terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Não há iniciados no Espiritismo, mas iniciantes



As religiões, grosso modo, herdaram uma forma de abraçar seus adeptos através de rituais que os façam se sentir incorporados na igreja. Os batismos mais diversos objetivam fazer-nos renascer em um outro eu, agora purificado de tudo o que há de fora para, enfim, sermos iniciados em seus conhecimentos esotéricos.

A coisa se arrefeceu nestes séculos de laicização, esmaecendo as cores destes rituais, tidos mais como simbólicos do que efetivamente transformadores da substância de um convertido. No Espiritismo, contudo, adotamos um outro caminho: interiorizamos e estendemos a iniciação por toda a existência.

Seguindo radicalmente um movimento singularmente cristão, o da interiorização das práticas exteriores, nossas iniciações passaram a se dar dentro da alma, na medida em que penetrássemos nos conhecimentos revelados pelos Espíritos, burilados por Kardec. Ninguém vê as águas que nos banham, não há platéia para nossos sacrifícios. Os livros canônicos estão acessíveis a todos, prestando-se à releitura diária para a conversão íntima. Não há sacerdotes prescrevendo deveres espirituais, quando muito, alguém mais experiente nos estudos que fornece perspectivas de leitura.

Por isso vejo como complicado haver um catequismo espírita que busca a uniformidade das ideias e ações. É assim, por exemplo, que um rapaz com angústias em relação a sua sexualidade, sendo espírita, vai sentar-se reservado no quarto e ler as obras da doutrina em busca das respostas para si. Quem poderá dizer taxativamente que sua interpretação está errada? Deus o dirá! Duvido que haja algum representante Dele encarnado entre nós.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Homossexualidade segundo o diálogo entre dois espíritas



Um colega me perguntou sobre a abordagem espírita do homossexual. Esse é um dos temas que não vejo explícita a explicação nas obras básicas que Kardec escreveu. E, como o assunto está cheio de lutas e mortes (!) ao seu redor, decidi, em vez de formular uma resposta teórica, procurar alguém que vive isso em nosso meio.

Essa pessoa que entrevistei participa ativamente do nosso movimento espírita. Um sorriso bem aberto habitual sempre a acolher os amigos. Vive a vida sem se perturbar sobremaneira com o que os outros pensam, prestando culto apenas às leis que palpitam em seu coração, que são, desde há muito, adocicadas pelo Espiritismo.

A conversa foi agradável. No início eu estava um tanto nervoso, porque receava usar palavras que a ofendesse e desrespeitasse o movimento contra a homofobia que cresce neste último século, entendendo que há todo um esforço intelectual da parte deles para deixar as terminologias claras. Depois fui encontrando meu lugar de conforto para falar.

Perceba que não coloquei no título a Homossexualidade segundo O ESPIRITISMO. Dizer que nossa visão é a que deve ser de todo e qualquer espírita é se exceder. A preciosidade deste diálogo está em duas almas conversando sobre assuntos da ordem da intimidade com a caridade que devemos uns para com os outros.


***

Allan Denizard: Deixa eu começar perguntando algo bem prático. Alguma vez você foi recepcionado de forma hostil em algum centro espírita que soubesse da sua opção sexual?

Entrevistado: Não. Mesmo porque eu chego e só depois as pessoas tomam conhecimento da minha ORIENTAÇÃO sexual (cuidado com isso). E também não é algo que eu precise falar, as pessoas percebem, porque eu sempre estou com meu parceiro. Só algumas pessoas é que demoram a entender isso

Allan Denizard: (Pois é, tenho que saber quais os termos mais "politicamente corretos" para tratar do assunto)

Entrevistado: Acho que porque não faz parte da realidade de algumas pessoas, elas acham que eu e meu parceiro somos só amigos ou algo assim; mesmo depois de saberem que moramos juntos, parece que a ficha não cai. (mais que politicamente correto, é científico... hehehe)

Allan Denizard: (segura o científico, a gente volta pra ele) Quando as pessoas descobrem há choques frontais ou velados?

Entrevistado: As impressões que eu percebi foram de surpresa, mas não negativa, só surpresa. Se houve reações negativas, foram veladas. Eu nunca as percebi.

Allan Denizard: Estou querendo ver até onde pode ter chegado a reação, por isso, insisto. Alguma vez houve tentativa de sabotagem da sua atuação no centro?

Entrevistado: De certa forma, houve, mas não tenho como dar certeza de que foi uma atitude homofóbica, porque foi com relação a um trabalho que eu estava desenvolvendo com um grupo de jovens trabalhadores.

Allan Denizard: Me parece mesmo complicado discernir, né, uma questão dessas. Por que a nossa percepção pode ser manchada pelo nosso estado de espírito, e se em certo dia não se está tão bem, podemos associar as causas dos insucessos de nossas atividades com fatores que, em outro dia, podem não fazer tanto sentido.

Entrevistado: Verdade, e na época houve, por parte de quem nos impediu o trabalho, uma preocupação com possíveis intervenções obsessivas* [sobre o tema obsessão acesse aqui] que estavam afetando o trabalho do grupo em questão.

Allan Denizard: Um jovem me abordou perguntando se, para ser "iniciado" no Espiritismo propúnhamos algum tipo de cura. O que você responderia para ele?

Entrevistado: Cura da homossexualidade? Me diga como médico: Homossexualidade é doença? O Espiritismo é uma doutrina científica, filosófica e religiosa. 
Se a ciência humana, materialista, comprova que a homossexualidade não é uma doença, porque os centros espíritas que professam a doutrina codificada por Kardec deveriam contrariá-la? Não se busca, em centro espírita algum, "curar" a homossexualidade, porque não é doença, tampouco opção, é apenas uma característica a mais.

Allan Denizard:
 (Sou um médico tão excêntrico. Dou tão pouco valor ao que a medicina diz sobre qualquer fato social que vale muito mais o que eu digo como eu. Mas, te falo já sobre minha resposta a fim de submeter a sua crítica.) Daí você ter-me corrigido sobre a expressão "orientação"!

Entrevistado: Justamente. Porque a homossexualidade é a orientação do desejo sexual para pessoas com a mesma identidade de gênero, ou, para facilitar, pessoas do mesmo sexo.

Allan Denizard: Você substituiu gênero por sexo como se essas palavras se equivalessem. Mas, até onde entendo, toma-se gênero pela manifestação social do que o sexo apenas sinaliza a priori, não? Sexo seria uma realidade mais biológica. À la XX ou XY.

Entrevistado: De fato. Eu utilizei uma coisa pela outra pra facilitar o entendimento, porque é tão mais complexo que isso, que eu levaria muito tempo pra explicar todas as nuances (mas posso fazê-lo se quiser)

Allan Denizard: Acho importante ter essas definições explicadas.

Entrevistado: Vou meio que parafrasear o Dr. Andrei Moreira (presidente da Associação Médico-Espírita de Minas Gerais) que publicou há poucos anos, pela AME, um livro em que trata de forma muito sóbria a questão da homossexualidade ("Homossexualidade sob a ótica do espírito imortal"). Existem quatro conceitos básicos para caracterizar todas as sexualidades existentes: Sexo biológico, identidade sexual, orientação sexual e papéis sexuais. Sexo, nessa perspectiva estrita que você falou, é a ideia de sexo biológico, porque é a definição cromossômica do seu corpo. Quem nasce homem é XY e quem nasce mulher é XX. Quando se pensa em gênero, está-se falando em identidade sexual (que eu chamei anteriormente de identidade de gênero, mas agora utilizo a nomenclatura dada por Andrei Moreira). Nesse caso, o homem (XY) pode se ver como um homem ou uma mulher; e uma mulher (XX) pode se ver como uma mulher ou um homem. É a impressão que a pessoa tem quando se olha no espelho. O detalhe é que essa identidade fica clara muito cedo, mesmo na infância. A orientação sexual é a direção do desejo e do afeto para um determinado sexo, que pode ser o do indivíduo ou o oposto. Os papéis sexuais dizem respeito ao comportamento - ativo ou passivo, masculino ou feminino -, independentemente do sexo, do gênero e da orientação sexual. Por isso que há casais heterossexuais em que se percebem características tipicamente masculinas na mulher (como ser ativa, objetiva, determinada) e características tipicamente femininas no homem (como ser passivo, sensível, afetivo). (Acrescenta que a orientação sexual é às vezes chamada de sexualidade) Com base nesses quatro conceitos básicos é que a gente pode definir a heterossexualidade, a homossexualidade, a bissexualidade e a transexualidade Por exemplo: uma pessoa com o sexo biológico masculino que se identifica como homem e tem atração por mulheres é heterossexual; mas uma pessoa com o sexo biológico feminino, que se identifica como mulher e tem a orientação do desejo para mulheres é homossexual. A coisa complica um pouco quando se fala no transexual.

Allan Denizard: Entendi. Entendo também que as classificações deixam a realidade estanque. Tentando precisar as diferenças e semelhanças, acabam sufocando o movimento da coisas. Uma categoria dessa invade a outra e no final das contas o indivíduo é o que é. O que eu queria saber é se essas literaturas te ajudaram de alguma forma a se aceitar, a se entender, a se amar e amar da forma como você acha que deve amar sem culpa?

Entrevistado: Desde muito novo eu me aceito muito bem, sem traumas, sem medos, sem culpa. A minha imersão no estudo do Espiritismo certamente ajudou nisso, tanto pela leitura das obras básicas da codificação quanto pelas obras "complementares", por assim dizer, principalmente aquelas psicografadas pelo Chico Xavier (a exemplo de "Vida e Sexo" de Emmanuel). Mas é claro que, como eu sempre tive aceitação familiar, a minha autoaceitação pode ter sido por isso facilitada.

Allan Denizard: Toda uma literatura se construiu em análise e em defesa da homossexualidade vivida sem culpa. Por que a literatura espírita lhe encantou mais?

Entrevistado: Eu já pesquisei muito sobre homossexualidade, mas, na verdade, principalmente em fontes não espíritas. Há muito pouco material na Doutrina sobre isso. Eu diria que Andrei Moreira é pioneiro em falar tão abertamente sobre o assunto. Ainda é um tabu muito grande dentro da casa espírita. As poucas pessoas espíritas que escreveram sobre o assunto, o fizeram de forma muito limitada. Mesmo a leitura de Emmanuel é complicada hoje em dia, porque ele utiliza termos que estão em desuso nessa matéria, mas que valiam na época; por isso há quem diga que "Vida e Sexo" é preconceituoso quando fala de homossexualidade.

Allan Denizard: Mas, você não achou.

Entrevistado: Não, porque entendi que era a nomenclatura vigente.

Allan Denizard: Há sempre muita briga no reino dos nomes para conseguir passar as ideias da melhor forma possível. Se lembra que têm nomes que Kardec pergunta aos Espíritos se ele pode usar em "O Livro dos Espíritos" e eles dizem que sim, já que não tem outra palavra melhor?

Entrevistado: Pois é. Porque nossas línguas terrenas são limitadas.

Allan Denizard: Kardec deve ter ficado louco com essa resposta porque ele era todo certinho com as palavras, professor de francês pra pequenos, e tal.

Entrevistado: (risos) Verdade... Talvez em Júpiter seja mais fácil de se comunicar, porque é mais a nível de pensamento, né?

Allan Denizard: Total! E nesse quesito que a gente mais briga. Na questão dos desentendimentos por palavras bobas. Vou dizer o que penso: É extremamente complicado usar o termo doença. Aprendi que muitas vezes o termo doença na medicina é uma valoração social, por vezes com vieses políticos, e alguma pitada de ciência para se dar alguma autoridade a esse ou aquele nome. Por isso que torço o nariz quando alguém quer defender sua posição porque "foi provado cientificamente". Nada é! Porque eu acredito profundamente na singularidade das coisas. A ciência serve para nos dar nortes. Ela funciona à base de padrões. Mas, sempre quando se chega no nível do indivíduo ela se esfumaça. Doenças, ao meu ver, são nomes por nós utilizados para certos tipos de padrões de comportamento do corpo humano que o fazem sofrer para os quais a gente conseguiu formular condutas a fim de tentar melhorar aquele sofrimento. Mais ou menos isso.


Entrevistado: Tô entendendo.

Allan Denizard: Visão biologicista do Allan médico.

Entrevistado: (risos)

Allan Denizard: Minha visão espírita é que somos seres em constante construção e que o que somos hoje é construto de milênios que nos antecedem. E cada momento do espírito é mais uma forma de aprendizado para aprender a melhor amar ao próximo e a Deus.

Entrevistado: De fato...

Allan Denizard: Continuando: Acho que no imaginário do preconceito social existe sempre o medo de que essa ou aquela conduta fora do padrão venha a demolir toda a moral que temos como mais certa para a vida em comunidade. Daí, acredito, as pessoas associarem a imagem do homossexual a do pervertido, destruidor de lares, perversor dos costumes. O que você tem a dizer sobre isso?

Entrevistado: É uma imagem construída de uma forma muito interessante. Acredito que a não aceitação social do homossexual tenha feito muitas pessoas homossexuais acreditarem e aceitarem que não nasceram para ter relações concretas, felizes, duradouras. Essa crença levou muitos a engajarem relacionamentos efêmeros, baseados principalmente no sexo. Além disso, como as pessoas homossexuais dificilmente tinham (ou mesmo têm) relacionamentos duradouros, isso fica visível (embora os homossexuais tenham vivido muito tempo escondidos). A sociedade faz parecer que só trai, só é promíscuo quem é homossexual. Porque os heterossexuais que traem seus cônjuges o fazem de forma velada. Mas, os homossexuais raramente tinham alguém para trair.

Allan Denizard: (Velada, mas socialmente aceita, como o eram os prostíbulos)

Entrevistado: Justamente

Allan Denizard: De certa forma, olhando por esse aspecto, a sociedade nega de tal forma os direitos ao homossexuais, que nega até o direito de ele ser promíscuo.

Entrevistado: É a impressão que eu tenho.

Allan Denizard: É como a mãe que diz que o filho homem pode "pegar todas", mas a mulher "tem que ser certinha".

Entrevistado: Isso é tão grave, Allan, que até recentemente se dizia que os homossexuais são um GRUPO DE RISCO para o HIV, sem pensar que o que existe de fato são COMPORTAMENTOS DE RISCO. E ainda há quem entenda assim.

Allan Denizard: Paradoxal [manipulador]! Ela diz que o homossexual é promíscuo e por isso mau. E assim faz com que ele caia sobre o peso desse julgamento e se culpe e queira se curar e ser modelo da moral mais sã que idealizam.

Entrevistado: Como se fosse possível tornar todo mundo igualzinho.

Allan Denizard: Pois é. Por outro lado, embora entendendo esse lado manipulador da sociedade sobre "o mais certo", acho que nós temos visões sobre o que é o mais certo da vivência de nosso amor. E vamos idealizando nossos futuros, talvez mais ou menos condicionados pela cultura, talvez mais ou menos condicionados pela educação familiar, mas também acolhidos pelo nosso coração como bom, o que deve ser respeitado e não tachado de alienado. Por isso, queria saber o que vc idealiza como um amor bom entre você e a pessoa que vc ama?

Entrevistado: Nossa relação é bastante saudável. Temos planos de oficializar judicialmente a união, adotar crianças etc. Acredito que o fato de trabalharmos juntos na seara espírita, nos dedicarmos juntos ao trabalho no bem ajuda muito a nossa relação. Tem um trechinho de uma música do Tarcísio Lima que traduz bem o que penso e sinto dessa nossa união, a letra é assim: "Você, com suavidade, é a luta que me imponho, o tom em que componho nossa posteridade, o avanço no meu sonho de amar a humanidade". Penso que a relação ideal é essa em que a gente ama tão naturalmente que esse amor se expanda pra tudo o que a gente faz.

Allan Denizard: Massa, querido! Acho que me senti contemplado. Meu objetivo era mais ver como você vivia o espiritismo, se com obstáculos ou com facilidades ou com naturalidade, sendo homossexual. Acho que deu pra ter uma ideia bacana sobre isso. Antes de postar no blog te mando nosso diálogo com uma introduçãozinha rápida que farei e correções de erros bobos de digitação. Ok?!

Entrevistado: Ok! Boa noite!



* Em outro momento desse blog eu defini obsessão dentro de uma relação de indivíduo para indivíduo. Mas, há também a utilização desse termo em se tratando de grupos. Espíritos desencarnados tentam influenciar negativamente grupos inteiros, como famílias ou empresas ou mesmo igrejas e, nesse último caso, as atividades espíritas, por vários motivos. Um deles seria a vontade que um trabalho benéfico para pessoas que eles odeiam não vingue. Se elevarmos esse conflito a aura de questões divinas, seria a disputa entre o bem e o mal. Mas, isso é muito caricatural, e os motivos que ligam grupos obsediados a obsessores variam ao infinito, havendo, por trás, sempre uma oportunidade de aprendizado para ambos. Nossa grande dificuldade no assunto de obsessão é retirar nosso olhar atávico de relação demoníaca e enxergar como relação humana, demasiadamente humana.



segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Em clima de carnaval: a carne reconciliada pelo cristianismo



Muitos nietzschianos enchem a boca para dizer que a carne foi repudiada pelo cristianismo, que é um platonismo para a plebe e, portanto, que despreza o sensível em favor do inteligível, ou que, pelo menos, considera aquele uma escada deste. 

É o conflito do sexo com o amor, senso comum. Mas, quando Jesus vem homem, e acolhe crianças nos braços (sorriso calcáreo), e chora (lágrimas de carbono), e morre (sangue de gente), e ressurge materializado (corpo espiritual); quando, enfim, toda uma doutrina surge sobre esses símbolos, a ponto de se considerar vã se não fosse por eles, não é a rejeição da carne de que se trata, mas de sua redenção, de sua reconciliação com o mundo dos espíritos. 

Ao dizer que não vinha destruir a lei, mas a cumprir, dava novos ares para as letras escritas nos pergaminhos, couros mortos. Pedia para que ela, a lei, a partir de então, se inscreve-se no coração - eterno pulsar do espírito. 

Eros é o caminho que se completa em Agape. Agape o fim para onde Eros aponta. 

Deve ser difícil para muitos espiritualistas entender que Agape seja fundamento de Eros, para sensualistas coroar Eros com Agape. Mas, um filho, e o amor que com ele vem, é tudo o mais o grande símbolo dessa fusão. 

Salve todas as famílias, e salve a alegria neste carnaval! 


sábado, 14 de fevereiro de 2015

Diabolos: um ser histórico

O catecismo da igreja católica reconhece o diabo como uma entidade devotada ao mal. Sua profissão de fé é afastar, por sedutoras artimanhas, os indivíduos comuns de Deus. Sua existência faz pensar que o mal como absoluto seria possível. Mas, como o absoluto é só Deus, o mal seria apenas uma revolta cujo fim é inevitável, se não previsível. 

Fora dessa ordem de divindades, trazendo as conseqüências dessa cosmovisão para o cotidiano, entende-se por ato diabólico o que abraça o mal como projeto. O diabólico não é qualquer mal ou erro, é ter a maldade como meta. 


Era o que víamos no nazismo, por exemplo. É o que os militantes do movimento anti-manicomial pretendem ver nos psiquiatras, os marxistas nos empresários, os sem-terra nos latifundiários, as feministas na sociedade patriarcal, os pesquisadores das ciências humanas nos cartesianos, etc. Os espíritas nos obsessores. Sempre o adversário é o maligno. 

Nunca é tão simples assim. Essa visão é suspeita porque extremista. Por trás de cada ação histórica há seus condicionantes que servem de atenuantes e nos dispensam do julgamento ácido, embora não de qualquer julgamento. O direito de buscar a justiça permanece ileso, mas não a vingança, não o ódio. E é o que constantemente vemos nessas intrigas de opostos. 

Se começássemos ressignificando a mitologia que origina toda essa forma de pensar, a do Satanás, poderíamos ter mais lucidez nessas variantes. Começo então o exercício dessa revisão sobre o mal personificado:

Não há um ser devotado ao mal. Todos somos sujeitos ao erro. As condições históricas delineiam as necessidades da época, esclarecem a ignorância de então. O tempo muda e os pensamentos com ele. Cedo ou tarde, com mais ou menos lutas, mas sempre com trabalho incessante, o diabolos em nós deixa de fazer sentido e desaparece de nosso espírito feito órgão vestigial. Essa transição pode ser mais ou menos cruenta, dependerá das virtudes que tenhamos podido angariar. 

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Meu filho quer ser católico

Depois de ter começado a expor a sabedoria dos ateus, fiquei me perguntando por que não a dos crentes. Como não tenho nenhum amigo próximo que esteja em conflito com sua fé, decidi, para ficar mais intensa minha fala, imaginar o que eu diria se meu filho decidisse não seguir minha religião.

No marcador Outros Credos vou postar minhas falas para ele.



- Pai, decidi, quero ser católico!

O catolicismo, filho, é uma doutrina muito bela. Demorei para descobrir isso. Quem me ajudou foi sua mãe. Queria saber como ela entendia Deus. 

Bem, a primeira coisa que posso dizer é que, embora o catolicismo tenha um forte braço racional, enxerga que Deus deve ser mais sentido que entendido, mais aceito que estudado. E isso não é ruim... Eu também acredito nisso. É porque Deus é superior a nossa lógica que não O podemos acessar por ela, mas pela humildade, mas pela virtude, mas pela oração. 

A novidade do catolicismo é eles terem visto Deus em Jesus. Esse moço andou pela terra, acalmava feras com o olhar, consolava corações com a presença, curava doentes graves com o toque, sentava em cima de um pequeno monte e falava de Deus e de Sua morada para o povo semeado pelos espaços. De fato, era, no mínimo, um deus.

Os romanos, um povo que morava junto do dele, não tinha problema de ver isso. Para eles os deuses poderiam descer dos céus e andar feito gente entre as gentes. Mas, para os judeus, que era o povo de Jesus, dizer isso era complicado, um escândalo. Não há deuses, mas um só Deus. A carne humana não O agüentaria. Todavia, alguns discípulos de Jesus compraram essa briga. As evidências eram fortes demais. Tudo o que havia nas antigas escrituras sinalizando a vinda do libertador deles (os judeus eram escravos do povo romano, e já vinham de outros ciclos de escravidão) se concretizava em Jesus. Parece que não imaginavam que ele viria com milagres, também. E isso deve ter ferido os olhos a tal ponto de deixar exposto o coração e ter feito concluir, enfim, que aquele rapazinho não era apenas o libertador do povo, mas o próprio Deus que, compadecido e cheio de amor, havia encarnado em um homem para a salvação de muitos. 

Pode-se inventar mil raciocínios para defender a mensagem do amor, mas a grandeza do catolicismo repousa e se movimenta integralmente na passagem de Jesus pela Terra (que foi amor), na sua morte e espetacular ressurreição (pelo amor), bem como na fidelidade de seus discípulos estarem há dois mil anos tentando seguir tudo o que ele ensinou (por amor, para o amor) - ele: o homem-Deus (amor-Amor). A força dessa crença não dorme em qualquer livro de filosofia, mas acorda e resplandece na divindade de Jesus. 

Sobre a pergunta mais destruidora para qualquer religião monoteísta: "Se Deus existe, de onde vem o mal?". Os católicos respondem que nasce com o homem desobediente à Deus e que morre com o homem que soube obedecer. Segui-lo, ele que é caminho, promove a salvação do mal. 

Mas, isso não responde a pergunta: "Se Deus existe, de onde vem o mal?". Porque a força dessa pergunta é em virtude da concepção de Deus que não comporta o mal. Jesus não seria uma resposta, mas um alívio (e, ao final de sua vida, foi uma vítima desse mal). Se o mal nasce do homem, e o homem nasce de Deus, o mal nasce de Deus - eis o silogismo do ateu. 

A verdade é que os cristãos (os católicos entre eles) não se importam tanto com essa pergunta, mas com o alívio que Jesus é. Nunca a precisaram responder para querer ardentemente acabar com o mal da Terra, para trabalhar pelo fim de todo o mal. A ação mais valiosa que a razão. A fé mais do que a procura. Porque o amor basta: a falta dele antes, a presença dele com Jesus.