pense, (donc) je suis" [Eu penso, (logo) eu existo]. 

Apenas posso considerar existente aquilo que percebo no meu pensamento? Os idealistas foram longe demais e quiseram nos convencer, então, que tudo fora de nós são ideias nossas exteriorizadas. Mas, não. A experiência do amor nos faz explodir esse ensimesmamento. Os namorados sabem o quanto custa fazer durar uma relação. A todo instante colidimos com o que o outro espera de nós, e ele, com o que nós esperamos. E, para surpresa de ambos, vivemos a nos estranhar: somos radicalmente diferentes. Escapamos constantemente da ideia, da representação do outro. 

Então, quando digo "o amor precede a existência" não quero dizer que, como um deus, o meu sentimento cria a pessoa, senão que, como um ser humano, eu permito que ela aconteça em mim. Acontecer é um verbo da língua portuguesa magnífico. As pessoas o utilizam muito mal. Algo só acontece verdadeiramente se ninguém esperava que acontecesse. "Haverá uma morte..." é completamente diferente de "Acontecerá uma morte...". A primeira frase se enche de certeza, a segunda, de mistério. 

O mistério pelo o qual o outro acontece em mim, passando a existir de fato, só é possível quando eu abro as portas para ele, amorosamente. Acontece de o amor ser um acontecimento. Isso não exime de nós a responsabilidade de a partir de seu fiat lux ele ser uma construção da casa em que agora habitamos, juntos - existência. 

terça-feira, 16 de junho de 2015

Há Espíritos?




Com essa pergunta Kardec inicia O Livro dos Médiuns, e sobre ela comento um pouco junto aos queridos amigos do Centro Espírita Irmão Leite.

Tento mostrar a importância dessa pergunta como alicerce da doutrina Espírita e no contexto da revolução científica em que se estava imerso àquela época. Por cima, mostro a evolução da análise de Kardec da fenomenologia espírita e sua formação de hipóteses com a conseqüente construção das teorias que hoje abraçamos. Quase no final, cito alguns episódios bíblicos que apontam mediunidade entre os hebreus e a vivenciada por Jesus.

Ao final - eis onde quero chegar - bem ao final, eu começo a formular pela primeira vez uma teoria minha sobre COMO O AMOR FAZ COM QUE SE RECONHEÇA A EXISTÊNCIA DAS PESSOAS, E COMO O CONTRÁRIO AS TORNA VERDADEIRAMENTE INVISÍVEIS. Contudo, como era uma elaboração inédita de uma tese difícil de explicar, acho que me embaralhei um pouco, e o cérebro cansado de tanto raciocínio me traiu. 

A tese é a seguinte: independente de vivos ou mortos, seres humanos ou de diferentes espécies,  o outro só se torna um existente para mim quando eu passo a amá-lo. Só assumimos, de fato, a radical verdade de sua existência quando se ama o outro. Mil vezes minha esposa passou por mim na vida, e pouco reservei no espírito um espaço para que ela o ocupasse, mas quando passei a amá-la... não sei como hoje posso viver sem ela. Falo de minha esposa, com quem tenho um filho lindo, mas vale também para outros amores: o amigo que ontem era apenas um cabeludo qualquer. Quando amarmos verdadeiramente, por exemplo, de forma franciscana, tudo ao nosso redor importará e existirá com muito mais intensidade.

Bem, fica o começo da tese, sem tanta elaboração para ser pensada. Deixo vocês com o áudio da palestra gentil e carinhosamente escutada pelos freqüentadores do Centro Espírita Irmão Leite e, espero, por você.   



domingo, 14 de junho de 2015

Sobre a polêmica da crucificação



Uma grande população de cristãos se sentiu ofendida pelo uso da imagem da crucificação de Jesus para os fins da causa GLBT. Os protestos lograram êxito, disseminaram-se pela mídia, provocaram agitação das massas, movimentaram as opiniões de muitos, estimularam a reflexão, incitaram as agressões que deram ainda mais razão à imagem da crucificação. Sobre o que quero falar aqui é da força que essa imagem tem para a simbologia cristã hegemônica. 

Várias pessoas, inocentes aos nossos olhos de hoje, mas não aos de Roma, aos dos fariseus de ontem, autores de graves delitos ou de pecadinhos contra à Torá, contra a Lex, eram crucificados àquela época do Cristo. Mas, apenas sua crucificação, e a de seus discípulos, geraram a polêmica que fundou uma civilização. Se ele tinha tanto poder, porque não usou para se salvar daquele fim? Reza o evangelho que a vontade do Pai finalizava no derramamento daquele sangue. A mesma vontade havia querido que Lázaro apodrecesse de morte a fim de que sua ressurreição fosse motivo de glória para Si, isto é, para que a Sua existência e o Seu poder fossem ratificados por aquele milagre. A mesma situação, poderíamos inferir, serviria para a morte de Jesus, já que Deus permitiu sua podridão na gruta em que repousara seu corpo a fim de ressucitá-lo ao terceiro dia. Esse evento, o da ressurreição após a morte indubitável, fundou a fé cristã, a força de todos os mártires, a esperança de todos os convertidos. Paulo de Tarso diria que se Cristo não tivesse ressuscitado (conseqüentemente, antes disso, crucificado) tudo o que ele fazia, o que todos eles faziam, haja vista, a divulgação do Evangelho, era vão, e assim, comida e bebida liberadas, pois nenhum trabalho ou sacrifício tinha sentido. 

Tanta interpretação foi se acumulando ao redor da figura do crucificado (o cordeiro, a Páscoa), tanta imagem resgatada da tradição do povo hebreu foi atrelada àquele sofrimento (o Messias, o novo Adão), tanta metáfora brotou da cruz plantada, dos pregos semeados naquelas mãos (a religação vertical com Deus, a religião horizontal dos homens)  que as Igrejas bem que poderiam ter formato de cruz. 

Cá entre mim e vocês, não me fere tanto a imagem da cruz. Como disse, para os fins da causa GLBT a referência foi um sucesso. Teria me chocado bem mais, comovido-me às lágrimas, penetrado em meu Espírito com um calor, que nem posso explicar, se o carro alegórico tivesse desfilado com um Jesus olhando e abraçando sereno um adolescente transexual que os apóstolos quisessem afastar para não perturbar a divindade do Rabi,  cuja reação foi simplesmente uma ordem:

- Deixai vir a mim...



(Texto escrito com a ajuda de um Espírito Amigo)