sábado, 25 de janeiro de 2014

Sobre o que define a existência das coisas



Sobre o rascunho que escrevi acerca de uma possível história do que consideramos existente na postagem anterior, um amigo querido me responde:

“Acrescentaria apenas que, para o paradigma contemporâneo dominante, não se trata apenas de ‘palpar’, mas de ser matematicamente demonstrável. Muito daquilo que consideramos hoje uma realidade, cientificamente falando, não passa do resultado de bem concatenados e amplamente revisados cálculos, cujos resultados não pareçam dar margem a dúvidas. Assim foi com a existência de Netuno, a seu tempo, dos buracos negros, do bóson de Higgs e muitas outras coisas. É claro que uma boa palpada, ainda que pelo menos visual, ajuda a conferir status de existência para qualquer coisa. Lamentavelmente, a beleza e o êxtase causados já não integram mesmo os critérios de concretude de algo. Menos dependência de envolvimento e de emotividade é sinônimo de ‘mais verdade’...”

Eu havia pensado na matemática – relutei em colocá-la. Filosoficamente, ela, enquanto procedimento que confere status de existência a qualquer ser, vem exercendo essa função desde Pitágoras, que já veio dos egípcios, que tomaram isso sei lá de onde. Ali, a coisa era tão séria, que os números possuíam aura divina. O cosmos era lógico. O logos era o cosmos. Não tardaria muito para João pegar essa noção toda e colocar no começo de seu evangelho que o Logos era Deus, que estava com Deus e que veio para Terra, recebendo o nome de Jesus.

A matematização da vida para engendrar sua compreensão tem uma vasta herança filosófica. Descartes escreverá em seu “Discurso sobre o Método”:

Enquanto, ao voltar a examinar a ideia que eu tinha de um Ser perfeito, verificava que a existência estava aí inclusa, da mesma maneira que na de um triângulo está incluso serem seus três ângulos iguais a dois retos, ou na de uma esfera serem todas as suas partes igualmente distantes do seu centro, ou ainda mais evidentemente; e que, por conseguinte, é pelo menos tão certo que Deus, que é esse Ser perfeito, é ou existe quanto seria qualquer demonstração de geometria.”

Spinoza, seu discípulo infiel, intitulará seu livro maior de: “Ética demonstrada à maneira dos Geômetras”. Leibniz se valerá do seu cálculo integral para defender a justiça de Deus no mundo, a Teodicéia.

A própria noção de Leis Naturais dos positivistas nos faz sentir o cheiro forte de uma certeza matemática que nos permite não apenas entender o presente, mas prever o futuro, o que é, novamente, um universo pitagórico da função divina (divinatória!) do número.

Mesmo Marx, esse semi-deus do pessoal das ciências sociais, resvalou nesse pensamento ao considerar seu socialismo definitivamente científico ao ponto de poder prever o colapso inevitável do capitalismo a partir do encontro de sua lei por vias, também, matemáticas. Marx utilizou a economia – não apenas a história, a sociologia e a filosofia – no seu tratado.

O fato é que, apesar de tudo, os empiristas dominam esse campo da existência: o de falar sobre a real existência das coisas. Não é a toa que Kant dirá que Hume o fez despertar de seu sono dogmático. Criticará, então, de uma forma inigualável – apenas terá herdeiros dessa crítica – tudo o que se apoia nesse caminho de provar a existência a partir de conceitos pretensamente matemáticos sem fundamentos sensíveis correspondentes.


Mas, a matemática, para nós espiritualistas, amigo João, é a grande aliada. Um pensamento que é tão forte a ponto de dispensar a matéria para nos fazer acreditar na existência da coisa, o nome disso é espírito – ou quase. Não me admira o conhecimento da astronomia se valer desse expediente. Ela também é herdeira de Pitágoras. Das ciências, é a que mais nos conduz a enxergar Deus apesar dos homens. Mas, particularmente, amigo, minha paixão nasce e renasce em tentar enxergar, nos homens, Deus, apesar de serem tão não-matemáticos!

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