quinta-feira, 22 de maio de 2014

À prepotência

Aí estás, prepotência! Sabes que não te deixo velada por muito tempo sob pena de que cresças em mim. Quando vens com teu rebuliço me fazendo cócegas, me levando às náuseas, te vomito. É do que meu coração se encheu, não? Pra fora! Como poderei me reconciliar contigo diante do altar da criação se te largo escondida aqui dentro. Não! Mostro-te ao sol como quem eleva um filho. Não é um ritual de sacrifício, mas de integração. O mesmo contigo, orgulho, e contigo, vaidade, e contigo também, soberba. Não fique ninguém com ciúmes!

sábado, 10 de maio de 2014

Noé, o filme, e os eternos conflitos do dilúvio em nós - Parte III



Perdoem-me se não consigo terminar a análise deste filme apenas nas didáticas três partes. Há coisa demais para se dizer, e não quero lhes cansar em uma só postagem. Abordarei hoje sobre estes dois pontos: a obediência como signo de perfeição e os anjos decaídos que não são satânicos.


A obediência como signo de perfeição. Se começarmos percebendo que os animais e as plantas são mais obedientes que os homens, ou pior (melhor?), são completamente obedientes aos desígnios de Deus, o que os torna perfeitos no sentido grego, isto é, completos, acabados, estaremos automaticamente nos remetendo ao mito de Prometeu sobre a criação dos seres. Epimeteu, o titã certinho, fez com que os seres vivos não-humanos tivessem atributos que os deixassem em equilíbrio perfeito com o cosmos. Prometeu, o irmão espertinho de Epimeteu, vendo que o seres humanos foram os pobrezinhos que ficaram sem atributos, a bem dizer, nus, decidiu ir lá em cima do monte dos deuses e roubar o fogo da criação para dar de presente aos coitadinhos pelados. O que aconteceu? Os homens ficaram com poder em excesso, e como não tinham atributos pré-definidos por nenhuma divindade, começaram a ultrapassar todos os limites. Qual o signo de perfeição de um ser? A obediência aos limites do cosmo em que você se enquadra. Troque o cosmo, novamente, pela palavra Deus e você terá a visão hebraica, só que um pouco mais paternal, já que Deus é um paizão que quer, na verdade, ensinar aos filhos a ser assim.


Os anjos decaídos que não são satânicos. Dizem que o Satanás era um dos mais belos anjos que vivia ao lado de Deus, mas quis ser mais que o Criador. Este, então, lhe amputou a beleza e o expulsou para o quinto dos infernos. Aí, aquele fez seu quartel general e passou a ter um só propósito na vida: impedir que os homens alcançassem a graça de viver em harmonia com o Criador. Como fazer isso? Seduzindo-lhes à desobediência.


Todavia, o filme mostra um conjunto de anjos que caíram por outro motivo: quiseram ajudar os homens que estavam se desvrituando. Também desobedeceram a Deus - nada escapa dessa temática - mesmo que por uma causa nobre, aos olhos de nós humanos. O interessante é que essa história, aparentemente inventada pelo filme, não flutua no nada das mitologias. Vemos que ela é um eco das história gregas, talvez de outras mais com as quais não tenho tanta intimidade.


Lembram-se que eu havia falado de uma geracão de homens de ouro, harmonizados no princípio de tudo com a natureza cirunjacente? Pois estes homens, nos narram as lendas, depois de terem morrido da forma mais serena que se possa imaginar, se tornaram Espíritos tutelares dos homens de bronze, tentando os reconduzir para o caminho da sabedoria. Eram os famosos daimons, que deram origem à palavra demônios em latim. Entre os gregos, esse vocábulo não tinha conotação negativa a priori, mas depois nossa cristandade medieval quis entender que sim. Ficou na nossa mente que seres incorpóreos que vagam entre os homens só podem ser almas penadas pedindo reza ou servos de Satanás espalhando o mal.


A princípio, pode-se ter pena dos simpáticos anjos decaídos que ficaram enclausurados em corpos de pedras, eles que eram luzes livres voando em torno da terra, ao lado do Criador. Contudo, perceba que há uma reconciliação ao final. Da linhagem de Set, o que não desobedeceu o pai, sai um predestinado para salvar a humanidade, que se manteve em linha reta até o fim, com quem os anjos se uniram ao enxergar nele a marca original de Deus, sendo ele, através daquela conduta nobre de equilíbrio com a natureza, o caminho da libertação, ou o que trilha o caminho certo.


É como se o Criador ficasse agindo constantemente sobre a criação que se desvirtua, em seu comportamento indócil, sulcando caminhos que a devolva para os rumos certos. É a perfeita imagem de um agricultor que cuida da sua plantação. Lembre-se que estamos falando da visão de mundo, e, portanto, de Deus, de um povo agropastoril. O Pai lhes deu liberdade para escolher entre o certo e o errado. Eles escolhem frequentemente o errado. Deus age constantemente para fazê-los retornar ao certo.


Eis a grande diferença da relação entre as divindades gregas e o Deus hebraico. Aquelas estão pouco se importando se os homens chegam ou não à sabedoria. Se um ou outro alcança, bom para ele, terá a recompensa automática da serenidade, às vezes concedida por Zeus, como no caso de Ulisses e Penélope. O resto merecerá o reino das sombras pelo próprio curso natural de sua burrice. O Deus hebraico gerou seus filhos para que TODOS fossem sábios. Age constantemente entre eles para este fim. Se conseguem, há imensa festa no céu. Se não… parece que vão sofrer muito no inferno. Visão esta que não é compartilhada totalmente pelo Espiritismo.

É triste que se encontre essa desistência de Deus nessa mitologia que tinha tudo para ser uma das mais belas. Esse Deus que provoca dilúvios e se cansa de seus filhos maus que Ele mesmo gerou... tem alguma coisa que não bate aí! É essa incongruência que o Espiritismo vai sanar com a teoria da reencarnação. Mas isso, são águas que ainda estão para rolar.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Noé, o filme, e os eternos conflitos do dilúvio em nós - Parte II



Pai e filho estão sob as barbas brancas, alvas nuvens de Deus. O mais velho vai passar ao mais moço o legado de ser homem. O que é ser homem para você?

Essa pergunta caiu na minha primeira prova de psicologia médica na faculdade. Não me fui bem na resposta porque o professor perguntava “segundo os conceitos da psicodinâmica”. E eu respondi, brilhantemente, segundo os conceitos da minha vida. Antes que me chamem de pedante, me respondam: Quem pode falar mais brilhantemente sobre minha vida se não eu?

A pergunta, rigorosamente, era assim:

- Segundo a psicodinâmica, você é filho ou homem? Explique.

Esquecendo a psicodinâmica e as instâncias da mente, o que você responderia?

A definição de homem, isto é, de maturidade espiritual. Os hebreus, consequentemente, os judeus, dão um valor sobrenatural para a paternidade e a gestão da família, célula-máter da comunidade. Colocar em risco essas bases é fazer estremecer todo o povo. Muitos dizem que a novidade trazida por Jesus é a de tratar Deus como Pai (Abba). Não é verdade. Deus-Pai está em toda a tradição. A forma como se encara esse Pai é que difere. Freud, que era judeu, parece ter entendido bem isso, dando importância fundamental a relação edipiana - trágica! - de como acontece essa relação e sua influência na formação da personalidade do filho. Perceba que os grandes guias da comunidade hebraica surgem da ordem que o Deus-Pai dá ao seu filho mais velho, enviando-o aos irmãos mais moços. Entenda mais velho em um sentido espiritual, isto é, aquele que “cresceu" o suficiente para entender sua vontade.

Aí está a grande chave para entender porque Noé pode ser considerado um homem. Ora, porque obedece a vontade do Pai. Eis porque ele diz para o filho rebelde, na cena em que começa a chover para o dilúvio, que, por mais doloroso que pareça, ele está a lhe ensinar a ser homem, fazendo não o que o desejo pede, mas o que é necessário fazer: o dever. Aliás, isso é o que representa, no sentido negativo, o mito de Adão e Eva. Um filho que passa a sofrer as conseqüências de ter ouvido mais a voz da sedução (serpente e Eva) do que a de Deus.

Retrógrado? Se for, essa visão de mundo não está só. Ouvir a voz de Deus e obedecê-la, entre os  filósofos estóicos da Grécia, era perfeitamente traduzível por aceitar o seu lugar no cosmos. Aqui, mais perto, entre os iluministas, seria ouvir a voz da razão. Perder o juízo é sinal de loucura, de deixar-se dominar pelas emoções, de ser infantil e não homem. A gente muda o nome de Deus por Cosmo, Razão, Verdade. E para cada um destes pensamentos, uma forma de maturidade espiritual se anuncia.

A grande diferença entre o Deus judaico-cristão e estas outras formas de Deus engendradas por estas outras culturas é a abertura para o amor. Nem o Cosmo, nem a Razão, muito menos a Verdade (no que ela tem de estritamente racional) são capazes de nos amar. Não faz parte de seus atributos. Mas, Deus, este que foi espalhado por Jesus, resgatando um tema levítico, este é pleno de amor, ou ainda, é pleno amor. É a superação do conflito "dever x amor” que dará nova vida para tudo na Terra redimida pós-diluviana. Ou melhor, como diria Jesus, foi o amor, e não a água, que cobriu todos os pecados.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Noé, o filme, e os eternos conflitos do dilúvio em nós - Parte I



Não vou me ater aqui à análise bíblica da história de Noé segundo o original. Vou escarafunchar a história do cinema e suas conexões com grandes temas filosóficos. Vamos dividi-la em alguns itens:

O dilúvio não é um privilégio dos hebreus. Você deve saber que as grandes civilizações do mundo antigo tendiam a se instalar e crescer próximo a um grande rio, dentro de um vale. Quando havia época de muita chuva, aquele transbordava e provacava dilúvios trágicos. A relação do homem com Deus era questionada e elaborada não só pelos sacerdotes, mas também pelos grandes contadores de história, que, frequentemente, se valiam dos recursos de consulta aos deuses (ou os deuses se revelavam espontaneamente para eles) para melhor narrar o fato, a fim de ficar claro o motivo de tanto sofrimento e a solução para o resgate, o que é uma espécie de prevenção para a tragédia não se repetir. 

É comum, entre os antigos, a visão de mundo que conecta os grandes males à relação do homem com as divindades, já que só elas poderiam provocar tão vultosas calamidades. Há grandes lendas diluvianas entre os Sumérios (Gilgamesh, o grande rei, em busca de imortalidade, procura Utanapishtim, aquele que sobreviveu ao dilúvio), entre os indianos (Brama se transforma em peixe e vai falar com o monarca Vaivaswata sobre o dilúvio próximo), entre os gregos (Deucalião e Pirra, únicos salvos por Zeus - nem mesmo os animais se safaram).  

No filme, vejo muitos traços gregos. Os homens da idade de bronze, segundo a mitologia desse povo, eram uma geração posterior aos da idade de ouro que, diferentemente destes últimos, viviam em conflitos entre si e com o cosmos. Tenderiam a se destruir sem precisar da ajuda divina se não houvessem atiçado Zeus contra si. Perceba que os homens da descendência de Caim são artesãos do ferro e muito belicosos. Adão e Eva, os seres que viviam em harmonia com o paraíso, são representados no filme por entidades de pele dourada!

A história do dilúvio fala sobre reconciliação: do sensível com o inteligível, do homem com Deus. A geração dos homens inicia em completa harmonia com o meio e com Deus, o Criador. A desobediência é o ato primeiro de ruptura. Este ato é o que perpetua e multiplica a separação entre o homem e a natureza. É exatamente o que não encontramos com a geração de Set, particularmente em Noé. Logo de início, encontramo-lo colhendo espécimes de vida que, bravamente, ainda sobrevivem na terra devastada, bem como se compadecendo da morte de um animal caçado pelos filhos de Caim.

Entre os gregos, Aristóteles representou uma das primeiras grandes escolas de pensamento que buscou reconciliar o inteligível com o sensível, as ciências da natureza com as ciências do espírito. Não à toa, suas lições de biologia buscavam enxergar a grandeza do cosmos na engenhosidade dos animais. Por onde chegar à identidade com o cosmos? Não é pela libertação das armadilhas do sensível, mas pela descoberta intelectual das maravilhas do sensível em sua forma. É na forma que está encarnada a ideia nobre, mais que isso, ideia e forma se misturam indistinguivelmente.

A solução dos gregos em seu período filosófico rumou para essa resposta. E a dos hebreus? Seguir a vontade do Criador. Se, desde o início dos tempos, a humanidade tivesse se mantido obediente ao Criador, mal algum teria caído sobre ela. Veja que a estrutura dessa resposta está em perfeita conformidade com a estrutura social dos hebreus, bem como a de Aristóteles com a democracia Ateniense. Na Grécia antiga, era importante que o homem atingisse a maioridade de se guiar e ajudar a guiar a Pólis através do exercício da própria razão em fazendo sua cidade ser um reflexo do Cosmos, ou, em Aristóteles, não um reflexo, mas uma identidade. Entre os hebreus, sociedade eminentemente patriarcal, a obediência à vontade do Pai era o valor por excelência.

O mito estrutura a tradição de aprendizados em cada sociedade. Quando fazemos algo errado à revelia das orientações de nossos pais, o que eles dizem? "Viu, menino, não te falei?". Seguir as orientações do mais velho e experiente elemento da família é o grande ideal de sabedoria. E a sabedoria, em muitas culturas, sempre foi uma espécie de reconciliação do homem com a estrutura que lhe transcende e lhe contém.

Já me estendi demais. Vou deixar para próximos posts as outras questões que encontrei nessa história: a definição de homem, isto é, de maturidade espiritual, a obediência perfeita das plantas e dos bichos em contraste com os excessos dos filhos de Caim, os anjos decaídos por razões (ao nosso ver) mais nobres, o caminho da libertação, a voz de Deus que fala segundo a capacidade de apreensão de cada homem, o Deus de fora e o Deus de dentro, e, por fim, o caminho do amor para a verdadeira salvação (ou, é preciso destruir para salvar?).

Aproveite para assistir ao filme, porque vou revelar o final nos próximos posts. E quem for querendo encontrar a bíblia intocável lá, acho melhor mudar de ideia, se não a decepção pode lhe afogar.